A romaria de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida foi de arrepiar. A quantidade de romeiros em peregrinação na Rodovia Dutra foi impressionante, uma fila praticamente continua se movimentando pelo acostamento de São Paulo a Aparecida, 180 km.
Pois então..., acabei de fazer pedalando o trecho entre São Paulo e São José dos Campos e o que vi desta romaria 2026 é mais impressionante do que a dos 300 anos. Muito mais romeiros, grandes grupos organizados, um continuo de blocos de gente mais compacto, com menos e menores buracos entre eles. De certa forma o 'de arrepiar' passou para um 'assustador'.
Todos com quem conversei dizem que esta romaria está crescendo ano após ano. Ironia do destino, meu único furo de pneu aconteceu uns 10 km depois de minha parada para um café e gravar o vídeo com cabelo xuxuquinha, e a poucos metros de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. A conversa com os policiais rodoviarios comecou pela confirmação que a cada ano cresce, e que faz tempo virou um problemão para eles.
- O que está vindo para cá é assustador. Eu sei que com isto vocês acabam ficando entre a cruz e a espada. Tem alguma coisa que se possa fazer....?
- Nós já fomos até ao Ministério Público, não tem o que fazer. Nós orientamos os pedestres, mas... olha ali (vinham quatro romeiros conversando animados já dentro da pista). Nós não podemos fazer nada. Estamos trabalhando (para a romaria) desde de março. Mapeamos cada pedacinho, cada problema... Sinalizamos a estrada, você viu. Fora isto não podemos fazer nada.
- Vocês pensaram alguma ideia fora da caixinha?
- Nós já até tentamos tirar a romaria da Dutra. Não deu. Fez um breve pausa, e apontando para mim - O pior são os ciclistas. Ano passado morreu um atingido na cabeça pela caçamba de um caminhão. Vocês invadem a pista sem a menor responsabilidade...
- Eu sei, sou contra....
- É! Vocês todos falam a mesma coisa. Mas não é só na romaria. O pessoal vem pedalar com estas bicicletas de R$ 100 mil todo fim fim de semana. Pode? Nós não podemos fazer nada. Nós queríamos e pedimos que os romeiros caminhassem no contra fluxo para melhorar a segurança dos ciclistas. Eles vão (os pedestres para o contra fluxo)? Olha aí.
Não vou identificar, mas os dois eram graduados, o mais velho alta patente, homem com experiência, autoridade e um saco cheio sem tamanho.
Não só entendo o saco cheio com tudo, como não queria estar na pele deles. Numa situação destas fica difícil pensar em algo que fuja do trivial. Como exemplo de ações fora das convencionais, mas dentro da lei, contei a história do adesivamento das bicicletas de operários com restos de material refleivo das placas de sinalização que aconteceuna decada de 90 na Ayrton Senna, no trecho de Guarulhos. Ação simples, fora da caixinha, com ótimo resultado. O mais graduado cortou no meio, e terminou nossa conversa com um pouco convincente "nós já fizemos isto". Entrou na viatura e se foi.
Almoçando em São José dos Campos não parei de pensar. A única certeza é que a romaria é vontade popular, um fenômeno social sem retorno. E vai crescer. A Dutra virou patrimônio social, assim como várias rodovias viraram patrimôniode ciclistas. O que acontece na Dutra é um fenômeno humano e mundial, creio eu irreversível. Tem que ver com fé, religiosidade, mas definitivamente não só. É uma espécie de contra cultura. Inclusive contra a cultura do automóvel, ou o que ele se transformou.
Num país onde as autoridades simplesmente derreteram o que restava de suas credibilidades, no país cheio de lei não cola, continuar pensando e trabalhando no estrito da lei, muitas delas anacronicas ou disfuncionais, é incorrer em mais que um erro grave, é aprofundar crises e dramas.
Nós só vamos sair deste caos quando pararmos de cacarejar soluções obsoletas para buscar saídas criativas.
Terminando, quero lembrar que a instituição com melhor conceito no Brasil é a Polícia Federal. Se tem alguém com cacife para pensar soluções fora da casinha são eles.
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