domingo, 19 de novembro de 2017

Ser negro no Brasil e as distorções históricas


A revista Veja desta semana traz um especial sobre Negros no Brasil que deve ser leitura obrigatória para todos. Tem gente que de cara vai torcer o nariz por ser Veja, uma besteira, grande perda de ótima matéria. O conteúdo traz informações e pontos de vista que não me lembro terem sido publicados na grande imprensa. Dão uma visão clara, trágica, vergonhosa, do que é ser negro no Brasil, a reboque do que somos todos nós, brasileiros.

Eu me lembro bem quando tinha lá pelos 5 anos de idade e fui pela primeira vez ao Centro de São Paulo com minha mãe e Conceição. Fizeram tantas recomendações que muitos anos mais tarde, já próximo dos meus 18 anos, eu ainda chamava "aquilo" de "circo de horrores". As recomendações eram para nunca largar da mão de uma das duas, contaram histórias assustadores sobre criancinhas desaparecidas e maltratadas que nunca mais voltavam para casa... No Centro entrei num mundo de ruas lotadas de gente estranha à minha realidade, vestimentas, etnias e cores diferentes, falas estranhas, e para piorar o conto de terror sentamos no ônibus de frente para um senhor que literalmente não tinha nariz e as pontas dos dedos, provavelmente em consequência de lepra, ainda comum na época. "Não toque em nada!" 
Até meus 11 anos vivi numa casa na rua Sofia 20, Jardim Europa, um universo social rico, de ruas vazias, quase nenhuma criança e asséptico. Passavam poucos e variados carros, uma ou duas motos, e uma bicicleta a motor barulhenta que era meu sonho. Aquilo era era minha normalidade. Brincava só, desacompanhado, tendo contato só com meus primos nos fins de semana, isto quando os via. Meus irmãos eram mais velhos, pacientes, mas estavam noutra realidade. Na mudança para um apartamento fui levado para Buenos Aires, cidade rica, limpa, organizada, com forte influência europeia, de gente como os meus, carros de todos tipos, conforto e ótima comida. Caminhávamos muito, usávamos metro e micro (ônibus pequeno), meu avô me apresentava aos amigos com muito orgulho. Esta viagem só veio a reforçar naquela criança a ideia que o Centro de São Paulo era mesmo um circo de horrores. As imagens que tinha de lá não estavam dentro de minhas referências. 

E a mudança desta visão começou quando passei a olhar com calma a cidade, fui expulso de um colégio de elite, cai num colégio de expulsos (como?), praticamente parei de ver meus primos, e principalmente convivi com os meninos do edifício onde fui morar, todos judeus de famílias leves, carinhosas, centradas, de classe média, com outros valores práticos, onde o valor maior era a simplesmente a vida. Não tenho como agradece-los pelo que aprendi. O circo de horrores ficou para trás, se transformou em vida, nada mais que vida. Os meus preconceitos foram caindo um a um e seguem caindo. Alguns deles hoje entendo que não foram preconceitos, mas completa desinformação e desconhecimento, mediocridade digo sem medo.

Não existe história neutra, é sempre a versão de alguém ou de um grupo. De tanto ouvir contos distorcidos acabamos submergindo e vivendo neles. Todos nós somos frutos de distorções. O grau de distorção varia em relação ao ambiente onde se vive. Pavlov demonstrou cientificamente os efeitos dos condicionamentos na psicologia do comportamento. Aquilo que de tanto bater fica encrustado na cabeça, por exemplo.

Eu fui uma criança agitada que vivia aprontando. O que minha mãe e Conceição queriam mesmo era que eu não aprontasse. A intenção foi correta, a forma de me controlar típica para época, o que hoje em dia é tido como um absurdo. Perdi o contato com Conceição, mas minha mãe foi uma mulher sábia, inteligente, divertida, sem preconceitos, a não ser contra a mediocridade, o mal feito.

A leitura deste especial de Veja, Negros no Brasil, revê a nossa história. É interessante colocar a leitura no contexto íntimo de nossas próprias individualidades. 
Hoje a tarde vi mais dois programas Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil no History Channel. Imperdível! Desta vez foi sobre A coluna Prestes, Lampião, o cangaceiro, e a Guerra do Paraguai, lógico com versões distantes das oficiais contadas até hoje. Gostaria de rever o Revisitando a Segunda Guerra Mundial e tudo mais que me possa fazer reavaliar meu passado. Não culpo ninguém, somos todos humanos, os dias eram assim, mas para ter um futuro melhor precisamos evoluir, ter contato com o que mais se aproxima da verdade.


O Brasil segue sendo uma imensa farsa mesquinha. Todos nós aceitamos isto que está aí. Nos falta leitura, educação, capacidade de conversa e discussão séria e honesta. Nos falta vergonha e respeito às nossas próprias vidas.  





Saia na Noite 25 anos


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ciclovias no entorno da Estação Terminal Pinheiros? Como fazer barato?

Antes, minhas sugestões para o entorno da Estação Terminal Pinheiros:
Na rua Costa Carvalho colocar as vagas de estacionamentos a 45º alternando o lado da rua o que obrigaria os carros diminuir de velocidade porque a rua não seria mais uma reta, mas um zig-zag. Facilitar a criação de vagas vivas para os inúmeros restaurantes, cafés e outros existentes ali. O mesmo pode ser feito imediatamente na Eugênio de Medeiros. Testa a mudança aí e depois estende para o resto do bairro. Sinalização estabelecendo velocidade baixa, 30 ou 40 km/h, mais sinalização reforçando a prioridade legal para as mobilidades humanas: pedestres, pessoas com necessidades especiais e ciclistas. Segregação do ciclista? Não se quer uma cidade para todos?
O acesso à Estação Pinheiros para o Largo de Pinheiros: transformar a sequência de ruas Conselheiro Pereira Pinto, Atuau e Guaicuí em ruas preferencialmente para pedestres, o que já acontece, é fato consumado. Ciclistas já conhecem o caminho. As correções no entorno do Largo de Pinheiros são relativamente fáceis.

Como são estas ruas hoje?
O trânsito na rua Costa Carvalho é pouco talvez por isto é fácil ver motoristas andando mais rápido que o bom senso manda. A calma rua tem alguns restaurantes, um bom número de pedestres, alguns ciclistas. É uma das rotas para a Estação Terminal Pinheiros, onde há um bicicletário que sempre está ocioso, ao contrário do sempre lotado bicicletário da Estação Faria Lima Linha Amarela 4, uns 600 metros adiante. 
A rua Eugênio de Medeiros, paralela entre as ruas Costa Carvalho e Gilberto Sabino, rua da Estação Terminal Pinheiros, é muito calma, poucos carros, uns poucos ciclistas, só na hora do almoço é que há movimentação grande de pedestres a caminho de um dos 15 restaurantes nos dois quarteirões e duzentos metros entre as ruas Paes Leme e Sumidouro. Muitos escritórios no entorno. Fora do almoço fica às moscas. E às quintas-feiras tem a tradicional feira. Vida de interior. Do outro lado da Paes Leme a Eugênio de Medeiros vai dar na ponte Bernard Goldfarb e dali para o Butantã ou Cidade Universitária e movimento mesmo só na hora de pico. Conheço bem a vida do pedaço porque moro aí desde 1987. 
Qual o problema?
A cidade não está contando os centavos? Será que não tem outras prioridades? O dinheiro destinado às mobilidades não pode ir para outros fins, diz a lei. Não adianta, a coisa pública tem regras que só o diabo entende, se é que entende. Prioridade? O que é isto? Eu tocaria cada centavo de qualquer intervenção para ciclistas no ajuste de alguns problemas existentes no que já está feito para pedestres, pessoas com necessidades especiais e se sobrasse algo... Ou...
Será que dá para melhorar a situação do ciclista com menos gastos? Será que precisa pintar tudo de vermelho, que pelo divulgaram custa uma boa nota? Não daria só para pintar os cruzamentos de vermelho com já fazem outras cidades? Será que precisa colocar tachões em todo trajeto? As bicicletas pintadas no asfalto da rua Groenlândia não deram um resultado surpreendente? Por que não aplicar técnicas simples e baratas de acalmamento de trânsito já consagradas em vários países? Afinal de contas, a maioria dos ciclistas não pedala no meio da rua e seu trânsito até chegar nas ciclovias? Porque não acalmar todo o bairro e assim ajudar três mobilidades numa tacada só, pedestres, pessoas com deficiência de mobilidade e ciclistas (e skatistas, patinadores....)? Mais, porque não melhorar a vida dos restaurantes, bares, doceiras, padarias e outros geradores de empregos que estão em todos cantos do bairro.

Voltando a meus sonhos:
Pensando mais longe, se faz urgente a mudança da geometria viária do acesso da Marginal Pinheiros para a av. Antônio Batuira, aquela que vai direto até a Praça Panamericana. Como está hoje é um absurdo. É preciso forçar os carros diminuírem a velocidade antes de sair da marginal, o que se faz deixando a curva mais fechada. Fazendo isto se aumenta a segurança dos pedestres que vem pela calçada da marginal. Ainda na av. Antônio Batuira é necessário repetir no cruzamento da rua Guerra Junqueiro o acalmamento de trânsito simples e eficiente existente faz muito no cruzamento com a av. Semaneiros.
Na av. Prof. Manuel José Chaves, que liga a Praça Panamericana à Ponte Cidade Universitária instalar um segundo semáforo para pedestres e ciclistas no cruzamento da rua Banibas o que criaria um caminho alternativo, linha reta, mais curto entre o Parque Villa Lobos e quase a Estação Pinheiros, além de dar acesso a ciclovia de canteiro central. Passou do tempo de estimular ciclistas a usar caminhos alternativos, por dentro de bairros calmos, tanto para mante-los distante de avenidas como para cortar custos da implantação do sistema cicloviário, isto para dizer o mínimo. 
E mais longe ainda seria possível trazer os cilistas que cruzam a av. Diógenes Ribeiro de Lima para o interno de bairro, em especial na rua Alberto Farias. É muito mais calmo e agradável, além de ser plano.

Não falo aqui sobre o cruzamento do rio Pinheiros que também é comentado com um alargamento da calçada da Ponte Euzébio Matoso. Se querem mexer aí os questionamentos a serem levados em consideração são uns tantos muitos mais. 

Eu tenho um sonho: construir uma estrutura leve e independente sob a ponte Bernard Goldfarb para pedestres e ciclistas, com um mirante sobre o centro da ponte. É a vista mais linda que se pode ter do rio Pinheiros. 




quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A percepção da sinalização como causa dos acidentes

-52% atropelamentos; -20% colisão lateral; -37% colisão traseira; -67% colisão frontal; -80% capotamento; -50% outros; -55% total. Esta é a redução dos acidentes na rodovia Régis Bittencourt, antes conhecida como "Rodovia da Morte". Ok, este texto é praticamente um ctrl C - ctrl V de um encarte publicado no O Estado de São Paulo dia 11 de Setembro de 2017 sobre o 4º Fórum de Segurança da Arteris, concessionária que cuida da Régis Bittencourt desde 2008, mas tem umas linhas que são bem interessantes. E seguindo o informe leia-se:
Um  estudo realizado com a USP, por exemplo, usou simulador para reproduzir uma parte crítica da rodovia e verificar a percepção do motorista em relação a diferentes sinalizações. "Mudamos a distância e a posição das placas, aumentamos e diminuímos seu tamanho, trocamos as cores e verificamos qual combinação resultava na reação mais rápida", descreve Angelo Lodi, diretor operacional corporativo da Arteris. "Implantamos a nova proposta de sinalização a partir desses resultados e tivemos declínio de acidentes. Agora estamos repetindo o estudo em mais pontos críticos". Ou seja, individualizaram os problemas e usaram a inteligência para encontrar soluções também individualizadas. Passaram a pensar na realidade e atuaram um pouco fora da regra (leia-se o uso burro e literal do CTB) para que efetivamente dessem resultados. 

"Precisamos pensar na segurança do ciclista". Como? Segundo quem falou a frase aplicando literalmente o CTB. Enquanto se pensar segurança no trânsito sob este ponto de vista continuaremos tendo o banho de sangue que temos aqui neste Brasil. O CTB é a lei, a regra, mas o próprio código dá chance para variações, inteligências, o que por diversas razões não é entendido e usado.

Pouco ou nada adianta colocar uma placa "PARE" direcionada para ciclistas numa ciclovia com tamanho, formato e altura estabelecidas pelo CTB, tida como própria para quem conduz veículo motorizado, como acontece em algumas das ciclovias paulistanas, em particular na av. Faria Lima. O ciclista passa batido e não vê; não vê porque não vê mesmo, não por má fé. Pior, em algumas destas situações o posicionamento da sinalização está em posição duvidosa: para quem será direcionada? 
Não adianta querer delirar com o CTB que reza que a bicicleta é um veículo e que seu condutor tem respeitar as leis. Primeiro, leis feitas por quem?; depois para quem? Alguma ordem, leis, tem que ter, é óbvio, mas que atenham-se a realidade, não ao delírio de um punhado de espertos, entenda-se ai o que quer que quiser da palavra espertos. 
A esta altura do banho de trânsito que corre pelo Brasil deveria ser obrigatório que os responsáveis pela segurança no trânsito fossem obrigados a ter formação prática em todas as modalidades de transporte, nas mais diversas situações de trânsito, centro, periferia, vias expressas... O que não se pode mais é aceitar que alguém com formação só em leitura, por mais leitura que tenha, dite o que é real ou não, o que é seguro ou não. É absolutamente inaceitável que alguém que simplesmente tenha medo de pedalar em situações reais, comuns aos usuários do dia a dia, dê consultoria técnica ou trabalhe em projetos de engenharia de trânsito. É lógico que dá merda, a prova irrefutável está ai em números apavorantes. 
A brincadeira - e só pode ser tomada como brincadeira - de multar pedestres e ciclistas a partir do ano que vem veio do DENTRAN é mais uma prova deste país da fantasia que eles vivem. Quem quer que tenha tido esta brilhante ideia, das multas, com certeza nunca caminhou numa estrada conurbada, tentou cruzar o rio Pinheiros da favela do Real Parque para Moema. Será que o pedestre infringe a lei porque é burro ou porque a próxima faixa de pedestre está a 500 metros, o caminho mais lógico e curto está ali na frente? Este pessoal nunca viu o que há de mais moderno e eficiente para sinalização voltada para ciclistas provavelmente porque não aceita que a leitura que o ciclista faz do trânsito é muito diferente da de um condutor de veículo motorizado. 
A bem da verdade tenho certeza que o olhar destes senhores é viciado, o que é absolutamente normal, humano, acontece com todos nós. O óbvio é um polvo grudado no nariz que somos incapazes de enxergar. A diferença é que não ver a realidade diária do povo custa vidas. E como custa! Os números trágicos não mentem.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

educação, formalidade, e o convívio social

Em 1975 me foi dada oportunidade de ir para os Estados Unidos em navio cargueiro, três meses de viagem, ida e volta, uma experiência única que mudou minha forma de ver a vida. No meio do oceano, a perder de vista da terra, sem absolutamente nada em volta e sem interferência da iluminação das cidades o céu de estrelas é pleno, infinito, e podemos ter um pouco de noção de nossa pequenez, insignificância. Tivesse eu tido filhos teria feito o possível e impossível para que tivessem a mesma experiência.
Minha falta de educação e ou timidez fizeram que eu não agradecesse a tio Francisco, quem me havia dado a viagem. Pior, anos depois descobri que uma atitude infantil minha no porto de Baton Rouge fechara as portas para todos que vieram depois querendo fazer a mesma viagem. Nada justifica que não tenha tido o mínimo de educação e formalidade para ir agradecer imediatamente tio Francisco. Por mais que naquele momento no íntimo o tenha agradecido muito, e sei quanto o fiz internamente, não o fiz pessoalmente; uma falta sem tamanho. Burrice!
Esta história me voltou a tona quando um jovem adulto muito bem educado teve uma atitude parecida com a que tive com Tio Francisco. Por pura falta de experiência na vida não devolveu uma chave da forma como havia sido combinado. Coisa boba, coisa de uma geração que acha que rede social resolve tudo. Ele agiu dentro dos parâmetros bit/digitais, normal para sua geração, mas a chave não chegou nas mãos devidas e fechou portas.

Bom dia; boa tarde; boa noite; por favor; com sua licença; como vai?; posso ajudar?; e outras pequenas ações que valem ouro. Tão simples. Formalidades ou pequenas gentilezas que aplicadas ao dia a dia transformam para melhor tudo. 
Atualmente tenho que controlar meu vulcão, felizmente quase extinto (uma das poucas vantagens da velhice), para não lançar larvas ferventes sobre esta geração rede social que não tira a cara do celular. Me sinto como na viagem de navio para os Estados Unidos só que ao contrário, completamente certado de vidas iguais a mim em volta, mas completamente solitário. Quando a civilização vai aportar novamente no porto da vida? Pelo quanto estão no mar digital buscando direção num GPS aparentemente funcionando bem. Será? Eu prefiro ficar olhando as estrelas. 
Bom dia; boa tarde; boa noite; por favor... olhos nos olhos. Funcionou, funciona e continuará funcionando. Somos humanos, temos história, construímos uma civilização olhos nos olhos, conversa franca, longa e ao vivo. Tem seus erros, mas está ai cheia de boas coisas. Educação, formalidade, convívio sempre foi o caminho.
Andy Warhol não sabia, mas os minutos de fama para todo mundo se transformaram em bits cada vez mais rápidos e insignificantes. Agora fama e superpoderes está a disposição de qualquer um, basta estar na rede. Mas..., adianta dizer bom dia para um fone de ouvido?
Ande, pedale, viva olhando a vida. A vida é um mar de estrelas infinitas, linda, riquíssima. Viva!

Multa para pedestres e ciclistas

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor:

Multar pedestres e ciclistas? Da forma como se encontram as cidades brasileiras, onde a fluidez do trânsito motorizado continua sendo prioridade absoluta, a notícia de que vão multar as duas principais mobilidades ativas é mais uma prova que os responsáveis pelo trânsito usam a lei, o CTB, de forma a proteger suas próprias limitações. Pedestre não comete imprudências e ilegalidades por que quer, mas porque é induzido a elas. Ciclistas, os mais novos algozes de pedestres, comportam-se como comportam-se porque não foram educados e treinados, o que aliás é responsabilidade estabelecida pelo CTB e não cumprida pelas autoridades. O pouco que se faz pela educação para o trânsito é um faz de conta que pouco ou nada tem a ver com a realidade. O gravíssimo problema do trânsito no Brasil tem muito a ver com a falta de legitimidade social da engenharia de trânsito aplicada, obsoleta, medíocre, em alguns momentos irresponsável. Mas sobre isto pouco ou nada se fala. Prova irrefutável disto é o trânsito pacífico e respeitoso às leis nos raríssimos pontos deste país onde a engenharia de trânsito aplicada é inteligente e honesta com todos transeuntes.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Transitado e julgado ou linchado?

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

O primeiro grupo organizado e oficial de ciclistas mulheres de São Paulo e provavelmente do Brasil está comemorando 25 anos de sua fundação. Maria Teresa D’Aprile, uma das fundadoras e principal expressão do grupo, desde 1992 vem sendo entrevistada por todos meios de comunicação deste país, mesmo assim a Justiça do Estado de São Paulo deu como Transitado e Julgado um processo que começou a mais de três décadas tendo como uma das alegações que Teresa não foi encontrada mesmo procurada por 10 anos. Uma busca rápida na Internet e Teresa teria tido direito a uma defesa justa, já que sequer seu nome deveria estar incluso no processo, como agora aponta um Juiz Federal, dentre outras sutilezas surrealistas típicas da justiça brasileira. Procuramos saber quantos cidadãos estão Transitados e Julgados em situação semelhante à de Maria Teresa D’Aprile e simplesmente só conseguimos respostas “muitos”. Imaginem o que acontece com os menos instruídos e com menor renda. Da forma lenta, ineficaz, obsoleta e confusa como funciona a Justiça, Transitado e Julgado pode não passar de um linchamento oficial.

domingo, 22 de outubro de 2017

A alma que se transforma em lama

Domingo passado estava pedalando na av Brasil e dei de cara com um senhor nisei pedalando uma Caloi Aluminun hibrida 1991 cor vinho. Fora algumas poucas peças trocadas por desgaste a bicicleta está linda, praticamente original. Senti saudades da minha; igualzinha. Conversa vai, conversa vem, ele contou que comprou nova e na época pedalou pouco porque sentia medo de pedalar na rua. "Pedalar naquela época era uma delícia, bem mais seguro que é hoje", repliquei. E era, quem pedalou naquela época sabe bem, era o paraiso. E aí me bateu o badalar dos sinos e a lembrança da ladainha daquela época repetida aos quatro ventos por muitos ciclistas: "Sem ciclovia não tem (temos, os então ciclistas) segurança". Briguei o que pude e o que não pude contra esta besteira. Pensando bem sacanearam com uma geração  de possíveis ciclistas e retardaram muito o desenvolvimento sustentável da cidade. 
Fui guia de passeios de bicicleta pela cidade, sempre evitando levar o pessoal pelos mesmos caminhos preferenciais dos automóveis. A maioria só pedalava em avenidas, vias expressas, ruas movimentadas, exatamente os mesmos caminhos do trânsito, dos automóveis. Guiei muita gente com medo e pouca habilidade no pedal que voltava para casa com outra ideia sobre segurança e fascinados pela riqueza e beleza da cidade.
São Paulo era tranquila, muito tranquila. Pedalar era seguro. O número de carros circulando era muito menor que temos hoje, os motoristas pouco estressados, não havia esta praga de celular, assaltos, e outras coisas mais perigosas do nosso dia a dia. Bastava fazer caminhos alternativos por dentro de bairros, pulando de um para o outro como se fossem ilhas de tranquilidade cercadas por avenidas. Mas o discurso político revolucionário da época era o implacável "Sem ciclovia não tem segurança". E pedalando com o dono da híbrida 1991 me dei conta que foi uma tremenda sacanagem com os ciclistas e com a causa da bicicleta. Quantos perderam a oportunidade de vivenciar no pedal uma São Paulo mágica, única, cheia nuances surpreendentes? Conhecer aquela São Paulo tão heterogênea foi mágico, incrivelmente mágico; sinto profundamente por quem perdeu. 
Tenho a cabeça leve. Fui radicalmente contra esta besteira, diria burrice, de só ciclovia salva. Não adiantava falar em planejamento do espaço urbano levando em consideração toda e qualquer técnica que ajude a melhorar a segurança de ciclistas, pedestres e pessoas com deficiência. Não havia interesse. Por que? Porque uns eram muito radicais, muitos papagaios de pirata, vários achavam que sabiam pedalar, técnicos não sabiam projetar, pensar a cidade, pensar o trânsito, as mobilidades, aliás não sabiam sequer o que era um sistema cicloviário, como disco quebrado só balbuciavam “ciclovia”. 
O jornalismo brasileiro é muito responsável pela propagação da besteira porque é pouco investigativo e comprou as segas o "sem ciclovia não tem segurança". Aquilo deu nisto. "Nisto o que?" "Não deu certo? Não tem um monte de gente pedalando?" devem se perguntar. Deu? Deu mesmo? Será? Quantos pedalam? Onde pedalam? Como pedalam? Onde estão os números? Sem ciclovia não tem segurança? É mesmo? Então por onde pedalam os ciclistas até acessar as ciclovias? Então?
Não entendeu? Cidade ou ciclovia? 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Pedalar correto

Sai aqui em São José dos Campos para pedalar com um amigo, Zé. Ele estava a três meses parado e uns quilos mais pesado. "Vamos até a represa, que vai dar uns 40 km". Já estou escolado e imaginei como seria: saímos às 7:30 h e voltamos às 14:30 h, total 55 km. Bem antes do meio do caminho fiz delicadamente a pergunta óbvia: "Não seria bom voltar daqui", e recebi a resposta típica "Fica tranquilo, estou bem". Óbvio, mais uns quilômetros e ouvi um resmungar baixinho "Tô sentindo câimbra". Isto debaixo de um sol de mais de 35º C. 
Para praticamente tudo há uma técnica esportiva, inclusive para quando já deu pau. Paramos, ele desceu da bicicleta, pedi que ele desse muros suaves na musculatura dolorida, dei algo para ele comer, um pouco doce e um pouco salgado, tomou água, fez um leve alongamento e em seguida nos pusemos a caminhar. A situação melhorou, mas pela expressão dele eu sabia que era bem precária. De volta ao pedal.
Antes de outras dicas que ajudam nesta situação deixo a recomendação para que se respeite seu próprio limite. Se quiser ir até o limite é necessário conhecimento, prática e uso de várias técnicas esportivas que se aprendem principalmente lendo. Mas... quer saber, nunca chegue ao seu limite, principalmente se você não for um esportista profissional. Começou a sentir que vai complicar pára, descansa e se for o caso não tenha vergonha de fazer o caminho mais fácil e curto de volta. No caso ele foi sábio e intercalou pedalar e caminhar, principalmente nas subidas mais fortes.
Recomendo a leitura dos textos de Jeff Galloway, que criou uma técnica para corredores, a Run Walk Run. Os princípios servem bem para ciclistas amadores. Zé é experiente, pedala bem, é forte, resistente, só está enferrujado e neste caso algumas dicas de Jeff Galloway que conheço ajudaram muito.  
Outras dicas:
Ciclismo é a arte de preservar energia. Pedalando em qualquer situação a técnica mais preciosa é preservar energia. Quanto menos energia você gasta mais longe você vai. E dependendo de sua técnica, mais rápido também. Use e abuse do câmbio. Marcha, marcha, marcha, marcha... Marcha! A cada variação de cadência troque de marcha para manter o giro correto, entre 60 (mínimo) e 90 giros por minutos para amadores.  Use as marchas para manter sua musculatura trabalhando o mais suave possível. Na subida faça a troca de marchas de forma que sua musculatura vá aumentando aos poucos o esforço. Isto faz com que coração e pulmões também aumentem seus trabalhos suavemente. Use o peso da perna para girar os pedais, nas subidas isto significa girar um pouco mais rápido os pedais, nas descidas um pouco mais lento. 
Importante: mesmo que esteja muito cansado e sentindo a musculatura continue a pedalar depois da subida, mesmo que girando em falso, o que faz respirar a musculatura e limpar as toxinas. 
Controle sua ansiedade. Ansiedade cansa mais do que se possa imaginar. Limpe os pensamentos negativos da cabeça, tipo "onde esta subida termina, quanto falta ainda..." Olhe a natureza, converse, cante...
Quanto mais liso e menos inclinado for o trajeto menos esforço. Poucos se preocupam com os detalhes da chão por onde estão passando, seja terra ou mesmo asfalto. A maioria faz uma linha reta, não importando se está passando por pequenas imperfeições, buraquinhos, pedrinhas, areia... O melhor é ficar atento ao trajeto e sempre buscar o piso que faça o rodar mais fácil. Não precisa exagerar e ficar fazendo zig-zag, basta prestar atenção no que está na frente da bicicleta. Procure a melhor linha reta. Na terra pedalar por fora de uma curva costuma ser mais liso, um pouco mais longo, mas menos inclinado. Quando tem costela de vaca um dos bordes pode ser o melhor caminho.
Ciclistas inexperientes na estrada:
Indo de São José dos Campos para Aparecida do Norte peguei dois ciclistas sofrendo muito. O primeiro com uma bicicleta de supermercado barata, pesada, pneus de baixa pressão, e, pior, com suspensão traseira, completamente errada. Prefiro não falar do selim duro e com ponta para cima (ai meu saco!) porque vai que o sujeito estava pagando penitência. Ah!, sim!, a bicicleta era muito pequena para o ciclista. Enfim, uma cascata de erros, um pior que o outro. Que dica eu dou para este caso? Abandona a bicicleta no acostamento, pede carona, volta para casa e vai dormir. Ou carrega uma cruz de penitência até Aparecida que é mais fácil. 
O segundo ciclista estava com uma 29 correta para o tamanho dele, mas ele só tinha 3 meses de pedal, ou seja, não sabia pedalar. Cheguei muito rápido nele, recomendei que usasse mais as marchas, ele resmungou algo como "mas estou usando as marchas". E respondi "Não, não está. Tenho uns 30 anos a mais e estou com pelo menos uns 15 quilos mais pesado (alforges), e mesmo assim estou indo mais rápido. Usa as marchas que vai ser mais fácil". Ele me acompanhou por uns 20 km, emparelhou e confessou que iria parar porque estava morto. Qual a dica aqui: vai no teu ritmo, não se importe com os outros. 
Pedalar não é pagar penitência. Pedalar é arte de preservar energia. Preserva-se energia quando se sabe usa-la bem. Dai o respeito que se deve ter às técnicas, a ciência.

"Você foi pela estrada? É muito perigoso!..." ?

Sentamos para jantar e passamos por todos assuntos familiares e costumeiros, mas nenhuma pergunta sobre minha viagem em bicicleta para Aparecida. A cara do meu pai quando quis contar bastou para que eu voltasse a ficar calado. Ele, como a maioria, acha uma loucura pedalar em estrada. Será? Não, não é. 
Seguro, o que é seguro? Depende de uma série de fatores, mas há os preponderantes. A maioria dos acidentes envolvendo ciclistas acontece em cruzamentos; em estrada nas saídas ou acessos da estrada ou quando o ciclista cruza a pista. É raro ciclista ser atropelado por trás pedalando do meio para o borde do acostamento. Se o acostamento for largo, sinalizado, limpo e sem buraco, por diversas razões diminui mais ainda a possibilidade de acidente. Com o ciclista visível para os motoristas, vestido de laranja ou, melhor, pink fluorecente, o risco é baixíssimo. Óbvio que tem o imponderável e Jesus me chama faz parte da vida. Comparado com pedalar na cidade pedalar na estrada é muito mais seguro.
Nunca no trajeto vermelho
NUNCA pedale como se estivesse dirigindo um carro, principalmente numa estrada ou via expressa. Pedalar seguindo em linha reta nas saídas e acessos, principalmente nos que permitem sair ou acessar em alta velocidade, é fator de alto risco para o ciclista. O correto é acompanhar o acostamento até onde o cruzamento da saída ou acesso puder ser realizado na menor distância, de preferência a 90º, porque é a posição onde ciclista e bicicleta ficam mais visíveis, onde o cruzamento se faz mais rapidamente, e o ciclista tem uma visão mais clara do trânsito. Pense no motorista dirigindo a 80 km/h e é fácil entender que um visto por trás ciclista fica praticamente invisível numa estrada ou via expressa, mais ainda em saídas e acessos rápidos. Não se engane colocando luzinhas e pisca-piscas porque a visibilidade destes durante o dia é praticamente nula. Não acredita? Leia as especificações técnicas do fabricante da lanterna ou pisca-pisca. Inseguro mesmo é acreditar que está seguro baseado em informações falsas, besteiras ou crenças. 
É lógico que existem pontos onde pedalar na estrada não é fácil, até perigoso. Áreas conurbadas, onde a estrada está dentro da cidade, normalmente é desagradável, para dizer o mínimo. Ai vale bom senso, paciência e cautela redobrada; e se possível procurar caminhos alternativos. 
Mesmo aqui no Brasil não fugimos da regra mundial que diz que mais da metade dos acidentes são causados e responsabilidade direta do condutor do veículo, o que inclui bicicleta. Ficar culpando os outros pelos seus problemas não resolve nada, aliás, só gera novas situações perigosas.

Nesta romaria para Aparecida até onde soube morreram dois, um atropelado na Dutra e uma senhora que tomou um tronco de árvore na cabeça. Há locais onde não gostei nada de pedalar, todos em trechos de estradas passando por dentro de uma cidade. Antonio Olinto, respeitadíssimo cicloturista que já deu algumas voltas ao mundo pedalando, afirma que o problema é cidade grande, o resto é muito seguro. Palavra de papa.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sobre matéria no Estadão expresso "Ser pedestre..."

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

'Ser pedestre é estar aberto às experiências e ao mundo'

Boa matéria se for vista como a primeira de muitas sobre pedestres e reconstrução das cidades. Mas no box "Caminho das pedras" onde Vitor Andrade "aponta fatores importantes para melhorar as condições de mobilidade a pé nas cidades brasileiras" não está citado a melhoria da técnica utilizada no desenho das vias e implantação de sinalização, onde estamos ainda na idade medieval. Faixa de pedestre posicionada de forma a não atrapalhar o trânsito de veículos motorizados e que obriga o pedestre a caminhar muito para poder cruzar uma rua é o erro mais frequente. Não interessa à engenharia de trânsito o caminho natural do pedestre, que normalmente é uma linha o mais reta possível. Semáforos para pedestres que demoram uma eternidade. Ou inexistência de semáforo, ou pior de faixa de pedestre em áreas de intenso fluxo de pedestres, como nos acessos a parques, vide o tratamento dado ao pedestre no Parque Ibirapuera X av. Pedro Alvares Cabral ou República do Líbano; dentre tantos outros exemplos. Para a engenharia de tráfego o pedestre que se vire, pelo menos esta é a sensação. Agora, especialistas (e ativistas) não conhecerem o trabalho de Michael King junto com ITDP, dentre tantos outros, no que trata sobre os caminhos do pedestre... sem comentários. Enfim, um dos fatores cruciais para melhoria da vida do pedestre no Brasil está o respeito ao desejo de trajeto deste mesmo pedestre. Para terminar: a bronca acima vale para todos jornalistas brasileiros, que também são pedestres. Ninguém fala ou escreve uma linha sobre os problemas técnicos, ninguém. Impressionante!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Último dia de "romaria" para Aparecida, 300 anos

Começo pelo fim. Cheguei lá. E eu que não sou de fazer selfy tirei a minha na ponte de entrada da cidade com a Basílica de Aparecida ao fundo. Entro na cidade pela rua paralela à Basílica, paro para um cafezinho obrigatório, já um pouco assustado como estava calmo. Vou para a Basílica, subo a rampa com muito menos gente que esperava. Missa correndo, Basílica cheia. Não fui ao shopping que fica atrás da Basílica que com certeza deveria estar cheio. Mas no entorno, muito menos que imaginei. Estranho porque enquanto vinha pela Dutra fiquei impressionado com a quantidade de peregrinos caminhando dos dois lados da estrada. Imaginei encontrar uma grande festa, daquelas que você tem alguma dificuldade de circular no meio do povaréu, mas nada disto. 
A decoração interna da Basílica está concluída. Ficou lindíssima, de muito bom gosto. É uma obra quase monumental, simples, inteligente, alegre. Os murais são de rara beleza, leves, produto de fino artista, acompanham e completam a grandeza e modernidade da arquitetura. Vale a visita mesmo para quem não é religioso ou cristão. 
E o povo? Confesso que fiquei decepcionado. Onde está o povo? Minha ideia era passar o dia circulando na bagunça, ver a festa noturna e só ir embora no dia 12 de Outubro, dia da Padroeira, Dia das Crianças, da inauguração do Cristo Redentor, e do aniversário de minha mãe. Razões para ficar na festa não faltava, mas forças sim. E onde está a festa?
Para fugir do sol inclemente, oficialmente uns 35º C, mais quente no asfalto da estrada movimentada, desde de São José dos Campos pedalei num ritmo bem mais forte que o normal. Sacrifiquei as pernas para não virar churrasco de gato no asfalto. Cheguei bem, mas bem cansado. E sem festa, sem povão, com o pneu traseiro da bicicleta deformado, difícil de pedalar e pronto para estourar... Uma nuvem negra no horizonte vindo rapidamente. Ir para Pindamonhangaba, a outra alternativa, e voltar mais tarde ou no dia seguinte, com aquele pneu nem pensar. Cansado tudo que não queria era ficar no meio da estrada. Fui até a informação e me disseram que naquele horário seria muito fácil encontrar ônibus para voltar para São Paulo, mas que no dia seguinte, dia 12, seria bem difícil. Decidi tentar a sorte na rodoviária. Entre a Basílica e a rodoviária tem a rua do comércio local e lá estavam todo povão em compras. Parecia até uma 25 de Março. Eu não tenho tanta fé assim. Confesso que brochei. Melhor voltar para São Paulo.
Uns minutos depois estava dentro do ônibus, feliz por ter chegado e frustrado por não ficar. Entramos na Dutra e fiquei impressionado com a quantidade de peregrino caminhando e mais impressionado ainda com o número de ciclistas que vi passar. Até um pouco depois de São José dos Campos foi muito ciclista, não sei quantos, mas muito mais ciclista que imaginara. Parei de ver os ciclistas quando a chuva chegou forte. 
Hoje é dia 12. Acompanhei com certa frustração os acontecimentos pela TV. Queria estar lá. Infelizmente não tenho mais 20 ou 30 anos, mas felizmente tenho cabeça para ficar longe da confusão que foi. Aparecida recebeu mais gente do que esperavam. Ficou um tanto complicado por lá. 
Quer saber, me diverti muito. Tenho vontade de voltar para estrada agora. Não sei a quem agradecer, mas a viagem foi ótima. "Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida, ilumina...


terça-feira, 10 de outubro de 2017

São Paulo, Sorocaba. São José dos Campos, Aparecida do Norte

Tenho sobrinha com duas filhas vivendo em Piedade, que fica próxima a Sorocaba. Piedade é típica cidade pequena de interior brasileira, feia, mal resolvida, com crescimento desordenado, obviamente com edifício alto no meio da cidade (sinal de riqueza ou pobreza?), nada mais que um aglomerado de pessoas ocupando uma área. As opções de hotel de lá são mais caras que do Ibis de Sorocaba, cidade com cara de cidade. 10 X 0 pro Ibis e Sorocaba. Fui de São Paulo para Sorocaba pedalando pela rodovia Castelo Branco, muito mais tranquilo que imaginava, mesmo com chuva a partir da metade do caminho e dos 4 furos de pneu. 
Sair de qualquer cidade grande normalmente é complicado. Estradas conurbadas deveriam ser tratadas de forma completamente diferente do que temos hoje, aqui e todas as partes do mundo. Viraram vias expressas completamente hostis a qualquer forma de vida no entorno. Descobri um caminho para fugir dos primeiros 18 km da Castelo Branco, os mais críticos. Foi ótimo. Um dia gostaria de ir para Piedade pela rodovia Raposo Tavares, mas até Cotia é perigosa, desagradável para o ciclista. Pena, porque passou Cotia a paisagem é linda. 
Como todas as vezes que fui visitar as meninas em Piedade aproveitei e pedalei no extenso sistema cicloviário de Sorocaba O trecho que ladeia o rio Sorocaba é muito simpático, obrigatório. Fora de fim de semana praticamente não se vê ciclistas circulando na área mais rica da cidade. Preciso um dia acordar bem cedo para ver o que acontece no horário de ida para o trabalho e nos bairros mais simples.
Passada a festa de aniversário de minha sobrinha neta, hora de iniciar a segunda parte da viagem: ir para Aparecida do Norte ver a comemoração dos 300 anos do encontro da pequena Santa.
Sorocaba - Jundiaí, primeira etapa, um pouco mais de 80 km, com parada obrigatória para almoçar no Tonilu Café em Itú, um dos melhores pasteis do Estado de São Paulo, com direito a bom café passado no ato no coador. Tive que resolver umas coisas em Sorocaba e acabei saindo às 9:10 h, tarde para um dia ensolarado. Foi um racha coco terrível, principalmente a tarde. Felizmente o vento contra diminuiu com o passar do dia e não tive furo de pneu, mas foi duro, bem duro. Também tive que controlar a dor no adutor da perna esquerda, na verdade um cansaço provocado por exageros infantis um dia antes de minha partida de São Paulo.
 Jundiaí - Atibaia foi o máximo. Olhei os mapas e descobri que há uma estradinha que liga as duas cidades, uns 25 km mais curta que via Jarinu, pela estrada principal. Esta pesquisa também me mostrou que mesmo os mapas da internet tem pequenos problemas e até erros. Minha saída de Jundiaí até chegar na Estrada Bragantina, que sai de Campo Limpo Paulista, foi na base do pára - pergunta e a maioria não fazia ideia sobre o que eu estava falando. Todos sabem chegar em Atibaia via Jarinu, mas ir direto? estradinha?... A Estrada Bragantina é a desativada linha do trem, com suas curvas e inclinações bem suaves, divina para pedalar. Cheia de bugios e outros macacos berrando o cio. Primavera! Recomendo muito o passeio. Um pouco menos de 40 km perfeitos até para iniciantes. 
Cheguei cedo em Atibaia e nadei. A água me relaxou, melhor, virei gelatina. Bem que precisava. Acordei um pouco antes das 4:00 h da madrugada e fui para estrada, direto para São José dos Campos. 
Pedalar a noite é muito tranquilo, silencioso, mas prefiro ir vendo a paisagem. Mais um furo de pneu. Os acostamentos estão cheios de restos de pneu de caminhão, cheios de fiapos furantes, um nojo. No meio do caminho, em Igaratá, chuva forte. Mais uma vez tive a sorte de pegar o início da chuva num posto tomando café. Diminuiu um pouco, vesti a capa e cai na sopa. A chuva só diminuiu na Dutra, já próximo de São José do Campo. Felizmente não furou outro pneu. 
O problema da Dutra é que em alguns trechos não há acostamento, nem calçada ou via paralela. Acho um absurdo para uma via é passagem de romeiros e tem muito trabalhador caminhando para o trabalho. De novo, problema da via conurbada. Dutra virou um avenidão a beira do caos. Quando foi feito o projeto cicloviário de Guarulhos a contagem de ciclistas na Dutra entre a Rodovia Helio Smitd, que vai para o aeroporto de Guarulhos, e Bonsucesso, do outro lado da cidade, apontou um ciclista a cada 27 segundos em horário de pico, todos trabalhadores; sem falar dos pedestres. 
A quantidade de romeiro indo para a comemoração dos 300 anos da Padroeira é absurda. Quatro dias antes, dia 8, tinha mais romeiro na estrada que um dia antes, dia 11, no ano passado. 
Estou parado em São José dos Campos para visitar um amigo. Gostaria de ter encontrado vaga no meu hotel predileto em Pindamonhangaba, mas demorei para fazer a reserva. Pinda vale uma parada mais longa. Pena. Amanha sigo para Aparecida. Hoje aqui está um racha coco absurdo. Espero que amanha o clima seja menos impiedoso. 

domingo, 8 de outubro de 2017

Três recomendações para a revisão do CTB

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor: 

Três recomendações para o novo Código Brasileiro de Trânsito que está em tramitação.
Primeira: deixar mais explícito do que já está que o CTB vale para todo território Nacional - incluindo áreas particulares públicas e privadas. Parece besteira, mas definitivamente não é. Já ouvi de "autoridades", no caso segurança local, que não podiam fazer nada em relação a motoristas circulando em alta velocidade, desrespeitando pedestres ou cometendo outras infrações de trânsito dentro de estacionamento de shopping, supermercado, condomínios e até mesmo dentro de estacionamento de propriedade pública. Deve haver algum buraco na lei que permite que dentro de certas áreas o CTB não possa ser completamente aplicado, o que é um absurdo, afinal se encontram em Território Nacional. Ou não? Assim como as comunidades, favelas, tem leis próprias ditada pelo dono do pedaço?
Segunda recomendação: A lei que obriga motoristas e motociclistas a ultrapassar ciclistas a 1,5 m. nunca foi aplicada porque na pratica é impossível medir a distância entre os dois veículos, carros ou motos e bicicletas em movimento e no exato momento da infração. A recomendação é que o CTB descreva de maneira simples e direta como deve ocorrer uma ultrapassagem com segurança. Afinal, toda ultrapassagem deve realizada respeitando a segurança e integridade de quem está sendo ultrapassado. E, qualquer ultrapassagem consiste nos atos da sinalização, aproximação, emparelhamento, ultrapassagem, e distanciamento do veículo, pessoa, ou animal que esteja circulando mais lento, não só manter 1,5 m. de distância. Não adianta ultrapassar guardando distância correta e logo depois frear e virar na direção de quem foi ultrapassado, principal razão de acidentes envolvendo ciclistas. Mais, regulamentando o ato completo de ultrapassagem se estará dando segurança aos pedestres que hoje sofrem por conta da falta de civilidade de muitos ciclistas.

Terceira: pelo CTB ciclista é condutor de um veículo, a bicicleta, mas mui raro é punido por infrações ou mau comportamento. É necessário tapar este buraco. Pedestres e ciclistas (e todos mais) têm que receber a educação obrigatória já estabelecida pelo CTB e que até hoje foi só para inglês ver, não colou. E no caso de infração deve ser punido como qualquer cidadão comum. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A vida diz tudo a todos

A vida é estranha. Quando você está propenso a revisar sua própria vida acontecem umas coisas estranhas. Primeiro foi o choque que tive dando aulas para um menino de 11 anos. Sua calma e objetividade espelhou o que intuitivamente eu invejava em alguns amigos de minha infância na escola. Demorei décadas para entender que o que me fascinava neles era a naturalidade com que se comunicavam ou faziam as coisas mais simples. Eu era irrequieto, perdido na minha própria agitação de quem tem DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção, misturado com dislexia e hipo-hiper glicemia, que provoca choques glicêmicos e consequentes acessos de instabilidade emocional. 
Cansado de meu próprio comportamento fui a procura de ser melhor e fiz e continuo fazendo uma espécie de cruzada na busca da paz que via em algumas pessoas. Uma delas, Tina, a quem devo eternamente desculpas, me estendeu confiança e alguns livros, dentre eles O homem e seus símbolos (Jung), Bhagavad Gita e Sidarta. Sidarta foi um divisor de águas, uma ponte sobre o mar de ventanias fortes e águas revoltas. Ser ou ter? (também título de outro livro importante). Pendi para o ser. E estar. No estar se encaixa e entrou a bicicleta e seu pequeno milagre de brincar com o equilíbrio e oferecer liberdade. 
A vida seguiu seu destino e aos poucos o fogo dos delírios normais da imaturidade foram perdendo espaço para sonhos supostamente realizáveis; e estes bem continuaram seu caminho rumo a realidade. "A vida diz tudo a todos" repetia com frequência Lollia, minha mãe. A vida confirma. Demorei muito para perceber que muitas de minhas referências são simplesmente humanas, tão falhas e tão normais como a maioria que está por ai, mas dentro de um imaginário prestaram um grande serviço apontando um norte.
Norte. Não é um caminho fácil. Não é chegar na Shangrila do filme, nem no Nirvana Budista, muito menos qualquer paraíso. Pena, mas sem boas chacoalhadas não aprendemos. Buscar viver com um mínimo de sensatez. Viver. Mais: é norte, leste, sul, oeste..., não necessariamente nesta ordem.
Estou, melhor, continuo revisitando meu passado. Nem tão belo ou horroroso como senti no momento dos acontecimentos. Me orgulho de ter me esforçado em aprender com meus próprios erros, muitos idiotas, estúpidos, completamente desnecessários, doloridos que não passam, mas que a vida nos coloca de proa. Não se foge ou apaga os pecados, mas possível tentar lavar um pouco a alma mostrando a outros como evitá-los. Sempre há um caminho mais fácil e seguro. Passa longe do inconsequente e com certeza absoluta do a qualquer custo.
Hoje está mais que provado pela ciência: o bem está no coletivo, no diálogo, é o futuro. A sabedoria está na dúvida, dúvida até do que é correto. Correto quando?; para quem?; como?...A vida é estranha. Quando você está propenso a revisar sua própria vida acontecem umas coisas estranhas. Primeiro foi o choque que tive dando aluas para um menino de 11 anos. Sua calma e objetividade espelhou o que intuitivamente eu invejava em alguns amigos de minha infância na escola. Demorei décadas para entender que o que me fascinava neles era a naturalidade com que se comunicavam ou faziam as coisas mais simples. Eu era irrequieto, perdido na minha própria agitação de quem tem DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção, misturado com dislexia e hipo-hiper glicemia, que provoca choques glicêmicos e consequentes acessos de instabilidade emocional. 
Cansado de meu próprio comportamento fui a procura de ser melhor e fiz e continuo fazendo uma espécie de cruzada na busca da paz que via em algumas pessoas. Uma delas, Tina, a quem devo eternamente desculpas, me estendeu confiança e alguns livros, dentre eles O homem e seus símbolos (Jung), Bhagavad Gita e Sidarta. Sidarta foi um divisor de águas, uma ponte sobre o mar de ventanias fortes e águas revoltas. Ser ou ter? (também título de outro livro importante). Pendi para o ser. E estar. No estar se encaixa e entrou a bicicleta e seu pequeno milagre de brincar com o equilíbrio e oferecer liberdade. 
A vida seguiu seu destino e aos poucos o fogo dos delírios normais da imaturidade foram perdendo espaço para sonhos supostamente realizáveis; e estes bem continuaram seu caminho rumo a realidade. "A vida diz tudo a todos" repetia com frequência Lollia, minha mãe. A vida confirma. Demorei muito para perceber que muitas de minhas referências são simplesmente humanas, tão falhas e tão normais como a maioria que está por ai, mas dentro de um imaginário prestaram um grande serviço apontando um norte.
Norte. Não é um caminho fácil. Não é chegar na Shangrila do filme, nem no Nirvana Budista, muito menos qualquer paraíso. Pena, mas sem boas chacoalhadas não aprendemos. Buscar viver com um mínimo de sensatez. Viver. Mais: é norte, leste, sul, oeste..., não necessariamente nesta ordem.
Estou, melhor, continuo revisitando meu passado. Nem tão belo ou horroroso como senti no momento dos acontecimentos. Me orgulho de ter me esforçado em aprender com meus próprios erros, muitos idiotas, estúpidos, completamente desnecessários, doloridos que não passam, mas que a vida nos coloca de proa. Não se foge ou apaga os pecados, mas possível tentar lavar um pouco a alma mostrando a outros como evitá-los. Sempre há um caminho mais fácil e seguro. Passa longe do inconsequente e com certeza absoluta do a qualquer custo.
Hoje está mais que provado pela ciência: o bem está no coletivo, no diálogo, é o futuro. A sabedoria está na dúvida, dúvida até do que é correto. Correto quando?; para quem?; como?...


A 100 passos de um sonho.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A história da humanidade e o paralelo da caça às bruxas

Somos e sempre fomos todos humanos, esta "coisa" não muito dignificante que está, principalmente em países retardados como o nosso. Iguais é o resumo em uma única palavra que se tem da história da humanidade depois que se lê a história real das bruxas, feiticeiras, bruxos e feiticeiros, e variantes. 
Porque se interessar pelo tema "bruxas" é a pergunta que mais ouço, e a resposta é muito simples: é a história (real) de uma pequena, mas importante, parte das mudanças comportamentais rumo ao que hoje chamamos de civilização e sua pretensa liberdade de viver e ser. 
A história é sempre a versão dos vencedores ou os que tem ou estão com o poder na mão. Quando comecei a ler a história da bicicleta descobri não só mais uma história esquecida ou escondida, mas várias versões da mesma história. Bicicleta simplesmente desapareceu, ou esteve desaparecida, da história dos transportes, das mudanças urbanas, comportamentais, esportivas e sociais, em particular no que toca a história das mulheres. Dai foi um passo para ter interesse na história das mulheres, e porque não das bruxas, as diferentes, fora do contexto social. Interessante é que mesmo o pessoal geração Black Sabbath / Ozzy Osbourne se assusta quando digo que estou lendo sobre bruxas. Deveria ser leitura obrigatória - história real embasada em documentos, como deste livro. Pouco a ver com a versão romanceada. Depois da leitura não tenho medo de dizer que gostaríamos de nos transformar em uma sociedade de aquellares. Ou de inquisidores. A saber, doentes mesmo eram os da inquisição e os caçadores de bruxas, como os são hoje que estão ai e me assustam. 
Para quem quer saber a história das mulheres "bruxas" recomendo.






segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Demolição edifícios e entulho

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Estão demolindo um grande edifício moderno que fica na esquina das ruas Pirajussara e Gerivatiba, Butantã, provavelmente para a construção de um maior, pois tudo indica que o terreno assim permite.  É fácil vê-lo; é vizinho do edifício da Odebrecht que fica na cabeceira das pontes Bernard Goldfarb e Euzébio Matoso, na Marginal Pinheiros.  Para onde vai toda aquela barbaridade de entulho? Pelo que já foi discretamente anunciado, dado o tamanho do problema, São Paulo não tem mais onde colocar lixo e entulho. No caso de edificações em bom estado, como é o caso desta, não seria ideal que a Administração Pública dificulte demolições desnecessárias e direcione ampliações para soluções inteligentes que gerem o mínimo de entulho possível, exatamente como se tem feito mundo afora? Sai mais barato demolir e reconstruir para quem? Nós, simples mortais paulistanos, pagaremos a longo o prazo outros custos, esteja certo.
O edifício em questão é o da esquerda. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bicicleta Brasil em filme

Escola Blogspot
20 de Setembro de 2017

Bicicleta Brasil o filme

Ontem, 19 de Setembro de 2017, Renata Falzoni fez a primeira exibição do filme de sua direção e produção "Bicicleta Brasil", documentário sobre a ida pedalando de um grupo de ciclistas em 1998 para Brasília onde entregaram um manifesto pró então novo Código Brasileiro de Trânsito ao Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. No código anterior a bicicleta só era citada em placa de proibida a circulação e o CTB que viria (o atual) era um grande avanço. Foi a primeira vez na história que o Palácio do Planalto recebeu ciclistas com suas bicicletas.
O filme Bicicleta Brasil, muito bom por sinal, será exibido no Rio de Janeiro e Salvador, e como aqui após o filme acontecerá um debate sobre a questão da mobilidade com foco especial na bicicleta. 

O debate de ontem só confirmou o que está por aí: até que enfim a palavra de ordem é negociar. Foi-se o tempo da confrontação pura e simples. A fala do Secretário de Transportes do Município de São Paulo, Sérgio Avelleda, foi marcante neste sentido. A plateia de exatas 100 lugares, cheia, estava pouco dividida, pendendo muito mais para os que concordam com "negociar" que os que ainda pensam em algum confronto, aliás mesmo estes bem mais calminhos em suas posições.

No happy hour de quinta-feira passada, cinco dias atrás, promovido pela ABRACICLO no primeiro dia do Shimano Fest (que foi um sucesso absoluto), no meio de algumas conversas falava-se abertamente que o movimento cicloativista paulistano derreteu sob seu próprio fogo. De tudo um pouco: histórias sobre desvios, vaidades, falta de controle emocional, sexo, drogas e rock roll (duvido que rock de qualidade), fanatismo, politicagem, falta de inteligência... Triste, muito triste. Bom, caiu a ficha que a bicicleta precisa de um discurso completamente novo, que chegue e interesse a massa de ciclistas que está rodando abandonada pela cidade.
É fato que mesmo quem esteve no início deste movimento cicloativista, que segundo Renata Falzoni começa para valer em 2008, e que inegavelmente berrou alto e conseguiu espaços importantes, vem aos poucos abandonando o barco, a maioria por desilusão, outros por inteligência. Hoje é fácil encontrar quem fale do passado com um gosto amargo de arrependimento. Triste. Faz parte de um amadurecimento? Pode ser, mas a que custo?

De minha parte não consigo controlar a raiva. Não precisava ser assim, mas como dar bom rumo a uma turba enfurecida e manipulada? Sim, acabei de abrir o dicionário e checar "turba", como normalmente faço com termos mais agudos, e mantenho: turba enfurecida e manipulada. 

A cada passo que a humanidade dá no sentido do radicalismo retrocedemos e perdemos tempo no sentido da realização do sonho de um planeta melhor. Com tantos exemplos que vivemos hoje não fica claro que confrontação é o caminho mais medíocre a seguir? O problema está na forma de colocar boas ideias, que viraram chatas, insistentes, inconvenientes, até repulsivas. Quanto desperdício!


Particularmente não preciso de exemplos da humanidade. Sei muito bem qual é o preço das minhas fúrias e inflexibilidades e me arrependo amargamente de cada uma delas. O uso da bicicleta me trouxe boa parte do pouco bem que aprendi nesta vida. Tudo que eu queria, e sigo querendo, é que a bicicleta leve a sabedoria, inteligência em seu sentido maior, a paz. Infelizmente a vida não acontece como a gente gostaria, principalmente neste país medíocre chamado Brasil. Olho o que está aí e sinto uma dor imensa na alma. Onde errei?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Key West, um sonho de biplano e Museu Dali

Key West é um dos lugares mais simpáticos, charmosos, leves, que tive o prazer de estar. Pequena, acolhedora, com um patrimônio histórico singelo, mas de rara força. Mesmo onde é mais turística Key West é agradável, cheia de gente cordial, completo e divino zoológico humano, em grau, gênero e número. Pela posição geográfica e geografia tem nascer e por do sol no mar, espetáculos sempre acompanhados quase religiosa e misticamente por turistas e locais, sempre encerrado com aplausos e preces por mais dias maravilhosos cheios de vida e alegria, o que normalmente acontece.
O mar é quente, limpo, um sonho para quem gosta de nadar. Melhor ainda para quem nunca havia visto um albatroz flutuando tranquilamente tão de perto. O bicho é grande, muito grande, muito maior do que podia imaginar. E infelizmente arisco. Cheguei com toda suavidade a uns 10 metros e ele, muito desconfiado abriu as imensas asas e decolou desengonçado. Um outro passou por cima de mim majestoso e também se foi. Tivesse cagado teria sido bombardeio da Segunda Guerra Mundial, ou coisa parecida.
Pudesse eu voltaria todo ano para carregar a alma em Key West. Me sinto em minhas férias de infância.
Estranho, mas o local parece um paraíso da Huffy, uma marca de bicicleta básica americana que é muito charmosa.

Próximo dali, um pouco antes, na cabeceira norte da Seven Mile Bridge, ponte que já foi cenário de vários filmes, fica Key Marathon e seu pequeno aeroporto, com seu pequeno biplano vermelho com asas amarelas Waco da Overseas Aero Tours - Florida. Soube dele faz muito, mais de duas décadas. Monica Barros chegou contando deliciada sobre a experiência do voo. Desde aquele momento quis ter um encontro com a juventude de meu avô Arturo Raul que voava pilotando seu biplano sobre os campos de La Prata, Argentina. Voltando para Miami vi a placa, entrei no aeroporto, parei próximo ao pequeno e impecável Waco vermelho e amarelo. Sem mais perguntei ao jovem que limpava carinhosamente o aviãozinho quando poderia voar, e recebi um imediato "já". É uma experiência única, uma volta a um tempo de homens destemidos, aventureiros, muitos heróis. Imperdível. É incrivelmente rápida a decolagem, uma pequena acelerada e uns metros a frente suavemente estamos no ar, vento na cara de sua hélice de madeira, o barulho forte do motor. E a paisagem maravilhosa do mar translúcido que vai muito lentamente passando logo ali, um pouco abaixo, com um mar transparente, tartarugas, arraias e tubarões, os maiores e mais visíveis até para quem não vê direito. Escolhi o voo mais longo, mesmo assim me pareceu tão curto. Uma rápida passagem sobre a pequena cidade, uma curva para a esquerda, motor cortado e uma aterrizagem suave e curtíssima, quase como a de um helicóptero. 
Poucas vezes na vida fiquei tão angustiado quanto com a passagem do furacão Irma que pegou em cheio os Keys. O olho do furacão passou praticamente sobre a Seven Mile Bridge, ou seja, quase no aeroporto de Key Marathon. Os estragos nos Keys é imenso. As primeiras fotos de Key West são bem ruins. Esperança é a última que morre e ainda tenho alguma esperança que o patrimônio histórico da cidade tenha sido pouco menos afetado do que tudo indica. Key West que vi é parte de minha vida e não gostaria de ver desintegrada mais uma imagem, como tenho de Guarujá e tantas outras praias daqui.
Mandei uma mensagem no Facebook para o jovem piloto perguntando sobre a família e o aviãozinho. Todos bem. 
Este é o primeiro filme que mostra bem como está Key West, menos assustador do que imaginava, mas mais maltratada do que minha alma infantil desejaria. Incrível, vê-se no filme que as Huffys sobreviveram, submersas, mas inteiras.

Espero que o Furacão Maria, recém nascido e que já ganhou força 5, não passe por lá.

Outra preocupação é com o Museu Salvador Dali em St. Petersburg, http://thedali.org/, uma coleção sem igual deste gênio. Pelo que li e ouvi a construção moderna foi feita para aguentar qualquer coisa. Espero que também o furacão Irma.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Saudades do Brasil

Entramos num posto de gasolina numa estrada de Portugal para tomar um café e descansar um pouco. Passei os olhos nos CDs e lá estava "Carminho canta Tom Jobim". Tom Jobim sempre é bom, mas como será cantado por Carminho? Descobri ser maravilhoso. Carminho é uma das mais respeitadas cantoras portuguesas, canta em cima da partitura, mas por sua formação um fundo gostinho de fado polvilhando Tom Jobim. A densidade resultante é impressionante.
Ouvindo e dirigindo pelas estradas portuguesas, lisas, bem sinalizadas, de belas paisagens, ligando cidades limpas, bem arrumadas, com povo cordial e bem educado, quase tive que parar o carro. Foi duro controlar a emoção, o choro. Não só pela intensidade que as eternas músicas do Tom têm e tomaram com Carminha, mas porque começou a passar um filme sobre o que foi o Brasil Bossa Nova, quais eram nossas perspectivas de então, e no que nos transformamos. Como aquilo deu nisto? Onde foi parar aquele Brasil? Pergunta retumbante.
A saber, faz uns 10 anos fizeram um levantamento sobre quais eram as 10 músicas mais tocadas no planeta e Jobim entra nada mais que com quatro, Garota de Ipanema, Águas de Março, Wave e... e... (não me lembro). Beatles com uma, Elvis uma, etc... uma cada. Aquele Brasil ainda atrasado, terrivelmente desigual, mas menos brutal que o dos dias atuais, foi estupidamente desintegrado, incluindo (e talvez principalmente) sua música. 
Murillo meu irmão um dia perdeu as estribeiras com a pasmaceira de alguns de seus alunos e passou a gritar “Sonhem, sonhem, sonhem!”. Perdemos o sonho, perdemos delírio, perdemos a graça, perdemos a paz, perdemos nosso país, o Brasil brasileiro. Com certeza até mesmo para os mais pobres e sofridos. Tínhamos um absurdo abismo social, mas não uma guerra civil sem sentido até dentro do mesmo nível social, da mesma comunidade, entre irmãos. Pior, virou uma guerra civil politicamente correta, sem dúvida a pior de todas. Dá para acreditar neste país?

Ditado chines: A vida é como as nuvens que passam e nunca mais voltam.

Estou lendo a história (real) de bruxos, feiticeiros e afins. O que arrepia não é a carnificina, famílias inteiras virando churrasco, mas como nestes muitos séculos não mudamos nada.