terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Rico em estado bruto.

O Rosewood Hotel, no antigo hospital e maternidade Matarazzo, é um choque de cultura difícil de descrever. Só indo lá para entender como somos pobres.  
Não adianta ficar aqui falando sobre o que vi lá fora, sobre as maravilhas do primeiro mundo, sobre como eles são ricos. O que é ser rico?  
Já escrevi sobre o cuidado na reconstrução de uma rua e calçada próximo ao Scala de Milano, via Alessandro Manzoni, ou as pedras portuguesas maravilhosamente assentadas, com  extremo cuidado, nas cidades portuguesas, ou a revolução urbana de NY. Não quero ser esnobe ao comentar o que é o suflê do Recamier, ou a maluquice que é La Grand Epiceri de Paris, quase vizinhos em Paris. Não é esnobe, é muito bem feito, é muito rico, mas rico num outro sentido. Tem um enorme caldo de cultura por trás.
A escala de riqueza do Rosewood Hotel, Cidade Matarazzo, é outra, e ao mesmo tempo a mesma que experiências que agradeço muito por tido pela vida. Hoje não é mais meu lugar para sentar e tomar um café ou comer, mas é inegável que é simplesmente maravilhoso, imperdível como experiência e referência humana.

Riqueza é uma outra história, uma outra escala de valor, não tem nada a ver com bestice, com querer ser, com pretensão. É!  A partir de um ponto de cuidado, capricho, empenho, esmero, respeito pela finesse, sutileza, é. Não é para qualquer um, é para poucos, bem poucos.

Escrevo com uma certa frequência sobre pobreza e riqueza porque para mim a saída desta diferença abissal de nosso Brasil não está em quanto ou quão pouco, mas numa brutal distorção de valores que todos nós temos, e não é distorção sobre valores monetários, é o conceito de valor, melhor, conceito sobre o que é o valor das coisas. A cada dia penso que este é nosso maior problema, erro de conceito. Neste Brasil que agora se apresenta, mesmo o que para nós é rico, no sentido mais banal da palavra, na verdade é muito pobre. Cheira a mesquinharia.

O jovem pesquisador vindo de uma família de vida muito simples em numa cidade baiana de um pouco mais de 6.000 é infinitamente mais rico do que a maioria dos que se acham ricos por ter capital ou até mesmo aqueles que acham que tem alguma cultura. Para ele ver o Rosewood Hotel foi um choque, para mim ouvir ele falar sobre a cultura brasileira foi um choque maior ainda. O Rosewood e o jovem, que aos 25 anos com todo aquele caldo de cultura, tem muito em comum, são quase a mesma coisa.

Rico pobre é o que não falta. Como diz Eduardo: "Pobre rico pobre!"

Ver pela primeira vez uma escola de samba carioca do grupo especial na avenida é um choque de cultura e conceitos tão forte quanto foi entrar no Rosewood Hotel. Vi uma arquibancada inteira chorar de emoção com a passagem da Mocidade Independente de Padre Miguel em homenagem a Amazônia, riqueza impossível de descrever. Quem inventou estes carnavais impressionantes foi gente que poderia ter criado um Rosewood, fácil. Nos dois casos o que não falta é inteligência e fizesse.

O Patrimônio Histórico do Município de São Paulo deu a autorização para a demolição de um casarão tombado no Paraíso. Ela está prestes a cair e não há mais como recuperá-la. Virou notícia excepcional porque o imóvel estava tombado desde a década de 80 e nunca se fez nada para preservá-lo como tal. O que poucos já devem ter notado, é que pela cidade a mesma situação se repete com frequência. O palacete na Av. Paulista quase esquina com a rua Ministro Rocha Azevedo é a prova mais escancarada disto.
Como cidadão fico feliz do Hospital e Maternidade Matarazzo estar revivendo, e de de certa forma prestando homenagem ao legado Matarazzo, que não foi pouco.

Mas este é o Brasil. Chique mesmo, rico, é morar num edifício arranha céu, num destes novos que estão pipocando por aí. Dane-se o passado, dane-se a história, dane-se toda a cultura que as pequenas vilas de meio de quarteirão representam. Ninguém se importa, põe abaixo. Chique, rico, é morar no 30° andar com vista para toda cidade e seus novíssimos arranhas céus. De certa forma o Rosewood vai na contramão.

Não vou pesquisar para saber como foi o processo que preservação do desativado Hospital Maternidade Matarazzo onde hoje está o Rosewood, mas para mim ficou marcada a briga que evitou que fosse construída uma passagem subterrânea da rua São Carlos do Pinhal com a rua Rio Claro. Que pobreza de pensamento! O que tem a ver uma coisa com a outra?
Explicando: a alameda Rio Claro é a entrada do Rosewood Hotel e da Cidade Matarazzo, como chamaram toda a recuperação da área. A obra do túnel seria bancada inteiramente pela empresa responsável pelo bilionário projeto, e a rua Rio Claro, hoje um calçadão meio abandonado a própria sorte entre a São Carlos e a Paulista, ganharia vida nova. Aliás, o entorno teria uma sensível valorização monetária e civilizatória. Bateram o pé, gritaram, não quiseram. Quem? Adivinha.

O que me faz lembrar dos projetos da Avenida Paulista e da Juscelino Kubitschek em dois planos, um local e outro no subsolo, expresso, o que daria outra qualidade de vida a estas importantes áreas da cidade. Imagina poder circular a pé livre, quase como um calçadão, pela av. Paulista?

O Metrô teve que mudar o local previsto das estações Angélica e Cidade Universitária, a primeira por imposição da sagrada família falida de Higienópolis e a segunda pela incrível inteligência (?) do corpo de professores da USP. "Aqui dentro não!" Inaugurada a Estação Butantã, a mais próxima da USP, algo como 1 km do portão, caiu a ficha do tamanho da besteira que fizeram. Não sei o pessoal de Higienópolis entendeu a besteira que fez.

Me lembro também de entrar na Sub Prefeitura do Butantã, lá por 2005, ser chamado a uma sala, e terem me dito que os moradores do City Butantã não aceitavam ciclista passando pelo meio do bairro, e que o projeto cicloviário teria que sofrer mudanças. O projeto não saiu, mas a falta de inteligência marcou.

Não consigo esquecer a forma como fui atendido em várias bicicletarias ditas "chiques" por estar pedalando uma bicicleta "simples", suponho, ou por não estar vestido de franga com todos adereços ciclísticos da moda. Deu para ter uma noção do que é ser discriminado.

Cara, quanta pobreza desnecessária! O que é ser rico?

Não posso esquecer como nos foi gentilmente aberta as portas do Plaza Hotel em NY, na 5ª com 59th, esquina frente ao Central Park, então um dos lugares mais chiques do planeta. Infelizmente não tenho fotos de como eu e meu amigo estávamos vestidos, mas tenha certeza absoluta que, pensei e sigo pensando eu, não era própria para entrar lá. Um pouco esculachados, diria eu.  
Aliás o mesmo aconteceu no Rosewood aqui e agora. Vestido com camiseta de ciclismo e bermuda cargueiro velha, e vestida para sujar, que aliás estava, perguntei ao segurança na rua se tinham local para deixar a bicicleta. Gentilmente me encaminhou. A garagem é mais chique que 99,9% das moradias que já vi na vida. O espaço de entrada e distribuição para as salas de reunião choca pela simplicidade e imponência. O lobby de recepção é de um impacto que confesso não sei descrever, ou, melhor, sei: Como nós somos pobres!     

Há uma enorme diferença entre o "wanna be" e o ser. O Rosewood definitivamente é. Nunca vi nada parecido aqui em São Paulo. E não me lembro de ter visto fora do Brasil. Talvez só escola de samba no Rio. O Copacabana Palace? Tradicional, maravilhoso, por sua história pode-se afirmar um pouco mais rico, mas páreo a páreo.

Uma amiga, que já teve dinheiro, foi outro dia ao Shopping Iguatemi depois de muito tempo sem entrar lá. Se sentiu mal com tanta presunção.
Rico que é rico definitivamente não é grosseiro; por isso é rico.

A rua Oscar Freire, uma das referências de riqueza destas terras, nos fins de semana fica cheia de turistas compradores. Em Ribeirão Preto ouvi do dono de uma ótima loja de sapatos que o pessoal do interior quase se recusa a comprar coisas finas no interior, que tem que vir para São Paulo para dizer que comprou em São Paulo. Para eles é chique, só menos chique que ter comprado no exterior, mesma assim chique, pelo menos para eles.
'Voltar do exterior sem compras é de uma pobreza...'

O abismo social que temos vem da forma como pensamos. No Brasil ser rico é um crime, mas o povo gosta, e como queria ser bilionário. Coisa só da direita? Quem pensa pobre mantém a pobreza, esta é a questão.

Um bom paralelo com o Rosewood seria uma casinha de operário em Santo Amaro que, infelizmente não está mais lá. Estava numa rua de área industrial, numa calçada com uma sequência de pequenas residências construídas para operários. A diferença gritante era o esmero com o jardim, o muro baixo, a pintura, o cuidado com a calçada. Nunca soube quem eram seus moradores, mas eram ricos, sem dúvida muito ricos.

Chique, rico e dinheiro são coisas diferentes. A diferenciação se faz quando cai o complexo de inferioridade. Ter cultura, educação, civilidade, ajuda, como ajuda, a fazer a diferenciação.
Entender o Rosewood não é para qualquer um. 
Entender o nível de cultura do jovem pesquisador de 25 anos vindo dos sertões é para a imensa maioria mais difícil ainda.

"Brasil não é para principiantes" - Tom Jobim

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Segurança digital dos idosos

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

O Brasil tem um sério problema de segurança em todas as áreas e setores de nossas vidas. Idosos são alvos fáceis de golpistas e outros, o que torna a vida de quem cuida deles um inferno. Em nome da segurança, todas as empresas, públicas e privadas, criaram procedimentos que tem por fim barrar os mal intencionados, o que pela notícias dos frequentes golpes parece que funciona assim, tipo mais ou menos, não sabemos se para mais ou para menos. Foi divulgado que os gastos do Brasil com justiça são altíssimos se comparados a outros países, algo em torno de 1.5% do PIB. Fosse uma empresa privada absolutamente todos os responsáveis estariam sumariamente demitidos, mas no serviço público não só os péssimos resultados continuam, como as benesses só crescem. O sistema legal, judiciário, investigativo e policial simplesmente não funciona, os dados oficiais não mentem, não nos dão um mínimo de segurança civilizatória. Ouvir de prestadoras de serviço, de empresas e bancos que os procedimentos são feitos para dar segurança aos clientes e idosos é no mínimo risível. A verdade é que falta inteligência e ação digna para sair deste maldito círculo vicioso. Óbvio que também falta um basta de toda sociedade, que a bem da verdade parece achar normal isto que está aí. A pergunta que faço é simples: quem ganha com isto? Não falo só das empresas de segurança, mas de prováveis outros muito interessados nesta baderna que vivemos.     

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Pequenos proveitos próprios e a grande violência

Não consigo entender o que tem acontecido, porque a violência saiu completamente dos trilhos. O número de casos de violência sem sentido que estamos vivendo tem que ser combatida, e não só com polícia ou justiça. A reversão deste caos só se fará quando alguns conceitos sociais atávicos a nós, brasileiros, forem quebrados. Definitivamente não falo sobre política ou ideologias, mas sobre mudar comportamentos e dar exemplos. São os bons exemplos que estabelecem as linhas e limites sociais que não devem ser ultrapassadas. 
O sujeito que tem uma Mercedes Bens SUV Class G, uma das mais caras e sofisticadas do mercado, não pode em hipótese alguma jogar na rua um papel pela janela. A simbologia vai muito além da falta de educação. Afirmo com todas as letras que o proprietário da Mercedes é um gerador desta violência generalizada.

Meu sonho sempre foi que a introdução da bicicleta na cidade se transformasse num ato civilizatório, de boas atitudes sociais, de cortesia, instrumento para diminuir a violência. Doce e estúpida ilusão. Estou metido nisto a muito tempo e só agora, em 2023, ouvi um dos pilares do movimento cicloativista sair a público pedindo para não reagirem contra motoristas 'imprudentes'. Ou, para ciclistas não entrarem no olho por por, dente por dente, o outro sempre é o culpado.

Convivi com todo tipo de gente. Somos todos humanos. A maioria quer fazer bem feito, mas quando a base de convívio é viciada fica muito difícil discernir o que é correto, ou, melhor, decente.

Uma das mulheres mais educadas, cultas, chiques e vivenciadas que conheci, para meu completo espanto desceu do carro para guardar a vaga para seu marido enquanto ele dava a volta no estacionamento. Ficou parada no meio da vaga mesmo quando apareceu um carro e tentou estacionar. O que se seguiu foi uma breve e muito grosseira discussão entre a fina senhora e o motorista que apareceu querendo estacionar na vaga livre que naquela situação lhe pertencia. Prevaleceu a vontade dela. Isto aconteceu nos Estados Unidos, onde uma atitude anti social destas beira o incompreensível, o socialmente inaceitável, com possibilidade até de acabar com polícia. Ela sabia, vivia parte de sua vida por lá, foi uma das pessoas mais cultas, educadas e vivenciadas que conheci.  Naquele momento morria meu delírio da existência de um comportamento civilizado e formalidades sociais as mais básicas tão propagadas aos quatro ventos pelas mais finas senhoras educadas de nossa sociedade brasileira.  O ano? 1991. "Gente fina é outra coisa", de fato, só rindo. Pasmado, fiquei olhando a discussão pela janela do carro sem saber o que fazer. Como era convidado e tinha a frente, dirigindo o carro onde eu estava, um senhor que também pregava aos quatro ventos de terra, mar e ar, o estrito respeito às regras sociais mais básicas, bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, muito obrigado, calei profundamente constrangido. Esperaria esta grosseria de qualquer um, menos daquela senhora, uma das minhas referências do ser chique, ter civilidade e cordialidade social.

Ali começou a cair a ficha para valer do Brasil real no qual vivia e sigo vivendo. Pouco mudou, provavelmente piorou. Ali começaram a derreter alguns sonhos de coletividade, que jamais se realizariam, como não se realizaram e dificilmente se tornarão realidade tão cedo, se é que se tornarão realidade algum dia. Duvido. 

Viajar para fora do país levando consigo o desejo de "um banho de civilidade" soa uma arrogância, mas eu diria que não é. Esta bagunça aqui cansa. Ficar uns dias fora do Brasil para ter o direito de sair às ruas a hora que quiser, caminhar por onde bem entender, falar no celular sem ficar com medo, e outras trivialidades que nos deveriam ser triviais, não pode ser tomado como arrogância. 
Não quero mais acordar com pesadelos que minha pequena e simples casinha foi invadida.

Quero coisas simples, básicas. Ser recebido numa loja, café, restaurante ou onde quer que seja, com um bom dia faz bem para a saúde mental. Não ter que esperar que o atendente termine a conversa, quando não fofoca, com o outro atendente, ou que o vídeo termine, é agradável para qualquer um, mesmo para os que acham estes comportamentos sociais normais. Cada um se apropria do que pode para se sentir alguém nesta selva de pedra. 

Você sabe com quem está falando já foi coisa de alguns que se achavam acima dos outros. Faz um bom tempo se espalhou por todos níveis sociais. Nunca deveria ter se transformado numa questão de sobrevivência social. Já tentou pedir gentilmente para que um funcionário faça diferente do que está fazendo? Não tente porque o funcionário se sentirá ofendido e irremediavelmente continuará fazendo a caca que estava fazendo de cara fechada, isto quando não completa: "eu sei o que estou fazendo!", e conversa encerrada para não piorar. Você que chame um outro para tentar remediar o que foi feito. Pagamento duplo, raiva tripla.

A grande revolução social que tanto desejamos só vai acontecer quando os privilégios diminuírem. Acabar não vão, não tenho ilusões. O ideal seria zerar, mas não é de nossa cultura, não é humano. Sabe com quem está falando?
Acho que não resta duvida que uma das razões para a tensão social e a consequente violência que vivemos está nos privilégios sem sentido que nos são atávicas e estão por todas as partes deste Brasil. Sabe com quem está falando?
Tem privilégio com sentido? Tem, o merecido. A definição de privilégio justo é que é a questão. No salve se quem puder fica difícil.

Qual linha não vale a pena cruzar começa nas situações mais básicas do convívio social. Óbvio que a regra mais básica em qualquer sociedade ou agrupamento é a sobrevivência individual, se não fosse não nos juntaríamos, seríamos eremitas, viveríamos isolados, cada um em seu canto, mas a história da humanidade prova que não é assim, que  não funciona, que a única saída é o "unidos venceremos". Aliás esta é a regra geral das selvas, unidos venceremos, ou 'Unido eu sobrevivo'.
Quem deve dar exemplo é quem tem o privilégio de ter algum poder, independente da origem, área social ou de atuação.

Para mim a tragédia que estamos vivendo tem como base a completa falta de noção de onde começam e terminam nossos direitos e deveres, onde e quando podemos tirar proveito para si próprio, quais são os limites de nossos privilégios. 

Nelson Rodrigues falou que temos complexo de vira-lata, no caso, dito na década de 50 e sobre futebol. Parafraseando, é possível dizer que temos um complexo de vira-lata em relação ao sentimento de culpa por sermos pobres e mal sucedidos, sim mal sucedidos. Ter o Brasil que temos com o potencial que está terra tem? 
Nossa solução sempre foi o jeitinho brasileiro, que até um determinado momento foi de fato uma solução, mas ai perdemos o limite e virou um salve-se quem puder. 
Salve-se quem puder não é solução, nem para os privilegiados. Muito pelo contrário, salve-se quem puder é de uma burrice extrema, é o que nos mata.

privilégio
substantivo masculino
1.
direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.

proveito
1.
utilidade, benefício, resultado positivo propiciado por (uma ação, um objeto etc.); serventia.
"a pesquisa não teve nenhum p."

2.
vantagem que se tira de alguma coisa; ganho, lucro.
"dirige as coisas públicas visando o p. pessoal"

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Não surte! Ninguém tem privacidade, nem nunca teve

Sei lá da onde, mas no meio do manuseio do meu tablet, do nada apareceu um sei lá o que, imagino que deva ser um aplicativo do Android, que mostra todas as viagens que fiz nestes últimos anos, com todos caminhos, distâncias, todas as fotos georreferenciadas, dividas em pastas, tudo organizado. UAU!!!! Creio que não pedi para o treco (tablet ou celular) fazer uma coisa destas, e se fiz nem percebi. Ou ele (o tablet ou celular) tomou a inciativa sozinho para mostrar como é bonzinho, como a empresa que o produz é legal e só pensa em mim. Esta começa a ser a questão, mas ainda não é o ponto.

Uma pessoa muito querida está apavorada porque se sente vigiada em todos lugares e por tudo quando é coisa conectada na tomada. Incluindo no banheiro, e aí assusta! Ouve, sente cheiros? Apavorante! Como vou negar a verdade, se ela não está sendo vigiada, deve ser a única do planeta que tem este maravilhoso direito de não ser invadida em sua privacidade. Com sua licença, vou sentar no trono.

Tentei explicar para acalma-la que invasão de privacidade não é nenhuma novidade, que acontece faz muito, que o melhor é ela, minha querida, desligar, fazer de conta que está tudo bem, que a vida segue, faz de conta que não existe. Ou se ri da vida ou a vida ri de você. Ou de mim, ou de quem quer que seja, assim foi e assim será. Ou se surta legal. 

Como disse, não há novidade em ser vigiada, bisbilhotada, sem privacidade. Nunca entendi porque sempre teve muito mais gente querendo fugir de regimes comunistas do que entrar para viver neles. Uma das razões que a documentada história conta é que, talvez, em certos regimes todos sejam obrigados a vigiar todos, ou seja, ou você se comportava como um bom comunista, ou estava frito, ou congelado. Não foi uma exclusividade dos sistemas comunistas, digamos a verdade, Pato Donald que o diga, o macarthismo foi uma idiotice. Fato é que comunistas e alguns que se diziam socialistas conseguiram caprichar na falta de privacidade. 

Ser vigiada vem de muito longe: na Santa Inquisição era sábio ter orgasmos em silêncio ou se poderia acabar num pau pegando fogo, este literal e não de sacanagem. A Polícia da Moralidade iraniana, outra pérola da religião feroz, não se o que faz com os não fieis, mas não deve ser coisa boa e agradável. Também não fique se expondo para carolas, aspones, dedos duros... fofoqueiras, upa! fofoqueiras... 
Sempre haverá alguém de olho em você. Uma boa fofoca vale ouro! para o bem e para o mal.  

Continuando na tentativa de acalmá-la, disse a minha querida amiga que hoje temos pelo menos 5 bilhões de pessoas conectadas na internet, ou seja, mais da metade do planeta. Não sei quem é ou está mais louco: os que têm sua individualidade invadida ou os que invadem todas as individualidades.
Sim, de fato, e minha querida amiga está absolutamente correta, estamos sendo invadidos por todos lados e não resta dúvida que esta invasão de privacidade, que tem razões de todos tipos, nos está empobrecendo muito.

Todo mundo nú! Oba! Todo mundo nú! Oba! Todo mundo nú! Oba! Todo mundo nú... Nem neste comunismo sou chegado, muito pelo contrário. Já sentou na areia nú? Dizem que numa praia de nudismo ninguém olha (e comenta) o corpo do outro. Acredite quem quiser. A diferença para a Internet e rede social é que as ondas não são fake news, mas feitas de água salgada. Já tomou banho de mar completamente nú, com as ondas batendo em seus balangandãs? É mais ou menos parecido com ficar enterrado na rede social. Apavorante mesmo é sair do mar e sentar na areia molhado como um bom naturalista. 
Esticar a canga na areia da praia de nudismo para sentar sobre ela é ou não é invasão de privacidade?    

Não tenho dúvida que meus brinquedos, celular, tablet e notebook, têm, como o de todo mundo, o que chamam de robô, um treco que pega todas as minhas informações - sem meu consentimento - e transformam, ou querem transformar, minha vida em algo mais agradável. Eu sequer tinha digitado na pesquisa a palavra "pia de banheiro" e sei lá como começaram a aparecer anúncios de pias de banheiros. Não, não estou brincando, é verdade. É o maldito robô, o que quer que seja isto.
Vale dizer que - sem meu consentimento - na realidade deve ser com meu consentimento, já que se não clicar para aceitar o treco não funciona, simples assim. Puro advogues, ou seja, o que está escrito nem os advogados sabem explicar bem. Esta e a regra do jogo, simples assim.

Minha querida amiga, e como é querida, está apavorada com razão. O que ela diz em seus longos Whatsapp se pode assinar em baixo, mas não valem um surto. Sei bem disto. Algumas verdade na vida temos que passar por cima ou enlouquecemos, esta é a verdade.

Não faz muito tempo os amigos pediram para eu me controlar e parar de pegar lixo nas ruas, que furioso pegava e os jogava xingando na primeira lixeira que encontrava. Estou errado? Definitivamente não, estou absolutamente certo e todos estão errados. Sujar as ruas com uma lixeira logo ali é um absurdo. Num determinado ponto surtei, mas ouvi meus caros amigos e amigas e baixei a bola. Hoje me controlo e só cato um lixo de vez em quando. Acho deprimente passar e não catar, mas me sinto sadio. Ironia, não é?

Estou lendo "A Última Guerra Europeia, setembro 1939, dezembro 1941", de John Lukacs, 1976. Poucas vezes na minha vida senti um arrependimento tão grande quanto o de não o ter lido na época do lançamento. Conta a história dos bastidores e da vida da população europeia daquele momento terrível. Está mudando completamente minha visão de quem somos e porque somos. Só reforça o que sempre repito: somos todos humanos; e vivemos em ciclos, todos iguais, só com recheio do bolo diferente. Tenho gargalhado muito. É muito parecido com hoje.

Fazia tempo que estava procurando referências de boa qualidade sobre com foi a vida durante a Segunda Guerra Mundial. Pelos filmes, documentários, fotos e leituras o horror foi completo, e de uma certa forma foi, mas não como sempre contaram. É claro que no meio de destruição e mortes a vida continuou, tão normal quanto possível, aliás muito parecida com a nossa loucura de hoje. 
O Big Brother está aí para vivermos e não exatamente é o circo de palhaços que passa na TV. A vida supera de longe a realidade.

Minha querida amiga está absolutamente correta em tudo que diz, mas surtou, surtou feio, pesado, não consegue entender que é assim, mas não é exatamente assim, que a vida segue. Nós, todas as pessoas que a amamos, não conseguimos frear o surto. O médico também não. Definitivamente não é a única. Outros muitos estão constantemente surtados e os aceitamos como normais.

Não resta dúvida que o número de surtados aumenta a cada dia, meus amigos psicólogos e psiquiatras que o digam. Estão exaustos.

Entulhe uma pessoa de informação que ela ficará completamente desorientada, diz a ciência. Pura verdade. Da desorientação para o surto é um passo? Deveria ser, mas não é? Por que? Deixo esta pergunta.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Juliana presente. E o valor da violência

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo 

As denuncias sobre violência contra mulheres, incluindo feminicídio, no Brasil vem de muito longe e abriram uma imensa caixa de pandora que escancara quem somos nós. Não dá para escapar desta realidade, não dá para escapar de nossa realidade, nossa realidade somos nós. Houve algum progresso na questão da violência, aqui falo sobre o geral, mas nada que nos deixe tranquilos para sair na rua a qualquer hora, mesmo que seja para esperar um ônibus no ponto. Não interessa mais se é rico ou pobre, homem ou mulher, todos nós somos alvos. É a diferença social, dizem. É a baixa qualidade da educação, dizem. É a ineficiência do poder público e de nossas instituições, dizem. Falem o que quiserem, é a letargia! Nossa letargia atávica. Muito diz que diz, muito pouco resultado. Somos nós. A reforma tributária, que ninguém nunca duvidou que deve melhorar a vida de todos, ricos, pobres, remediados, direita, esquerda, populistas, homens, mulheres, e tem tudo para diminuir a violência, tardou 30 anos sendo discutida, para ser aprovada com ressalvas; 30 anos! Quantos anos tardaremos para ter uma educação que eduque? Violência está intimamente ligada às drogas, dizem. É um dos melhores business existentes. A artista / ciclista / palhaça venezuelana Juliana Hernández, foi brutalmente assassinada em Alter do Chão, Santarém, por um casal depois que ele usou crack. Hoje, sexta-feira, em várias partes do mundo acontecerão manifestações para chamar a atenção sobre a violência contra as mulheres. Até onde foi anunciado serão 140 localidades se manifestando. Gostaria que não fosse mais uma outra manifestação, mas o passado diz que será, que pouco mudaremos, ou vamos demorar para ver algo acontecer.
A única forma de frear esta violência é freando o fluxo de dinheiro, seja ele do capital ou do revolucionário contra capital. Follow the money. A questão é que de um lado ou de outro estamos todos metidos nisto. Ninguém quer perder seu quinhão, isto é certo, direita, esquerda, no meio, em cima do muro, todos, ninguém quer perder. E entra o "eles são os culpados?" Só eles? E o espelho, vai bem?
Qual é o tipo ou forma de violência que te apetece? Sim, apetece. Certamente não é a que te pega na rua. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Como fazer errado um tostex de queijo e o custo do Brasil

Não existe qualquer segredo para preparar um tostex de queijo. Pega se duas fatias de pão de forma ou semelhante, adicione duas ou mais fatias de queijo bem estendidas e espalhadas sobre uma das fatias de pão, e sobre o queijo coloque a segunda fatia de pão, fechando o sanduiche no tostex. Leve ao fogo lento, tostando os dois lados do sanduíche por igual e sem queimar até o queijo derreter. Se meu querido irmão, o sujeito mais desajeitado que conheci, fazia, qualquer um faz um tostex. Neste Brasil tão pobre não é bem assim.

Acredite se quiser, tem quem não consiga colocar o queijo estendido no pão. Como a esperança é a última que morre, ainda acredito que não é por alguma deficiência mental, ou por puro desleixo, ou desinteresse, ou ainda pela total e absoluta ignorância, ou por ter sido contratada sem que lhe explicassem o que é um tostex. Uai! a miséria é tanta que a senhora contratada não nunca devia ter visto um tostex na vida. Acontece com muito mais frequência que se possa imaginar. 
Desconhecer é para todo mundo. Eu não fiquei estatelado a primeira vez que fiz uma compra numa máquina de cobrança automática, das que devolvem o troco em moeda escorregando por baixo sem fazer barulho. Minha avó, Carminho, não fazia ideia de como deveria abrir um saco de leite e só não fez um desastre porque entrei na cozinha quando ela estava com a tesoura na mão.

Descobri que mesmo uma dita e contratada chapeira de um dos cafés do Aeroporto de Guarulhos não faz a mais remota ideia de como se faz um tostex. Que pobreza! Pois releia o "Que pobreza! com os mais diversos entendimentos que quiser, de preferência não os ideológicos que só servem... só servem... só servem para que mesmo? Bom, para transformar qualquer problema em drama social, religioso, econômico... Repito: pobre! porque o que foi servido é de uma pobreza sem tamanho, em todos sentidos, e a bem da verdade, literalmente deprimente, a imagem deste Brasil, mais ainda, no GRU, Aeroporto de Guarulhos. É um realista "Bem vindos ao Brasil". 

Parece besteira, sacanagem minha, mas o horroroso tostex que nos foi servido no aeroporto pode trazer consigo várias outras análises do que acontece por trás do pano, todas simbólicas de um Brasil miserável que vivemos e convivemos, melhor, que construímos e pretendemos deixar para nossos filhos e netos. Miserável, de A a Z, com poucas exceções. 

Exagero meu?
Você tem uma parede construída na sua casa inclinada como a Torre de Pisa? "Eu não preciso de plumo. Sei como construir uma parede". De fato! Já teve o encanamento da pia da cozinha entupido por fita isolante jogada pelo eletricista que não sabia, não queria saber e não perguntou onde é o lixo? Já foi diagnosticado com uma doença que não tem? Já passou por situações nossas tão comuns que, para não ter um ataque de loucura, o fez desandar a rir repetindo sem parar "só pode ser gozação?". Pois então, não é, definitivamente não é! Este é o nosso Brasil.

É sabido que um dos principais consequências que a miséria gera é o famosíssimo e tão falado "Custo Brasil", que comparado a outros países, até os muito menos ricos do que nós, está fora da curva, pelo menos da que se considera aceitável. E todos sabemos que o ó do borogodó está na educação. Não conseguimos, eu diria melhor, não queremos resolver o drama da educação, ou já estaria resolvida. Quem quer, vai atrás. Quem quer consegue. Não há sinal que queiramos de fato uma educação melhor. Não estou falando de pagar escola particular para os filhos, mas de educação geral de todos com qualidade comprovada por resultados.

Hoje, em entrevista na Rádio Eldorado, Cristina Cruz, especialista em educação, falou que se precisa com urgência acertar a qualidade da educação mais básica, a das crianças mais novas, que é a única saída para boa parte dos problemas sociais que estamos tendo, dentre eles um baixo rendimento no trabalho. Não é mais horas trabalhadas, mais horas dentro de classe, mais matéria, mas fazer melhor, mais bem feito, ter qualidade, oferecer qualidade, entender qual a importância real da educação, da melhor possível.

O número de reclamações que ouço faz décadas sobre o despreparo dos alunos vindo de professores universitários é impressionante e só ficam mais graves. O número de vezes que ouvi sobre pais que entram furiosos na escola gritando que "eu pago, então vocês que resolvam (os problemas do filho ou filha)" é depriumente. Sexta-feira passada ouvi de um respeitado professor universitário que está farto destas ocorrências, ele dá aulas em uma das mais respeitadas universidades do país, pública aliás. Acontece igual.

A senhora que preparou o tostex errou feio porque ela vem da periferia ou talvez até de uma favela? Vá conversar com gente grande do Brasil produtivo e vai ouvir que até muitos dos novos contratados vindos de boas famílias, com boa condição econômica, saídos das melhores escolas e faculdades, viajados, etc... têm que ser corrigidos com frequência porque têm dificuldade no ler, escrever e fazer cálculos básicos. O buraco é muitíssimo mais em baixo, melhor, muito melhor: o buraco é muito mais em cima. 

Ou se corrige o ensino básico do básico, não só para a população mais pobre, ou...
Analfabeto funcional, adoro esta expressão. Não se preocupem, de certa forma me incluo aí.

Tenhamos vergonha na cara e lutemos para ter um Brasil minimamente educado, culto, refinado. Vergonha da cara!



quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Ai! meu saco! A história dolorida de minhas bolas

Ai meu saco!

A primeira experiência foi ainda na escola. Num jogo de futebol de campo, debaixo de muita chuva e lama, a bola foi cruzada na área e eu vim correndo desesperado e tentei cortar a jogada num carrinho, e fui escorregando, escorregando, escorregando, vi a trave chegando, chegando, chegando, fui fechando as pernas com toda a força que tinha, a trave bateu exatamente no meio das pernas e... "Na trraave! Na trraave!" ...uma bola para cada lado. Óbvio que passei batido pela bola, a do jogo. E num jogo com a molecada encharcada, um barro só, ninguém parou, ninguém socorreu, todos caíram na gargalhada e seguiram o jogo. 
Primeiro tempo.

Guarujá, 1969
segundo tempo:
Depois de dias chovendo o céu abriu e eu e a Renata pegamos as bicicletas e saímos para pedalar. As chuvas fortes tinham derrubado folhas e flores das árvores na calçada, a maioria delas já estava meio podre, gosmenta, escorregadia. Numa irregularidade do cimento dei um pulo com a bicicleta, os pés escorregaram dos pedais, a ponta do selim desceu, e bati o saco no tubo superior, já dolorido e ainda com algum controle, a roda da frente passou sobre uma flor podre e escorregou, a bicicleta apontou para uma árvore e uma perna foi para cada lado do tronco. De novo, "Na trraave!" ou, "no troonnco!". Cai no chão, e eu e Renata tivemos um acesso de gargalhada que não parava, daquelas de doer o estômago, óbvio que eu com as mãos nas bolas que gritavam de dor, e como gritavam!
No dia seguinte, com o saco preto do tamanho de uma bola de futebol de salão - literalmente, Yeda, a santa mãe de meus primos e minha santa segunda mãe, não teve outra alternativa que me devolver para Lollia, minha santíssima mãe. Tenho a complementar que, naquele tempo, o de nossa infância, junventude, e adolescência, Yeda praticamente virou sócia do Pronto Socorro do Guarujá para atender seus anjinhos Renata, Roberto, Ricardo e eu, sendo que o campeão de acidentes fui eu. Ela me devolver para minha mãe foi um sinal inequívoco da gravidade da situação. De minha parte, me lembro estar sentado no carro de Yeda vestindo um short largo, talvez do Henrique, o mais velho dos filhos (de Yeda), que mesmo assim expunha meu lindo e enorme saco negro transbordando para os lados. Mui macho!

Tudo tem seu lado positivo: foi de foder! Fodi, fodi, fodi, fodi... e para felicidade da mulherada nada de gravides. Fui abençoado, não tive filhos. 
A bem da verdade eu sempre disse que queria ter tido seis filhos. Doce ilusão. Escapei desta e eles, meus desejados filhos, também (escaparam do pai Arturo). Enfim, deu tudo certo. 
Hoje tenho enteados. No final das contas dá na mesma.

Ai! meu saco!

Vamos ao caso atual: Nenhuma menina acabou grávida, mas alguma coisa tinha que crescer, e não foi a barriga delas, está sendo meu saco. Não o da paciência, o que é definido pelos médicos como "saco escrotal", que lindo!
 
Passei a vida ouvindo histórias de um dos principais banqueiros da época de meu bisavô que, como sutil e nada discreta peculiaridade, tinha um enorme saco plenamente visível e pendurado dentro das largas calças. A sua fortuna era conhecida e tão famosa quanto seu "saco escrotal", mas esta ninguém via. Pelo que conto era muito maior que o saco do homem.
Não sei qual a vantagem que tenho de ter um saco que cresce com minha velhice sem ter uma fortuna que cresça igualmente para me consolar. Então fui fazer imagens para saber o que acontece. 
O que deu as imagens? Ainda não sei.

Um dia a veterinária disse que seria melhor para a saúde do Billy, querido poodle, castrar. Senti arrepios ouvindo. Levamos ele ao veterinário e não sei porque a cada segundo eu tinha que me controlar para não por as mãos em cima de meu saco, um puro instinto de proteção, preservação ou sobrevivência, não sei bem. A castração correu bem e a saúde dele melhorou sensivelmente. Seu instinto de trepar no Mickey Mouse de pelúcia da Bel continuou o mesmo. Espero que seja um bom presságio.