sábado, 23 de agosto de 2025

Não conseguimos aprender com nossos acertos

Ermínio Fraga é figura a ser respeitada, e muito. Inteligência rara, fala mansa, ponderado, em entrevista recente soltou que "Nós não aprendemos com nossos acertos". Na mosca. E completou que "Também não aprendemos com nossos erros". Sem dúvida, disse o óbvio, o trágico óbvio que nos assola.

Qual dos inúmeros exemplos de nossos acertos querem que eu cite aqui? São tantos e tão frequentes que não faço ideia sobre qual voltar a falar, mas sem revirar muito a memória vocês vão achar um fácil, fácil.

Repetindo, como sempre repito, minha mãe dizia "Não interessa o que ele fez para você. Interessa saber o que você fez para ele ter a reação que teve contra você".
Ouvi tantas vezes "qual a tua responsabilidade?", "faça bem feito", e principalmente "não seja mediocre", que confesso virei um 'pouco' neurótico com ter tudo bem feito. Não sou perfeito, não sou perfeccionista, mas tento fazer o melhor que posso. Aprendi com a vida, e não só com as broncas de minha mãe, que os acertos costumam ter um custo / vida muitíssimo menor que cometer ou se permitir até pequenos erros. Não é só acertar nas coisas práticas do dia a dia, como não jogar lixo na rua, prática trivial entre 99,99 de 100 brasileiros, mas tentar acertar até nos relacionamentos íntimos, formais ou informais, o que confesso ser um humano normal, ou seja, quanta besteira fiz. Anyway...

Um exemplo é bem explicativo, pelo menos para quem faz algum esporte ou especificamente para quem pedala: "Ciclismo (ou pedalar) é a arte da suavidade" e complementando "Ciclismo (ou pedalar) é arte de preservar energia". Suavidade pode ser traduzida como segurança. Em tudo na vida, fez suavemente e com calma vai bem. Quando você vai aos trancos e barrancos você aumenta a possibilidade de erros e acidentes. Preservar energia pode ser traduzido como poupar, ter o que gastar quando realmente é necessário, medida sabia que é vendida até na fábula da formiga e a cigarra.

Como todos dizem, de todos partidos, ideologias ou formas de pensar, Brasil é o país do vôo de galinha. Ficamos ciscando e vez ou outra decola na tentativa de um voo para o futuro, que como todos sabemos termina sempre um pouco mais a frente para voltar a ciscar. Desde que você nasceu quantas vezes aconteceu? Tenho uma memória de merda, mas só contando os planos econômicos que deram errados nestes meus 70 anos de vida posso lembrar de 6 voos de galinha. O mais ridículo? Sei lá. Foram voos de galinha dos quais parece que não aprendemos nada.

A Curitiba criada por Lerner e sua equipe virou umas das referências planetárias do que se deve fazer para ordenar o crescimento de cidades. Aqui no Brasil? Curitiba? Jaime Lerner? Quem?
A diplomacia brasileira foi durante décadas referência de bom senso. Neutra, cautelosa, bem preparada, apolítica. Foi-se.
Tivemos um sistema de vacinação que foi referência mundial? Foi-se.
Milhões de brasileiros trabalham em empresas que são regidas por sistemas de alta qualidade. o que seus funcionários replicaram em suas vidas fora da empresa?
Etc...

É triste, mas Brasil lembra cada dia mais aquele ditado árabe: "O que os sábios demoraram 8 anos para construir, um imbecil destrói em 8 minutos".

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és, sabedoria correta e inegável. É possível fazer uma versão digna para estes dias: "Diz-me com o que você se preocupa e pratica, e dir-te-ei qual é tua afeição pelos acertos". Acertos, o bem feito, o que dá certo, o que não deixa rabichos... Ou ainda: "Diz-me qual é a importância que dás aos acertos (ou à qualidade) e dir-te-ei quão responsável eres socialmente". Por favor, não jogue papelzinho amassado na calçada antes de responder.

Responsabilidade social. Aí o bicho pega, aí fica difícil.
Responsabilidade social: temos a obrigação de aprender e repetir nossos acertos
Responsabilidade pessoal: temos a obrigação de repetir nossos acertos
Responsabilidade familiar e com os amigos: aponte os acertos para que sejam replicados.

Como a única coisa que vale nestes dia é o bolso, um último comentário: acertar sai muitíssimo mais barato.

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