domingo, 30 de setembro de 2018

O pequeno importante detalhe do decorativo

Quando ainda existiam parquinhos de diversão um dos prêmios do tiro ao alvo eram vasos cópias muito básicas de peças da mais fina porcelana Luís XIV; bem entendido, a cópia da cópia da cópia da cópia... de porcelanas de um dos mais sofisticados (e empetecados) reinados da França, o de Luís XIV, entre 1643 e 1715. Estes desejados prêmios acabavam fazendo parte da parca decoração orgulhosa de casas de gente simples ou de pouca posse. Óbvio que não faziam a mais remota ideia do que significavam, qual a história por traz daquele simples vaso. Simplesmente melhoravam o ambiente. Hoje é possível encontra-las em antiquários.

No fim das contas absolutamente todos nós montamos nossa casa usando moveis e elementos decorativos que tem uma história por trás sobre a qual não fazemos ideia; talvez exceto colecionadores. Vale o “gosto” ou “não gosto”, ou ainda “fica bem na minha sala”.


A casa de nossos antepassados era toda referências porque tudo era difícil de conseguir e mais difícil ainda de repor. Quando há um vínculo familiar forte estas peças são divididas cuidadosamente entre a família e mesmo os amigos mais presentes como herança. Sem vínculos familiares a decoração da casa dos avós ou mesmo pais não raro acaba se desfazendo por ser vendida, doada, ou mesmo desprezada, quando não jogada ao lixo. A alma de cada peça acabará em outras mãos e ganhará um sentido histórico completamente novo.

Os tempos são outros, as relações mudaram. Bom reflexo deste novo tempo está na arte grafite, algumas simplesmente maravilhosas, realmente obras de arte, portanto marcos da humanidade, mesmo assim completamente efémeras. Em pouquíssimo tempo simplesmente não existirão mais. Não são obras de relação íntima, mas para um coletivo também completamente efémero. Talvez reste delas referência em foto, mas fotografia é uma imagem mais que simplória da realidade passada. Por melhor que seja o fotografo a expressividade da imagem nunca trará cheiros, sons e vozes da casa, por exemplo. A vida de uma família está num complexo jogo de detalhes quase impossíveis de se replicar, muito menos num instantâneo.

A necessidade de produção em grande escala e principalmente a redução de custos levou a uma perda de referências históricas. A pouca vida útil dos produtos vendidos hoje faz com que a memória se apague com uma rapidez impressionante, o que não é bom para ninguém, nem para o indivíduo, nem para o coletivo. Pegue um armário vendido a preço de banana: costumam ser cópias simplórias e mal feitas de mobília modernista, mas são fabricados com aglomerado de madeira, portanto terão uma vida útil curta, o que de certa forma é aceito por quem o comprou. Sua história acabará no lixo. Que história? As referências da casa da família mudarão constantemente, portanto não serão referências.

Viver sem referẽncias pode ajudar a explorar o desconhecido, mas para a maioria desnorteia, cria um vazio perigosíssimo. "Quem  sou eu? Onde estou? De onde vim?"  Está provado que falta de referência é uma das causas de desajustes sociais e mesmo violência. "Quem é o outro?"


Quando se olha a história da humanidade é possível ver que pequenas referências construíram grandes histórias. Povos que hoje tem o melhor IDH são profundamente apegados a estes pequenos detalhes, os familiares e os coletivos. As crianças nascem e crescem aprendendo a importância do que está próximo, principalmente dentro de casa. Quebrou, acabou, perdeu. A vida segue em frente repaginada, mas de alguma forma sempre sobre as mesmas bases. O novo sempre olhará o passado. Não há futuro sem semente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Berlim, Alemanha

Sabe quantos policiais vi nestes quatro dias de Berlim? Tirando os que estavam na frente das embaixadas, zero. Zero! Sabe quantos carros de polícia vi fazendo rondas? Zero. E durante a Maratona de Berlim? Não me lembro de ter visto um sequer, que obviamente deviam estar circulando. A sensação de segurança é total, mesmo caminhando nos grandes parques à noite. 
Cuidado só ao cruzar as ruas ou caminhar em calçadas, praças, e parques por causa dos ciclistas que não demonstram grande interesse pela prioridade de todo e qualquer pedestre, independente da idade ou do grau de mobilidade. Não cheguei a presenciar acidente, mas foi por pouco, muito pouco mesmo. Ciclista desviando de pedestre ou tomando susto é comum, muito mais comum do que pudesse esperar. 
Carros respeitam quando é inevitável respeitar, mas presenciei motorista dobrando inesperadamente à esquerda e acelerando para passar antes do pedestre que caminhava na faixa. E outras situações que não esperava. 

Não creio que em Berlim vendam sonífero. A cidade é muito mais tranquila que se possa imaginar. Muito arborizada, limpa, dificilmente se vê um papelzinho no chão, maravilhosamente silenciosa, com bares e restaurantes cheios nestas noites quentes de fim de verão. E todos falam baixo, o que é ótimo. 

Infelizmente não consegui alugar uma bicicleta, mas não preciso pedalar para saber que Berlim é muito segura para os ciclistas. A concorrência entre as companhias que oferecem bicicletas comunitárias é grande, oferecendo deste modelos com projeto futurista até bicicletas clássicas. O que falta é um aplicativo que link todas estas companhias para facilitar a vida do público; e por que não dos turistas.

Para nós brasileiros chama a atenção a quantidade idosos pedalando, em particular senhoras. Ontem e hoje vi dois senhores com doença de Parkinson em bicicleta, um com uma tremedeira avançada que entrou com a bicicleta no metro. Pela manha vi um senhor provavelmente voltando de um treino com bicicleta de estrada. Quando parou no semáforo seu Parkinson ficou claro na perna quando soltou o clip de pedal. Há estudos que mostram uma melhora significativa dos efeitos do Parkinson em usuários de bicicleta. Mais uma para a magrelinha.
Minto; vi um barco de polícia passando tranquilo.
Fechei o texto, publiquei, fui jantar e passou o primeiro carro de polícia destes quatro dias. Uma coisa chama a atenção: o número de idosos nos bares, parques,pedalando ou caminhando sem preocupação. Sinal claro de segurança.
 







 


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O futuro das mobilidades e o voto em Mara Gabrilli

Ponto de partida, que chamarei de ponto zero:

Aproximadamente 15% da população brasileira tem alguma deficiência física ou mental, uma grande parcela sérias ou graves. A mobilidade deles é muito precária, quando possível. Muitos não conseguem sequer sair de casa. Você já teve que ficar numa cadeira de rodas? Pois bem, fiquei numa por duas semanas e ali descobri o quão é difícil ir até a outra esquina. Detalhe: isto foi Itaim Bibi, um dos melhores bairros de São Paulo, com calçadas exemplares para o padrão brasileiro. São Paulo, a cidade, tem algo em torno de 500 mil pessoas com necessidade especial que não conseguem ir para rua, que nunca saem de casa. Meio milhão de presidiários.

De uns anos para cá a situação melhorou muitíssimo para eles. Ainda estamos muito longe de uma situação da qual não devamos nos envergonhar profundamente. Meu pai teve uma prima com paralisia cerebral trancada num quarto, escondida de toda família, um monstro proibido de ser visto de quem só se ouviam alguns grunhidos, quando se ouvia. Ela nasceu, cresceu e morreu encarcerada num quarto para que os outros não tivessem contato com o horror. Era assim e infelizmente ainda o é, mesmo que bem mais suave.

O contato com entidades internacionais que trabalham com mobilidades “não motorizadas”, ou ativas, como chamamos hoje, deixou claro que o ideal é pensar o sistema cicloviário de forma que a introdução da bicicleta abra espaço para a vida de todos que tem qualquer tipo de deficiência de mobilidade.
Renata diz que não vota na Mara Gabrilli porque ela teve posições pesadas contra as ciclovias da administração Haddad. Não sei o que aconteceu, não vou atrás, mas posso imaginar pelo menos a irritação de uma tetraplégica vendo seus iguais mais uma vez sendo deixados para trás. Pelo que entendi a questão foi partidária. Será? E o que mais?
Estava trabalhando em vários projetos cicloviários quando a Secretaria de Municipal da Pessoa com Deficiência foi criada e Mara Gabrilli empassada como sua diretora pela administração Serra na Prefeitura de São Paulo. Foi a primeira secretaria do gênero na história do país, um importantíssimo passo a frente para uma imensa população até então esquecida, quando não desprezada. Não acompanhei os resultados da SMPED nas administrações que seguiram para fazer uma crítica mais apurada do que aconteceu depois, mas espero que a administração Haddad a tenha levado em frente como deve.

Por mais pesadas que tenham sido as críticas ou comentários de Mara Gabrilli ao que Haddad fez pela bicicleta não se justifica “não voto nela” quando se está no meio de uma luta pela transformação da cidade do automóvel para uma cidade mais humana, a meu ver o caminho mais curto para saírmos deste caos geral que vivemos no Brasil. Pelo pouco que conheci de Mara a causa dela é mobilidade para todos, onde a maioria são pessoas com deficiência de mobilidade séria, o que inclui mulheres, crianças e idosos. O que se aconteceu na administração Haddad foi bom para a bicicleta, mas com um foco um tanto exagerado na bicicleta, meio que sem pensar no resto. O resultado está ai, pedestres que o digam. OK, diminuição da velocidade, bom para todos, incluindo pedestres, mas esta não foi a imagem que restou. Os pedestres que o digam.

O Brasil precisa de mais mulheres no poder, disto ninguém duvida. Melhor se for sensível às causas fundamentais ainda hoje consideradas secundárias.

sábado, 15 de setembro de 2018

A confusão está completa


Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
 

O número de ciclistas na contramão, para tudo quanto é lado sobre as calçadas e fazendo coisas imprevistas e perigosas aumentou muito com a entrada destas novas bicicletas comunitárias. Agora temos patinetes e outras geringonças com motorização elétrica para aumentar a confusão geral. Mais ainda, os motociclistas de aplicativos que ganham por entrega e não se importam com nada, sinal vermelho, contramão, pedestres, ciclistas, ou o que estiver no caminho, sequer motorista de ônibus escapa de sustos. Pedalo no trânsito de São Paulo desde 1977 e não me lembro de uma fase tão caótica, nem mesmo no pior momento dos motoboys quando estes se orgulhavam de serem chamados de “cachorros locos” (sic). Todas as cidades do planeta estão passando por uma rápida transformação nas suas formas de transporte, agora as ditas mobilidades, e o trânsito ficou mais confuso, mas o que está acontecendo aqui em São Paulo saiu do admissível e entrou no campo da baderna. Como sempre pedestres e pessoas com deficiência são os grandes prejudicados. Quem se importa?



Para os que leem aqui: Estou impressionado com a quantidade de Yellow com roda dianteira torta que se vê por ai. Um detalhe me chamou atenção: a maioria está estacionada - com a roda dianteira torta - na contramão da calçada. Isto me levou a prestar mais atenção e ficar assustado com o grau de imprudência dos usuários das bicicletas comunitárias (e outras). Triste que as autoridades não tenham se antecipado ao caos previsível. Não está sendo muito diferente do que aconteceu em NY ou Paris, por exemplo, com a diferença que lá todos sabem que tem regras e há respeito pela autoridade legal. Não ouse fazer besteira grossa em Amsterdam; os policiais são duros e implacáveis. Lá, o paraíso das bicicletas e mobilidades ativas só aconteceu porque se respeitou a ordem, o mais próximo, e o coletivo. Estamos a um ano luz disto

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Comentários sobre a Proposta de Plano Cicloviário do Município de São Paulo

Comentários por slide:
  1. slide de apresentação
  2. Transformar São Paulo na Capital brasileira da bicicleta - Para que? Para quem? Besteira! São Paulo tem que ter mobilidades e transportes que funcionem e só vão funcionar quando forem completamente integrados e harmônicos. 
  3. Reconhecer definitivamente a bicicleta como modo de transporte - Como? Quem escreveu esta frase não conhece São Paulo, não deve ter pedalado nas periferias industriais e trabalhadoras. Não faz ideia do que sempre significou bicicleta em Jardim Helena, Ermelino Matarazzo, Socorro.... A bicicleta sempre foi importante modo de transporte em São Paulo, só não sabe quem não se interessa ou quem tem interesses outros
  4. Cronologia - tem alguns erros. Eu vivi e convivi com que fez esta história. Não citar o Projeto GEF Banco Mundial em 2005, a primeira vez na história deste país (de verdade) que se trabalhou o projeto com, se não me falha a memória, 8 Secretarias e órgãos, Municipal e Estadual, mais entidades internacionais e mais sociedade civíl, todos que legalmente são responsáveis pela concretização de qualquer projeto. A história dos projetos cicloviários no Brasil pode ser dividida em antes de depois do GEF. A sensação é que a cronologia foi escrita por funcionário público....
  5. Proposta - 1 Conectividade 90% Ok; 2 Expansão da Rede para 1.420 km - não são km, mas qualidade, segurança; 3 Melhoria de infraestrutura OK;  4 Criação de hierarquia da Rede - melhor seria se fosse uma hierarquia relacionada a vida da cidade, ao rítimo de implantação e não às vias para bicicletas; 5 Implantação de acalmamento - Acalmamento deveria ser o ponto de partida de todo projeto. Acalmamento significa melhorar a vida de pedestres, pessoas com deficiência, crianças, ciclistas, leia-se absolutamente todos, incluindo motoristas e motociclistas.
  6. Viagens potencialmente pedaláveis - O que significa? Qual é o critério? Para quem? Qual é o cidadão que se quer?
  7. Benefícios - propaganda já vista. O que mais?
  8. Pilares do Plano - Fomento e cultura, Participação social, Infraestrutura, Avaliação e Monitoramento; Ok, mas creio que faltou a palavra acordo. No meio desta nossa "democracia" a expressão 'Participação social' me preocupa. Participação de quem? Como? Com que poder de palavras e ideias?
  9. Estrutura da Rede
  10. foto
  11. foto
  12. foto
  13. desenho explicativo sobre acalmamento
  14.