quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Para progredir você prefere um ladrão inteligente, um fanático ou imbecil inerte?

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A que ponto chegamos: achar que a escolha passa por ladrão inteligente, fanático obtuso ou imbecil inerte. Esta tem sido a pergunta mais ouvida nestas últimas eleições. Não sabemos mais quem causa mais estragos. Futuro é que não dá. Tivemos os que foram muito ativos e foram pegos, mas deixaram algum legado, uns bons, outros não. Fanáticos obtusos costumam ter um olhar muito, mas muito estreito mesmo, o que por si só é um baita problema. Não olham o todo, atendem só a interesses muito específicos e ou pessoais deixando para trás discórdias, ódios, e mais problemas dos que haviam. E tem o imbecil inerte que não anda para frente, não faz porque não tem capacidade, não entende, compreende, que não resolve, mas é bonzinho, o que agrada aos incautos. Bom, estamos experimentando um egocêntrico fanático obtuso que é inerte e tem se mostrado um imbecil que cada dia está mais próximo de muitas coisas suspeitas. Ou seja, é o único que preenche todas as qualidades, reais ou imaginadas, do que hoje se deseja de um político brasileiro. Mas estamos progredindo; somos maioria que desliga imediatamente o som e a imagem quando entra o Horário Político Obrigatório. Também conhecido como Horário Político Gratuito (gratuito para quem?) serve para que? Nestas muitas eleições pós abertura política todos os candidatos que foram sinceros, coerentes e falaram a verdade foram vergonhosamente derrotados. Fica claro que não temos qualquer interesse em discutir nosso futuro com seriedade, em cima dos fatos, dos números, das possibilidades, do plausível. Me engana que eu gosto!

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Eleições municipais - Manifesto sei lá para que

Dá para entregar um Manifesto pedindo presteza e bom senso? Até dá, mas duvido que tenha qualquer efeito. Não somos afeitos à eficiência. Efeito; eficiente; tem a mesma raiz? Devem ter, caso não seja está decretado.
Quando começamos a entregar manifestos pró bicicleta aos candidatos, a partir de 1986, tínhamos a esperança que algo iria acontecer por pura inocência. Não sei o quanto o esforço dos manifestos tem haver com o que está acontecendo, mas se teve foi depois de muita espera, e põe espera aí. 
Não dá para parar de pressionar, isto é certo. Como não dá para ficar esperando. Quem espera nunca alcança. Por isto no site da Escola de Bicicleta recomendamos que os manifestos sejam realistas, o que sei que no meio deste surto de esquizofrenia é algo meio difícil.

No Direto da Fonte da ótima Sonia Racy (05 de Outubro de 2020) veio esta entrevista com Carlos Jereissati Filho onde ele fala sobre o problema da demora geral que temos aqui no Brasil para as coisas acontecerem. Quem tem assinatura vai poder ler a ótima entrevista completa ou então leiam o trecho que fiz o scanner  

Juntando a entrevista do Carlos Jereissati com o que digo aqui: ou as mudanças acontecem já ou estamos fritos. Esta demora sem fim não é só responsabilidade do poder público, é de todos nós. Se manifestar pressionando por coisas erradas, inviáveis, absurdas, cria problemas novos e dificulta mais ainda obter bons resultados. Mais, é de uma irresponsabilidade social sem tamanho. Exemplos triviais:
  • estimular o uso da bicicleta sem educar o ciclista criou sérios problemas para pedestres, para os próprios ciclistas, dentre outros. 
  • falar só em ciclovia e ciclofaixa dificulta a implantação de sistemas cicloviários onde não são necessárias
  • Quanto custa mesmo uma ciclovia? E uma ciclofaixa? Por que ninguém fala nisto? 
  • acalmamento de trânsito custa muito menos, é segurança de todos, principalmente crianças, idosos e pessoas com problemas de mobilidade.
  • o discurso "todo motorista é assassino" foi e continua sendo absolutamente contra produtivo em termos de segurança e definitivamente não é verdade. Números não mentem.
  • acidentes entre ciclistas são comuns em ciclovias e ciclofaixas, mas ninguém fala.
  • só colocar foco no ciclista limita muito o pensar outras mobilidades
  • o discurso "tem que fazer, tem que implantar" é completamente diferente de qualidade.
  • etc... (o mesmice!)
Hoje há muita informação. Os cadernos Mobilidade do Estadão vem publicando são em si um manifesto. Discordo de alguns pontos apresentados, uns porque estou cansado de ver e ler a mesmice de sempre, outros porque acredito que urge darmos um pulo para o futuro. Somos, brasileiros, praticamente medievais e o futuro é certamente digital, imediato, agora, senão ontem. Nosso blá blá blá, nossa discussão infantilmente democrata, improdutiva, nos vai levar para o atraso, muito mais que já nos levou. Não dá mais. Nos falta realismo. Nos falta manifestarmos depois de pensar um pouco sobre o nos manifestaremos. Urge sair da mesmice e olhar para a realidade minimamente com bom senso. Não existe milagre na política e principalmente na administração. Não é o que você quer, mas o que é melhor para todos, não só seus iguais, e que pode ser de fato alcançado. Um passo por vez. 
construção da ciclovia av. Brasil com diminuição do jardim do canteiro central

Infelizmente não encontrei o Manifesto que entregamos em 1986 e 1990, mas não difere muito deste entregue em 2008. Vale a leitura para ver o que se fez, o que mudou, o que ficou na mesma.

Manifesto para a Viabilização do Uso de Bicicletas e outros Modos de Transporte Não Motorizados para o Município 
POR UMA POLÍTICA MUNICIPAL PARA NÃO MOTORIZADOS 
2008

Sobre o número de ciclistas e bicicletas nas cidades brasileiras:

A bicicleta deixou de ser só um meio de lazer, esporte ou brinquedo e se tornou definitivamente uma opção de transporte. 
Nestes últimos anos o número de ciclistas circulando pelo Município não pára de crescer, seja por questões de praticidade, economia ou por causa das deficiências do transporte público. Cresce seu uso, independente da faixa etária, sexo, condição social, econômica e da ausência do Poder Público no implemento de melhorias e ordenamento garantido em Lei. 

Há uma imensa demanda reprimida de usuários da bicicleta, o que pode ser comprovado nos fins de semana, quando a frota de bicicletas na rua aumenta sensivelmente. Somente um terço das bicicletas existentes no país saem às ruas. 

Sobre o traçado urbano e a topografia, e o uso da bicicleta:

O trânsito denso e pesado na cidade está concentrado em avenidas e vias expressas específicas o que cria ilhas de tranquilidade no interior dos bairros, que podem ser usados como excelente opção de caminhos alternativos voltado para ciclistas e outras mobilidades não motorizadas. 

A desculpa da topografia acidentada não constitui problema tanto porque a maioria das bicicletas é dotada de marchas. o que permite vencer com certa facilidade até aclives acentuados. Isto faz com que o padrão técnico de declividade para uso de bicicletas existentes hoje seja outro. 

A bicicleta é veículo ideal para pequenas e médias distâncias, muito eficiente até 4km. Tem uma média de velocidade urbana entre 12 e 18km/h, dependendo do número de semáforos. Sua aceleração e manutenção de velocidade tornam incompatível o convívio do ciclista com trânsito de vias expressas. Portanto é dentro dos bairros e suas ruas tranqüilas onde há a situação mais apropriada para estabelecer o uso da bicicleta. 

Pensada com inteligência a bicicleta traz notáveis benefícios para o seu usuário, para a comunidade local e para a economia da cidade como um todo. Bicicleta abre as portas para um desenvolvimento urbano mais justo para todos os outros não-motorizados. 

O uso da bicicleta transforma e educa para a vida. 

A vida do ciclista e dos não-motorizados hoje: 

Não resta dúvidas que o uso da bicicleta está e continuará crescendo, independente da presença ou vontade dos Governos, o que positivamente não é uma situação ideal. A conseqüência disto está nas poucas estatísticas que mostram o aumento de problemas. 

O descuido beira o inaceitável. 

Não é de interesse dos ciclistas e menos ainda de toda sociedade que, por descaso do poder público, haja mais um veículo gerando conflitos em vias que já estão no seu limite. 

Esta situação pode apagar a imagem simpática que a bicicleta ainda tem, o que só faria piorar a situação. 

Pela ordem e o progresso respeitando todos direitos: 

Urge respeitar direitos e cumprir a Lei, fazer presente o poder público em suas obrigações com relação aos ciclistas e todos demais não-motorizados. 

É conveniente abrir canais de comunicação e obter colaboração de ciclistas e outros não-motorizados experientes para a solução dos problemas. 

Quem não usa veículos motorizados se encontra abandonado. É necessário rever a política de transporte para que esta inclua e integre todos os modais de transporte. 

Infelizmente, parece ser necessário lembrar que todo cidadão tem direito à mobilidade, ao compartilhamento do espaço destinado ao trânsito, à saúde pública, à redução de acidentes, à preservação do meio ambiente, enfim, ao respeito e a dignidade. 

É absolutamente impossível continuar negando a existência da bicicleta, do ciclista, do cadeirante, do deficiente, do pedestre e de todos outros não-motorizados. 

Por uma política de trânsito democrática. 
Pela criação de uma política de mobilidades amplamente inclusiva. 

Pontos básicos de reivindicação: 

Para todos: 

1. pedestres!: lembrar sempre que nós todos somos pedestres! 

2. iniciar política voltada para todas as mobilidades. 

3. respeitar os direitos de menores, idosos e não motorizados 

4. inclusão em curto prazo de pessoas com necessidades especiais (15% da população) 

Para o estímulo ao uso da bicicleta; 
Levantamento geral da situação atual: 
  • Mapeamento feito sob o ponto de vista do ciclista 
  • Campanha Educativa 
  • Educação para o Trânsito voltada para Crianças e Adolescentes 
  • Bicicletários, pára-ciclos e estacionamentos 
  • Criação de órgão responsável pelas bicicletas e não-motorizados para o Município e área Metropolitana 
  • Dar treinamento específico para policiais e técnicos 
  • Criação de Polícia-ciclística 
  • Formação de orientadores / professores de segurança ciclistas 
  • Banco de dados específico 
  • Contato com entidades representativas de motorizados 
  • Rever Leis e tomar providências necessárias 
  • Levar em conta todas alternativas - não restringir se a ciclovias 
  • Planejamento e execução de projeto melhorias: Ciclorede 
  • Colocar na rua orientadores / professores de segurança no trânsito voltados para o ciclista comum, que trabalhem pedalando e vivenciando os problemas da bicicleta > educação + pesquisa = banco de dados = segurança = menor custo 
  • Cadastramento e controle imediato das bicicletas profissionais – bicicletas de carga / entrega, definindo responsabilidades. 
  • Criar facilidades em estradas que cortam o Município. 
  • Criar áreas de treinamento esportivo 
  • Definir responsabilidade legal sobre a criança ciclista e uso de calçada 
  • Definir regras de uso em parques e espaços públicos 
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Escola Blogspot 
25 de Junho de 2018 

Manifesto a todos candidatos das eleições de 2018 
Pela redução imediata do genocídio no trânsito e pela reconstrução para cidades menos violentas 

CONTRAN: 
  • Ter um CONTRAN dinâmico, ligado à realidade, às rapidíssimas mudanças que estamos vivendo. As respostas são absurdamente lentas para a carnificina que temos. 
  • Aprovação de sinalização própria para ciclistas e outros transportes ativos 
  • Ser realista 
  • Derrubar o uso indiscriminado de pintura vermelha em ciclovias e ciclofaixas. Racionalizar os recursos. Dar inteligência. 
  • Imediata regulamentação de luzes e faroletes para bicicletas. Regulamentar pisca-pisca 
  • Estradas conurbadas – caminho de trabalhadores – estudar e dar solução para os movimentações ativas: ciclistas, pedestres,... 
  • Multas: estabelecer critérios que priorizem a segurança e preservação da vida. A indústria da multa, existente ou não, tira autoridade, o que é péssimo para a segurança no trânsito. Evitar pegadinhas 

Congresso Nacional: 
  • Unificar B.O.s em todos níveis, Municipal, Estadual, Federal – Guarda Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária, Polícia Federal 
  • Unificar banco de dados sobre multas, acidentes e mortos. Regionalizar 
  • Melhorar condição de trabalho das polícias Técnica, Científica e Legista 
  • IBGE: mapear e cruzar dados sobre mortes violentas e outros tipos de violência e acidentes de trânsito 
  • IBGE: incluir levantamento número de bicicletas, de ciclistas, outras mobilidades ativas e seus modais, no Brasil. 
  • Fazer seminário ou congresso periódico de âmbito nacional com todos 
  • Estabelecer normas para intermodais. 
  • Banco de dados nacional sobre roubos de bicicletas – parece bobagem, mas é uma questão seríssima, influenciando na segurança geral, vide situação nas grandes capitais do mundo e em especial na Holanda 
  • Iniciar trabalhos com vista a criação de sistemas cicloviários intermunicipais, regionais e metropolitanos 
  • Vincular construção de novas estradas às movimentações, segurança e bem estar da população não usuária de veículos motores 
  • Estradas conurbadas: ver legislação e fazer modificações necessárias para resolver as questões de segurança de pedestres e ciclistas. As soluções atuais tem se mostrado impróprias na maioria dos casos. 
CTB, Código de Trânsito Brasileiro: 
  • Rever CTB: estabelecer vias como espaços públicos e espaços privados de uso público, dando suporte legal a nova dinâmica de vida que todas as cidades não só do Brasil estão ganhando. O padrão ainda rodoviarista está sendo revisto em todo mundo 
  • Ver a questão de transporte como mobilidades humanas e transporte para cargas 
  • Mudar padrões técnicos de geometria viária de forma a dar mais segurança, conforto e prazer a todos transportes ativos. 
  • Imediata ação para minimizar problemas causados por estradas conurbadas. Repensar conceitos para vias expressas 
  • Rever as leis, e seus conceitos, sobre dinâmica e eficiência linear das movimentações em vias públicas (exemplos: diferentes velocidades para momentos diferentes do dia e local; rever os conceitos de semaforização, sinalização horizontal e vertical; uso de inteligência para os fluxos, no que estamos atrasados décadas...) 
  • Iniciar estudos, colher dados, informações, e fazer pensar os caminhos que as redes sociais darão às cidades de hoje e de amanhã. Propor regulamentações e leis específicas. 
  • Rever legislação e normas sobre vias sobrepostas: viadutos, túneis, anéis viários, vias expressas... 

Bicicletas e Mobilidades ativas: 
  • Estudar e propor soluções para a questão de todos veículos elétricos individuais de pequeno porte - monociclos, patinetes, bicicletas, mini scooters, segway.… 
  • Criar e regulamentar sinalização própria para ciclistas e mobilidades ativas. Continuar a usar sinalização comum a todo trânsito motorizado para ciclistas cria uma série de confusões perigosas. A dinâmica de leitura da sinalização por quem se transporta de maneira ativa é muito diferente. 

Educação: 
  • Criar sistema educacional realista para crianças e escolas. Fazer as crianças brincar de adultos talvez não seja o único nem o melhor caminho para educação infantil. 
  • Ser realista: entender a situação local e trabalhar segurança no trânsito comendo o mingau quente pelas bordas. A lei pela lei, o CTB como única salvação, só amplia o gravíssimo problema de segurança que temos no país. Na atual situação o CTB não tem a legitimidade que deveria. 
  • Ciclistas e pedestres estão praticamente no mesmo barco (para não citar pessoas com deficiência e outros). É inaceitável a falta de cortesia (para dizer o mínimo) dos ciclistas para com os pedestres, fato infelizmente comum. Não só com eles, mas com outros ciclistas também. Se faz urgente um plano de educação para os ciclistas. 

Cidade; urbanismo, outras mobilidades: 
  • Obrigar a existência de mapas urbanos com um mínimo de três níveis: solo, subsolo e corte das construções. Sem mapeamento é literalmente impossível resolver grande parte dos problemas que temos de transportes. Mais: sem mapeamento estamos condenados não acompanhar o desenvolvimento urbano necessário para as cidades tecnológicas, o que representa riscar o Brasil do mapa dos países em desenvolvimento 
  • Pensar desenho urbano de favelas e suas mobilidades 

Ciclismo esportivo 
Cicloturismo 
  • Cicloturismo e ciclismo esportivo é realidade, fato consumado, e precisa ser tratado com realismo. A tendência irreversível é crescimento constante 
  • Formalizar, sinalizar, tomar providências para estradas que já são caminhos de romeiros ou áreas de treinamento de ciclistas 
  • Estradas conurbadas – problema seríssimo 
  • Estradas vicinais 
  • Acostamentos – manutenção 
  • Uso de federações e clubes de cicloturismo para educar ciclistas 
  • Definir normas e treinar Polícias Rodoviárias

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

palavra

Baseados em fato reais; personagens fictícios

- Como assim ele tomava pico?
- Você acha que ele pedalava daquele jeito por que?
- Nunca ouvi falar. Era um cavalo pedalando. Mas pico; tem certeza? Ninguém nunca falou uma palavra.
- Por que tinha um bocado que tomava e os que eram da turma ficavam quietos.
- O que? Lei do silêncio?
- Cara, deixa de ser mané.


Fui expulso do colégio e meu pai me mandou estudar num colégio interno da Inglaterra. Num dos primeiros dias o Reitor do colégio me pegou fumando, parou olhou para mim e seguiu. Um pouco depois fui chamado pelo coordenador de disciplina que me disse "O Reitor parece ter visto o senhor fumando", e como bom brasileiro respondi "Não estava fumando. Era o vapor de minha respiração por causa da baixa temperatura"; e fui dispensado pelo coordenador. Na hora do almoço me servi e fui sentar numa das mesas onde estavam outros sete alunos e no momento que coloquei a bandeja na mesa todos pegaram suas bandejas e se levantaram. Um pouco depois fui para a sala de estudos, sentei numa mesa e todos pegaram seus livros, se levantaram e se afastaram. Achei estranho, não entendi. Um aluno italiano veio a mim e explicou que a reação de todos se devia a minha falta de palavra. Eu havia mentido. Fui até o coordenador e assumi minha falta e tudo voltou ao normal.
(Contraponto: Brexit, Boris Johnson, masquerade or not masquerade; that's the question)

Palavra ou corporativismo?

Ocultou dinheiro na cueca por impulso - "Era para pagar meus funcionários".

"... até que a morte os separe". Nunca entendi porque quando o padre faz esta pergunta todos os presentes não caem na gargalhada, mas assim é a fé.

A palavra vira dogma pueril que se sopra no sagrado e desaparece no profano. Adoro a expressão argentina "não vale um peido". Assim é

Para que serve a palavra?
Palavra ou coletividade?
Coletividade ou corporativismo?


Entrei no estúdio da rádio, sentamos na sala de espera e tentamos descobrir o que cada um tinha em mãos. Através do grosso vidro do estúdio víamos o radialista movimentando a boca sem emitir um som, o que aumentava a ansiedade. A pesada porta se abriu lentamente e fomos chamados a entrar no "aquário", o estúdio. Nos foi apontado as cadeiras onde devíamos sentar, a porta isolante se fechou e um silêncio surdo, abafado se fez. O apresentador deu boa tarde a todos afastando o microfone suspenso, cabeça baixa olhando papeis sobre a mesa, falou besteiras para descontrairmos tendo ao fundo baixinho o som das propagandas que estavam no ar. Olhou com atenção para cada um de nós três, explicou como seria, pediu os nossos discos que demos a ele com prazer, olhou um por um. Eram discos incomuns não só para a programação da rádio. Pegou um dos meus, o mais raro. Olhou capa, girou, leu a contracapa. "Nunca vi? Que estilo tocam?". "Pesado, denso, tem uma força rara", respondi. "Que faixa vai? O Paul Willian conheço. É muito bom". "A primeira, faixa de abertura, dá o tom do disco, o pessoal vai gostar". Deitou meu disco sobre a mesa e deu uma última olhada com atenção. Pegou no colo o disco do garoto que sentava ao meu lado direito; "Este eu conheço; muito bom. Vai querer tocar o que? Tem umas quatro (faixas) boas", o garoto respondeu voz baixa e mesmo no profundo silêncio do estúdio não consegui ouvir. E finalmente pegou o disco do terceiro garoto; "Muito bom. Posso escolher?"; o garoto riu feliz e respondeu "Vai firme". O som das propagandas parou e uma voz saiu imperativa dos alto-falantes "Silêncio. Vai entrar", e começou o programa. No "Boa tarde a todos..." do radialista aumentou nossa tensão, todos petrificados em suas cadeiras. E durante uma hora falamos grossas besteiras sobre os discos e as músicas que tínhamos escolhido, levado e estavam sendo tocadas. Terminado o programa um dos meninos pediu desculpas, disse que tinha que ir, pegou um disco e saiu rápido. Fiquei conversando com o radialista com o meio silêncio da porta de isolamento aberta, que estendeu a mão e deu o disco do menino que saíra apressado. "Como faz agora? Vocês têm o telefone dele? O disco não é meu, é de um amigo. É raro, muito raro. Você nem sabia da existência". Enrolaram, e inocente fui embora com o que tinha nas mãos. O velho amigo dono do disco, emprestado para ser tocado naquele programa de rádio tão especial, ficou furioso, mais que esperava. Cabisbaixo e irritado prometi "Vou conseguir um novo"; ele sequer respondeu, fechou a cara e se foi, um trauma na amizade que custou alguns anos. Demorei 18 anos para encontrar o disco e devolver.


Hoje, 23 de outubro de 2020, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, declarado, reconhecido e respeitado como o Atleta do Século XX, faz 80 anos.
Quando Pelé estava comemorando 1.000 gols ele saiu falando “Precisamos olhar as criancinhas do Brasil”, isto em 1969, anos de chumbo. Pelé foi pesadamente criticado pela declaração não pelas autoridades, mas por gente de esquerda. (Obrigado Pelé) 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Ser da periferia como álibi

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A propaganda eleitoral tem divulgado com frequência candidatos que apresentam no currículo terem nascido ou estarem vivendo na periferia ou em favela. É currículo ou álibi populista? Somos todos humanos e o local onde alguém nasceu ou vive definitivamente não é recibo de responsabilidade social, muito menos de honestidade ou preocupação com o próximo. A história mostra que muitos destes depois de ajeitados preocupam-se com esforço e esmero de seus próprios interesses virando as costas para o passado. Na periferia, nas favelas ou no meio do Jardim Europa, onde nasci, tem de tudo, de gente que ajudou e segue ajudando a construir um país mais rico e socialmente mais justo aos que deveriam estar presos. O formato de campanha eleitoral veiculada só dá espaço para propaganda chinfrim, vergonhosa, ocultando quem é de fato o candidato. Inteligência, saber, capacidade de trabalho, ação e diálogo, honestidade, e principalmente propostas realistas continuam fora da pauta. O voto foi e continua sendo direcionado por populismos, de todos matizes, direcionados para as maiorias incautas que acreditam que a solução de seus problemas está na solução caseira. Definitivamente não é.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Trânsito, multas, critérios, populismo

Recebi uma carta notificando que fui mais uma vez multado na Itália, desta vez em Bolonha. Não é novidade, ser multado na Itália é fato corriqueiro e só não recebe um bilhete quem nunca dirigiu lá. Virou piada, cara por dizer, conto para alegrar toda uma mesa, gozação sobre quem são os italianos, povo tão amado, país tão lindo, delicioso, mas pródigo em histórias esdrúxulas. 

Minha primeira multa foi em Florença. A locadora onde peguei o carro para ir a Siena fica uns quarteirões atrás da estação ferroviária, dentro da área histórica. Quando voltei para devolver o carro segui o GPS e fui pelo único caminho apresentado. A multa foi por circular na área histórica. Bom, e daí, como faço para devolver o carro? Pelo que entendi todos que alugam carros naquela locadora são multados em algum momento. Genial. 

Em Bolonha fiquei no Hotel Aemilia, um dos maiores da cidade, fora da área murada, a histórica, restrita. Para encurtar a história, o acesso ao hotel e seu estacionamento se faz por uma única e calma rua. Pelo que entendi eu poderia ter chegado e saído do hotel com o carro, mas no entremeio não poderia ter saído do estacionamento, o que fiz para visitar outras cidades. Contestei a multa e veio uma explicação que a rua é exclusiva para transporte coletivo e táxis, portanto eu não poderia estar circulando ali. Como? Não posso entrar e sair do hotel com o carro e mesmo assim ele tem estacionamento liberado pelas autoridades de trânsito? Táxis só os que pegam os hóspedes. Ônibus? Saí inúmeras vezes caminhando do hotel e não me lembro de ter visto um ônibus sequer. Nem ouvi um do quarto. 
Um detalhe que me ocorreu agora, depois do texto publicado: as autoridades de Bolonha afirmam que tem imagem do carro circulando na via dia 02-05-2018 / 10:15:00. OK. Se eles tem câmera na via porque não fui multado as outras 3 vezes que passei com o carro ali? Estacionei no hotel, fui multado quando sai para conhecer outras cidades próximas, voltei para o hotel, e finalmente deixei o hotel e Bolonha. Por que uma única multa? 

Qual é o critério destas multas? Aumentar o orçamento? Pegar turista trouxa? Muitos dizem que é golpe. Outros dizem para não pagar. Muitos dos que alugaram carro na Itália receberam multas "estranhas". 

Fato é que tive a oportunidade de viajar muito nesta última década, rodei para valer e multa só estas italianas. Dizem para não me preocupar que é assim mesmo. 

Ou é golpe ou é... 

CRITÉRIO: 
Na revisão do texto veio o exemplo máximo de um critério errado: O Ministro do Supremo Marco Aurélio uso a lei no literal e liberou um dos traficantes mais perigosos do Brasil. Errou pesado no critério. 

No Brasil, portanto aqui, este senhor que está presidente e tem filhos queridos (para ele), assinou mudanças no CTB para atender seu eleitorado. Por trás de toda esta história está um velho problema que afeta o trânsito do Brasil assim como a Itália: "critério". Quando o critério usado parece esconder segundas intenções por trás a crença na ordem é afetada, para dizer o mínimo. O reflexo mínimo desta dubiedade, por assim dizer, é a queda no respeito à autoridade, o que se reflete numa diminuição no respeito às regras e leis. 

Aceitar que errou não é algo trivial, não é da índole humana. Ter que engolir a seco que tomou uma multa que cheira a pegadinha é de lascar, deixa qualquer um puto com total razão. Estabelece-se segurança quando os critérios são claros, não há dúvida sobre a intensão final. 

O trânsito brasileiro é cheio de pegadinhas. Melhor, o trânsito brasileiro está cheio de critérios duvidosos, seja por falha da lei, por falha da aplicação das normas e regras, por falta de bom senso, ou completa inépcia de engenheiros e autoridades. 

Brasileiro não acredita no CTB e tem montes de razões para tanto. Critérios estranhos ou duvidosos abrem portas para insegurança, causam acidentes, vítimas, mortes, incapacidades permanentes. Pior, muito pior, agora, no meio deste surto de ignorância, serve ao maior perigo de todos: populismo da pior espécie. Corre a fofoca que o CONTRAN vai criar uma sinalização específica para motoristas não caírem no espaço quando a terra plana acabar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Ciclofaixas da Eugênio de Medeiros / rua Capri > Terminal Pinheiros

Mantenho o texto abaixo, mesmo tendo descoberto que estão estendendo as ciclofaixas. Agora pintaram a rua Sumidouro até a Gilberto Sabino. Não faria pelo simples fato que estão estimulando o ciclista a desaparecer na sombra dos ônibus. Os motoristas não vão ter uma visão de espelho adequada dos ciclistas. E se pintaram, sinalizaram e tacharam a Capri para que pintar a Sumidouro até a Gilberto Sabino? Não faz sentido. 

Rua Eugênio de Medeiros onde durante dois anos só existia uma faixa branca respeitada por todos, inclusive motoristas. Por que gastar dinheiro com o que sempre deu certo?

Cruzamento com rua Capri, que vem do Terminal Pinheiros e segue pela Paes Leme. A sinalização é novíssima. Quem conhece ciclista sabe que a maioria não vai esperar o semáforo para cruzar e descer para o Terminal. Não faria este cruzamento de ciclofaixa com faixa de pedestres num lugar que tem picos de pedestres. Há exemplos que provam que não é o apropriado, como o do cruzamento da Faria Lima com a rua dos Pinheiros. 
Tenho várias razões para acreditar que a implantação da ciclofaixa não vá terminar os inúmeros conflitos com os pedestres.

Trecho da ciclofaixa que desce para o Terminal e o bicicletário. Vão colocar descida e subida neste espaço tão estreito? Como fica o fluxo do transporte coletivo em horário de pico com a perda de uma faixa de rodagem? Já acontecem congestionamentos nesta única saída do terminal. Acredito, ou espero, que tenham calculado isto. 
A solução, repito, seria evitar que os ciclistas cheguem até a rua Capri, que nos picos é bem saturada de veículos e pedestres. Ciclistas deveriam acessar o terminal pela estreita e pouco movimentada rua Conselheiro Pereira Pinto, acalmando o trecho da rua Gilberto Sabino entre a Conselheiro e a Capri. 

Já publiquei minhas inúmeras razões para ser contra  a implantação desta ciclofaixa, mas incluo uma mais aqui. A área do Terminal, que incluo a rua Gilberto Sabino, tangencial ao terminal, externa ao estacionamento dos ônibus, deveria se transformar em área acalmada para segurança de todos pedestres, ciclistas, cadeirantes... É fato que a Gilberto Sabino é caminho obrigatório para quem vem da Costa Carvalho e quer chegar na Paes Leme ou quer acessar a ponte Bernard Goldfarb, mesmo assim acalmaria o trânsito local. 

Faz tempo que não vou a outros terminais de ônibus da cidade, mas o que me lembro e que provavelmente deve continuar igual é que pedestre sempre é preterido à circulação dos ônibus ou mesmo de outros veículos, táxis e automóveis que embarcam / desembarcam passageiros. Aliás, pelo que se vê na cidade pedestre deveria ser expulso das ruas para não atrapalhar o trânsito.
Vale a pena ler o artigo do Retomada Verde, do O Estado de São Paulo, A14 | Metrópole | 15 de Outubro de 2020 - Cidades do Brasil são ruins para viver a pé, pesquisa realizada pelo ITDP. 

um dia interessante

Foi um dia proveitoso. Pela manhã vi um candidato que durante décadas defendeu as ciclovias com unhas e dentes dizer que quer ter o direito de pedalar na rua com os carros, com o que concordo em grau gênero e número, mas a postura veio um pouco tarde demais. 

Apanhei muito por ser contra a ideia que ciclovia, ciclovia, ciclovia mais ciclovia como única saída para a segurança dos ciclistas e por imaginar que se poderia construir um sistema cicloviário integrando com segurança o ciclista ao viário existente, usando ciclovias e ciclofaixas onde realmente é necessário, que com inteligência é muito menos que leigos possam imaginar. O ponto de partida dos que defendiam ciclovia, ciclovia, ciclovia é que todo motorista era um assassino em potencial, o que os números mostravam que não eram bem verdade. Números comparáveis aos de NY. Como colou que "todo motorista é um assassino" em potencial e pedalar no trânsito é muito perigoso o povão comprou a ideia da ciclovia sim ou sim é a única solução para a segurança do ciclista. Ouvir "eu quero pedalar no meio dos carros e deixar a ciclovia para quem quiser" acaba sendo gozado. Mamãe já dizia "Ou você ri da vida ou a vida ri de você". Pois aí está. Neste embroglio perdeu e muito a cidade e principalmente a segurança dos ciclistas, dentre outros. 

E a conversa continuou. 
Mobilidade ativa elétrica? Estranho. Ou é mobilidade ativa ou é elétrico, mas que seja, patinetes, skates, monociclos, bicicletas e outras geringonças movidas a motor elétrico são uma realidade e ponto final. De, como ciclista, não gostar destes meios de transporte elétricos no meio da ciclovia ou ciclofaixa a não incluí-los num projeto de mudança das mobilidades há uma distância enorme, distância que separa uma cidade que funciona e tem futuro para um jogo ridículo de eu sou melhor que você e aqui você não entra, não tem direito. É uma questão de diálogo como os diferentes ou alguém me esclarecer: bicicleta é azul claro ou rosa? Trânsito é diálogo, diálogo entre todos, incluindo veículos motorizados, ou não há segurança, nem com a melhor ciclovia dos mundos. É um pouquinho mais técnico que isto, mas fico por aqui. 

Pedestre? Quem? Não, não ouvi palavra sequer. O que é mesmo pedestre? Ok, escrevi besteira, na propaganda tem pedestre. Mas pedestre pode cruzar ciclovia? 

Fim de conversa. 

Peguei minha reta e fui. 
Estão consertando a ciclovia da Pedroso de Moraes, uma das mais movimentadas de São Paulo. Para que não faço ideia, ou faço, tu fazes, ele faz, nós fazemos, vós fazeis, eles fazem, mas o que interessa? Cimento novo precisa um tempo de cura, por isto conificaram a Pedroso de Moraes desde quase o Parque Villa Lobos até a Faria Lima para os ciclistas continuarem a pedalar com segurança. Ok, correto. O detalhe é que pela manhã a Pedroso tem um trânsito muito pesado sentido CEASA - Ponte Cidade Universitária / Faria Lima / Rebouças. No sentido contrário o trânsito é tranquilo. É óbvio que conificaram onde o trânsito é mais - não - é muito complicado. Qual a razão? Pergunta para as autoridades. 

Propaganda é a alma do negócio. Compra quem quer. 

Se na administração Haddad muitas ciclofaixas e ciclovias sem sentido foram implantadas, nesta administração Covas consertaram muitos defeitos imperceptíveis e ao meu ver inexplicáveis. Tudo igual. 

E volto para casa e o trabalho e a ciclofaixa que foi uma respeitada (por motoristas) linha branca pintada no asfalto de minha rua onde não passa ninguém está toda tachada e sinalizada. Cara, para que? Será que a cidade não tem outras prioridades? Quanto custou? 

“Quanto mais ciclovia e ciclofaixa melhor” gritam os ativistas. Propaganda é a alma do negócio. Compra quem quer. Quanto mais melhor. No caso não vão comprar porque não foi feito pelos iguais. É como marca na roupa: Adidas, Nike, Kelvin Klein..., só que sem mistura, não veste bem misturar. Azul claro é azul claro; rosa é rosa. 

E aí vamos. Que dia interessante.