terça-feira, 28 de março de 2023

A cadeira gentilmente oferecida e ou o ser contra; formas e limites

Paris: montanhas de lixo nas ruas, greves, paralisações, pancadarias, batalha campal, uma grade caída no meio da rua e lá abandonada, e a surpreendente gentileza de uma menina.


A gentileza da menina que serve num café me sensibilizou e muito. Nada demais, só uma cadeira que me foi trazida espontaneamente, sem que eu tivesse feito qualquer gesto ou olhar como se pedindo ou expressasse um simples desejo. Um gesto de delicadeza que a cada dia está se tornando incomum. 
A forma de comunicação da menina: agiu em silêncio para melhorar o conforto de uma pessoa, não de um cliente. Agiu, ninguém percebeu sua iniciativa e voltou ao trabalho.
Naquele exato momento eu havia enviado uma Whatsapp para Yeda, uma das pessoas mais gentis e delicadas que conheci pela vida, sobre a tranquilidade daquele café e o reflexo nas pessoas que ali estavam. Até então não tinha me dado conta de quão importante para aquele bem estar vinha da delicadeza e gentileza das duas meninas que nos serviam. Discretas e pró ativas. 

Ontem foi uma guerra aqui na França. Um confronto entre a extrema esquerda e os policiais resultou em 47 feridos (corrigindo, mais de 200), a maioria policiais (corrigindo, não é certo que a maioria foi de policias). Eles não conseguiram parar a fúria de um grupo de black blocs (corrigindo: o ataque inicial foi da polícia) muito bem organizado e treinado com práticas militares (segundo as autoridades) mesmo tendo disparado 4.700 bombas de lacrimogênio. 
Já no fim desta guerra, mas ainda no meio da batalha, uma das TVs conseguiu uma entrevista com um dos organizadores do protesto ou batalha. Perguntado sobre os feridos, todos eles, dos dois lados, ele disparou a falar sobre a violência do governo francês, sobre a legitimidade da violência que ainda estava acontecendo, justificando os policiais feridos como uma espécie de vitória da causa. Outras entrevistas de lideres dos protestos generalizados que vi em algumas TVs francesas tiveram o mesmo tom: que não há outra saída que não seja o conflito para uma derrota do governo e do status quo que vivemos.
(O entrevistado, um dos que discursaram no palanque antes da pancadaria, não teve calma e jogo de cintura para contar sua versão. A forma como ele falou fez com que sua história, que era mais próxima da verdade, acabasse se transformando só numa tentativa de justificativa da ação dos que protestavam. A entrevista com um jornalista presente divulgada bem depois muda completamente a versão oficial da batalha. Veja as imagens e a entrevista no final deste texto.) 


Depois que sentei na cadeira do café me veio a pergunta: será que há outra forma para se conseguir as mudanças que todos querem ou sair para a porrada destruindo tudo o que foi construído até hoje é o único caminho? Será que pessoas como Yeda ou as gentis e delicadas meninas teriam força social para realizar uma revolução não violenta, melhor dizendo, acertar o que não está funcionando bem? 
Para quantos desta guerra ideológica as delicadas meninas do café tem valor?
Não resta dúvida que se deve mudar. As razões são inúmeras. Chegamos a um ponto que as instituições não estão respondendo mais as expectativas. 

Cheguei numa Paris absolutamente imunda, lixo por toda parte, montanhas de lixo. Greve dos lixeiros, segundo um comentarista político um movimento que não deve acabar tão cedo porque há uma forte união pela causa. Que se dane toda população. Andar pelas ruas virou um inferno. Felizmente com o frio o cheiro não é forte. Danem-se, tudo pela causa.

De frente para a janela do café, ainda sentado na cadeira, vejo além dos montes de lixo atrapalhando a vida de todos, principalmente mães com carrinhos de bebe e idosos que é o que Paris mais tem, foram derrubadas no meio da via de trânsito umas sete placas de proteção para os pedestres que fazem parte de uma obra de manutenção na calçada. É o quarto dia que elas estão no meio da rua, algumas vezes com carros passando em cima, e nenhum dos distintos, bem educados e civilizados cidadãos foi lá para levanta-las.

Passeando de ônibus vejo uma família de turistas alemães, pai, mãe, filho, filha jovens, que estão sentados nos assentos reservados a idosos. Entram idosos, passam por eles e vão sentar lá no fundo. Dos alemães nenhuma reação, justamente um povo tão cumpridor das leis e regras sociais?

O número de pessoas que tem saído às ruas para protestar é irrisório se comparado a população francesa. Os que estão botando para quebrar menor ainda. Tem vidro banco, lojas e McDonald's quebrados por toda os lados. O grito destes tem falado mais alto.
  
A gentileza está pelas ruas de Paris, isto é claro. A cidade respira um bom grau de civilidade ou não teria tanto turista. As placas da obra caídas no meio da rua são um detalhe e ao mesmo tempo são o detalhe.
A gentileza das meninas que servem o café vai muito além. O que importa é o bem estar do outro, mesmo que este outro não consiga avaliar corretamente suas necessidades. 



sexta-feira, 24 de março de 2023

Limites de um quarto de hospedagem

Conseguir um lugar para ficar em Paris é difícil e caro. Como dinheiro não é mato acabei optando por um RB&B com bom preço na localização que precisava. A experiência foi ruim, bem ruim, começando pela entrada do edifício até a porta do pequeno apartamento alugado. Na abertura da porta todas minhas esperanças evaporaram se.
A foto mente
O quarto é muito menor do que parece nas fotos. Para chegar a ele passei por três portas, em cada uma delas meu desagrado foi aumentando. Sexto andar, tive que pegar o menor elevador que já vi na vida, para uma pessoa magra e uma mala apertados, e dar num corredor escuro, não muito longo, cheio de portas, desagradável. Lembrei dos apavorantes corredores infinitos dos hotéis imensos dos Estados Unidos, mas este de Paris com tons de filme de terror, sensação chata.
Sentado na cama, que não era cama, mas um pequeno sofá cama, comecei a sentir "aqui não dá" e saí imediatamente para buscar um hotel para dormir. Já viajei um bocado, já fiquei em uns mocós estranhos, sou de rir das situações mais estranhas, mas ali não me senti bem, repulsa instantânea. Tudo lotado. Consegui um quarto para os dias seguintes. De volta ao quartinho. Ok, pelo menos o banho foi bom, mas meus pés não couberam na cama, o edredom era um forno, o quarto relativamente frio, consegui pegar no sono para pouco depois acordar encharcado de suor. Tive que vestir toda minha roupa e suéter e deitar sobre o edredom para conseguir dormir. Noite horrível. Nem a cortina fechava bem a janela.
No dia seguinte acordei cansado. Sentei na cama e fiquei olhando em volta. Provavelmente este quartinho no passado deve ter sido quarto de empregado ou empregados. Para eles acessarem o quarto subiam por uma incomoda escada de madeira os seis andares. Duvido que existisse a segunda pequena janela no quarto ou as clarabóias do corredor. Com certeza não tinham banheiro privativo, provavelmente uma pia e só. Toca no pinico ou balde. Como o quarto está no telhado no inverno devia ser um gelo e no verão um forno. Aquecimento? Claro que não. Subir as aquelas escadas...
Mesmo sendo um quarto cheio de pequenos detalhes mal cuidados como está seria, ou melhor, é um luxo para grande parte da população pobre daqui. Provavelmente como no Brasil deve haver famílias que dariam a vida para ter este micro espaço. Sentado na pequena cama, sofá cama vagabundo ouvi do apartamento vizinho, igual ao que estava, um casal conversando com uma criança pequena, pela voz uns 5 anos. Quantos viriam felizes num espaço destes com escada e tudo?

Já fiquei e dormi em alguns quartos de hotel ou pensão um tanto peculiares, alguns bem simples, até pobrezinhos, mas nunca senti nada igual. Por coincidência o mais estranho de todos foi exatamente aqui em Paris na minha primeira estadia. O quartinho mínimo num canto do andar poderia ter servido de cenário para filme de Segunda Guerra Mundial, uma pequena cama velha encostada na parede de pintura descascada, uma mal cuidada janela de madeira, uma pequena comoda-armário e um gancho para pendurar o casaco atrás da porta que mal fechava. O hotel estava em reforma, meu quarto seria o último a ser reformado. Quando abri a porta fiquei assustado, quase dei meia volta para reclamar, mas fiquei parado na porta olhando e pouco a pouco a sensação que aquilo seria divertido entrou em mim. E foi, mais ainda quando ouvi o apito do primeiro trem que passava não longe dali. 

Procuro tirar proveito de tudo, até do que não foi legal, mas poucas vezes na minha vida tive uma sensação tão negativa, tão desagradável como a que este quartinho de Paris me deu  A história toda começa pelas fotos que divulgaram do lugar e dos comentários divulgados no site. Como tudo nesta vida fotos podem se mostrar uma verdade escondida ou criar uma mentira patente. Sai do quartinho tão desgostoso que sequer lembrei de tirar fotos para registrar, mesmo já tendo certeza que dali sairia este texto.

Sobre os comentários em poucas palavras nas redes sociais tenho dizer que "depende". Depende de quem escreveu, mais que isto, depende de quais são as referências do autor do comentário. Mas definitivamente um comentário que preste não depende de poucas letras. Ai entramos no que deveria ser a definição de qualidade, que não temos. Não tendo é de colocar em dúvida a aceitabilidade. O que é aceitável está sendo discutido pela sociedade em cima de comentários curtos, frágeis e grossos. Estamos muito infinitamente longe de um consenso sobre limites do aceitável, se é que um dia teremos.  Este pode ser nosso maior risco de sobrevivência.

domingo, 19 de março de 2023

Minhas férias como empregada doméstica de minha família

Como é bom viajar para rever a família. A ansiedade de chegar lá, ter a porta aberta, tomar um forte abraço e um longo beijo saudoso, ser delicadamente empurrada para dentro da casa, ouvir o foi bem de viagem, finalmente ter as malas num quarto, olhar a cama e... 

- Cuidado com os brinquedos espalhados... e a porta se abre.
Depois de muitas horas de viagem tudo que se quer é um minuto de paz, que importam os brinquedos espalhados? Para meu espanto, apresentados quarto, banheiro, cozinha tudo que você precisa para uma estadia aconchegante, feliz e relaxante... Os brinquedos no chão foram o aperitivo para nossa "aconchegante" estadia. (Deus meu!)  Caos geral, mas controlado, que se diga.
De qualquer forma tudo acaba no inevitável pedido "Vamos sentar na sala para você me contar as novidades". Não pense numa resposta "posso ir ao banheiro antes?" porque as mesmas mãos gentis e delicadas que te encaminharam para a acolhedora casa dos filhos, brinquedos espalhados, panelas, pratos, garfos, facas, garfos e resto de comida na pia, toalhas, escovas de dentes, mais brinquedos para o banho, tudo meio fora do lugar, e a casa dos netos, sim os netos..., a casa dos netos... então, as mesmas gentis mãos vão te empurrar para o sofá. Hora da fofoca. Não sonhe com "posso tomar uma água" que as fofocas da família são prioridade, urgência urgentíssima.
E de um misterioso quarto até então fechado sai o neto adolescente que não se vê faz ano. Ele, a distância e com fones de ouvido, olha para você diz um "oi" inexpressivo e segue caminho para pegar um saco de batatinhas fritas na cozinha, meia volta e de novo passa pela sala. Como manda o protocolo a mãe dá uma bronca, pergunta se o guri não vai cumprimentar os avos, o guri olha mais uma vez e descarrega outro inexpressivo "oi" antes de fechar a porta do quarto e sumir nas catacumbas da rede social. Educadamente se deve dizer alguma coisa como "nossa, como cresceu, está lindo", mas o queixo caído não permite. Ainda não é o momento de insinuar qualquer coisa para nem mãe nem adolescente, a bem da verdade nem nunca será ou haverá o momento de dizer uma palavra sequer ou corre-se o risco de piorar. Pelo menos o "oi" abre as portas para o que nos esperam, nós, os visitantes, nestes próximos "quantos dias mesmo?". Está ai a oportunidade de passar lá no fundo da consciência o primeiro "que saudades de casa", mas não ouse. E a inevitável fofoca segue em frente.
Chega o segundo neto da escola, caloroso se pendura no pescoço dá beijos e sorridente senta no colo da recém chegada. "Está pesadinho" e nem a dica faz com que os pais peçam ao pimpelho para ir brincar. Em vez disto vem do colo dolorido um choramingoso "eu quero (eu adoro este eu quero) comer burguer com batatas fritas" do pimpelho que das pernas adormecidas não sai. Que delícia ser avó.
- Meu amor, não tem burguer.
- Eu quero burguer, repete impositivo pronto a armar mais que um bico, mas uma sirene de incêndio, polícia e SAMU todas juntas num grito só.
- Você (eu, recém chegada) quer ir até o supermercado? É logo ali; vem o convite. Mas será um convite?
Para tirar este peso pimpelho de minhas pernas não só vou como pago com prazer - penso e respondo sorridente - Vamos.
Já na rua, num frio desgraçado, a mãe pergunta - Qual supermercado você quer ir? Não posso responder não, conheço esta cidade, não faço ideia dos supermercados por aqui, estou cansada e gostaria, sim, gostaria, de não ir muito longe, mas antes que pense uma saída polida para verbalizar e como manda os bons modos de quem acaba de chegar de uma viagem de quase 24 horas e está na casa dos filhos e netos, diga-se dela, respondo sorridente 
- O que você quiser. 
Resposta errada.
- Então vamos num que fica um pouco mais longe, mas é melhor.
Toca a caminhar. Não chega nunca. Óbvio que pago eu.

Terminado o jantar a mesa fica posta. Não, mais exatamente, a mesa fica do jeito que está, do que deixaram depois de engolirem o que tinha pela frente, com prato ou sem, adolescente no celular garfo na outra mão sem nenhuma repreensão, guardanapos espalhados, limpos, sujos ou retorcidos, migalhas, geleias, catchup, mostarda pintando a mesa... Como boa chefe de família me levanto e recolho tudo e levo até a cozinha. Onde por? Meu Deus! que baderna. Se a mesa do jantar ficou como estava, a cozinha ficou do jeito que ficou depois de sabe quando. Pelo menos a esponja é nova. Alegria de pobre, melhor, de trouxa.

Escovar os dentes, ligar o chuveiro, tomar um banho quente, pijama e cama. Banheiro de criança e de adolescente? O primeiro pipi depois do aeroporto na aconchegante casa dos filhos e netos lembro de tão desejado (o pipi), mas o estado do banheiro nem reparei. Entre mijar-se nas calças ou olhar o que está em volta qual seria a opção? Que importa, banho e da cama.
- Filha, o chuveiro não está esquentando, qual é o segredo?
De trás da porta vem um urro.
- Eu disse para você não demorar no chuveiro, grita o pai para o adolescente esmurrando a porta da catacumba.
E ouço o complemento da filha:  
- Dá para tomar morno? Teu neto gastou toda água... e mais baixo ouço ... de novo.

É uma delícia acordar todo dia com a pia da cozinha cheia de panelas, vocês não fazem ideia. Não adianta dar um tapa antes de dormir para que a família reunida, reunida?, tome café da manhã junta. O adolescente come pipoca ou burguer de madrugada. A frigideira amanhece de ponta cabeça no escorredor... sem lavar. 
- Ele está em fase de crescimento... solta a mãe.
Falar o que?
E baixinho ouço - (O adolescente) ... fica toda noite no celular precisa se alimentar; e mais baixinho ainda a filha segue - obviamente não acorda para escola.
- Acorda, sai desta cama. Acorda, não vai perder a aula de novo, acorda! urra a mãe sem também tirar os olhos da telinha do celular.

Vez em quando fujo para o jardim. Está no CLT das empregadas domésticas. Fim de inverno e muitas plantas necessitando poda. Fazer o jardim vai ajudar. Volto para dentro de casa, abro armários e procuro tesoura de poda. Não tem, óbvio. Saio para a rua e vou atrás de uma. Caminhando no frio da manhã me pergunto como será a vida de morador de rua. Não sei porque sinto certa inveja.

Estas foram minhas férias como empregada doméstica de minha amada família. É bem verdade que deveria ter ficado duas semanas corridas lá e que menti razões diversas até para fugir no meio da tarde para o hotel vizinho. Nos primeiros dias sorrindo tentei me refugiar no divino terraço com ampla vista, mas só pude fazê-lo uns dias depois quando terminei de lavar as cadeiras.
    
Contam se os dias. Home sweet home.


terça-feira, 14 de março de 2023

Fazer a vida...


São dois irmãos trabalhando de atendentes no café da manhã do hotel que estou, ela com 20 anos, ele com 17. Educadíssimos. Saíram do Egito pelo que entendi com ajuda e apoio da mãe. A menina foi clara; quer independência, viver a vida, ser mulher, dito em palavras sem contornos. Ele tem consciência que precisa trabalhar e ganhar a vida. Os dois estudam, ela marketing, ele colegial. Ela trabalha 6 horas por dia, ele 3. Não há sinais de arrependimento por parte dela, que a única certeza pelo quanto é que Itália não é seu lugar. Ele faz todo trabalho com muito cuidado e atenção, mas em suas palavras há algo que diz que gostaria curtir sua adolescência como outros garotos que não trabalham. Não é uma reclamação explícita, mas uma sensação minha. 
Os dois são meus heróis. They are my heroes. Longe do Egito, longe da família, longe dos amigos, numa cultura completamente diversa, mas com um objetivo claro na cabeça. Sinto uma profunda inveja, sinto mesmo.

No Brasil minha sobrinha neta recém entrou na faculdade, está estudando em Sorocaba. Esta feliz e acha que está no caminho correto. Para os sonhos de uma classe média acomodada está mesmo, mas a vida é maior, pode ser muito maior. 
A neta vai prestar vestibular ano que vem e está forçando a barra para fazer a faculdade no Rio de Janeiro. O Rio não será o mesmo das viagens festivas que tem feito com a divertida e mão aberta tia, mas a neta acha que este é o caminho. 
As duas não fogem à regra da boiada. 

Até tentei fugir da mesmice de uma vida acomodada, mas fui incapaz. Com 21 anos vendi todos meus discos, peguei o dinheiro, comprei um mochila, enchi com roupas que não devia e peguei a estrada rumo aos Estados Unidos por terra. Tinha um sonho pela frente e uma total falta de noção sobre a vida real. Tive amigos que fizeram, foram, passaram meses e voltaram cheio de histórias, alguns por lá ficaram e não tive mais notícias. Meu sonho, a referência, era repetir a viagem de um amigo muito bom de conversa, simpático, bem educado, com rara habilidade social, que praticamente sem um centavo no bolso chegou até a Florida, fez amigos, chegou a viajar de veleiro pelo Caribe, e ainda voltou para o Brasil como uma bela máquina fotográfica. Verdade, tudo registrado em fotografias de papel. 

Tenho boas memórias de minha viagem. Cheguei em Lima tão magro que fui acolhido por uma família conhecida de minha irmã e lá fiquei por mês até ter uma aparência saudável. De lá em vez de seguir para os Estados Unidos por terra acabei aterrissando em Zurique. Por que? Preço de passagem. Do mochileiro hippie cucaracha sem centavo rumo ao sonho do flower power californiano me vi assistindo o GP de Mônaco no pátio do palácio, bem em cima da curva do Tabaco, o melhor ponto para se ver a corrida. Um pouco depois pedi ajuda para minha mãe que me pagou uma passagem de terceira no navio Cristoforo Colombo. O que vi ou aprendi nesta viagem? Pouco, não passei de um mulambento andando pelas ruas e olhando edifícios, mas de qualquer forma me serviu muito.
Feliz com a viagem, cheio de histórias para contar, me doía no coração não ter feito tudo com minhas próprias forças, ou, as minhas próprias custas. Fui um hippie de classe média, mui hippie, pero con la plata de mama. Fácil. Até hoje sinto profunda inveja de meu amigo que foi e voltou movido pelo próprio jeitinho.

Os netos adolescentes não saem do celular e das redes sociais. Sim, não, a conversa se restringe a estas duas palavras. Eu não tenho a mais remota dúvida que estão literalmente mortos, mortos vivos. São filhinhos de papais, nada mais, não fazem a mais remota ideia do que é vida, do que estão perdendo. Acreditam no pobre sonho de classe média "que vai dar certo", que a vida se resume a isto. O problema é que vão pegar pela frente meninos e meninas de sua geração que viveram a vida, que sabem o que é a vida, como funcionam as coisas e que vão ser infinitamente mais competitivos. A desvantagem social que eles tem é um absurdo. Não é exagero meu, há provas fartas que é assim que funciona, principalmente no Brasil.

Outra perda que tive na vida foi não ter trabalhado como office boy, o que hoje corresponderia a trabalhar no MacDonald's. Ou seja, "abrir horizontes", usando exatamente as palavras da egípcia.
Todos que conheço e foram para a vida são muito mais bem resolvidos que os que se acomodaram no sonho da vida cômoda.  

O que os dois adolescentes egípcios estão fazendo será um imenso diferencial em suas vidas futuras, mesmo que optem por uma pacata vida de classe média. Pelo menos tentaram. 

domingo, 12 de março de 2023

Turismo: custo ambiental / benefício econômico

Viajar é bom, opa! como é, mas...

A viagem que fiz ano passado num navio cruzeiro de Santos para Gênova foi um crime ambiental. O voo que fiz agora de Guarulhos para Roma foi outro crime ambiental. E assim vai.
Qual deles foi o pior? Não sei, mas posso imaginar pelo número de passageiros X consumo energético X tempo de viagem. Fui procurar informação e fiquei pasmado com os dados publicados; o cruzeiro é muito pior. Avião é um desastre, mas cruzeiro é algo como 7 vezes mais poluente.
Estes dois exemplos de crime ambiental são bem estudados, conhecidos e cada vez mais divulgados, mas viajar é bom, não é?

Empresas de cruzeiro estão fazendo propaganda dos avanços que tem feito para diminuir o impacto ambiental de seus cada vez maiores navios. No cruzeiro que viajei disseram que toda a água é reciclada e reutilizada, opa, ótimo, mas basta? Os fabricantes de avião têm buscado soluções para melhorar a eficiência geral de seus produtos. Novos projetos de motores estão sendo testados de forma a diminuir o consumo de combustível e aumentar a potência. Um destes projetos, uma turbina com grandes hélices externas, tem apresentado resultados muito promissores nos dois quesitos, mas peca muito no quesito poluição sonora. Não podem ser usados porque infringem as leis de emissão sonora internacionais.

Em 05 de março de 2023 foi aprovado depois de 40 anos de discussões e pressão um documento com  assinatura de inúmeros países que pretende proteger 30% dos mares (...até 2030...). Ou seja, todo transporte marítimo, incluindo seus cruzeiros, vão ter melhorar e muito seus protocolos ambientais. 

Não falei sobre trens, que não temos no Brasil, mas transportam uma barbaridade de pessoas mundo afora, não só turistas. Desconheço o custo ambiental, mas com certeza algum deve ter. Não existe atividade humana sem pegada ambiental. Deve ser baixo, pelo menos no direto.

Nesta viagem, tomando café da manhã, caiu a ficha de outros custos ambientais óbvios que nunca tinha avaliado como fiz agora. Exemplos no dia a dia é que não faltam, começando no café da manhã. A manteiga para uma única torrada vem embrulhada num papelzinho, a geleia para duas ou três torradas vem num gracioso vidrinho com tampa metálica, o yogurt vem num copinho plástico, a toalhinha da mesa é descartável, o guardanapo... Todo este material será reciclado? Duvido.
O quarto é arrumado e limpo todos dias, toalhas trocadas por limpas, sabonetes um pouco usados trocados por fechados em saquinhos, lençóis e fronhas passados, desinfetante passado no vaso sanitário e chão... Produtos químicos, como os de limpeza, são altamente tóxicos e não importa como são usados, por mais cuidado que se tenha terminam no meio ambiente. Rio Tiete cheio de espuma branca que o diga.

Turismo corresponde a algo em torno de 10% do PIB da Itália, gera algo em torno de 2.7 milhões de empregos diretos. Definitivamente não são números desprezíveis, muito pelo contrário. Os números da França não são muito diferentes. Dependendo do país ou cidade mais alto, igual ou um pouco mais baixo, não importa, turismo é uma fonte de renda preciosa até para países ou cidades muito ricas.
 
Aí entra a sazonalidade. Tem cidade que só funciona para valer na época da alta do turismo, entre abril e outubro, depois fecha praticamente tudo. Como exemplo, o dono do pequeno café tem ganhar em 8 meses o suficiente para sustentar os 12 meses do ano. Como viajo fora de temporada fico em hotéis praticamente vazios. Mesmo vazio no café da manhã é servido o que se serve normalmente quando o hotel está com com boa lotação, resultando em muito desperdício. Uma vez tive o cuidado de pedir para que me servissem só o que estou habituado a comer no café da manhã, ou seja, nada de bolos, doces, salsichas, presuntos, queijos... Foi um custo o gerente entender que eu não queria gerar desperdício. Por incrível que pareça é no desperdício, no farto visual da opulência, é que está a propaganda dos benefícios que o hotel oferece aos seus futuros clientes. Eles não podem correr o risco de vazar uma foto com um café da manhã pobre.

Se o setor do turismo tem e continuará tendo problemas para diminuir sua pegada ambiental, o monumental problema continuará porque a ideia de fazer turismo, viajar, mudar de ares definitivamente não vai sair da lista de desejos do povão. Turismo é status garantido, ponto final. Precisa dizer mais?

sábado, 4 de março de 2023

Qual é o seu Deus?

Eu canonizaria a bicicleta, mas esta é outra história.

Estou num hotel onde tudo é imaculadamente branco. Não sei se me traz uma paz ou dói na vista. Tudo menos o banheiro que é iluminado suavemente em azul, mas não só. Uma roda de paleta de cores permite você escolher a cor que quiser, do vermelho puteiro ao verde água. Em volta da paleta estão uma série de comandos que permitem até mudança continua das cores, carnaval completo. Sentado no trono iluminado por um azul claro lembrei da im... Damares Alves: meninos vestem azul, meninas vestem rosa. Óbvio que aqui na Itália felizmente não fazem ideia de quem é esta senhora, ou mulher, ou im.... Graças a Deus.
O hotel que tem em seu nome o adjetivo "luxury rooms" está interessado em pegar turistas que acharão chiquérrimo cagar num banheiro fruta côr. Eu dou risada. Mais ainda, descobri que debaixo da cama também tem luzinha azul, vermelho puteiro, fruta-cor ou qualquer cor dos seus sonhos. De hospício; começando pelo branco total em tudo que não ascende, sim, com "s".
Isto aqui traz uma simbologia que beira o religioso. Zen? Em 1969 vi mil vezes o 2001, Uma Odisseia no Espaço do Kubrick. O filme foi e segue impactante; uma das cenas se passa num ambiente imaculadamente branco como deste quarto. Na época deu o que pensar, assim como agora este branco total no qual estou; a diferença que era um filme e hoje sou o ator que vive o ato. Parece loucura, mas não é.

Em Bari entrei numa igreja praticamente limpa de imagens. O impacto emocional em minha alma foi enorme. Ali senti o meu Deus. Diferente, talvez até oposto à opressão que sinto neste branco imaculado do quarto do hotel.

Quem é Deus? Mil respostas; Deus hoje é uma entidade tão pagã quanto antes do esmagador empoderamento do cristianismo. Cada um com seu Deus e não se fala mais nisto para não termos brigas.

Da mesma forma que senti aquele templo limpo, puro, que para mim abriga a fé e não os olhos e seus temores, me senti encontrando com meu Deus quando corri a pé por uma trilha em mata virgem pela primeira vez. Poucas vezes na vida me senti realmente vivo e parte do meio ambiente que me cerca; naquela corrida me senti uno com a natureza, ou seja, em Deus.

Dois dias atrás entrevistaram na TV um senhor, respeitado livre docente, que falou sobre Hegel, o filósofo, e sua tese que é na natureza que se encontra o Deus de verdade. Creio que tenha entendido corretamente, meu italiano não é tão apurado. Não importa, o que vale é que se existe um Deus, um Uno, definitivamente ele não está nos símbolos religiosos e pagãos.

Publicado pelo celular, sem corretor 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Viajar pelas estradas da Itália

- Um dia vou sair pedalando pela Itália, pegar as estradinhas do interior e ir de cidadezinha em cidadezinha, parando e comendo. Quero fazer a costa adriática inteira, de Lecce a Veneza. Descubro para onde vai o vento e vou junto. 
Quantas vezes eu repeti a mesma história de sonhos e desejos.

Agora que já fiz uns muitos quilômetros dirigindo um simpático Fiat 500 não repito mais. As estradas italianas  definitivamente não são o que sempre sonhei, são estreitas, sem acostamento, esburacadas, e mesmo tendo uma paisagem linda, em alguns trechos deslumbrante, de encher os olhos, são pouco convidativas para ciclistas. Já vi alguns poucos, contados nos dedos, pedalando nas estradas, todos devidamente paramentados. Nada de cicloturistas, pelo menos aqui no sul da Itália. Os motoristas respeitam, esperam, desviam, mas mesmo as estradinhas são bastante movimentadas e, mais complicado, tem um bocado de italiano que senta a bota.

A Adriática, que costeia e que pelo mapa imaginei ser uma estradinha, tem sido minha maior decepção. Duas pistas para cá, duas para lá, estreita, sem acostamento, um asfalto muito ruim para uma autoestrada, e muitos com pé em baixo para valer, carros de todos tipos, caminhonetes, vans, furgões e alguns caminhões. Se o limite de velocidade é 70 km/h, para os italianos é só uma mera conjectura. Se você se mantiver a 70 se formará uma fila atrás, incluindo carros antigos dirigidos por velhinhas que provavelmente estarão mandando lembranças a todos seus vivos e mortos também. 
Estava eu num trecho de 90 km/h já a 110 km/h acompanhando todo trânsito. Olhei pelo espelho retrovisor e vi um carro lá longe piscando os faróis, olhei de novo já estava bem próximo, sai e passou feito uma flecha. Olhei de novo pelo espelho e vi outra coisa branca, imensa, vindo a milhão, desta vez um furgão dos grandes acompanhando a Mercedes. Os dois estavam tranquilamente a uns 160 km/h. Passado o furgão veio um Uno dos mais novos com uma escada no teto, um pouco mais lento, mas muito acima dos 90 estabelecidos ou os meus 110 km/h. E assim vamos estrada a fora. 50 km/h, 70 km/h? Como assim? Para que serve? Sei lá, vai ver que o problema é que as placas são pequenas, comparadas ao padrão internacional, já para ninguém ver. 
O mesmo vale para as cidades, em menor proporção. Pelo menos aí param para pedestres.

Outro detalhe: Pindamonhangaba (a) 15 km; Pindamonhangaba saída 1 km:  sinalizar bem as distancias restantes e as saídas faz sentido? Pois então aproveite. A maioria da sinalização nas ruas, avenidas e estradas italianas é em cima da bifurcação e numa "frexa" pequena; você que enxergue. Passar batido faz parte. Aliás, isto quando há uma sequência de "frexa(s)" indicando o bom caminho. Ninguém respondeu "siga as praca" porque não tem como.
Mais uma vez confirmo que Itália é maravilhosa, italianos são ótimos, mas a coisa é um pouco bagunçada, até lembra filme comédia italiana, não sei porque. Branca!, Branca!, Leone!, Leone! - O Incrível Exército de Brancaleone

Voltando ao velho sonho de pedalar pela Itália. Óbvio que deve dar, ainda não descobri como. Semana que vem devo pedalar em Roma, acredito que na Via Apia Vecchia, vamos ver como é. Pelas cidades tem muito jovem em patinete, um pouco menos em bicicletas elétricas, e, interessante, nos bairros circulam velhinhos pedalando lentamente suas velhas companheiras de guerra, lindas bicicletas de décadas passadas. Vão que vão. 
Falei da autoestrada Adriática porque pelo mapa pensei, melhor, delirei, que daria para viajar pedalando por ela. Definitivamente não dá. O absurdo é que em alguns trechos não têm ruas ou estradinhas em paralelo com a autoestrada para seguir pedalando, ou tem mas a uma distância razoável, chata para um ciclista. Provavelmente por isto estão falando em construir uma estrada ciclovia do sul ao norte da costa adriática, o que seria maravilhoso. Outro ponto é que se um dia realizar o sonho, coisa que não creio, a opção será ou uma híbrida ou uma mountain bike. Buraco é que não falta na Itália. 

A comida? Sim, no geral é boa, mas não é o delírio que se fala. Tem de tudo. Me faz falta as saladas e verduras que temos aos montes e que aqui é bem menos, bem menos. A massa no geral é muito boa, sem dúvida. Frutos do mar os mais diversos e desconhecidos para nós. Pizzas, quando bem escolhidas, ótimas, as de talho ou pedaços, e as individuais. Doces... O que é impecável, de matar, é o café expresso, aí é para morar na Itália.

Esqueci dos vinhos. Preciso falar? Não peça vinho com pizza porque não é tradição deles. Uma boa birra, cerveja, que em alguns lugares vem estupidamente gelada. Tinto com peixe pode, não tem esta besteira que temos ai de com frutos do mar só vinho branco. 
Opa! um brinde à Itália!

PS.: pizza se come com as mãos. Divina!

Ironia do destino acabo de viajar de Alberobello para Matera e nestas estradas dá para pedalar com relativa tranquilidade, eu disse relativa tranquilidade. Até vi um ciclista voltando para a cidade.
Agora; a paisagem... upa!