quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Mais ciclistas, menos vendas

Não é novidade que as bicicletarias NÃO vão bem das pernas. O negócio em si não é para iniciantes, sempre foi difícil, muito trabalhoso, cheio de manhas, para abnegado ou apaixonado por bicicletas. Mas passar dois meses sem vender uma bicicleta sequer e quase não ter movimento na oficina é uma reclamação que nunca tinha ouvido nestes mais de 40 anos de convívio com bicicletas e afins. A saber, a ancora de sobrevivência das bicicletarias está na oficina que via de regra representa mais de 70% dos lucros. 
Reflexo de um país que vai de mal a pior das pernas? Também, mas não só. Reflexo das bicicletas comunitárias por aplicativo afirmam alguns donos de bicicletarias. Podem até estar certos, afinal se cidadão que só se transportar não faz sentido pedalar a própria bicicleta, um belo investimento que pode ser facilmente roubado. Tem bicicleta própria quem gosta de bicicletas, gosta de pedalar, corre o risco em nome do prazer, e até gosta de passear na bicicletaria só para xeretear. 

Eu não tenho dúvida que o pico de paixão pelas bicicletas que agora arrefece teve um tanto de moda. Nossa! Como foi chique sair pedalando! Nem todos que experimentaram bicicleta acharam tão bacana assim e deixaram de pedalar. Num dos países nórdicos, Dinamarca, se não me falha a memória, uma pesquisa entre usuários da bicicleta apontou que 27% só pedala porque não tem outra opção. É doce ilusão de apaixonado achar que quem experimenta gosta. Nem com sexo é assim, porque seria com a biciclea? Um amigo ponderou que bicicletas por aplicativos que não formam ciclistas e isto afeta vendas. Pode ser, pode não ser, vai lá saber. 

O fato é o seguinte, um dia todas estas maravilhas disponíveis por aplicativos vão ficar mais caras, provavelmente bem mais caras. É óbvio que tudo está subsidiado para ganhar escala. Pegue as Yellow Bikes aqui de São Paulo, pense no preço da bicicleta, da operação, da estrutura de funcionamento, na depredação, será que o preço por viagem cobre? Tem um tempo previsto para zerar a operação e começar a dar lucro, mas com um preço tão baixo quanto tempo levará? Quem aguenta financeiramente um tranco destes? Qual é o cálculo, qual é a ideia? Se é tão importante para a questão de mobilidade das cidades por que nós, população, não sabemos como funciona de fato? Não se trata de transporte público? Com tudo que acontece nos transportes de massa, caixa de pandora na vida da cidade, agora vamos ter mais uma caixa de pandora gerada por aplicativos? É transporte público e deveria ter números públicos. Afinal, fora as vendas de bicicletas, quanto está custando para a população estas bicicletas públicas. 

Uma matéria da revista Time sobre o aumento do custo para os usuários das bicicletas elétricas públicas em São Francisco, Califórnia, dá o sinal de alerta, ou de partida, para esta mudança de precificação destes serviços de aplicativos. Bem-vindos a realidade. 

É óbvio que quando estas mobilidades por aplicativos alcançarem um nível que se tornem indispensáveis o preço vai mudar. Fez, faz e fará parte de qualquer negócio, pela eternidade, amém. A era digital não escapa desta lógica. A quase gratuidade viciante começou a desaparecer. Aliás, não só a gratuidade, a privacidade também, mas esta é outra história. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Situação de emergência: ações corretas

Esta mensagem recebida pelo Whatsapp é um alerta necessário e fez com que me lembrasse do que aprendi sobre situações de emergência.

Aviso do SAMU

A Equipe das ambulâncias de emergências médicas percebeu que, muitas vezes, nos acidentes da estrada, os feridos têm um celular consigo. No entanto, na hora de intervir com estes doentes, não sabem qual a pessoa a contatar na longa lista de telefones existentes no celular do acidentado. Para tal, o SAMU lança a ideia de que todas pessoas acrescentem, na longa lista de contatos, o NUMERO DA PESSOA a contatar em caso de emergência. Tal deverá ser feito da seguinte forma: 'AA Emergência' (as letras AA são que apareça sempre este contato em primeiro lugar na lista de contatos). É simples, não custa nada e pode ajudar muito ao SAMU, ou a quem nos ajuda, a nos ajudar. Se lhe parecer correta a proposta que lhe fazemos, passe esta mensagem a todos os seus amigos, familiares e conhecidos. É tão somente mais um dado que registramos no nosso celular e que pode ser a nossa salvação. Por favor, não destrua esta mensagem! Reenvie a quem possa dar-lhe uma boa utilidade.

JOSIANE TROCATTI
Coordenadora Administrativa 
SAMU - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência 

OBS.: Repassem. Afinal trata-se de uma informação de muita utilidade.

Todo celular tem uma função telefone de emergência que não depende do desbloqueio do celular.
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Bem no começo do mountain bike, em 1989 ou 1990, o HU da USP deu um curso sobre primeiros socorros para nós, ciclistas. Não lembro nada do que foi dado, mas lembro perfeitamente do fechamento quando se reuniram todos os palestrantes a nossa frente, agradeceram nossa presença, e para fechar um deles perguntou ao pequeno e interessado público o que tínhamos aprendido? Veio uma resposta daqui, outra dali, mais outra, e quando terminamos o palestrante deu a fala final para não deixar qualquer dúvida: "Quando tiver uma emergência não faça nada, não toque na vítima, chame um médico (socorrista)". Nada mais sensato. É impossível gravar informação tão detalhada e precisa em um simples curso.

Lá por 2007 fui convidado a dar uma palestra para socorristas (de estradas) em Araçatuba, que acabou sendo uma das experiências mais ricas de minha vida. Fui alojado no alojamento dos socorristas, onde tomei café da manhã, almocei e jantei com eles ouvindo e aprendendo muito sobre acidentes e os cuidados para se resgatar ou salvar vidas. Definitivamente não é para qualquer um.
Muito tempo depois um amigo, Álvaro, que foi médico de urgência e emergência, me deu a cronologia correta para situações de emergência:
  1. Socorrista é quem está habilitado para fazer o primeiro atendimento. Esta primeira etapa tem procedimentos muito específicos e é crucial para o bom resultado do tratamento do paciente. 
  2. médico de urgência ou emergência recebe o paciente do socorrista no PA (Pronto Atendimento, o velho Pronto Socorro) e dá continuidade ao tratamento. 
  3. só depois de passar por estes dois estágios e quando chegar ao hospital propriamente dito é que o paciente vai ser tratado por um corpo médico que como leigo chamo de normal, incluindo ai especialistas em UTI (se for o caso), que não é emergência, mas Unidade de Tratamento Intensivo.
  4. Auxiliares e enfermeiras têm treinamento específico para cada estágio de atendimento
Quebrar esta ordem pode resultar em mais problemas ou mesmo a morte do acidentado.
Quer ajudar?
  1. Chame os socorristas o mais rápido possível.
  2. passe as informações pedidas com calma e precisão
  3. caso necessário ou faça sombra ou cubra o corpo se a temperatura for baixa.
  4. não toque nem deixe que toquem no acidentado
  5. se possível facilite a chegada da ambulância ou Corpo de Bombeiros
  6. mantenha todos longe do acidentado e da ambulância enquanto os socorristas dão atendimento.
  7. pergunte aos socorristas se precisam de algo e se querem que você faça a chamada de emergência
Um tempo depois do curso no HU da USP teve uma etapa do Campeonato Brasileiro de Mountain Bike. No sprint da largada do feminino profissional a sapatilha da ciclista que estava na ponta soltou do pedal e ela capotou muito feio de frente, batendo a cabeça e apagando exatamente na minha frente.  Passado o pelotão corremos eu, um médico e um dos papas da Federação de Ciclismo para ela, o médico se apresentou e quis muda-la de posição para transporta-la para um hospital de qualquer jeito. O cara da Federação queria fazer o mesmo. Impedi que tocassem nela quase fui agredido pelos dois, com o médico aos berros na minha orelha "Sou médico, sou médico, sai daí" e o cara da Federação urrando que se ela morresse eu seria responsável. Rapidamente chegou a ambulância com os socorristas, que imediatamente afastaram o médico meio que a força. Continuei protegendo a acidentada e só ai veio o socorrista e com calma disse "Deixa com a gente. Parabéns pela atitude". Até hoje me emociona esta história porque muito tempo depois vieram me contar que a ciclista só sobreviveu e não ficou paraplégica porque foi manipulada corretamente, o que só um socorrista sabe fazer. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Uma viagem de automóvel para mudar minha história

Um dia voltei de Cambuquira, sul de Minas, para São Paulo, de carona com um primo e seu fusquinha 1300 vermelho, novo, todo original, brilhando e limpérrimo. Não me lembro exatamente a data, mas deve ter sido lá por 1975. Foi a viagem que mudou da água para o vinho, e dos bons, meu entendimento sobre como usar um carro, como fazer uma viagem e aproveitar a paisagem. Ele dirigiu a viagem inteira com uma técnica primorosa e dentro dos limites de velocidade da estrada, portanto devagar, bem devagar. Na época os limites de velocidade eram bem mais baixos que os de hoje, a fiscalização era pouca, e o pessoal sentava o pau, como se dizia então. Mas meu primo freava com suavidade, reduzia as marchas com perfeição fazendo punta-taco sem tranco, tangenciava, acelerava mantendo velocidade constante; pilotagem invejável. Os primeiros quilômetros depois de Cambuquira pensei que iria ficar maluco porque ele não desembestava, mas aos poucos fui entrando no ritmo e adorando a paisagem, a conversa, o passeio, o sentir-me completamente seguro, a rica paisagem verde. Na época dirigiam numa competição generalizada para ver quem chegava mais rápido, quem era melhor no volante, quem era o bom, incluindo aí eu próprio que adorava velocidade e perigo. Até aquele momento para mim quanto mais loucura melhor, foco na próxima curva, na aproximação, na freada, a tangência, ultrapassagem, deixar o da frente para trás, coisas de corridas, de pista, de pilotos profissionais. Passados uns 30 km dentro do fusquinha vermelho, um pouco depois de Campanha e próximo a rodovia Fernão Dias, descobri que em torno existia vida, muita vida, muita beleza. Quando chegamos em São Paulo desci do carro maravilhado com o que tinha acontecido, uma viagem um pouco mais demorada, mas plena. Descobri e amei a outra possibilidade que o carro oferece: ter liberdade e poder ver a paisagem que existe além do asfalto com calma e viver.

E a partir desta viagem as estradas nunca mais foram as mesmas. Olho a paisagem com vontade de parar em cada canto. Numa das minhas primeiras viagens de carro para Buenos Aires com meu avô, Arturo Raul, paramos no início da Serra do Café num posto de gasolina que não existe mais, mas que ficava na primeira descida longa entre o asfalto e um córrego com floresta ao fundo. Lá tirei uma foto 4X4 PB com uma Kodak Brownie que foi revelada e sempre esteve por perto como um prenuncio do que me transformaria. Não sei onde a foto em papel está, mas a imagem está vivíssima em mim até hoje, assim como outros pontos das estradas que passei.

sábado, 10 de agosto de 2019

Pedalar as estradas conurbadas ou a periferia

Acabei fugindo de São Paulo e de meus problemas antes que estourasse. Peguei a bicicleta e fui mais uma vez para Sorocaba pedalando. Em vez de pegar a Rodovia Castelo Branco, fui pedalando por dentro, na avenida quase plana que acompanha a linha do trem que passa por Osasco, Barueri, Jandira, Itapevi, última estação da CPTM, chegando até Mailasqui. Dali para frente mais 38 km até Sorocaba pedalando pelo ótimo acostamento deste trecho verde e tranquilo da Raposo Tavares. Muito melhor e mais tranquilo que imaginava. Quem me fez descobrir este caminho foi o Google Maps. Já conhecia parte do trajeto até o Shopping Barueri pela av. Altino Arantes, de onde se tem aceso à rodovia Castelo Branco, evitando sua área mais conurbada e sem acostamento, muito perigosa para ciclistas. A um milhão de anos fui pedalando para Bom Jesus do Pirapora pela Castelo, mas então era uma simples rodovia moderna com acostamento; não esta loucura de mil pistas e correria sem parar de hoje. Só depois de Santana do Parnaíba a Castelo volta a ser uma estrada normal e é possível pedalar num acostamento descente e seguro. O caminho que fiz desta vez é por , portanto tem carro, ônibus, caminhão, não tem acostamento, mas tem espaço para o pessoal desviar, e desviam, e o asfalto é limpo, sem restos de pneus de caminhão que furam pneus, o que é uma grande vantagem. 

Medão! Talvez não sem razão nós que vivemos no oásis da área central de São Paulo, o Centro Expandido, tenhamos medo de ir para a periferia. Num passado distante não tinha medo, hoje tenho. "Será que serei assaltado?" eis o medão. Pensando racionalmente e lembrando o que me ensinaram - assaltante vai onde tem muita mercadoria (bicicletas e ciclistas) para assaltar; não fica esperando que passe um trouxa sabe-se lá quando - a possibilidade de ser assaltado enquanto cruzo a periferia é bem menor que ficar pedalando próximo da USP, por exemplo. Cruzei a periferia sem qualquer problema.

A pergunta que me fazem é porque não pegar um carro e começar o pedal onde a estrada é mais tranquila. Primeiro porque não tenho carro. Segundo porque estas estradas que hoje estão conurbadas e viraram avenidas fazem parte da minha infância e juventude. Passar por elas era sempre a certeza de um grande prazer, tanto pela paisagem quanto pelo que me esperava no fim da viagem. E finalmente, se quero construir uma cidade melhor tenho que entender sua verdade. Estradas conurbadas são as principais artérias da vida da cidade e hoje estão entupidas, maltratadas, perdendo sua função, com futuro incerto, qualquer que seja ele. Por que não ir lá em bicicleta para ver com calma como realmente estão e aí pensar, ou sonhar, o que se pode fazer para melhora-las? "É muito perigoso, muito tenso!" podem dizer, mas acho menos tenso e perigoso que pedalar numa ciclovia lotada em horário de pico aqui, em Londres, Munique ou Amsterdam, por exemplo. "É feio!", sim, é feio, mas é a realidade, ou melhor, está assim, não precisa ficar assim. "Tudo tem jeito, basta querer e realizar" repetia minha velhinha mãe. Estradas conurbadas são o cartão de visita e as boas vindas de qualquer cidade. Que cidade você quer? O que você sente na volta para casa quando chega de viagem internacional no GRU?

Não, não estou estimulando ninguém para sair pedalando em estrada conurbada como a Dutra, Castelo, Anhanguera, Raposo Tavares, de todas talvez a mais complicada. Quero deixar um pingo de curiosidade sobre como sair pedalando de São Paulo para o interior. Será que a única alternativa é o caminho dos carros? Minha resposta é negativa, não, não é. Tem caminho alternativo, tem trecho que dá para pedalar na conurbada, desmistificando dá para ir. Um mundo de ciclistas trabalhadores vão; por que nós não podemos ir?

A próxima vez vou repetir, depois de décadas, ir pela Estrada dos Romeiros, ou, Santana do Parnaíba, Bom Jesus do Pirapora, Cabreúva, Itu, Sorocaba, viagem de dois dias, um até Itu e os pasteis maravilhosos da Lanchonete Tonilu, ao lado da igreja Matriz, durmo, e dia seguinte sigo para Sorocaba, talvez pela estrada velha, sem Castelinho. 

Sair pedalando de São Paulo é um outro babado.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Colombiano vence o Tour de France e importância do esporte amador popular

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Ontem pela primeira vez na história um sul americano venceu o Tour de France, a prova de ciclismo mais importante do planeta. Três outros colombianos mais um argentino foram destaque. Nenhum brasileiro participou nesta ou nas edições passadas, mesmo tendo 40 milhões de bicicletas circulando no dia a dia das cidades do Brasil. Como falar de ciclismo, um dos esportes mais populares do mundo, quando até nosso futebol, paixão nacional e outrora o melhor do mundo, anda tão mal das pernas? Falando da reconhecida importância da prática esportiva para o bem estar da população. Ter mais de um quarto da população pedalando e não gerar um ciclista de ponta é uma vergonha. Podem fazer o que quiser, reformas econômicas ou mudanças políticas, mas este país não mudará enquanto não tivermos politicas públicas preventivas realistas, sólidas e perenes. Ter uma farmácia a cada esquina ou ver o negócio da segurança crescer vertiginosamente sem parar é sinal claro e inequívoco do desprezo das autoridades pelas ações preventivas mais básicas. De nada adiantará ter hospitais e policiamento tão cacarejados por políticos e autoridades se não tivermos esgoto, educação e a disseminação da prática de esportes, essenciais para a formação de qualquer país decente. A Taça das Favelas de futebol foi um completo sucesso, ocorrendo em clima tranquilo, familiar, até nas finais; completamente diferente da brutal violência típica da Copa São Paulo de Futebol Junior ou de qualquer outro jogo de campeonato oficial. Esporte amador, de raiz, é disputa que gera mais que campeões, gera paz, convívio social, transforma uma comunidade, uma cidade, um país. Egan Bernal, que acaba de vencer o Tour de France, colocou a Colômbia em evidência em boa parte dos jornais e noticiários do primeiro mundo, os investidores, fazendo uma propaganda para seu país que não tem preço. Ídolos são inesquecíveis, referência do bem. E é no esporte amador que se forma ídolos, se forma um país. Políticos e autoridades passam. 



sexta-feira, 26 de julho de 2019

Gentileza gera gentileza

Hoje pela manhã mandei uma rosquinha, aquele sinal que se faz com a mão, vulgo vai tomar no cu, para uma mulher que dirigia um carro. Fiquei bem mal. Tive que ir para o meio da rua porque tinha um carro estacionado na ciclofaixa e ela buzinou para que eu voltasse para o lugar dos ciclistas. Estava pedalando na velocidade do trânsito, ela estava longe, não atrapalhei ninguém, e estava com saco na lua por causa de algumas encheções familiares. O ponto é que ela simplesmente não tem nada a ver com meu mau humor e como motorista pode reclamar que estou fora do espaço que foi criado para ciclistas. Amigos e amigas ciclo ativistas gritaram e repetiram a exaustão "lugar de ciclista é na ciclovia"; pois então, a senhora que dirigia o carro estava absolutamente correta. Também está no CBT que diz que havendo local próprio para circulação de ciclistas é lá que devem circular. Eu saí um pouco antes do carro estacionado sobre a ciclovia, o que não deveria ter feito segundo o CTB. Não há o que discutir, menos ainda xingar. Aliás xingar está tipificado como infração no CTB e em outras leis. 
Mas sabe porque fiquei mal mesmo? Primeiro porque estupidez com o outro não serve para nada. Quando eu, como ciclista, tenho uma reação destas crio problema para outros ciclistas. A motorista provavelmente passará pelos próximos ciclistas que encontrar sem a menor boa vontade e simpatia. Naquele momento, com a reação que tive, fui para a motorista o representante de todo e qualquer ciclista. Não foi o Arturo que mandou uma rosquinha, mas foi um ciclista. "Ciclistas são todos iguais" ouço todos dias. Assim como "Motoboys são loucos", "Motoristas são assassinos", "A pior raça que existe são os taxistas"... e assim vamos, só depende de que lado se está. Os outros são sempre os ruins e nós os bons. Será? 
"Gentileza gera gentileza" deixou grafitado num viaduto do Rio de Janeiro José Datrino, o Profeta Gentileza. Nada mais verdadeiro, nada mais eficiente, nada mais coletivo. Trânsito é um jogo coletivo. O valor de reconhecer os próprios erros faz milagres. Quer pedalar seguro gere gentileza. Isto contamina e vai ajudar a sua segurança e de todos ciclistas.
Domingo passado Teresa e Vera passaram pela mesma situação na av. Sumaré, onde está cada dia mais difícil pedalar na ciclovia, tomada por tudo e todos, até por bicicletas. Quando pararam a frente conversaram com o motorista explicando porque se sentiam mais seguras junto aos carros. O motorista ouviu e foi embora em paz. Gentileza gera gentileza. 
De minha parte ainda quero encontrar a motorista para pedir desculpas. Nunca é tarde.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Depois dos motoboys, agora os entregadores por aplicativos.

Painel do Leitor
Folha de São Paulo

A telefonia era cara e ineficiente, a internet não existia, demorou para chegar e chegou cara, lenta e imprevisível; a eterna burocracia e seus documentos sem sentido necessitando despacho urgente que ficavam parados no trânsito paulistano sem previsão de recebimento; tudo acabou gerando o fenômeno dos motoboys. Foram fundamentais para manter São Paulo caminhando, mesmo demonizados por buscar a rapidez que lhes era exigida ou xingados e acusados de irresponsáveis quando acabavam estendidos no asfalto parando mais ainda a cidade. O número de acidentados e os consequentes custos de parar a cidade e do atendimento nos hospitais foram e continuam sendo absurdos, mas nunca foram seriamente olhados pela simples falta de opção. Que suas famílias e amigos chorem seus acidentados e mortos, pouco importa; o povo, todo ele, quer agora, já, imediatamente.
Boa parte dos entregadores de aplicativos é menor de idade, portanto não tem sequer a formação básica para o trânsito que a CNH dá. Pela impetuosidade típica da adolescência e por realizarem suas entregas em bicicletas (ou qualquer coisa que sirva para transporta-los) sentem-se e de fato estão livres de qualquer regra, das básicas de cidadania às leis vigentes. Leis estas que ainda estão sendo estabelecidas para aplicativos e seus entregadores, que só querem trabalhar, mesmo que completamente desprotegidos. São entregadores autônomos, responsáveis pelos seus ônus. Que suas famílias e amigos chorem seus acidentados e mortos, pouco importa; o povo, todo ele, quer agora, já, imediatamente, hoje muito mais rápido que antigamente, afinal o tempo do celular não mente.

Quem já acompanhou vida de bike courier, opção mais barata que motoboys, sabe que a maioria acha que sabe pedalar, pedala em bicicleta errada, prejudicial para músculos e articulações, faz longas e insanas quilometragens diárias, se alimenta e hidrata mal, se tem tempo e dinheiro para isto. Boa parte deles acaba machucado ou doente, isto quando não se acidenta em colisão ou caindo num buraco. Muitos são autônomos, quando são; precisam trabalhar, o resto é resto. Quem se importou? Quem se importa?
Bicicleta é um dos veículos mais práticos e inteligentes criados pelo homem. Com bom uso oferece inúmeras vantagens, da rapidez para trajetos curtos e médios ao bem estar, a qualidade de vida. Como tudo que diz respeito a cultura no Brasil, a da bicicleta e do pedalar corretos é insipiente, muitas vezes cheio de conceitos básicos errados. O que está acontecendo com estes meninos é um absurdo, mas quem se importa?


Artigo na Folha de São Paulo sobre a situação sobre os entregadores autônomos que estão por todos lados.