Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém
O trocadilho com o "quanto mais sei, mais sei que nada sei" me veio como a abertura de um filme exibido em 'Cinerama", projeção impecável e som Dolbi, rodando a imagem que via enquanto rodava lentamente a cabeça olhando as obras do segundo andar da 13º Bienal de São Paulo.
- Quem sou eu?
Não, definitivamente não tem nada a ver com o que pretende a curadoria desta Bienal e suas preocupações sociais inclusivas, mas com a memória de todas as Bienais que vi pela vida, e as que deixei de ver; para meu prazer.
Marcel Duchamp morreu em 1968. Seu mictório foi exposto em 1917 sob o nome "Fonte", muito mais que um choque para aquela sociedade que acabara de sair da Primeira Guerra Mundial, uma carnificina sem precedentes. Em 1923 Duchamp exporia seu "Grande Vidro", ou "A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo", um pulo (um pulo?) do nonsense dadaista para as obras conceito, e warp speed para o sense ou nonsense do que temos na arte hoje.
Vale tudo? O que é arte?
("Vale tudo?") O que é arte?
E me pus a perguntar para os monitores "O que é arte?". Resposta padrão. "OK, além disto, o que é arte para você?" Olhares de espanto, respostas um pouco mais rebuscadas, mas mais ou menos a mesma coisa.
- Como entra o marchand nesta tua resposta?
- O que é marchand? E quem quase caiu de costas fui eu. Como assim, o que é marchand?
- Nos treinamentos não falaram sobre a questão dos marchands?
- Nós não recebemos treinamento. Estamos aqui para guardar as obras. De novo, quase caí de costas.
A garotada que estava lá tinha cara de quem estava engajada com o espírito da coisa. Boa! Já não sou bom saca rolhas, não consigo chegar ao delicioso líquido da cabeça do outros, e depois de saber que eles estavam lá para guardar as obras sem saber qual a influência do mercado de arte na curadoria desta Bienal, caminho só me perguntando "Quem sou eu?".
Fui no último dia, só, um calor de fritar ovo no asfalto. Marcel Duchamp teria aproveitado a dica para sua próxima obra? Não creio. Duchamp provavelmente estaria trancado em casa olhando assustado pela janela "Aquilo deu nisto?".
Fui com medo, quase não fui. Gato escaldado tem medo de baboseira pegajosa. A última Bienal que tinha ido, felizmente não me lembro qual, foi tão chocante para mim quanto o mictório que Duchamp expos em 1917 deve ter sido. Baboseira sempre teve, mas depois de uma sequência de bienais marcantes pela qualidade, mudar tão radicalmente não desceu. Não fui o único a arrepiar de horror. A música nossa de cada dia que o diga. Chega. A bem da verdade, não sei bem por que criei coragem de ir nesta, mas 'até' que valeu a pena. Este 'até' é um tanto fdp, que seja.
Queria ter ido com Duchamp. Não faço ideia de como era seu senso de humor, partindo daí ou me divertiria ou acharia ele um saco. O que vale é quem se é, o resto é arte. (Doeu!)
Sou obrigado a barbar numa sumidade? Não caio mais nesta, já perdi muita vida me curvando a quem se vende bem, mas é um babaca. Babacas nesta vida é que não falta.
Sou obrigado a achar uma obra conceitual inteligente? Sou obrigado a achar uma obra conceitual interessante? Desculpe, mas a maioria não consigo, zero. Talvez conseguisse se o marchand responsavel estive comigo e fosse bom de lábia. Bater punheta é uma arte.
Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém
Sai feliz. Aliás, sai deprimido por deixar o ar condicionado e ter que caminhar no frita ovo. Quem quer que tenha feito a curadoria saiu do atoleiro do que vi na última Bienal que fui. Quando? Não me lembro, mas a memória emocional dela que ainda resta em mim é bem desagradável. Hoje eu a definiria como "politicamente correta", aquela. Esta também, mas menas, muito menas, mas muito menas mesmo. Esta Bienal tinha muita coisa boa, boa mesmo. Acabou.
O que é arte?
Arte democrática(?), como está numa escultura (foto acima). Desculpem, mas li e estourei na gargalhada. E os marchands, curadores, galeristas, colecionadores, investidores, como ficam? Doce ilusão!
Tendo a obra de Duchamp na cabeça respondo a pergunta "O que é arte?"
- Vai mané! (é a resposta)







Nenhum comentário:
Postar um comentário