quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ana Maria Hoffmann, dispensada

Ana Maria Hoffmann, de casaco marrom, numa reunião do Projeto GEF Banco Mundial, 2005
Ontem me comunicaram que Ana Maria Hoffmann foi dispensada da SVMA de São Paulo. Acompanho seu trabalho desde a época do Projeto Ciclista, isto lá pela metade da década de 90 e afirmo que Ana foi essencial para chegarmos onde estamos hoje. Não, Ana não faz parte do pelotão de frente. Ana é aquele tipo que trabalha nos bastidores e que quando faltam fica um vazio difícil e até mesmo impossível de ser superado. Ana Maria Hoffmann foi uma espécie de secretária de toda a questão pública relativa à bicicleta. Ana organizou todos trabalhos e projetos apresentados, realizados ou importantes para o Município de São Paulo, o que não é pouco. Até pouco, quando estive no meio do furacão, Ana esteve presente em praticamente toda reunião, evento, ou acontecimento, de onde tirava e organizava o que era mais relevante. É um trabalho de inteligência, uma destas inteligências que não tem preço, que facilita a vida de todos, principalmente na e da coisa pública.
Uma das primeiras dicas que tive quando comecei a trabalhar foi: "Quer chegar a essência, ao que importa, ao que vai dar resultado? Veja o que pode tirar da secretária." Dica de ouro. Chefes muitas vezes sequer sabem qual é o horário no dentista, por mais latejante que esteja o dente. 
São Paulo perde muito com a saída de Ana Maria Hoffmann da Secretaria do Verde. Perde a população e a administração pública. A questão da bicicleta perde mais ainda. Perde para valer. Perdemos uma interlocutora preciosa que trabalhou para o bem de todos, não só ciclistas. Triste, muito triste.

Se quisermos transformar este país, fazer disto aqui um lugar mais justo, digno e prazeroso, precisamos respeitar quem tem história, quem construiu e contribuiu com um trabalho honesto. Descartamos inteligências, conhecimentos e sabedorias como se descarta saco de salgadinhos. Ou mudamos isto imediatamente ou não temos qualquer futuro; disto não tenham dúvida.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Brasil periferia: um passeio divertido - se não fosse trágico

Estou ligado na tomada 220. Foi um dia atípico, dos que quero viver com mais "freequência" (free + frequência; errei, mas gostei) daqui para frente. Preciso mudar, estou mudando aos trancos e barrancos. Não aguento mais o que está ai no dia a dia e saí pedalando, venci meus medos e fui buscar umas linguetas de trava de janela que só são encontradas numa empresa no Campo Limpo, rua Prof. Oscar Campiglia 92, onde Judas perdeu as bostas. 
De Metro ou bicicleta? De Metro iria seguro e estaria a uns 1.500 de lá. De bicicleta estava com medo de pedalar na ciclovia do Pinheiros entre a Ponte Cidade Jardim e a João Dias, onde contam um montão de histórias sobre assaltos. Da ponte João Dias são mais uns 4 ou 5 km num trânsito que me lembro chato e perigoso. Vamos lá! coragem! bicicleta!
A ciclovia do Pinheiros é linda, principalmente no trecho sul, rumo à represa. Entrei nela e demorei para relaxar. Precisei cruzar uns tantos ciclistas com cara tranquila para que deixasse de ficar buscando vultos no meio das folhagens. Neurose? Exagero? Pode ser. Deve ser. Somos uma sociedade treinada para sentir medo. Falta de segurança é um dos negócios mais rentáveis deste país, mais de R$ 200 bi/ano. Todo mundo acha normal; porque também não posso me sentir inseguro?
Sai da ciclovia e cai no trânsito da João Dias e depois Estrada de Itapecerica. Para meu espanto muito mais tranquilo que imaginava. E continuei tranquilo. Um bom trecho numa ciclofaixa à esquerda da avenida Carlos Caldeira Filho, diga-se de passagem, suja, claramente pouco usada e beirando um córrego em estado vergonhoso. Dobrei na Estrada do Campo Limpo, sobe, desce e cheguei onde queria, feliz, topo de morro, vista para Taboão e edifícios do Morumbi. Bela vista. 
A volta? Bem, porque não voltar pelo meio de Campo Limpo e Eliseu de Almeida? "Não é tão longe" disse e vi um sorriso maldoso de um motorista que ali estava.
Entrei na Estrada do Campo Limpo e fui para a aventura pelo meio do bairro. É óbvio que cheguei distraído num cruzamento e segui a esquerda, quando deveria ter virado a direita. Nem percebi. Pedala, pedala, pedala, e uma hora decidi perguntar. (Já sei: deveria ter aberto o celular e olhado o mapa, mas confesso que estava me divertindo perdido, ou meio perdido). O sujeito a quem fiz a pergunta assustou quando disse que ia para Pinheiros pedalando, e apontou, "Sobe aquela rua que você vai dar na (rodovia) Regis (Bittencourt)". Ops. Vamos lá. E cai na Regis uns 3 ou 4 km para lá de Taboão. 
A volta foi divertida, me sentindo livre por estar pedalando numa rodovia. Medo de pedalar em rodovia? Medo dos carros? Nada! Que vontade de tomar o sentido contrário e ir para Curitiba, sumir. Uns quilômetros a frente o centro de Taboão, a esquerda para a Eliseu de Almeida, e ainda cheguei a tempo de receber o pessoal para o almoço. Feliz, muito feliz, e triste ao mesmo tempo.
Feliz porque sai do meu mundinho de "zelite" e fui pedalar num outro Brasil, no Brasil geral, o Brasil de todos. Triste.
Conheço boa parte de São Paulo e alguma coisa da região metropolitana. Não conhecia o lugar onde pedalei, a divisa entre Campo Limpo e Taboão. Infeliz urbanização pobre, sujeira e algum entulho nas ruas, casas e negócios feios e ou mal conservados, calçadas ruins, pouco arborizado, zero paisagismo, lugar comum nas cidades brasileiras, principalmente nas periferias. O futuro de paz e justiça social passa obrigatoriamente por cidades civilizadas. Brasil é uma grande periferia; que futuro temos? Como mudar isto? Como vender a ideia para aquele povo que a cidade pode ser infinitamente melhor, muito mais civilizado? Que parâmetros eles tem para saber o que é civilizado, o que deve ser uma cidade, um bairro, uma vida coletiva, e quais reflexos disto sobre a segurança e equilíbrio social?  

Olhe para as tomadas de sua casa. São as antigas usadas por mais de 30 países ou são as novas, as tomadas do PT. Pois bem, ai é que abaixaram as calças de toda a população brasileira, eu, tu, ele, nós, vós, eles, e viram que mesmo numa situação tão absurda como a introdução obrigatória de modelos de tomadas unicamente brasileiros ninguém falou nada. Não perguntaram o porque, não pediram pesquisas que justificaram, não se importaram com a indústria nacional, não fizeram nada. Silêncio total e absoluto. E enfiaram as tomadas do Lula e PT na bunda de todos. Hoje temos uma tomada exclusivamente brasileira, que orgulho!
É difícil, vide o número de manifestantes que saíram às ruas contra o foro privilegiado e o voto em lista fechada, dentre outras barbaridades que podem afundar o Brasil de vez. Com certeza não há interesse da população em construir um Brasil melhor. "Não vai fazer diferença" ouve-se de bocas de todos níveis sociais e culturais. UAU!
Com as tomadas do PT fizeram um teste de mercado e deu neste Brasil que temos ai. Parabéns a todos!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Fechamento do MuBI: Brasil, um país sem memória

Fazia muito tempo que não sentia dor no peito, aquela dor profunda, imensa, dor de tristeza, dor de desalento. Ontem senti, hoje um pouco menos, amanha passa, diriam meus amigos. Nossa memória é curta, principalmente de quem é brasileiro.
Sexta-feira passada recebi a notícia que o MuBI, Museu da Bicicleta de Joinville, fechou as portas definitivamente. Valter Busto, o responsável pelo MuBI, foi avisado num dia para retirar a coleção praticamente no outro. Não sei exatamente o que aconteceu, qual a razão. Faz uns anos o museu também foi fechado depois de uma besteira tipicamente tupiniquim e depois de uma longa briga voltou a abrir. Desta vez acabou. Não interessa a cultura, não interessa o relativo sucesso do MuBI nestes 17 anos de existência, não interessa a preservação do passado, enfim não interessa e ponto.

O desrespeito com sua história é uma das marcas registradas deste Brasil brasileiro. A despreocupação com os museus pode ser medida na baderna e quase falência que atingiu o MASP, Museu de Arte de São Paulo, não faz muito tempo. Se o mais divulgado e famoso museu da cidade mais rica do país, 17% do PIB nacional, passou pelo que passou imagine o resto dos museus ou entidades de preservação da memória nacional vivem. Vide a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro só como mais um exemplo de tão vergonhoso é nojento. Nossas igrejas, palácios, fazendas, cidades históricas...
Conheci Joinville ainda quando tinha cara de Joinville. Era uma poesia. Hoje é uma cidade brasileira qualquer com uns resquícios da Joinville verdadeira. Quando começou a modernização (???), com a derrubada de antigas casinhas ou deformação de fachadas, dei uma entrevista numa rádio de lá e falei sobre a importância de preservação da linda e rica história da cidade e seus cidadãos. Não demorou muito a rádio começou a receber telefonemas, muitos deles ameaçadores. Neste contexto fechar um museu não significa nada, mesmo que Joinville tenha orgulho de ter sido a "cidade das bicicletas" com seus congestionamentos de bicicletas na saída da Fundição Tupi e ciclistas, homens e mulheres, pedalando por toda parte.

Na mesma sexta-feira estive em Piedade, interior de São Paulo, próximo a Sorocaba, para conversar com a escola de minhas sobrinhas netas. Quero ajudar na educação delas e achei que poderia oferecendo palestras ou conversas sobre o que está sendo feito com as cidades mundo afora. O coordenador da escola, Miro, inteligente, vivenciado em educação e viajado, colocou com sabedoria que mostrar outras realidades para aqueles pais de alunos "poderia" ser contraproducente. Talvez até ofensivo, entendi eu. Não duvido. Não se deve falar mal da cidade onde vivem - que é a melhor cidade do mundo, devem pensar. Já ouvi esta história muitas vezes, mas imaginei, melhor dizendo, sonhei que tinha mudado.
Brasileiro não aceita sequer comparações desfavoráveis, o que dizer de críticas. As cidades brasileiras são um desastre. Tirando raríssimas exceções, não tem personalidade, não tem história. Foram todas desintegradas em nome de um moderno, de um futuro, de um progresso pobre, mesquinho, sem sentido. 
Vários estudos apontam que a preservação da história de um povo é um dos melhores caminhos para a estabilidade social e que a memória é o caminho para o progresso sustentável. Aprendemos com erros e acertos. Mas quem de nós brasileiros se interessa?
Como brasileiros continuamos sendo usurpadores de uma terra. História? O que é isto? Para que serve? Principalmente, para quem serve?

Valter no MuBI
O fechamento do MuBI ironicamente acontece no meio do fervilhar do renascimento da bicicleta no Brasil. Quem se importa?
Querendo ajudar: Valter F. Bustos - val.bustos@hotmail.com 
Coordenador da EMem/MuBi, Vice-Presidente da ABAJO e Bike Jornalista
em Joinville/SC.


E agora ouvi na Rádio Eldorado na Crônica da Cidade com Antonio Penteado Mendonça: “Mundo brasileiro é dos malandros ou dos espertos”. Alguém tem coragem de negar? Quem se importa?













segunda-feira, 20 de março de 2017

Chove ou não chove?

De um tempo para a vida: pare, fique em silêncio e olhe em volta.

Aprendi a olhar. Olhar a paisagem, o céu, sentir o ar e por causa da bicicleta saber se vai chover e em quanto tempo. Quarenta anos de prática e o simples ato do prazer de viver e sentir a vida ao redor. Tornou-se difícil que eu seja pego de surpresa e tome uma chuva inesperada. Vou pedalando e olhando tudo, não só o caminho, os buracos, os carros em volta, vou vivendo a rua, vivendo a bicicleta, vivendo.
Sempre tive muita inveja de pessoas que tem um dom especial para ver e entender a natureza, a vida. Em 1975 estava num navio cargueiro indo para os Estados Unidos e na altura de Pernambuco vi jangadas a 54 milhas náuticas da costa - sim, 100 km! A tripulação disse que não comum encontrar jangadeiros tão distante da costa. Nada de bússola ou qualquer outro instrumento de navegação, tudo no olhar, no sentir, viver o mar, o céu e as estrelas.
Ouvi várias histórias mágicas e reais sobre jagadeiros, pescadores e mateiros.  
Na Segunda Guerra Mundial um avião caiu no mar próximo de Recife ou Natal. Vinha com documentos e material militar importante e a Marinha foi atrás. Passados uns dias de buscas e nada. Num bar do porto um marinheiro ouviu um jangadeiro contando que sabia onde estava o avião. O marinheiro foi ao comando, falou com o comandante que mandou trazer o jangadeiro. O jangadeiro confirmou que sabia exatamente onde estava o avião, mas que só conseguiria ir até lá na jangada e foi para o mar com um navio seguindo de longe. E posicionou o navio em cima do avião desaparecido. Era tarde, colocaram uma boia que na tempestade da noite se soltou. Pegaram o jangadeiro de novo que disse que agora ele sabia ir de navio. Voltaram lá e de novo ele posicionou o navio sobre o avião. 
Jorge sempre pegava um jangadeiro experiente quando queria mergulhar em uma grutas de alto mar. Não tinha erro, o jangadeiro ia no ponto exato do mar de São José da Coroa Grande, Pernambuco, bem longe da terra. Um dia quando Jorge veio a tona depois de um longo mergulho o jangadeiro disse "Seu Jorge, é melhor voltar. Vem chuva feia". Jorge sentou na jangada olhou em volta e não viu nada. "Vou dar mais um mergulho rápido e vamos", disse Jorge e ouviu como resposta "Vai vir chuva forte", mesmo assim mergulhou. Passado pouco tempo o mar límpido ficou escuro. Jorge subiu rápido, mas a tempestade já estava lá. O mar ficou bravo, a jangada chacoalhava, subia e descia forte. e a visibilidade zerou. Jorge ficou apavorado e o jangadeiro com sua calma habitual disse "Seu Jorge não se preocupe, daqui uns 40 minutos a chuva pára e estamos de frente para São José (da Coroa Grande)" Dito e feito. E Jorge nunca entendeu como o jangadeiro se guiou naquele mar.
Pedalando numa cidade não precisa ser tão bom, mas dá para aprender, basta parar e olhar, curtir a paisagem, deixar o corpo sentir a vida.
Numa das minhas saídas como Bike Repórter estava sobre a ponte Bernard Goldfarb justamente para ver como ia ficar o tempo. Olhei no sentido norte, para o lado do Pico do Jaraguá e vi literalmente uma parede marrom vindo rapidamente em minha direção. Exatamente como uma tempestade de arreia, mas de poluição. A sensação foi horrível, parecia um destes filmes americanos de desastre onde tudo vai desaparecendo. Tive que parar o trabalho. Outra vez, também como Bike Repórter, vi o céu com três níveis de nuvens passando rápido, cada uma num sentido. Lindo de ver, mas Geraldinho Nunes estava no helicóptero e chacoalhou um bocado. Vi mais umas poucas vezes tal fenômeno meteorológico.
Fora situações muito específicas, no geral é relativamente fácil ver o que vai acontecer com o tempo. A única regra que não preciso contar é que com vento muito forte ou chuva muito intensa não dá para continuar pedalando. Não há capa que segure.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Educação física e medicina esportiva a brasileira

Não sou médico. Isto posto falo como alguém com larga experiência em traumatismos musculares, alguns traumatismos ósseos, e inúmeros ferimentos. Pegando tudo que me acontece bate com um quadro de diabete, infantil, que diziam eu era, mas hoje dizem não sou mais. Coisas de medicina ocidental que ainda evolui e de vez em quando muda de posições.
Contei até a décima oitava imobilização por traumatismo e depois cansei. Foram mais outras tantas. A pior delas estourei os cruzados do joelho esquerdo e tive a imensa sorte de ter caído num dos especialistas de joelhos da equipe que estava tratando o Zé Sérgio, ex ponta genial do São Paulo e Seleção que teve exatamente a mesma lesão que tive. O médico, um nissei, me disse que como eu não era profissional ia tratar com uma técnica nova que dispensava operar o joelho, deu certo e foi uma benção. Primeiro aprendizado: mesmo em casos graves nem sempre é necessário ir para a faca. Hoje se sabe que tem muito busines nesta história de "opera!" tão recomendada por médicos. Infelizmente o Brasil é um dos campeões mundiais em operações desnecessárias. 

Um dia caiu a ficha que havia jogado fora muito tempo de minha vida engessado ou imobilizado e ai decidi estudar um pouco sobre o corpo e meus erros. Tive uma sorte imensa de ter feito um pouco de jazz na Ruth Rachou, escola de dança tradicional e com um trabalho seríssimo. Lá vi o trabalho de Klaus Vianna, um gênio completamente desconhecido dos brasileiros. Lá realmente comecei a entender o corpo e a usá-lo de maneira mais sábia. Mudança da água para o vinho. O que aprendemos no colégio, tanto nas aulas de biologia quanto nas de educação física, é praticamente zero. Educação física aqui no Brasil é literalmente uma vergonha, em vários sentidos. Não se ensina sequer o que é limite. Mais, infelizmente a formação, conhecimentos e práticas de boa parte dos ditos personal trainers e outros auto denominados treinadores é muito precária, para dizer o mínimo, principalmente quando estes trabalham pessoas normais, aquelas que só querem bem estar. Vende-se milagres, criam-se bitolados, maníacos, muitos abandonam e voltam a vida boa do sofá, quando não se arrebentam no meio do caminho. Medicina esportiva? Para quem? Em que condições? A vida é bem mais que isto. Nada como conhecer o corpo e estar pleno e livre para viver.

E um dia conheci a medicina oriental através da massoterapia e acupuntura que tem 4.300 anos de história, alguns quatro séculos a mais que a medicina ocidental. A partir dai todos meus tratamentos começaram a ser muito mais eficientes. Tratamentos que duravam um, dois meses, recheados de remédios, passaram a ser mais curtos, eficientes e sem qualquer medicação. Obrigado Alberto Minami. 
O primeiro choque com a cultura oriental foi descobrir que o corpo é uno, que uma lesão no pé vai gerar efeitos colaterais no resto do corpo, portanto trabalha o pé, a perna, a coluna o pescoço... Medicina ocidental trata o problema localizado, pode até dar uma olhada no periférico, mas raramente no todo. 
Um dos pontos cruciais desta mudança foi aprender o que é dor e suas variantes, muitas variantes, cada uma com um significado específico. Medicina ocidental mascara a dor, um mágico e a meu ver enganoso caminho para o sucesso, para cura e principalmente para o sucesso financeiro da medicina ocidental. Quando a imensa maioria não conhece nenhum outro caminho a venda de um produto é líquida e certa. Parecidíssimo com religião. É óbvio que medicina ocidental evoluiu muito, que hoje tem resultados inegáveis, mas é distorcida, limitada, ótimo negócio, vide uma farmácia a cada esquina.
A medicina praticada no Brasil é uma medicina com um olho (míope, diria eu) no paciente e outro de olhos bem atentos na justiça, na possibilidade de um processo judicial. Mil exames certificatórios e pouca relação humana. Funciona? Funciona, mas a qual custo?

Numa das vezes que acabei no hospital o médico que me atendia perguntou se eu também era médico. Coisa rara aparecer alguém com conhecimento do próprio corpo. 
(Agradeço a Luis Carlos Bettarello, médico homeopata, que conversa muito e explica detalhadamente com calma as coisas. Clínico geral que responde "Não sei" quando não sabe ou tem dúvida, e quando tem resposta liga e responde.)

Não acredite em fórmulas mágicas nem em certezas. Duvide. Duvide com sabedoria, sem medos. E passe seu conhecimento para outros, não como uma verdade monolítica, mas como um ponto de apoio para novos conhecimentos


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnaval de São Paulo. Carnaval?

Já participei de vários carnavais. Ganhei gosto aqui em São Paulo. Fui várias vezes para o Rio de Janeiro onde vi e participei muito timidamente de blocos, tive a sorte de ver o último ano da Rio Branco, e cheguei até a desfilar numa escola grande do grupo de acesso. Morei em Olinda e vi maravilhado o pré carnaval da cidade, que na época era ainda pureza e diversão familiar só. O carnaval em si de Olinda de 1986 foi de arrepiar, só estando lá e naquela época para entender. Depois do Bacalhau do Batata, que conheci pessoalmente, saia o A Jaula, bloco dos que haviam passado o carnaval presos por bebedeira, briga e outras besteiras (?!?). E para terminar, na meia noite de quarta-feira de cinzas saía "A Bruxa", na verdade o boneco da Menina da Tarde maquiada, com um nariz horrível, roupas pretas, chapeu e um cigarro de maconha de quase um metro de comprimento na boca - lógico aceso. Na quinta-feira de manhãzinha tinha gente chapada dormindo no meio de boa parte das ruas de Olinda. Dava seguir exatamente o trajeto da Bruxa pelos feijõeszinhos jogados dormindo nos paralelepípedos. E outras histórias mais. 


Participei fantasiado de clóvis (ou bate bola) aqui em São Paulo; fui a clubes, vi as escolas de samba na Tiradentes e no Sambódromo...
Não sou de ficar pulando o tempo todo, mas sei bem o que é carnaval, aquele que bate no coração. Até um poste fica contaminado pela boa alegria.

 Fico feliz, muito feliz, com a explosão que o carnaval paulistano teve. Bloco para tudo quanto é lado, muita gente na rua, muita gente mesmo. Mas...
Moro próximo do Largo de Pinheiros e circulei um pouco. Hoje fui até o Centro. Sempre muita agitação, muito zum zum zum, mas pouco samba no pé, frevo, pulação baiana. Muita bebida e celular na mão, bem pouco carnaval. Bem mais tranquilo do que esperava. A bem da verdade xoxo. 

Este ano São Paulo, Sampa, ganhou espaço nacional no carnaval. Foi a bola da vez. Bravo. Agora precisa contradizer Vinícios de Moraes que disse que "São Paulo é o túmulo do samba..." Vamos lá minha gente! Samba para frente! Samba! Tivemos uma bela festa... um bom começo.

Fiquei hiper feliz por ver o pequeno carnaval dos Bolivianos no Memorial da América Latina. Lindo, mágico, puro, consistente. Pena que não saiam pelas ruas da cidade. Merecem mais atenção.










domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duas costelas quebradas por pura burrice

Acordei cedo e trabalhei até lá pelas 11:30 h, quando sai para dar uma corridinha a pé antes do almoço. Peguei a bicicleta e sai pedalando como uma criança rumo ao parque... e voltei com duas costelas quebradas para casa. A molecagem resultou num beijo frontal com um Honda Civic, um voo de Superman que acabou num test driver do para-brisa e sua coluna esquerda. Moral da história: "Mamãe, não quero mais brincar de duplê!"
E começaram me perguntar porque estou dolorido e pedir para contar como foi o acidente. 
- Fui eu. Eu fui o culpado.
- E o carro, estava devagar?
- Estava devagar, mas ele não teve nenhuma culpa. A culpa foi minha. Eu vinha a milhão feito um moleque e me distrai.
- Mas o carro estava devagar?
- Estava quase parado. 
- Mas deveria estar mais devagar...
- A culpa foi minha. Ele estava dobrando uma esquina que é um bico de pato em subida e fica difícil de ver quem vem. Ele estava quase parado e eu estava quase no meio da rua... e me distraí.
- Ele parou para socorrer?
- Parou...
Praticamente a mesma  conversa foi repetida algumas vezes, com pessoas diferentes. Todos não conseguiam entender que o culpado fui eu. Ciclista não tem culpa... Não sei quanto aos outros, mas eu sei o que fiz e fiz burrice.

Pensando em detalhes e olhando com os olhos do advogado do diabo foi uma cascata de erros e infrações de trânsito. Vamos lá:
  • eu vinha a milhão na descida, talvez acima da velocidade máxima local: erro meu
  • com velocidade é bom ficar longe dos carros para evitar pegar uma porta abrindo. Eu estava no limite da minha faixa de rodagem. Não há pintura de faixa no local. O lado direito da via, onde eu estava, tinha carros estacionados onde há  duas placas de proibido estacionar.  
  • na esquina onde bati havia carros estacionados dos dois lados, inclusive no bico de pato onde dobrou o Civic. A lei diz que         Art. 181. Estacionar o veículo:
            I - nas esquinas e a menos de cinco metros do bordo do alinhamento da via transversal:
    portanto não poderia haver carros estacionados ali. As razões para esta proibição são essencialmente duas: diminuição da visão do motorista (também de pedestres e ciclistas) que está dobrando a esquina e diminuição do leito carroçável o que obriga o motorista fazer uma curva mais aberta. Mesmo assim o erro é meu porque pedalando tenho que prever esta situação, ou seja, tenho que praticar direção defensiva, principalmente conduzindo um veículo de duas rodas.
  • é praticamente impossível um carro dobrar uma  esquina tão fechada como aquela em alta velocidade. A curva do Tabaco, em Mônaco, é feita por um F1 a uns 60 km/h. O Civic no qual bati estava praticamente parado.
  • o limite da faixa de rodagem de cada um não está demarcada por pintura, o que deveria estar por ser um local de bom fluxo de veículos. O Hospital São Luis fica logo ali. Erro da CET; mas se eu tivesse feito a aproximação da curva numa velocidade mais compatível com a situação teria tido tempo de desviar. Um erro não justifica o outro. Erro meu.
  • o golpe fatal foi que no momento que estava freando olhei para uma placa de sinalização que estava encoberta pelos galhos de uma árvore, que deveria estar podada, responsabilidade da Prefeitura. Quando voltei os olhos para frente já estava batendo; só tive tempo de encolher as pernas. Erro meu.
Quebrei as costelas por causa de uma cascata de erros, a maioria meus. Todos acidentes são assim. É muito raro haver só uma causa de acidente, normalmente é uma sequência de erros e falhas. Se não entender isto vai continuar sofrendo acidentes e incidentes e colocando a culpa nos outros. "Meu filho, onde você errou", obrigado mãe por ter incrustado isto na minha cabeça. 
- E a bicicleta?
- Esta perfeita. Voltei pedalando ela para casa. Tive reflexo para levantar as pernas e soltar a bicicleta na hora o impacto. Ela está perfeita.

PS.: acabei de voltar do local onde foi o acidente. Enquanto estava tentando entender o que aconteceu por pouco não vi o acidente se repetir com uma menina. 
É necessária uma intervenção da CET no local para sinalizar corretamente e de preferência fazer um acalmamento de trânsito (traffic calming)