sábado, 21 de maio de 2022

Pensamentos perdidos sobre turismo e cidades no Brasil - parte 2

Milão vista da porta do Al Grissino, do outro lado da rua 

Milão e São Paulo têm algo que as une. É uma das cidades gastronômicas da Europa e do mundo, e segundo uma das mais importantes chefes deste país tem o melhor restaurante do planeta, Al Grissino, na Via Gian Battista Tiepolo. Milão é uma delícia de ser vivida, cidade que tem de tudo, incluindo o majestoso, impressionante conjunto Duomo, Galleria Vittorio Emanuele, e Teatro alla Scala de Milano. Junto com Amsterdam, paixão, é uma das minhas cidades prediletas, das poucas que se pudesse moraria. Dizem que no inverno a coisa é outra, gela para valer, mesmo assim moraria.
Milão lembra muito a São Paulo de um passado não muito distante. A bem da verdade Milão serviu um pouco mais que simples referência. São Paulo é a cidade com maior número de italianos e oriundos no mundo, incluindo as cidades da própria Itália. A diferença, ponto positivo para São Paulo, é que nosso clima que é temperado, ótimo. Era melhor ainda no passado, a terra da garoa, coisa que perdemos em consequência da brutal perda de áreas verdes e cimentação generalizada. Nosso crescimento foi e continua sendo caótico, burrice "que não pode parar".

São Paulo está sendo sistematicamente desintegrada. Segundo especialistas foi a cidade com a maior riqueza arquitetônica do planeta. A violência com que se está demolindo o passado e construindo edifícios descomunais é impressionante, o que vai ter novas consequências. "São Paulo não pode parar", o velho lema dos progressistas, está nos levando a um futuro cheio de incertezas para lá de perigosas. São Paulo da garoa já está irremediavelmente descaracterizada, não existe mais. A quem serve?
É bolha, voo de galinha.

Sempre se comeu bem em São Paulo, e de tudo, de uma variedade gastronômica rara. Era uma das riquezas dos novos paulistanos vindas de todas as partes do planeta. Italianos, libaneses, sírios, japoneses, alemães, franceses, nortistas, gaúchos... 

Foi inevitável São Paulo um dia ter sido reconhecida internacionalmente como uma cidade gastronômica. O grosso do turismo até o fim da década de 90 era de negócio, trabalho, curto, dois dias de estadia em média. Para executivos é hábito as reuniões ou serem realizadas ou terminarem nos então poucos e ótimos restaurantes da cidade, todos de padrão mundial. Virou regra entre alto-executivos ficar mais um dia hospedado na cidade para só para ir a restaurantes. Foi um processo natural, divulgado boca a boca entre os executivos, que hoje rende muito, gera muito emprego. O turismo oficial veio a reboque (se é que veio). A fama da culinária paulistana foi tão longe que desta vez na Itália ouvi mais de uma vez comentários elogiosos vindos de italianos e europeus que nunca estiveram no Brasil e não fazem ideia de onde está São Paulo no mapa.

O turismo numa na cidade maravilhosa, Rio de Janeiro, mingua. Falou em Brasil, falou Rio de Janeiro, falou em Rio falou em violência em estado bruto. 
- Você é do Brasil?
- Como é a capital Buenos Aires?
Várias vezes ouvi variações sobre a mesma pergunta, principalmente nos Estados Unidos. O pessoal de primeiro mundo costuma saber que existe uma cidade maravilhosa, uma floresta amazônica, e Argentina, Chile, Peru, Colômbia e por razões de noticiário político a Venezuela. Rio de Janeiro = violência.  
Para quem não sabe NY teve mais de 2.200 homicídios no ano de 1990, 6 homicídios/dia, um número apavorante. Não entra aí as agressões, assaltos, roubos, tráfico de drogas, gangues, e outras violências mais que tanto conhecemos. Com um planejamento bem-feito pensando em longo prazo reverteram. Em um pouco menos de 20 anos transformaram NY num dos principais destinos de turismo do planeta, competindo com Paris, por exemplo. O projeto Tolerância Zero vai muito, mas muito além do pensamento simplório traduzido em "intolerância". A diminuição da tolerância com até pequenos atos ilegais, como pichar ou fazer pipi no poste, fez e continua fazendo parte de inúmeras ações de recuperação da qualidade da vida pública na cidade. Tolerância zero foi e continua sendo um trabalho coletivo que envolve inúmeras áreas, da segurança à saúde, do bem-estar social ao acompanhamento da criança na escola.

NY cresceu muito estes últimos anos, mas de forma organizada, respeitando seu passado. O turismo se fortalece vendo a NY do King Kong pendurado no Empire State, não para ver o paliteiro de 100 andares de apartamentos irresponsável que está pipocando por Manhattan e que está gerando uma gritaria feroz por parte dos nova-iorquinos.  
Não é construir qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar como está acontecendo aqui em São Paulo. É planejado, pensando, discutido com gente que tem condição de pensar. Mesmo assim vira e mexe dá merda e das grossas.

O projeto Hudson Yards em NY, um dos maiores e mais caros empreendimentos urbanos da história, é grandioso, lindo no papel, imponente de ver ao vivo, mas está dando errado, muito errado. Já estava tendo sérios problemas comerciais antes da pandemia. A torre de babel, como gosto de chamar, uma escadaria em forma de torre de babel invertida, uma escultura maravilhosa, divertida, passou a ser o trampolim preferido de suicidas. O shopping center não vendeu o esperado e a loja âncora fechou. As imensas torres no entorno das praças também não venderam o esperado mesmo tendo apartamentos para os mais diversos orçamentos familiares, dos ricos para valer aos assalariados, um projeto com ideias "socialistas" para assim dizer. A monumental ideia genial de um novo bairro concentrado saiu pela culatra e passou a ser um problemão da cidade de NY, não mais só dos empreendedores. 
Uma coisa é inteligência de intelectual ou artista, outra é a realidade. Há um abismo aí. Não estou dizendo que intelectuais e artistas sejam dispensáveis, mas que em certos momentos precisam ser realistas. Aí deveria entrar a mediação do poder público, o que aqui no Brasil raramente acontece, quando acontece.

Brooklin preservado
O longo projeto de recuperação de NY, que foi uma das mais violentas capitais do mundo, vem trazendo bons resultados e alguns novos problemas. Com a diminuição da violência, da poluição, dos problemas sociais trouxeram trabalho e riqueza, junto veio uma troca do perfil de população. Há uma gritaria no Harlem com a mudança de perfil do bairro que empurra famílias tradicionais da área para longe. O ideal é que as melhorias não descaracterizem a área, como parece que está sendo feito no Brooklin. 
Sei como é uma mudança maluca porque moro no baixo Pinheiros, em São Paulo, onde está acontecendo a mesma coisa. Quando fui para lá minha rua era de pequenas casas, famílias de renda média, das velhas fofoqueiras e cheio de crianças brincando. Pipocam edifícios imensos, descomunais, de todos tipos. Em lugar dos tradicionais moradores, classe média baixa, hoje temos pequenos comércios. Só em 300 metros da minha rua antes de pandemia estavam instalados 19 restaurantes, a maioria faliu, a bem da verdade iriam falir de qualquer forma, a pandemia só acelerou o processo. O que era um bairro cheio de vida hoje a noite é morto, com muito dinheiro circulando e morto.

Não faço ideia de como ficará o negócio do turismo depois da pandemia, melhor dizendo, daqui para frente. A pandemia escancarou um planeta cheio de pragas que ninguém sabe para onde está indo, ou sabe e é melhor não pensar. 
O que todos tem certeza é que se precisa corrigir as mazelas das cidades. Todas cidades do planeta que cumpriram o dever de casa tem uma qualidade de vida descente. Não sei por que, mas aqui a cada dia se aprofunda mais o "último que sair apaga a luz". Do jeito que vai o último nem apagar a luz vai.

Uma lição tirada na Itália do E-saúde: se quisermos isto aqui, Brasil, funciona bem

Uma das razões para todos quererem vivenciar Itália é sua culinária, simples, sadia, maravilhosa. Mesmo antes de sair do Brasil já foi dito que para entrar em qualquer restaurante seria necessário apresentar o Green Pass (válido até 04 de maio), documento europeu em QR code que comprova a vacinação. Já no primeiro jantar em Gênova fomos impedidos de entrar no restaurante do hotel, o mesmo onde todos dias servem o café da manhã para todos hóspedes. Depois de um fuzuê, de longa discussão, de até mostrar um documento oficial europeu que nos foi dito que substituía o Green Pass conseguimos autorização para sentar e jantar. Outros passageiros do navio passaram pelo mesmo baile.
"Itália, linda Itália! O paese piu bello del mondo, mas que burocracia!" PQP! Tuti párlano, ninguém se entende! Foram três dias, cinco locais oficiais de vacinação, 4 folhas A4 fotografadas com informação das autoridades do Governo Italiano ditas precisas, pelo menos uns 10 agentes de saúde tentando ajudar. Nunca conseguimos uma informação correta, definitiva, sobre como transformar o nosso Passaporte da Vacina no Green Pass. Do caro Renato, paulistano do Tatuapé, passaporte italiano, veio a dica: "Entra no restaurante, senta, e quero ver os caras tirarem vocês de lá". Dito e feito.
O aplicativo E-Saúde que foi criado neste governo de São Paulo funciona maravilhosamente e fez os italianos ficarem pasmos com a qualidade e eficiência. Outro detalhe: Descobrimos que os outros estados do Brasil não têm nada semelhante. Que seja.
Já em Turim veio a solução do problema. No órgão de turismo as duas meninas nos deram a lei impressa onde se lê: não é preciso ter o Green Pass. Basta comprovar que tomou as doses que tem que ser as aceitas na Itália. A Coronavac aqui não foi aplicada, já na Espanha foi e é válida. Enfim, uma baderna. A única coisa sensata que ouvimos foi que é preciso unificar tudo (referente a vacinação).




sexta-feira, 20 de maio de 2022

Um bom usuário da bicicleta

Wagner mandou um Whatsapp pedindo para eu dar uma revisada na sua bicicleta. Faz tempo, não sei mais quanto, a com a pandemia perdi a noção de tempo, orientei a compra da bicicleta e fiz uma regulagem fina depois que a tirou da loja. Modelo básico, 21 marchas, aro 26, suspensão simples, sem segredos. Na primeira sexta-feira marcada para a revisão Wagner não veio por conta da chuva; apareceu ontem. Mesmo de longe pude ver que a bicicleta está inteira, bem cuidada. Cumprimentei ele enquanto ainda estava com o capacete laranja que combinava com o blusão vistoso. Entrou em casa, tirou o blusão quente, e quando foi pendurar vi que era da monitoria das Olimpíadas no Rio que ele fez. Tive uma discreta inveja.
Enquanto olhava feliz e admirado a excelente condição da MTB urbana básica, Wagner foi contando o que aconteceu com a bicicleta nestes sete meses que está pedalando. Nada demais: calibrou o pneu praticamente todos dias que saía, teve dois furos no pneu traseiro e um no dianteiro, e uma única reclamação: a corrente não está descendo com facilidade da coroa do meio para a pequena.

Mãos a obra.

Fiz a centragem fina das duas rodas por puro capricho; tinham com uma diferença mínima, muito bom sinal. Lubrifiquei e sequei a corrente explicando como fazer e deixando claro que não precisaria repetir a lubrificação por um bom tempo. Chequei como estavam os apertos de todos os parafusos e todos normais, bem apertados. Não precisou de mais nada. 
- Meu senhor, sua filha está ótima. 
- A menina se chama Marilia Pera. 
- Belo nome, está ótima, parabéns.
- Obrigado. 
- É possível ver como o ciclista pedala pelo estado da bicicleta. Principalmente os aros denunciam como pelada o ciclista. Estes pedais são ruins, nacionais, de um plástico frágil que quebra com facilidade. Se você pedalasse pesado, descendo guia na porrada, dando trancos no pedal, despreocupado com buracos, provavelmente já teriam quebrado. A bem da verdade é um espanto terem durado todos estes 7 meses. Você está de parabéns, é um ótimo ciclista; disse eu com toda sinceridade.
 
Marilia Pera, a bicicleta, é básica, com aros folha simples e V brake. É fácil saber se o ciclista freia bruscamente ou usa muito os freios, um erro para qualquer ciclista. "Ciclismo é a arte da suavidade". Os aros da bicicleta de Wagner estão muito pouco arranhados, mesmo ele tendo rodado bem. Fiz um cálculo muito por cima e ele rodou algo em torno de 100 km / semana, ou mais, o que em 7 meses dá uns 2.800 km, nada mal. Os aros estão ótimos. A bicicleta impecável.

Hoje não mais, mas num passado não muito distante eu ficava possuído quando via uma bicicleta maltratada, e é o que mais tem por aí. Não estou falando de ciclista que toda vez que chega em casa passa um paninho, de certa forma também um erro, mas daqueles que não tem a mais remota preocupação em cuidar do que tem, seja a bicicleta ou o que quer que for. Tudo esculhambado, dane-se. Eu não aguento. 
A bicicleta pode estar suja, o que é até bom por afastar ladrões, mas a parte mecânica tem que estar impecável.

"Wagner, meus parabéns! Não pelo estado da bicicleta, mas porque olhando para ela sei que você é um ciclista seguro no trânsito. Do jeito que você pedala, e está escrito na bicicleta, a possibilidade de você sofrer um acidente é muito baixa, quase zero. Parabéns!"

E hoje fui consertar a bicicleta de uma amiga que gosto muito. Posso chorar? É a terceira vez que ela arranca a gancheira do câmbio. "Não fiz nada!" As pastilhas do freio a disco terminaram em 3 meses. "Não fiz nada!" Conversa vai, conversa vem descobri o erro. "Não fiz nada! Só pedalei sem óculos". É provável que nem perceba os erros que faz. Não adianta explicar. Posso chorar? Que seja! Agora, neste momento, ou pelo menos no momento que deixei a bicicleta ela estava funcionando. Bom... até a próxima. Ai! Ai! Ai! como é mesmo o cântico zen para acalmar? aum........aum........aum.......aummmmmmmmm............. 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

13 de maio... e o desperdício

A luta contra o racismo como estará? Creio que nunca o tema esteve tão no ar. A questão é como frear o pessoal que tem solidificado na cabeça conceitos não só sobre raças. A história da humanidade se repete em ciclos e faço votos que este ciclo que vivemos nos leve um passo à frente. Esperança é a última que morre. 
Hoje temos ferramentas de informação e de coleta de dados que nunca tivemos até então, e com isto temos um milagre, um santo remédio que nunca falha: a dor no bolso. Quem não entender isto não é cabeça dura, é estúpido.

Colocando a vida em termos práticos e usando princípios capitalistas ou liberais, também historicamente usados pelos comunistas, ou seja, somos todos humanos:
"Não desperdice as oportunidades que a vida lhe dá".
"Você vai colher muito mais frutos, mais saborosos e variados, numa floresta que no pomar de casa".
"O segredo do rápido desenvolvimento da China e Índia está no fato que em 1 bilhões de habitantes é muito mais fácil e provável encontrar mentes brilhantes". 
"Para ser competitivo é crucial usar toda a potencialidade disponível".

Em termos práticos o Brasil é brilhante em desperdiçar seus próprios potenciais. Imaginar que em bem menos de 5% da população, a dita elite educada e competente, se encontre mais inteligências acima da média que em mais de 50% da população é querer brigar contra a lei das probabilidades.
Brasil é um dos países com corporativismo mais arraigado, um dos maiores empecilhos para o nosso desenvolvimento. E é justamente este corporativismo, melhor, os inúmeros corporativismos deste país que simplesmente não conseguem olhar o próprio umbigo para ver que discriminar, portanto desprezar potenciais, é um tiro de 12 no pé. Não falo só sobre discriminação racial.    

Baseado em fatos reais. 
Ele entrou como office boy numa importante farmácia. Dentre outros trabalhos tinha que levar documentos jurídicos e entregá-los pessoalmente. Enquanto esperava lia os documentos, lia tudo que tinha à mão. Passado um tempo descobriram que ele tinha mais conhecimento jurídico que o advogado então responsável. Num determinado momento o proprietário da empresa, que crescia a olhos vistos, decidiu colocar o ex office boy como advogado e como este não tinha OAB foi montado um corpo de advogados para assinar por ele. Funcionou melhor que antes. 
O office boy / pseudo advogado negro foi invisível, assim como são inúmeros cidadãos brasileiros. Dá para desperdiçar gente assim? 

Não gosto porque não gosto e ponto final
- Por que você não experimenta o sorvete de chocolate? pergunta a mãe
- Eu só gosto de sorvete de morango.
- E de manga que você gosta.
- Eu só gosto de sorvete de morango.
- Tem sorvete de creme que é feito de leite que você adora.
- Eu só gosto de sorvete de morango....
Como se remove uma ideia fixa de criança? E de um adulto? E de uma pessoa culta e educada?

Ok, Você pode gostar de quem quiser, do que quiser, mas algumas pessoas são indispensáveis porque estão fora da curva, como se diz. Desperdiça-las é mais que estúpido, é o caminho mais curto para a pobreza, tua, nossa, vossa, de todos. 

"Existem empresas que trabalham com produtos difíceis de vender em países pobres e que mesmo assim dão dinheiro e existem empresas que trabalham com produtos fáceis de vender que em países ricos e vão a falência. A diferença está na forma de administrar".
Se não consegue entender a questão racial de forma racional, pelo menos entenda pelo lado prático. O mínimo que que qualquer ser humano quer é ir para frente e não se vai para frente remando para trás. Ninguém é obrigado a gostar, mas é muito mais vantajoso para todos, principalmente para indivíduos, ter um convívio civilizado, ou minimamente prático.

Procurei uma lista de nomes de personalidades negras que foram importantes para nossa história e dei com esta que está ai em baixo. Gostaria de saber quem escolheu os nomes, mas bato uma aposta que foi um jovem com tudo mais que a juventude traz consigo. Nana Vasconcelos não aparece, mas tem Emicida, boa pista. Jorge Amado, Dorival Caymmi, Emmanuel Araújo..?
Num país que sequer sabemos dizer uma lista das personalidades que estão fazendo diferença agora, o que sobre os fizeram diferença na história? Vai lá, recita uma lista de 10 nomes de personalidades brancos que estão fazendo diferença agora, neste momento. Vai aparecer políticos, jogadores, cantores, juízes, mas duvido que se lembre de nomes de cientistas. Qual é o nome da brasileira que está ajudando nas investigações do buraco negro? Pensou besteira? Falo sobre astronomia, não sobre besteira. Então, algum nome de brasileiro que está fazendo diferença no Brasil e no mundo?

Zumbi dos Palmares (1655-1695) 
Machado de Assis (1839-1908)
Milton Santos (1926-2001)
Carolina Maria de Jesus (1914-1977)
Pixinguinha (1897-1973)
Aleijadinho (1738-1814)
Grande Otelo (1915-1993)
Maria Firmino dos Reis (1825-1917)
Bezerra da Silva
Nilo Peçanha
André Rebouças
João da Cruz e Souza
Mãe Minininha do Gantois
Elza Soares
Gilberto Gil
Conceição Evaristo
Djamila Ribeiro
Benedita da Silva
Sueli Carneiro
Elisa Lucinda
Abdias Nascimento
Leci Brandão
Emicida
Milton Nascimento
Marina Silva
Glória Maria

Antes da notícia que se segue no YouTube pergunto: Quem é Mixirica?
   

Pela primeira vez na história um africano, Biniam Girmay, da Eritréia, venceu uma etapa do Giro D'Atália, a 11ª. Domingo, na 10ª etapa, Biniam fez uma corrida impressionante até errar uma curva em descida e tomar um belíssimo capote. Vinha na ponta junto com um ciclista experiente e impressionava a facilidade como o acompanhava. Ficou claro que força tem, e muita. A forma como errou também deixou claro que não tem experiência ou não gosta de despencar. Os dois começaram descendo a mais 90 km\h. Chuto que ele não é muito chegado em descidas, fritou os freios e por isto passou reto.  Clássico.
Creio que seja a primeira vez na história que um negro vence uma etapa de qualquer destas principais provas de ciclismo. Abriram a porteira. Bem vinda força africana, boas futuras vitórias, que virão virão, isto é líquido e certo.  



terça-feira, 17 de maio de 2022

Alguém se importa que a eleição está definida?

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Ouso responder a todos que perguntam aos colunistas deste jornal e da Rádio Eldorado qual será o futuro deste país depois das eleições. Mesmo com gravíssimos problemas que nos afetam no dia a dia, empobrecem este país e a nós mesmos, não nos mexemos para mudar a situação. Pouco ou nada mudou nestas últimas décadas, nem mesmo nas situações mais escabrosas, vergonhosas, muito prejudiciais para todos nós, porque mudará com esta eleição? Quem disser o contrário está negando o comodismo atávico de nós, brasileiros. Drama social ou resgate moral são grandes discursos, corretos até, mas discursos não constroem, na prática pouco ou nada valem. Quem realmente se interessa corre atrás, faz acontecer, olha com algum respeito seus problemas. Nós não corremos atrás e não fazemos acontecer, não nos interessamos. O futuro do Brasil nas próximas eleições está definido por que somos nós os que vamos votar nestas próximas eleições e nós não nos interessamos.
Nestas últimas décadas de descalabros o máximo que se conseguiu foi reunir meia dúzia de gatos pingados, se comparado ao tamanho da população e seu drama real, em ditas grandes manifestações que no final das contas resultaram só em alento. Convenhamos, sejamos honestos, alguém se interessa pelo Brasil? A pergunta não é sobre seu próprio Brasil, individualista, egocêntrico, mas o real, o país onde vivemos. Quando vamos parar e discutir o futuro como adultos, não como crianças que brigam "foi ele!", "não, foi ele!", molecagem irritante e absolutamente infrutífera. Há muito que acertar, trabalhar, organizar, e sobre tudo mostrar dignidade.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Domingo de merda

Quem aí sabe o que é uma festa de criança? "Criança cansa"! Panqueca, cachorro-quente, pizzinha mole, pipoca, refrigerante, cerveja, gritaria, parabéns a você, bolo, brigadeiro, fica mais um pouco.... "Posso pular pela janela?" Pois bem, no sábado tive que ir a uma e saí de lá sonhando era no domingo ter um pouco de paz, ficar quieto, não ver ninguém, sair para pedalar um pouco e comer a comida mais sadia e leve possível. "Pelo amor de Deus, pensar em comida agora não!" 

Acordei cedo no domingo, olhei pela janela e vi que um dia lindo. Tomei o café da manhã vendo O mágico de Oz original enquanto esperava o começo do Globo Rural. Em minha santa inocência nunca tinha reparado que o leão é completamente gay.  E tocou o celular. Vejo TM, olho para o relógio e acho estranho. "Tão cedo?"
- Bom dia
- Acordei e olha o aconteceu, e saiu caminhando com o vídeo aberto. Minha ansiedade começou a subir. Quando a imagem parou vi uma bagunça que não entendi. - A estante (da cozinha) caiu a noite e eu não ouvi. Quebrou tudo.
- Ai!, ai!, foi todo o mel? 
- Foi tudo.
- Espera que vou para aí e te ajudo a dar ordem. Desliguei o celular e imediatamente passou o filme: "puta merda! Acabou meu domingo!"
Terminei rapidamente o café da manhã, fiz a barba, escovei os dentes e deixei minha casa sem olhar para trás com cara de quarto de adolescente revoltado porque foi acordado cedo depois de uma madrugada de rede social. Peguei a bicicleta, fui pelo caminho longo. Boa notícia, mesmo pedalando um pouco mais pesado foi a primeira vez que não senti o cansaço impiedoso que o pós Covid provoca. Horroroso, dolorido, completamente diferente de um cansaço sadio. Qualquer esforço um pouco além do normal e do nada, sem nenhum sinal prévio, como se você sem querer tivesse batido num interruptor, o corpo desliga seguido de uma dor macabra, sim, macabra. Estive com João uns dias antes e ele disse que está sentido igual, o mesmo João que antes da pandemia foi para Salvador pedalando. 
Suado entro no apartamento. Olho o desastre. "Ai! meu mel. PQP, foi também o mel da terra (muito raro e caro)". Mãos a obra. Deu trabalho e depois de umas duas horas o chão e tudo mais estava limpo, até os menores cacos que queriam continuar escondidos foram recolhidos. Caixa de papelão cheia, fechada num saco de lixo, aviso colado: Cuidado! Vidro, desastre levado para lixeira no térreo. Sem um corte na mão. Alegria!
- Espaguete alho e óleo?
- Opa! Cervejinha e depois soneca.
Ainda meio torto da soneca toca o celular. Pego de má vontade, olho a tela, Bel. "Bel? O que será desta vez?" Atendo e antes de entrar o vídeo ouço o pranto. Imagem a postos, palavras a mil, não entendo metade, meio rolo de papel higiênico limpando a chuva de lágrimas e melecas, muitas melecas.  
- O que houve? Mas antes dá para parar de tirar meleca ao vivo?
- Quando eu choro não para de sair meleca... E toca contar as novas, as velhas, as raivas... e eu ouvindo uma, duas horas. Enquanto tentava acalmar, ou, tentava acalma-la para desligar e me mandar para meu domingo sonhado... pensei, ora pensei, que Deus me perdoe, pensei "tenho que ser bonzinho", mas Deus que me perdoe pensei  "Puta que o pariu! acabou o domingo!". 
Uma, duas horas depois, terminada a conversa, conversa?, abri a porta e saí correndo. Atordoado, pego a bicicleta e... e... e... a porra da portaria eletrônica não lê minha digital. Portão aberto, bunda no selim, olho para o céu, final de tarde de outono. Lindo. "A pá puta que os pariu todos, inclusive eu, vou pedalar até a puta que o pariu. Foda-se! Sei lá o que tenho que fazer amanhã? A puta que o pariu o amanhã. Foda-se!" e disparo sem saber onde ir, nem tinha cabeça para tanto, as duas horas pela manhã, mais as duas horas à tarde, mais minha vontade de peidar alho, tudo junto na cabeça rodando como nuvem, e para ajudar passo rua França e sou cercado por carros manobrando para tudo quanto é canto. A barrulheira e gritaria não nega: festa de criança. "Pelo amor de Deus, deixa sair correndo daqui'. Para onde vou? Fui.






















Feliz. 
E cansado.
Paro, tomo um açaí. Ainda tenho fome. Paro de novo um pouco mais a frente e peço um hambúrguer de frango. Sento fora, começo a comer. Bom, feito na hora, crocante, "Vai cair bem". Sentados na mesa vizinha dois funcionários em hora de descanso conversam. 
- Não acreditei quando vi você lá dentro (da hamburgueria) travada (bêbada).
- Cheguei direto da balada. Amigo, você nem viu quando fui pro banheiro e despejei (vomito). 
- Não, acho que os outros também não.
- Amigo, não consegui no banheiro, então despejei no matinho (o jardim da hamburgueria, mas fiquei na dúvida, qual deles, o da esquerda ou direita?).
"O que eu faço? Caio na gargalhada ou despejo meu hambúrguer no colo desta idiota?"

Home, sweet home.
e gran finale, Lua de sangue. Amanhã as bruxas nos salvarão.  

sábado, 14 de maio de 2022

barulhos e ruídos da cidade

Nós, brasileiros, somos barulhentos. A maioria gosta de som alto, ou está acostumado e não reclama. Não precisa ir a uma festa, show, carnaval, basta ir a padaria da esquina ou qualquer restaurante que o volume do som é alto, até pelo vozerio do povo; fica muito difícil conversar. 
 
Nestes tempos difíceis precisa pensar na parte financeira. Não é recomendável colocar em risco um importante equipamento urbano em nome do silêncio absoluto que no final de contas é o que quer boa parte dos moradores em volta do estádio do Palmeiras. Eles têm razão? Devem ter, também quero. Provavelmente o barulho deve ser infernal, mas há formas e formas de resolver - sempre. 
Um estádio multiuso como o Allianz é importantíssimo para a economia até de uma cidade rica como São Paulo. Acontecer o que aconteceu com o Estádio do Pacaembu que foi calado pelos moradores do bairro é burrice e ou irresponsabilidade sem tamanho. Simples, em nome do bairro um grupo de moradores inviabilizaram o estádio, o mais tradicional da cidade, e com isto só não decretaram sua falência porque nosso dinheiro público quem pagava as contas.

Um ouvinte da Rádio Eldorado sugeriu que se levasse o estádio para longe, dando como exemplo o Estádio do Corinthians em Itaquera. Ele esqueceu de perguntar aos moradores do entorno do Corinthians o que eles acham do mesmo barulho e da mesma bagunça inerente a qualquer jogo de futebol ou show. Depois esqueceram de pensar o que fazer com a enorme construção do Allianz sem promover shows. Provavelmente também não pensaram no que deve acontecer com os bairros do entorno e a cidade caso o grande e moderno estádio multiuso seja calado. Vão surgir outros problemas, provavelmente mais complicados de resolver. A falta de dinheiro é amiga do caos, disto ninguém duvida.
Os mesmos moradores no entorno do estádio que reclamam deveriam se levantar contra os pancadões que acontecem na periferia e que afetam profundamente a vida e saúde dos servidores, trabalhadores, operários, funcionários, que trabalham no entorno do mesmo estádio, possivelmente dentro de suas próprias casas, dos vizinhos, parentes e amigos.
 
Allianz parece estar disposto a instalar janelas antirruído na casa ou apartamentos dos incomodados. Sem dúvida resolve, mas de minha parte gostaria que também fossem aplicadas as leis vigentes. No caso que estas não apresentarem soluções convincentes que se lute por melhores, mais adequadas e próprias para os dias de hoje. Por sinal, já cortaram das leis municipais a lei que dita a forma correta de amarrar burros em vias públicas? Parece piada, mas não é; não faz muito ela estava válida. 

Dá o que pensar como seria resolvida uma situação destas nos Estados Unidos e Europa. Simplesmente não aconteceria porque o problema seria estudado e resolvido antes da construção e ou da habilitação da obra. Por outro lado, por uma questão de educação e cultura, duvido que o público de lá que vai a um show aceite som tão alto. O som aqui não é alto, é distorcido, uma aberração. É um crime não só com quem está em volta da barulheira, mas para quem pagou para assistir o show. Estava no último Paul McCartney no mesmo Allianz Parque e o som estava acima do limite, coisa para quem não entende de música, só quer berrar.

No Brasil tudo se resolve no berro. Nossas praias que o digam. Vi uma reportagem que uma cidade proibiu som alto na praia e o povo ficou revoltado. Enfim, "olha a pamonha, olha pamonha quentinha, são as pamonhas de Piracicaba..." 


Eu moro a um pouco mais de uns 400 metros do SESC Pinheiros. Não estou sequer em linha reta. Tem que dobrar esquina e há um monte de casas entre o SESC e minha casa, além de tudo é terreno de fundo. Mesmo assim quando o SESC faz shows na área externa, de frente para a rua, ouço perfeitamente como se estivesse tocando alto o rádio da minha sala. O que eu faço com isto? Brigo até proibir o barulho e com isto dou um tiro na cultura deste país que já é paupérrima? Luto para fechar o SESC?

Para terminar, no começo dos anos 80 aconteceu uma corrida de kart na Praça Charles Muller, praça que dá acesso ao Estádio do Pacaembu, com grande público, talvez o maior da historia do kartismo até então. Foi o primeiro passo para a volta de Emerson Fittipaldi às competições de alto nível e sua ida para a Fórmula Indy, onde seria Campeão como foi na F1. A confusão com os moradores do Pacaembu fez com que um evento destes nunca mais se repetisse lá. Parece um exemplo que não tem nada a ver, mas vamos lá explicar. O que representou aquela corrida? Quanto será o valor agregado das corridas de rua da Fórmula E para as cidades que acolhem a categoria? Qual a importância das corridas de rua que aconteceram no Brasil antes dos autódromos? Quanto foi e continua sendo o valor agregado do brasileiro Emerson Fittipaldi para a economia do Brasil? Qual é o valor agregado do Réveillon na Paulista para São Paulo? Do carnaval de Salvador? E aí vamos.

Sim, barulho é um saco, eu não gosto. Depois do pedalar em silêncio numa bicicleta gosto menos ainda. Como sempre falo em comer pelas bordas digo que começaria a redução de poluição sonora desta cidade pelos malditos canos de escapamento, principalmente das motos. Depois pelos bares... Silêncio é saúde, silêncio é lei, mas o silêncio só vem quanto as partes abaixam a voz e conversam feito gente.