sábado, 20 de maio de 2017

A opção pelo carro preto

Um dia virou moda no Brasil ter carro preto. Sempre achei estranho porque carro preto era a cor oficial dos carros do poder público, o que naquela época era símbolo de coisa errada, jeitinho, corrupção, do que lutávamos contra. Era de se estranhar também porque vivemos em um país tropical, portanto (para quem não sabe) com clima quente, e preto é a cor que mais absorve calor. Ar condicionado em carro era coisa rara, cara, de gente poderosa; a maioria fervia dentro de seus carros pretos. A moda virou mania e colou.
Tínhamos acabado de sair de uma ditadura (dentadura) e nela o gosto popular era por carros coloridos, alegres, descontraídos: azul calcinha, verde abacate, vermelho malagueta... E aí entramos nesta democracia que hoje mostra suas horrorosas entranhas com o maior sonho de consumo justamente o símbolo dos "autoritários e poderosos". Vai lá entender. 
Poderia dar outros exemplos, mas creio que sejam bastante óbvios, basta pensar.




Não é de se estranhar que no meio desta luta de toda sociedade contra qualquer segregação a luta do cicloativismo tenha seja exatamente a segregação da bicicleta em todas as vias da cidade, mesmo onde não faz sentido ou não é necessário.

Outro dia ouvi algo que pode ser traduzido como "o tecnicamente correto não atende necessariamente aos parâmetros da ideologia", ou seja, melhor guiar-se pela ideologia do que pela lógica e bom senso. Desculpe, mas não consigo chegar lá; não entendi.

"Nem um centímetro a menos (de ciclovias)" é o slogan de luta de boa parte dos cicloativistas. E nestes termos "retomaram", ou retornaram, como queira, a ciclovia da rua Dr. Fausto de Almeida Prado Penteado, pirambeira em curva por onde dizem que passam ciclistas (só vi coxinhas domingueiros vestidos de franga pedalando bicicletas nada populares). Poderia até ser caminho para uma comunidade próxima vizinha ao Shopping Cidade Jardim, mas como acredito na inteligência e bom senso de seus moradores, acredito que eles prefiram o caminho plano e mais rápido pela calçada na marginal, onde se pode ver vários ciclistas e pedestres a qualquer hora do dia. A mesma calçada que a administração Haddad deixou durante boa parte de seu mandato tomada por mato e lama, intransitável, obrigando seus moradores caminhar no asfalto expresso. Denunciei o fato aqui.
"Nem um centímetro a menos" justamente num bairro coxinha, não uma coxinha qualquer, mas coxinha da cozinha do Restaurante Fasano? Eu sei; "Vocês são a verdade, a revolução, o futuro"? É mesmo? Desculpem, mas prefiro o diálogo, prefiro o passo atrás em nome do acordo social. Eu prefiro a paz.

O carro preto em país tropical é símbolo de prepotência, de falta de inteligência. Os tempos são outros, a vida mudou, as prioridades também, mas a bicicleta de dias atuais lembra tanto os carros pretos....

domingo, 30 de abril de 2017

qualidade, durabilidade, baixo custo, equidade

fragmento de calçamento Romano século II dC, Córdoba, Espanha
O Brasil precisa imediatamente formar calceteiros, especialistas em construção de calçadas. 





sábado, 29 de abril de 2017

O que fazer?

"Você viu que a vida pode ser diferente, que podemos sair da mesmice, da rotina, Não é tão difícil e dá prazer. Ótimo. Agora, você falou e reclamou de um monte de coisas. O que você vai fazer para tentar mudar pelo menos uma destas coisas".
Este comentário é sobre o texto "Brasil periferia, um passeio divertido - se não fosse trágico" que publiquei aqui neste blog. O que vou fazer para mudar alguma coisa neste Brasil do nunca antes é a pergunta que venho me fazendo sem parar, muito antes deste comentário pertinente. Minha resposta até aqui é não sei.
Tenho certeza sobre o que se tem que se deve fazer para colocar um trem chamado Brasil nos trilhos e faze-lo retomar a marcha, mas não faço a mais remota ideia de como vender o peixe, principalmente nestes tempos onde a palavra "democracia" serve para qualquer coisa, inclusive para substituir o bom senso e a lógica. Chegamos ao ponto onde é politicamente correto e imperativo respeitar ideias e vontades individuais, mesmo as de um inepto, mesmo que isto leve ao colapso coletivo. Provas disto é que não faltam. Assim como estamos num tempo no qual conhecimento e experiência valem pouco. Falar com conhecimento de causa pode ser tido como arrogância ou pior.
Talvez o Brasil precise de direitos e deveres coletivos; não sei, quem sabe? Dever coletivo, responsabilidade coletiva? Talvez qualidade. Cair a ficha que somos um país pobre de riquezas materiais e intelectuais? Parar de falar sobre saúde, educação e segurança? Parar de reclamar e agir, como disse o comentário? Com certeza. Agir? Mas como, como se faz no meio desde tiroteio de cegos?
calçada e calçamento em Lisboa
Milão: 25 anos de garantia para obra pública
Amsterdam: escola
Estou tentando acionar a garantia da obra feita pela Operação Faria Lima \ Pinheiros para que conserte as calçadas que já estão caindo aos pedaços, isto 5 anos depois da entrega da obra. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ana Maria Hoffmann, dispensada

Ana Maria Hoffmann, de casaco marrom, numa reunião do Projeto GEF Banco Mundial, 2005
Ontem me comunicaram que Ana Maria Hoffmann foi dispensada da SVMA de São Paulo. Acompanho seu trabalho desde a época do Projeto Ciclista, isto lá pela metade da década de 90 e afirmo que Ana foi essencial para chegarmos onde estamos hoje. Não, Ana não faz parte do pelotão de frente. Ana é aquele tipo que trabalha nos bastidores e que quando faltam fica um vazio difícil e até mesmo impossível de ser superado. Ana Maria Hoffmann foi uma espécie de secretária de toda a questão pública relativa à bicicleta. Ana organizou todos trabalhos e projetos apresentados, realizados ou importantes para o Município de São Paulo, o que não é pouco. Até pouco, quando estive no meio do furacão, Ana esteve presente em praticamente toda reunião, evento, ou acontecimento, de onde tirava e organizava o que era mais relevante. É um trabalho de inteligência, uma destas inteligências que não tem preço, que facilita a vida de todos, principalmente na e da coisa pública.
Uma das primeiras dicas que tive quando comecei a trabalhar foi: "Quer chegar a essência, ao que importa, ao que vai dar resultado? Veja o que pode tirar da secretária." Dica de ouro. Chefes muitas vezes sequer sabem qual é o horário no dentista, por mais latejante que esteja o dente. 
São Paulo perde muito com a saída de Ana Maria Hoffmann da Secretaria do Verde. Perde a população e a administração pública. A questão da bicicleta perde mais ainda. Perde para valer. Perdemos uma interlocutora preciosa que trabalhou para o bem de todos, não só ciclistas. Triste, muito triste.

Se quisermos transformar este país, fazer disto aqui um lugar mais justo, digno e prazeroso, precisamos respeitar quem tem história, quem construiu e contribuiu com um trabalho honesto. Descartamos inteligências, conhecimentos e sabedorias como se descarta saco de salgadinhos. Ou mudamos isto imediatamente ou não temos qualquer futuro; disto não tenham dúvida.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Brasil periferia: um passeio divertido - se não fosse trágico

Estou ligado na tomada 220. Foi um dia atípico, dos que quero viver com mais "freequência" (free + frequência; errei, mas gostei) daqui para frente. Preciso mudar, estou mudando aos trancos e barrancos. Não aguento mais o que está ai no dia a dia e saí pedalando, venci meus medos e fui buscar umas linguetas de trava de janela que só são encontradas numa empresa no Campo Limpo, rua Prof. Oscar Campiglia 92, onde Judas perdeu as bostas. 
De Metro ou bicicleta? De Metro iria seguro e estaria a uns 1.500 de lá. De bicicleta estava com medo de pedalar na ciclovia do Pinheiros entre a Ponte Cidade Jardim e a João Dias, onde contam um montão de histórias sobre assaltos. Da ponte João Dias são mais uns 4 ou 5 km num trânsito que me lembro chato e perigoso. Vamos lá! coragem! bicicleta!
A ciclovia do Pinheiros é linda, principalmente no trecho sul, rumo à represa. Entrei nela e demorei para relaxar. Precisei cruzar uns tantos ciclistas com cara tranquila para que deixasse de ficar buscando vultos no meio das folhagens. Neurose? Exagero? Pode ser. Deve ser. Somos uma sociedade treinada para sentir medo. Falta de segurança é um dos negócios mais rentáveis deste país, mais de R$ 200 bi/ano. Todo mundo acha normal; porque também não posso me sentir inseguro?
Sai da ciclovia e cai no trânsito da João Dias e depois Estrada de Itapecerica. Para meu espanto muito mais tranquilo que imaginava. E continuei tranquilo. Um bom trecho numa ciclofaixa à esquerda da avenida Carlos Caldeira Filho, diga-se de passagem, suja, claramente pouco usada e beirando um córrego em estado vergonhoso. Dobrei na Estrada do Campo Limpo, sobe, desce e cheguei onde queria, feliz, topo de morro, vista para Taboão e edifícios do Morumbi. Bela vista. 
A volta? Bem, porque não voltar pelo meio de Campo Limpo e Eliseu de Almeida? "Não é tão longe" disse e vi um sorriso maldoso de um motorista que ali estava.
Entrei na Estrada do Campo Limpo e fui para a aventura pelo meio do bairro. É óbvio que cheguei distraído num cruzamento e segui a esquerda, quando deveria ter virado a direita. Nem percebi. Pedala, pedala, pedala, e uma hora decidi perguntar. (Já sei: deveria ter aberto o celular e olhado o mapa, mas confesso que estava me divertindo perdido, ou meio perdido). O sujeito a quem fiz a pergunta assustou quando disse que ia para Pinheiros pedalando, e apontou, "Sobe aquela rua que você vai dar na (rodovia) Regis (Bittencourt)". Ops. Vamos lá. E cai na Regis uns 3 ou 4 km para lá de Taboão. 
A volta foi divertida, me sentindo livre por estar pedalando numa rodovia. Medo de pedalar em rodovia? Medo dos carros? Nada! Que vontade de tomar o sentido contrário e ir para Curitiba, sumir. Uns quilômetros a frente o centro de Taboão, a esquerda para a Eliseu de Almeida, e ainda cheguei a tempo de receber o pessoal para o almoço. Feliz, muito feliz, e triste ao mesmo tempo.
Feliz porque sai do meu mundinho de "zelite" e fui pedalar num outro Brasil, no Brasil geral, o Brasil de todos. Triste.
Conheço boa parte de São Paulo e alguma coisa da região metropolitana. Não conhecia o lugar onde pedalei, a divisa entre Campo Limpo e Taboão. Infeliz urbanização pobre, sujeira e algum entulho nas ruas, casas e negócios feios e ou mal conservados, calçadas ruins, pouco arborizado, zero paisagismo, lugar comum nas cidades brasileiras, principalmente nas periferias. O futuro de paz e justiça social passa obrigatoriamente por cidades civilizadas. Brasil é uma grande periferia; que futuro temos? Como mudar isto? Como vender a ideia para aquele povo que a cidade pode ser infinitamente melhor, muito mais civilizado? Que parâmetros eles tem para saber o que é civilizado, o que deve ser uma cidade, um bairro, uma vida coletiva, e quais reflexos disto sobre a segurança e equilíbrio social?  

Olhe para as tomadas de sua casa. São as antigas usadas por mais de 30 países ou são as novas, as tomadas do PT. Pois bem, ai é que abaixaram as calças de toda a população brasileira, eu, tu, ele, nós, vós, eles, e viram que mesmo numa situação tão absurda como a introdução obrigatória de modelos de tomadas unicamente brasileiros ninguém falou nada. Não perguntaram o porque, não pediram pesquisas que justificaram, não se importaram com a indústria nacional, não fizeram nada. Silêncio total e absoluto. E enfiaram as tomadas do Lula e PT na bunda de todos. Hoje temos uma tomada exclusivamente brasileira, que orgulho!
É difícil, vide o número de manifestantes que saíram às ruas contra o foro privilegiado e o voto em lista fechada, dentre outras barbaridades que podem afundar o Brasil de vez. Com certeza não há interesse da população em construir um Brasil melhor. "Não vai fazer diferença" ouve-se de bocas de todos níveis sociais e culturais. UAU!
Com as tomadas do PT fizeram um teste de mercado e deu neste Brasil que temos ai. Parabéns a todos!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Fechamento do MuBI: Brasil, um país sem memória

Fazia muito tempo que não sentia dor no peito, aquela dor profunda, imensa, dor de tristeza, dor de desalento. Ontem senti, hoje um pouco menos, amanha passa, diriam meus amigos. Nossa memória é curta, principalmente de quem é brasileiro.
Sexta-feira passada recebi a notícia que o MuBI, Museu da Bicicleta de Joinville, fechou as portas definitivamente. Valter Busto, o responsável pelo MuBI, foi avisado num dia para retirar a coleção praticamente no outro. Não sei exatamente o que aconteceu, qual a razão. Faz uns anos o museu também foi fechado depois de uma besteira tipicamente tupiniquim e depois de uma longa briga voltou a abrir. Desta vez acabou. Não interessa a cultura, não interessa o relativo sucesso do MuBI nestes 17 anos de existência, não interessa a preservação do passado, enfim não interessa e ponto.

O desrespeito com sua história é uma das marcas registradas deste Brasil brasileiro. A despreocupação com os museus pode ser medida na baderna e quase falência que atingiu o MASP, Museu de Arte de São Paulo, não faz muito tempo. Se o mais divulgado e famoso museu da cidade mais rica do país, 17% do PIB nacional, passou pelo que passou imagine o resto dos museus ou entidades de preservação da memória nacional vivem. Vide a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro só como mais um exemplo de tão vergonhoso é nojento. Nossas igrejas, palácios, fazendas, cidades históricas...
Conheci Joinville ainda quando tinha cara de Joinville. Era uma poesia. Hoje é uma cidade brasileira qualquer com uns resquícios da Joinville verdadeira. Quando começou a modernização (???), com a derrubada de antigas casinhas ou deformação de fachadas, dei uma entrevista numa rádio de lá e falei sobre a importância de preservação da linda e rica história da cidade e seus cidadãos. Não demorou muito a rádio começou a receber telefonemas, muitos deles ameaçadores. Neste contexto fechar um museu não significa nada, mesmo que Joinville tenha orgulho de ter sido a "cidade das bicicletas" com seus congestionamentos de bicicletas na saída da Fundição Tupi e ciclistas, homens e mulheres, pedalando por toda parte.

Na mesma sexta-feira estive em Piedade, interior de São Paulo, próximo a Sorocaba, para conversar com a escola de minhas sobrinhas netas. Quero ajudar na educação delas e achei que poderia oferecendo palestras ou conversas sobre o que está sendo feito com as cidades mundo afora. O coordenador da escola, Miro, inteligente, vivenciado em educação e viajado, colocou com sabedoria que mostrar outras realidades para aqueles pais de alunos "poderia" ser contraproducente. Talvez até ofensivo, entendi eu. Não duvido. Não se deve falar mal da cidade onde vivem - que é a melhor cidade do mundo, devem pensar. Já ouvi esta história muitas vezes, mas imaginei, melhor dizendo, sonhei que tinha mudado.
Brasileiro não aceita sequer comparações desfavoráveis, o que dizer de críticas. As cidades brasileiras são um desastre. Tirando raríssimas exceções, não tem personalidade, não tem história. Foram todas desintegradas em nome de um moderno, de um futuro, de um progresso pobre, mesquinho, sem sentido. 
Vários estudos apontam que a preservação da história de um povo é um dos melhores caminhos para a estabilidade social e que a memória é o caminho para o progresso sustentável. Aprendemos com erros e acertos. Mas quem de nós brasileiros se interessa?
Como brasileiros continuamos sendo usurpadores de uma terra. História? O que é isto? Para que serve? Principalmente, para quem serve?

Valter no MuBI
O fechamento do MuBI ironicamente acontece no meio do fervilhar do renascimento da bicicleta no Brasil. Quem se importa?
Querendo ajudar: Valter F. Bustos - val.bustos@hotmail.com 
Coordenador da EMem/MuBi, Vice-Presidente da ABAJO e Bike Jornalista
em Joinville/SC.


E agora ouvi na Rádio Eldorado na Crônica da Cidade com Antonio Penteado Mendonça: “Mundo brasileiro é dos malandros ou dos espertos”. Alguém tem coragem de negar? Quem se importa?













segunda-feira, 20 de março de 2017

Chove ou não chove?

De um tempo para a vida: pare, fique em silêncio e olhe em volta.

Aprendi a olhar. Olhar a paisagem, o céu, sentir o ar e por causa da bicicleta saber se vai chover e em quanto tempo. Quarenta anos de prática e o simples ato do prazer de viver e sentir a vida ao redor. Tornou-se difícil que eu seja pego de surpresa e tome uma chuva inesperada. Vou pedalando e olhando tudo, não só o caminho, os buracos, os carros em volta, vou vivendo a rua, vivendo a bicicleta, vivendo.
Sempre tive muita inveja de pessoas que tem um dom especial para ver e entender a natureza, a vida. Em 1975 estava num navio cargueiro indo para os Estados Unidos e na altura de Pernambuco vi jangadas a 54 milhas náuticas da costa - sim, 100 km! A tripulação disse que não comum encontrar jangadeiros tão distante da costa. Nada de bússola ou qualquer outro instrumento de navegação, tudo no olhar, no sentir, viver o mar, o céu e as estrelas.
Ouvi várias histórias mágicas e reais sobre jagadeiros, pescadores e mateiros.  
Na Segunda Guerra Mundial um avião caiu no mar próximo de Recife ou Natal. Vinha com documentos e material militar importante e a Marinha foi atrás. Passados uns dias de buscas e nada. Num bar do porto um marinheiro ouviu um jangadeiro contando que sabia onde estava o avião. O marinheiro foi ao comando, falou com o comandante que mandou trazer o jangadeiro. O jangadeiro confirmou que sabia exatamente onde estava o avião, mas que só conseguiria ir até lá na jangada e foi para o mar com um navio seguindo de longe. E posicionou o navio em cima do avião desaparecido. Era tarde, colocaram uma boia que na tempestade da noite se soltou. Pegaram o jangadeiro de novo que disse que agora ele sabia ir de navio. Voltaram lá e de novo ele posicionou o navio sobre o avião. 
Jorge sempre pegava um jangadeiro experiente quando queria mergulhar em uma grutas de alto mar. Não tinha erro, o jangadeiro ia no ponto exato do mar de São José da Coroa Grande, Pernambuco, bem longe da terra. Um dia quando Jorge veio a tona depois de um longo mergulho o jangadeiro disse "Seu Jorge, é melhor voltar. Vem chuva feia". Jorge sentou na jangada olhou em volta e não viu nada. "Vou dar mais um mergulho rápido e vamos", disse Jorge e ouviu como resposta "Vai vir chuva forte", mesmo assim mergulhou. Passado pouco tempo o mar límpido ficou escuro. Jorge subiu rápido, mas a tempestade já estava lá. O mar ficou bravo, a jangada chacoalhava, subia e descia forte. e a visibilidade zerou. Jorge ficou apavorado e o jangadeiro com sua calma habitual disse "Seu Jorge não se preocupe, daqui uns 40 minutos a chuva pára e estamos de frente para São José (da Coroa Grande)" Dito e feito. E Jorge nunca entendeu como o jangadeiro se guiou naquele mar.
Pedalando numa cidade não precisa ser tão bom, mas dá para aprender, basta parar e olhar, curtir a paisagem, deixar o corpo sentir a vida.
Numa das minhas saídas como Bike Repórter estava sobre a ponte Bernard Goldfarb justamente para ver como ia ficar o tempo. Olhei no sentido norte, para o lado do Pico do Jaraguá e vi literalmente uma parede marrom vindo rapidamente em minha direção. Exatamente como uma tempestade de arreia, mas de poluição. A sensação foi horrível, parecia um destes filmes americanos de desastre onde tudo vai desaparecendo. Tive que parar o trabalho. Outra vez, também como Bike Repórter, vi o céu com três níveis de nuvens passando rápido, cada uma num sentido. Lindo de ver, mas Geraldinho Nunes estava no helicóptero e chacoalhou um bocado. Vi mais umas poucas vezes tal fenômeno meteorológico.
Fora situações muito específicas, no geral é relativamente fácil ver o que vai acontecer com o tempo. A única regra que não preciso contar é que com vento muito forte ou chuva muito intensa não dá para continuar pedalando. Não há capa que segure.