quinta-feira, 10 de junho de 2021

"Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições"

Filme já começado, numa troca de canal a procura de algo que não fosse o mesmo, pego um personagem que dispara "Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições". Nos olhamos com cara de espanto e voltamos ao personagem da fala, um imponente senhor vestido num manto preto, reto, como uma estátua póstuma sobre pedestal, tranquilamente parado frente ao rei dispara a frase e cala; olhar fixo, altivo, imóvel. Controle remoto ainda na mão, quente de tanto mudar de canal, cai no sofá. Não se sabe sequer que filme é, mas o cenário é uma beleza entre o art nouveau e o medieval, rico nos suaves detalhes, imponente, meio místico, meio religioso, denso. Que importa, penso eu, "nós de fato perseguimos alegremente nossas próprias maldições" falo baixinho.

"Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa" repetem em coro ecoando pela igreja quase cheia. O padre lá longe, pequeno frente ao altar, puxa novamente a ladainha "Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa" e todos a repetem mais uma vez. Breve silêncio em toda igreja, o padre volta a levantar a cabeça e solta "Cordeiro de Deus vós que tirais os pecados do mundo tende piedade de nós, Cordeiro de Deus vós que tirais os pecados do mundo tende piedade de nós. Cordeiro de Deus dai-nos a paz." e o povo repete, nesta e em toda santa missa, todo santo domingo ou qualquer outra celebração religiosa que se faça. Novamente silêncio compenetrado.
- Culpas são maldições? sai o sussurro.
- Pode ser, responde espantado com a pergunta o fiel ajoelhado ao lado. Curva a cabeça, mãos espalmadas e juntas à testa, olhos fechados, volta ao silêncio. Sem abrir os olhos estica e curva lentamente o pescoço para sussurrar ao ouvido do outro - A maldição são nossas culpas que nunca cessam; e volta a sua oração.
 
"Diga-se de passagem, toda organização social funciona em cima de limites estabelecidos, o que tem a ver com o sentimento de culpa. Neste sentido a religião teve um papel importantíssimo para a organização e desenvolvimento da sociedade. Não sei onde estaríamos sem o pecado". Olhos arregalados grita como se perguntasse para o entrevistado da televisão - E sem a religião?

O vasinho que se ganhava no parque de diversão ou é vendido no 1.99 é a cópia da cópia da cópia da cópia da cópia... de vasos que um dia fizeram parte da vida da realeza Francesa. Releitura perpétua do estilo Luís XV.

Uma longa fila se forma na porta de uma das marcas mais famosas marcas de bolsas na Galeries Lafayette de Paris. Chinesas, russas e árabes esperam pacientemente para pagar EU$ 4.200,00 pelo lançamento. 
No ponto de ônibus da periferia, 5:30 h da manhã, a funcionária espera que seu ônibus não chegue lotado, doce ilusão. Enfia a mão na bolsa semiaberta Louis Vuitton bem falsificada para olhar o celular. Fecha rápido porque vem uma moto com dois garotos. Eles passam sem olhar para o lado e o ponto cheio de trabalhadores pobres suspira em alívio. O assalto não foi desta vez. A partir de então ela mantém sua preciosa bolsa baixa, escondida atrás da bundona gorda que está a sua frente. Faz cara de coitada, da mais pobre, mas não consegue esconder seu medo de perder bolsa e celular.

"Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições"

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