quinta-feira, 15 de junho de 2017

Perdedores e vencedores

Domingo num almoço de família no meio de conversas esportivas o pessoal soube que Felipe Massa tinha saído da corrida já primeira volta. As críticas a ele e Barrichello foram imediatas e duras, como sempre. "Perdedores!" Brasileiro é impiedoso com seus esportistas, de todas as áreas. Barrichello foi e continua sendo preferência nacional para as críticas, uma espécie de ícone do esportista perdedor. Eu acho deprimente, literalmente deprimente. Acho deprimente porque este julgamento traz consigo uma análise absolutamente ignorante dos fatos. Coisa de país perdedor, o que de fato e regra somos, brasileiros.
Nelson Piquet e sua língua inteligente e ferina soltou que "o segundo colocado é o primeiro perdedor". Acertou na mosca do pensamento popular brasileiro. Um belo deboche com os que vivem fora da realidade. Afinal, porque a categoria mais complexa, sofisticada e avançada do automobilismo, e talvez de todos esportes, contrataria e manteria em longeva atividade dois pilotos como Barrichello e Massa, considerados perdedores pelos compatriotas?

Outro dia esteve no Roda Viva da TV Cultura o pesquisador da FGV Samuel Pessôa. Um dos Twiter define bem o que foi: "Surpreendentemente didático e fácil comunicação..." Samuel (1:06:10 do programa) fala que "O Brasil está condenado a mediocridade" . Não é o primeiro que faz esta análise, que tristemente ouço faz décadas e sempre me recusei a aceitar. Hoje ainda tenho dificuldade de aceitar, mas tenho dificuldade de ver outro horizonte. 
Temos que mudar muita coisa para conseguir fazer deste país alguma coisa. O marco zero é deixar para trás nosso complexo de vira-lata, como dizia já o Nelson Rodrigues na década de 50. Um dos reflexos deste nosso complexo de inferioridade destrutivo é exatamente esta falta de respeito por qualquer personalidade, trabalho ou conhecimento que não seja vitorioso ao estilo Ayrton Senna, Guga ou outros tantos.
Conheci pessoalmente e acompanhei o excelente trabalho de várias pessoas pela vida que poderiam ter de fato ter feito deste país algo bem próximo do que sonhamos, mas que tiveram seus trabalhos simplesmente jogados no lixo. Para o brasileiro são perdedores. Muito mais cômodo acreditar no grande paizão, no salvador da pátria, em ilusões, a fazer críticas sem qualquer fundamento. 

Um bom exemplo de um destes "perdedores" do Brasil vale ler o currículo de Roberto_Pupo_Moreno, mesmo que não goste de automobilismo. O Brasil está cheio de "perdedores" como ele. Triste.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Brasil: epidemia de violência

Saímos de um Brasil que sempre teve problemas de violência para viver num país metido numa inacreditável epidemia de violência. A matéria é da Globo, mas os números são oficiais e a clareza da situação é genérica. Uma violência  nunca antes vista neste país. O Brasil está passando pela Lava Jato com aplausos de toda população (ou praticamente toda, como vocês sabem). O mesmo Brasil que faz um silêncio macabro sobre a violência e seus homicídios.
A saber: em 2015 foram mais de 60.000 homicídios (sem contar trânsito).
Entre 2000 e 2015, portanto Governos Lula e Dilma, PT, o Brasil teve 853.850 mortes violentas. Pode-se dizer que o PT socializou esta epidemia de violência.
Quando nós, brasileiros, vamos tomar vergonha na cara e exigir que se investigue a possível ligação dos políticos com o tráfego de drogas, crime organizado e violência generalizada. Bobagem? Brizola e o acordo com o tráfego do Rio foi bobagem ou prenuncio? Procurem nos arquivos dos jornais.
Quanto custa o silêncio?

Pergunte aos pais de Vitor Gurman e Leonardo Araujo dos Anjos, jovens promissores mortos violentamente em acidentes de trânsito. Ou a família de Fernando, assassinado numa esquina por causa de uma relógio. Ou... ou... ou... ou...


Quem será o próximo? Uma boa opção para estar incluído na lista é ter uma bicicleta de boa qualidade e pedalar numa Sumaré, Cidade Universitária, Villa Lobos, alguma rodovia,...

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Abismo entre a realidade e o futuro

Faz mais ou menos um ano refiz o telhado de meu apartamento. Troquei as péssimas telhas onduladas de cimento alguma coisa (amianto?) por telhas termo - acústicas, a melhor coisa que poderia ter feito, o que recomendo a todos. O apartamento de último andar não é mais um forno ou uma geladeira. Ficou uma delícia. 
A empresa que realizou o trabalho mostrou um profissionalismo bem acima do padrão brasil (padrão este que merece um b minúsculo) de construção civil. Já recomendei-os para outros.
Ontem um funcionário do edifício me avisou que havia problemas com o telhado. A manta isolante de vazamentos entre a parede e a calha se soltou. E mais umas besteiras. Mandei a notícia, com fotos, para o responsável pelo trabalho no telhado. Ai a conversa descambou para a normalidade da terra brasilis. 
A primeira questão é como uma obra realizada com bons profissionais (acompanhei in loco a obra) pode em menos de um ano apresentar qualquer problema? Erro deles ou baixa qualidade do material? Um pouco de cada? Aposto numa balança pendendo para o mau material, problema crônico do Brasil. Repito: uma calçada em Milão tem que durar 25 anos. Aqui? Você me o diga.
O outro ponto que chama atenção foi a conversa que tive com o responsável pela obra no telhado, que considero um cara de bom nível, sério, educado, mas brasileiro, sim brasileiro. Não vou repeti-la aqui, mas como sempre aponta para o abismo abissal que temos em relação ao que o brasileiro até de certo nível entende por qualidade, durabilidade, custo \ benefício..., enfim estas coisas básicas, estúpidas, minímas, que fazem de um país uma nação ou paiseco de terceiro mundo que acha, dentro de sua imbecilidade, que será um país do futuro. Espera sentado e próximo de uma cama. Deste jeito jamais,.
Como bem disse um comentário neste blog sobre minhas lamentações: "Pare de reclamar e ache soluções". Confesso que não sei, não consigo achar um caminho, não durmo pensando como agir, o que fazer. Como reposicionar um país? Como fazer milhões de pessoas entenderem que via de regra 2+2 tem que dar 4, só pode dar 4, e que a história prova que os que duvidaram desta matemática básica foram empobrecendo, empobrecendo, empobrecendo... Confesso que não sei. E gostaria de saber e trabalhar numa mudança.
Calçada e calçamento em pedra portuguesa, Lisboa.
Estranho, aqui se diz que calçadas em pedra portuguesas dão problemas rapidamente.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O imediato "nem um cm a menos"

Quando fui Bike Repórter Eldorado, entre 1999 e 2001, recebi apoio da Olympikus, marca esportiva brasileira. Me deram tênis, camisetas, bermudas, shorts, meias, cuecas... ou seja, equipamento completo, e mais algumas peças para Teresa, em particular uns bustiers que até hoje ela considera insuperáveis em qualidade e conforto. Minhas últimas peças estão acabando agora, mais de 15 anos depois, depois de uso contínuo e sem piedade. Ainda tenho um par de meias, shorts de correr, uma bermuda, a camisa oficial da seleção olímpica de vôlei patrocinada então pela Olympikus, a única que guardo para eventos especiais, como os protestos de rua. A durabilidade destes vestimentos foi excepcional para nossos dias de marcas internacionais famosas, caras e rapidamente descartáveis.
Um amigo que conhecia o que estava acontecendo na Olympikus daquela época disse que a marca estava fazendo um grande esforço para nivelar-se em conhecimento da marca e vendas com as grandes marcas esportivas internacionais, dai produtos com uma qualidade surpreendente, melhor que das concorrentes internacionais, mas o brasileiro continuou optando pelo nome e status e a Olympikus teve que se reposicionar, ou seja, voltar a realidade de ser uma marca brasileira para o gosto e sensibilidade brasileira. 
Na mesma época Teresa D'Aprile gerenciou uma loja de material esportivo onde a maioria dos tênis das grandes marcas, principalmente os caríssimos, eram comprados em trocentas prestações por pessoas de pouco poder aquisitivo. Não mudou muito porque não faz muito vi com espanto na vitrine o lançamento de um tênis de R$ 1.000,00 que imaginei que nenhum louco o compraria. Em pouco tempo muitos usavam, boa parte gente simples. Aparência vale tudo.

Não resta dúvida que este é o país que tem por opção o mais barato, precário, imediato, a aparência. É histórico, sempre foi assim. Olhem nossas cidades, o melhor espelho do que somos como coletividade, como sociedade. Olhem as periferias e favelas com suas ruas e vielas feias, sujas, tortas, sem verde; casas de aparência externa malcuidadas e interiores limpos, bem cuidados, de encher de orgulho vaidoso seus proprietários, principalmente a TV de 'n' polegadas na apertada sala que quase coloca o nariz dos moradores na tela, e geladeira, fogão e demais complementos impecáveis da linha branca na cozinha. Dentro tudo. O coletivo não é de ninguém. O orgulho é meu. "Os pobrema é dos outro".

A baderna que vivemos neste país, que não é de agora, só será superada quando começarmos a respeitar nossas cidades, para que estas sejam locais agradáveis, tranquilos, onde a população viva em paz. Coletivo, portanto com diálogo, muito diálogo. Não há outro caminho.

"Nem um centímetro a menos (das ciclovias)" não olha para cidade (de São Paulo), nem para os ciclistas. Olha para o imediato, o status entre os iguais. Tão parecido com desfilar com um tênis caro de marca importada...

terça-feira, 23 de maio de 2017

mais que uma questão de cidadania...

Espanha, mais de 60 milhões de turistas\ano, 14% PIB

Andalucía, 

Córdoba, 329.000 habitantes, 20 museus
Museu Julio Romero Torres - http://museojulioromero.cordoba.es/?id=1 
Mesquita Catedral de Córdoba - https://mezquita-catedraldecordoba.es/ - uma das principais obras arquitetônicas do planeta - embasbacante!
e ...

Málaga, 569.000 habitantes, 36 museus - 27 museus nos guias de turismo
Museu Carmen Thyssen Malaga - http://www.carmenthyssenmalaga.org/en/
Museu Picasso Málaga - http://www.museopicassomalaga.org/ - está com a exposição Bacon, Freud e a Escola de Londres, coisa para raros museus do planeta.
Museu de Málaga - http://www.museosdeandalucia.es/cultura/museos/MMA/ - umas 3 vezes o tamanho do MASP, com uma coleção maravilhosa de pintores espanhóis
Centre Pompidou Málaga - http://www.centrepompidou-malaga.eu/
e ...

E o... Brasil?
São Paulo, principal cidade do país, mais de 12 milhões de habitantes, um dos PIBs mais altos do mundo...
Como estão nossos museus e patrimônio histórico? 
Como está nossa cultura?

Abaixo o editorial da revista Beaux Arts sobre presidentes, a política de cultura na França e sua importância na macroeconomia.
Temos que sair desta baderna que o país está atolado e para isto é bom que se pense em prioridades, passo a passo. Dado o caos que nos encontramos não tenho dúvida que cultura não está entre os primeiros passos, mas creio que ninguém tem dúvida que educação, portanto cultura, deve estar entre futuros e inevitáveis passos para de fato se ter um Brasil que queremos. 
Ler este editorial prova, mais uma vez, outra vez mais, que nosso abismo é muito maior que temos certeza. Dá 'pistas' do porque a França tem a política de cultura que tem.
 


sábado, 20 de maio de 2017

A opção pelo carro preto

Um dia virou moda no Brasil ter carro preto. Sempre achei estranho porque carro preto era a cor oficial dos carros do poder público, o que naquela época era símbolo de coisa errada, jeitinho, corrupção, do que lutávamos contra. Era de se estranhar também porque vivemos em um país tropical, portanto (para quem não sabe) com clima quente, e preto é a cor que mais absorve calor. Ar condicionado em carro era coisa rara, cara, de gente poderosa; a maioria fervia dentro de seus carros pretos. A moda virou mania e colou.
Tínhamos acabado de sair de uma ditadura (dentadura) e nela o gosto popular era por carros coloridos, alegres, descontraídos: azul calcinha, verde abacate, vermelho malagueta... E aí entramos nesta democracia que hoje mostra suas horrorosas entranhas com o maior sonho de consumo justamente o símbolo dos "autoritários e poderosos". Vai lá entender. 
Poderia dar outros exemplos, mas creio que sejam bastante óbvios, basta pensar.




Não é de se estranhar que no meio desta luta de toda sociedade contra qualquer segregação a luta do cicloativismo tenha seja exatamente a segregação da bicicleta em todas as vias da cidade, mesmo onde não faz sentido ou não é necessário.

Outro dia ouvi algo que pode ser traduzido como "o tecnicamente correto não atende necessariamente aos parâmetros da ideologia", ou seja, melhor guiar-se pela ideologia do que pela lógica e bom senso. Desculpe, mas não consigo chegar lá; não entendi.

"Nem um centímetro a menos (de ciclovias)" é o slogan de luta de boa parte dos cicloativistas. E nestes termos "retomaram", ou retornaram, como queira, a ciclovia da rua Dr. Fausto de Almeida Prado Penteado, pirambeira em curva por onde dizem que passam ciclistas (só vi coxinhas domingueiros vestidos de franga pedalando bicicletas nada populares). Poderia até ser caminho para uma comunidade próxima vizinha ao Shopping Cidade Jardim, mas como acredito na inteligência e bom senso de seus moradores, acredito que eles prefiram o caminho plano e mais rápido pela calçada na marginal, onde se pode ver vários ciclistas e pedestres a qualquer hora do dia. A mesma calçada que a administração Haddad deixou durante boa parte de seu mandato tomada por mato e lama, intransitável, obrigando seus moradores caminhar no asfalto expresso. Denunciei o fato aqui.
"Nem um centímetro a menos" justamente num bairro coxinha, não uma coxinha qualquer, mas coxinha da cozinha do Restaurante Fasano? Eu sei; "Vocês são a verdade, a revolução, o futuro"? É mesmo? Desculpem, mas prefiro o diálogo, prefiro o passo atrás em nome do acordo social. Eu prefiro a paz.

O carro preto em país tropical é símbolo de prepotência, de falta de inteligência. Os tempos são outros, a vida mudou, as prioridades também, mas a bicicleta de dias atuais lembra tanto os carros pretos....

domingo, 30 de abril de 2017

qualidade, durabilidade, baixo custo, equidade

fragmento de calçamento Romano século II dC, Córdoba, Espanha
O Brasil precisa imediatamente formar calceteiros, especialistas em construção de calçadas.