quarta-feira, 6 de maio de 2026

Resposta a Miguel Reale Junior

 


Excelentíssimo Senhor Miguel Reale Junior
Antes de mais nada, agradeço e muito suas falas e ações em prol da construção de um país mais justo.

O que respondo aqui tem como ponto de partida uma conversa que quis ter com o senhor durante um jantar em apartamento de um amigo comum.

Na época, por volta de 2005, o senhor teve uma reação imediata e furiosa quando iniciei uma explicação sobre a questão legal da bicicleta. Não tive tempo, aliás, sequer me foi permitido evoluir dada a reação as minhas primeiras palavras. Não pude argumentar que na época o transporte de uns 40 milhões de brasileiros se fazia praticamente só por bicicleta, ou seja, era uma questão de amplo impacto social.

Aziz Ab'Saber, geógrafo brasileiro reconhecido por sua importância mundo afora, um dia declarou que a cidade de São Paulo não tinha topografia própria para o uso de bicicletas. Alertado sobre o erro de sua fala, o sábio, tranquilo e querido Aziz veio a público corrigir sua fala. São Paulo está assentada sobre vastas áreas de várzeas, Tiete, Pinheiros, Tamanduateí, Aricanduva, etc...  

Interessante ver uma eminência se interessando agora por temas, digo eu, mundanos e populares, como a segurança no trânsito de pedestres e motociclistas. Entendo que o desconhecimento sobre bicicletas foi, naqueles anos geral. Bicicletas eram, como continuam a ser para boa parte, um brinquedo, lazer ou esporte de elite, dita sem muita importância no contexto dos temas prioritários ou do social. Mesmo que esta miopia tenha melhorado, ainda representa uma visão de classe média e alta sobre a realidade, aliás, não só sobre bicicletas.

A motocicleta vem substituindo a bicicleta, mesmo assim o número de usuários da bicicleta como meio de transporte nas classes menos abastadas é relevante. Quando tive a infeliz tentativa de conversa, um pedido de orientação, com Miguel Reale Junior, quase um terço dos brasileiros faziam uso intenso da bicicleta no dia a dia, mas eram, como continuam sendo, invisíveis por simples razão: onde circulam e horários de uso constitui um universo fora da realidade das classes média e alta motorizadas.

Interessante o interesse pela segurança de pedestres, outro cidadão praticamente invisível aos olhos de usuários de veículos motorizados.

Por fim, é sabido que temos uma intelectualidade um tanto fechada, restrita a suas áreas específicas de atuação, o que prejudica muito a perspectiva de um Brasil mais funcional e justo.
Devemos e muito a sábios do calibre de Miguel Reale Junior. Ninguém, nem os que tem notório saber, tem obrigação de conhecer a fundo todo o universo. Mas ouvir não faz mal a ninguém, afinal, o mundo não acaba no que se vê.

Nenhum comentário:

Postar um comentário