sexta-feira, 13 de maio de 2011

ferias

Como fazer um clique para desligar das bicicletas? Infelizmente nao da fazer. Meu calcanhar de aquiles doi muito de tanto andar. Adoro andar. Provavelmente por causa da diabete minhas dores sao cada dia mais recorrentes. Um dos caminhos e voltar aos pedais. Outro seria correr a pe, mas tenho um pouco de medo de piorar a situacao. Em casa eu tentaria correr, o que algumas vezes funciona, nao sei bem a razao, mas imagino qual seja. O fato e que a diabete esta comecando a cobrar seu preco. Dor eu sinto praticamente direto desde que tenho uns 20 anos de idade.

Recomendo um desenho animado de TV chamado "Family Guy", coisa ja antiga e felizmente politicamente incorreto. De preferencia o original, em ingles.

Infelizmente tive um pesadelo sobre problemas de trabalho. E hoje dormi pela segunda noite muito mal.
Sempre sonhei com o que vou fazer quando tirar uma bolada grande, uns 50 milhoes. Demorei para descobrir o sentido da vida milionaria. Agora nao tenho mais qualquer duvida: quero ter dinheiro suficiente para trabalhar em paz. Amo o que faco, mas da forma como faco e exaustivo. Escola de Bicicleta vai cada dia melhor, mas a quantidade de trabalho comecou a se transformar em um problema, talvez pela diabete.
Conversei com algumas pessoas sobre ter dinheiro para trabalhar em paz e todos acharam a ideia legal. Infelizmente trabalhar em transformacao humana nao e rentavel, muitas vezes sequer compreendido. No passado cheguei a ser ofendido por estar envolvido com a questao da bicicleta. Nao fui o unico. Ainda hoje ha muita incompreensao; resultado da falta de discussao seria sobre as coisas. E um problema de nossa epoca, principalmente do Brasil.
Mais uns dias e as ferias acabam. Confesso que ainda preciso de algum tipo de retiro. Preciso descansar. Como desligar de nossas loucuras, de nossos vicios sociais, humanos?


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Somos todos iguais - ai ou aqui no Canada

Peguei o primeiro fim de semana de sol depois do que os canadenses dizem ter sido um inverno muito duro. Pelo frio que fez no meu primeiro dia aqui posso bem imaginar o que tenha sido. Montreal é muito calma. Movimento mesmo so mesmo no centro e em hora de trabalho e comercio aberto. Boa parte da vida acontece nos internos, pequenos shoppings que ficam embaixo ou entre edificios. Fora dali até nossas cidades mais calmas parecem ter mais vida.
A quantidade de bicicletas por todas as partes de cidade é muito grande, principalmente pressas a postes, parquimetros, grades e outros. O numero de ciclistas circulando também é grande, bem mais visivel que em Sao Paulo, por exemplo. Ha muito ciclista usando fixa, que é tao moda aqui como ai. Muitas hibridas, uma boa quantidade delas ainda modelos classicos, construidas em tubos de aço de pequeno diametro e chiquérrimas. As femininas com paralamas em especial. Tem ciclista para todos os gostos, exatamente como pelas nossas paragens. É coisa de nos americanos. Na Europa o que se ve é ciclista com roupa de trabalho; muito raramente um ou outro com roupa de franga (roupa de ciclista, como chamamos em Sao Paulo).
Sabado a tarde a cidade ficou cheia de vida nas ruas, mas foi no domingo que a festa foi para valer. Ha uma quantidade grande de ciclovias e ciclofaixas implantadas pela cidade. Montreal é de fato uma cidade amiga da bicicleta e o pessoal para valer usa o que ela oferece. Nao tem aquela coisa de ter hora para abrir e fechar como nas nossas ciclofaixas ou ruas fechadas. Esta implantado e pronto. Ha que se reconhecer que as ruas e avenidas sao muito mais largas, o traçado urbano é quadriculado, e ha espaço para implantaçao de melhorias para os ciclistas, o que é fato raro nas cidades brasileiras.
As rotas que passam vao ao centro sao sempre muito usadas. Mas neste domingo ensolarado, depois de longo inverno, o pessoal mostrava na cara o prazer de sair para pedalar por toda a cidade. ( http://www.voyagezfute.ca/velo.asp?lng=1 ). E que prazer! Nao que seja tudo perfeito. Os problemas sao praticamente os mesmos aqui e ai. Chega nas esquinas o pessoal daqui no geral para o ciclista passar, mas por um milagre nao vi um ciclista ser pego por tras por um carro virando a direita. E outro ciclista que teve que freiar brusco para nao entrar no meio da porta do carro que cortou a frente. Ha semaforo para ciclistas e e pedestres em praticamente todas as esquinas, o que faz uma grande diferença, mas é logico que ha os ciclistas que furam. No andar da ciclovia tem pai e mae com criança pequena quase sendo atropelados por pseudo-ciclistas com suas possantes bicicletas road que acham que aquele espaço é para treinar. Enfim, é muito parecido com que vivemos por ai.
Bacana mesmo foi ter pedalado no circuito Gilles-velleneuve, onde acontecem as corridas de Formula 1. Sao duas ilhas, a do circuito e uma que fica paralela. Infelizmente praticamente tudo ali so começa a funcionar em Junho. Na primeira ilha ha um belo parque aquatico, um restaurante e a maravilhosa Biosfera - http://www.ec.gc.ca/biosphere/ . Criada para a Expo Mundial de 1967 é hoje o simples, divertido, e atrativo Museu do Meio Ambiente, este sim aberto a visitaçao. Na segunda ilha, a do circuito, estava acontecendo uma corrida de bicicletas estrada para deficientes. Para se ter ideia, um deles, que fez a ultima volta junto com o pelotao de ponta, nao tem uma perna e o braço do lado oposto. Queria eu ter o sprint dele. Correu junto duplas em tandem. E o bacana é que o circuito nao foi fechado para os outros ciclistas, das crianças aos que queriam treinar. Para nao atrapalhar a prova, so foi necessario respeitar a passagem orientada em duas barreiras. Me chamou atençao que o circuito é muito mais estreito e tem um asfalto muito menos abrasivo que Interlagos. Pedalar no Gilles é uma delicia.
Todas as pontes tem espaço especial para ciclistas e pedestres. Todo sistema cicloviario esta interligado. A nao ser por uma outra obra temporaria, o ciclista tem fuidez. Os mapas de todo o sistema cicloviario pode ser encontrado em qualquer da muitas bicicletarias. A maioria delas tem bicicletas para alugar, mountain, hibridas e até mesmo road bikes. Ha ainda as "Bixi", http://www.bixi.com/ , o sistema de bicicletas comunitarias recem implantado. Nao que tudo seja uma maravilha. Por incrivel que possa parecer o asfalto das ruas esta numa condiçao ruim, com muitos buracos. As ciclovias tambem nao estao todas bem conservadas. Circular no meio dos carros é facil porque ha educaçao e principalmente respeito a lei. Nao so isto. O transito no geral é muito mais organizado, muito menos intenso, o que faz tudo menos tenso. Resultado de uma cidade mais calma. Cidade mais calma, sociedade mais calma, pedalar mais calmo.
O que impressiona é a qualidade do ar. Aqui, assim como na Europa, mesmo no meio do transito pesado voce consegue respirar sem problema. No fim do dia a gola da camisa esta limpa e a roupa nao fede. Muito diferente de Sao Paulo, Municipio, que ja tem um sistema de controle de qualidade das emissoes. Quando comparado com o ar de outras cidades é um choque. É simplesmente inacreditavel que nos aceitemos o ar que respiramos. Nojento!

terça-feira, 26 de abril de 2011

Manutenção da vida de um professor

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor

Sexta feira retrasada morreu, em razão de um engasgo, o emérito professor da FAU USP Murillo Marx. Participou de aproximadamente 300 bancas de graduação no Brasil e exterior, além de um currículo de 44 páginas, ainda desatualizado, de publicações, artigos e livros. Produção de qualidade considerável, segundo colegas.

Uma amiga fez um breve, mas apurado cálculo de custo de educação de uma filha até a entrada desta na faculdade e chegou a um valor próximo a R$ 1 milhão. É um erro pensar que um custo desta ordem recai somente sobre os pais. Recai sobre toda a sociedade. Inúmeros países, principalmente os de maior IDH, sabem da importância macro econômica de manter e preservar o valor da produção intelectual.

Morrer engasgado é fato mais comum que se possa imaginar, disseram funcionários do Serviço Funerário e IML. Acontece no mundo todo, mas a diferença é que em qualquer país civilizado há a obrigatoriedade de que estabelecimentos públicos recebam treinamento e tenham sempre alguém preparado para casos de emergência. Segundo um ex-professor da USP há uma lei no Estado de São Paulo neste sentido, mas esta ainda não é cumprida porque não se definiu quem dará este treinamento. Procedimento simples conhecido lá fora pela sigla “A B C” - falar com quem está se sentindo mal, colocá-lo em posição que facilite a respiração e procedimentos de manutenção enquanto a emergência não chega. Coisa básica que já é praticado em várias empresas.

Qualquer empresa séria dá o devido valor a seus funcionários e tem uma série de ações preventivas e de emergência que tratam de minimizar danos ou perdas humanas, que no fundo são patrimoniais. O mesmo deveria ser feito com funcionários, professores e pesquisadores públicos. O custo da perda de alguém como Murillo Marx é muito alto, quase absurdo, até para um estado tão rico quanto São Paulo. Não se fala aqui de “lucros cessantes”, mas do valor agregado de cultura e resultados que aqui no Brasil toscamente ainda é considerado intangível, mas espero não o seja por muito tempo.

Venho por meio desta pedir ao Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, médico de formação, e ao Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo, João Grandino Rodas, jurista, que coloquem em funcionamento um sistema de prevenção e emergência para seus funcionários.

No caso da USP foi me dito que o Hospital Universitário da USP já tem um trabalho em andamento que deve ser estabelecido como regra.

Não se pode colocar um professor, que é verdadeiramente patrimônio público, ao sabor de uma falha de atendimento emergencial, no caso da SAMU, que depois de 10 minutos não apareceu; mesmo tendo bases a menos de 2 km do local de atendimento (Largo do Arouche). Como disseram depois: “Mente e chama os Bombeiros”. Chamado a PM, rapidíssimo o professor Murillo Marx estava na viatura para rapidamente percorrer os mil metros até a porta do Pronto Atendimento da Santa Casa e ser atendido. Não resistiu. Todos nós perdemos.

sábado, 23 de abril de 2011

Sobre o texto: Ciclovias e ciclofaixas ajudam a diminuir mortes de ciclistas

O Estado de São Paulo
São Paulo Reclama

Todo o jornalismo brasileiro, incluindo o do Estado de São Paulo, tem vícios sobre como investigar, ver e descrever a questão do trânsito de nossas cidades. É normal que assim seja porque no fundo somos todos iguais e jornalistas tem os mesmos vícios de qualquer outro cidadão que viva numa sociedade construída pelo e para o automóvel, principalmente o particular. Mas jornalistas estão ai para prestar um serviço à sociedade e ir mais fundo nos fatos na busca da verdade. Mas vício enraizado é muito difícil de ser percebido e vencido.

Mesmo depois de mais de uma década de intenso crescimento do uso da bicicleta como veículo de transporte, ou melhor, da bicicleta se tornar visível aos olhos de uma classe média encastelada em suas manias, o entendimento do fato em geral é simplista e não raro distorcido; o que se reflete nos textos dos jornalistas, que também fazem parte desta mesma “média”.

Renato Machado fez um bom trabalho como jornalista na matéria “Ciclofaixas e ciclovias ajudam a diminuir mortes de ciclistas”, mas acredito que ficou satisfeito com o ponto onde a história pareceu fazer sentido, um mal da imprensa brasileira cada dia mais pressionada por resultados e sobrevivência. A queda do números de ciclistas mortos nestes últimos anos decorre de uma serie de fatores, os quais estão em parte relacionados na matéria: aumento de ciclistas nas ruas, costume do motorista com esta novidade, ciclistas mais preparados, reflexos positivos tanto da experiência da classe média na Ciclofaixa de Domingo como nas ciclovias recentemente entregues, como aponta o batalhador da causa André Pasqualini.

A CET SP talvez seja no Brasil um dos pouquíssimos órgãos que tenha números sobre acidentes de trânsito, mas seus mais abnegados funcionários devem ter consciência que coleta de dados e pesquisa para valer em terra tupiniquim é desinteressante para pajés e caciques. A verdade dói. O que se tem nos melhores dados é uma visão parcial da situação. No caso das bicicletas não existe perícia técnica sobre o veículo. Indo um pouco mais longe: há perícia de qualidade para automóveis, motocicletas e outros veículos motorizados? Voltando às bicicletas: quem vive no meio sabe que boa parte dos ciclistas sofre acidentes por falha mecânica da própria bicicleta. Técnicos de concessionárias de rodovias falam a boca pequena que pelo menos 35% dos acidentes tem por causa a bicicleta. Há quem, também a boca pequena, diga que estes números devem ser muito maiores.

Números antigos da própria CET SP mostram que a maioria dos acidentes acontece em vias de trânsito pesado, ou seja, quando o ciclista está em contato com veículos grandes: ônibus, caminhões, vans. Ou seja, o pequeno porte do conjunto bicicleta - ciclista o torna quase invisível no trânsito. Dependendo da área, principalmente em periferia ou bairros mais pobres, e da necessidade de viagem realizada pelo ciclista, não há alternativa a não ser usar vias saturadas, muitas delas estreitas, algumas de trânsito rápido (e criminoso). Há ainda a estrada conurbada. Ciclistas pedalando nestes locais é muito mais comum que se possa imaginar. O ciclista trabalhador se vê perante a opção de ir e voltar do trabalho correndo certo risco ou pagar caro e ficar horas encalacrado em ônibus de baixa qualidade. Os riscos do pedal são mais interessantes. Por outro lado ciclista operário sempre foi invisível. De certa forma continua assim. É mais fácil enxergar os iguais.

Os mesmos números da CET SP mostram que a maioria dos acidentes acontece no lusco-fusco. Por lei, CTB, toda bicicleta deveria portar refletores na frente, atrás, nas rodas e pedais, o que raramente acontece porque a qualidade do produto brasileiro é ruim e muito frágil, logo cai e desaparece, portanto inútil. O ciclista é invisível porque está invisível de fato. A importância do refletor pode ser comprovada no resultado do simples e brilhante trabalho realizado por algumas concessionárias que adesivaram as bicicletas com restos de refletivos das placas de sinalização. O trabalho é bem conhecido entre técnicos. Mas quem acorda às 4h00m para bater ponto? Às 9h00 o ciclista operário está trabalhando.

O título da matéria pode se entender, mas é de entendimento perigoso, distorcido ou, para quem vive o assunto, cômodo. Provavelmente sem má fé. Deveria o autor da matéria ter procurado saber “o que mais?”. Num bom linguajar deixa sensação de ter se limitado ao que todos acham: ciclovia e ciclofaixa é sinônimo de segurança, a esperança de qualquer ciclista. Será mesmo?

O que corre nos bastidores, mesmo entre os defensores e usuários de ciclovias e ciclofaixas, é que tem havido acidentes com bem mais freqüência que o se poderia esperar. Diz que diz? Poucos sabem e menos ainda são os que querem aceitar que ciclovias não são completamente seguras e que nelas há acidentes, graves inclusive. Tivesse o jornalista ido atrás descobriria o que realmente acontece na ciclovia do Parque Ibirapuera, ou de qualquer outro parque. No PA do HC teria outras notícias. Não é difícil ter relatos sobre a aderência da Ciclovia do Rio Pinheiros. Ou no custo e da inutilidade da Ciclovia Radial Leste. Ou ciclovias existentes abandonadas. O número de ciclistas que por causa da Ciclo Faixa de Domingo acredita que o correto é pedalar a esquerda de avenidas. Ou saberia sobre as histórias dos bandeirinhas e marronzinhos. Houvesse ido fundo provavelmente não teria colocado o título “Ciclofaixas e ciclovias ajudam a diminuir mortes de ciclistas”, uma frase a beira do leviano para a realidade paulistana.

São Paulo é uma das cidades mais ricas do planeta, mesmo assim vem vivenciando há muito números de guerra no trânsito. A postura de toda imprensa sobre o assunto, nesta e outras paragens brasilianas, é minimamente simplista. Vide o que está publicado sobre o drama de motoboys ou sobre o genocídio de pedestres. Na maioria dos textos recai nos próprios a culpa pelo acidente. Não se coloca nunca a responsabilidade legal das autoridades estabelecida pelo CTB, não se faz uma avaliação mais profunda das reais causas, sobre falha técnica, má fé urbanística e outros fatores. Sempre o mesmo discurso da mesma panela. A matéria se repete e os mortos com ela.

No Brasil caótico que vivemos só nos resta a imprensa como luz. Se mesmo ela se curva ao trivial.....

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Exemplo de Parelheiros

Toda esta história está um tanto distante e o que conto aqui já não passa de uma ficção baseada na realidade.

Um dia estávamos numa reunião e veio a notícia que o Sub-Prefeito de Parelheiros havia cansado de tentar resolver a questão das bicicletas e decidido que faria uma ciclovia com ou sem a CET (SP). A notícia caiu feito uma bomba porque aquela era uma vontade que a cada dia se agigantava em cada coração. Até então, 2006, praticamente todos os projetos relacionados à bicicleta e seu uso em São Paulo - ciclovias, ciclofaixas, ruas de lazer, passeios e outros - haviam morrido dentro da CET. A justificativa era sempre mais ou menos a mesma, que mesmo não lembrando mais exatamente as palavras, é algo como “é necessário ver muito bem a segurança do ciclista”...; e a partir daí não se fazia mais nada. Confessado entre paredes a razão para a falta de ação sempre foi o medo que se fizessem algo eles, a CET, seria responsável por qualquer problema; o que hoje sei que é uma tremenda balela. Morrem uns 750 pedestres/ano na capital paulista e, infelizmente, desconheço quem tenha entrado na justiça contra a CET. É fácil provar besteiras e inépcias deles. Aliás, todo mundo erra, somos humanos, inclusive eles. A diferença é que eles se dão o direito à omissão de responsabilidade e ninguém faz nada. Governantes, servidores, vereadores e a população simplesmente se calam; vergonhosamente. Vergonhosamente por que o silencio vem da ignorância de todos, inclusive e principalmente dos ditos educados, aqueles que deveriam dar exemplo.

O mesmo discurso vem se repetindo a décadas. Quantos projetos perdidos, esquecidos, jogados no lixo. Quantos! Vocês não imaginam quantos.

A curta ciclovia de Parelheiros foi logo concluída e entregue à população e não demorou muito para começarem os acidentes. Lembro de ter ouvido que um ciclista acabou morrendo. A CET foi chamada para dar jeito e furiosa não poupou críticas à forma como fora realizado. Foram lá e sinalizaram. Então começava uma discussão interna sobre a atitude do Sub-Prefeito, com boa parte dos ciclistas, vereadores, funcionários públicos e até mesmo uns tantos de primeiro escalão, oferecendo brindes, “urras!!!!!” e apoio à ousadia; e outros dizendo que aquela não era a forma de resolver, que tudo tem seu tempo, que a CET sabe o que faz, e que uma hora esta mesma CET aprenderia como lidar com a questão da bicicleta e os processos seriam mais lógicos, fáceis, rápidos.

Hoje, nos mesmos corredores, cada dia menos gente dá seu apoio à CET e cada dia mais se ouve quem prefere mandar que as coisas sejam realizadas da mesma forma que se fez em Parelheiros. Ou não sai do papel. Muito tem sido feito nesta base, o que também é um erro. Quem manda no trânsito é a CET, isto é lei federal e este poder não se deve tirar do órgão responsável pelo trânsito – até que alguém encontre uma saída e decida mudar a lei de responsabilidade técnica. Fazer trabalhos em paralelo é sempre um erro; um dos principais entraves do progresso deste país. No caso da CET é um jogo de poder, quando não de vaidades, o que na coisa pública é ridículo.

A meu ver o que está errado é a CET continuar com uma visão sobre vida na cidade, trânsito e mobilidade anacrônica, cada dia menos apropriada e até mesmo honesta para todos, incluindo eles próprios. É lógico que há uma pressão social muito forte para que eles mantenham o “status quo”, que deve ser levado em conta. O paulistano, aliás, o brasileiro quer brincar de “bibi-fonfom” com seus carrinhos dados pela política populista e absolutamente irresponsável de equilíbrio da economia via diminuição de impostos. Acredito que a CET está se encurralando porque se recusa a ver a nova cidade e a montar um setor que realmente atenda às demandas de pedestres, ciclistas e pessoas com deficiência, o que é dever legal. Eles são sim responsáveis pelo trânsito de todos, não só motorizados. O que eles têm hoje para “não motorizados” é bem definido pelos números de acidentes fatais divulgados pela própria CET e que provam, sem sobra de dúvida, que eles só são “amigos” do fluxo de veículos motorizados. O resto que se dane.

O Estado de São Paulo, 29 de Março de 2011 / Cidades / Metrópole / C7

sábado, 26 de março de 2011

PM, serviço e procurando

O Estado de São Paulo

São Paulo Reclama

No cruzamento das ruas Augusta com Oscar Freire, às 16h35m desta sexta-feira, 25 de março de 2011, um pequeno carro de cor clara e vidros abertos, com uma criança e um motorista fecharam o cruzamento do sinal aberto da Oscar Freire. Eu estava de bicicleta e disse ao motorista que se ‘fizessem o mesmo com ele provavelmente não gostaria’. Como pensei que ele não tivesse ouvido, quando contornei o carro, repeti a frase. O motorista tirou a mão para fora, fez a forma de uma arma com os dedos e insinuou me dar um tiro. A partir dá levantei a voz perguntando se ele estava me ameaçando.

Olhei para os lados procurando policiais e dei com três PMs encostados na parede da Side Walk, junto à banca de jornal. Pedi ajuda. Um deles me disse algo parecido a que eu estava tentando fazer o “serviço“ dele, no que respondi que eu havia sido ameaçado. O PM retrucou que ‘não havia visto a arma’. “O que significa fazer aquele gesto com a mão?”. E o PM já em voz alta respondeu que eu “estava procurando”, repetindo a frase várias vezes. Os dois PM companheiros ficaram quietos, com um olhar um tanto constrangido.

O motorista que fechou a passagem dos carros da Oscar Freire prejudicou todos motoristas e cometeu infração estabelecida por lei. E o fez de má fé porque moveu-se no exato momento que iria fechar o sinal. Eu como ciclista poderia simplesmente ter seguido em frente e deixado o problema para trás, mas é meu dever como cidadão zelar pelo legal e por todos. Se o PM estava olhando para o cruzamento, deve ter visto que atrás do carro que fechou o cruzamento havia uma sofisticada Land Rover preta, dirigida por uma muito fina senhora falando no telefone, parada sobre a faixa de pedestre, o que constitui dupla infração tipificada por lei.

Sei bem o que é ser silenciosamente ameaçado, no caso do gesto da mão, porque faz parte do meu trabalho vistoriar áreas consideradas de risco, ditas violentas. Não sei como trata a lei em relação ao caso, mas uma autoridade deveria, por bom senso, evitar tais situações. Da mesma forma com relação às palavras do PM, ouvidas por muitos.

A PM de São Paulo tem um ótimo trabalho. São bem treinados e por regra lidam com situações bem complicadas com equilíbrio. Estranhei o comportamento do PM, fora do padrão. Nada que uma boa conversa interna não resolva e sei que será feita.

Outro ponto, e este sim preocupante, é a questão de autonomia legal da PM. Não sei se os que fazem patrulhamento de rua podem intervir em situações de trânsito. Ou só os PM da Companhia de Trânsito que é muito bem vinda de volta ao trabalho? Todos os PMs deveriam ter autonomia legal para fazer cumprir a lei, qualquer que seja ela, principalmente as de trânsito que são poucas e fáceis de trabalhar. Vejo o acontecido como fruto da falta de autoridade real que estes PMs têm em serviço. Em qualquer país onde haja lei de fato o motorista não ousaria fechar o cruzamento por ter certeza de ser multado.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Uma São Paulo possível

“Eu tenho um sonho....”
Tenho consciência que o meu primeiro trabalho como Bike Repórter Eldorado FM foi bom. Consegui deixar para o público o sonho que esta São Paulo, megalópole de contrastes, não raro terríveis, pode ter saída. Fiz o Bike Repórter entre 1999 e 2001, saindo do ar logo depois do 11 de Setembro brutal. “Eu tenho um sonho” - usei mais de uma vez este jargão para delirar, ou será pensar, atrever, antever, sobre a possibilidade que creio a maioria dos paulistanos não consiga imaginar realizável. Estão acostumados com o ruim. Transformar uma cidade, uma sociedade, vidas é possível e interessante. A história freqüentemente prova isto. Bogotá, Londres, Nova Iorque, só para citar 3, são prova atual que é possível.

Grandes cidades se reúnem desde do fim do século XIX para trocar experiências. Até pouquíssimo tempo o discurso preponderante foi “garantir o fluxo de veículos (motorizados é lógico)”. Esta filosofia, ou política, como queira, morreu, finito. Falta enterrar, e rápido porque está fedendo. A cada dia mais e mais pessoas, administradores, funcionários públicos e políticos, mesmo os mais retrógrados, conseguem ver que a cidade deve mudar para o respeito à vida.

Um senhor que está trabalhando comigo disse que havia saído do trânsito de São Paulo porque não agüentava mais continuar ficar fazendo coisas pequenas, pontuais, que não adiantam nada. Para resolver precisa fazer o todo, mudar o maior, o macro. Sonhar, desafiar, executar. É voz corrente que fazer pequeno é mexer aqui e empurrar para lá o problema; uma verdade sem questionamento. A cidade é um organismo muito complexo que não pode ser pensada de forma pequena, tacanha. São Paulo tem pedaços ótimos, mas fragmentados, desassociados. É seu charme e ao mesmo tempo seu câncer. A bem da verdade, câncer mesmo é a pobreza de espírito de toda sua população, mas este são outros quinhentos.

“Eu tenho um sonho...”. Não; eu tenho vários sonhos.
Que tal tirar os ônibus dos corredores e colocar bondes, opss... desculpem, VLTs (Veículo Leve sobre Trilhos). Sim, o velho e bom bonde, sobre trilhos, que não agridem o entorno, que são mais silenciosos, menos poluentes, transportam com mais suavidade... Avenidas como a Santo Amaro e Celso Garcia, hoje completamente degradadas pelo transporte de massa de baixa qualidade, voltaria a ter vida com qualidade. O bonde sozinho faz verão? Não! No caso da Celso Garcia perdemos a oportunidade de ver implantado o projeto de recuperação da avenida e todo entorno, do Centro até a Penha, que infelizmente morreu na praia, sabe se lá por que. Quando estive em Amsterdã e passei por vias com perfil parecido as nossas velhas avenidas degradadas senti um nó na garganta. Dá para fazer, basta querer. Houve projeto e cheiro de dinheiro, picaram, queimaram e jogaram no lixo. Talvez o sonho do paulistano seja ter muitas monumentais pontes estaiadas. Deprimente. Pode até ter sua beleza, mas urbanisticamente é paupérrimo, deformante.

Pontes são um marco em qualquer cidade digna do mundo. Aqui servem para veículos motorizados, se tanto, uma coisa sem graça, com uma pretensa função, algumas vezes mal executada. Ninguém olha para as pontes. Nem para a das Bandeiras, obra imponente em art déco, mirante das caudalosas águas do Tiete. Devem pensar que estas últimas palavras é poesia.

O que mais me agrada é ficar parado no topo da ponte Bernard Goldfarb, apesar do perigo dos ônibus passando raspando causado pela falta de passagem para pedestres. É aquela ponte paralela à ponte Euzébio Matoso, e que liga as avenidas Francisco Morato e Vital Brasil à rua Butantã, Pinheiros. Ela é bem mais alta que a Euzébio Matoso e proporciona uma vista magnífica da várzea do rio Pinheiros. Para o norte vê-se a curva do rio para esquerda com o Pico do Jaraguá ao fundo do verde do bairro residencial de Alto Pinheiros. Mais próximo da ponte o imponente edifício da Editora Abril e um conjunto de novos e modernos escritórios de bom gosto. Infelizmente vão construir mais um edifício na cabeceira esquerda – norte e a vista do horizonte e o por do sol provavelmente se perderá para sempre. Para o lado sul está o Jóquei Clube de São Paulo a frente do verde e casas do bairro Cidade Jardim. Ainda ao sul, do outro lado do rio há uma parede confusa e até feia de edifícios de vários tamanhos, estilos e épocas, como que indicando “bem vindo ao caos”. De qualquer forma é uma vista magnífica que mereceria destino melhor que a passagem corrida de automóveis e ônibus. Eu tomaria a ponte dos carros para a criação do Museu dos Rios. Dá para usar a mesma estrutura para colocar uma área pública, romântica, envidraçada, transparente, significativa da retomada da cidade pela vida. Com isto se faz um boulevard na rua Butantã ligando o rio até os largos de Pinheiros e da Batata. Retomada a história.

Por mim todos edifícios da Avenida Paulista seriam obrigados a interligar seus térreos ou shoppings, ampliando a área de convívio e melhorando as mobilidades quando a condição climática não for boa. Não é tão simples assim de realizar, mas poderia fazer com que áreas comerciais que hoje estão praticamente mortas revivessem. Fortaleceria a unidade de um espaço urbano que hoje não passa de um aglomerado de construções diversas, de gosto bem duvidoso. Hoje a junção se faz pela via de passagem rápida (velocidade máxima 60 km/h) e um calçadão. (E uma quantidade incomoda de atropelados.) O mobiliário urbano que havia lá, projeto de alta qualidade estética, prático e funcional, vem sendo desmembrado e descaracterizado. Vide a troca das tradicionais luminárias de canteiro central, agora um arremedo kitch do modernismo barato. Ilumina, concordo, mas é brega.

A Paulista tem que se transformar em um espaço digno de uma das maiores metrópoles do planeta. Falta respeitar pessoas com deficiência, ciclistas, os próprios pedestres, quem usa o transporte de massa de superfície... Falta mais espaços de convívio, como o estímulo a mesinhas na calçada. Falta uma integração mais dinâmica com o resto da cidade, no melhor aproveitamento de espaços próximos como o terraço sobre o Túnel 9 de Julho e Parque Trianon; ou até a força do Bexiga; da Frei Caneca, rua Augusta, do mirante para o Pacaembu da própria av. Paulista (cruzamento com a rua Minas Gerais). Tem que integrar, que girar 24 horas. A interligação dos edifícios e condomínios é complicada, simplesmente um sonho de unidade, de conjunto, de urbanidade.

Não vou falar em reorganizar o Centro porque isto é o básico do básico e não um sonho. Infelizmente tem gente que acredita que a imbecilidade que se fez em nome do Projeto Nova Luz é o correto. Ignorância é o maior perigo. Cracolândia ou Cacolândia? Aliás, as operações urbanas são um tanto deformantes. Não entendo bem a quem servem......

Para mim o principal sonho é ver o Projeto Córrego Limpo completamente realizado, com a recuperação plena da qualidade das águas e do entorno, com a criação de parques lineares, acesso fácil, onde venham a ter crianças brincando na rua sem que seus pais tenham que ficar vigiando, como acontece em qualquer lugar civilizado do planeta. O Córrego Limpo está caminhando, mas poderia estar bem mais adiantado se houvesse apoio real da população. Algumas intervenções são difíceis porque é necessário tirar gente que invadiu área pública, o que não falta nesta cidade. Mesmo em áreas bem estabelecidas como no entorno da av. Francisco Morato, Butantã, há dificuldades para se implantar coisas bestas como as facilidades propostas pelo Ciclo Rede Butantã, que espero será implantado em uns 7 córregos e ruas adjacentes.

A verdade é que São Paulo carece de projeto, sonho, de inteligência urbana, de coletividade, de paulistanidade. Se fosse possível desinvadir estas terras de seus usurpadores... Daria para falar em pegar uma ponte e colocar um museu com vistas para o rio; e não seria coisa de louco