terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A bicicleta e a cidade

A cidade brasileira é, no geral, uma cidade com desenho urbano um tanto desorganizado, praticamente caótico, que vai crescendo do jeito que dá ou segundo os interesses de alguns, o que para o trânsito e a vida costuma ser ruim, mas para a bicicleta pode se transformar em  uma grande vantagem. Bicicleta é um veículo ótimo para curtas distâncias, até uns 4 km. É no interno de bairro que seu uso traz vantagens: ruas mais tranqüilas para circular, pedalar distante de veículos grandes e de trânsito de alta velocidade, maior segurança, rapidez para fazer pequenas compras, facilidade de estacionar, melhor qualidade ambiental, poder ver e falar com as pessoas que estão pelo caminho, silêncio, sentir cheiros, vento, temperatura, ver  com calma a paisagem...
Nas cidades grandes, com o trânsito cada dia mais saturado e lento, a bicicleta tem sido usada para grandes distâncias, mas esta não é sua real vocação. Pedalar como se fosse conduzir um veículo motorizado, por ruas movimentadas, avenidas e vias expressas, pode ser uma necessidade, mas não é seguro, nem muito agradável. A distância e o trajeto devem definir o modo de transporte. Bicicleta em avenida ou via expressa não casa. Na Europa, onde as cidades são bem pensadas, funcionais, racionais, o sistema de transporte funciona, vem crescendo a implantação de sistemas de bicicletas comunitárias, desenhados para trajetos menores que 30 minutos de pedal, uns 2.5 km, como aponta estudo realizado pelo Bicing de Barcelona. É lógico que lá também há ciclistas que preferem fazer longos trajetos, mas esta não é a regra. Quer ir longe, pára num bicicletário e pega o bonde, metro ou trem.

Uma vez por ano algumas grandes cidades brasileiras fazem seu “Desafio Intermodal”, onde num trajeto de uns 10 km, no caso de São Paulo, vários modos de transporte são comparados em sua eficiência no trânsito de hora de pico. Geralmente a bicicleta é mais rápida. A bem da verdade, ciclistas em ótima forma física e um tanto enlouquecidos correm feito desesperados para chegar na frente do resto; e chegam. Um ciclista normal, pedalando em velocidade normal, o que é algo em torno de 15 km/h, não chega tão rápido, mas chega com uma sensação de bem estar que os outros modos de transporte não proporcionam. Este é o real barato da bicicleta: sentir-se bem. Mas para chegar lá é necessário respeitar as características do veículo que se está usando. E, no caso da bicicleta, por dentro dos bairros sempre será mais agradável.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mulheres brasileiras

A mulher loira e bem vestida está com a cara encostada no interfone do edifício. Conforme vou me aproximando percebo que a voz está um pouco alterada. “Você quer que eu tire uma foto?”, diz ela para o porteiro que a olha enfadonho de dentro de sua guarita de vidro. Quando estou passando por trás ela se volta para mim e pergunta “Você acha que não posso estacionar aqui? Acha que estou atrapalhando a entrada do edifício? Vou tirar uma foto para mostrar a ele”, termina apontando para o porteiro. É uma mulher já feita, lá pelos 40 anos, loira, corpo cheio e bem definido, bonita, vestida com calça e blusa beges de um tecido leve, delicado, algumas joias ou bijuterias, que combina com os cabelos soltos. Transparece ter tido berço, boa educação. Quer porque quer deixar seu carro ali, uma SUV preta, vidros escuros, grande, alta, espaçosa. Na rua não outra vaga. Ela se dirige para a traseira da SUV olhando nos meus olhos com raiva e apontando para o chão. A raiva dela não a deixa ver, mas boa parte da traseira da SUV está dentro da linha amarela que define o espaço de entrada e saída da garagem. “Você acha que está atrapalhando? Você acha que não dá para entrar e sair? Vou tirar uma foto”, repete irritada para mim. “Se fosse você, iria conseguir passar por ai? Iria conseguir manobrar o carro?”, respondo seguindo em frente para não dar trela. Percebo que ela para e olha para baixo em silêncio. Cruzo a rua e vejo a SUV saindo da vaga.
De imediato vi passar na minha testa um texto politicamente incorreto sobre o ocorrido. Voltei para casa, sentei na beira da cama, e como já estava com o computador fechado, anotei algumas coisas numa folha de papel. Lembrei de minha fase de sessões de terapia no ‘Café Belina’ do Shopping Iguatemi. Não havia nada melhor para mudar o humor. Começava pelo apelido do lugar, Café Belina, em homenagem àquela perua velha fabricada pela Ford, derivada do Corcel, aquele garanhão sobre rodas. Para ter terapia bastava pedir um café, sentar na mesa que dava de frente para quem subia pela escada rolante e se deliciar com os tipos, ou zoológico, como queira, que iam um a um subindo, surgindo e se mostrando ao mundo. Uma amiga muito divertida foi a criadora da terapia – grátis, diga-se de passagem. Fazia parte controlar riso ou gargalhada para não dar na cara e ofender. A diversão agora tem um gosto de ranço, principalmente no Shopping Iguatemi, que hoje, nestes dias de Brasil rico e desvairado, tem um perfil de casa de saúde mental suiça, com certeza a graça acabou. Antes acontecia de tudo, o zoológico era completo, todos tipos, gêneros, formas. Hoje é coisa fabricada, esnobação sem sentido, muito forçada, tipo BBB das ricas transmitida pela TV Bandeirantes. Não dá vontade sequer de ser politicamente incorreto porque é muito triste, sem graça, deprimente, verdadeiramente pobre, vulgar, medíocre. Mais que déjà vu.
Aquela mulher, que ao perceber seu erro enfiou o rabo entre as pernas e saiu de mansinho sem mais dizer. No final das contas faz parte das vítimas de todo azar de violências, das criminais às morais, que vivemos no nosso dia a dia. Neste contexto a SUV passa ser a salvação. Chora menos quem pode mais, esta é a regra, SUVs são imponentes no trânsito..., que delícia..., ver todos por cima... Quando vieram as primeiras vans para o Brasil Sarah se apressou para tirar carta profissional para pedir ao marido uma Besta, que ela considera até hoje “o melhor ‘carro’ que já tive”. “Você faz o que quiser no trânsito e todo mundo te respeita.”
Com a bicicleta não tem esta história, muito pelo contrário. O número de mulheres que usam a bicicleta no Brasil é baixo por uma série de razões, que vão desde a mesma questão cultural que faz da SUV o tanque de guerra para algumas, até o fato de até agora praticamente não haver dentro do mercado bicicleta própria para a altura média da mulher brasileira. O correto seria que os modelos básicos fossem tamanho 16 e não 19 fabricado, padrão para mulheres europeias.
Em 1982 pedalei muito com Cristina, uma menina alta, magra, muito bonita, e determinada, muito determinada. O tamanho padrão de bicicleta lhe serve perfeitamente. Na época o trânsito era infinitamente mais tranquilo, havia poucas mulheres dirigindo, mas também não era difícil ouvir alguém mandando uma motorista “voltar para casa e vai lavar roupa”. Cristina então sequer tinha idade para ter carta e só pedalava. Foi dela que ouvi as primeiras histórias sobre carros diminuindo a velocidade e passando a mão na bunda da ciclista. Acabei descobrindo que, tristemente, o fato era muito mais comum que se podia imaginar e que várias ciclistas acabavam no chão, machucadas. Isto em bairros de classe média. Mulher bonita, com bela bunda, pedalando completamente sossegada só acompanhada de seu homem.
A posição da mulher na sociedade mudou muito. O manual da boa mulher que existiu, com preceitos tão limitados e controladores, vai aos poucos ficando para trás. Conforme a mulher foi ganhando espaço e poderes, foi também deixando de lavar roupa para procurar sua identidade própria. O novo manual cria novas categorias:  patricinha, perua, melissa, e outros adjetivos, alguns pouco elogiosos, mesmo assim muitas vezes incorporados pelas próprias. Felizmente um personagem de novela resgatou a mulher trabalhadora, sobrevivente, chefe de família, que faz jus a grande e brava maioria das brasileiras.
Não é um fenômeno particular da mulher experimentar e se encaixar em posições sociais novas. Homens e toda população do Brasil passa pelo mesmo processo. É outro Brasil, é outro mundo, outro planeta. Mas, mesmo sendo um país rico, a 6ª economia do mundo, o número de mulheres pedalando continua baixo, mas crescendo rapidamente - felizmente. Infelizmente a maioria destes processos se deu apoiado numa precariedade trágica de cultura e educação, na de falta de exemplos, de uma elite paupérrima em princípios. Continuamos sem uma bicicleta básica e popular com perfil próprio para o perfil da mulher média brasileira. Quem sabe um dia a dona da SUV possa encontrar com facilidade uma bicicleta que lhe permita pedalar sem sujar sua chique roupa.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Leis e leigos


Do Código Civil:

Artigo 186: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a alguém, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Artigo 927: “Aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único: haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.

Este é o início de um texto que nunca terminei. Não sei bem porque, mas também há tantas razões que não vale mais a pena pensar. Infelizmente este país está uma baderna completa que pensar em leis virou tema secundário. A nossa questão é de foro íntimo, é um problema de caráter. O vale tudo está escancarado e valendo tudo mais que nunca. Liberou geral. Exagero? Vide a história do CNJ que está estampada em todas primeiras páginas de jornais.

O original começou a ser escrito dia 24 de Fevereiro de 2010, foi aberto um montão de vezes para ser terminado e publicado e toda vez eu parei na leitura dos dois artigos acima, 186 e 927, brochei, fechei e tratei de esquecer para não enlouquecer. Posso bem imaginar o que fosse a idéia original, provavelmente ter ouvido mais uma história sobre ciclista chutando um carro que foi considerado agressor contra os direitos dos ciclistas, portanto da humanidade, mais especificamente o direito individualíssimo do ciclista ofendido. Nosso trânsito é assim. Roberto da Matta, brilhante antropólogo, numa entrevista no Jornal da Cultura disse algo como “trânsito é o melhor espelho da sociedade”. Estamos fodidos!

O que interessa ao brasileiro é o “meu direito”. “Pouca farinha, meu pirão primeiro”, diz o ex conselheiro do CNJ, Ives Gandra Filho, em entrevista para O Estado de São Paulo, em “Lobby de juízes impediu CNJ de pôr fim a farra das verbas milionárias”(Domingo, 15 de Janeiro de 2012; pg A12, Nacional). O meu começa no topo da pirâmide e termina no país dos coitadinhos do chão dos abandonados. Incluo ciclistas, inexistentes para os números oficiais do país (IBGE) desde 1981.

Mesmo o fato de não existir oficialmente não dá o direito de exigir nossa estrita parte do pirão primeiro. Mas é o que mais acontece. E nunca antes neste país aconteceu tanto porque o paizão liberou geral. Coitadinhos - todos. Não, não, não, como disse o paizão ‘os de olhos azuis e loiros’ não estão incluídos. Estranha frase para um pernambucano, estado onde boa parte da população, melhor dizendo - do povão, tem olhos claros e não raro cabelo pixaim e loiro, restos de uma colonização holandesa. Estes, segundo o paizão, também estão excluídos.

Olho para trás e vejo o que aconteceu com a revolução da bicicleta no Brasil foi mais um desperdício de  oportunidade. O uso da bicicleta constrói uma nova realidade, mais humana, integrada, pacífica, livre, sustentável. Já acontecia Brasil afora em localidades mais de topografia mais plana e transporte de massa deficiente, fato comum.  O que aconteceu e ainda está acontecendo, fim das contas, não passa da novidade e aceitação deste veículo pela classe média, acompanhada por “é legal” da propaganda, e um “é perigoso” da realidade. A bicicleta é perigosa, ou qualquer veículo mal conduzido é perigoso? A velha classe média, muito vaidosa, individualista, feliz de sua parte do pirão, quer pedalar com pleno direito, mas sem perder seu pleno direito ao uso do carro. Coitadinhos! Como sentir-se-ão quando lhe chutam o espelhinho porque o motociclista / ciclista veio de ângulo sego ou estava atrapalhando o direito de ir? Quem chutou antes, o ovo ou a galinha?

A baderna está instaurada. Leis valem pouco porque não são feitas para leigos, mas para quem com elas sabe tratar. Respeitar as leis de trânsito, que seria um ótimo treino para entender como funcionam as leis, a ordem, a comunidade real, ainda não faz parte de nossa pauta. Estamos longe disto. Muito longe disto.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Feliz 2012. E aproveita

Quantas vezes você desejou um Feliz Ano Novo, destes com letra maiúscula no início de cada palavra, escrito ou dito sorridentemente? Quantos destes anos foram felizes? Qual o valor destas palavras? Qual o valor do escrito letra por letra? Feliz se escreve com “z” ou com “s” e acento no “i”?

Nesta virada do ano dei meus votos com muita dificuldade. Gostaria de ter tido o direito de ter ficado quieto no meu canto. Silêncio é por vezes muito bom e era tudo que queria. Não consegui fugir de uma reunião, que por sinal foi bem agradável. Como sempre fiquei um tanto tonto com a falação, principalmente por duas pessoas que lá estavam não conseguem falar com um volume de voz e entonação baixo. Até as crianças fizeram menos algazarra. A um determinado fui lavar pratos, minha eterna rota de fuga quando canso de qualquer festa ou reunião. Há uma passagem do filme “O fio da navalha” que uso como apoio ao meu ato. “Deixa que a empregada lava...”; “Larga isto que vou colocar tudo na máquina (de lavar pratos)”... Terminar uma festa lavando pratos e organizando a bagunça é uma felicidade. Na passagem do Ano Novo não deixar nada bagunçado para trás (pelo na festa) e depois voltar para casa pedalando com as ruas completamente vazias é o máximo. Já tentei usar a mesma técnica com toda esta porra que está sobre a minha mesa de trabalho, mas fui lavar o lab top e achei que era hora de sair para a rua e pedalar. Deu mais certo, mesmo sabendo que ao voltar para casa o trabalho continuaria lá.
O melhor mesmo da virada do ano é a manha do dia seguinte. É uma experiência interessante pedalar ou correr pelas ruas completamente vazias da cidade. Fiz isto durante anos, várias vezes por semana, anos a fio. Pedalar - é lógico. Quando comecei a pedalar a cidade era outra, completamente diferente, muitíssimo mais calma. Quando fizemos o primeiro Night Biker’s da história, lá pelos idos de 1988, saímos do Pacaembu para o Centro e cruzamos com pouquíssimos caros. O Centro estava completamente vazio e tranqüilo. Segurança total. Nestas primeiras horas de 2012, pedalando para casa, foi me passando imagens como esta do passado. A vida me deu momentos incríveis. A bicicleta me ofereceu paisagens hoje impensáveis. Paz. Do passado só sinto mesmo não ter percebido que correr a pé nos faz chegar perto do ser biológico que somos de fato, sem nenhuma ferramenta extra.
Feliz 2012, é a esperança. Vamos fazer um bodyboard na marolinha que quebra em nossas praias. Pessoalmente eu fico na total esperança que no meio deste ano de 2012 a FIFA tenha corrones e declare ao mundo que a Copa de 2014 não será mais no Brasil. UAU! E todos nós, brasileiros, nos livramos de uma buraco de US$ 118 bilhões (número estimado de custo dado ao Estadão pelas empresas que estão investindo no evento) e provavelmente este país terá um futuro para nossos filhos e netos. Vamos aproveitando este 2012. Tem 2013 antes de 2014, e 2015 antes de 2016. Haja esperança!

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ladeiras do novo trajeto da São Silvestre

31 de Dezembro de 2011
O Estado de São Paulo
São Paulo Reclama


Mudaram o trajeto da São Silvestre, mas não explicaram por que ou quem desenhou o novo trajeto. Quem conheceu a descida da av. Consolação, do antigo trajeto, sabe que este era o ponto onde mais pessoas se machucavam. Acredito que não deva haver estatísticas, infelizmente. Estatísticas podem colocar em situação desagradável as posições de alguns manda-chuvas.
Quem corre a pé sabe que as descidas da rua Major Natanael, logo no início da prova e av. Brigadeiro Luiz Antônio no final são muito íngremes para a maioria dos corredores. Hoje está chovendo, o que só deve piorar a situação. Descidas forçam demais as articulações e musculatura de qualquer corredor e não raro geram lesões. Qualquer evento esportivo deste porte, com mais de 10 mil participantes, acaba sendo questão de saúde pública e cuidados devem ser tomados para o bem estar geral. Provavelmente cuidar do bem estar dos atletas seja um deles.
Não sei de quem foi a idéia de mudar o trajeto. A razão principal provavelmente é o tumulto que a chegada causa na av. Paulista em razão do preparo para a festa da virada no mesmo local. Ou terá sido mais uma vez uma questão de fluidez do trânsito? Ou as duas coisas juntas e algo mais? O fato é que estes grandes eventos são fácil e freqüentemente mudados, o que acaba com a tradição. A Prova 9 de Julho, importante evento ciclístico paulistano e brasileiro, está confinada às moscas no autódromo de Interlagos; a Maratona de São Paulo saiu do Centro e perdeu o grande público... A leitura que se faz é que a cidade de São Paulo continua não sendo um prazer da vida para os paulistanos; mas um direito para a vontade e manias de uns poucos. Usos, costumes e tradições pouco ou nada valem. “São Paulo não pode parar” (‘sic’  tão repetido).

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal, Cidade Natal

O preto velho cruza por trás do povo que assiste distinto o coro de músicas natalino que se concentra nos degraus da Catedral da Sé e pára na beira da rua. Tem os cabelos e barbas completamente brancos, desgrenhados pelo forte vento da chuva que vê vindo. Veste sobre seu velho e surrado terno um casaco de Papai Noel muito bem cuidado, vermelho intenso, gola branca impecável. Começa os primeiros pingos e a multidão foge para se proteger e se apinha do outro lado da rua debaixo de marquises, bares e cafés abertos. O preto velho permanece ali impassível, como se soubesse que aquela chuva não seria capaz de parar os acordes delicados do coral. Terminam uma música e o quase só se ouve o aplauso do solitário preto velho que sorri e aproveita o espaço dos que correram para se aproximar do coral e da escadaria. O maestro gira o pescoço, olha para os lados, vê nuvens passando rapidamente e o azul tomando o início de noite de verão. Olha para o coral feliz. Todos passaram pelo aperto dos maus tempos e lá permaneceram afinados. Olha para trás para agradecer o aplauso efusivo e dá com o Papai Noel preto de olhos e dentes intensos de alegria. Enquanto volta a cabeça para o coral percebe que os fugitivos estão aos poucos voltando. Umas últimas gotas caem sobre a partitura, sem mexer a cabeça ele lança um olhar para os céus e levanta os braços. “Dóóóó....”. Pára as mãos abertas para frente, aponta os tenores, move os lábios “um, dois, três” e a nova música vem num crescente de trás para frente, enche os pulmões e todos degraus sobrepõe vozes delicadas para formar o louvor.

As luzes da cidade começam acender. Pouco depois os holofotes amarelados da Catedral batem na fachada e contrastam com o cada minuto mais azul do céu com suas últimas nuvens apressadas. Entre a multidão e coral está o Papai Noel. Termina a música, mais aplausos, que aos poucos vão silenciando. O maestro virasse e agradece. Aponta o coral. E percebe um cantar suave, barítono cheio e preciso, mas baixo, bem baixinho, entusiasmo puro. “Estrela brasileira”, pesca o maestro, que percebe pelo sorriso envergonhado que a voz é do preto velho Papai Noel. Dá um sorriso de aprovação, volta-se para o coral e faz as últimas músicas da noite quase sem parada.

O povo já se espalhou feliz pela paz do silêncio da praça. O preto velho continua lá. O coral festeja nas escadarias junto com o maestro. O preto velho quieto e sorridente segue olhando. “Deve estar bêbado. Deixa para lá”; mas maestro e duas cantoras descem as escadas. O preto velho esconde os dentes, mas mantém o sorriso e brilho dos olhos. “O senhor gostou?” E a resposta veio muito positiva dos olhos tímidos. A roupa de Papai Noel impressiona pela beleza. E o preto velho pela magreza sob o terno surrado, mas bem cuidado. “O senhor canta bem. Ouvido de maestro pega tudo. Já contou?” “Só para meus filhos. E hoje para os netos. Mas me desculpem, mas tenho que ir andando para chegar em casa.” E sem saber porque o maestro pergunta “Onde o senhor mora?” O preto velho, um tanto envergonhado, continua sorrido, olha o infinito, e depois de um breve silêncio responde: “Umas 3 horas caminhando”.

Um pouco a frente o coral cerca o preto velho Papai Noel. “Vamos todos de bonde. Vamos acompanhar o senhor. Pode ser?”. “Meu filho; moro num canto muito simples, vocês não vão querer ver...”. E quando se dá conta já está a caminho de casa, Papai Noel ao lado do motorneiro, coral balançando ao gosto dos trilhos, pontuado pelo sino das paradas. Numa delas pediram e ganharam o goro vermelho que faltava ao velho.

Dizem que ali nasceu uma nova cidade. Aquele coro voltou um pouco tarde para suas casas, mas foram recebidos sem ressalvas. Havia sido uma noite mágica e ninguém sabe até hoje quem era aquele senhor, para onde o acompanharam, onde exatamente ele morava. Mas todos do coral lembram que entraram pela viela naquele lugar muito simples, pobre mesmo, cantando. Atrás deles entrou um bumbo, e aos poucos a marcação era de samba. Na casa do preto velho ele pediu silêncio e cantou para os netos “Noite Feliz”, e acabada esta mandou que todos voltassem para suas casas. “Tem gente esperando vocês. Não cheguem tarde. Vão embora. Obrigado”.

A boa notícia correu; primeiro boca a boca, depois pela rádio, jornal e TV. O maestro repetia que entrar naquele local cantando foi o momento mais feliz de todo coral, e que as pessoas precisariam experimentar, não importa o lugar. E um dos repórteres pergunta se valeu a pena. “Vão! É um milagre. Há uma cidade lá fora que não conhecemos. Natal não é um presente. Natal, de ‘nascimento’, é uma dádiva. A cidade não é um presente, é dádiva. Vão em coro, vão juntos; mas vão! Peguem o bonde”. “E o Papai Noel preto velho?” - pergunta outro repórter? “Ele deve estar cuidado da família e da comunidade. Este é o espírito”.

Feliz Natal

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal

1962

“A meia não entra, a meia não entra!”, reclama o menino de 6 anos angustiado, sentado na borda da cama, sem perceber que na pressa está colocando a meia de cima para baixo. Está praticamente pronto, banho tomado, roupas limpas, passadas e cheirosas, cabelo engomado penteado cuidadosamente para trás, um sapato preto lustroso no pé, outro no chão, e a meia que não quer entrar na mão. A família passa pela porta e olha fazendo caretas. “Não existe meia que não entra no pé. Olha com calma a meia”, diz a mãe; e o menino remexe na meia irritado e volta a reclamar que “a meia não entra”. A irmã mais velha entra no quarto com a toalha enrolada na cabeça, tira a meia da mão do irmão, olha bem e grita “Mãe, quem costurou o furo da meia? Costurou o buraco e fechou a meia. Ele não vai vestir nunca esta meia”. “Pega outra meia cor azul no armário e ajuda seu irmão a vestir”, responde lá do quarto a mãe. E completa “Deixa a meia fechada em cima da mesa que esta eu quero ver”. A irmã pega a meia no armário e o irmão diz que ele mesmo veste. Ela sorri, entrega as meias, faz um carinho, “Veste logo”, e volta para o banheiro desenrolando a toalha da cabeça. Ele termina de se aprontar e sai correndo escada abaixo.

Todos prontos. “Cadê este menino?” E de dentro da casa ele começa ouvir os chamados da família, primeiro calmos, depois aos gritos. “Estou aqui, estou aqui”, responde ele sem sair da sua pequena bicicleta. O pai vai até o corredor da garagem e vê o filho girando para cima, para baixo, não fala nada e volta para dentro da casa. Em seguida surge a mãe, linda, bem vestida, pronta para a festa, e no passo do salto alto com vontade de rir chama a atenção do menino “Você já está todo suado”, passa a mão com suavidade na camisa do filho, “Nós vamos para o Natal. Você não poderia ter ficado quieto por uns minutos? Não poderia ter ficado quieto na televisão? Sempre a bicicleta, sempre a bicicleta... Vamos, deixa ela lá dentro e vamos que já estamos atrasados”.

Há muitos caros estacionados perto da casa velha. “Me ajuda a levar os presentes, por favor”, pede a mãe para todos filhos. A porta da frente está aberta e já da escada se vê muita gente passando entre as salas. Do porão dois primos sobem correndo, quase derrubando os presentes. No topo da escada a família faz uma parada. São bem recebidos e começa o “Feliz Natal” acompanhado de sorrisos que será repetido algumas centenas de vezes, tantas quantas os parentes que cruzarem a frente. É muita gente junta. Há algumas meninas mais velhas sentadas conversando na escada que leva aos quartos. Elas acenam e continuam conversando, ou provavelmente fazendo fofocas. O menino se desprende da mão da mãe e some no meio da multidão. Corre para ver a árvore de Natal e o pequeno Papai Noel que se mexe sozinho. Encontra os primeiros primos de sua idade. Conversam um pouco e logo saem correndo por entre as pernas dos adultos. O menino passa pela sala de jantar, pára para admirar a cuidadosamente a mesa preparada para a ceia. Dourados, brilho, uma toalha de renda, detalhes em cor vinho, velas, um grande arranjo central com frutas e nozes. Há três anjos pendurados e um grande lustre de cristal cheio de lâmpadas acesas. Cadeiras vazias. E no menino toma uma palmada carinhosa, “Vai brincar que aqui não é lugar de criança”, diz alguma tia que o menino já viu, mas não sabe bem quem é. E ele dispara. “Pela cozinha não!!”, grita a tia brava e inutilmente.

Lá fora estão muitos primos, distribuídos pelo jardim, agrupados por tamanho, e um velocípede que passa conduzido por garoto feliz e arrogante pelo seu novíssimo presente. Velocípede vermelho. O garoto passa sorrindo olhando nos olhos. ‘O velocípede é meu’. Os mais velhos acham a situação engraçada e fazem chacota do garoto. Ele não está nem ai e segue em frente costurando entre os primos.



1982

Um pouco antes do banho o mocassim foi engraxado com cuidado. Está brilhante. As roupas estão cuidadosamente estendidas na cama. São vestidas com bastante calma. Depois do mocassim vem o toque final: prender a perna da calça para ela não sujar na corrente. Ele sai do quarto, vai até a sala, dá um beijo na testa da mãe. “Você está muito chique. Abaixa um pouco para eu arrumar o nó de sua gravata”. E enquanto acerta gravata e colarinho desce os olhos e pergunta com falso tom de espanto: “Você vai de bicicleta?”. Olha nos olhos do filho com autoridade de mãe e dispara “Vai devagar para não chegar suado e vê se não suja roupa. Que hora você está de volta?”. “Fica tranqüila, eu volto cedo. Só vou dar uma passada para desejar Feliz Natal e rapidinho volto. Se eu for com o carro não vai ter lugar para estacionar. Vai ser um saco”. E quando a porta já está quase fechada ouve-se “Vai com cuidado. Volta rápido”. “Beijo”.



2002

O tempo que a chegada do ciclista na festa de Natal era quase aguardada como a chegada de um aventureiro ficou para trás. Já eram dois a ir para o jantar pedalando. Ele entra e já não perguntam mais “Você veio de bicicleta?” Mas ninguém esquece a primeira vez que o primo ciclista chegou na portaria do edifício e o porteiro desandou a repetir “Com a bicicleta o senhor não entra, com a bicicleta o senhor não entra...” Teve que descer o tio para convencer o porteiro. Nos Natais seguintes o ciclista foi recebido pelo mesmo porteiro com quase inaudível e acabrunhado “Boa noite, Feliz Natal para o senhor também”. De rabo de olho o nortista deixava sua contrariedade com aquela situação. A história virou piada obrigatória do Natal.



2011

Chegou o tempo das luzes da cidade, das ruas decoradas, do clima de festa. As ruas estão completamente lotadas, entulhadas de carros com suas janelas pretas e fechadas. Há uma reclamação geral que não dá mais para sair de carro. Muitos vão a pé ver o Natal criado para ser visto. Se as lojas ainda não estão cheias, os supermercados e as casas de comidas estão. Não dá para entrar. Não há mais espaço para tanta gente. Faz um bom tempo que a bicicleta tem dificuldade de encontrar espaços para passar entre os carros e até mesmo nas calçadas. Já não é mais só um fenômeno de Natal. O velho ciclista encontra um velho e querido primo na bicicletaria comprando uma bicicleta para a mulher. Linda bicicleta.

- Você saiu em algum passeio para ver as luzes?

- Saímos alguns dias atrás. Antecipamos por causa do trânsito. Provavelmente vamos sair de novo, mas bem mais tarde, lá por volta das onze, quando o trânsito melhora.

- Você viu o pessoal que saiu com Papai Noel bem gordo na frente e uma bicicleta carregando uma árvore de Natal grande decorada e iluminada? Estes leds fazem milagres. Tava muito divertido.