sábado, 8 de agosto de 2020

Turismo destrutivo

Cheguei de carro em Penedo no final da tarde de domingo, 02 de Agosto, e minha primeira imagem da estrada foi apavorante: uma fila interminável de carros descendo a passo de tartaruga a serra, um grudado no outro, para pegar a Dutra e voltar para casa. No portal de Penedo há um bloqueio "pandemia" controlado pela GCM local e só passava quem está hospedado ou com reserva, além de moradores e trabalhadores locais, mesmo assim o centrinho estava lotado de gente e carros circulando mais devagar que os pedestres. Mesmo estando algo em torno de duas horas e meia do Rio de Janeiro o povão vem passar o fim de semana ou até mesmo o domingão em Penedo e lá em cima em Visconde de Mauá, Maringá e Maromba. Segundo o povo que mora na região o caos nos fins de semanas é total já faz tempo, muito tempo. Pelo que soube, boa parte da população de Penedo e Visconde Mauá quer um dar um basta já, e este 'já' já tarda muito. Não vale a pena para as pousadas, restaurantes, comércio no geral, para moradores não só pela confusão. Não vale a pena até para a economia da cidade.
Estive em Serrinha de Alambari, um punhado de casas bem espalhadas com um micro centro para lá de simpático, 14 km de Penedo. Conheci uma senhora que teve um restaurante popular por 5 anos em Penedo e decidiu fecha-lo porque não aguentou a bagunça e falta de educação do pessoal que chegava com os ônibus fretados. A má fama dos farofeiros vai longe.
Em Penedo há uma briga com as autoridades que querem a qualquer custo construir uma rodoviária e inchar mais ainda o turismo popular. Pelo que dizem o babado chama-se "construir uma rodoviária", grande desejo de prefeito e vereadores, mais sabe-se lá quem. É bom lembrar que Santos, Guarujá, Ubatuba, Caraguatatuba, Ilha Bela, das que me lembro, praticamente fecharam as portas para estas excussões bem populares fazerem o que bem entendessem. Aliás, se não me falha a memória o próprio Rio de Janeiro fez o mesmo, entre outras. Mais, as autoridades de trânsito de todo país vivem correndo atrás de uma boa parte destes ônibus fretados porque são piratas e com uma frequência muito além do desejável criam problemas, quando não graves acidentes. O dono de um café de Penedo contou que os próprios turistas de baixa renda acabam 'bravos' porque são enganados pelas agências piratas de turismo e associados.
Ou seja, este tipo de turismo definitivamente não funciona, é prejudicial para todos, para o próprio turismo. Turismo de verdade é construtivo para todos.

Como já contei estive em Visconde de Mauá em 1982 e na época fomos até Maringá e Maromba, uns quilômetros mais a frente. Visconde de Mauá até que está preservada, mas Maringá cresceu muito e virou um sei lá o que. Eram casinhas de moradores espalhadas, hoje lembra uma vila medieval de uma rua só, estreita, cheia de casinhas, de portinhas, e até ai sem problemas. Mas tudo é comercial oferecendo a mesma coisa que se encontra em qualquer outra parte do planeta. É um visual confuso, entulhado, agressivo. Fiquei imaginando aquilo lotado de gente e carros parados. O que entra na economia da cidade não vale para a comunidade. Tem um custo ambiental que definitivamente não vale a pena, para a natureza e o urbano.
O povão de baixa renda não só tem direito a fazer turismo, como deve fazê-lo por que é um fator de desenvolvimento importantíssimo para a cidade, o estado e o país. Turismo é cultura, turismo é educação, turismo é crucial para "todos crescimentos" da população, especialmente os mais vulneráveis, exatamente o povão dos fretados, os famosos farofeiros, isto quando traz consigo valor agregado. Que seja melhor planejado, mais organizado, balizado, com limites, com valor agregado, que deixe alguma coisa na cabeça do pessoal quando eles voltarem para casa. É o mínimo.

Os erros aqui no Brasil são crassos. Que bom fossem só no turismo.
Penedo, como toda cidade turística deste país, está cheia de cartazes, cavaletes, propagandas dos mais diversos tipos, formas, e enunciados, para tudo que se possa imaginar, em todos cantos. Diferente de qualquer outra cidade turística do Brasil? Não! Nem de qualquer outra cidade brasileira: a baderna é generalizada. Igual em todo lugar do mundo? Definitivamente não! O turismo brasileiro rende o seu potencial? Não, definitivamente não! Nós, brasileiros, picamos montanhas de dinheiro. Olhe em volta, veja nossas belezas naturais. Cara, não é piegas, é literalmente real. Brasil é belíssimo, mas tem um povinho....

Turismo em todo planeta sofre muito com certos públicos. Chineses desembarcam de excursões baratas, destoam, chegam a incomodar, mas gastam muito. A diferença é que em países sérios a polícia funciona, tem autoridade e faz cumprir, e os limites são impostos a qualquer um, não importa quem.
As cidades são agradáveis, atrativas, convidativas. Não se vê esta baderna de placas, cavaletes, cartazes e outras imundices que interferem com a paisagem, com o espírito da cidade, não interessa que tipo de  turismo o local tem, mesmo que seja o mais popular de todos. 
O que gera riqueza é organização, limites, parâmetros, preservação da história e do espírito dos locais. 

Boa notícia: uma semana depois foi decretado em Penedo um basta a baderna. Só entra na cidade quem tiver reserva comprovada de hospedagem. Boa!

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