sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência. E Cassia Eller; 1962 - 2001 / a perda de um gênio

O Estado de São Paulo
Sábado, 01 de Agosto de 2020
A16 | Internacional 

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência

Aos 96 anos morre o cronista de sete décadas.
Jornalista e escritor francês chegou ao 'Estadão" em 1951
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Repercussão
Ruy Mesquita Filho
"Sua lacuna jamais será preenchida, homem de cultura e de um refinamento que não existe mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera."
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E da página dupla em uma curta homenagem a Gilles Lapouge e do que Ruy Mesquita escreveu parto eu.

Uma pessoa culta que vivenciou 70 anos como jornalista tem um nível e conhecimento sobre o que somos, todos, como seres humanos, que é de uma preciosidade única. Eu nasci em 1955, quatro anos depois que Gilles chegou ao Brasil, e ainda vi um país arcaico, com hábitos do século retrasado, os 1800. Vi e usei tecnologias inimagináveis para a atual geração, como um telefone de parede movido a alavanca giratória, gramofone, roda d'água, carro de boi, rádio a válvulas que tinha que esquentar para funcionar, rádio galeno....


(Como tudo nesta vida, deixei, ou esqueci este texto nos rascunhos. Volta e meia via que ele estava ali e que deveira ser publicado. Exatamente como procrastino muito de minha vida. Ou procrastinei. Estou resolvendo tudo um passo por vez, aos pouquinhos, dentro de meus limites, resolvendo o que não tenho jeito ou não gosto. Está indo. Estou melhor) 


09 de janeiro de 2026
Mudou, e como mudou. "... nossos dias, onde a boçalidade impera", e como impera!

Li a notícia quando estava em Penedo. Lugar lindo, terra de finlandeses que vieram tentar a vida nesta floresta chamada Brasil. Montanhas em volta, uma para Visconde de Mauá, outra para a entrada do Parque Nacional de Itatiaia. Subir montanhas, desafio para quem sabe o que faz e está preparado. Muitos ou não vão ou ficam pelo caminho, como na vida.

No mesmo dia que li esta notícia sobre a morte de Gilles Lapouge, assisti na TV um documentário sobre a vida de Cassia Eller, uma Cassia Eller que pouquíssimos sabiam quem de fato era. Foi das poucas mortes que chorei. Gostava, mas não era fã de sua obra. Tinha consciência que ali estava um potencial raro, que foi-se. 'No recreio' é de uma genealidade rara, música que não canso de ouvir. Já tinha lido que ela tinha consciência plena sobre seus erros e o que deveria fazer. Achei incrível quando soube que a ficha caiu quanto seu filho, ainda pequeno, disse para ela que ela estava gritando demais (nas músicas). Caiu a ficha, precisa mais?

Um dos momentos inesquecíveis de minha vida foi, por um daqueles agradáveis acidentes da vida, se é que se pode chamar assim, acabei ficando hospedado na casa do então diretor da agência suíça de notícias Reuters, em Zurich. A casa era incrível, e o jantar, onde pudemos conversar com calma, simplesmente mágico, um outro planeta de conversas.

Gostaria de ter tido a mesma experiência com Gilles Lapouge. E com Cassia Eller. Como com tantos outros, nomes conhecidos ou não. Não precisa ser famoso para ser interessante, precisa ser interessante, no bom sentido, que necessariamente não é do bem. Brain! Brain! Brain! Brain!  

Como é que é? Algo assim: seguimos atrás do cachorro catando os seus dejetos... O original, de onde tirei esta acertiva, está a seguir, no copia e cola do artigo / entrevista publicado hoje no Estadão. Maravilhosa metáfora do que nos transformamos. A diferença de sentido, ou metáfora, ou que realmente é, está no texto: "cachorros são amor puro". 
Nós nos transformamos em metáforas (em metáforas?) do que acontece agora com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro. Aliás, sem querer, primeiro digitei 'Borcaro', é, mais ou menos por aí. 
O que nos transformamos está explicito, o triste é que não se pode mais afirmar "vê quem quer", até isto foi pro saco (sei-la que saco, mas com certeza não de boa coisa).  

"... agora é uma entidade atrás de quem eu ando recolhendo dejetos humildemente". Somos todos nós, a entidade. Entenda o que quiser e pode ser. Se entender. 

Morrerei na era da boçalidade, isto é líquido e certo. Me incluo aí, me considero um boçal, mas rezo a cada minuto o "quanto mais, sei que nada sei", é o que talvez me salve do inferno. Do purgatório não escapo. Por favor, não me mandem para o céu desta turba de repete sem parar "Vai com deus (este eu digo com letra minúscula)" e "Amém!". Não mereço. 

Subir montanhas pedalando (ou caminhando, correndo) é um ato de autocontrole, um honrar e homenagear o conhecimento, o como fazer correto. Chegar lá em cima é uma vitória efêmera, mas deliciosa. Sim ou sim, se tem que dar meia volta e voltar aos pastos da boiada ruminosa. O esterco deles é que faz o pasto crescer - pura ironia.

Antes deste, acabei de postar um outro post onde coloco que queria ter convivido com gente que se foi. Conviver com muitos mais que que convivi, mas os interessantes. 
Fechando as vontades num foco só. Pedalando pelas ruas, olhando minha bicicleta, fazendo alguma manutenção necessária, gostaria ter tido tempo com meus heróis da bicicleta e do ciclismo, nomes brasileiros que são absolutamente desconhecidos pelo Brasil e que mesmo a distância me ensinaram muito. Devo muito a eles, mas com tempo e ouvindo em silêncio poderia ter aprendido muito mais. Este é o ponto.

Uma das coisas que mais me irritam nesta vida é alguém dizer que tenho conhecimento sobre o que é uma bicicleta. Hoje tenho só certeza que já descobri que bicicletas têm duas rodas, e que por isto o nome tem um 'bi' na frente. De resto, sou aprendiz, nada mais. 




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