terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sutiãs como exemplo. Nós, os consumidores, e funcionalidade, aparência e manufatura.

Fazer simples, fazer bem, fazer barato. Se é o que todo mundo quer, por que continuar comprando o que é cheio de detalhes inúteis, mal feito e caro?


"Why everything you buy is worse now?" - Por que tudo que você compra agora é pior (do que era antes)?.  É sobre sutiã, mas poderia ser sobre tudo, não só sobre todos produtos industrializados, mas também sobre serviços, e porque não dizer qualidade de pensamento e qualidade de vida. Não, não desvie sua atenção, não aparecem peitos, seios maravilhosos, modelos de beleza, tentação. 
 
Falando em tentação e o que parece mas não é, lá vai história. A saber: comecei a entender o que são ilusões criadas para os consumidores, as mais perversas (?!?), quando estava no Rio de Janeiro, na área de concentração da Marques de Sapucaí, ajudando o pessoal que ia desfilar vestir suas fantasias. Parei meu trabalho quando vi uma tentação, um mulherão linda de morrer que quando aparecia na TV eu me arrepiava todo. Estava sendo preparada para subir no carro alegórico. Fui até lá ver meu sonho de consumo (?) de perto. Imagem, sonho, realidade. A imagem que tinha já contei. O sonho deixo para lá. Agora vamos à realidade: no tete a tete, ou pelo menos na distância que me permitiram chegar, perto o suficiente, a realidade se fez: umas duas meia-calças para formatar as pernas e o culote que na TV não se via; um sutiã bem armado para manter no lugar aqueles seios fartos, lindos, que tentavam na pequena tela da TV (das velhas, de tubo); não sei quanta maquiagem, a carnavalesca, mais a disfarçante, verdadeira camuflagem. Fiquei parado vendo o guincho elevar aos céus meus sonhos, que ali, imediatamente, morte súbita, desvaneciam nos fatos reais. Simples, bem normal. Na TV, o bom caminho para a paixão, a mais enganosa possível. 
Propaganda bem feita é a alma do negócio, e das tentações também, quanto mais pecaminosa, melhor. 

Começando pela peça principal deste sistema que temos hoje, ou seja, o comprador, o consumidor, ou nós, eu incluído. Nós compramos, simples assim, e nesta bagunça que vivemos pode-se dizer 'ponto final'. Consumimos, aos borbotões, desnecessariamente, tudo. "Viva a tentação!" Prova irrefutável? Seu lixo, o reciclável mais o outro, e a frenquência que você tem que descartar os sacos cheios.

Não era assim, não consumíamos tanto, até porque as opções eram muito menores. Infelizmente não consigo encontrar as fotos comparativas que foram publicadas pela revista Life nas décadas de 60, 70 e 80, onde faziam a comparação entre o então 'glorioso' consumo de uma família de classe média americana com outras, americanas e mais pobres ou de outros países. O consumo já era alto, mas não esta barbaridade que temos hoje em dia. 
Como são estas fotos comparativas? Simples: a família sorrindo atrás de tudo que eles consumiam de alimentos por mês! Era coisa paca!

Fiz uma brincadeira sobre desperdício, uma experiência boba: quis saber quantos palitos de fósforo consigueria riscar e acender numa única caixa. Cada caixa tem em média 40 palitos. Numa única caixa consigo riscar e acender algo em torno de 8 caixas de palitos, ou seja, é possível riscar e acender 320 palitos por caixa. A questão é que a cada 40 acendidos jogamos tudo no lixo, mesmo com muito mais espaço para riscar outros fósforos. Detalhe, a gaveta, onde ficam os palitos de fósforo, é feita de papel, portanto reciclável,  mas vai para o lixo junto. Parece brincadeira, uma tolice, afinal o que significa uma caixa de fósforo para o meio ambiente e o nosso bem estar? Uma pouco significa, mas as milhões de caixas de fósforo vendidas e usadas, mais sua produção, isto sim é um problema ambiental.

Voltemos ao sutiã em questão descrito no Youtube. Ela, a narradora, faz uma comparação entre os velhos e novos suitãs, identicos em forma e aparência, mas não em qualidade e durabilidade. Os novos tem uma qualidade e durabilidade bem menor. 
Sutiã no lixo só me incomoda pela questão ambiental. De resto, é um prazer.

Como funciona o processo industrial? Sobre três bases: funcionalidade, aparência e manufatura, e se tudo estiver bem, direto para as vendas, para o consumidor.
A questão é que no processo de produção a manufatura ganhou importância, a aparência mais ou menos se manteve, e funcionalidade / durabilidade diminuiu de importância. Razão? Custos de produção, concorrência e principalmente aceitação dos consumidores.

Minha mãe sempre dizia "Já viu coisa barata ser boa?" Pura verdade. O que dura custa menos.
 
A questão é que todos nós aceitamos o que se chama de obsolência programada. Deixei linkado porque vale a pena ler a respeito. As 'coisa d'hoje in'dia são feita pr'acabá", e acabando, comprar uma nova, e outra, e outra, e outra. A novidade, de uns tempos para cá, é que ninguém mais se pergunta se dá para consertar e continuar usando. Perguntas como estas perderam o sentido, até porque tudo conspira para não se consertar ou reaproveitar. No caso do sutiã, e da alça solta, onde encontrar um armarinho para comprar agulha e linha? Linha branca, um outro exemplo bem caseiro, quebrou, a maioria simplesmente não tem conserto, nem nas autorizadas; ou o conserto custa mais que a maquina inteira. Pior, mesmo alguém habil no gambiarra não consegue consertar porque as peças não são padrão. 
Enfim, tem data para acabar, quebrar, descartar, jogar no lixo, ou a lógica da 'obsolência programada'. 

Tudo deveria ser feito para o nosso bem e não para o bem da indústria, mas mudar o que está aí é muito mais complexo do que se possa imaginar.

Muito do progresso social que tivemos no passado se deve à obsolência programada. Simples: gerar e manter empregos. Japão saiu do buraco copiando produtos, oferencendo preços mais baixos, mas com menor durabilidade. China cresceu assim. Foram processos tanto macro econômicos quanto de reoganização social. A questão é que não dá mais, o planeta Terra não 'guenta mais'. Mas quem se importa? Quem entre a população, o povão.
    
O mercado usa a mesma técnica que da propaganda política: repita mil vezes que o que você disse se transformará em verdade (Goegels). No mercado: ofereça um milhão de opções que alguma venda se fará, mais ainda agora com a Internet. A piora da qualidade se deve em parte pelas compras on line. Quanto por cento não é devolvido e vai para o lixo? Não sei, mas pela vivência do dia a dia entre conhecidos, sei que não é desprezivel.

E chegamos no que eu chamaria de obsolescência social programada, ou moda. Moda, acelerou o processo de obsolescência, e o comprar mais e mais! O que induz a outras compras de produtos que até não tem nada a ver com moda. O mesmo para supermercados e suas gondolas lotadas com variedades sem fim.

Equilíbrio das três bases de produção mudou. Manufatura aumentou. Funcionalidade diminuiu. Uma coisa continua a mesma: quem paga é o consumidor. Se ele aceita o que comprou o problema é dele, simples assim. 


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