sábado, 28 de fevereiro de 2026

O paralelo entre um ciclista e este país

Fui (ou sou, sei lá) guia de passeio urbano de bicicleta, daqui a pouco fará 40 anos. Frase estranha tanto pela forma do portugues escrito quanto, para mim, os 40 anos corridos. Tempus fugit. 
Ser guia de passeio é uma boa escola de vida, passa por você um farto zoológico e situações cidadãs as mais variadas possível. Entre os ciclistas passam alguns, uns poucos, que foram marcantes pelo bem e pelo mal. Os pelo bem eu os saldo com a cabeça curvada em reverência, agradecimento e respeito. Os do mal, de todo tipo e grau, criaram os problemas mais vairados possíveis, alguns destrutivos para o próprio grupo. Incluo aqui a fofoca invejosa, uma praga maldita até bem aceita, como faz parte, vai arrasando o que estiver pela frente. "Espelho, espelho meu, tem alguém mais mais que eu?"

O mesmo acontece no ambiente de trabalho, com a diferença que num pedal o pessoal solta a franga, deixa rolar, o que pode não ser conveniente quando o salário está em jogo; aí o corno fica manso. Num passeio um chilique de vez em quando escapa e não raro é absorvido até com brincadeiras.

Em tudo nesta vida há uma forte ligação entre o micro e o macro. Não é diferente no caso do micro cosmos de um grupo de ciclistas pedalando juntos e o que acontece na vida dos ditos cidadãos. Como tudo, a organização de um simples passeio segue o básico da macro organização social.

Um destes passeios que se vê passando por aí tem um guia, responsável pelo trajeto e como o grupo vai pedalar, alguns apoiadores, que vão orientando a boiada, e a boiada, os ciclistas que estão lá para passear, fugir de casa, conversar, estar com os amigos e pedalar; via de regra nesta ordem, com fugir e casa em primeiro lugar.

Um pelotão de ciclistas profissionais de competição de alto nivel, como os de um Tour, Giro ou Vuelta, as provas mais importantes do mundo, tem uma estrutura semelhante, mas objetiva. Cada equipe tem 8 ciclistas, que são divididos em gregários, os que pedalam para ajudar os bons da equipe, e pelo menos um sprinter, o que é bom de chegada, um escalador, que é bom de subida, e um novato de futuro. Por trás destes tem os que não pedalam, chefe de equipe, treinador, mecânicos, massagistas, médicos, nutricionistas, motoristas... A hierarquia predeterminada é clara e praticamente inquebrável, tanto entre os ciclistas, quanto em relação à estrutura de suporte, identico a uma empresa rentável e vencedora.

O objetivo final é fazer certo, errar o minimo possivel, e ganhar, no final das contas uma copia do que é, ou melhor, deveria ser o objetivo final de qualquer ser humano, de qualquer sociedade ou união. 

Os passeios de bicicleta também seguem uma regra bem humana: diversão, ou, como dizem rindo, foda-se o mundo!  Aliás,  nada mais natural e esperado,  reflexo do que vivemos nesta sociedade.

Pulo para os simples mortais, nós os ciclistas urbanos, individuais e indivíduos, os que pedalam por lazer, esporte, treino e os usuários da bicicleta como modo de transporte. Entre estes, que tanto reclamam da segurança no trânsito, deveriam valer as mesmas regras estabelecidas pelo CTB, ou pelo menos comportar-se sob o básico do bom convívio social, ou cidadania.

Aqui entramos numa comparação entre micro e macro interessante: boa parte dos ciclistas se comporta civilizadamente, ou pelo menos dentro do que se está jogando como civilizado, mas uma minoria, maior e mais influente que o desejável, joga pesado com suas próprias regras, e é aceita em silêncio, mesmo prejudicando o coletivo. É um empoderamento para si próprio das regras de convivência civilizada,  as reais,  funcionais,  as que produzem resultados desejados por todos. E aí, no permitir, dar liberdade para estes usurpadores é que está o nosso problemão, e bota problemão nisto. Começa no passeio de bicicleta e termina em Brasília. Só em Brasília?

Pesquisas do governo Alemão e da CETSP sobre comportamento social apresentam resultados praticamente iguais: 90% procura ou se comporta civilizadamente, evitando cometer erros; 7% fazem lá suas besteiras, mas sabem de qual linha social não devem passar, 3% se acham donos do mundo com todos direitos e que se dane o próximo. Finalmente tem o traço dos sociopatas, um número infimo, o pior só pior dentro de um grupo social.  

"Trânsito é o melhor reflexo de uma sociedade" - Roberto da Matta, antropólogo. Não tenham dúvidas que o uso da bicicleta, e seu ciclista, reflete com precisão o que somos como sociedade.

Eu tenho medo de pedalar nas ciclovias. Tenho medo de ciclista, muito mais que de motorista. Me sinto bem desconfortável ao circular na ciclovia Capivara nos horários que os bonitinhos e bonitinhas estão "treinando".
Por que estes meus medos? Conhecimento de causa.

Como ciclista posso definir o Brasil como a ciclovia da Avenida Faria Lima. Quem pedala e já pedalou nesta ciclovia em horário de pico sabe sobre o que estou falando. Salve-se quem puder. Hoje menos, mas ainda "sai da frente, pedestre". "Motorista FDP!" E, "... o outro é culpado!", esta uma especie de hino nacional. Definitivamente este não foi o Brasil dos meus sonhos. Quase esquecendo, tudo é responsabilidade dos políticos e autoridades, nunca do ciclista (ou do cidadão).
Será?

A humanidade sempre se curvou a alguma autoridade, sempre caminhou dentro de uma hierarquia, quem manda, quem é mandado. É assim por natureza, é assim na natureza. Deveria ser assim neste país. A questão é que autoridades, quais predicados devem ter para serem considerados autoridades.

Mesmo com uns prováveis 40 milhões de ciclistas o Brasil não consegue ter um ciclista de destaque nas grandes provas de ciclismo mundial. Por que será? 
Mesmo sendo um dos territórios mais propensos a gerar riquezas no planeta, o que deveria ser terra do mais alto PIB e IDH do mesmo planeta, continuamos na mesma lenga-lenga sem resolver o básico do básico que nos maltrata e atraza.

Eu não aguento mais o silêncio dos 90%. Desculpem, mas não consigo aceitar os 3%. Sobre os do traço, filhotes dos 3%, o que dizer?
E você? 
Então, o que fazer? Vamos continuar nesta?
No passeio que sou guia estou me esforçando para por ordem no galinheiro. Chega!

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