terça-feira, 22 de setembro de 2026

22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro... e daí?

Hoje é o dia mundial sem carro, letras minúsculas e sem aspas. Hoje deveria ser o 'Dia Mundial Sem Carro'. Poderia, deveria, seria legal, divertido. Seria. Quem se lembra.

Não lembro quando e onde criaram este dia de manifestação, que levado no bom sentido serviria para fazer a população pensar num mundo novo, pelo menos um pouco menos congestionado. Nos primeiros anos houve até uma pequena e interessante adesão. Foi diminuindo, diminuindo, diminuindo... Até me lembrei da data, não creio que vá esquecê-la, tive momentos bem divertidos nas comemorações, mas hoje, em particular, neste dia de chuva intensa e alertas de tempestades, sem carro complica. Complica dentro de uma sociedade como a nossa que perdeu seu bom humor coletivo faz tempo. 

A bem da verdade decidi escrever este texto porque na minha rede social recebi um texto de um ciclista daqueles bem ciclistas confessando que justo hoje estava de carro. "Vai de retro Satanás". Não, eu não entro nesta. Eu absolvo este pecado até porque já tive que fazer exatamente o mesmo. E absolveria caso eu não tivesse pecado igual. Quanta besteira!

Ontem abri o mapa de Manhattan no Google Maps e descobri que a Broadway Ave. praticamente desapareceu do mapa. Simples, de uma das mais importantes e movimentadas avenidas de NYC, a partir de 2007 foi transformada num espaço público para pedestres, ciclistas e quem quiser simplesmente sentar, mais o que restou para os carros,  uma simples rua separada por vasos de flores. A gritaria inicial mudou para total apoio, e mais e mais avenidas hoje estão quase sem carros, ou automóveis. Pandemia de "Dia Mundial Sem Carro", contagiante. O mesmo em Paris, Londres, etc e tal, tantas que não me lembro mais - felizmente. 

Eu não tenho mais saco para sair de carro. Se já não tinha muito, agora estourou. Não só o meu. Que tal fazer 4 km dirigindo ou como passageiro em quase uma hora? Sim. A pé se vai mais rápido. Que tal não ter mais qualquer previsibilidade de tempo de viagem num automóvel? O mesmo trajeto pode durar 15 minutos ou dar graças a Deus que conseguiu chegar em casa e não fez pipi no carro. 

'Dia Mundial Sem Carro' poderia ser o início de algo muito bom para todos, especialmente para os próprios motoristas. É muito provável que não tenha colado porque se deve ter enfiado no mesmo saco do "nós ou eles", como tudo que vem acontecendo neste país. Ideia de comunista? Carro é o simbolo do capitalismo? Nossa! que mais? Triste.

O automóvel não vai desaparecer, disse um amigo que sabe das coisas. E não vai, nem deve, não pode. Não há outra saída a não ser racionalizar seu uso. Só isto já ajuda uma barbaridade.

'Dia Mundial Sem Carro'.

PS.: Sair de bicicleta em dia de chuva é uma benção. Os motoristas ficam encalacrados, você segue em frente. Basta uma boa capa... ou não só. Os ineptos que projetaram as ciclovia e ciclofaixas esqueceram que chove, se chove junta água, se junta água faz poça, se tem poça o ciclista mesmo com a melhor capa se encharca... Como nossa educação, inclusive a Universitária, está secando, virando deserto, não ensinam o que é drenagem. Faz todo sentido.

O que dá certo no Brasil (e no mundo)

Duvido que algum candidato se interesse realmente por este precioso artigo. Nosso formato de eleição não abre espaço para colocações como a desta preciosa verdade aqui apresentada. Bandeirolas? Horário político obrigatório? Debates de duas horas com candidatos ausentes e temas genéricos? "Nós ou eles" e todos seus fanáticos seguidores já deram provas cabais que querem o poder, o resto que se dane. Acho deprimente escrever isto, mas creio com profunda tristeza que não esteja tão errado.

Chama atenção datas citadas para a criação da Embrapa, ITA e Embrear, 1969, 1970, plena 'dentadura'. E em relação ao Porto Digital, 1990, poucos anos pós 'dentadura'. Nos comentários vem outros exemplos, todos do mesmo período. Eu citaria a Engesa. Gurgel não, há muito de nacionalismo aí e desconhecimento do interno. De qualquer forma, as datas de suas criações foram dentro da 'dentadura' ou embrionadas ali. Não é uma defesa, é um fato. Algum exemplo tão notável pós ditadura? Por favor, dêem.

A única saída para o Brasil, como para qualquer sociedade do mundo, em qualquer momento da história, está na qualidade, que, como citado no texto, por vezes pode não funcionar por diversas razões externas a qualidade. Mas sem qualidade não há progresso, não há futuro, ponto. Os brasileiros, todos, de todos níveis econômicos e educacionais, sem exceção, ainda não entenderam isto. Se tivessem entendido haveria apoio maciço à pesquisa, o que definitiva e vergonhosamente não temos.


A filosofia irresponsável do precisamos de quantidade para distribuir trás consigo um futuro incerto, errático, que em algum momento vai dar problemas, vai sobra para muitos alguens, isto é líquido e certo. Muito pior é o faz de qualquer jeito, instituição brasileira, marca registrada, desastre certo.

Obrigado pelo artigo. Pena que só vá ser lido por assinantes. Fico ansioso pelos artigos complementares.

Deixo meu profundo agradecimento ao Marcos Lisboa, um brasileiro. De verdade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ler a coluna de Karnak como Manifesto pela Educação

Poucas vezes em minha vida um texto pegou tão pesado quanto este de Leandro Karnal sobre a situação da educação brasileira. Sou professor, prefiro dizer que sou educador. Como professor dei aulas em colégios estaduais por um curto período, e em particular por alguns anos, isto entre 1978 e 1984, época que a educação brasileira já apresentava problemas, mas nada na escala que se tem hoje.

A educação no Brasil entrou em colapso, e não só a educação escolar, mas a social também. As formalidades mínimas para um decente convívio social, coletivo, estão num limbo de "você sabe com quem está falando", nós ou eles, é meu direito, pandemia de celulares, selfies e redes sociais "veja meu sorriso e como sou rico, lindo, e gostoso". Ok, desculpem, ia esquecendo o politicamente correto que obriga a uma correção "como sou rica, linda e gostosa". A distorção geral do que é conhecimento e saber é um horror. 

Karnal pública um texto no Estadão, este que consegui copiar e está aqui abaixo, que é com certeza um Manifesto pela Educação do Brasil. Pedi nos comentários do Estadão que seja liberado por Karnal e o Estadão em Word ou PDF para ser divulgado para público muito além dos assinantes. Com o dito palavrão e tudo mais. 

É deprimente ver o que a educação escolar se transformou. Tem que mudar. Ou melhora ou estamos muitíssimo mais fodidos que estamos agora.

Salvem a educação. Salvem a escola. Salvem os professores. Salvem o Brasil. 

E se não entenderam, salve se quem puder, o que em qualquer hipótese não acontecerá. 

Sem educação, sem professores, você e os seus simplesmente não têm qualquer futuro, não importa quem ou o que você seja. Se você acha que estou errado..., bom, aí... fazer o que? Meu caro, a história não mente.

Leandro Karnal, muito muito obrigado. 



Estadão 

Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião


Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola - é da sociedade
Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte
Por 
20/09/2026 | 05h30
Sócrates não cobrava. Os sofistas, sim. O debate sobre o preço de ensinar é tão antigo quanto a filosofia ocidental, e parece que nunca o resolvemos. No Brasil de 2026, entretanto, o problema mudou de foco.

Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.

Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.

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A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.

Sala de aula vazia na Escola Estadual Tacísio Alvees Lobo (Eetal), na Feguesia do Ó, em São Paulo, em foto de janeiro de 2001. Foto: Celso Junior/Estadão
Opinião por Leandro Karnal
É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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Tudo Sobre
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Karnal, parabéns! Sua análise toca no âmago da questão. Apesar de já não ser mais jovem, ainda me recordo dos meus professores com afeto, e com o passar dos anos, apercebi-me de suas limitações, afinal todos temos no exercício de nossas profissões e tarefas, e de suas magnanimidades. Infelizmente, fico sempre com a sensação de que, apesar dos "estímulos" do governos, de que há um profundo interesse dos deles em manterem a população no desconhecimento e na ignorância.
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Olhando para a realidade sem filtros, sinto que a sala de aula virou um doloroso teste de resistência. Exigimos que um professor exausto dispute a atenção de mentes hiperestimuladas, pagando um salário que ridiculariza o ato de ensinar. Mas o erro é culpar a tecnologia ou demonizar o jovem. Para quem enfrenta a precarização, a tela oferece uma rota real de fuga, ao passo que o diploma virou uma promessa vazia. Trata-se do colapso de um pacto onde a atenção virou moeda e o esforço paciente perdeu valor. O influenciador não substituiu o mestre por carisma, mas porque a sociedade mercantilizou o imediatismo e abandonou a base do saber. Se a escola não ressignificar seu papel diante dessa economia do engajamento, restará apenas a ilusão dos tutoriais vazios. Taxar a busca dos jovens pela monetização digital como uma fantasia revela um ponto cego diante da precarização do mercado de trabalho tradicional. Para a periferia, a tela representa uma estratégia de sobrevivência racional e imediata, uma vez que a promessa de ascensão social por meio do diploma universitário perdeu eficácia prática. Em outras palavras, a crise da educação não decorre de uma hipnose tecnológica da juventude, mas do colapso de um pacto social onde a escola permaneceu engessada, o diploma perdeu sua força de ascensão e a tela se tornou a única rota palpável de sobrevivência material e validação em um mundo dominado pela pressa.
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Em relação à sociedade, eu vejo todo dia porque trabalho como secretário de escola. Todo santo dia várias mães e pais ficam indo na escola retirar o filho ou filha mais cedo sempre alegando os mais variados motivos, só que a maioria fala médico e dentista, e sabemos que vários é mentira. É um desrespeito enorme com a educação. E a cada buscada interrompe a aula e atrapalha todos: o professor, os alunos e o próprio aluno que está indo embora. E se questionamos esses pais, eles acham ruim ainda, acham que estão certos. Além disso, vários alunos inventando dor para ir embora, com o detalhe de a maioria ser tudo depois do recreio, e pior: os pais ainda buscam, por isso fica mal acostumado e vira meio de vida. E mais uma situação: hoje se o professor chama a atenção do aluno, a mãe ou o pai vai lá querer falar com a diretoria para reclamar do professor. A situação tá bem difícil. Isso também foi um desabafo da minha parte. O buraco está bem fundo mesmo. A sociedade não valoriza a educação, essa é a realidade.
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A PND do ano passado teve um milhão e setenta mil inscritos, ou seja, há muito licenciado em prontidão. Ao contrário do que dizem, há muito, mas muito mais diplomados do que o que pode ser absorvido pela necessidade. Caso se considere a tendência de redução do crescimento populacional, isso se acentua mais. Além disso, o professor não é mais, nunca foi, o único que pode ensinar hoje. Recomendo o Mariano Fernandez Enguita, intelectual espanhol muito reconhecido: "hoje não nada que se possa aprender na escola que não possa ser aprendido fora dela". As coisas mudam, gente.
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Meus parabéns caro Professor Karnal. É espantoso, à Luz da tragédia que a sociedade brasileira passa com o desmonte da estrutura republicana e democrática, na esteria de um projeto (Brasil República de fato) que nunca se realizou totalmente, vermos um sem número de bandeirolas nas cidades brasileiras estampando políticos e aspirantes aos cargos da atual eleição como se tudo estivesse um maravilhoso espetáculo. Tenho muita convicção de que o riso dos políticos nestas fotos é de nós e não para nós. Estamos assistindo um circo de horrores na gestão da coisa pública em todos os níveis e o seu diagnóstico é muito preciso. Temo que o estado Orwelliano que vivemos e o aparelhamento do estado, junto da inércia do poder do Centrão e os resquícios do poder concentrado nos donos das Capitanias Hereditárias estejam em rota de colisão com o que o senhor aponta como diagnóstico. No momento é só ladeira abaixo. Que Deus nos ajude.
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Hoje já li diversas notícias em vários veículos de comunicação. Essa coluna foi a que mais me deixou abalada por sua realidade nua e crua. Estamos preocupados e falando amplamente sobre o crescimento da IA e seus perigos na sociedade? Isso é um detalhe pequeno em comparação a falta de educadores em nossa sociedade. Esse artigo cumpriu seu papel: me fez pensar muito, mas também me deixou apreensiva .
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Professor parabéns pelo verdadeiro texto. Como seu colega de docência veja a cada ano o desprestígio da profissão, o desinteresse e a ausência de qualquer política pública verdadeira sobre a educação. Os governos e os candidatos nesse tema falham miseravelmente. Uma tragédia.
É um dos textos mais pesados que li na vida, pior, absolutamente realista. É um manifesto. Peço encarecidamente que o Estadão e Karnal liberem este documento em Word ou PDF para divulgação pública. Tem que ganhar outra escala, muito além da nossa, assinantes. Por favor, liberem.
“Não haverá um Brasil que valerá a pena num futuro imediato…” é ser muito otimista, professor. O nosso pobre Brasil está indo ladeira abaixo na educação, na segurança, na infraestrutura e não há menor esperança de que o cenário vai mudar nas próximas décadas. Na matéria de capa hoje aqui no Estadão o assunto é o estrago que a atitude do ‘ministro’ Dino fez na campanha de reeleição de Lula. O que aconteceu essa semana no STF foi vergonhoso e absurdo, mas o governo só faz as contas de quanto o episódio vai interferir nas eleições. É só isso que interessa ao governo: se reeleger. A educação? A segurança? A saúde? Não é problema deles…
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Se daqui a 10 anos professores forem substituídos por salas de videoconferência com IA dando aulas, não se espantem. Se daqui a 10 anos, influenciadores forem convidados para dar aulas, também não se espantem.

domingo, 20 de setembro de 2026

Quem recuperará o STF em profundo descrédito?


"STF não representa o Brasil"? Desculpem, todos, STF é o reflexo mais fiel, preciso, de quem somos. Por favor, acordem. Nosso judiciário é o mais perfeito reflexo do que é o Brasil, ou os brasileiros. Nossas leis, uma baderna que serve bem a interesses particulares, são o reflexo do que somos e queremos. Não resta a menor sombra de dúvida.

O que temos hoje e tanto criticamos é o belo fruto de quem somos. Quem acredita que o outro é sempre o culpado presta um desserviço a si próprio, aos seus e principalmente ao país, que desintegra. É impossível desvincular o que está acontecendo do profundamente enraizado "você sabe com quem você está falando" que todos nós, brasileiros, sem excessão, falamos ou demonstrarmos nos mais triviais comportamentos. "Eu tenho direito!"

Não tem! Tem direitos e deveres, ou talvez melhor, muito melhor, deveres e direitos.

Sim, como este editorial diz, de uma forma ou de outra o STF terá que entrar nos eixos, e provavelmente será pela força do povo (força é uma coisa, porrada e quebra quebra de imbecis é outra). Para entrar nos eixos, para ter isenção, neutralidade, ser justo, e porque não dizer ser honesto, e assim atender de fato os interesses coletivos, o STF precisa de uma referência forte, precisa sentir que não serão aceitos deslizes, precisa da certeza a quem serve. Pergunto a todos: no país cego e muito contaminado pelo "nós ou eles" isto acontecerá?

sábado, 19 de setembro de 2026

Passageiros sem civilidade

Faz uns 20 anos fiz uma pesquisa de trabalho sobre transporte público aqui em São Paulo. Fui até a SPTrans, fui recebido por uma diretora. Questionei sobre qual seria o maior problema para os motoristas de ônibus. A resposta, dada de imediato e sem titubear: os passageiros. Perplexo, achando que a resposta era uma piada, a diretora contou que as empresas de ônibus estavam com um sério problema para renovar seu plantel de motoristas, uma geração inteira estava se aposentando, e que por causa disto a SPTrans tinha acabado de realizar uma extensa pesquisa. Praticamente todos motoristas responderam que o problema não era o trânsito, nem o barulho do ônibus, nem salário, ou outros, mas ter que lidar com o público, com os passageiros. "Se tirar o passageiro eu trabalho feliz" foi o que mais se ouviu. Quem se transporta por ônibus sabe bem o que os motoristas falam. Eles tem toda razão. O que se vê hoje é lastimável.

É deprimente saber que está medida da ANAC não tenha sido tomada antes, e muito muito antes. E não só ter controle de um mínimo de civilidade dentro dos aviões, mas também dentro dos aeroportos.

Brasil se transformou há muito no país do "você sabe com quem está falando?". Os problemas em vôo são reflexo de um comportamento generalizado, que começa no papelzinho jogado no chão e termina no deprimente exemplo do STF, nesta ordem.

"Você sabe com quem está falando?", ou o nosso maravilhoso "nós ou eles", que só está aí porque a imensa maioria dos cidadãos brasileiros, repito, cidadãos brasileiros, calam perante absurdos. Passaram a acreditar que cidadania e civilidade só existe nos extremos. Deprimente

Saber distinguir uma emoção da outra, saber filtrar, aprender a tolerar. Nos comentários aqui do Estadão vivo batendo na questão da cidadania, que remete à disciplina social e tolerância, o que neste país do "você sabe com quem está falando" praticamente desapareceu, o que por sua vez vem criando uma quantidade enorme de pequenos traumas coletivos. O resultado está neste insuportável "nós ou eles".

Como educador me pergunto constantemente como se pode tirar toda uma população de vícios destrutivos? A resposta talvez esteja em comer os pequenos traumas pelas bordas.

Ótimo artigo, Luciana Garbin

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Minha sugestão para acalmar o tarifaço



Minha sugestão:

  1. A mesma escola de samba que saiu com o enredo Lula agora deverá sair com enredo Trump.
  2. O carnavalesco deve ser o roteirista do Dark Horse 
  3. Só serão permitidos participantes e sambistas votantes ou ligados a família Bolsonaro e messiânicos
  4. Só serão permitidas passistas loiras, magras, pele alva, com prévia aprovação pessoal do Sr. Trump 
  5. A bateria terá de ser formada por milicianos treinados
  6. O júri no sambódromo será composto por americanos natos de famílias cubanas
  7. A apoteose deve ser realizada única e exclusivamente com os dissidentes injustamente presos na justa tentativa de anulação das eleições 
  8. O acesso ao sambódromo será realizado por urnas eletrônicas
  9. Serão distribuídas a toda audiência perucas loiras e estes serão obrigados a usá-las para permanecer no local
  10. Uma duble da Exc. Sra. Trump abrirá os desfiles
  11. Está sumariamente proibida a execução ou canto do "Samba do crioulo doido"; único ponto já aceito - plenamente e sem discussão - pelo Governo Lula e esquerdas que o apoiam
  12. Todas lojas da Havan trocarem a estátua da liberdade por uma estátua dourada duas vezes maior do Sr. Trump.
  13. Será construída a torre a mais alta e bela em Balneário Camboriú, com portal dourado, que receberá o nome de Trump Tower.
  14. Será construído o Trump Resort no Lago Paranoá
  15. As inteligências que apoiarem estarão automaticamente elegíveis para o Prêmio Nobel da Paz


Vale a pena ver este Instagram 

https://www.instagram.com/reel/DdJyxgYy1c-/?stkn=cTg4bjZyaGxmaTRq



terça-feira, 15 de setembro de 2026

Privacidade está ruça

Privacidade? Quando, onde? Se tiver a indicação de um livro sobre a história da privacidade, que escrevendo aqui acho que lembrei que tem, quero ler. É claro que atualmente mesmo antes do IA já se estava acelerando muito a invasão de privacidade de todos. Em se falando da Rússia, deve ser mais ainda. Lá não é novidade, que o diga a dita 'maravilhosa' (para alguns) União Soviética. Ou o macartismo. Ou..., enfim, escolha o sua invasão de privacidade predileta.

A qualidade da privacidade está intimamente relacionada a integridade e inteligência de quem temos por perto ou no comando. A escolha é de cada um.

Um esquizofrênico ou um louco no poder e a qualidade da privacidade de todos acabará sendo um pouco estranha, por assim dizer ou dizer o mínimo.

Privacidade, privacidade, a deliciosa privacidade, esta infelizmente está esvanecendo, ou acabando paft puft. Quando votar escolha a sua e depois não reclame.

('Alexa...' . ...no meu banheiro não.)

Vale uma historinha: em 1973 eu e um amigo tomamos um 'discreto' puxão de orelha. Foi assustador descobrir que eles sabiam minúcias da besteira que tinhamos feito, incluindo todos locais e nomes. E não foi política.

Se quiserem ir atrás da informação e tiverem um mínimo de bestunto, vão chegar aos fatos. Não é novidade, nunca foi.

Agora, o que a Rússia vive é uma nova versão da Santa Inquisição, muito mais sofisticada. E não só na Rússia, tenham certeza. Pior, vota se nos santos inquisidores, de todos tipos, acreditando que eles são o caminho.

Fato: a estupidez está em moda. E a privacidade está ruça.

sábado, 12 de setembro de 2026

A Rede Globo, a transmissão de jogos, e nós

Sim, infelizmente esta compra dos direitos sobre transmissão de futebol terá uma influência enorme no futuro do país que queremos. Ou alguém acha aí que o que vem acontecendo no futebol é completamente desconectado com a baderna generalizada que vivemos? Futebol, o esporte das massas, a conversa sagrada do botequim. Não estou falando que a Globo é culpada de todos os males, o que é repetido aos quatro ventos pelos torcedores mais fanáticos, políticos no caso. "A Globo é a culpada, ponto final", afirmam categoricamente, outro encontrar um eterno e inevitável culpado útil para os próprios erros. Não resta dúvida, o outro é culpado, sempre! Falo sobre futebol, aquele de glórias passadas e fracassos embaraçosos presentes que terminam nunca. Pode apostar!

Falando de futebol, aquele esporte das massas, do pão e circo do passado, virou sócio majoritário do espetáculo deprimente que está aí, nos campos, nas ruas e no Planalto. Qual a diferença entre a arbitragem desastrosa que temos no nosso futebol com o STF? Qual a diferença nos resultados? No que eles, juízes, todos, de todas áreas, influenciam o comportamento da população?

Particularmente não gosto das transmissões esportivas da Globo, superficiais, bobas, algumas irritantes, mas quem mantém aquilo em pé somos nós, o povo, a audiência, os votantes. Sem nós, acabou. Ou eles mudam o caminho. Caso tivéssemos tirado nosso apoio a todos os que fazem o futebol ou Brasília que temos agora o que você acha que aconteceria?

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Horário eleitoral obrigatório

Decidi tomar coragem e deixar a TV ligada no horário eleitoral obrigatório. Como definir esta mesmíssima coisa que temos todas eleições faz décadas. Um show de mediocridade. Não estou falando dos candidatos que, como humanos, tem de tudo e acaba se não sabendo quem é o que. Estou falando do formato, da inexistência de comunicação, de uma desinformação total que este horário eleitoral obrigatório nos remete. "Vote em mim..." é a maior imbecilidade possível. Alguém ainda tem alguma dúvida que este formato de campanha política tem responsabilidade inequívoca e direta na baderna, neste caos que o país está atolado? "Sou... Fiz.... Vou.... Vote em mim..." é literalmente inaceitável. Chega! Queremos saber de fato e por direito em quem se pode votar. O horário eleitoral obrigatório só manda um recado: E aí, trouxa, escolhe um e cala a boca!" E nós aceitamos, quietos 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Educação no Brasil


A maioria dos brasileiros não conhece a história da educação no Brasil, que num passado distante foi de ótima qualidade. Desandou pesado. De fato, estes políticos e seus partidos já provaram que o interesse real pela educação se resume no poder eleitoral da palavra educação, ponto final. Até onde sei, as escolas que estão apresentando resultados bons são fruto do trabalho de pessoas, não de uma política mais ampla e abrangente. Meu máximo respeito a elas. Não se pode deixar de apontar que a participação de país e responsáveis na qualidade da educação é crucial, e aí, como em tudo, há um silêncio, uma omissão macabra. Aliás, nem sempre. Histórias de país enfurecidos culpando a escola e os professores é o que não falta. 
Recomendo a leitura do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. 

Para terminar, como nós, brasileiros, aceitamos as escolas que temos? Como aceitar um forno de alunos, banheiros precários, falta de material didático e esportivo, merenda.... Não há verba? Não há verba? Como assim?

O resultado do Pisa divulgado ontem que o diga.




Aliás, recomendo também a leitura da história, real, do Oldsmobile que não funcionava quando seu dono comprava sorvete de chocolate. 
Você impõe qualidade quando tem a devida atenção às pequenas falhas e erros. Não há outro caminho 

 

A guerra das distintas senhoras, e os master acontecimentos

Vim morar nesta casinha em 1987. Naquele tempo a rua era muito tranquila, não ligava nada a nada, crianças brincavam e as velhas fofocavam, todos no meio da rua sem qualquer preocupação. Claro que tinham dois partidos de fofocas, não importava sobre o que, fofoca é fofoca, e as que tendo alguma fofoca estavam lá, juntavam se rapidamente os dois lados mais uma espécie de centrão, as ouvintes que só queriam aproveitar. 

As duas alas eram capitaneadas por duas senhoras que eram vizinhas de muro, uma mais ativa e outra mais na dela. As duas não se bicavam. Uma reclamava dos cachorros da outra, viviam as turras.

E um dia, não se sabe como, por que ou quem, voou merda por cima do muro, o que não demorou muito para ser retaliado na mesma moeda, leia-se merda. E pegou fogo, ou, melhor, deu merda - literalmente. As duas deixaram de aparecer para suas fofocas, mas é lógico que a merda espalhou em fofocas que eram notícias de última hora. "Urgente! Última notícia! Urgente! Voou merda!"

E os policiais foram chamados, não se sabe por quem. Pararam a viatura na frente das casas, chamaram as duas, ouviram até perder a paciência, e mantendo uma calma que quem estava em volta ficou espantado, disseram que elas tinham que parar e que se não parassem iriam as duas para a delegacia. 

Dia seguinte a.mesma merda para tudo quanto era lado. Da rua era possível sentir o cheiro de merda no ar, não era preciso vê-las voando para saber o clima de merda que ali reinava. E mais uma vez foi chamada a polícia, que mais uma vez apareceu, deu uma bronca nas velhas, que aparentemente colocaram o rabo entre as pernas. Que nada! Não tardou e merda voando para tudo quanto era canto.

A terceira chegada da polícia foi apoteótica. Dobraram a esquina sirene ligada, frearam cantando pneu, abriram as portas da viatura antes mesmo de parar, perfilaram se e gritaram para que as velhas aparecessem. Para surpresa do público presente só apareceu a velhinha que era mais mansa na fofoca. Ouviu de cabeça baixa e jurou que se comportaria, que pararia com a guerra. E de fato, para o espanto geral da rua, parou.

Dia seguinte de novo o espalhafato do carro de polícia e seus policiais, os mesmos, pressionados pelo delegado e.muito mais pela vontade de matar as 'véias'. Param na frente da casa da velhinha de língua afiada, tocam a campainha uma vez, duas, três, e tendo sido avisados pelas outras velhinhas da rua que ela estava em casa, urraram que se ela não saisse iriam invadir a casa. E lá vem a velha. "O delegado mandou avisar que ou a senhora para de ligar para encher nosso saco ou vai presa, vai ser colocada na jaula com as outras presas, as bandidas, as ladras, as putas, as bêbadas, e... as assassinas. Ai vamos ver se a senhora sossega". Ela ainda tentou argumentar, talvez para manter sua moral frente ao povo e as velhinhas da fofoca, mas o policial levantou um dedo e gritou a pleno pulmão "Calada!". E ela calou. Foi assim o fim da guerra da merda, que tantas lembranças de merda deixaram para esta pacata rua. 


É inacreditável o que se lê, principalmente em alguns comentários. Minúcias técnicas? O jornalismo é o culpado? Tal ministro tem que ser fortalecido porque atende aos meus interesses? Os juristas são uns imbecis (o que não está escrito, mas subentendido)? 

Senhores, não importa de que lado vocês estão, o que está aí não interessa a absolutamente ninguém. Estamos dentro de um salão, com luzes apagadas, quebrando tudo que está a frente, achando que esta baderna nos vai dar futuro, ou vai dar o futuro que um ou outro lado sonham. Não vai, esta é a única verdade, não vai. Mesmo que um lado vença, o resultado final será muito frágil. Mais, a casa vai estar em ruínas, o que não atende a nenhum interesse, nenhum.

A casa já está em ruínas, não dá para perceber? Que tal acalmar um pouco e começar a colocar as coisas numa ordem minima para que se possa sentar e conversar feito gente grande, como adultos?

Os manifestos e suas muitas assinaturas apontam que tem cada dia mais gente tentando acender uma luz. É minha esperança. 

Aos que estão encostados nas paredes ouvindo a pancadaria, por favor, vão para o meio do salão e acalmem a situação sem se importar de receberão cadeiradas pelas costas. 

Há uma verdade incontestável na história: Trate com respeito deus inimigos. Toda e qualquer forma de tratamento só diferente sempre deu errado. É História com H maiúsculo. 

Dúvida cruel

O que fazer quando você está sentado no trono e passa leve e faceira uma barata pelos pés? 

  1. Esmaga-la com os pés descalços e ficar olhando o nojento creme e os restos mortais da cena do crime enquanto resolve suas pendências intestinais?
  2. Gritar histérica e desesperadamente pedindo socorro a sua mulher arriscando se a mata-la de infarto?
  3. Levantar se, abrir a porta e sair correndo da barata sem as devidas precauções com a higiene?
  4. Deixa-la passar para longe da vista e fazer uma meditação transcendental Hare Krishna para cancela-la de sua consciência? 
  5. Continuar olhando para ela evacuando seu ódio a tudo que está acontecendo em Brasília?
  6. Esticar a mão e pegar o 'Metamorfose' de Kafka para ter compaixão pela barata?
  7. Pegar o celular, ler os editais dos jornais, ir aos comentários e escrever com emoção?
  8. Começar a cantar 'Que tudo mais vá para o inferno' lembrando dos cabelos ralos de Roberto Carlos?
  9. Ter uma crise depressiva de inveja do sangue de barata da barata? "Como ela é zen!"
  10. Será uma barata ou um barato? Tenho que ter uma atitude politicamente correta?
  11. Será que ela tem uma rede social com muitos seguidores?
  12. Pegar a barata com a mão, com cuidado para deixar as anteninhas abanando entre os dedos, levantar se do trono bunda de fora, abrir a porta, espalhar o maravilhoso odor pelo quarto, e com a barata viva entre os dedos, anteninhas se movendo para confirmar, ir até sua mulher que acaba de acordar, ainda de cara torta, e dizer com carinho "Benzinho, olha o que achei no banheiro". Se ela disparar a correr aos gritos "Sai de mim, tira isto daqui", recomendo que corra atrás pedindo que ela tome providências. Costuma dar certo.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A nova geração tem menos vida social (aliás, como eu tive na juventude). É um erro

Uma pesquisa nos Estados Unidos mostra que a geração mais nova está participando de menos festas que as mais velhas. Mais, tem bebido menos, se preocupado muito mais com sua própria segurança, com seu bem estar, o que a jornalista diz que é uma boa coisa. Mas também tem convivido menos, feito muito menos trocas sociais tete a tete, e menos interação social reflete diretamente na saúde cardíaca, como provam inúmeras pesquisas.

A entrevista da BBC que publico aqui fala sobre uma série que questões que eu vivi e vivo, e sei muito bem o que dá. 

Olha só que chique, eu sou filho do Jardim Europa, área nobre de São Paulo e Brasil. Nasci e tive toda minha infância numa linda casa, com um belo jardim, bastante espaço, vários luxos de classe média alta, como carros, barcos, até o prazer de voar nos fins de semana. Chiquérrimo, não é? Pois bem, trocaria tudo para ter um grupo de moleques para brincar no meio da rua. 

A linda casa estava encravada num bairro chique, vazio de crianças e vida infantil nas ruas. Minha diversão na infância foi ver carros importados fazendo a longa e aberta curva da esquina cantando pneus a 'mil por hora', motos berrando em acelerações disparadas, e sonhando com uma bicicleta a motor dois tempos, barulhenta, fedorenta, que algum visinho desconhecido tinha. Ouvindo histórias de adultos que fascinam crianças. Mas outra criança para brincar... não. Ah! e TV, desde meus mais tenros aninhos, TV com regras e horário para ligar e desligar. E rádio, que ficava ligado boa parte do dia. A noite, jantar e cama. Meu irmão e minha irmã eram mais velhos, meus primos não apareciam, até tive um único amigo, Edu, que não durou muito. 

Enfim, tive uma infância isolada não muito diferente da vida das novas gerações que é descrita nesta entrevista da BBC. A diferença para hoje, e enorme, era que a estupidez paranóica dos muros transformando as casas e as vidas dentro deles ainda era bem rara. A idade média não tinha aterrissado por aqui. Fato, brincadeiras de rua com outras crianças não tive. 

A casa afundou junto com o casamento de meus pais, no fim das contas uma benção para todos. 

Quando nos mudamos para um edifício na antiga e desaparecida rua Iguatemi, hoje av. Faria Lima, comecei a descobrir a vida. Lá viviam famílias judias com filhos da mesma idade que eu. Não tenho como agradecer a eles. Ali comecei a descobrir a vida. Juntando mais alguns amigos deles, também judeus, nos divertimos muito no fundo do edifício. Quebramos sei lá quantas janelas jogando bola, e não sei como não fomos esganados. 

Não demorou muito foi construído o Shopping Center Iguatemi praticamente em frente do nosso edifício. Eu já estava na pré adolescência e tinha liberdade para sair sozinho. Repito: sozinho. Os garotos do edifício tinham lá suas vidas e boa parte do meu dia eu ficava só, vendo televisão e um pouco mais tarde ouvindo música. 

E aos 14 anos fui expulso e tive que trocar de colégio. Que benção! Começando por ser misto. Descobri que eu era gente ou que poderia ser gente. Vamos ficar com o 'poderia ser gente'. Ok, colégio novo, muito mais liberal, quase fui expulso uma semana depois porque mandei a merda a Marcia, coisa que definitivamente não se fazia naqueles tempos. Marcia virou uma grande amiga. Os anos seguintes de escola foram de um precioso aprendizado social, mas não uma vivência social. No meio de todos, mas não dentro do todo. Socializar só dentro da escola, e mais ou menos, mais para menos. Fora, eu estava fora. 

Meu aniversário de 15 anos acabou sendo um desastre. Minha mãe fez um vatapá maravilhoso (ela cozinhava divinamente bem) para todos os convidados, não sei quantos, mas minha classe do velho colégio, e o único que apareceu foi um primo. Até hoje não sei o que houve, mas ali foi marcado o jogo de minha vida. 

Meu núcleo familiar foi ótimo, de uma qualidade que hoje sei ser de rara qualidade. Uma mãe com uma inteligência familiar muito acima do normal, uma casa onde circulava todo tipo de gente, todos amigos de minha mãe ou de meus irmãos, mas gente para lá de inteligente, preparada e divertida. Meus amigos? Poucos, se tantoEm toda vida de minha mãe só houve uma briga entre os irmãos, uma única vez com meu irmão, aos berros, num jantar, no final da vida dela. Nos arrependemos brutalmente mais tarde. Depois, já com nossa mãe morta, meu irmão veio pedir desculpas. 

Minha formação acabou sendo diferente da convencional. Virei uma coisa que não se encaixava socialmente. Um outsider, introspectivo, fora das regras triviais, com interesses pouco comuns. Eu não me encaixava, e tenho certeza que os 'amigos' também não queriam que eu me encaixasse nos grupos sociais que eles viviam. Dou razão a eles. Eu não tinha prática comportamental para me integrar em festas e reuniões, o que para mim dificultava muito qualquer iniciativa. A bem da verdade fui um chato de galochas. Mais ou menos a mesma coisa que um jovem que só sabe se comunicar com o celular.

Enfim, olho para meus netos e a geração mais nova e fico angustiado com o que eles estão fazendo de suas vidas. De certa forma não há grande diferença em isolar-se frente a uma telinha com o que vivi. Não funciona. Socialização tete a tete é crucial para uma saúde mental e física, a ciência prova e comprova, não há qualquer sombra de dúvida.  

O entrevistado fala rápido. Vá até as configurações, aquele símbolo em forma de engrenagem, e reduza a velocidade do vídeo para 90%. 


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Roberto Giannetti da Fonseca, um texto manifesto

Faço das palavras de Roberto Giannetti da Fonseca as minhas. Aliás, como tenho feito.

E aí, o que fazemos para sair desta?

Ficar como está é muitíssimo mais que dar um tiro no pé. 

Um novo olhar sobre política, justiça e economia

Artigos

BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

Por Roberto Giannetti da Fonseca

da Redação

06 setembro 2026

BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

O ano era 1960, 21 de abril, feriado de Tiradentes. Aos 10 anos de idade, assistia eu, embasbacado, ao lado do meu pai, o discurso emocionado do então presidente Juscelino Kubitschek no ato de inauguração de Brasília, a nova capital do Brasil, denominada a Capital da Esperança. Aquela cerimônia de inauguração retratava não apenas a transferência física da capital brasileira, mas também um momento de transição entre o passado e o futuro, na esperança de um país progressista e justo com seus cidadãos. Triste ilusão.

Passaram-se 66 anos e muita coisa aconteceu desde então. Entre erros e acertos, a história deste nosso país chamado Brasil vem sendo desenhada pelos governos que se sucedem, até que chegamos aqui às eleições gerais de 2026. Neste longo período de mais de seis décadas, vivemos alguns momentos de confiança e otimismo. Não podemos deixar de lembrar que fomos o país com maior taxa de crescimento no mundo entre os anos 50 e 80. Sem contar a conquista de cinco campeonatos mundiais de futebol e o surgimento de heróis nacionais como Pelé e Ayrton Senna. Após 21 anos de regime militar, conseguimos retomar a democracia em 1985, logo após o histórico e patriótico movimento das Diretas Já, que reuniu no mesmo palanque todos os líderes democráticos da nação brasileira. A esperança era alta, mas a frustração logo veio nos visitar já nos primeiros anos da jovem democracia brasileira.

Superamos com bravura, nos anos 90, a crise da dívida externa que impunha ao país uma grave restrição ao crescimento econômico e, logo após, em 1994, com a eleição do presidente FHC, conseguimos debelar o monstro da hiperinflação, que corroía os salários dos mais pobres, causava uma desordem de preços relativos na economia e desmoralizava a nossa moeda como unidade monetária aos olhos do mundo. Mas o custo destas medidas não foi baixo: convivemos, a partir de então, com sucessivas crises fiscais, juros nas alturas, longos períodos de câmbio sobrevalorizado, desindustrialização progressiva e o pior de tudo, que foi a recorrente deterioração política e institucional que se verificou ao longo dos últimos 20 anos, o que nos faz sempre recordar do vaticínio do memorável deputado federal Ulysses Guimarães quando perguntado sobre a qualidade moral dos integrantes do Congresso Nacional: “Achou ruim o nível destes deputados e senadores agora eleitos? Então espera para ver os próximos daqui a quatro anos!”

Entre os escândalos da Lava Jato, do Mensalão, das emendas secretas do Congresso Nacional, do assalto às contas do INSS e a atual holística crise do Banco Master, que numa amplitude de 360º conseguiu atingir os três Poderes da República e todo o espectro político-partidário de A a Z, além de tantos outros eventos reprováveis que nem vale a pena nominar, o fato é que agora, em 2026, a chamada “Desesperança” tomou conta da alma brasileira. Nunca vi na minha vida uma eleição como esta atual, tão medíocre, seja pela baixa qualidade dos candidatos que se apresentam, seja pela falta do bom e construtivo debate das ideias e de conteúdo programático para enfrentar os graves desafios econômicos e sociais desta grandiosa nação brasileira. Brasília tornou-se a Capital da Desesperança, pois é lá que se processam todos estes desmandos que assolam o país e corroem a moral e a ética das novas gerações de brasileiros, que percebem este vale-tudo como sendo o novo “normal” — são todos assim, numa generalização perigosa.

A pergunta que devemos nos fazer todo dia de manhã, quando nos olharmos no espelho, é óbvia: “Como e quando vamos sair desta crise moral e política que supera todas as outras que já enfrentamos?”

A resposta é mais óbvia do que parece: no regime democrático, toda iniciativa se origina na sociedade civil, em primeiro lugar pela eleição de seus legítimos representantes aos cargos no Executivo e no Legislativo; ou seja, se não votarmos bem e escolhermos candidatos notoriamente corruptos e desonestos, tudo será como antes. Em segundo lugar, podemos agir pelas manifestações organizadas em nome de nossos princípios e direitos. Lembram-se de Junho de 2013 e o breve movimento Passe Livre? Ou dos caras-pintadas de Setembro de 1992? Chegamos ao mesmo ponto de intolerância, não dá mais para esperar.

Comecemos com uma analogia ao Plano Real, que combateu e venceu a hiperinflação nos anos 90. Precisamos agora que os atuais candidatos aos cargos eletivos que em breve elegeremos, e que virão nos representar em Brasília e nos 27 estados, embarquem publicamente no compromisso de apoiar e seguir um Plano Moral de acirrado combate à hipercorrupção, que hoje em dia salta aos perplexos olhos da sociedade brasileira e que destrói qualquer autoridade moral de confiança entre a sociedade e o Estado brasileiro. Só a partir desta iniciativa poderemos também combater os privilégios funcionais abusivos em todas as esferas do setor público, combater o desperdício do dinheiro público, o empreguismo corporativo, a gastança desenfreada sem controle e sem prioridade.

Não basta apresentar belos diagnósticos e medidas de como enfrentar a crise fiscal do setor público, ou de como reduzir a taxa de juros escorchantes que empobrecem o povo brasileiro e inibem os investimentos produtivos. Se a crise moral não for definitivamente debelada, assim como foi a hiperinflação nos anos 90, o fantasma da Desesperança continuará a corroer o futuro de nossa nação. Assim como em 1994 o presidente FHC reuniu os melhores economistas deste país para o combate à hiperinflação, o próximo presidente eleito, se quiser entrar para a História como um Estadista, deveria reunir um Conselho da República com 10 a 15 cidadãos notáveis, escolhidos a dedo pelo Poder Executivo, sem discriminação partidária ou ideológica, e a eles delegar a elaboração de uma ou mais PECs revisoras que reforcem o regime democrático, as instituições brasileiras em todos os níveis, e promovam as sempre adiadas reformas do Judiciário e da estrutura política brasileira.

Pode parecer ingenuidade minha, mas somente assim vejo a sociedade brasileira retomando as rédeas de seu destino e devolvendo a Esperança ao povo brasileiro.

*Roberto Giannetti da Fonseca é economista e empresário, autor dos livros “Memórias de um Trader” (2002) e “Penúltimas Memórias” (2022).