quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Cicloativismo 2007, segundo a Revista Folha


Interessante rever uma longa e boa matéria sobre o que estava acontecendo com a bicicleta em 2007. O link leva à Revista da Folha de 23 de Setembro de 2007.

O que me deu mais saudades foi que naquela época Marcelo Siqueira (e um grupo de amigos) saiu pintando bicicletinhas no asfalto de algumas ruas paulistanas. Bicicletinhas, como o texto da Revista da Folha descreve, na realidade eram cópias do pictograma oficial estabelecido pelo CTB para sinalizar a circulação de bicicletas numa via. Na rua Groelandia, por exemplo, os carros simplesmente evitavam circular sobre as "bicicletinhas" pintadas, ocupando só duas das três faixas de rodagem da rua. O mesmo repetiu-se nas outras vias. Cicloativismo pacífico e inteligente, o resultado surpreendeu muita gente, mas não a mim. No Ibirapuera depois de muitos conflitos e acidentes entre ciclistas e pedestres decidiram separar os dois com a pintura de uma ciclo faixa e mesmo antes de concluída a pintura, quando só estava marcada uma linha no asfalto, a população espontaneamente se organizou, indo cada um no seu espaço.

"SP: o pior lugar do mundo", título do texto de Roberto de Oliveira, que me irritou profundamente, e continua irritando. Refletia o discurso viciado e burro de grande parte dos cicloativistas e imprensa da época. Boa parte deles não tinha prática no trânsito, eram adolescentes ou pós adolescentes, imaturos, portanto propensos aumentar tudo e acreditar numa revolução(?). Aqueles anos viviam o sonho do Brasil nunca antes, quando pensar diferente ou usar bom senso era ser contra o belíssimo futuro que nos esperava. Aquilo deu nisso. 
O movimento cicloativista de São Paulo surgiu e agiu principalmente numa das áreas mais ricas do país, num dos trânsitos mais bem sinalizados, controlados e seguros do Brasil, o Centro Expandido. Tinha problemas, sim, lógico. Era padrão Europa? Claro que não, isto aqui se chama Brasil, o país onde ninguém onde só o cidadão só se preocupa com morte se for dentro de casa ou de amigos; o resto que se dane. O Município de São Paulo tinha 750 pedestres mortos/ano, mais 750 do resto, principalmente motociclistas, 1.500 mortos\ano total, número assustador. Mas ninguém corria atrás das causas, de onde, em que circunstâncias, responsabilidade de quem, problemas de engenharia de trânsito... Bom mote para um discurso revolucionário, não é? E foi, porque foi comprado por um jornalismo não investigativo. Mais, pouquíssimos jornalistas pedalavam, a maioria apresentava sinais claros de medo de bicicleta. Quer mais?  
Motoristas ainda estavam desacostumados com ciclistas, o que é normal, aconteceu em todas partes do mundo onde a bicicleta retornou ao cenário do trânsito. Em 2007 eram poucos pedalavam, traço estatístico, praticamente invisíveis. Como disse, a maioria dos ciclistas não tinha prática no trânsito, portanto cometiam erros. Como qualquer ser humano, principalmente e em especial entre nós brasileiros, a culpa é sempre do outro. Ainda por cima adolescentes ou pós adolescentes. Quer mais?
Infelizmente o movimento pró bicicleta da época repetiu o mesmo erro estúpido da confrontação contra todos motoristas, erro que até hoje macula a imagem dos motoboys e definitivamente nada fez pela melhoria da segurança no trânsito, nem deles, nem de ninguém. Acusar o outro e não ver os próprios erros é o pior caminho a ser seguido.

São Paulo era o pior lugar do mundo para pedalar? Um ano antes da publicação desta matéria Walter Hook, um dos maiores especialistas internacionais em pedestres e ciclistas e diretor do ITDP, uma das principais entidades especializadas em mobilidades humanas, com participação decisiva nas elogiadíssimas mudanças de Bogotá e NY, dentre outras, saiu para pedalar comigo e Sérgio Luiz Bianco, rodou quase 3 horas pela cidade e quando terminamos afirmou sem pestanejar: "É muito mais fácil pedalar aqui do que em várias capitais do mundo". Simples: eu o levei para pedalar pensando a cidade como ciclista, por caminhos sensatos para a bicicleta, não como um novato inexperiente que conduz a bicicleta como um motorista e pelos mesmos caminhos que faria com o automóvel. 

Se São Paulo era o pior lugar do mundo para a bicicleta como o número de ciclistas não parou de crescer? Porque o número de fatalidades e acidentes envolvendo ciclistas está mais ou menos dentro do que acontece mundo afora, inclusive cidades tidas como seguras?

A matéria pecou por não citar o Projeto GEF Banco Mundial para ciclistas de baixa renda da periferia, um trabalho minucioso que envolveu vários órgãos da Prefeitura, Estado e sociedade civil. Sim, havia uma dificuldade para romper barreiras na CET, citado no texto, assim como em outros órgãos, não citado, barreiras estas que foram em boa parte quebradas no Projeto GEF Banco Mundial. Juntando todos os projetos existentes na Secretaria do Verde e Meio Ambiente do Município de São Paulo, responsável então pelas bicicletas, era possível estabelecer um projeto sensato para um sistema cicloviário paulistano, malha que se estendia praticamente por toda cidade. Projeto abrangente, racional, voltado para o desenvolvimento organizado do uso da bicicleta, não só ciclovias e ciclofaixas pintadas. 

Havia muita gente trabalhando pela bicicleta. A matéria só dá espaço para Eduardo Jorge numa frase boba, mas não cita a trabalheira que Eduardo e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente vinha levando a frente. Não escreve uma palavra sobre os esforços de Walter Feldman a frente da Secretaria de Esportes e Lazer, que um pouco depois lançaria a Ciclo Faixa de Domingo, sucesso absoluto e inquestionável entre os ciclistas. Eduardo e Walter foram de importância capital para abrir as portas. 

O especial "Cicloativismo" da Revista da Folha foi uma das melhores matérias da época, reconheço. Ainda me dói lembrar o baixo nível intelectual e completa falta de jornalismo investigativo daquela época. Não mudou muito. Talvez tenha piorado. Os textos são cada vez mais curtos e instantâneos, a verdade fica cada vez mais longe da realidade. 

Lá pelos anos 90 a Folha de São Paulo mandou uma foca (jornalista nova, sem experiência) para entrevistar a Renata Falzoni. A menina, meio carola, de cara ficou assustada com o jeitão de Renata, em particular com o cabelo desgrenhado. Quando sentamos na sala da casa de Renata para a entrevista ela fez duas perguntas bobas enquanto olhava em volta. Na sala tinham umas quatro bicicletas, fora as que estavam na porta de entrada. A menina parou, pensou um pouco e perguntou para Renata com uma curiosidade nada jornalística: "Quantas bicicletas você tem?". Renata sem pestanejar respondeu "Sete. Uma para cada dia da semana. Eu sou lésbica (em relação às bicicletas). Abuso de uma a cada dia". A menina quase caiu da cadeira. Renata e eu tivemos que acalmar a situação para terminar a entrevista.

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