sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

100 km em bicicleta ou em ônibus?

Fazer 100 km pedalando ou em ônibus é uma comparação que a princípio não faz sentido, afinal um ônibus na estrada é muito mais veloz que um ciclista pedalando. Bicicleta é muito rápida para distâncias curtas, em torno de 5 km, dentro da cidade, onde os cruzamentos travam o andar dos veículos motorizados. A comparação só começa a fazer sentido quando se leva em consideração que o tempo de viagem deve ser de porta a porta. Para ir em ônibus é necessário pegar um táxi ou ônibus para ir até a rodoviária, lá comprar passagem, esperar o ônibus, entrar nele, fazer a viagem, chegar na rodoviária de destino, descer do ônibus e pegar as malas, encontrar um táxi ou pegar um ônibus e só então chegar de fato ao destino. Este é o tempo porta a porta viajando em ônibus.
Em bicicleta você abre a porta de casa, sai pedalando e chega pedalando ao destino final; num porta porta direto. Aí está a grande vantagem da bicicleta.
Ônibus e automóveis estão perdendo sua eficiência principalmente por conta dos congestionamentos, e as viagens confortavelmente sentado neles estão cada dia mais demoradas e cansativas. Bicicleta desconhece congestionamentos.
Em 20 km dentro da cidade a bicicleta, dependendo do horário, já é mais eficiente que automóveis. A cada dia o trânsito urbano fica pior. Mas numa estrada? Até que distância a bicicleta é mais eficiente?

Ida para Indaiatuba pedalando
Sai do Parque Villa Lobos, São Paulo, exatamente às 8:00 h de domingo e cheguei em Indaiatuba às 13:40 h com duas paradas num total de 40 minutos, uma para um lanche rápido e outra para almoço. Fiz 94 km de pedal numa Haro Flightline (maravilhosa) MTB aro 26, pneus 2.1 com 45 libras, 24 marchas, pedivela 175 mm, perfil para terra, deliciosa, mas um pouco lenta no asfalto. E eu não ajudei. Sai de São Paulo por um caminho desconhecido por dentro do bairro dos Remédios mais demorado que o normal.  Estou em recuperação de um machucado feio na perna esquerda e pedalei feito velhinho (que sou nos meus 64 anos), sentindo um pouco os joelhos (praticamente parado durante a recuperação do ferimento), subindo bem devagar e tendo vento de frente. Enfim... 
Pedalando de São Paulo - Indaiatuba em 5:40 horas, porta a porta. 

Volta para São Paulo em ônibus
Sai do Nakayoshi, ótimo restaurante japonês em Indaiatuba, às 12:30 h e tive a sorte de chegar na Rodoviária pegar o ônibus das 13:00 h que estava fechando a porta para sair. Agradeço ao simpático motorista pela cortesia. Desci do ônibus na rodoviária do Tiete às 14:45 h, uma viagem praticamente sem trânsito inclusive na Marginal, o que se tratando de dia de semana em São Paulo é muita sorte. O motorista disse que a viagem normalmente é pelo menos 15 minutos mais demorada. Mais uma hora pedalando até em casa, no Parque Villa Lobos, e às 15:45 h fim de viagem. 
Portanto 3:15 h de porta a porta viajando em ônibus de carreira; com muita sorte.

A diferença entre ir pedalando e de ônibus foi 2:15 h. Muito? Depende. Mas foi muito menor do que eu próprio imaginava.

A verdade é que nunca se sabe quanto tempo a viagem vai levar num carro ou ônibus. Acreditar que a bicicleta será o transporte das viagens do futuro é de uma besteira sem tamanho. Todo planeta depende dos transportes motorizados e eles devem continuar aí. O que temos que fazer para evitar um colapso nos transportes?

Bye bye Ford, Bye bye GM, Bye bye Brasil

Fórum dos Leitores
O Estado de São Paulo

A Ford fechou as portas, a GM faz ameaças de fechar, a Mercedes Bens mandou recado não faz muito. Várias são as razões começando pela crise mundial do setor automobilístico da qual ninguém escapa e quem vem sendo anunciada a décadas. Como sempre na contramão da sensatez o país do nunca antes, Brasil, estimulou de forma irresponsável o inchaço do setor. Hoje temos mais de 35 marcas de automóveis em operação no mercado nacional numa concorrência selvagem. Alguém saiu ganhando e não foram os brasileiros. Sem qualquer planejamento estratégico, como sempre, o resultado imediato foi congestionar ruas, avenidas, estradas degradando rapidamente o meio ambiente urbano, resultando em desagregação social e consequente violência, causa e efeito também conhecido a décadas. Boa parte da população acabou em dívidas, acidentada ou mesmo morta. O sonho do carro próprio foi mais uma punhalada do mais puro e já tão conhecido populismo. Acabada a festa promovida principalmente, mas não só, pelo PT. Como de esperado os mesmos sindicatos que deram luz ao PT calaram sorridentes durante a orgia agora rugem bravatas e ameaças. Só não acreditou que aquilo ia dar nisto quem não quis ou quem levou algum e quer que se dane o Brasil. Lodaçal social que está só começando sua destruição que ninguém sabe onde vai dar. O resultado do Brasil do nunca antes, o Brasil de todos a qualquer preço, frutos podres do populismo, está chegando aí. Se queremos mudar o rumo de nossa história é bom parar de acreditar em sonhos e começar a falar a sério. Não existe almoço grátis.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Cidade com regras são mais felizes.


Este texto sobre o Centro de São Paulo já estava em fase de revisão quando Tereza me mandou um artigo do NY Times sobre as redes de padarias que estão entrando em NY. E parei e repensei não só o texto, mas tudo, com um nó na garganta. Pobre São Paulo!

A quantidade de textos e artigos publicados sobre a vida de NY é grande e variada, apontando para uma cidade que sim tem seus problemas, mas sobretudo vibra progresso no espírito, olha para frente, busca constantemente o caminho da qualidade de vida para todos, num norte claro, bem iluminado, preciso, inquestionável: a da própria cidade. Em publicações de outras cidades, metrópoles, de diversas partes do mundo, se vê o mesmo foco positivo, construtivo, mesmo na crítica imbuído do bem da cidade. Funciona, está cientificamente provado!

Como são as notícias que temos diariamente? Como são nossas programações da TV, rádio, Internet....?

São Paulo deu um salto impressionante no sentido das liberdades individuais, mas com que efeitos colaterais?

Tenho 64 anos, creio que sou dos paulistanos que de fato conhece um pouco desta imensidão chamada São Paulo, cidade riquíssima de vida e detalhes, e nunca, nunca, nem em pesadelo, vi tudo tão largado como está agora, principalmente o Centro. Sou de uma época que se dizia que em São Paulo só tinha gente na rua a trabalho ou fazendo compras. Estranho dizer, mas era uma sociedade fechada mas coletiva, o espírito era pelo sim ou pelo não “vamos, paulistanos, construir nossa cidade, São Paulo”. Hoje temos pessoas nascidas nesta cidade muito mais abertos, mas individualistas. Paulistanos? "Eu!? - selfie!, sou mais eu. E minha rede social...”.

Liberdade a qualquer custo? A cidade é meu direito, para meu proveito?

Em nome da liberdade individual é possível justificar a situação histórica de Maria, a moradora de rua da Oscar Freire e redondezas, uma das mais velhas, sofridas e resistentes mendigas da cidade? É possível justificar no que o Centro de São Paulo se transformou? O título de "cidade mais pixada do mundo" é merecedor de aplausos? Justificar o comportamento dos usuários das novas mobilidades com os pedestres? Justificar o silêncio frente ao lixo nas ruas e a inacreditável depredação generalizada? Justificar pequenos crimes?....

Deveríamos ter cuidado ao resmungar sobre nossa preciosa liberdade individual, principalmente quando usamos um rígido discurso ideológico. Nestes termos não tem desculpa que se encaixe para dar justificativa plausível. Liberdade fajuta não é exatamente uma liberdade, mas engodo, quando não massa de manobra.

Liberdades individuais são muito mais que bem vindas, deveriam ser sagradas, mas só vão se sustentar quando respeitarem e se encaixarem no macro espírito coletivo, no espírito da cidade.

Do Budismo: não existe liberdade sem disciplina.

Da história, do bom senso, do 1+1=2:
Não existe cidade sem regras.
Não existe justiça sem princípios.
Não existe equidade sem disciplina.

Cidades ou comunidades que construíram uma boa qualidade de vida trataram todos pelas mesmas regras, até os miseráveis e os excluídos. E os resultados foram melhores que o esperado, mesmo que carregando algumas distorções sociais. Não só é utópico, é completamente fantasioso acreditar que não vai se ter um sistema sem pobres, mendigos, alternativos, fora do contexto, viciados... É biológico. O que alguns sistemas conseguiram foi esconder a realidade, tirar de circulação os indesejáveis. A maioria, 90% ou mais, se encaixam nas regras, 7% mais ou menos aceitam com restrições, uns 3% correm por fora curva, mas vivem dentro do sistema. E ai entram os sociopatas, que são traço, mas um traço perigoso.

Aí entra a teoria do vidro quebrado. Quando você não conserta rapidamente um vidro quebrado de uma janela outros vidros serão quebrados, e se não consertar o quebra quebra se alastra com rapidez. Para manter a ordem troca-se rapidamente o vidro quebrado. Hoje isto não é mais teoria, é dado comprovado pela ciência, é a base do Tolerância Zero tão conhecido por NY, mas na realidade há muito aplicado em todo planeta sempre com bons resultados. Com as coisas em ordem e funcionando bem a imensa maioria ganha liberdade individual, o que ajuda muito inclusive os marginalizados a ter uma vida com mais qualidade.

Convívio social é elemento básico e essencial para a saúde física e mental individual e coletiva. Só existe convívio social com respeito a regras, que por diversas razões são bem elásticas, mas são regras, ou princípios, como queira. Por mais diferentes que venham a ser as regras sempre haverá algum vínculo entre elas. É humano, é biológico, é animal, é regra de sobrevivência.

Mijar e cagar, deitar onde bem entender, beber sem parar, conversar aos berros em local público é improdutivo para os próprios miseráveis. Quanto menos pessoas passarem pela Praça da Sé pior ficará a situação de todos aqueles miseráveis até porque circulará menos dinheiro, haverá menos trabalho, menos impostos, menos verba para assistência social, a vida ficará mais dura, o distanciamento da sociedade aumentará, o número de cidadãos circulando diminuirá, o ambiente ficará mais pesado, a rua ficará mais violenta... Um círculo vicioso cada vez mais difícil de ser vencido.
Em algum canto coloquei um link sobre um artigo publicado em grande imprensa europeia sobre a importância do estado de espírito da cidade. Não sei onde está, nem consegui achá-lo, infelizmente. Quanto mais se respira leve mais se caminha para frente. Precisamos reaprender a respirar. Nosso ar brasileiro está incrivelmente poluído.

Infelizmente nos acostumamos com o ruim, com o mal feito, com princípios errados, com besteiras, burrices inomináveis. Pior, de uma certa forma sentimos prazer com tudo isto. Num ambiente pesado qualquer momento de descontração, de liberdade, tem ares de solução, de futuro promissor. Pode não ser.
Espírito leve só se constrói com um norte comum, ou seja, com um mínimo de regra coletiva. A busca das liberdades individuais deve ser uma constante, mas com jogo de cintura para não ser mal entendida ou embaçar o bem coletivo. Dar um passo para frente e dois para trás pode parecer uma dança libertadora, mas não é. Exemplos não faltam.

De uma maneira ou outra todos, sem exceção, buscamos a paz, o equilíbrio, o prazer. É muito mais fácil encontrá-los e vivê-los numa cidade que tenha espírito leve.

...até chegar a Perícia no acidente com vítima.

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Em surto psicótico um pedestre se atirou na frente de um ônibus articulado, quebrou o para-brisa e não morreu. A família confirmou o problema psiquiátrico e por esta razão o ônibus teve que ficar no local até a chegada e conclusão dos trabalhos da Polícia Técnica, o que todos nós sabemos demorar muito devido a escassez de profissionais, viaturas e equipamentos. Como em qualquer outro acidente com vítimas o trânsito ficou completamente parado, um inferno. São Paulo tem algo em torno de 70 atendimentos emergenciais por dia, ou seja, com vítimas; fora os acidentes sem vítimas graves que permitem remover os veículos envolvidos do local. Houve casos da Perícia demorar mais de sete horas para chegar ao local. O custo destes engarrafamentos para a cidade e toda a população é enorme, absurdo. A medicina de ponta usa transmissão de imagens para o médico auxiliar ou executar o atendimento a distância. Por que a Perícia Técnica não pode usar a mesma técnica só indo ao local em casos específicos. Isto agilizaria a liberação da via. Os marronzinhos da CET e a PM Trânsito tem bons profissionais que estão acostumados com estas situações; mais ainda, muitos já acompanharam o trabalho da Perícia. Basta treinamento e orientação dos peritos a partir da central. Cidade e população agradeceriam a rapidez e eficiência. Provavelmente já devem ter pensado nisto, mas o enrosco deve estar nas leis, como sempre. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Tratar um doente mental: Brasil

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo


O Flamengo só poderia usar o espaço onde morreram 10 e três ficaram feridos como estacionamento, aponta mais uma vez e com uma constância assustadora para duas realidades: o Brasil real, o que existe em todos cantos, e as leis de um pais das maravilhas. O Brasil seria muito melhor caso as leis fossem cumpridas afirmam técnicos e especialistas. De fato, seria, caso o corporativismo não lhes fosse tão arraigado e sempre lhes obscurecesse a realidade. A psiquiatria sabe que um paciente só voltará para uma vida normal quando o tratamento parte da realidade do paciente. O tempo de eletrochoque e de injeções amansa leão acabou, provou-se estúpido, improdutivo. Leis e regras de construção e uso do solo podem estar corretas, mas são completamente fantasiosas para a realidade, por isso desrespeitadas em qualquer parte deste país. O Brasil foi construído assim, porque o povo não teve outra opção. Passamos há muito de qualquer limite razoável, em tudo.

Logo depois de enviada esta carta para o Fórum do Leitor Estadão e publicada aqui foi desmentida a informação sobre a proibição de uso do espaço para dormitório. O desmentido não faz diferença sobre o está no texto. Aliás, de certa forma o ressalta. 

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"Precisamos cuidar da segurança dos ciclistas" me foi repetida "n" vezes, traduz bem o que escrevo acima. "Eu tenho filho para educar" traduz com mais precisão a real preocupação com a segurança dos ciclistas.

Incêndios por curto circuito e as tomadas do Lula

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo


Foram e continuam sendo muito comuns aqui no Brasil tragédias provocadas por curtos circuitos. Favelas, museus, edifícios, meninos esportistas... Não são respeitadas as mais básicas regras de instalação e manutenção de sistemas elétricos, assim como são desrespeitados princípios básicos preventivos contra acidentes e incêndios provocados por eletricidade. Incontáveis são os casos que terminaram em mortes ou perdas irreparáveis, alguns absurdos, até com repercussão internacional. Até hoje, passado quase duas décadas, não foi apresentado um número, uma pesquisa, um dado que indique que as tomadas do Lula tenham mudado esta situação. Foram impostas à população, mesmo com pesado questionamento de especialistas. A única possível justificativa para imposição das tomadas do Lula parece ser que o PT tenha feito um teste de mercado para ver qual o grau de tolerância da população brasileira. Se quisessem o bem, principalmente dos mais pobres, teriam sido mais honestos e “socialistas” fazendo ampla campanha de educação, orientação e treinamento sobre princípios básicos elétricos, o que certamente traria resultados palpáveis. Mas não. A população resmungou, mas aceitou a besteira, porque não dizer loucura, as porteiras estavam abertas para tudo o que hoje bem sabemos aconteceu no Brasil. E os curto circuitos mortais continuam tragicamente frequentes. Afinal, quem se beneficiou com as tomadas do Lula? Esta história mal contada não foi criminosa?


Recuperar o centro para recuperar São Paulo

O centro de qualquer cidade é seu coração, sua alma, sua memória. Para transformar qualquer cidade para o bem, para vida, para um futuro melhor, comece pelo centro.
A memória da cidade é crucial para a saúde pública, dando lhe referências sobre sua origem, história, sua vida. Está provado que a preservação da memória tem íntima relação com a diminuição da violência.

São Paulo:
Sou ainda de uma época quando praticamente tudo acontecia no Centro de São Paulo, a cidade da garoa. Já andando com as próprias pernas lembro que o povo todo lotava as ruas vestido de maneira formal, homens de casaco e gravata, mulheres com saias, casaquinhos e bolsas, terra da garoa, guardas-chuvas nos braços, falsas bengalas batendo a ponta no chão, sapatos lustrados, cuidado e formalidade no trato com o próximo, mesmo os mais xucros. Eu ia sendo levado pelas mãos firmes de Conceição e minha mãe no meio das pernas ambulantes do povo. Olhava para cima, para todos os lados, para todas as gentes, homens e mulheres, todos carros e ônibus, toda confusão de quem estava a trabalho ou fazendo compras de algo que só se encontrava por lá.

Por muitos anos não passei nem perto do Centro. Quando voltei foi uma descoberta mágica. Já não era a mesma formalidade, mas o povo ainda circulava com certa cerimônia, mesmo que a maioria já não vestisse casaco e a gravata ou tivesse os sapatos tão lustrados.

Meu pai trabalhava na rua Boa Vista. Várias vezes fui pedalando vê-lo. 1978. O Centro era seguro, limpo, o único problema eram os batedores de carteira, uns poucos e hábeis. É difícil acreditar que estacionava a bicicleta presa num poste de placa de sinalização com uma corrente frágil, destas que se corta com alicate, na esquina da rua Boa Vista com Ladeira do Porto Geral. A abandonava ali sem a menor preocupação e quando voltava lá estava ela, intacta. Iá. Eu entreva e saía do Centro, sempre pelo mesmo caminho, não me interessava em rodar pelas suas ruas, praças e becos, mas não tardaria muito.
A ótima relação com o Centro foi longa e muito prazerosa. Ir ao Teatro Municipal, comprar ferramentas na Florêncio de Abreu, eletrônicas na Santa Efigênia, ver a missa com seus cantos gregorianos na São Bento, ter vivenciado as grandes manifestações da 'Diretas Já!', ficar olhando a floresta sobre o Edifício Matarazzo, um expresso no Café Floresta do Edifício Copan, ir olhar a vitrine da Casa Aerobras, minha paixão...

E foi deteriorando, deteriorando. Perdi o contato com o Teatro Municipal, a Praça da Sé começou a feder, a casa Fretin fechou, outros pontos de referência foram fechando, outros surgindo numa tentativa de reviver os velhos tempos de glória. A Estação da Luz passou por reforma, mas o projeto para seu entorno foi um erro grosseiro. O Edifício Ester perdeu seu brilho, ninguém faz ideia de sua relevância arquitetônica. A Livraria Francesa continua lá, felizmente, mas cercada de vendedores ambulantes, pobreza degradante e violência. Enfim, uma tristeza.
Tristeza mesmo tive quando fui pedalando até o Bicicultura (creio que em 2013) que ocorreu em parte no antigo Cine Olido, hoje um centro cultural. Desci pela rua Dom José de Barros inteirinha pixada, suja, assustadora. Quase na esquina da av. São João tirei os olhos da triste degradação das fachadas e lixo acumulado na rua, levantei a cabeça dei de cara com o Edifício Wilton Paes de Almeida pixado de alto a baixo nos seus 24 andares, um dos patrimônios históricos da arquitetura modernista da cidade e do Brasil, com uma aparência nojenta, um lixo. O Centro se encontrava largado, abandonado a própria sorte, estraçalhado. Deprimente é pouco. Uns anos depois o Wilton Paes veio abaixo consumido pelo fogo da irresponsabilidade, burrice e mediocridade generalizada onde todos, sem exceção, somos culpados. Poderia ter sido um ponto de exclamação, um basta, mas...

Faz uns dias juntei coragem e fui pedalar no Centro de São Paulo. Eu amo aquilo. Estou cansado de ouvir relatos sobre insegurança, moradores de rua e muita sujeira por lá. O abandono por 4 anos de políticas erradas do PT assinadas por Haddad e sua tropa fez um estrago impressionante, coisa de palco de guerra civil. Ainda tivemos a gravíssima recessão brasileira ("...2+2 pode ou não ser 4"), mesmo assim confesso que passados dois anos desta nova administração esperava encontrar uma situação melhor. Sei que a reversão do estrago vai demorar anos, talvez décadas, mesmo assim tive a sensação que muito pouco foi feito para recuperar o coração e alma paulistana.
Cheguei a Sé e dei com um grupo de bolivianos com roupas típicas realizando uma bela dança numa escadaria ao lado da Catedral da Sé; sob um fortíssimo cheiro nauseante de urina e fezes humanas. Impossível de ficar ali. A Praça da Sé, pelo menos o espaço onde se pode sentir alguma segurança, continua um depósito do que resta de seres humanos sentados, deitados, caminhando errantes ou cambaleantes por todas partes. Cruzei a praça com cuidado, passei pelo Pátio do Colégio, e fiquei impressionado com a quantidade de moradores de rua deitados nas calçadas da rua Boa Vista. Era um domingo de sol e não fazia tanto calor, dia ideal para pedalar, mesmo assim vi poucos ciclistas e pedestres circulando. Praça Patriarca outra moradia. Viaduto do Chá vazio. Teatro Municipal em silêncio. Biblioteca e Praça Dom José Gaspar ali, bares e restaurantes fechados. Av. São Luís, av. Ipiranga, Edifício Copan, um excelente expresso tirado pela Cecília no Café Floresta, e tchau com uma grande tristeza no coração. Mesmo as ciclofaixas de domingo que cruzavam o Centro e traziam ciclistas desapareceu em boa parte.

O Centro de São Paulo vale uma visita. Não só vale; nós devemos uma visita por que ele somos nós. Não se conhece cidade sadia e feliz que não tenha seu Centro tratado com respeito e carinho. Aliás auto respeito.