quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Bebeto, Pedrão, Bernard, e tantos outros que passaram

O incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, me fez lembrar mais uma vez de Bernard Zen-Ruffinen, uma simpática figura que conheci na Bolívia em 1977, me ajudou com orientações e a encontrar uma estadia, aliás, ótima. Por um acidente de viagem acabei na Suíça e na casa de seus pais em Sion. Crans-Montana está muito próxima de Sion e é bem possível que da varanda da casa dos Zen-Ruffinen tenham visto os tragicos clarões do incêndio.

Bernard me marcou porque viajava só com uma bolsa, uma malinha daquelas que a gente usa para ir a academia. Ele estava sempre bem vestido. Eu, carregando uma grande mochila típica de mochileiro, pesada, desconfortável, me vestia como um hippie meio largado. Talvez tenha sido uma das mais marcantes lições para minha vida. Até hoje, quando monto uma mala de viagem lembro da bolsa do Bernard e vou descartando inutilidades, mas confesso que ainda tenho dificuldade em chegar a tamanho espartanismo.

Sim, minha vida foi se transformando a partir de pequenas situações que chamaram a atenção. Poderia enumerar muitas, mas aqui falo sobre três pessoas que gostaria de ter vivenciado e não o fiz. Se tivesse vivenciado meus caminhos certamente seriam outros. 

A última vez que tive contato com eles, os Zen-Ruffinen, foi quando seu irmão, Walter, veio para o Brasil e ficou em casa. De Bernard nunca mais soube, infelizmente. Walter esteve ligado com a FIFA, e pelo menos a imagem dele vi. Agora procurei e encontrei não só referências deles, mas de toda a família, que descobri ter uma história valiosa, importante, consistente. O pai, eu sabia, foi o anestesista do Ivo Pitanguy em cirurgias plásticas fora do Brasil. Lendo a história dos antepassados Zen-Ruffinen tomei consciência que o que me fascinou em Bernard foi ele ser um jovem cidadão do mundo com uma bagagem de cultura grande nas costas. Eu, brasileiro, de boa família, pessoas educadas, tinha uma boa bagagem, mas para Brasil, sem comparação com que Bernard e Walter receberam da família e da Suíça. Nós brasileiros, mesmo os de eleite, eram bem caipiras, bem primários, se não continuamos sendo.
A conversa entre os Zen-Ruffinen durante um almoço deu o grau de ignorância que eu tinha. Primeiro, eu era fluente em espanhol e tinha um inglês primário, ruim digo. Eles misturavam numa mesma frase frances, alemão, ingles e italiano, sempre buscando a palavra mais precisa, não se importando em que lingua, quando queriam entrar fundo no sentido. A conversa base foi em inglês, por gentileza comigo, mas as palavras em frances, alemão e italiano, aliás, algumas em espanhol, saiam com toda naturalidade, fluidas, sem gaguejar. Só decadas mais tarde consegui entender o porque. "Boludo!", expressão típica da argentina, cabe bem para o que eu era então.

Perdi contato porque tinha vergonha de minhas cartas, a forma de comunicação daqueles tempos. Minha letra era um caos, péssima, minha verbalização horrorosa, não sabia como e o que escrever, não me lembro se escrevi para ele e sua família, se escrevi não tive resposta porque provavelmente ficaram assustados. Aliás, minha comunicação verbal era bem ruim também, se não lastimável, o que não exagero aqui.

Pedrão, foi outro que só depois de morto descobri que gostaria de ter convivido, e muito. Pela vida nos vimos muito pouco, eventualmente em alguma comemoração de família. Era de pouca fala, muitos sorrisos, muito ouvido. Tinha notícias dele por sua irmã, Celinha, muito amiga de minha irmã. Tudo que sabia é que ele trabalhava no Estadão, mas não sabia no que. Quando morreu o Estadão dedicou quase uma página a ele, Pedrão, Pedro França Pinto. Aí descobri que seu trabalho foi grande, que sua cultura e pensar valiosos, colaborativos, imprescindíveis. E eu perdi isto tudo.

Bebeto, Luiz Roberto Souza Queiroz, outro primo com quem tive pouquíssimo contato e me arrependo. Bebeto também trabalhou no Estadão. Devo ter lido seus textos num passado distante, mas como sou desligado nunca olhei para o autor. Descobri a preciosidade de sua escrita atravez das crônicas rápidas que ele escrevia no Whatsapp da família. Impecáveis. Eu, muito envergonhado, queria e deveria ter ido a Itu para conversar com ele sobre escrita, textos, e (envergonhado) mostrar meus garranchos que aqui publico. Um dia, com grande tristeza, me avisaram sobre o velório. 

Agradeço muito aos 'malucos' que convivi. Malucos porque um tanto fora da curva, o que foi ótimo, um aprendizado incrível, precioso. Mas deveria ter olhado para a vida de maneira mais aberta. O meu erro: comunicação precária, em alguns momentos desastrosa. 
Criei mitos, o que foi um erro, até porque mito impõe respeito, dá insegurança. Besteira, besteira pura! Mesmo que eu tivesse sido um completo imbecil, para um ser valioso não importaria porque ele aprenderia com a situação. E talvez ensinaria. 

Das situações únicas, vem a única conversa na vida que tive com meu avô Fernando de Azevedo. Rápida, no leito de morte, ele me abriu as portas para o escrever. Ali, mesmo que não tenha conscientizado, aprendi que somos todos humanos, eu também, até e principalmente por todas minhas inseguranças.

Quantas pessoas passaram pela minha vida e perdi a oportunidade de convivência mais que proveitosa. Sempre escolhi convivências meio que fora da curva, 



Textos corrigidos por IA


Minhas cartas eram péssimas. Tinha profunda vergonha delas

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