terça-feira, 7 de abril de 2026

Hail Mari. A vantagem da falta de opções

Funcionária nova de fábrica de chocolate ganha o direito de comer quanto chocolate quiser. Não demora muito a 'liberdade' enjoa e o direito a escolha cai na realidade. Fazer o que quer e bem entende geralmente não é uma escolha interessante, menos ainda inteligente.

No meio do filme, na cena quando é dado três horas para o personagem principal decidir sua vida, viver ou morrer, simples assim, eu tive um acesso de gargalhada alta, incontida, solitária no meio de um cinema lotado. E quanto mais percebia que gargalhava solitário no meio de um silêncio geral incomodado, pior ficava meu descontrole sobre minha gargalhada incontida. Foi difícil me conter. Um dia aquele público jovem vai entender minha gargalhada. A vida vai lhes ensinar. Ou não, aí triste.

Ontem, no meio de um almoço de Páscoa, como convidado de uma família de boa condição social financeira e cultural, sentado na mesa frente a três meninas jovens, bem vestidas, lindas, com suas mães juntas, disparei que brincar com a liberdade, que elas têm para dar e vender, emprestar e jogar fora, um luxo para poucos, é uma tremenda desvantagem frente aos que vem do nada e têm fome de comer. Não ter muitas escolhas faz diferença. Minha verborragia saiu quando peguei o gancho na fala de uma das mães que dizia que a filha não se decide sobre o que fazer da vida, e que ela deveria partir para a vida, buscar um trabalho, entender como são as coisas, inclusive para se decidir. As meninas, bem educadas, prestavam atenção em silêncio. A para quem se dirigia a conversa ouviu com expressão neutra, consciente que tem o luxo da escolha no seu tempo, luxo que tem tudo para virar um lixo.

Ironia, outra pessoa, outra história. De manhã, cedinho, vem a ligação de vídeo. "Chega de besteira. Vou tocar para frente". Foi uma decisão demorada, difícil, e pela forma como foi dita parece que vai ser cumprinda, o que sei bem que não é fácil. Tendemos a nos acomodar, mesmo com o ruim.  

"Não existe liberdade sem disciplina", disparei para a mãe da menina que acredita saborear com prazer sua liberdade libertina de escolha para a vida. Sentada ao lado da filha a mãe concordou imediatamente comigo. "Trabalhei desde de nova. Sou executiva. Não tenho dúvida que tem que cair na vida, achar um trabalho qualquer, não importa o que, para saber o que quer". A filha, sorriso leve, cara de pastel, ouvia, e nós a sua volta vimos as letras entrarem por um ouvido, saírem pelo outro e baterem na testa das primas, estas sim atentas, decididas.

Três horas para decidir sua vida. Com o direito de uma escolha única, a que se deve fazer naquele momento, não a desejada, aquela ideal para os sonhos utópicos, líricos,  desejados, sobre tudo enganadores. 
Sem tempo para pensar. É aquilo ou aquilo mesmo, simples assim. Ser caça ou caçado, esta é a verdade constante na vida.

O cano da 45 foi batido no meio do olho esquerdo, engatilhado. Momentânea perda de visão, dor, volta o mundo desfocado. Numa fração de segundo toda vida veio à tona. Opção zero. A situação imediata impõe.

A urgência de uma reforma fiscal está rondando o governo e congresso faz décadas. Tudo desanda e todos continuam sem tomar posição. O gatilho está armado faz tempo, mas as vítimas, nós, provavelmente morreremos de inanicão. O gatilho foi acionado várias vezes, os tiros disparados um atrás do outro, vamos morrendo a cada minuto, mas nos acostumamos. 

Minha gargalhada, na cena das três horas para decidir o que o personagem faz da vida, me remete a minha própria vida. Quisera fosse assim, ou vai ou vai, teria sido bem mais fácil. Fácil talvez não, funcional, eficiente, cheio de possibilidades pela vida. Tendo vivido o luxo do luxo de terem me dado o pleno direito à escolha, qualquer, sinto profundamente inveja dos que não a tiveram. Tenho inveja dos que não ficaram parados no meio do campo verde, semeado, pronto para colheita, curtindo a beleza até que ela secasse. E a colheita fosse toda perdida. 

Final do almoço fiquei conversando com a mãe da linda jovem que não se decide. Uma nem-nem que tem tudo, pode tudo, recebe tudo, certa que o mundo é dela, que nada se acaba, tudo sempre será assim, tudo se ajeita, a delícia não vai se acabar.
Apavorante!

Queria ter sabido avaliar melhor as escolhas. Queria ter realizado uma verdade: não existe liberdade sem disciplina.

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