quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NY continua mudando e para melhor

No aeroporto de Chicago sentado na área de alimentação antes do embarque para NY comecei a conversar com os dois americanos que estavam sentados ao lado. Ouvi eles falando sobre seus times de futebol, que aqui é aquela coisa de bola oval e jogadores vestidos de armadura e eu quis saber como era a vida de torcedor. O jogo deste fim de semana foi decidido literalmente no último segundo e havia muita excitação. Os dois amigos são de Portland, já viajaram praticamente todos Estados Unidos para ver jogos, um deles conhece todas as principais cidades, exceto Nova York, e pela expressão tinha certo orgulho e desprezo por nunca ter estado em NY. Ficou espantado quando desandei a falar sobre a transformação que NY vem tendo em suas ruas e a importância disto para o futuro de todos nós, americanos ou não. Mais uma vez fiquei pasmado com a falta de informação que mesmo os americanos mais bem educados, como estes dois, têm sobre o que está acontecendo nas principais cidades do mundo. "Americano (médio) só olha para o próprio umbigo" todo mundo sabe, e NY não é Estados Unidos, também é sabido, mesmo assim é preocupante o desconhecimento. O que está sendo feito aqui é muito consistente e mais cedo ou mais tarde será replicado em todas cidades americanas e do planeta. É impossível para as cidades continuarem do jeito que estão e não só por causa dos problemas causados pelo automóvel. 
Já do avião vi que estão construindo mais torres estupidamente estreitas e altas em Manhattan. Sei que está havendo uma reação dos nova iorquinos a esta completa estupidez. Só vendo pessoalmente para entender o significa um fino e longo palito residencial de 100 andares. Alguns deles construídos a um quarteirão do Central Park fazendo lá longas e profundamente incômodas sombras; e aí tudo passou da conta. A prepotência destas construções me lembra a caipirada de pequenas cidades do interior de São Paulo e Minas onde no meio de pequenos telhados de sobrados ergue-se um edifício; mimetismo complexado das cidades grandes. Quanta pobreza! NY não precisa disto, mas como sempre digo, somos todos humanos. 

A boa notícia sobre NY veio quando ainda quando estava no táxi do aeroporto para o hotel que fica na 77th. Street com Broadway. O que começou em 2007 em 20 quarteirões da Broadway Av. está não só continuando, mas indo cada vez mais longe e se espalhando pela cidade. A última vez que estive aqui, faz uns três anos, as “Ruas sustentáveis de NY”, como chamou Sérgio Abranches a retirada de espaço dos carros para dar lugar para pedestres e ciclistas, ia da 34th Av. até o Columbus Circle, na altura da 59th.. O impacto positivo foi imediato. Agora a Amsterdam Av. recebe o mesmo projeto, uma faixa de rolamento pintada de verde para a ciclovia, outra para estacionamento e pequenas ilhas para pedestres, e duas para a circulação de automóveis e outros. Na Broadway o espaço para pedestres foi definitivamente consolidado e espaço para automóveis diminuiu mais ainda, o que deve ser o segundo passo para a Amsterdam, imagino eu. Sensato repetir as etapas de um projeto bem sucedido.

Saí para andar pela Broadway, passando pela Times Square, que por incrível que pareça ainda está em obras, quatro anos depois de minha última caminhada. Fui até a novidade de NY, o Hudson Yards, um complexo de edifícios de escritório, shopping, teatro e uma espécie de torre de babel feita de escadarias, ainda não terminado. O shopping é um shopping como qualquer outro shopping do planeta, uma fórmula que começa a dar problemas em várias cidades, a meu ver felizmente. A torre de babel é muitíssimo mais interessante ao vivo que as melhores fotos e artigos que vi sobre, tão interessante que nem se percebe as escadarias que se sobe até o último andar, creio que o 10° andar, de onde se tem uma vista maravilhosa do rio Hudson e dos novíssimos edifícios que circundam as escadarias. O High Line, um maravilhoso parque suspenso construído numa antiga linha ferroviária que servia as indústrias locais, foi concluído até o Hudson Yards, passando entre velhas e novas construções, um mix de arquitetura de rara qualidade e inteligência. 
Desci do High Line e dei de cara com cruzamentos do Meat Pack District que foram completamente recuperados e estão cheios de vida. Subi a 8th Av. e cruzei as 14 e 23 Streets, duas ruas que vão de rio a rio onde os carros foram praticamente banidos para dar passagem para ônibus. Hoje fui para a 5th Avenida e lá também duas faixas de rodagem agora são exclusivas para ônibus

NY me faz pensar; como será a nova metrópole? Vamos conseguir frear o poder das construtoras, o complexo de inferioridade, o individualismo exacerbado e a pobreza de espírito urbano daqueles que vem arrebentando a cidade? Por outro lado a revolução urbana nas mobilidades que principalmente NY está fazendo não tem retorno, até mesmo porque a nova geração não está interessada em ter carro. Mas somos todos humanos, e aí reside o pequeno detalhe. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Viajando no meio ambiente

Voando para Dallas com conexão para Chicago, fiquei com inveja de Greta Thunberg, aquela menina de 16 anos que cruzou o Atlântico num veleiro movido a vento e energia solar porque aviões geram muita poluição, no que ela está absolutamente certa. Adoro o mar, velejar, mas enjoo, portanto vomitaria um bocado. Ou me encheriam de remédios que na fabricação poluem dois bocados. 

Estou lendo "300 dia de bicicleta" de Sven Schmid que conta a história de sua longa viagem de Buenos Aires até o Alasca, 22.000 km pedalando. Estou no meio do livro e ele ainda está deixando a Bolívia, portanto ainda tenho muita leitura pela frente e muita inveja para curtir. Tenho uma vontade danada de subir pedalando do Brasil para cá, USA, mas tenho certeza que os peidos que soltarei pelo caminho poluirão muito mais que o avião no qual voei. Ademais estou velho e não tenho a mais remota vontade de montar uma barraca no meio de um deserto congelante. Montada a barraca, acender o fogareiro para comer macarrão com molho enlatado de tomate. Enlatado? Polui! Não que o chicken or pasta da American Airlines seja mais animador, muito pelo contrário, dá mais ou menos no mesmo. Sven Schmid não conta como resolveu o número 2, a bem da verdade nenhum destes viajantes conta em seus livros, mas certamente sinto-me mais confortável tendo o botão azul e quadrado escrito flush dos apertados banheiros voadores, mesmo que o papel higiênico seja fura bolo. 

Em Chicago, como em qualquer aeroporto, as locadoras de automóvel estão logo ali, uns metros de onde se pega as malas na esteira rodante. Já para chegar até os shuttle ou transporte coletivo é uma boa caminhada. Por que será? O shuttle que peguei foi uma SUV clássica da indústria americana, grande por fora, apertada por dentro. Piso levantado e o pouco espaço interno, é uma carroceria montada sobre chassis, coisa de Ford T, tecnologia de ponta em 1908, que não faz mais qualquer sentido. Estes caras nunca viram uma Kombi. Num determinado momento emparelhamos com uma vã do mesmo tamanho, uma Dodge Ram, na realidade um Iveco Daily do grupo Fiat, grande por fora e por dentro, muito espaçosa, projeto autoportante, sem chassis. Tecnologia de ponta. Não ter eixo cardã faz uma diferença brutal em tudo, espaço interno, peso do veículo, perdas de energia, funcionalidade, inúmeros benefícios para o meio ambiente. A maioria dos ônibus urbanos no Brasil ainda são montados sobre um chassi de caminhão por causa de custo e para aguentar nossa buraqueira. A saber: uma lei de São Paulo proíbe desde o início da década de 80 que os ônibus de transporte público sejam montados sobre chassis de caminhão. Creio que ainda está valendo, mas quem se interessa? 

Não me lembrava mais de Chicago. É muito mais interessante que esperava. Tem calçadas maravilhosas, é graciosamente ajardinada, silenciosa, e apesar do trânsito pesado a cidade é tranquila, civilizada. É uma delícia caminhar e as pessoas caminham, sentam nos parques, correm, pedalam, vivem a cidade, inclusive os velhos, bem velhos que estão aí aos montes. Caminhei muito mais que estou acostumado em São Paulo. inclusive fora da área turística e mais chique. Todas as calçadas estão boas, regulares, com pouquíssimos defeitos, limpas, raro ver lixo no chão. Arborizados, com canteiros floridos. Americano sabe o que é uma cidade, ama sua cidade, cuida de sua cidade.

Nos primeiros metros de caminhada dei com a foto maravilhosa de uma menina com síndrome de Down dançando fixada num ponto de ônibus. Fiquei tão emocionado quanto quando vi os imensos banners pendurados no aeroporto de Paris com todas premiadas pelo Prêmio L'Oréal-UNESCO Mulheres pela Ciência. Aqui, Chicago, pela TV vi a recepção que toda uma escola daqui deu para um aluno dos primeiros anos que voltava a estudar depois de um dramático tratamento de câncer. Continuo a caminhada e cruzo a avenida que margeia o lago Michigan, uma pista expressa, como é habitual. Vão demorar um ano luz para integrar a cidade com o lago, assim como vamos demorar muito para tirar os automóveis das margens do rio Tiete, da lagoa Rodrigo de Freitas, de nossas praias. 

No centro de Chicago algumas ruas estão começando a ficar com cara da Broadway de NY, repetindo uma experiência muito bem sucedida, mas mais de 10 depois. Estranho que com a consciência sobre a importância dos pedestres e a vida na rua que se tem aqui tenham demorado tanto para repetir um caso de sucesso.

Há uma grande diferença, e toca diferença aí, entre o ambientalmente correto e o correto. Antes de pensar no "de avião ou pedalando?" é preciso firmar posição no "pensar no local para ter resultado global". São tantos detalhes que tudo vira uma confusão sem fim. Diz a sabedoria que quando há dúvidas o melhor a fazer é dar um passo à frente, mesmo que seja pequeno, e depois outro, mas caminhar. As pessoas ficam felizes em entrar num avião e fugir do caos do Brasil por uns dias, o que mais que entendo. Só não entendo porque não aprendem a jogar lixo no lixo, por que nossas ruas são tão sujas, mesmo nos bairros mais ricos e mesmo pelos mais ricos. Isto sim faria diferença sem tamanho; mais que os primeiros passos. O resto é como a lata de molho de tomate no meio do deserto ou a van com ou sem chassis. Cruzar o Atlântico num veleiro high tech é chique pacas, coisa de viking, aliás de onde a menina vem.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Capacetes são a salvação para os patinetes?

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor

Ontem anunciaram mais uma morte de usuário de patinete elétrico de aplicativo, agora em Belo Horizonte. Como é regra no noticiário foi dito que se o ciclista estivesse usando capacete provavelmente não teria morrido, mesmo ele tendo batido a cabeça contra um obstáculo tecnicamente impróprio para a segurança no trânsito de usuários daquela ciclovia. Fala-se muito sobre a eficiência dos capacetes e quase nada sobre outros elementos que concorrem para a segurança no trânsito de ciclistas, ou de usuários de patinetes. Capacetes para ciclistas e skatistas são abertos e não protegem a face, onde ocorrem a maioria das lesões em acidentes principalmente com usuários de patinetes porque estes conduzem o veículo soltos e em pé. O erro geral e crasso é acreditar que o simples uso do capacete resolve o grave problema de segurança dos usuários de patinetes ou ciclistas. Não resolve nem parte do problema. Segurança, em qualquer setor da vida, só existe quando se respeita em conjunto uma série normas e procedimentos estabelecidos tendo como base conhecimentos testados e comprovados. Acreditar em solução mágica é um perigo e quando se faz ou induz a mágicas a possibilidade de erro e acidente é grande. Não existe perigo maior que acreditar em informações erradas ou suposições. A principal causa de morte de ciclistas é politraumatismo, principalmente por colisão lateral, sendo raros os casos de morte por trauma na área coberta pelo capacete. Não confundir a eficiência do uso de capacetes em competição com a de quem usa a bicicleta como modo de transporte, duas situações muito diferentes tanto pela posição do ciclista como pela velocidade da bicicleta. Quanto mais em pé o ciclista, menor a possibilidade de lesão no topo da cabeça, provam inúmeras coletas de dados, todas de países e cidades seguras. Num patinete o condutor vai em pé, ereto. Estas são as razões pelas quais o uso de capacete por ciclistas (o mesmo que é recomendado para patinetes) urbanos não é obrigatório em todos países com altíssimo nível de segurança no trânsito e baixíssimos níveis de fatalidade; aliás, também não é obrigatório em nosso CTB. Fala-se muito em capacete e nada sobre falta de informação correta ou erros crassos nos projetos de engenharia viária, dentre outras, estes sim causas de vítimas fatais. No caso dos patinetes nem precisa ir muito longe porque até um leigo vê o que a ciência da física não deixa dúvidas: qualquer objeto em equilíbrio precário tem grande possibilidade de perder a estabilidade; portanto cair. E machucar. Mas como dizem, o capacete teria salvado.


Aos jornalistas do Estadão:
Primeiro, obrigado pelo trabalho sério.

Não sou contra o capacete. Sou contra desinformação. Esta sim mata. A matéria em questão não foi de vocês, mas o Estadão publicou várias matérias, escritas e na rádio, sobre segurança no trânsito onde capacete aparece como salvação, o que é comum a toda imprensa. A propaganda pró capacete é pesada, vem dos fabricantes e contaminou os pouco letrados. Infelizmente não temos a divulgação de dados precisos sobre as causas dos acidentes, o que traria a toda sociedade um outro olhar sobre segurança no trânsito e provavelmente faria os números horrorosos de vítimas despencar. Todo acidente é causado por uma cascata de erros que nunca são descritos, mas onde o capacete via de regra aparece como solução. Se capacete fosse a solução definitiva para a segurança do trânsito motociclistas nunca morreriam. Repito; normalmente a causa é politraumatismo e raramente trauma na área coberta pelo capacete.
Para terminar: a física deixa muito clara as diferenças entre os vetores e forças envolvidos num acidente com moto e outro com bicicleta para meio de transporte. Ou seja, comparar capacete para moto com capacete para ciclista é um belo deslize.
Agora, patinete é perigoso e está sendo proibido em várias cidades do planeta. Capacete ajuda? Se não ajudar o usuário, vai ajudar muito os proprietários do negócio dos patinetes.

http://escoladebicicleta.com.br/dicascapacetes.html
http://escoladebicicleta.com.br/WTP.pdf

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Refletores: segurança sem lampada ou bateria

São raros os ciclistas que têm em suas bicicletas bons e bem ajustados refletores, dianteiro, traseiro, de rodas e pedais. A maioria só confia e se sente seguro com lanternas, faroletes, back lights e outros emissores de luzes dos mais diversos tipos, formatos e luminosidades. Há os que usem estes sinalizadores o tempo inteiro, noite ou dia, certos que esta é a única forma de serem vistos pelo trânsito para pedalar com segurança. Verdade, quanto mais visível mais seguro está o ciclista. Meio verdade, o simples fato de ter uma luz ligada já traz segurança para o ciclista. Verdade, bons refletores são importantíssimos para a segurança do ciclista e não devem ser descartados mesmo com o uso de back light e farol. Se acabar a bateria como fica?
Este texto surgiu quando vi mais uma vez um ciclista (um primo distante) pedalando a noite com um bom back light ligado e piscando, mas completamente escondido por uma caixa presa sobre o bagageiro, portanto invisível. Ele não tinha percebido. É muito comum ver estes sinalizadores mal posicionados, baixos ou muito altos, desalinhados, e até mesmo escondidos, o que diminui ou anula sua visibilidade, ou intensifica tanto que ofusca a visão dos outros. São erros crassos muito frequentes e perigosos porque o ciclista acredita que está sendo visto, e “acreditar” no trânsito é caminho certo para incidentes e acidentes, até os fatais.

Enquanto escrevo este texto, crucial para a segurança de ciclistas, pensei em mandá-lo para uma revista especializada que vem me pedindo artigos, mas não dá. Por que não dá? Muito simples: Boa parte dos fabricantes, distribuidores e vendedores destes sinalizadores luminosos estão muito mais preocupados em vender seus produtos que na real segurança no trânsito para ciclistas. Se estivessem tão preocupados assim dariam orientações e educariam o público para o correto uso de seus produtos. Se uma revista especializada em ciclismo publicar um artigo com críticas a produtos de interesse dos anunciantes provavelmente vai ter algum problema. Não é teoria da conspiração, mas fato, assim que funciona.

Voltando: um dos problemas com sinalizadores, faroletes, lanternas, é o efeito indutivo: "Me dá segurança (usar luzinhas)". Como o ciclista se sente seguro ele não toma algumas precauções que deveria tomar. Ele imagina que está sendo visto, portanto ele pressupõe que a responsabilidade de evitar incidentes ou acidentes é do motorista ou motociclista que o vê, uma suposição muito perigosa. Um dos maiores problemas de segurança no trânsito é justamente pressupor, acreditar, induzindo que algum fator lhe dá plena segurança. Por exemplo: motociclistas acreditam que quando buzinam o motorista ouve, o que pode não ser fato, aliás não é regra, e por isto não diminuem a velocidade ou desviam, o que de fato é causa de inúmeros acidentes. Outro exemplo: está provado que capacetes aumentam a possibilidade de acidentes porque induzem o ciclista a acreditar que estão completamente seguros.

Mas... refletores, funcionam de verdade? O número de acidentes com caminhões caiu vertiginosamente depois da obrigação que todos tivessem suas caçambas adesivadas com refletores. Os ‘atropelamentos’ de ciclistas despencaram na antiga Rodovia dos Trabalhadores, hoje Rodovia Ayrton Senna, depois que fizeram uma campanha e adesivaram material refletivo nas bicicletas dos trabalhadores que circulavam de madrugada pelo acostamento. Refletores são obrigatórios em todas as partes do planeta há décadas. São importantíssimos para a segurança no trânsito até porque não dependem de lâmpada ou de bateria. Um bom refletor simplesmente é visível.

Aqui no Brasil refletores caíram em desuso entre ciclistas, mesmo sendo obrigatórios pelo CTB, porque os que vinham nas bicicletas nacionais eram frágeis e pouco eficientes. As bicicletarias pararam de montar refletores porque virou regra o comprador mandar retira-los antes de receber a bicicleta. “Vai cair mesmo...” Virou cafona, saiu de moda, perdeu status, dá vergonha... Chique virou comprar qualquer coisa luminosa e sair pedalando de árvore de natal. É ótimo para o comércio, vende. As fábricas de pilhas e baterias agradecem. O meio ambiente não. Seguro? Adianta explicar?

Complemento de matéria com dicas 
https://escoladebicicletacorreio.blogspot.com/2019/09/refletores-e-sinalizadores-ser-visto.html

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Santos, São Vicente, uma ilha no meio e grandes diferenças

Ontem pedalei em Santos e São Vicente, da balsa até a Ponte Pênsil, exatos 12 km. O tempo estava fechado, um pouco frio e com ameaça de chuva, o que felizmente deixou a ciclovia pouco carregada e muito mais divertida. É um passeio que vale a pena. Para quem tem pernas e tempo recomendo esticar até Praia Grande, que é logo ali. E pedalando lembrei um pouco da história desta ciclovia. 

A quantidade de ciclistas circulando pela avenida da praia sempre foi muito grande, principalmente em horário de pico da manhã. Os incidentes de trânsito eram frequentes, organizar o fluxo de ciclistas era necessário fazia muito. A ideia de uma ciclovia não devia ser nova e foi apresentada quando a situação era quase insustentável. Implantar a estreita ciclovia foi um parto difícil. O extenso jardim das praias de Santos é tombado pelo Patrimônio Histórico e isto gerou muito mais confusão que a instalação de ciclovias costuma gerar. Depois de muita discussão acabaram aceitando a ciclovia que está lá, estreita, dentro do jardim, paralela à calçada da praia, que virou imediatamente um atropeladouro de pedestres, principalmente da velharada santista. Não só. O projeto nasceu subdimensionado para a pesada carga matinal de ciclistas trabalhadores que vem de Praia Grande e São Vicente rumo ao porto ou Guarujá. E nasceu com um estranho desvio. 
Entre São Vicente e Santos há uma ilha de edifícios que ficam sobre a praia. Por razões desconhecidas… (para nós, simples cidadãos) a ciclovia um pouco antes desta ilha era desviada para o canteiro central através de um semáforo para cruzar a avenida e logo depois desta ilha voltava novamente a cruzar a avenida e margear a praia depois de novo semáforo. Nascida subdimensionada e estrangulada por semáforos virou um caos. Achei esta filmagem (abaixo) realizada por Eric Ferreira (dirigindo meu maravilhoso e saudoso Fiat Uno azul marinho), mas não achei outra filmagem feita de cima de um dos edifícios que mostra um pesado congestionamento de ciclistas esperando estes semáforos abrirem para cruzar a avenida. Havia mais outro filme que mostrava policiais indo atrás e parando ciclistas que decidiam cortar pela avenida junto com o trânsito. Este pequeno "desvio" da ciclovia foi durante muito tempo um dos melhores exemplos de desrespeito e falta de sensatez no trato das mobilidades. Pelo que nos foi dito na época fazer a passagem da ciclovia por trás dos edifícios, junto a areia da praia, o que evitaria toda aquela estúpida confusão, quem não permitia eram as leis… Perguntávamos "E por que não fazem os ciclistas passarem na frente dos edifícios?" A resposta era um riso amarelo e um levantar de ombros. Alguém falou baixinho que os moradores bateram o pé porque queriam entrar e sair das garagens sem problemas. Faz sentido? E para evitar possíveis conflitos com os ônibus. Também faz sentido?
E pedalando neste domingo para minha surpresa a ciclovia está passando por trás dos edifícios, como deveria ter sido desde o primeiro momento. Como a tinta está gasta a mudança deve ter sido feita faz tempo. A areia perdeu uns 2.50 m., fez diferença? (Vou entrar no assunto num outro texto).

Na outra ponta da ciclovia, entre a ponta da praia, onde está o Aquário, e a balsa estão modificando a avenida, diminuindo o espaço para automóveis para dar espaço para pedestres e ciclistas. Está ficando ótimo, civilizado. 
Tudo tem seu tempo, mas poderia ter sido feito antes, bem antes. 

E em São Vicente? Conheci São Vicente na sua época áurea. Hoje o estado geral da cidade me deixa triste, muito triste. Depredaram a cidade como fizeram com Guarujá, dois exemplos a não ser seguidos, mas que infelizmente se repetem aos montes Brasil a fora. O jardim da praia de Santos é um encanto, uma delícia de ser vivenciado, o mesmo não se pode dizer do jardim da praia de São Vicente. O mesmo quando se compara os dois trechos de ciclovia; Santos bem cuidado, São Vicente não, Santos contínuo e conectado, São Vicente não; Santos prazeroso… etc... Triste, muito triste, muito muito triste. Como disse pedalei em São Vicente até a Ponte Pênsil, um trecho com ciclovia, outro não, noutro os ciclistas não sabem para onde vão, noutro a marcação da ciclofaixa está apagada e tem carro estacionado em cima... É incrível porque aquelas cidades litorâneas têm um grande fluxo de turistas e ninguém em sã consciência tem qualquer dúvida que ciclovia é um forte atrativo.



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Primeiras viagens pedalando


Em 1978 fiz minha primeira viagem pedalando, fui até Bom Jesus do Pirapora na época das romarias e procissões de Corpus Christi. Não tinha segredo: Castelo Branco até o trevo de Santana do Parnaíba, pegar a estradinha que acompanha o rio Tiete até Bom Jesus do Pirapora. Conhecia perfeitamente o trajeto em carro, o motel de preferência ficava por ali, também, mas não só. Transar num silêncio total e depois relaxar ouvindo de fundo as águas do córrego limpo e o coaxar dos sapos foi inesquecível. Inesquecível até o dia que tomei um choque e quase virei presunto, mas isto é outra história. Pedalar e ver as matas e várzeas do Tiete depois de Santana do Parnaíba com calma, podendo parar onde queria, foi delicioso. Pena que na época não ia para o motel pedalando com minha namorada, aí seria divino total, mas naquela época mulher não fazia estas coisas, para quem não sabe o que elas não faziam, trepar nem sequer pensar numa viagem no pedal. Mulher não podia ficar mal falada e qualquer motivo era motivo. A coisa era tão atrasada, ou retardada, que até eu tive que ficar quieto sobre esta minha pequena aventura para não ficar mal falado, ou pior afamado do que já era. Já era, afinal, eu usava bicicleta para lá e para cá, coisa que um jovem educado não era muito apropriado para um jovem bem educado. Que seja, assim era.
São Paulo era muito menor, o mato começava um pouco depois das marginais do Tiete e Pinheiros. A Castelo Branco era uma estrada moderna, larga, com acostamento, muitíssimo menos movimentada, muito diferente do que é hoje. A estradinha para Bom Jesus do Pirapora tinha bem pouco movimento, poucas casas e indústrias, tão perto de São Paulo e tão interior.
Fui numa Caloi 10 com um bagageiro feito de barrinha de aço de pequeno diâmetro e cromado em formato de 7, de desenho delicado, chique, mas frágil. Carregando uma mochila relativamente leve e amarrada aos poucos foi embarrigando e tive que parar para desentorta-lo umas duas vezes para continuar. Os pneus 27 X 1 3/4 daquela época furavam e deformavam com frequência assustadora, mas para minha felicidade foram e voltaram sem problemas. O selim era um horror, uma peça de plástico duro só com uma espuminha de nada para enganar. Pouca redução, pedalada dura contra o vento da Castelo e nas subidas, mas rodava divinamente bem no plano. Água? Que água? Para que? Eu lá sabia que ciclista precisa beber água. Juventude acha tudo ótimo e lá fui eu para os 48 km de ida, plano na Castelo e sobe desce da estradinha. Não faço ideia que hora saí e quanto tempo demorei, mas lembro que cheguei no meio da tarde. Lembro disto porque antes de Bom Jesus há uma subida curta e muito íngreme, boa para ciclista de primeira viagem pendurar a língua. Parei no topo, virei o corpo e olhei para trás com raro prazer para várzea do Tiete.
Bom Jesus foi divertido porque não tinha mais lugar nos hotéis, eu também não tinha muito dinheiro para estes luxos, e acabei dormindo no chão de uma praça ao lado da igreja junto com um mar de romeiros vindos a pé, cansados e também felizes. Demoraram para parar de tagarelar, talvez tenham tagarelado toda a noite, mas eu capotei. Muitos estavam ali pela farra, poucos se levantaram quando os sinos tocaram para ir a primeira missa. Desta viagem só me arrependo de não ter ido em frente, seguido até Cabreúva e depois Itu, o que só vim a fazer muitos anos depois e recomendo. A Estrada dos Romeiros, que segue acompanhando o rio Tiete a partir de Bom Jesus do Pirapora, é um dos lugares mais bonitos e agradáveis de se pedalar aqui próximo a São Paulo. Infelizmente a sorveteria de Cabreúva que ficava ao lado da igreja fechou. Tinha um sorvete de milho que era dos deuses.

Demorei para repetir a dose. Passei anos descobrindo a cidade de São Paulo no pedal e só voltando para estrada quase uma década depois quando fui de São Paulo para Cambuquira, exatos 300 km de porta a porta. Creio ter feito em 3 dias pela Fernão Dias: São Paulo - Vargem, Vargem - Pouso Alegre, e finalmente Cambuquira, cada trecho com 100 km numa Cruiser Extra Light com um bagageiro legal e alforjes. Mesmo com muito mais leitura que quando fui para Bom Jesus do Pirapora cometi erros básicos. Sair na louca, no tudo vai dar certo, no vamo que vamo, pode ser empolgante, mas não vale a pena, mesmo que tudo dê certo como 'inesperado'.
O primeiro trecho foi uma loucura, pelos 100 km de cara, pegando a serra de Mairiporã e Atibaia, e depois entre Atibaia e Bragança Paulista uma ventania de frente que me fez pedalar com toda força nas descidas dando graças a Deus que as subidas faziam sombra para o vento. Não me lembro das minhas paradas para comer ou beber, só de ter chegado exausto em Vargem, onde fui até uma vendinha de secos e molhados bem pobrezinha para comer um sanduíche e beber tubaína, já que nem Coca-Cola a vendinha tinha. O sanduíche foi com sardinha em lata, Gomes da Costa. O pessoal tava lá para o mé, que vendia mais que água, uns minduim, fatia de queijo (de minas) e jogar conversa fiada fora. Encostado no batente de uma das portas de madeira fiquei olhando o povo passar pela rua estreita de paralelepípedo e me deleitando com um pôr de sol alaranjado, glorioso.

Lembro bem do quartinho extremamente simples que consegui para dormir em Vargem, pequena cidade ainda com ares de São Paulo do café do século XIX. E da névoa fechada na estrada quando parti. A plantação de morangos em Extrema, uns km depois, que nunca tinha visto pessoalmente e demorei para entender o que era. Da parada para o almoço onde tomei seis Coca Colas seguidas para espanto do dono do restaurante. Eu não fazia ideia do que era hidratação. Um pneu estourado perto de Pouso Alegre que troquei no acostamento e joguei fora no mato mesmo, um absurdo que nunca me perdoei. De ver a placa do trevo na Fernão Dias indicando Campanha, Cambuquira, Lambari, “Enfim!”. De meu espanto com a lonjura dali até Campanha, nunca sentida num carro. E a sensação incrível de prazer quando da estradinha de Cambuquira vi a casa de minha prima Sara no topo do morro, onde fiquei descansando uns bons dias. Cambuquira tem águas maravilhosas, e a comidinha mineira... Bons dias.

Uma semana depois segui viagem indo para Caxambu, Passa Quatro, Aparecida do Norte. As manhas eram muito frias, mas a saída de Caxambu em particular foi um dos momentos que mais senti frio na minha vida. Tive que parar uns quilômetros depois porque tinha as mãos completamente congeladas. A estrada era linda, e espero que continue assim, cercada por imensas árvores, num corredor mágico que lembrava uma entrada interminável de grande fazenda de café. Dormi em Passa Quatro, sai com uma manha mais quente, felizmente, e pedalei bem até o topo da serra, que estava com a vista limpa de todo vale do Paraíba, sem uma nuvem, sem névoa, limpa, linda, maravilhosa, distante. Parei e fiquei olhando aquela imensidão por um bom tempo e não parei de admira-la nem quando comecei a descer com a bicicleta. É uma descida veloz, na época era uma estrada de pista nos dois sentidos, e num destes momentos que me perdi na paisagem, fui para a contramão, e só fui me dar conta quando estava muito próximo do radiador de um caminhão. Fração de segundo. Ainda lembro do rosto assustadíssimo dos dois que estavam na cabine do caminhão, que passaram raspando pelo guidão. Não sei como não bati na caçamba de madeira. Eles sequer tocaram a buzina, talvez porque também estivessem perdidos na belíssima paisagem.

Para minha sorte o trecho final, plano, no Vale do Paraíba, foi pedalado com um vento forte nas costas, tão forte que praticamente não tinha que fazer força nos pedais na última marcha da pesada Cruiser. Na Basílica de Aparecida agradeci, pela viagem e pelo diabo não ter me aceitado lá na descida da serra. Ou teria sido intervenção divina? Quem sabe? Agradeci. A Basílica não estava pronta, mas já era uma obra monumental, belíssima, coisa que Aparecida do Norte, a cidade, definitivamente não era (e continua não sendo). Peguei um ônibus e voltei feliz.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

As coivaras na Amazônia, a loucura generalizada, e a situação assustadora

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Alexandre Garcia hoje pela manha falou na Rádio Eldorado sobre o que é realmente queimada, ou coivara, que é o nome correto do que está acontecendo na Amazônia. A explicação de Alexandre Garcia foi a primeira que dá completo sentido aos fatos nesta gritaria generalizada. No meio deste empurra empurra vira e mexe tem aparecido mapas da floresta e o número de pontos marcados como clareiras e ou fogo é assustador. Como diz Alexandre Garcia floresta úmida não queima, portanto o número absurdo de queimadas já era floresta derrubada antes mesmo de Bolsonaro sair atirando para tudo quanto é lado. Aliás, temos muito que agradecer a Bolsonaro porque sem sua boca mole a escala do desastre ambiental não ficaria tão escancarada. No caso da Amazônia Bolsonaro de fato tirou a pasta de dente ambiental do dentifrícia e não dá para colocar de volta, como diria Dilma. 

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Fica claro que no Governo Bolsonaro tem gente que acha que "meio ambiente é uma ameaça ao nosso desenvolvimento sustentável" como também disse Dilma. Pelo menos aos olhos do mundo o Brasil fez avanços na proteção do meio ambiente. Para nós brasileiros que vivemos aqui não é tão fácil acreditar neste discurso porque nosso esgoto continua correndo a céu aberto e é trivial ver áreas de manancial sendo invadidas sem que nada ocorra. Se a Amazônia é nossa e somos responsáveis nos faltou acompanhar o que aconteceu lá, isto para dizer o mínimo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Nem a educação escapa de roubos e assaltos

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

É difícil acreditar que realmente exista preocupação do poder público com educação quando são tão frequentes as notícias sobre furtos, roubos e até mesmo assaltos em escolas e creches. É impossível e pouco eficiente deixar um policial ou uma viatura em cada escola ou creche, nem é conveniente por diversas razões, mas é possível transformar toda instituição de ensino em alvo intocável para depredadores, ladrões e bandidos. Basta que a reação do poder público seja imediata, inteligente, diligente, incansável até que os responsáveis sejam localizados e encaminhados para um poder judiciário que não deixe qualquer dúvida que educação é território sagrado para todos, sem qualquer discriminação, brasileiros. Até o pior e mais demente bandido sabe onde não pode tocar, quais são seus limites. 


Este texto para o Fórum veio depois de ver que mais uma vez ladrões criaram problemas para uma creche, fato cada dia mais comum. Deprimente.
Outro dia soube que uma pesquisa de década da USP foi arruinada porque roubaram os geradores. Não foi a primeira vez que acontece. A USP foi fechada aos domingos quando ficou absolutamente insuportável a frequência de roubos dentro dos edifícios. Estavam levando de tudo, de computadores a torneiras, em todos edifícios, em todas escolas. 
No mesmo dia que soube do roubo dos geradores funcionários da própria USP falaram sobre porque fecharam a USP para os que treinam ciclismo. Mais uma vez comportamento triste de alguns ciclistas que não é freado pela maioria silenciosa. Perdem todos. A USP espalhou imensas placas com dizeres para ciclistas respeitarem os pedestres. Deprimente. Infelizmente os problemas com os ciclistas não se restringiram só ao conflito com os pedestres. De novo?

Estranho, mas todos querem segurança, mas são poucos os que cobram os outros quando estes cometem pequenas infrações ou incivilidades. Sem atitude generalizada da população nunca teremos a segurança e paz que queremos. É assim em qualquer país civilizado. 

sábado, 24 de agosto de 2019

...no caminho tinha uma pedra...

E não vi a pedra enquanto corria, pedra pequena tenho que dizer, e torci o pé direito e fui para o chão já com dor. Acontece... Ao meu lado um senhor passeava dois cachorros, ele viu tudo e sequer perguntou se eu estava bem. Olhava para o horizonte perdido em sua falta de constrangimento. Nem ele nem o garoto que vinha do outro lado da rua que estava de frente para mim e o tombo. É fato, eu não existo. Tu, ele, nós, vós, eles, todos não existimos. Eu, tu, ele, nós, vós, eles, todos selfie! Olha o sorriso! Click! e se acabou!
"Pula, pula, pula!" gritava o povo em torno do suicida que equilibrando-se sobre a mureta do Viaduto do Chá e olhava com espanto o que ouvia da multidão. Olhava o que ouvia, sim, isto mesmo, faz parte das profundidades do momento utópico do suicídio. Dois policiais a paisana conseguiram segurá-lo pelas pernas, o desceram para a calçada e o encheram de porrada aos gritos "FDP! nós queremos ir para casa e você enchendo o saco da gente!" E a multidão espantada quase saiu para cima dos policias.

"Eu acompanho teus textos e você é incisivo" disse para mim Elcio da Revista Bicicleta. Adorei o complemento, como diriam os americanos. Incisivo, ótima definição. Mas estendido no chão, com uma dor no calcanhar incisiva, meu contexto não despertou interesse em ninguém. A bem da verdade cada vez menos se interessam. Devem estar todos certos. Por outro lado, há a humanidade. Ali estava um corpo estendido no chão, mas nada, e a vida segue.

O Brasil pegou fogo. Ardeu tão quente que até agora sou incapaz de saber se foi pelas fotos ou pela fogueira de São João. De qualquer forma que se danem. Há quem considere as reações e protestos exagerados, que a coisa já foi muito pior. Queimada tem lado ideológico? Deve ter e eu não sei até agora, nem nunca vá saber. "No resto do mundo está tendo queimada..." A meu ver simplesmente não tem que ter queimada seja lá onde quer que seja. Não pode, ponto, aliás, passamos há muito do ponto. 
Unidos venceremos! Até isto foi deixado para trás. Sorria! Selfie! Click! Onde estávamos? Ah, sim, no unidos. Só mais uma, aquela não ficou boa, Selfie! esta está ótima. Onde mesmo? Venceremos. Mas sobre o que estávamos falando?

Não sei mais se tenho o tornozelo ou a cabeça torcida. Provavelmente os dois. Estou sentindo dor sentado num gramado ao lado da ciclovia. As pessoas passam. Querem viver suas vidas. Acharam estranho o dia que se fez noite por causa das queimadas em Mato Grosso, 1.000 kms daqui, mas não estão pouco preocupadas com as queimadas na Amazônia. Estão mais preocupadas com seus direitos individuais, o que dá o grito de alerta sobre Europeus e Americanos invadindo nosso território. Se é nossa amazônia por que não cuidamos dela?
Ciclista passam. Querem pedalar. Talvez eu seja mais um mendigo sujando a paisagem. Nem olham. Querem pedalar. Não importa a cidade, provavelmente sequer consigam entender o que é uma cidade. Tenho certeza que não entendem. Um momento, selfie, esta ficou boa! Sigamos em frente. (será que com este português vão entender?)
Quando mais incisivo, menos interessante, esta é a verdade.
Selfie.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Mais ciclistas morrendo? Como?

Uma série de notícias aponta um aumento nestes últimos seis meses de 69% nas mortes de ciclistas no Município de São Paulo. Numa das reportagens, da Globo, diz "Todas (mortes) em vias sem ciclovias ou ciclofaixas". Noutra reportagem do SPTV, também da Globo, aparece como causas destas mortes acidentes com "ônibus, carro, bicicletas, pedestres". Colisão entre ciclistas e atropelamento de pedestre como causa de morte de ciclista é mais que uma novidade estatística. Ônibus e carros sempre foram declarados pelos cicloativistas como assassinos, agora se deve incluir nesta lista macabra pedestres e, pasmem, bicicletas ou negar a realidade excluindo as bicicletas, o que não seria fora do trivial. Enfim, somos todos iguais. 

Colisão ou incidente entre ciclistas é fato corriqueiro e não é de agora. A liberdade dos ciclistas para fazerem o que bem entendem não tem nenhuma novidade, sempre foi assim, parte por que as informações e a cultura de como conduzir uma bicicleta sempre foram anárquicas, parte pela completa ausência do poder público em promover a educação e a segurança de todos no trânsito, óbvio incluindo ai ciclistas. Eu colocaria mais um fator gerador desta situação fatal: uma engenharia de trânsito quase completamente voltada para a fluidez dos veículos motorizados, o que induz, melhor, não dá outra alternativa a pedestres e ciclistas que inventar caminhos, fazer o que dá na cabeça, e infringir a lei. Nestes pontos acima pode estar a justificativa para várias mortes. Brasil é um dos países campeões mundiais de violência, precisa dizer mais? 

Quanto deste aumento de mortes se deve a acidentes entre ciclistas e atropelamentos de pedestres eu não consegui encontrar. Também não consegui encontrar as causas dos acidentes "todos fora de ciclovias e ciclofaixas". No Infosiga é possível ver um mapa e as localidades, mas não o detalhamento e é justamente o detalhe que importa. Por exemplo, se o ciclista morreu saindo da ciclovia, do outro lado da rua, num ponto de acesso usado por ciclistas e pedestres, mas não sinalizado, para a estatística, também para as autoridades, e principalmente para os leigos, a ciclovia não tem nada a ver com o acidente e a morte. Se o ciclista vinha na contramão distraído no celular e encheu o capo de um carro para muitos o trânsito é que é perigoso e é necessária a construção de mais e mais ciclovias. E aí vai, a ciclovia ainda é a solução para todos males, amém. 

A saber; até mesmo cicloativistas mais aguerridos quando podem estão pedalando fora da ciclovia porque se sentem mais seguros no meio dos carros. Conclua o que bem entender. 

O fato é que aumentar de 14 para 25 ciclistas mortos em acidentes chama atenção, principalmente quando se fala em aumento de 78%, um número alto, 78%. Número bruto sempre impressiona. Isto me lembra aquele livro genial "Como mentir com estatísticas" de Darell Heff, de 1959. Para a verdadeira segurança no trânsito o que realmente importa são as causas precisas dos incidentes e acidentes, sem qualquer sensacionalismo, todos, não só os mortais. 

Ainda segundo a reportagem da Globo número de ciclistas circulando pela cidade aumentou de 304 mil em 2007 para 377 mil em 2017, o que me impressiona pelo crescimento baixo, muito aquém do esperado. Se cresceu só isto as críticas feitas aos 400 km de ciclovias e ao discurso de quanto mais km melhor são mais que pertinentes. 

Terminando: desde que este CTB entrou em vigor fui contra e tentei derrubar a obrigatoriedade da pintura de ciclovias e ciclofaixas, seja vermelha, verde, azul ou qualquer cor. Num país onde não há dinheiro sequer para as coisas essenciais pintar de cabo a rabo é um absurdo. Quis e continuo querendo que se pinte única e exclusivamente, aí com tinta de qualidade e com preço honesto, cruzamentos ou pontos onde seja realmente necessário para a segurança do ciclista, do pedestre e demais condutores. Pintar tudo é ótimo só para político.


Só mais uma coisa: o que se está fazendo com a Globo e seu jornalismo é um nojo. Eles podem ter seus problemas, cometer erros, falar coisas que não gostamos, não concordamos, mas daí chegar ao nível selvagem de críticas que recebe de todos lados é um absurdo. Estranho, mas é a única emissora brasileira que de fato expõe e discute o Brasil real. Sem esta discussão caímos no obscurantismo que nos encontramos e não é de hoje. A Globo toma porrada até de quem foi "beneficiado" por sua programação. Não tenho TV paga, portanto dos quase 20 canais da TV aberta, pelo menos uns 15 tem um forte viés ou são puramente religiosos, ou ainda são canais oficiais da política, o que resumo como tragédia. A diferença de qualidade entre a programação da Globo e da maioria das emissoras é abissal. Infelizmente as TVs educativas, incluindo a Cultura, estão tendo seus orçamentos cortados, uma tragédia. 
A meu ver não só é a matéria da Globo sobre as mortes de ciclistas de São Paulo que tem buracos. Todos têm, principalmente a população que não tem o menor interesse pela verdade. Neste sentido um morto a mais ou a menos é só matéria para notícia

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Mais ciclistas, menos vendas

Não é novidade que as bicicletarias NÃO vão bem das pernas. O negócio em si não é para iniciantes, sempre foi difícil, muito trabalhoso, cheio de manhas, para abnegado ou apaixonado por bicicletas. Mas passar dois meses sem vender uma bicicleta sequer e quase não ter movimento na oficina é uma reclamação que nunca tinha ouvido nestes mais de 40 anos de convívio com bicicletas e afins. A saber, a ancora de sobrevivência das bicicletarias está na oficina que via de regra representa mais de 70% dos lucros. 
Reflexo de um país que vai de mal a pior das pernas? Também, mas não só. Reflexo das bicicletas comunitárias por aplicativo afirmam alguns donos de bicicletarias. Podem até estar certos, afinal se cidadão que só se transportar não faz sentido pedalar a própria bicicleta, um belo investimento que pode ser facilmente roubado. Tem bicicleta própria quem gosta de bicicletas, gosta de pedalar, corre o risco em nome do prazer, e até gosta de passear na bicicletaria só para xeretear. 

Eu não tenho dúvida que o pico de paixão pelas bicicletas que agora arrefece teve um tanto de moda. Nossa! Como foi chique sair pedalando! Nem todos que experimentaram bicicleta acharam tão bacana assim e deixaram de pedalar. Num dos países nórdicos, Dinamarca, se não me falha a memória, uma pesquisa entre usuários da bicicleta apontou que 27% só pedala porque não tem outra opção. É doce ilusão de apaixonado achar que quem experimenta gosta. Nem com sexo é assim, porque seria com a biciclea? Um amigo ponderou que bicicletas por aplicativos que não formam ciclistas e isto afeta vendas. Pode ser, pode não ser, vai lá saber. 

O fato é o seguinte, um dia todas estas maravilhas disponíveis por aplicativos vão ficar mais caras, provavelmente bem mais caras. É óbvio que tudo está subsidiado para ganhar escala. Pegue as Yellow Bikes aqui de São Paulo, pense no preço da bicicleta, da operação, da estrutura de funcionamento, na depredação, será que o preço por viagem cobre? Tem um tempo previsto para zerar a operação e começar a dar lucro, mas com um preço tão baixo quanto tempo levará? Quem aguenta financeiramente um tranco destes? Qual é o cálculo, qual é a ideia? Se é tão importante para a questão de mobilidade das cidades por que nós, população, não sabemos como funciona de fato? Não se trata de transporte público? Com tudo que acontece nos transportes de massa, caixa de pandora na vida da cidade, agora vamos ter mais uma caixa de pandora gerada por aplicativos? É transporte público e deveria ter números públicos. Afinal, fora as vendas de bicicletas, quanto está custando para a população estas bicicletas públicas. 

Uma matéria da revista Time sobre o aumento do custo para os usuários das bicicletas elétricas públicas em São Francisco, Califórnia, dá o sinal de alerta, ou de partida, para esta mudança de precificação destes serviços de aplicativos. Bem-vindos a realidade. 

É óbvio que quando estas mobilidades por aplicativos alcançarem um nível que se tornem indispensáveis o preço vai mudar. Fez, faz e fará parte de qualquer negócio, pela eternidade, amém. A era digital não escapa desta lógica. A quase gratuidade viciante começou a desaparecer. Aliás, não só a gratuidade, a privacidade também, mas esta é outra história. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Situação de emergência: ações corretas

Esta mensagem recebida pelo Whatsapp é um alerta necessário e fez com que me lembrasse do que aprendi sobre situações de emergência.

Aviso do SAMU

A Equipe das ambulâncias de emergências médicas percebeu que, muitas vezes, nos acidentes da estrada, os feridos têm um celular consigo. No entanto, na hora de intervir com estes doentes, não sabem qual a pessoa a contatar na longa lista de telefones existentes no celular do acidentado. Para tal, o SAMU lança a ideia de que todas pessoas acrescentem, na longa lista de contatos, o NUMERO DA PESSOA a contatar em caso de emergência. Tal deverá ser feito da seguinte forma: 'AA Emergência' (as letras AA são que apareça sempre este contato em primeiro lugar na lista de contatos). É simples, não custa nada e pode ajudar muito ao SAMU, ou a quem nos ajuda, a nos ajudar. Se lhe parecer correta a proposta que lhe fazemos, passe esta mensagem a todos os seus amigos, familiares e conhecidos. É tão somente mais um dado que registramos no nosso celular e que pode ser a nossa salvação. Por favor, não destrua esta mensagem! Reenvie a quem possa dar-lhe uma boa utilidade.

JOSIANE TROCATTI
Coordenadora Administrativa 
SAMU - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência 

OBS.: Repassem. Afinal trata-se de uma informação de muita utilidade.

Todo celular tem uma função telefone de emergência que não depende do desbloqueio do celular.
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Bem no começo do mountain bike, em 1989 ou 1990, o HU da USP deu um curso sobre primeiros socorros para nós, ciclistas. Não lembro nada do que foi dado, mas lembro perfeitamente do fechamento quando se reuniram todos os palestrantes a nossa frente, agradeceram nossa presença, e para fechar um deles perguntou ao pequeno e interessado público o que tínhamos aprendido? Veio uma resposta daqui, outra dali, mais outra, e quando terminamos o palestrante deu a fala final para não deixar qualquer dúvida: "Quando tiver uma emergência não faça nada, não toque na vítima, chame um médico (socorrista)". Nada mais sensato. É impossível gravar informação tão detalhada e precisa em um simples curso.

Lá por 2007 fui convidado a dar uma palestra para socorristas (de estradas) em Araçatuba, que acabou sendo uma das experiências mais ricas de minha vida. Fui alojado no alojamento dos socorristas, onde tomei café da manhã, almocei e jantei com eles ouvindo e aprendendo muito sobre acidentes e os cuidados para se resgatar ou salvar vidas. Definitivamente não é para qualquer um.
Muito tempo depois um amigo, Álvaro, que foi médico de urgência e emergência, me deu a cronologia correta para situações de emergência:
  1. Socorrista é quem está habilitado para fazer o primeiro atendimento. Esta primeira etapa tem procedimentos muito específicos e é crucial para o bom resultado do tratamento do paciente. 
  2. médico de urgência ou emergência recebe o paciente do socorrista no PA (Pronto Atendimento, o velho Pronto Socorro) e dá continuidade ao tratamento. 
  3. só depois de passar por estes dois estágios e quando chegar ao hospital propriamente dito é que o paciente vai ser tratado por um corpo médico que como leigo chamo de normal, incluindo ai especialistas em UTI (se for o caso), que não é emergência, mas Unidade de Tratamento Intensivo.
  4. Auxiliares e enfermeiras têm treinamento específico para cada estágio de atendimento
Quebrar esta ordem pode resultar em mais problemas ou mesmo a morte do acidentado.
Quer ajudar?
  1. Chame os socorristas o mais rápido possível.
  2. passe as informações pedidas com calma e precisão
  3. caso necessário ou faça sombra ou cubra o corpo se a temperatura for baixa.
  4. não toque nem deixe que toquem no acidentado
  5. se possível facilite a chegada da ambulância ou Corpo de Bombeiros
  6. mantenha todos longe do acidentado e da ambulância enquanto os socorristas dão atendimento.
  7. pergunte aos socorristas se precisam de algo e se querem que você faça a chamada de emergência
Um tempo depois do curso no HU da USP teve uma etapa do Campeonato Brasileiro de Mountain Bike. No sprint da largada do feminino profissional a sapatilha da ciclista que estava na ponta soltou do pedal e ela capotou muito feio de frente, batendo a cabeça e apagando exatamente na minha frente.  Passado o pelotão corremos eu, um médico e um dos papas da Federação de Ciclismo para ela, o médico se apresentou e quis muda-la de posição para transporta-la para um hospital de qualquer jeito. O cara da Federação queria fazer o mesmo. Impedi que tocassem nela quase fui agredido pelos dois, com o médico aos berros na minha orelha "Sou médico, sou médico, sai daí" e o cara da Federação urrando que se ela morresse eu seria responsável. Rapidamente chegou a ambulância com os socorristas, que imediatamente afastaram o médico meio que a força. Continuei protegendo a acidentada e só ai veio o socorrista e com calma disse "Deixa com a gente. Parabéns pela atitude". Até hoje me emociona esta história porque muito tempo depois vieram me contar que a ciclista só sobreviveu e não ficou paraplégica porque foi manipulada corretamente, o que só um socorrista sabe fazer. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Uma viagem de automóvel para mudar minha história

Um dia voltei de Cambuquira, sul de Minas, para São Paulo, de carona com um primo e seu fusquinha 1300 vermelho, novo, todo original, brilhando e limpérrimo. Não me lembro exatamente a data, mas deve ter sido lá por 1975. Foi a viagem que mudou da água para o vinho, e dos bons, meu entendimento sobre como usar um carro, como fazer uma viagem e aproveitar a paisagem. Ele dirigiu a viagem inteira com uma técnica primorosa e dentro dos limites de velocidade da estrada, portanto devagar, bem devagar. Na época os limites de velocidade eram bem mais baixos que os de hoje, a fiscalização era pouca, e o pessoal sentava o pau, como se dizia então. Mas meu primo freava com suavidade, reduzia as marchas com perfeição fazendo punta-taco sem tranco, tangenciava, acelerava mantendo velocidade constante; pilotagem invejável. Os primeiros quilômetros depois de Cambuquira pensei que iria ficar maluco porque ele não desembestava, mas aos poucos fui entrando no ritmo e adorando a paisagem, a conversa, o passeio, o sentir-me completamente seguro, a rica paisagem verde. Na época dirigiam numa competição generalizada para ver quem chegava mais rápido, quem era melhor no volante, quem era o bom, incluindo aí eu próprio que adorava velocidade e perigo. Até aquele momento para mim quanto mais loucura melhor, foco na próxima curva, na aproximação, na freada, a tangência, ultrapassagem, deixar o da frente para trás, coisas de corridas, de pista, de pilotos profissionais. Passados uns 30 km dentro do fusquinha vermelho, um pouco depois de Campanha e próximo a rodovia Fernão Dias, descobri que em torno existia vida, muita vida, muita beleza. Quando chegamos em São Paulo desci do carro maravilhado com o que tinha acontecido, uma viagem um pouco mais demorada, mas plena. Descobri e amei a outra possibilidade que o carro oferece: ter liberdade e poder ver a paisagem que existe além do asfalto com calma e viver.

E a partir desta viagem as estradas nunca mais foram as mesmas. Olho a paisagem com vontade de parar em cada canto. Numa das minhas primeiras viagens de carro para Buenos Aires com meu avô, Arturo Raul, paramos no início da Serra do Café num posto de gasolina que não existe mais, mas que ficava na primeira descida longa entre o asfalto e um córrego com floresta ao fundo. Lá tirei uma foto 4X4 PB com uma Kodak Brownie que foi revelada e sempre esteve por perto como um prenuncio do que me transformaria. Não sei onde a foto em papel está, mas a imagem está vivíssima em mim até hoje, assim como outros pontos das estradas que passei.

sábado, 10 de agosto de 2019

Pedalar as estradas conurbadas ou a periferia

Acabei fugindo de São Paulo e de meus problemas antes que estourasse. Peguei a bicicleta e fui mais uma vez para Sorocaba pedalando. Em vez de pegar a Rodovia Castelo Branco, fui pedalando por dentro, na avenida quase plana que acompanha a linha do trem que passa por Osasco, Barueri, Jandira, Itapevi, última estação da CPTM, chegando até Mailasqui. Dali para frente mais 38 km até Sorocaba pedalando pelo ótimo acostamento deste trecho verde e tranquilo da Raposo Tavares. Muito melhor e mais tranquilo que imaginava. Quem me fez descobrir este caminho foi o Google Maps. Já conhecia parte do trajeto até o Shopping Barueri pela av. Altino Arantes, de onde se tem aceso à rodovia Castelo Branco, evitando sua área mais conurbada e sem acostamento, muito perigosa para ciclistas. A um milhão de anos fui pedalando para Bom Jesus do Pirapora pela Castelo, mas então era uma simples rodovia moderna com acostamento; não esta loucura de mil pistas e correria sem parar de hoje. Só depois de Santana do Parnaíba a Castelo volta a ser uma estrada normal e é possível pedalar num acostamento descente e seguro. O caminho que fiz desta vez é por , portanto tem carro, ônibus, caminhão, não tem acostamento, mas tem espaço para o pessoal desviar, e desviam, e o asfalto é limpo, sem restos de pneus de caminhão que furam pneus, o que é uma grande vantagem. 

Medão! Talvez não sem razão nós que vivemos no oásis da área central de São Paulo, o Centro Expandido, tenhamos medo de ir para a periferia. Num passado distante não tinha medo, hoje tenho. "Será que serei assaltado?" eis o medão. Pensando racionalmente e lembrando o que me ensinaram - assaltante vai onde tem muita mercadoria (bicicletas e ciclistas) para assaltar; não fica esperando que passe um trouxa sabe-se lá quando - a possibilidade de ser assaltado enquanto cruzo a periferia é bem menor que ficar pedalando próximo da USP, por exemplo. Cruzei a periferia sem qualquer problema.

A pergunta que me fazem é porque não pegar um carro e começar o pedal onde a estrada é mais tranquila. Primeiro porque não tenho carro. Segundo porque estas estradas que hoje estão conurbadas e viraram avenidas fazem parte da minha infância e juventude. Passar por elas era sempre a certeza de um grande prazer, tanto pela paisagem quanto pelo que me esperava no fim da viagem. E finalmente, se quero construir uma cidade melhor tenho que entender sua verdade. Estradas conurbadas são as principais artérias da vida da cidade e hoje estão entupidas, maltratadas, perdendo sua função, com futuro incerto, qualquer que seja ele. Por que não ir lá em bicicleta para ver com calma como realmente estão e aí pensar, ou sonhar, o que se pode fazer para melhora-las? "É muito perigoso, muito tenso!" podem dizer, mas acho menos tenso e perigoso que pedalar numa ciclovia lotada em horário de pico aqui, em Londres, Munique ou Amsterdam, por exemplo. "É feio!", sim, é feio, mas é a realidade, ou melhor, está assim, não precisa ficar assim. "Tudo tem jeito, basta querer e realizar" repetia minha velhinha mãe. Estradas conurbadas são o cartão de visita e as boas vindas de qualquer cidade. Que cidade você quer? O que você sente na volta para casa quando chega de viagem internacional no GRU?

Não, não estou estimulando ninguém para sair pedalando em estrada conurbada como a Dutra, Castelo, Anhanguera, Raposo Tavares, de todas talvez a mais complicada. Quero deixar um pingo de curiosidade sobre como sair pedalando de São Paulo para o interior. Será que a única alternativa é o caminho dos carros? Minha resposta é negativa, não, não é. Tem caminho alternativo, tem trecho que dá para pedalar na conurbada, desmistificando dá para ir. Um mundo de ciclistas trabalhadores vão; por que nós não podemos ir?

A próxima vez vou repetir, depois de décadas, ir pela Estrada dos Romeiros, ou, Santana do Parnaíba, Bom Jesus do Pirapora, Cabreúva, Itu, Sorocaba, viagem de dois dias, um até Itu e os pasteis maravilhosos da Lanchonete Tonilu, ao lado da igreja Matriz, durmo, e dia seguinte sigo para Sorocaba, talvez pela estrada velha, sem Castelinho. 

Sair pedalando de São Paulo é um outro babado.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Colombiano vence o Tour de France e importância do esporte amador popular

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Ontem pela primeira vez na história um sul americano venceu o Tour de France, a prova de ciclismo mais importante do planeta. Três outros colombianos mais um argentino foram destaque. Nenhum brasileiro participou nesta ou nas edições passadas, mesmo tendo 40 milhões de bicicletas circulando no dia a dia das cidades do Brasil. Como falar de ciclismo, um dos esportes mais populares do mundo, quando até nosso futebol, paixão nacional e outrora o melhor do mundo, anda tão mal das pernas? Falando da reconhecida importância da prática esportiva para o bem estar da população. Ter mais de um quarto da população pedalando e não gerar um ciclista de ponta é uma vergonha. Podem fazer o que quiser, reformas econômicas ou mudanças políticas, mas este país não mudará enquanto não tivermos politicas públicas preventivas realistas, sólidas e perenes. Ter uma farmácia a cada esquina ou ver o negócio da segurança crescer vertiginosamente sem parar é sinal claro e inequívoco do desprezo das autoridades pelas ações preventivas mais básicas. De nada adiantará ter hospitais e policiamento tão cacarejados por políticos e autoridades se não tivermos esgoto, educação e a disseminação da prática de esportes, essenciais para a formação de qualquer país decente. A Taça das Favelas de futebol foi um completo sucesso, ocorrendo em clima tranquilo, familiar, até nas finais; completamente diferente da brutal violência típica da Copa São Paulo de Futebol Junior ou de qualquer outro jogo de campeonato oficial. Esporte amador, de raiz, é disputa que gera mais que campeões, gera paz, convívio social, transforma uma comunidade, uma cidade, um país. Egan Bernal, que acaba de vencer o Tour de France, colocou a Colômbia em evidência em boa parte dos jornais e noticiários do primeiro mundo, os investidores, fazendo uma propaganda para seu país que não tem preço. Ídolos são inesquecíveis, referência do bem. E é no esporte amador que se forma ídolos, se forma um país. Políticos e autoridades passam. 



sexta-feira, 26 de julho de 2019

Gentileza gera gentileza

Hoje pela manhã mandei uma rosquinha, aquele sinal que se faz com a mão, vulgo vai tomar no cu, para uma mulher que dirigia um carro. Fiquei bem mal. Tive que ir para o meio da rua porque tinha um carro estacionado na ciclofaixa e ela buzinou para que eu voltasse para o lugar dos ciclistas. Estava pedalando na velocidade do trânsito, ela estava longe, não atrapalhei ninguém, e estava com saco na lua por causa de algumas encheções familiares. O ponto é que ela simplesmente não tem nada a ver com meu mau humor e como motorista pode reclamar que estou fora do espaço que foi criado para ciclistas. Amigos e amigas ciclo ativistas gritaram e repetiram a exaustão "lugar de ciclista é na ciclovia"; pois então, a senhora que dirigia o carro estava absolutamente correta. Também está no CBT que diz que havendo local próprio para circulação de ciclistas é lá que devem circular. Eu saí um pouco antes do carro estacionado sobre a ciclovia, o que não deveria ter feito segundo o CTB. Não há o que discutir, menos ainda xingar. Aliás xingar está tipificado como infração no CTB e em outras leis. 
Mas sabe porque fiquei mal mesmo? Primeiro porque estupidez com o outro não serve para nada. Quando eu, como ciclista, tenho uma reação destas crio problema para outros ciclistas. A motorista provavelmente passará pelos próximos ciclistas que encontrar sem a menor boa vontade e simpatia. Naquele momento, com a reação que tive, fui para a motorista o representante de todo e qualquer ciclista. Não foi o Arturo que mandou uma rosquinha, mas foi um ciclista. "Ciclistas são todos iguais" ouço todos dias. Assim como "Motoboys são loucos", "Motoristas são assassinos", "A pior raça que existe são os taxistas"... e assim vamos, só depende de que lado se está. Os outros são sempre os ruins e nós os bons. Será? 
"Gentileza gera gentileza" deixou grafitado num viaduto do Rio de Janeiro José Datrino, o Profeta Gentileza. Nada mais verdadeiro, nada mais eficiente, nada mais coletivo. Trânsito é um jogo coletivo. O valor de reconhecer os próprios erros faz milagres. Quer pedalar seguro gere gentileza. Isto contamina e vai ajudar a sua segurança e de todos ciclistas.
Domingo passado Teresa e Vera passaram pela mesma situação na av. Sumaré, onde está cada dia mais difícil pedalar na ciclovia, tomada por tudo e todos, até por bicicletas. Quando pararam a frente conversaram com o motorista explicando porque se sentiam mais seguras junto aos carros. O motorista ouviu e foi embora em paz. Gentileza gera gentileza. 
De minha parte ainda quero encontrar a motorista para pedir desculpas. Nunca é tarde.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Depois dos motoboys, agora os entregadores por aplicativos.

Painel do Leitor
Folha de São Paulo

A telefonia era cara e ineficiente, a internet não existia, demorou para chegar e chegou cara, lenta e imprevisível; a eterna burocracia e seus documentos sem sentido necessitando despacho urgente que ficavam parados no trânsito paulistano sem previsão de recebimento; tudo acabou gerando o fenômeno dos motoboys. Foram fundamentais para manter São Paulo caminhando, mesmo demonizados por buscar a rapidez que lhes era exigida ou xingados e acusados de irresponsáveis quando acabavam estendidos no asfalto parando mais ainda a cidade. O número de acidentados e os consequentes custos de parar a cidade e do atendimento nos hospitais foram e continuam sendo absurdos, mas nunca foram seriamente olhados pela simples falta de opção. Que suas famílias e amigos chorem seus acidentados e mortos, pouco importa; o povo, todo ele, quer agora, já, imediatamente.
Boa parte dos entregadores de aplicativos é menor de idade, portanto não tem sequer a formação básica para o trânsito que a CNH dá. Pela impetuosidade típica da adolescência e por realizarem suas entregas em bicicletas (ou qualquer coisa que sirva para transporta-los) sentem-se e de fato estão livres de qualquer regra, das básicas de cidadania às leis vigentes. Leis estas que ainda estão sendo estabelecidas para aplicativos e seus entregadores, que só querem trabalhar, mesmo que completamente desprotegidos. São entregadores autônomos, responsáveis pelos seus ônus. Que suas famílias e amigos chorem seus acidentados e mortos, pouco importa; o povo, todo ele, quer agora, já, imediatamente, hoje muito mais rápido que antigamente, afinal o tempo do celular não mente.

Quem já acompanhou vida de bike courier, opção mais barata que motoboys, sabe que a maioria acha que sabe pedalar, pedala em bicicleta errada, prejudicial para músculos e articulações, faz longas e insanas quilometragens diárias, se alimenta e hidrata mal, se tem tempo e dinheiro para isto. Boa parte deles acaba machucado ou doente, isto quando não se acidenta em colisão ou caindo num buraco. Muitos são autônomos, quando são; precisam trabalhar, o resto é resto. Quem se importou? Quem se importa?
Bicicleta é um dos veículos mais práticos e inteligentes criados pelo homem. Com bom uso oferece inúmeras vantagens, da rapidez para trajetos curtos e médios ao bem estar, a qualidade de vida. Como tudo que diz respeito a cultura no Brasil, a da bicicleta e do pedalar corretos é insipiente, muitas vezes cheio de conceitos básicos errados. O que está acontecendo com estes meninos é um absurdo, mas quem se importa?


Artigo na Folha de São Paulo sobre a situação sobre os entregadores autônomos que estão por todos lados.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Fez bem no passado, estará bem no futuro

Comprovei que estava ficando velhinho quando numa largada de prova fui ultrapassado por uma gurizada que mais pareciam foguetes. A princípio não entendi nada, mas caiu minha ficha e comecei a gritar as gargalhadas para aquela massa de foguetes "Vocês não respeitam os mais velhos?" Era o que me restava. Em seguida começou a chuva, ficou escorregadio, e a situação ficou de igual para igual, ou melhor para mim com os guris apanhando do barro ou indo para o chão.
Hoje, até com os pentelhos brancos, me divirto de vez em quando dando chinelada na molecada e em alguns marmanjos com suas bicicletas caras. Ah! a experiência! Lógico que não dá para ir muito longe, brincar por muito tempo, mas dá para perturbar o outro, o que acaba lavando a alma. Tenho meu momento, meu ego sorri, volto para casa leve porque o velhinho ainda está vivo e bem. 
Pedalar é a arte da suavidade, suavidade é técnica em estado de arte, só se chega a arte com disciplina trabalho e trabalho, disciplina é autoconhecimento e autorrespeito, enfim maturidade.
Sou menos disciplinado, ou menos neurótico com disciplina, do que era quando tinha lá meus 30 e poucos anos. Aos 30 olhava demais a técnica de pedal e menos do que deveria para o respeito ao próprio corpo. Abusei, sem dúvidas, e abusar é uma besteira. E algumas vezes fiz menos que poderia por erro de avaliação. Talvez porque ter boas informações disponíveis não era tão fácil na época. Hoje não me resta dúvida que ficar no meio termo, o do bem estar, faz milagres. De qualquer forma só tenho que agradecer por ter sempre procurado pedalar da melhor forma / qualidade possível. Quando se cuida ou faz bem no começo se tem bons resultados no final. Meu corpo agradece os cuidados tomados no passado assim como meu pedal agradece o respeito à técnica que sempre tive.

Do Budismo para o ciclista:
  1. compreenção correta
  2. aspiração correta
  3. fala (comunicação) correta
  4. conduta correta
  5. meio de subsistência correta
  6. esforço correta
  7. atenção correta
  8. contemplação correta

quarta-feira, 17 de julho de 2019

erros de técnica de pedal

O que é conduzir bem um veículo? Para quem teve sempre uma ligação próxima com automobilismo de competição a resposta é relativamente fácil. Envolve uma série de fatores que podem ser resumidos em ter um veículo em prefeito estado de funcionamento e usar de técnicas de condução corretas, o que por sua vez quer dizer respeitar a máquina, sua condição física e psicológica e finalmente o ambiente onde você está. Prever correto, olhar correto, pensar correto, agir correto; parafraseando princípios do Budismo. Quem respeita estas regras dificilmente se envolve ou é responsável por acidentes.

Qualquer veículo mal conduzido é perigoso. E não tenha dúvida que é, principalmente em veículos de equilíbrio precário como bicicletas. No pedal é crucial respeitar regras básicas ou se acaba no chão. O exemplo mais simples: saber parar corretamente a bicicleta; ou seja, frear com suavidade e manter os pés bem apoiados nos pedais até a bicicleta de parar por completo. Segundo médicos de PA (Pronto Atendimento, o antigo Pronto Socorro) o número de crianças acidentadas por não saber parar corretamente a bicicleta é grande. Acaba sendo a mesma situação que quando desce do skate em velocidade. Chão feio!
Amo pedalar e como qualquer ser humano normal prezo não tomar tombo ou sofrer acidentes. Enquanto estou pedalando fico atento a minha qualidade de pedal e a meus erros. Pedalo seguido a 42 anos e sei que tenho muito a aprender. Li muito. Não tive vergonha de ouvir recomendações e até mesmo broncas de ciclistas profissionais respeitados, e de seus técnicos. Por sorte tive uma preciosa base técnica vinda do automobilismo (e motociclismo) que me ajudou muito. Boa parte das técnicas são aplicáveis para todos tipos de veículos. Antecipação, suavidade e respeito aos limites são as mais preciosas.
É impressionante a baixa qualidade de pedal dos ciclistas normais que circulam pela cidade, aqueles que pedalam para se transportar e os que pedalam por lazer. Infelizmente a maioria não aceita que você fale "a" sobre qualquer problema, até mesmo os mais gritantes. Pena. Ou triste, muito triste. 

Quanto mais sei, mais sei que nada sei.
Sou humano, brasileiro, tenho ego como todos, sou um tanto cabeça dura, em parte por minha larga experiência. Mas a cada dia tenho mais certeza que nada sei, e este é o bom caminho para tentar pedalar cada dia com mais qualidade.

Bom pedal

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vergonha! A Prova 9 de Julho de 2019 não foi realizada.


Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Hoje pela manha bem cedo deveria ter acontecido mais uma etapa da Prova 9 de Julho, uma das mais tradicionais provas de ciclismo do Brasil. Não aconteceu. É uma vergonha, e não só para o esporte ou para o ciclismo. Os organizadores da tradicional prova alegaram que não tiveram condição de realizar a edição deste ano e ponto final, mais um ano sem 9 de Julho. Para quem não sabe ou nunca esteve lá para ver, não é uma prova de ciclismo qualquer, mas um evento público tradicional que faz parte da história não só do ciclismo, mas de São Paulo. Já foi primeira página de jornal, já foi transmitida por rádio e TV, teve grande público, como de final de futebol, quase morreu, mas vinha crescendo firme nestes últimos anos, com um número para lá de expressivo de participantes profissionais e amadores, e um público assistente nas ruas a cada ano mais presente e entusiasmado. Os custos para realização de uma prova destas não é pequeno e envolve entidades privadas e a Prefeitura. Agora, os custos de não realizar uma 9 de Julho ou qualquer outro evento de cunho social e histórico é imenso. Só se tem uma estrutura social estável, que vive em paz e constrói bom futuro, quando suas tradições são respeitadas. Mais ainda, no exato momento que se discute o futuro das mobilidades ativas em São Paulo, suspender "o" evento ciclístico do ano é um contra-senso sem tamanho. A bem dizer é uma burrice inominável.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O ciclista trabalhador na contramão não tem outro caminho

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

É impressionante a quantidade de ciclistas passando pela contramão e na estreita calçada na av. Cidade Jardim esquina com a rua Dr. Mário Ferraz, a maioria trabalhadores de baixa renda voltando para casa. Moram do outro lado do rio e só conseguem ter acesso ao Centro Expandido, onde está a maioria dos empregos, por ai e assim. A enorme ponte estaiada, orgulho paulistano, está exatamente em frente a grande favela Real Parque, poderia dar acesso ao corredor de ônibus e ciclovia Berrini, mas simplesmente não permite a passagem de pedestres e ciclistas. A ciclovia do rio Pinheiros que passa sob a ponte também é inacessível ai. O número de ciclistas indo ao trabalho pela contramão da Marginal Pinheiros entre a favela e ponte Cidade Jardim também impressiona. Para os pedestres resta ou longa caminhada até a ponte mais próxima que está longe ou encarar lotados ônibus. CPTM também está do outro lado do rio. É assim para boa parte dos moradores do lado de lá do rio Pinheiros. O problema é mais ou menos igual em todo São Paulo, mas quem se interessa? A mobilidade paulistana é tratada pontualmente, como no caso recente dos patinetes, e não com uma visão séria, realista, para todos, que vise resolver problemas macro que são ou vão se tornar crônicos.


A ciclovia rio Pinheiros não só poderia, como deveria, ter acessos em todas as pontes para evitar que ciclistas se lancem ao perigo da Marginal, o que fazem hoje e é fácil de comprovar. Várias questões dificultam a instalação destes acessos: custo e falta de espaço talvez sejam os principais O poder decisório olha qualquer projeto pelo lado custo / benefício. Não temos ainda a cultura do custo hoje / benefício futuro no que diz respeito a mobilidade. As demandas imediatas são enormes, como a dos transportes de massa, e no meio da crise brutal que vivemos a decisão cai sobre o prioritário urgentíssimo e nada mais. Acessos e pontes para ciclistas custam muito e são difíceis de justificar para o povão. "Vão gastar com bicicleta e não vão consertar buracos no corredor de ônibus", para citar um mínimo exemplo.

Alguns acessos poderiam ser resolvidos de maneira não convencionais, sem grandes gastos ou obras, o que o poder público não costuma aceitar por razões legais e outras mais. Infelizmente há um forte corporativismo em torno da mesmice, e bota mesmice nisso. Bom exemplo pode ser do acesso a ponte e avenida João Dias, hoje uma realidade criada pelos ciclistas. Eles abriram um buraco na cerca, passam por estreito espaço entre as paredes da ponte, pulam esta parede e cruzam dois acessos de alta velocidade da marginal para bairros de baixa renda: Jardim São Luís, Jardim Ângela, Capão Redondo, Campo Limpo, Taboão... O número de ciclistas aí só faz crescer. Houvesse flexibilidade por parte do poder público seria possível oficializar este acesso com obras e ações de engenharia de trânsito, mas não há, e estamos a um ano luz disto. Os ciclistas continuarão a se arriscar muito neste local para seguir viagem com segurança e rapidez pela ciclovia, que é a maior parte de seus trajetos, num cálculo próprio de custo / benefício bem sensato. Situações como esta se repetem por toda cidade, com diversos graus de periculosidade. 

Na outra ponta da ciclovia do rio Pinheiros, ao lado da ponte Jaguaré, uma passarela que ligaria ao Parque Villa Lobos e ao Jaguaré e Osasco, caminho de vários trabalhadores, permanece desmontada e jogada ao relento faz muito. Está debaixo do viaduto que cedeu faz uns meses, em frente ao Parque Villa Lobos, por onde acessariam os ciclistas. Talvez quando for consumida pela ferrugem digam que não serve mais e abram uma nova licitação para um novo acesso, o que não seria o primeiro caso do gênero.

"Todos somos pedestres", sempre diz Reginaldo Paiva

Mesmo todos sendo pedestres o poder público não foi e continua não sendo capaz de resolver problemas crônicos dos pedestres, que são inúmeros, dos mais diversos tipos, alguns graves.
As calçadas que ligam a Estação Vila Olímpia CPTM, que está na Marginal Pinheiros, ao interior do bairro são muito estreitas e obrigam os pedestres trabalhadores a caminhar no meio das também estreitas ruas. Em horário de pico o que se vê é um absurdo que demandaria medidas urgentes, mas nada. Ao lado da estação há um acesso à ciclovia do rio Pinheiros por meio de uma perigosa escada que já causou vários acidentes com ciclistas usando sapatilha com taco. Também é óbvio que os ciclistas entram em conflito com os pedestres. O detalhe é que a rua é indicada como um dos acessos dos carros à marginal. Enfim, viva o caos. Que se dane os pedestres.

Pedestres e ciclistas têm seus caminhos naturais que na medida do possível devem ser respeitados. Normalmente é o caminho mais curto e sensato. As cidades onde a mobilidade ativa está sendo construída com bons resultados dá prioridade a pedestres e ciclistas, nesta ordem. Aqui não. O fato é que nossa engenharia de trânsito ainda é obsoleta, rodoviarista, muitas vezes perigosa, muito perigosa. E estou sendo bonzinho.