segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Peço desculpas

Estou lendo dois livros em paralelo, "A Última Guerra Europeia" e "a elegância do agora". Está sendo uma experiência muito forte, não raro dolorida.

"A Última Guerra Europeia" de John Lukacs, de 1976, deveria ser leitura obrigatória para toda e qualquer pessoa que saiba o significado da palavra cidadão. Muda completamente a compreensão do que foram os primeiros dois anos da Segunda Guerra Mundial, do que realmente aconteceu, seus fatores humanos, e por conseguinte faz entender quem somos nós hoje. O olhar para a loucura que estamos passando no planeta hoje se abre, fica compreensível. A história se repete em ciclos, e tristemente lá vamos nós. Somos todos humanos, nossos erros se repetem.
Não ter lido "A Última Guerra Europeia" na época de seu lançamento, 1976, foi um crime que cometi para minha inteligência que não consigo digerir bem. Eu teria sido outro pela vida? Não sei. Não sei se teria tido maturidade para entender a extensão do que está ali, mas provavelmente não terminaria o livro impune.


"a elegância do agora" de Costanza Pascolato (até o meio do livro) é uma bofetada no que fui como ser social. Sua leitura tem sido duríssima para mim que fui um personagem socialmente "esquisito", por assim dizer, ou "fora da curva" para suavizar. Fui e sou fora do padrão, ou o que bem entendam, mas a lembrança de minha vida e dos convívios me fazem crer que sou mais assertivo ao dizer que "o Arturo foi esquisito".
Meus pecados sociais foram inúmeros, infinitamente mais que os que gostaria de lembrar. Tenho profunda inveja de quem teve a capacidade de fluir pela vida sem causar espirros de água ou ondas. Não raro fui um mar de ressaca, reconheço com dor.
A maturidade pode ser um milagre. Amadurece quem abre os olhos. Espero que esteja amadurecendo, espero. A dúvida é minha salvação e meu progresso digno. Pelo menos para meus pecados a cada dia tenho os olhos mais abertos, e é óbvio que não posso voltar atrás, mas como gostaria. Aqui se faz, aqui se paga.
Peguei este livro da Costanza Pascolato numa destas casinhas de distribuição de livros que ficam no meio de uma praça. Não peguei para mim, mas para minha neta. Por curiosidade abri e li algumas linhas. De cara numa delas, logo no início, tomei uma tijolada em cheio no meio da minha testa:


Arturo sempre falou alto e forte. A palavra vulgaridade, vulgar, acertou em cheio. Nocaute!

A outra frase deveria ter sido não só o meu norte, mas de todos nós brasileiros. É deprimente este bipolarismo que estamos vivendo, aliás não só no Brasil.
De boas intensões o inferno está cheio. E eu não nego minhas muitas boas intensões, sei bem delas, tenho respeito por elas, mas me sinto no inferno dos que não tiveram cuidado com a forma de fazer as coisas.


Não posso deixar de agradecer à Ida, medalhista olímpica pelo vôlei brasileiro, que me deu sábias palavras sobre o que são e como olhar os nossos erros passados, no caso, uma grande idiotice que fiz na minha adolescência e que veio a tona do nada, por puro acaso. Ironia do destino.

O que quero dizer é que estes dois títulos de livros oferecem um norte sólido para quem deseje ser um ser humano e cidadão melhor.

Recomendo o filme Feitiço do Tempo. Diz muito sobre o que estou falando aqui.

E peço desculpas.







Obrigado Costanza

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Abílio Diniz e o legado esquecido para o Brasil

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Abílio Diniz vai fazer muita falta. Gostando ou não dele, não só como empresário foi uma das valiosas referências para este Brasil. Qual de suas características se deve colocar a frente, o bem sucedido e vitorioso, ou o briguento, vaidoso, e de um pragmatismo feroz? Ao gosto do freguês, Abílio é referência a ser lembrada. Dentre os inúmeros exemplos que Abílio nos deixa, um deles, importantíssimo no contexto brasileiro, passa desapercebido, caiu no esquecimento: a radical mudança na qualidade de atendimento realizada na rede Pão de Açúcar, capitaneada pela ombusdman Vera Giangrande, que teve carta branca de Abílio Diniz, e a ajuda da irmã de Diniz, Ana, e mais um diretor do grupo que me falha o nome. A revolução, e assim se pode chamar, mudou não só o relacionamento empresa - cliente, que deixou de ser entendida como puramente lucro para se transformar em pessoas, indivíduos, cidadãos. Foi também uma profunda mudança interna na empresa. A rede Pão de Açúcar atende um universo imenso de clientes de todas faixas econômicas e sociais, que até então aceitavam o que vinha, mal sabiam reclamar, comentar, ou mesmo elogiar; o que dizer sobre conhecer seus direitos legais estabelecidos pelo Código do Consumidor. Não demorou muito para outras empresas entenderem a importância da transformação e realizarem mudanças. Ou seja, não erro ao dizer que com a carta branca de Abílio virou-se uma página da história deste país. Antes da transformação realizada por Vera Giangrande, e não só no Pão de Açúcar, eram prateleiras cheias de mercadoria, preços, algumas propagandas pouco inteligentes e caixas para pagar, simples assim. A mudança trouxe uma nova programação visual agradável, muito cuidado com os detalhes, a distribuição de  produtos, a organização e limpeza, pessoal bem treinado para atender e atento, gerentes que sabiam lidar com as questões levantadas, providências imediatas, funcionários com necessidades especiais no atendimento direto, recompensas, promoções, e outros detalhes até então inéditos para a maioria do público, além de um canal de comunicação direto com a empresa central que funcionava de fato. Ou seja, reconhecimento e respeito pelo outro. Para montar o projeto, Vera Giangrande e vários funcionários tiraram a bunda da poltrona, ou seja, foram ver a vida real. Uma das referências mais importantes para o projeto foi o impecável atendimento oferecido pela Casa Santa Luzia, o que descobri quando me foi contado por um dos gentis senhores que são donos desta tradicional casa paulistana. Na conversa ele se referiu a Vera Giangrande como uma amiga. O interessante é que, interessado pelo que estava acontecendo, nunca ouvi uma palavra que incluísse o nome de Abílio Diniz como um dos responsáveis pela mudança. A sensação que se tinha é que os funcionários de cada loja eram os responsáveis diretos pela bem vinda transformação revolucionária. O legado deste trabalho ainda é referência de como se deve estabelecer a relação empresa - cliente. Repito, não erro quando digo que a carta branca dada por Abílio Diniz para a ombusdman Vera Giangrande virou uma importante página deste Brasil: ensinou a centenas de milhares de clientes que uma empresa pode trabalhar sob o signo da cordialidade e respeito.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Evento de automobilismo proibido no Ibirapuera

SP Reclama
Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Por pressão de entidades foi anunciada a suspensão de um evento de automobilismo que ocorreria na pista de atletismo do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, Ibirapuera. Em várias reportagens, imagens mostram um pequeno trator arrancando o piso de borracha da pista de atletismo, um escândalo para os desavisados. Nas mesmas imagens é possível ver que o piso já estava bem deteriorado, confirmando reportagens anteriores ao acontecido que mostravam sem enganos que a pista de atletismo estava faz tempo imprópria para a prática do esporte e competições de alto nível. Ou seja, o piso de borracha teria que ser trocado de qualquer forma. O que não se encontra nas matérias é o teor do contrato e suas cláusulas e contrapartidas. Afirmar que um evento de automobilismo numa pista de atletismo é um absurdo é de fato um absurdo. Em países onde os atletas são heróis nacionais conhecidos, tem espaço nas mídias, viram preciosas referências, onde as pistas de atletismo são impecáveis, as competições divulgadas, os estádios se enchem de público, nestes as pistas servem para eventos de motociclismo ou automobilismo, bastando o acordo entre as partes ser vantajoso para os esportes e atletas, portanto para todos, especialmente a população. Meu pai é vizinho do Constâncio Vaz Guimarães, vejo com frequência o público que comparece aos eventos e é pequeno, mínimo para um estádio daquele tamanho. A bem verdade, tirando o ginásio, o vulgo "panelão", todo Conjunto Desportivo é praticamente um desconhecido do grande público. Qualquer evento que divulgue o espaço e traga grande público é mais que bem vindo. Ou não será? No caso, voltando ao contrato, resta a pergunta de como seria devolvida pista de atletismo depois do evento. Fato é que, independente do Governo, a Secretaria de Esporte sempre alegou que não ter verba para manter o conjunto como o esporte merece. Se forem realizadas melhorias, se derem condições para a formação de novos atletas, que seja bem vindo qualquer evento, independente de qual. A pergunta que deixo aqui é quem não gostou do evento automobilístico ali, e principalmente por quais razões, as verdadeiras, não as puristas. É sobre isto que devemos nos preocupar. 
Qual é a vida útil do piso de uma pista de atletismo?
Quando foi trocado a última vez?
Qual foi o cronograma de manutenção da pista?
Quantos eventos ocorreram na pista?
Qual o público presente?
Qual o nome dos atletas presentes?
Qual foi a verba pública para o esporte?
Quantos atletas internacionais participaram de competições e clínicas aqui?
Qual foi a verba para viagens nacionais e internacionais de atletas?
Quando foram realizados os eventos?
Etc... 

PS, não enviado para o SP Reclama e Fórum do Leitor: Convivi com esportistas, inclusive profissionais, alguns profissionais de altíssimo nível aqui e lá fora. Esporte é crucial para a construção de um povo, para o bom futuro. Se queremos um esporte sadio, que é o que acredito que a imensa maioria quer, precisamos deixar de ser ingênuos, crédulos, carolas, inocentes úteis. 
Não faço ideia do que aconteceria depois do evento, se daria bom ou ruim, mas no meio do que vivemos eu não fecho portas, prefiro descobrir o que há por trás, o que mais, etc... Fechar as portas desta forma, para mim tem coisa, não sei o que. A história está mal contada. Aliás, não está contada.
Rasparam o piso da pista? Se não acontecer o evento, quero ver em quanto tempo o poder público instala o novo, afinal, eles são os responsáveis. Pelo que já aconteceu com a piscina... a brincadeira vai longe. Pelo menos não vamos ter atleta tendo lesão por causa do velho piso que foi removido. 

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/02/15/apos-criticas-de-atletas-gestao-tarcisio-cancela-corrida-de-automobilismo-no-complexo-do-ibirapuera-zona-sul-de-sp.ghtml

https://www.metropoles.com/sao-paulo/governo-cancela-prova-de-automobilismo-no-estadio-do-ibirapuera

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2024/02/pista-de-atletismo-do-ibirapuera-e-destruida-para-receber-corrida-de-carros.shtml

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Atualização: sumiu com tudo

Só para ficar marcado, atualizei meu computador e sumiu tudo, simplesmente zerou completo, está  limpo total. Mantenho sempre os computadores atualizados segundo recomendação da Microsoft, não fiz nenhuma bobagem e sumiu tudo. Tenho backup externo, o que me deixa calmo, mas é simplesmente um absurdo. Tenho um técnico que é competente, pedi ajuda, expliquei o que aconteceu e ele de bate pronto perguntou: "A atualização mudou o programa instalado (do 10 para o 11)?" Bingo!
Se minha confiança na Microsoft já vinha sendo minada pela própria Microsoft, agora vou ter que respirar e pensar bem o que farei daqui para frente. Já experimentei o Ubuntu e gostei, mesmo com as limitações. Tenho um Chrome book que é rapidíssimo e leve, ótimo para o uso que faço, mas também tem suas limitações. Ir para Apple? Todos dizem que sou um idiota de ainda não ter ido, mas o custo é proibitivo. 
Como disse, vou dar um tempo, desligar, respirar e ver o que faço. Microsoft não para de cometer erros bobos. A favor dela só o OneDrive, que para mim tem funcionado muito melhor que Google Drive. 

Fato é que estamos completamente vendidos neste mundo digital.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

40 milhões de processos com erros: resumo da Justiça brasileira

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

"Tribunais somam 40 milhões de processos com erros" diz o bom artigo de Heitor Mazzoco, Estadão, 13 fevereiro 2024 | 08h58. O mais crédulo dos brasileiros sabe que o judiciário brasileiro não funciona como deveria. E como diz o artigo, ainda serve para a desigualdade social, começando pela garrafinha de água e terminando nos processos sem fim, dentre outros. Como é fato que este "não funcionar" do judiciário serve em bandeja de prata e com luvas brancas às conveniências do setor de advocacia. Diz o artigo: "Se estivesse lá fora ganharia muito mais", dito a boca pequena e aos quatro ventos por juízes e funcionários do judiciário, não se sustenta. Digo eu: é calhordice. Fora do Judiciário não há mordomias nem penduricalhos, mais, a concorrência é selvagem, brutal, e não há o mais remoto espaço para lentidão ou quem quer garantias vitalícias. Os 40 milhões citados no texto com erros representam 20% dos processos tramitados nos últimos anos, ou seja, temos 200 milhões de processos em andamento? Que baderna! E o Judiciário fala em remuneração? E nós, cidadãos, como ficamos? Há algum interesse em fazer a coisa andar? Duvido. Bom, este é parece ser o resumo da Justiça brasileira. Estadão, Heitor Mazzoco, obrigado pelo esclarecedor artigo.

A quem interessar, recomendo a leitura do processo transitado e julgado de Maria Teresa D'Aprile. Bem esclarecedor das coisas.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A vida continua? Simples assim?

Futebol é reflexo de seu ambiente ou o ambiente humano é reflexo do futebol? Qualquer que seja, é inaceitável após um vexame os responsáveis alegar que "a vida segue", simples assim. Como assim a vida segue? Nós brasileiros encaramos as derrotas, os erros, as catástrofes sem aprender, sem corrigir, levando a vida que segue (com os mesmos erros atávicos). A história a humanidade não traz notícia de qualquer time vencedor, grupo social e porque não falar de país vencedor, que tenha gritado "a vida segue" com tanta naturalidade. Também desconheço qualquer personagem ou grupo social vencedor que tenha dito "assim não brinco mais" ao primeiro revés ou simplesmente depois de ter sido chamado de "burro" no meio do calor de um jogo ou luta do dia a dia. A diferença entre perdedores e vencedores se faz também no abaixar ou levantar a cabeça depois de sofrer uma injúria ou violência. Ser chamado de burro é problema? UAU! Me curvo em agradecimento à dignidade e hombridade de Vinícius Junior que responde aos piores urros com cabeça levantada e vitórias. Agradeço a todos heróis de nossa história, os que nunca acreditaram na lamentação providencial de "a vida segue". De tantos outros, a maioria desconhecidos, até mesmo os chamados de burros, não se ouvirá "não brinco mais". É este o exemplo que se espera para os brasileiros, não menos. 


Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Há uma enorme diferença entre cuidar de quem realmente tem problema e ficar passando a mão na cabeça de quem choraminga depois que recebeu um pito, não importa quão duro e injusto tenha sido. Só se vai transformar este país, o que é urgente, quando os verdadeiros bons exemplos que tivemos e temos passem a servir de norte para construção da nação que queremos. Perguntem se as mães que fazem este país seguir, e mesmo sofrendo todo tipo de desrespeito, se podem se dar ao direito de choramingar.
O estranho é que não se comenta que os ofendidos pelo grito "burro" são os mesmos que podem responder a um vexame com "a vida segue". A vida segue com ele continuando a receber seu polpudo salário. Aí fica fácil. Que exemplo fica para a torcida? E não só para a torcida.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

O uso de notebooks em padarias e cafés

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A confusão gerada pelo uso de notebook em padarias e cafés remete a confusão que fazemos em relação ao que é propriedade, em primeiro lugar, e o direito ao seu uso. O que nos remete ao terceiro ponto, que deveria ser amplamente discutido em nossa sociedade: a definição legal e prática do privado de uso público. Basta um olhar rápido para nossas ruas e fica estampado nossa falta de senso coletivo, ou desprezo pelo que é público, ou o desrespeito pelo que deveria ser de bom uso por e para todos. Eu pago, portanto tenho direito. Sentar-se numa mesa para tomar café da manhã numa padaria é uma troca entre o cliente e a padaria. A oferta de Internet é um benefício, não um direito adquirido do cliente. O espaço da padaria de certa forma é público, mas não privado do cliente, que não passa de um invasor muito bem vindo. A falta de limites do uso de notebooks remete a outras tantas situações identificas, como estacionar indevidamente em vaga de deficiente ou idoso. Talvez muitos dos que fazem reuniões em padaria se imaginam num café da Europa ou Estados Unidos, mas se esquecem que lá a consciência da importância do público, ou seja, do coletivo, foi conquistada com respeito às leis, o que permite que sente seguro no meio de uma praça pública e se realize uma reunião sem medo de assaltos. Lá, caso o proprietário coloque limites, que são dele e de sua casa, é de bom tom pedir desculpas, o que raramente acontece porque a consciência coletiva fala muito mais alto. O coletivo, no público e privado, deve ser elemento básico e primordial de convivência. Eu pago, portanto tenho direito; definitivamente não funciona. O Brasil é prova disto.


Meu caro amigo Zé ABC se recusou a entrar num café. Estava furioso porque um dia o gerente foi até ele e disse "O senhor vai pedir algo? Se não for, peço que dê lugar para outros". Ele saiu furioso. Não preciso ir a fundo na história. Zé entrou no café, como ele fazia todos dias, ligou o notebook e como todo bom workaholic esqueceu a existência do planeta lá fora. 
É o que vários negócios vêm enfrentando faz tempo. Em alguns horários do dia que o movimento é baixo o café ou padaria pode ser benevolente e deixar o sujeito no planeta dele. Em outros não dá porque o prejuízo é certo. Não é só com notebooks, mas com celulares também, e não precisa estar num café ou padaria, é em todos lugares. Vai me dizer que você que lê esta nunca teve que parar para não bater na pessoa que vem pela calçada nariz enterrado no celular?

Deixo aqui uma justa homenagem ao Zé ABC. Se soubessem quem ele foi, sua capacidade e qualidade de trabalho, o teriam deixado em paz e até servido café de cortesia. Em boas épocas isto aconteceu com várias celebridades, que então eram de fato celebridades. Hoje, quem se importa quem o outro é?

Selfie na cabeça! e não me incomodem. Eu pago, eu tenho direito!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O olhar de motorista do ciclista

Azis Ab'Saber, respeitadíssimo geógrafo aqui no Brasil e mundo afora, um dia soltou uma pérola que dizia mais ou menos que bicicleta não servia para São Paulo porque a topografia da cidade era muito acidentada. Coisa de quem não pedala. Não demorou muito ele corrigiu enfaticamente afirmando o óbvio ululante para ele próprio: é possível pedalar em boa parte da cidade. Se o Azis, uma figura incrível, com uma história de feitos impressionantes por esta cidade, estado e país cometeu um deslize destes, porque as autoridades, e aqui incluo os ciclistas que ajudaram a construir nosso sistema cicloviário, não podem falar besteiras? Poder podem, mas por serem ditos especialistas não podem, ou pelo menos não devem. Pega muito mal.
Minha resposta é simples e direta: Azis Ab'Saber falou como um cidadão comum que se transportava em automóvel, e no meio de um tiroteio sobre introduzir ou não a bicicleta como modo de transporte no Município de São Paulo. Ora, ciclistas são ciclistas, e de ciclistas espera que se comportem como ciclistas, ou minimamente que disfarcem suas limitações.

Voltei a puxar um passeio do Saia na Noite. Quando nos reunimos para sair da padaria veio a pergunta clássica: para onde vamos? E eu respondi: não conto. Por puro respeito ou temor a minha loucura calaram. Um pouco mais para frente pedi para eles escolherem se queriam ir para lá ou para lá, e dei uma brevíssima explicação sobre a topografia dos locais possíveis. Um pouco mais a frente um amigo veio a mim e disse que sua mulher estava enferrujada. Pedido claro: por favor, pouca subida. Eu defini sem mais aviso, eles foram rumo ao desconhecido.

Final do passeio, 33 km percorridos, sendo uns 5 km com uma subida mais acentuada, e algumas leves, nada complicado, pedal cuidadoso para inicio de ano e enferrujados. Até a mulher de meu amigo subiu pedalando. Ou seja, 28 km planos, acompanhando córregos. 

O pequeno grupo era formado por mulheres que já pedalaram muito pela cidade, mas muito mesmo, e em vários grupos de pedal. Nunca tinham feito este trajeto, sequer sabiam onde estavam. Ótimo! É assim que deve ser. Um dos milagres que a bicicleta oferece é descobrir o desconhecido da cidade.

E aí a besteira dita pelo caríssimo Azis fica num mesmo plano que os que projetaram o sistema cicloviário de São Paulo. A primeira visão que ambos têm da cidade é a de um motorista, não de um ciclista. A cidade do automóvel não necessariamente é a cidade do ciclista, e vice-versa.

Quem cruza a cidade sem um olhar mais detalhado, criterioso, é míope. Ops! Se havia uma coisa que Azis tinha é um olhar profundamente analítico sobre a cidade, aliás olhar invejável, quem conhece o trabalho dele respeita, mas falo aqui do Azis pensando a bicicleta a partir do olhar da cidade como passageiro de automóvel, a bem da verdade passando pelos mesmos caminhos que os ciclistas insistem em fazer, melhor, são levados a fazer.

Por diversas razões as autoridades e os ciclistas que ajudaram a implantar o que está ai só confirmaram que pensam que ciclista deve se comportar com a mesma mentalidade de um motorista que pedala. A bicicleta caminha em paralelo com o automóvel, concorre com ele, o mesmo caminho, a mesma cidade.
Óbvio que alguns trajetos têm que ser os mesmos para ciclistas e motoristas, mas alguns, não todos. Aí entra a diferença entre a cidade do ciclista e do motorista, diferença esta que os guias, os chefes das tribos, não sacaram.

O primeiro grupo oficial de passeio organizado saiu da Praça Charles Miller em uma noite de 1988. Eu estava lá. Foram levados para pedalar no Centro de São Paulo e terminaram a noite extasiados com a beleza do que nunca tinham visto: centro velho e centro novo.
Seguiram-se vários passeios por caminhos desconhecidos da maioria e mais espanto com o que a cidade oferece, a cidade dos ciclistas, e dos pedestres, e da escala humana.

Ainda na padaria, antes de sair o passeio, o pessoal estava reclamando do número de passeios que saem na disparada, vão sem parar, sem olhar para os que estão atrás, e em uma especie de furia que pare o trânsito dos automóveis para o pelotão passar, se os últimos não conseguirem, que se virem. Lei do mais forte. Caiu alguém, que se vire, o passeio não pode parar. Vai quem quer, chega quem pode. 
O coletivo?
A cidade é um coletivo, ou não é? Ou é um veículo particular?

A cidade vive quando seus humanos olham para e por ela. E também é por isto que a bicicleta se tornou tão importante: ela dá tempo para o cidadão que pedala ver e entender onde está.
Como você pedala? Por onde você pedala?