quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Negacionismo: praxe brasileira

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Negacionismo não é novidade no Brasil, muito pelo contrário. Faz parte de nossa história optarmos pelo caminho contrário do que diz a experiência, a inteligência e a sensatez mundial. Fomos o último país a abolir a escravatura; lutamos contra a vacinação de Oswaldo Cruz; transformamos nossa boa educação pública num completo caos; substituímos a saúde preventiva e por uma farmácia em cada esquina; insistimos na irracionalidade fiscal, burocracia, o altíssimo custo Brasil, mas nos negamos a corrigi-los e assim diminuir nosso abismo social; damos incentivos questionáveis questionáveis... Negamos o básico: tratamento de esgoto. Faz décadas que o mundo vem transformando suas cidades para serem mais sadias, prazerosas, para dar mais espaço para a vida, para pedestres, idosos, mães, crianças, pessoas com necessidades especiais, para o lazer produtivo, para a liberdade que agrega. Curitiba já na década de 70 entendeu este caminho e ainda hoje é considerada bom exemplo internacional, mas desprezado aqui no Brasil. Negando dados precisos que apontam o alto número de veículos motorizados circulando como causa de deterioração urbana, desagregação social, aumento da violência, piora da saúde pública, diminuição de atividades econômicas e de impostos recolhidos, num populismo anacrônico e irresponsável foram concedidos incentivos fiscais de todos tipos para a compra de veículos novos. Negando o princípio básico "unidos venceremos" os ditos socialistas iniciaram a divisão do "Brasil, País de todos" em "nós e eles". Por puro negacionismo aceitamos Bolsonaro. Não dá para negar que a incerteza de uma vacina se encaixa nesta nossa história.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Consertar, recuperar, reaproveitar, ser ambientalmente honesto

Com a pandemia o jornal Estadão passou publicar a série de artigos "Retomada Verde" que ofereceu, e segue oferecendo, ideias para o que se pode e deve ser feito de nossas vidas e do planeta daqui para frente. Um deles, com título " 'DIREITO DE CONSERTAR' GANHA ESPAÇO; Iniciativas para alongar a vida útil dos produtos levam cidadão a adotar consumo consciente" de João Prata, publicado em 13 de novembro de 2020 é ótimo e ficou no chão ao lado de minha cama para ser base de texto neste blog. Chegou o momento.
Ao lado do texto sobre o 'Direito de consertar' está uma caixa com título "Venda de usados representa grande ajuda para o planeta" e é, como é. Quem conserta, recupera, reaproveita está ajudando e muito nosso futuro. Ninguém duvida que é inaceitável desperdiçar, descartar, jogar no lixo.

Dependendo de como é usada e mantida a bicicleta pode ser prejudicial ao meio ambiente, portanto prejudicial a nossas vidas. 

Quem imagina que na Holanda todas a bicicletas são novinhas, bonitinhas, se engana. Europeu usa suas bicicletas até onde não tem mais conserto, até o osso. Mesmo assim há várias ONGs que pegam bicicletas que estão destinadas à reciclagem e ainda dão um jeito para uma sobrevida. Só vendo para acreditar.

Quem já pedalou pelo litoral paulista sabe que o povo tira da bicicleta até a última gota de sangue, comum em qualquer localidade de renda baixa, exatamente como em qualquer país rico, com alto IDH. Bicicleta bonitinha, perfeita, limpinha, cheirando a nova, é coisa de moda, da necessidade de status, ... de gente que desperdiça. Quem é ambientalmente consciente preserva.

Mas por que se conserta tão pouco?
Branco está mudando sua bicicletaria de endereço e com isto descobriu que tinha caixas e caixas de peças ainda aproveitáveis. Fez um bazar. Boa parte das bicicletarias não tem mais estes "lixos" por diversas razões, principalmente pela falta de espaço e o famoso "tempo é dinheiro".
A maioria dos ciclistas quando tem algum problema com a bicicleta entra na bicicletaria e quer ela para ontem. Para atender os clientes e não perder dinheiro o caminho mais rápido, rentável e seguro para a bicicletaria é trocar a peça com defeito por uma nova e descartar no lixo a defeituosa. 
Consertar ou remendar demanda habilidade, conhecimento, paciência, e principalmente tempo. Tempo é dinheiro, dogma econômico de nossos dias. É deprimente ver na lixeira muitas câmaras novas com pequenos furos, fáceis de remendar. Bicicletarias tem que fazer assim porque a maioria dos clientes não quer câmara remendada em suas bicicletas.

Consertar, recuperar, reaproveitar é dever de todo ciclista, melhor, de todo cidadão com um mínimo de consciência social e ambiental.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A saída da Ford surpreende quem?

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A notícia da saída da Ford do Brasil é uma surpresa horrível? Para quem? Mesmo antes do início inchaço do setor automobilístico no Brasil, resultado de todo tipo de estímulos e incentivos fiscais, já era longa e aprofundada a discussão mundial sobre o que fazer com o automóvel e qual seria seu futuro. Desde 1970 inúmeras cidades europeias começaram a restringir a circulação de automóveis como forma de recuperar áreas degradadas, diminuir as tensões sociais e principalmente como forma de fortalecer suas economias. Mais uma vez e como sempre o Brasil optou por seguir o caminho inverso. Poderia ter sido uma estratégia caso tivéssemos um macro plano de desenvolvimento para médio e longo prazo, o que há décadas não temos. Foram dados incentivos ficais de dezenas de bilhões ao setor para gerar trabalhos diretos e indiretos, mas ninguém apresenta cálculos de qual foi o custo / benefício para toda nossa economia, sem exceção. "Gerou tantos empregos" é uma boa forma de deixar as questões numa superfície enganadora. O futuro está no auto elétrico. Nosso futuro, não muito promissor, estará no que fazer daqui para frente com todo um setor econômico gigantesco que pelas perspectivas já está obsoleto. Quem vai querer nossas carroças?

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como? (.... silêncio)

Preocupado saiu correndo do vídeo de segurança para avisar os outros seguranças e gritou; 
- Passou um cone sozinho correndo lá para a avenida. 
Cara de espanto com a notícia os outros seguranças perguntaram em coro - Passou o que? 
- Passou um cone correndo lá pra avenida; respondeu agitado e movendo os braços. Passou um cone... de quatro patas..., o cone gente, gesticulando os braços para apontar algo. O cone... o tratador foi correndo atrás. 
- Cone? tentou entender um dos seguranças enquanto os outros riam 
- É, um cone. Um conei! Conei!!! O cavalinho pequeno. 
- Ah! Um pônei. O pônei fugiu..., o pônei da casa da esquina? 
- É, gente, o conei, isto aí, o conei. Vamo lá ajudá"



A discussão que acabou doendo nos nervos. Falavam as duas sobre a prima com pontos de vista diferentes, plausíveis, uma com viés amistoso, outra ardendo em lembranças desagradáveis. E foram ganhando posições mais radicais que já não diziam respeito a prima, mas traziam a tona profundas e enraizadas más lembranças, e suas fraquezas das próprias que discutiam. 
- Fala baixo; num momento ordenou a enraivecida
- Estou falando baixo; e estava. Você é que está levantando a voz; responde com um leve sorrisinho sínico.
Naquela discussão interminável de vozes que subiam, ordens inúteis dadas, não entravam mais argumentos, razoabilidade, mas manter a qualquer custo a própria posição. Cada palavra, respiro, ponto, empurrava para a mais dolorosa discordância, fosse de fato um ataque pessoal ou não. Não passavam de comentários sobre a prima, coitada, de quem falavam, ou imaginavam estar falando. A origem da discussão desaparecera em meio a velhas desavenças das duas irmãs, rito habitual sempre que se encontram. Não houve basta dos mais velhos que estancasse o show. 
- Estou sendo franca.
- Não está. 
Com frases curtas e rostos doloridos finalmente se fez silêncio. TV ligada, volume aumentado. 
- Fraqueza não é franqueza; a primeira pode ser digna de pena, a segunda torna obrigatória a atenção aos que sabem ouvir quietos, mas não é este o caso aqui; disparou quase sussurrando o velho que entrara na sala em meio a fervente discussão.
Atônito o pai vestiu a carapuça até o umbigo e se sentiu mais uma vez profundamente envergonhado de seu passado.
O silêncio da TV ligada...
- Pica-pau! disse uma das irmãs
- Não me ofenda! Como pica-pau? Que é isto? Pica-pau? gritou o velho
E a gargalhada geral estourou na sala.
- Olha para a televisão. Tá passando o Pica-pau, o velho. Desculpe, sem ofensa, o antigo
E uma das irmãs teve a sabedoria de segurar a mão do velho que consternado ria.


Mal entendido

"Aviso aos passageiros; antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra se para neste andar". 


A menina, jovem mulher nos seus gloriosos 20 e poucos anos, corpo magro, acinturado, shortinho de jeans bem curto, pernas vistosas ao ar vai pedalando uma bicicleta muito muito simples e barata que visivelmente acabou de sair da caixa; segue tentando trocar as marchas. Por mais que faça força o passador não se move. Vai seguida por ciclista experiente, paramentado, que diminuiu sua velocidade para vê-la e alegrar sua vida. Para ao lado dela no semáforo e muito entusiasmado com a beleza pergunta se pode dar uma olhada para tentar resolver o problema. Ela aceita, entrega a bicicleta, fica parada sorrindo segurando a bicicleta dele enquanto ele sai para um teste. Ele volta, mexe nos cabos, olha aqui, ali, sabe que provavelmente não pode resolver, e para tentar estender a conversa dá sua bicicleta para que ela teste e entenda como deve funcionar um passador e uma bicicleta; então quem sabe poderá acompanhá-la até uma bicicletaria, quem sabe o que mais. Ela sai pedalando meio sem jeito pela ciclovia até a outra esquina, para, desce da bicicleta, dá meia volta, sobe, prepara o pedal e cheia de sensualidade pedala para o sorriso incontido do ciclista, que tenta manter sua postura de entendedor, nada mais. Ela para desajeitada e titubeante, dá um sorriso inocente. 
- Ganhei a bicicleta ontem, presente de aniversário de 15 anos. 
Assustado o ciclista diz para ela conversar com o pai para ele consertar; clipa a sapatilha com força e vontade, olha o trânsito e sai rápido dali. 


Aproximando-se da porta de entrada do colégio o senhor cumprimenta o jovem que está na calçada fumando. 
- Bom dia! e mal ouve uma resposta balbuciada num bafo fedorento quase inaudível, 
- Falou! 


- Numa reunião de família quem senta na cabeceira? Quem senta próximo? Qual a ordem, a hierarquia? Onde sentam os mais velhos? pergunta a professora de etiqueta para a classe de 100 jovens universitários de turismo. Num silêncio constrangedor pergunta espantada, 

- Quem senta numa mesa em reunião familiar levanta a mão. 
Poucos levantaram a mão. A professora segue com a pesquisa para entender a situação. Mais de 70% fazia as refeições só e boa parte destes sequer tinham uma mesa de jantar em casa. Na maioria dos casos, mesmo que outros familiares estivessem em casa, fazia seu prato no fogão e sentava onde dava e na hora possível. Refeição em família, mesmo com todos reunidos, também era assim, sem horário ou local para ficarem juntos. 

Sentada num café, mesa na calçada, a professora para de contar a situação, olha o povo passando na rua, pensa com testa franzida. Volta os olhos para a mesa, manuseia a xícara com o café que esfria e continua. 
- Ali descobri o abismo. Como explicar etiqueta social em refeições para quem nunca comeu sentado numa mesa junto com os pais, irmãos, amigos; gente que sequer tem mesa em casa?

sábado, 9 de janeiro de 2021

Ameaça fanática

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Anulei meu voto e fico feliz. Não sabia que iria dar esta loucura, mas não cheirava bem, e sabia o que foi ser discriminado por fanáticos petistas por não pensar igual, mesmo envolvido num trabalho de claro viés social. O que vem matando há muito este país é o fanatismo. Trabalhei com um petista de carteirinha, literalmente, e nos divertíamos fazendo piadas críticas sobre nossas posições. Ele se foi num derrame e sinto muita falta daquela relação sadia. Convivi muito com pessoas de direita socialmente responsáveis, dignas, produtivas, justas, e ouvindo aprendi muito. A diferença entre eles se não eram detalhes poderia ser se seus discursos tivessem sido colocados no contexto correto. Aceitamos entender diferenças como discursos fanáticos, portanto fora do contexto normal. Aceitamos o populismo puro e suas segundas intenções de uns poucos apoiadas no fanatismo, o que é bem mais maléfico que o discurso fanático em si. Passados dois dias da invasão do Capitólio a pergunta que se deve fazer é o que realmente há por trás desta massiva manipulação de fanáticos. Foram insuflados por um maníaco egocêntrico e é só? O passado de Trump dá inúmeras razões para duvidar. A preciosa lição está sendo dada para nós brasileiros que temos um pretenso arremedo de Trump, resta saber se vamos aprender. Bolsonaro, o que crê amigo inseparável de Trump, está aí, leve, livre e solto. O Brasil é um país de problemas gigantescos e nós não somos uma horda de fanáticos boçais. Ou somos? Minha mãe dizia que "não interessa o que você diz; me interessa o que você faz". Vamos esperar mais dois anos no bla bla bla e ver no que dá?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O louco, a invasão do Capitólio e a sociedade sem limites

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Um ditado árabe diz que o que sábios demoraram anos para construir um imbecil destrói em minutos. Foi o que vimos hoje nos Estados Unidos. Da mesma forma que Hitler dava sinais claros que levaria a Alemanha a uma guerra generalizada, Trump desde sempre dá sinais claríssimos de sua insanidade e completa falta de limites, que de certa forma todos aceitaram. Trump, Presidente, passou inúmeras vezes por cima da democracia do país mais poderoso do planeta para atender a interesses próprios, e de certa forma todos aceitaram. Culminou hoje com o estímulo velado(?) para a invasão do Capitólio por milicianos e fanáticos negacionistas que o apoiam cegamente. A sequência de absurdos destes últimos quatro anos provavelmente tira dos Estados Unidos, e da democracia, o protagonismo mundial, restará saber quais as consequências de médio e longo prazo não só para os americanos. No final da noite autoridades americanas já falavam em invocar a 25 Emenda da Constituição Americana para declarar Trump incapaz e retirá-lo imediatamente da Presidência. Antes que Bolsonaro repita mais uma vez seu ídolo, Trump, temos que tomar consciência que o Brasil não pode ficar nas mãos de um inépto alucinado. Interessante a declaração do ex Presidente Americano George W. Bush, Republicano, onde diz que "o protesto (dos pró Trump) é coisa de pais de bananas". Com Bolsonaro e seus bolsonaristas o Brasil acabou de ser rebaixado a que?