quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Foi ele, foi ele, o meu não fez nada!

O inacreditável desta e de histórias passadas é boa parte dos comentários feitos aqui - nos comentários das matérias publicadas pelo Estadão, mas não só.

Aparece a criançada toda manchada de chocolate. Você pergunta se mexeram nos brigadeiros antes da festa. Ninguém mexeu. Então, onde foram parar os brigadeiros. Silêncio. Vem as mães dos meninos e gritam defendendo seus filhos lambuzados. Meu filho não faz isto! O único que aparece sem manchas, aquele que diz que nunca fez nada e que a culpa é sempre dos outros, deixou o fogo ligado, queimou a panela, quase toca fogo no apartamento e mata todo mundo, é defendido pelos pais, irmãos e primos porque, diz, não entrou no brigadeiro, mesmo com a toalha da pia da cozinha estando jogada no chão ensopada e pisoteada, e tendo as mãos úmidas e os pés lavadinhos.

A gritaria está armada. Os pais quase saem no tapa. O que menos interessa neste momento é ter uma festa que comemore o futuro feliz do aniversariante, de todas as crianças, de todas as famílias, a união de todos. A única coisa que interessa é cada um defender com unhas e dentes seus filhos da acusação dita injusta. Ninguém tocou nos brigadeiros, afinal o que provam as manchas, o que prova todo brigadeiro ter desaparecido, as paredes sujas de chocolate? Enquanto a guerra está armada, a tropa do que destruiu a cozinha foge discretamente para não arcar com os prejuízos deixados. No elevador os pais se vangloriam que o filho foi o único que não tinha manchas, um exemplo para os outros.

Como está num dos comentários, se fizer uma série do Netflix com o enredo deste Brasil, será um fracasso porque não será crível, vão dizer "os carinhas exageraram".

Um dos maiores problemas em nossas escolas é a quantidade de pais de alunos que entram furiosos gritando "eu pago, vocês não tem o direito de fazer isto com meu filho".

Em outras palavras, não interessa o Brasil, a nação, seu povo, nosso futuro. Interessa defender com unhas e dentes suas posições, mesmo com um forte cheiro de queimado se espalhando por todos lados.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Ciclovia Faria Lima. Só ela virou uma bagunça?



No meio de 4 amigos, ex ciclistas profissionais com respeitáveis currículos, inclusive internacionais, ouvi deles sobre o medo, ou pavor, se pedalar nas ciclovias de São Paulo. "Prefiro peladar no meio dos carros, que é muito mais seguro. Este pessoal que pedala na ciclovia não faz ideia do que faz, além de serem grosseiros" soltou um deles seguido da concordância dos outros, e rios todos. Não dou nomes aqui, mas digo que são reconhecidos e bem respeitados fora do Brasil, venceram provas e campeonatos do calendário internacional. Aqui são desconhecidos, por isto não servem de exemplo, não podem deixar um legado social que gostariam. Aos que os ouvem, ensinam regras importantissimas de tecnica, convivência, condução e respeito ao próximo, básico para qualquer ciclista.

Como está num dos comentários feitos aqui, falta educação, com certeza. Falta não só educação, a básica, aliás, a básica do básico, mas falta um minimo de civilidade, ou pior, civilidade.

A introdução da bicicleta ganhou importância mundo afora, não só pela questão da mobilidade, mas muito mais pelas transformações individuais, sociais e na qualidade de vida urbana que sua presença e uso trouxe e traz. Diminuição da violência, melhora da qualidade de vida do usuário, com acréscimo de 7 anos de vida, redução dos custos com saúde pública, melhora da micro economia local, melhora dos indices escolares dos filhos, melhora da produção no trabalho, melhora da percepção ambiental com consequente melhora do ambiente em geral, melhora do verde e qualidade da água, etc..., é o que mostram pesquisas internacionais sobre o ocorrido mundo afora.

Mesmo num centro urbano tão saturado e confuso como NYC, a introdução bem realizada da bicicleta (no cidade sustentável de Janette Sadik Khan) trouxe e segue trazendo benefícios muito além da mobilidade. Ganharam todos, ganhou toda população, ganhou a economia, ganhou a cidade, ganhou os Estados Unidos. Bicicleta bem introduzida é um ganha ganha, o que já não resta dúvidas desde 1972 quando Amsterdam e outras cidades decidiram implantá-la como parte de um extenso programa de recuperação social e urbana.

O problema que temos aqui é que Brasileiro não faz ideia do que é ou deveria ser uma cidade. Nossa noção de civilidade para no selfie, fenômeno social que nos tornamos campeões mundiais. Salve-se quem puder. Eu tenho direito. "Eu tenho direito" vem sendo discurso recorrente, se pode dizer doutrinação. Esperar o que dos usuários das ciclovias implantadas, incluindo aí os que treinam na Ciclovia do Rio Pinheiros que não fazem ideia sequer do que é etiqueta esportiva?

No geral, como é de se esperar, "você sabe com quem está falando?". Este é nosso problema.

Perdemos uma oportunidade de ouro com a forma como a bicicleta foi e continua sendo estimulada.  Não é "a bicicleta, pela bicicleta, para a bicicleta" como foi (im)posto, mas sobre a cidade, sobre os cidadãos e no que a bicicleta pode auxiliar na mudança para uma melhora geral, para tudo, para todos, sem exceção.

Sim, "quantos km a mais melhor" foi ideologia, populismo eleitoral. Aliás não foi exceção, mas atendeu a regra geral de como se programa este país. Jogou-se dinheiro público no lixo com kms e kms de segregações que praticamente ninguém usa. Os próprios envolvidos no processo confessam que foram uns 25%. Hoje tem quem fale em bem mais.

Não só daria, como deveria ter sido feito diferente. Importantes ONGs internacionais estiveram aqui trazendo expertise sobre como introduzir a bicicleta da melhor forma. Esforço inútil. "Nós somos diferentes e fazemos do nosso jeito". O desastre está aí. Transformar uma cidade não se faz com libertinagem imobiliária, de transporte e mobilidade, como a que estamos vivendo. A experiência dos outros é preciosa, mas quem de nós se interessa? "Eu quero o meu. Eu tenho direito". E... Selfie!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Corporativismo perverso geral e irrestrito

A melhor definição sobre o Brasil é 'corporativo'. A melhor definição sobre quem somos está no "Você sabe com quem está falando?", aplicável a todos, de todas camadas sociais, sem exceção.  Por que não mudar o lema da  bandeira brasileira, de Ordem e Progresso para Você sabe com quem está falando?, seria mais honesto.

Corporativismo perverso geral e irrestrito, sempre fomos ou nos tornamos? Corporativismo perverso geral e irrestrito estamos, e não há qualquer sinal de interesse para uma mudança. Leia os jornais. "Eu não sou assim!", dirão indignados a esta minha afirmação. Numa sociedade tão corporativa, se não for corporativo dificilmente se sobrevive, social e ou financeiramente.

Virá o discurso que corporativismo e prepotência é coisa da elite, qualquer que seja, a que manda ou do dinheiro. Besteira pura. Nas favelas ou você cala a boca ou vai se dar muito mal; exatamente como na elite. Corporativismo de sobrevivência.  Pobre não é imbecil, sabe as regras do jogo, ou você imagina que na cabeça deles o celular comprado de um garoto que custa tão baratinho veio de onde? Celular e outras muitas coisas. Aliás, sejamos honestos, a mesma regra de compra se aplica a todas camadas sociais.  

Sabe com quem está falando? É discurso só dos poderosos? Quando o pedreiro, encanador, funcionário qualquer simplesmente some, e você não pode fazer nada, e não faz, é o que? Ele sabe que está protegido por uma forte rede corporativa, copiada com inteligência e qualidade daqueles que cantaram de galo no passado. 

Os três Poderes deste país tem certeza que atos absurdos não terão consequência. Nós calamos. Nós, a mortadela, os que estão entre os religiosos, crentes nos dois milagreiros que estão aí. Calamos por telhado de vidro, ou medo do corporativismo? Ou os dois juntos?

E aí vem a pergunta: que país você quer? Melhor, como nós brasileiros perdemos a noção do que é um país, o que é um macro coletivo, pior, o que ou quem é o outro, a pergunta correta é "Que vida você quer?". Selfie! 

Um corporativismo suicida só existe quando o medo da transformação impera. Melhor, o medo de agir, de se posicionar, de pensar. "Se eu for diferente fico sozinho". Que medão!

Todo ato tem uma consequência. O que acontece quando ninguém entende que todo ato tem consequência? O que acontece quando todos acreditam piamente que tem poder, que são o poder, que são a autoridade?

Muito obrigado Camila Farani pelo ótimo texto e pela coragem. 



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sutiãs como exemplo. Nós, os consumidores, e funcionalidade, aparência e manufatura.

Fazer simples, fazer bem, fazer barato. Se é o que todo mundo quer, por que continuar comprando o que é cheio de detalhes inúteis, mal feito e caro?


"Why everything you buy is worse now?" - Por que tudo que você compra agora é pior (do que era antes)?.  É sobre sutiã, mas poderia ser sobre tudo, não só sobre todos produtos industrializados, mas também sobre serviços, e porque não dizer qualidade de pensamento e qualidade de vida. Não, não desvie sua atenção, não aparecem peitos, seios maravilhosos, modelos de beleza, tentação. 
 
Falando em tentação e o que parece mas não é, lá vai história. A saber: comecei a entender o que são ilusões criadas para os consumidores, as mais perversas (?!?), quando estava no Rio de Janeiro, na área de concentração da Marques de Sapucaí, ajudando o pessoal que ia desfilar vestir suas fantasias. Parei meu trabalho quando vi uma tentação, um mulherão linda de morrer que quando aparecia na TV eu me arrepiava todo. Estava sendo preparada para subir no carro alegórico. Fui até lá ver meu sonho de consumo (?) de perto. Imagem, sonho, realidade. A imagem que tinha já contei. O sonho deixo para lá. Agora vamos à realidade: no tete a tete, ou pelo menos na distância que me permitiram chegar, perto o suficiente, a realidade se fez: umas duas meia-calças para formatar as pernas e o culote que na TV não se via; um sutiã bem armado para manter no lugar aqueles seios fartos, lindos, que tentavam na pequena tela da TV (das velhas, de tubo); não sei quanta maquiagem, a carnavalesca, mais a disfarçante, verdadeira camuflagem. Fiquei parado vendo o guincho elevar aos céus meus sonhos, que ali, imediatamente, morte súbita, desvaneciam nos fatos reais. Simples, bem normal. Na TV, o bom caminho para a paixão, a mais enganosa possível. 
Propaganda bem feita é a alma do negócio, e das tentações também, quanto mais pecaminosa, melhor. 

Começando pela peça principal deste sistema que temos hoje, ou seja, o comprador, o consumidor, ou nós, eu incluído. Nós compramos, simples assim, e nesta bagunça que vivemos pode-se dizer 'ponto final'. Consumimos, aos borbotões, desnecessariamente, tudo. "Viva a tentação!" Prova irrefutável? Seu lixo, o reciclável mais o outro, e a frenquência que você tem que descartar os sacos cheios.

Não era assim, não consumíamos tanto, até porque as opções eram muito menores. Infelizmente não consigo encontrar as fotos comparativas que foram publicadas pela revista Life nas décadas de 60, 70 e 80, onde faziam a comparação entre o então 'glorioso' consumo de uma família de classe média americana com outras, americanas e mais pobres ou de outros países. O consumo já era alto, mas não esta barbaridade que temos hoje em dia. 
Como são estas fotos comparativas? Simples: a família sorrindo atrás de tudo que eles consumiam de alimentos por mês! Era coisa paca!

Fiz uma brincadeira sobre desperdício, uma experiência boba: quis saber quantos palitos de fósforo consigueria riscar e acender numa única caixa. Cada caixa tem em média 40 palitos. Numa única caixa consigo riscar e acender algo em torno de 8 caixas de palitos, ou seja, é possível riscar e acender 320 palitos por caixa. A questão é que a cada 40 acendidos jogamos tudo no lixo, mesmo com muito mais espaço para riscar outros fósforos. Detalhe, a gaveta, onde ficam os palitos de fósforo, é feita de papel, portanto reciclável,  mas vai para o lixo junto. Parece brincadeira, uma tolice, afinal o que significa uma caixa de fósforo para o meio ambiente e o nosso bem estar? Uma pouco significa, mas as milhões de caixas de fósforo vendidas e usadas, mais sua produção, isto sim é um problema ambiental.

Voltemos ao sutiã em questão descrito no Youtube. Ela, a narradora, faz uma comparação entre os velhos e novos suitãs, identicos em forma e aparência, mas não em qualidade e durabilidade. Os novos tem uma qualidade e durabilidade bem menor. 
Sutiã no lixo só me incomoda pela questão ambiental. De resto, é um prazer.

Como funciona o processo industrial? Sobre três bases: funcionalidade, aparência e manufatura, e se tudo estiver bem, direto para as vendas, para o consumidor.
A questão é que no processo de produção a manufatura ganhou importância, a aparência mais ou menos se manteve, e funcionalidade / durabilidade diminuiu de importância. Razão? Custos de produção, concorrência e principalmente aceitação dos consumidores.

Minha mãe sempre dizia "Já viu coisa barata ser boa?" Pura verdade. O que dura custa menos.
 
A questão é que todos nós aceitamos o que se chama de obsolência programada. Deixei linkado porque vale a pena ler a respeito. As 'coisa d'hoje in'dia são feita pr'acabá", e acabando, comprar uma nova, e outra, e outra, e outra. A novidade, de uns tempos para cá, é que ninguém mais se pergunta se dá para consertar e continuar usando. Perguntas como estas perderam o sentido, até porque tudo conspira para não se consertar ou reaproveitar. No caso do sutiã, e da alça solta, onde encontrar um armarinho para comprar agulha e linha? Linha branca, um outro exemplo bem caseiro, quebrou, a maioria simplesmente não tem conserto, nem nas autorizadas; ou o conserto custa mais que a maquina inteira. Pior, mesmo alguém habil no gambiarra não consegue consertar porque as peças não são padrão. 
Enfim, tem data para acabar, quebrar, descartar, jogar no lixo, ou a lógica da 'obsolência programada'. 

Tudo deveria ser feito para o nosso bem e não para o bem da indústria, mas mudar o que está aí é muito mais complexo do que se possa imaginar.

Muito do progresso social que tivemos no passado se deve à obsolência programada. Simples: gerar e manter empregos. Japão saiu do buraco copiando produtos, oferencendo preços mais baixos, mas com menor durabilidade. China cresceu assim. Foram processos tanto macro econômicos quanto de reoganização social. A questão é que não dá mais, o planeta Terra não 'guenta mais'. Mas quem se importa? Quem entre a população, o povão.
    
O mercado usa a mesma técnica que da propaganda política: repita mil vezes que o que você disse se transformará em verdade (Goegels). No mercado: ofereça um milhão de opções que alguma venda se fará, mais ainda agora com a Internet. A piora da qualidade se deve em parte pelas compras on line. Quanto por cento não é devolvido e vai para o lixo? Não sei, mas pela vivência do dia a dia entre conhecidos, sei que não é desprezivel.

E chegamos no que eu chamaria de obsolescência social programada, ou moda. Moda, acelerou o processo de obsolescência, e o comprar mais e mais! O que induz a outras compras de produtos que até não tem nada a ver com moda. O mesmo para supermercados e suas gondolas lotadas com variedades sem fim.

Equilíbrio das três bases de produção mudou. Manufatura aumentou. Funcionalidade diminuiu. Uma coisa continua a mesma: quem paga é o consumidor. Se ele aceita o que comprou o problema é dele, simples assim. 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Facilitar a CNH é tão parecido com cloroquina!  


Quando se tem uma situação de emergência, como a que temos com a segurança no trânsito, enfrentar o problema demanda estabelecer prioridades, ou seja, o que atacar primeiro, qual segunda ação, terceira e assim por diante. Em qualquer emergência populismo só agrava a situação. Aliás, para piorar tudo basta populismo e autoridades que querem ser autoridades, mas se recusam a olhar a realidade, os fatos, quem é o outro, entender o que realmente causa o problema. Motociclistas e pedestres morrem às pencas muito porque as autoridades só olham a lei e normas técnicas como verdades absolutas. Serão para os motociclistas e pedestres? E o que mais? Por que eles não entendem e cumprem? Sim, são verdades funcionais em ambientes ideais, e aí começa o vergonhoso desastre que temos na nossa segurança. Ideal, funcional, aqui? Na baderna que vivemos, onde autoridade é vista como um potencial inimigo, impor regras ou arrotar "verdades" é fazer o outro se distanciar mais ainda do que deveria beneficia-lo. Exatamente como uma conversa com o filho adolescente, e rebelde. Quer que ele faça o contrário, vá lá e dite as regras a seguir.

Por onde começar? Em qualquer situação grave e de emergência, começa se por analisar dados o mais precisos possível, o que não temos no Brasil. Brasileiro não é afeito a dados e informações de qualidade, principalmente porque põe em cheque tanto a autoridade e mais ainda o populismo. Em qualquer sistema de segurança a precisão de dados é o único caminho para se chegar à segurança. Simples, os dados que temos sobre acidentalidade no Brasil são rasos, pouco servem para de fato controlar a barbárie que vivemos. A estrutura de coleta de dados, perícia e legistas, é precária, para dizer o mínimo, os B.O.s têm diferenças de um lugar para o outro, e sei lá como é feita a coleta e análise dos dados existentes. Isto sem contar com interferências corporativas ou políticas.

A meu ver, o primeiro passo seria saber com quem se está falando, o que guardo meu direito de acreditar que as autoridades não sabem bem. Sem isto a comunicação fica difícil ou literalmente impossível, e resolver o problema mais ainda.


Finalmente, o populismo de facilitar a CNH é tão parecido com cloroquina!  


Aliás, tem mais um detalhe que ia esquecendo: não haverá um business lucrativo aí? Sim, business, negócio, dindin, dinheiro rolando. Mas isto é uma outra história que fica para uma outra vez.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Não ficar quieto. Não ficar só nas críticas durante a cervejinha

para
Rádio Eldorado FM
entrevista sobre o crescimento do número de casos declarados de saúde mental, stress e outros:

Meu comentário via Whatsapp 
Sobre saúde, no Brasil a população fica doente de segunda a sexta-feira, como provam todos dados oficiais.

Sim, o que vivemos aqui, neste Brasil desvairado, está muito longe do que se pode considerar tranquilo, sadio. Sim, é visível o stress geral, que vem aumentando rapidamente.

Agora, quanto dos números apresentados sobre saúde mental são um novo meio de conseguir atestado médico para ficar longe do trabalho?


para
Rádio Eldorado
sobre o envio de recomendações da OAB para o STF

Meu comentário via Whatsapp
Por décadas a OAB manteve-se em absoluto silêncio sobre a precariedade e as irregularidades no sistema judiciário. Vez ou outra uma manifestação, mas limitada, muito limitada. É impossível escapar da pergunta: por que? E: a quem interessou e segue interessando esta baderna que agora sobe a tona, e que não é nenhuma novidade. Quem ganhou? diga-se de passagem muito, muito mesmo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

As leis brasileiras, o 'advogues', e a enganação legal

O Estado de São Paulo
Comentários 


O
 que está neste artigo do Estadão diz respeito ao que vem acontecendo no setor imobiliário, mas contratos, melhor, a aplicação da lei vivente da melhor forma - para o interesse unilateral - é regra. É fato amplamente divulgado, normalmente dá muita confusão, e ninguém faz nada para dar um basta definitivo. Obras atrasadas, paradas, perdidas, processos que nunca terminam. A quem interessa? Óbvio que tem gente ganhando muito, muito, mas muito dinheiro mesmo neste andar das coisas, principalmente os defensores do status quo jurídico. Lei? 

Dou um exemplo simples. Nosso trânsito é um horror, afeta a todos paulistanos, sem exceção. Qual é o conjunto de leis que dá sustentação jurídica ao que acontece? CTB? E o que mais? No 'o que mais' está a razão de você ficar horas engarrafado. No 'o que mais' está a reclamação geral da existência de ciclofaixas que ninguém usa, por exemplo. No 'o que mais' está a justificativa legal para o absurdo número de mortes no trânsito. Alguém aí se interessa pelo 'o que mais?'.

Ontem, mais uma vez li um matéria onde o entrevistado afirma que "brasileiros não se interessam por pesquisas, estatísticas e dados". É fato. As leis que temos servem para advogados e juízes, não para servir ao povo. Aliás, não servem só ao povo, diga-se de passagem. 
A quem interessa o que temos hoje? Sim, tem gente que fará de tudo e mais um pouco para não perder o seu quinhão, e não falo de políticos, que são mais uma vez a distração.

José Serra, quando prefeito, tentou limpar as leis do Município de São Paulo, que na época eram umas 17 mil, se não me falha a memória. Estava lá como amarrar um burro em via pública, por exemplo, dentre outras que empacavam o bom funcionamento da coisa pública. 

Contrato que cidadão não consegue entender? A quem interessa? Não estou perguntando a que interessa de imediato, mas a quem interessa por trás dos panos, por trás dos camarins, aliás, a quem interessa que sequer aparece no teatro? Quem são 'os salvadores da pátria'?
Finalmente, que pátria? De quem?

As leis brasileiras são para iniciados, não para leigos. Não saber ou não entender um contrato não é exclusividade da nova geração, mas uma realidade perene neste país. O famoso 'advogues', ou escrever para que só os próprios entendam ou até que nem eles realmente entendam, mas afirmem que entenderam, é uma realidade incontestável. Além do mais, é trivial deixar o que interessa na incerteza contando que a morosidade,ou, melhor, a baderna do judiciário tardará ou nunca chegará a um veredito.

Cair numa cilada jurídica neste Brasil é trivial. Neste caso em específico, o que aconteceu deveria ser investigado a fundo. Os contratos duvidosos são só um pequeno detalhe frente a deformação urbana e suas consequências sociais que vem causando. Acredito que os que deram a largada a esta baderna vão sair sem sequer bater a poeira de suas roupas de grife.

O interessante é que mais uma vez os que entendem de fato do recado calaram. Por que será? Quem não entendeu que se vire.


sábado, 17 de janeiro de 2026

As imagens dos tiros do agente da ICE em Ms. Good

 Quem está seguindo a investigação sobre a abordagem do ICE, seguida de tiros que mataram Ms. Good, tem tido a oportunidade de ver e ouvir várias versões sobre o que aconteceu vindas de todo tipo de gente, de políticos, militantes, especialistas, cidadãos e aproveitadores de todo tipo. No meio desta enxurrada vi defensores da ação do ICE usando vídeos que aposto foram reeditados, talvez até por inteligência artificial. Num deles, a SUV de MS. Good atropela o policial e quase o derruba. Ilusão ótica induzida pela narrativa? Pode ser.

Achei estranho porque desequilibrado o policial, como parece ser em algumas entrevistas que relatam que ela jogou o carro em cima, provavelmente não teria condição de disparar três tiros tão precisos.

Não sou especialista, não estou tirando conclusões. Acho muito estranho o mesmo ponto de filmagem gerar imagens, sequências tão diferentes, ou pelo menos levar o público a chegar a esta conclusão.

Acho deprimente que uma pessoa tão calma, como fica claro no momento que ela diz sorrindo para um policial algo como "não tenho nada contra você", tenha acerado para matar, e acabado morta da forma como foi. Mas não é  meu ponto aqui.

Eu já vi uma meia dúzia ou mais de entrevistas e comentaristas. Ou estou completamente gaga, louco, cego, ou a mesma coisa é diferente conforme o interesse de quem fala. Sim, eu sei que é, sempre foi, mas não me lembro de tamanha diferença entre o que foi divulgado. Filmagens diferentes? A princípio pensei, mas depois gritou em mim que era o mesmo, mas diferente.

O que realmente me assusta é que tenho a nitida sensação que imagens retrabalhadas estejam servindo como base de defesa de pontos de vista, e que estas possam chegar aos tribunais. Pior, muito pior, que emissoras de grande poder de divulgação, com grande público, estejam colocando no ar versões diferentes criadas ou editadas a partir de uma gravação original. Mais, é muito mais que um absurdo (literal) que as editorias não tenham checado a originalidade do material divulgado. Ou, a veracidade do fato divulgado. Sim, eu sei, acontece cada vez com mais frequência 

Esta entrevista na CNN, mostrando e explicando frame a frame, joga luz no que realmente aconteceu. 

Que loucura estamos vivendo? Vai ao gosto do freguês, não importa as consequências? Pelo jeito, vai! Ou, vai mesmo, eu que sou um tônho. Do fundo da alma, espero que eu esteja completamente gaga e que a sensação que tive nesta enxurrada de notícias esteja errada, mas provavelmente será uma questão de tempo para o IA ir mais fundo do que as atuais fake news. 

Sobre edição da verdade, sempre aconteceu. O que assusta é a entrada de um novo player, o mesmo que já não perde mais no poker e jogo de xadrez. O que será do judiciário?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Itens de segurança ou limite de velocidade?



Tem um documentário sobre segurança para motoristas que no seu fechamento faz a pergunta para o maior especialista da época: Qual seria o automóvel mais seguro para os motoristas? Num típico humor britânico, ele solta: O que tivesse uma faca no meio do volante apontada para o peito do motorista. Ele seria mais cuidadoso.

Um amigo, que trabalhou com sistemas de segurança para ciclistas e era motociclista, dizia com toda razão que "o sujeito pode estar dentro de um tanque de guerra. Se ele conduzir errado vai se machucar".

A questão de boa parte dos itens de segurança obrigatórios nos automóveis podem ser rebatidos sob vários aspectos, todos com base na ciência, portanto em dados. Também deveriam ser debatidos sob aspectos econômicos e sociais. Mas quem se interessa?

Segurança, a real, é ciência, não tem nada a ver com falácia ou propaganda.

A verdade é que quanto mais ilusão, mais chique. Ou, "Dane-se o trabalho semi escravo, se eu tiver mais, melhor, e me sentir mais confortável pagando menos".

Uma revista especializada europeia, não me lembro qual, apontou que muito mais da metade de automóvel moderno são inutilidades. Portanto custos com algum impacto futuro, impacto sério.

Dados estatísticos confiáveis, colhidos em várias partes do planeta, provam sem deixar dúvida, que a quase totalidade dos acidentes tem por razão o seu condutor. Óbvio que sobre isto ninguém quer falar, não interessa. O negócio é ter proteção contras as próprias besteiras, os próprios erros, bem barato, de preferência.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Reformas urbanas que não acabam. Projetos que desaparecem.

Vendo uma matéria sobre a reforma da av. Santo Amaro, no SPTV 2, lembrei que quando ainda estava trabalhando nos projetos cicloviarios, portanto meio dentro da Prefeitura, entre 2005 e 2007, soube de fonte segura que o Banco Mundial fez uma oferta de U$ 1 bi para reforma e recuperação da av. Celso Garcia e redondezas, algo parecido com o que se está fazendo na Santo Amaro. Minha fonte foi um dos que colocaram a proposta na mesa. Fiquei sabendo porque deveria trabalhar no projeto. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Com muito atraso, como nos é trivial, a reforma da av. Santo Amaro pela metade, já extrapolou o custo previsto, como também é trivial. E com problemas de acabamento. Devemos dizer que pelo menos saiu do papel?

Como já contei, fui contratado para fazer um funcional da ciclovia e recuperação das margens do entorno da Guarapiranga. Fiz as vistorias, entreguei um relatório com um croqui pré funcional, fui pago e finito. Não abriram quem estava por trás. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. Mas neste caso, por um acidente, uns 10 anos depois, um dos responsáveis pelo projeto estava tomando sorvete ao meu lado. No meio da conversa sobre bicicletas e ciclovias, ele riu e contou. O projeto seria a contra partida da vinda do Guggenhein para São Paulo, que seria instalado no Jardim Guarapiranga.


Depois destes fui contratado por ONG americana para o funcional cicloviario de apoio a ciclovia Eliseu. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

O mesmo com a consultoria do cicloviario de Guarulhos. Sumiu...

Bom, enfim, até quando vamos continuar com projetos que não acabam, ou pior, que tem início e somem, literalmente. Acreditem, definitivamente não sai 'di gratis'.

Sentir-se um trouxa é uma coisa. Ver dinheiro público desaparecer sem sentido não dá mais. Aliás, nunca deu.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Bienal de São Paulo. O que é arte? Quem sou eu?

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém

O trocadilho com o "quanto mais sei, mais  sei que nada sei" me veio como a abertura de um filme exibido em 'Cinerama", projeção impecável e som Dolbi, rodando a imagem que via enquanto rodava lentamente a cabeça olhando as obras do segundo andar da 13º Bienal de São Paulo. 
- Quem sou eu? 

Não, definitivamente não tem nada a ver com o que pretende a curadoria desta Bienal e suas preocupações sociais inclusivas, mas com a memória de todas as Bienais que vi pela vida, e as que deixei de ver; para meu prazer. 

Marcel Duchamp morreu em 1968. Seu mictório foi exposto em 1917 sob o nome "Fonte", muito mais que um choque para aquela sociedade que acabara de sair da Primeira Guerra Mundial, uma carnificina sem precedentes. Em 1923 Duchamp exporia seu "Grande Vidro", ou "A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo", um pulo (um pulo?) do nonsense dadaista para as obras conceito, e warp speed para o sense ou nonsense do que temos na arte hoje. 
Vale tudo? O que é arte? 


("Vale tudo?") O que é arte?
E me pus a perguntar para os monitores "O que é arte?". Resposta padrão. "OK, além disto, o que é arte para você?" Olhares de espanto, respostas um pouco mais rebuscadas, mas mais ou menos a mesma coisa.
- Como entra o marchand nesta tua resposta?
- O que é marchand? E quem quase caiu de costas fui eu. Como assim, o que é marchand? 
- Nos treinamentos não falaram sobre a questão dos marchands?
- Nós não recebemos treinamento. Estamos aqui para guardar as obras. De novo, quase caí de costas. 


A garotada que estava lá tinha cara de quem estava engajada com o espírito da coisa. Boa! Já não sou bom saca rolhas, não consigo chegar ao delicioso líquido da cabeça do outros, e depois de saber que eles estavam lá para guardar as obras sem saber qual a influência do mercado de arte na curadoria desta Bienal, caminho só me perguntando "Quem sou eu?". 

Fui no último dia, só, um calor de fritar ovo no asfalto. Marcel Duchamp teria aproveitado a dica para sua próxima obra? Não creio. Duchamp provavelmente estaria trancado em casa olhando assustado pela janela "Aquilo deu nisto?".

Fui com medo, quase não fui. Gato escaldado tem medo de baboseira pegajosa. A última Bienal que tinha ido, felizmente não me lembro qual, foi tão chocante para mim quanto o mictório que Duchamp expos em 1917 deve ter sido. Baboseira sempre teve, mas depois de uma sequência de bienais marcantes pela qualidade, mudar tão radicalmente não desceu. Não fui o único a arrepiar de horror. A música nossa de cada dia que o diga. Chega. A bem da verdade, não sei bem por que criei coragem de ir nesta, mas 'até' que valeu a pena. Este 'até' é um tanto fdp, que seja. 
Queria ter ido com Duchamp. Não faço ideia de como era seu senso de humor, partindo daí ou me divertiria ou acharia ele um saco. O que vale é quem se é, o resto é arte. (Doeu!)

Sou obrigado a barbar numa sumidade? Não caio mais nesta, já perdi muita vida me curvando a quem se vende bem, mas é um babaca. Babacas nesta vida é que não falta.
Sou obrigado a achar uma obra conceitual inteligente? Sou obrigado a achar uma obra conceitual interessante? Desculpe, mas a maioria não consigo, zero. Talvez conseguisse se o marchand responsavel estive comigo e fosse bom de lábia. Bater punheta é uma arte.    

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém


Sai feliz. Aliás, sai deprimido por deixar o ar condicionado e ter que caminhar no frita ovo. Quem quer que tenha feito a curadoria saiu do atoleiro do que vi na última Bienal que fui. Quando? Não me lembro, mas a memória emocional dela que ainda resta em mim é bem desagradável. Hoje eu a definiria como "politicamente correta", aquela. Esta também, mas menas, muito menas, mas muito menas mesmo. Esta Bienal tinha muita coisa boa, boa mesmo. Acabou. 

O que é arte? 






 

Arte democrática(?), como está numa escultura (foto acima). Desculpem, mas li e estourei na gargalhada. E os marchands, curadores, galeristas, colecionadores, investidores, como ficam? Doce ilusão!

Tendo a obra de Duchamp na cabeça respondo a pergunta "O que é arte?" 
- Vai mané! (é a resposta)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência. E Cassia Eller; 1962 - 2001 / a perda de um gênio

O Estado de São Paulo
Sábado, 01 de Agosto de 2020
A16 | Internacional 

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência

Aos 96 anos morre o cronista de sete décadas.
Jornalista e escritor francês chegou ao 'Estadão" em 1951
....

Repercussão
Ruy Mesquita Filho
"Sua lacuna jamais será preenchida, homem de cultura e de um refinamento que não existe mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera."
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E da página dupla em uma curta homenagem a Gilles Lapouge e do que Ruy Mesquita escreveu parto eu.

Uma pessoa culta que vivenciou 70 anos como jornalista tem um nível e conhecimento sobre o que somos, todos, como seres humanos, que é de uma preciosidade única. Eu nasci em 1955, quatro anos depois que Gilles chegou ao Brasil, e ainda vi um país arcaico, com hábitos do século retrasado, os 1800. Vi e usei tecnologias inimagináveis para a atual geração, como um telefone de parede movido a alavanca giratória, gramofone, roda d'água, carro de boi, rádio a válvulas que tinha que esquentar para funcionar, rádio galeno....


(Como tudo nesta vida, deixei, ou esqueci este texto nos rascunhos. Volta e meia via que ele estava ali e que deveira ser publicado. Exatamente como procrastino muito de minha vida. Ou procrastinei. Estou resolvendo tudo um passo por vez, aos pouquinhos, dentro de meus limites, resolvendo o que não tenho jeito ou não gosto. Está indo. Estou melhor) 


09 de janeiro de 2026
Mudou, e como mudou. "... nossos dias, onde a boçalidade impera", e como impera!

Li a notícia quando estava em Penedo. Lugar lindo, terra de finlandeses que vieram tentar a vida nesta floresta chamada Brasil. Montanhas em volta, uma para Visconde de Mauá, outra para a entrada do Parque Nacional de Itatiaia. Subir montanhas, desafio para quem sabe o que faz e está preparado. Muitos ou não vão ou ficam pelo caminho, como na vida.

No mesmo dia que li esta notícia sobre a morte de Gilles Lapouge, assisti na TV um documentário sobre a vida de Cassia Eller, uma Cassia Eller que pouquíssimos sabiam quem de fato era. Foi das poucas mortes que chorei. Gostava, mas não era fã de sua obra. Tinha consciência que ali estava um potencial raro, que foi-se. 'No recreio' é de uma genealidade rara, música que não canso de ouvir. Já tinha lido que ela tinha consciência plena sobre seus erros e o que deveria fazer. Achei incrível quando soube que a ficha caiu quanto seu filho, ainda pequeno, disse para ela que ela estava gritando demais (nas músicas). Caiu a ficha, precisa mais?

Um dos momentos inesquecíveis de minha vida foi, por um daqueles agradáveis acidentes da vida, se é que se pode chamar assim, acabei ficando hospedado na casa do então diretor da agência suíça de notícias Reuters, em Zurich. A casa era incrível, e o jantar, onde pudemos conversar com calma, simplesmente mágico, um outro planeta de conversas.

Gostaria de ter tido a mesma experiência com Gilles Lapouge. E com Cassia Eller. Como com tantos outros, nomes conhecidos ou não. Não precisa ser famoso para ser interessante, precisa ser interessante, no bom sentido, que necessariamente não é do bem. Brain! Brain! Brain! Brain!  

Como é que é? Algo assim: seguimos atrás do cachorro catando os seus dejetos... O original, de onde tirei esta acertiva, está a seguir, no copia e cola do artigo / entrevista publicado hoje no Estadão. Maravilhosa metáfora do que nos transformamos. A diferença de sentido, ou metáfora, ou que realmente é, está no texto: "cachorros são amor puro". 
Nós nos transformamos em metáforas (em metáforas?) do que acontece agora com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro. Aliás, sem querer, primeiro digitei 'Borcaro', é, mais ou menos por aí. 
O que nos transformamos está explicito, o triste é que não se pode mais afirmar "vê quem quer", até isto foi pro saco (sei-la que saco, mas com certeza não de boa coisa).  

"... agora é uma entidade atrás de quem eu ando recolhendo dejetos humildemente". Somos todos nós, a entidade. Entenda o que quiser e pode ser. Se entender. 

Morrerei na era da boçalidade, isto é líquido e certo. Me incluo aí, me considero um boçal, mas rezo a cada minuto o "quanto mais, sei que nada sei", é o que talvez me salve do inferno. Do purgatório não escapo. Por favor, não me mandem para o céu desta turba de repete sem parar "Vai com deus (este eu digo com letra minúscula)" e "Amém!". Não mereço. 

Subir montanhas pedalando (ou caminhando, correndo) é um ato de autocontrole, um honrar e homenagear o conhecimento, o como fazer correto. Chegar lá em cima é uma vitória efêmera, mas deliciosa. Sim ou sim, se tem que dar meia volta e voltar aos pastos da boiada ruminosa. O esterco deles é que faz o pasto crescer - pura ironia.

Antes deste, acabei de postar um outro post onde coloco que queria ter convivido com gente que se foi. Conviver com muitos mais que que convivi, mas os interessantes. 
Fechando as vontades num foco só. Pedalando pelas ruas, olhando minha bicicleta, fazendo alguma manutenção necessária, gostaria ter tido tempo com meus heróis da bicicleta e do ciclismo, nomes brasileiros que são absolutamente desconhecidos pelo Brasil e que mesmo a distância me ensinaram muito. Devo muito a eles, mas com tempo e ouvindo em silêncio poderia ter aprendido muito mais. Este é o ponto.

Uma das coisas que mais me irritam nesta vida é alguém dizer que tenho conhecimento sobre o que é uma bicicleta. Hoje tenho só certeza que já descobri que bicicletas têm duas rodas, e que por isto o nome tem um 'bi' na frente. De resto, sou aprendiz, nada mais. 




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Bebeto, Pedrão, Bernard, e tantos outros que passaram

O incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, me fez lembrar mais uma vez de Bernard Zen-Ruffinen, uma simpática figura que conheci na Bolívia em 1977, me ajudou com orientações e a encontrar uma estadia, aliás, ótima. Por um acidente de viagem acabei na Suíça e na casa de seus pais em Sion. Crans-Montana está muito próxima de Sion e é bem possível que da varanda da casa dos Zen-Ruffinen tenham visto os tragicos clarões do incêndio.

Bernard me marcou porque viajava só com uma bolsa, uma malinha daquelas que a gente usa para ir a academia. Ele estava sempre bem vestido. Eu, carregando uma grande mochila típica de mochileiro, pesada, desconfortável, me vestia como um hippie meio largado. Talvez tenha sido uma das mais marcantes lições para minha vida. Até hoje, quando monto uma mala de viagem lembro da bolsa do Bernard e vou descartando inutilidades, mas confesso que ainda tenho dificuldade em chegar a tamanho espartanismo.

Sim, minha vida foi se transformando a partir de pequenas situações que chamaram a atenção. Poderia enumerar muitas, mas aqui falo sobre três pessoas que gostaria de ter vivenciado e não o fiz. Se tivesse vivenciado meus caminhos certamente seriam outros. 

A última vez que tive contato com eles, os Zen-Ruffinen, foi quando seu irmão, Walter, veio para o Brasil e ficou em casa. De Bernard nunca mais soube, infelizmente. Walter esteve ligado com a FIFA, e pelo menos a imagem dele vi. Agora procurei e encontrei não só referências deles, mas de toda a família, que descobri ter uma história valiosa, importante, consistente. O pai, eu sabia, foi o anestesista do Ivo Pitanguy em cirurgias plásticas fora do Brasil. Lendo a história dos antepassados Zen-Ruffinen tomei consciência que o que me fascinou em Bernard foi ele ser um jovem cidadão do mundo com uma bagagem de cultura grande nas costas. Eu, brasileiro, de boa família, pessoas educadas, tinha uma boa bagagem, mas para Brasil, sem comparação com que Bernard e Walter receberam da família e da Suíça. Nós brasileiros, mesmo os de eleite, eram bem caipiras, bem primários, se não continuamos sendo.
A conversa entre os Zen-Ruffinen durante um almoço deu o grau de ignorância que eu tinha. Primeiro, eu era fluente em espanhol e tinha um inglês primário, ruim digo. Eles misturavam numa mesma frase frances, alemão, ingles e italiano, sempre buscando a palavra mais precisa, não se importando em que lingua, quando queriam entrar fundo no sentido. A conversa base foi em inglês, por gentileza comigo, mas as palavras em frances, alemão e italiano, aliás, algumas em espanhol, saiam com toda naturalidade, fluidas, sem gaguejar. Só decadas mais tarde consegui entender o porque. "Boludo!", expressão típica da argentina, cabe bem para o que eu era então.

Perdi contato porque tinha vergonha de minhas cartas, a forma de comunicação daqueles tempos. Minha letra era um caos, péssima, minha verbalização horrorosa, não sabia como e o que escrever, não me lembro se escrevi para ele e sua família, se escrevi não tive resposta porque provavelmente ficaram assustados. Aliás, minha comunicação verbal era bem ruim também, se não lastimável, o que não exagero aqui.

Pedrão, foi outro que só depois de morto descobri que gostaria de ter convivido, e muito. Pela vida nos vimos muito pouco, eventualmente em alguma comemoração de família. Era de pouca fala, muitos sorrisos, muito ouvido. Tinha notícias dele por sua irmã, Celinha, muito amiga de minha irmã. Tudo que sabia é que ele trabalhava no Estadão, mas não sabia no que. Quando morreu o Estadão dedicou quase uma página a ele, Pedrão, Pedro França Pinto. Aí descobri que seu trabalho foi grande, que sua cultura e pensar valiosos, colaborativos, imprescindíveis. E eu perdi isto tudo.

Bebeto, Luiz Roberto Souza Queiroz, outro primo com quem tive pouquíssimo contato e me arrependo. Bebeto também trabalhou no Estadão. Devo ter lido seus textos num passado distante, mas como sou desligado nunca olhei para o autor. Descobri a preciosidade de sua escrita atravez das crônicas rápidas que ele escrevia no Whatsapp da família. Impecáveis. Eu, muito envergonhado, queria e deveria ter ido a Itu para conversar com ele sobre escrita, textos, e (envergonhado) mostrar meus garranchos que aqui publico. Um dia, com grande tristeza, me avisaram sobre o velório. 

Agradeço muito aos 'malucos' que convivi. Malucos porque um tanto fora da curva, o que foi ótimo, um aprendizado incrível, precioso. Mas deveria ter olhado para a vida de maneira mais aberta. O meu erro: comunicação precária, em alguns momentos desastrosa. 
Criei mitos, o que foi um erro, até porque mito impõe respeito, dá insegurança. Besteira, besteira pura! Mesmo que eu tivesse sido um completo imbecil, para um ser valioso não importaria porque ele aprenderia com a situação. E talvez ensinaria. 

Das situações únicas, vem a única conversa na vida que tive com meu avô Fernando de Azevedo. Rápida, no leito de morte, ele me abriu as portas para o escrever. Ali, mesmo que não tenha conscientizado, aprendi que somos todos humanos, eu também, até e principalmente por todas minhas inseguranças.

Quantas pessoas passaram pela minha vida e perdi a oportunidade de convivência mais que proveitosa. Sempre escolhi convivências meio que fora da curva, 



Textos corrigidos por IA


Minhas cartas eram péssimas. Tinha profunda vergonha delas

sábado, 3 de janeiro de 2026

Boate Kiss, Constalation: e o que não aprendemos com o Deep Purple

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo 
Rádio Eldorado

Uma das maiores vergonhas de nossa história é como foi e continua sendo tratado o incêndio na Boate Kiss. Deixou claro a falência de nossos três poderes, judiciário, executivo e legislativo em julgar, fiscalizar e tomar providências. O recado é claro: pouco importam os familiares das vítimas, quem manda aqui somos nós.
 
Dói muito saber que famílias e amigos das vítimas da Kiss agora revivem o horror com o incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, Suíça. 
Provavelmente vão sofrer mais ainda com a comparação de como se dão as coisas num país onde o respeito e a dignidade com a população conta.
 
Minha forte dor e revolta e pelo que nós transformamos. 


Repetindo a história:

Smoke on the water, Fire in the sky... é considerado um dos hinos do que melhor o rock & roll oferece. Todo mundo sabe quem é o Deep Purple por causa desta icônica música.  Até quem não gosta de rock gosta da música, uma versão divertida do incêndio que consumiu um teatro na Suíça e espalhou cinzas pelo lago.

Repetiu-se a história, desta vez com um fim nada, zero, divertido, muito pelo contrário, horroroso. Na mesma Suíça, tão organizada e certinha Suíça. Repete-se os horrores da Boate Kiss, que completa 13 anos.

Smoke on the water, música baseada no incêndio do Montreaux Casino causado pelo disparo de um sinalizador de socorro (aquels que emitem uma luz vermelha) dentro do teatro durante um show do Frank Zappa, em 1971, não é lembrada pela tragédia. Os íntegrantes do Deep Purple estavam lá e logo depois compuseram a música.

As primeiras informações sobre a causa do incêndio no tradicional bar Constellation,  em Crans-Montana, Valle, Suíça, a menos de 100 km de Montreaux, dão conta de uma tragédia muito parecida com a ocorrida na boate Kiss. Artefato de fogo iniciando um incêndio no teto feito de material inflamável, falta de rotas de escape, jovens encurralados, mais de 40 mortes e 100 feridos.

Como escrevi para o Estadão e a Rádio Eldorado, vai ser um horror para os familiares e amigos das vítimas da Kiss.

De minha parte, quero ver como vai se desenrolar o processo na Suíça. Tendo estado lá, inclusive em Sierre, pequena cidade no Valle bem próxima de Crans-Montana, acredito que os suíços vão seguir os mesmos passos investigatorios de um pós acidente na aviação. E que medidas vão ser tomadas.

E não me sai da cabeça o duplo sentido da palavra 'tomada', a de tomar, o verbo, e a do elemento de eletricidade. As tomadas que foram implantadas no Brasil, únicas no planeta, têm muito a ver com o sofrimento de quem perdeu seus queridos numa situação como a da Kiss. 
Desculpe, não entendeu?