quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Sou contra legalizar a posse de qualquer espaço público urbano invadido

Primeiro, reagir de bate pronto pode levar a ações que não sejam as adequadas ou que sejam incorretas. De certa forma foi o que aconteceu aqui quando ouvi pela metade uma notícia na rádio e minha caixola ligou imediatamente o legalizar com ações populistas realizadas num passado não muito distante. 

Reagi de bate pronto aos montes na minha vida e se arrependimento matasse... Confesso que me sinto não morto, mas numa eterna auto santa inquizição. 
Se conselho fosse bom seria vendido, mas ouço aconselhar: segure seu bate pronto, nunca vale a pena.  

Hoje saiu no Sustentabilidade do Estadão uma entrevista com José Renato Nalini, diretor da Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas, sobre as ações que a Prefeitura tem realizado para minimizar os problemas que São Paulo tem. Dentre eles, o controle constante e a remoção de invações em áreas de mananciais, com o que concordo totalmente. Bom, enfim, espero que o que ele disse na entrevista esteja de fato acontecendo. 

O que ouvi na rádio foi sobre um projeto ou programa do Governo do Estado de regularização de terras fora da área urbana. Preciso ler mais para opinar.

Fato é que a forma como está sendo conduzido o desenvolvimento urbano paulistano não me agrada nem um pouco, e não é saudosismo, mas leitura e conhecimento obtido ouvindo especialistas. 

Já escrevi e não vou entrar de novo no assunto, mas fato é que não se deve apagar na porrada a história afetiva, os usos e costumes, as tradições de uma comunidade, muito menos de uma cidade, com a probabilidade de perda de referências e consequente aumento de tensão social.  
Cidades mudam, se transformam com o tempo, é natural, é desejável, mas há formas ideais de realizá-las. O que vem acontecendo há muito com São Paulo é, por um lado, ações 'milagrosas' pontuais, por outro, uma falta de planejamento de longo prazo que respeite o mais profundo interesse dos cidadãos. Incrível que o povo ainda não se deu conta que não funciona. É óbvio que se tem que recuperar o Centro de São Paulo, mas da forma como foi feita na administração PT. É óbvio que se tem que ampliar o número de moradias, mas não da forma da forma maluca que se está fazendo agora. É óbvio que se tem que melhorar o transporte, mas... Os erros são genéricos, de todos, populismo puro, a pior das opções. 

Sobre o que eu achei que tinha entendido da matéria da rádio, vamos lá: 

A estabilidade social tem como base a saúde mental de sua população. É de pleno conhecimento público e não resta qualquer dúvida que o convívio social faz toda diferença na saúde mental individual e coletiva, daí a importância de ter e manter com zelo espaços públicos, de preferência tornando-os o mais prazeros possível. Quantos mais espaços de convívio melhor para todos e tudo, do social ao econômico. Creio que eu tenha ouvido na rádio que pretendem legalizar espaços públicos invadidos. Só de pensar tenho arrepios. Sem antes discutir com toda a população, incluindo é lógico os mais carentes, não só que cidade eles querem, mas que futuro desejam para sí como indivíduos, sou contra em grau, gênero e número colocar em pauta a hipótese de se legalizar qualquer posse privada de qualquer área pública invadida. Há um drama social, o da moradia, que não é o único que afeta a cidade e de cidadãos. A violência desenfreada está aí, e dentre suas causas está a precariedade, para dizer o mínimo, de espaços de convivência coletiva para crianças e jovens. Dentre os mais prejudicados, senão os grandes prejudicados por esta carência, está a populção carente. Legalizar mais uma vez uma ilegalidade é de um populismo monstruoso. De boa intenção o inferno está cheio, se bem que eu acredito que a boa intensão aí seja para proveito de alguns com interesses mui particulares. É sobre uma cidade, portanto sobre problemas multi disciplinares. A tentativa de resolução de problemas pontuais já mais que se provou um erro grosseiro que vem prejudicando e se repetindo há décadas e que só conseguiram encurralar todos pela desordem, melhor, baderna que está aí. Quem sempre foram os mais prejudicados?

Sou contra legalizar a posse de qualquer espaço público urbano invadido

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

A fuga da cachorra

A linda vira lata cruza a rua Piaui caminhando como seu que dono a estivesse seguindo tranquilo. É um homem imenso que vem atrás dela e que do caminhar passa a correr, o que faz a cachorra disparar avenida Angélica abaixo entre pedestres. Estou subindo pedalando a avenida, sou cachorreiro, e de imediato me fica claro que ela está fugindo de seu dono, que suponho ser o grandão. Olho para ele e aviso que eu vou atrás, dou meia volta e disparo pedalando forte na contramão para tentar parar a linda e desesperada vira lata bege com coleira rosa, jovem, agil, muito rápida. Ela corre pela calçada bem mais rápido do que eu que pedalo pedindo para os carros saírem da frente. Para meu pavor cruza direto a primeira rua, a Maranhão, por sorte com sinal fechado para os carros, e se aproxima rápido do próximo cruzamento, a Higienópolis, larga avenida também com o trânsito parado no sinal. Os pedestres se assustam, olham a fujuna preocupados. No meio do quarteirão um carro sai da garagem, ela diminui, quase para, contorna por trás, eu grito para os pedestres que sobem e estão mais a frente pedindo que alguém tente pega-la. Impossível, ela passa batido e segue desembestada. Meu desespero cresce. O pŕoximo sinal, a Veiga Filho abre, os carros começam a se movimentar e eu gelo despencando a avenida de frente para o trânsito. Estou longe, não consigo me aproximar, não vou conseguir frear os carros. Para meu alívio ela dobra a esquina, passa voando por uma senhora com dois cachorrinhos na coleira. Paro meus gritos, um erro estúpido, desespero, que talvez só esteja aumentandoa vontade dela fugir. Ninguém vai conseguir segurá-la. Minha esperança é que ela começa a mostrar um cansaço. Ela cruza a entrada do estacionamento do shopping. A perco de vista. Com o trânsito em movimento, lento, ela cruza mais uma rua traçando entre os carros em movimento. Meu emocional está saindo pela boca. Sigo atrás sem saber onde esta correria vai parar. Minha esperança é que este quarteirão é longo e que talvez ela canse e diminua o passo. Vou conseguir ultrapassá-la e talvez consiga pegá-la.
Felizmente ela para num portão de garagem de um edifício e fica olhando desesperada para dentro. Passo por ela na rua, atrás so carro está estacionado e em silêncio, subo na calçada uns metros a frente. Vejo que dali ela não sairá, peço a uma garota que caminha que com calma, bem devagar, faça carinho e segure a coleira. A desesperada e ofegante vira lata está presa. Aperto o interfone e pergunto ao porteiro se a cachorra é de lá. Ele responde que não. Deixo a bicicleta, vou até a vira lata, que está deitada se mijando toda de medo. Me agacho lentamente e faço carinho. Ela me olha com medo, mas vai se acalmando. Lemos a plaquinha de indentificação da coleira, Maxime, e do outro lado o telefone. Um rapaz começa a discar o número e o portão começa a se abrir. Ela num tranco se solta e entra desesperada, corre até o segundo portão, o rapaz vai atrás. Grito para que o porteiro feche o portão para que ela não fuja novamente, o que ele faz, mas aciona o segundo portão e ela corre para dentro. Aparece uma menina de uns 18 anos com uma coleira na mão, pergunto se a fujona é dela, ela diz que sim e pergunta onde está. Dizemos que entrou e ela responde que "esta é minha casa", não fala mais nada e desce para a garagem. Algumas pessoas, incluindo mãe e filha com dois cachorros grandes, esperam ansiosas por notícias. O rapaz demora um pouco para sair dizendo que Maxime foi direto para a porta do elevador. Meu coração e fígado estão na boca. Emocionalmente estou acabado, nas minhas últimas forças, quase trêmolo. Retomo meu caminho, volto a subir a avenida pedalando bem devagar para me recuperar, exausto. Chego no cachorródromo do parque de onde começou a correria. Paro na grade a aviso o grandão que terminou tudo bem. Ele vem até a grade acompanhado de seu bassê e conta que tudo começou por que alguém deixou os dois portões do cachorródromo abertos, um comportamento absurdo,  inaceitável,  entre cachorreiros que usam o espaço. São dois portões, u tem que estar sempre fechado. Como pode alguém deixar escancarado um cachorródromo?

Sigo meu caminho devagar subindo a avenida. Volto para casa arrebentado. Poucas vezes na vida me senti tão cansado.

Umas horas antes fui levar minha prima que tem Alzheimer para tomar um café na padaria que fica na esquina das duas avenidas, Higienópolis com Angélica. Ela adorou estar na rua e tomar um longo banho do sol que transpassava por entre as folhas da frondosa árvore. A padaria estava lotada e sentamos na calçada, ela na cadeira de rodas, eu e Gra em cadeiras que pegamos lá dentro. Lá ficamos até o sol se esconder, um bom tempo. Doença maldita, dias melhores, dias piores. Naquela manhã ela estava alegre e dentro da conversa, mas não demora muito ela cansa e desaparece na sua doença ou sabesse lá onde. Percebi que tinha cansado e pergutei se queria voltar para casa. Ela respondeu com sua eterna suavidade que não, que o sol estava gostoso, mas seu olhar bem distante aponta para as profundesas de seu mundo. Ninguém sabe qual, é difícil.

Dois dias antes estive com a enfermeira chefe para saber como iam as coisas. Tudo bem, sem grandes sobressaltos, o que para esta doença é bom, ou talvez não, ninguém sabe ao certo, nem o melhors dos médicos. Conversamos sobre o sumiço de todos os que sempre viveram muito próximos dela. Sobrou para mim e mais ninguém. "O normal é este. Todos desaparecem".

O outro não importa. Não consigo aceitar que um cachorreiro deixe os dois portões abertos. É fuga do cachorro e desespero na certa.
Thereza sobrou na minha mão. Todos que convivera com ela sumiram. Sequer telefonam. Fiz reunião com todos e pedi ajuda. Saíram de fininha. Quem pegou o pepino que fique com ele. 

sábado, 23 de agosto de 2025

Não conseguimos aprender com nossos acertos

Ermínio Fraga é figura a ser respeitada, e muito. Inteligência rara, fala mansa, ponderado, em entrevista recente soltou que "Nós não aprendemos com nossos acertos". Na mosca. E completou que "Também não aprendemos com nossos erros". Sem dúvida, disse o óbvio, o trágico óbvio que nos assola.

Qual dos inúmeros exemplos de nossos acertos querem que eu cite aqui? São tantos e tão frequentes que não faço ideia sobre qual voltar a falar, mas sem revirar muito a memória vocês vão achar um fácil, fácil.

Repetindo, como sempre repito, minha mãe dizia "Não interessa o que ele fez para você. Interessa saber o que você fez para ele ter a reação que teve contra você".
Ouvi tantas vezes "qual a tua responsabilidade?", "faça bem feito", e principalmente "não seja mediocre", que confesso virei um 'pouco' neurótico com ter tudo bem feito. Não sou perfeito, não sou perfeccionista, mas tento fazer o melhor que posso. Aprendi com a vida, e não só com as broncas de minha mãe, que os acertos costumam ter um custo / vida muitíssimo menor que cometer ou se permitir até pequenos erros. Não é só acertar nas coisas práticas do dia a dia, como não jogar lixo na rua, prática trivial entre 99,99 de 100 brasileiros, mas tentar acertar até nos relacionamentos íntimos, formais ou informais, o que confesso ser um humano normal, ou seja, quanta besteira fiz. Anyway...

Um exemplo é bem explicativo, pelo menos para quem faz algum esporte ou especificamente para quem pedala: "Ciclismo (ou pedalar) é a arte da suavidade" e complementando "Ciclismo (ou pedalar) é arte de preservar energia". Suavidade pode ser traduzida como segurança. Em tudo na vida, fez suavemente e com calma vai bem. Quando você vai aos trancos e barrancos você aumenta a possibilidade de erros e acidentes. Preservar energia pode ser traduzido como poupar, ter o que gastar quando realmente é necessário, medida sabia que é vendida até na fábula da formiga e a cigarra.

Como todos dizem, de todos partidos, ideologias ou formas de pensar, Brasil é o país do vôo de galinha. Ficamos ciscando e vez ou outra decola na tentativa de um voo para o futuro, que como todos sabemos termina sempre um pouco mais a frente para voltar a ciscar. Desde que você nasceu quantas vezes aconteceu? Tenho uma memória de merda, mas só contando os planos econômicos que deram errados nestes meus 70 anos de vida posso lembrar de 6 voos de galinha. O mais ridículo? Sei lá. Foram voos de galinha dos quais parece que não aprendemos nada.

A Curitiba criada por Lerner e sua equipe virou umas das referências planetárias do que se deve fazer para ordenar o crescimento de cidades. Aqui no Brasil? Curitiba? Jaime Lerner? Quem?
A diplomacia brasileira foi durante décadas referência de bom senso. Neutra, cautelosa, bem preparada, apolítica. Foi-se.
Tivemos um sistema de vacinação que foi referência mundial? Foi-se.
Milhões de brasileiros trabalham em empresas que são regidas por sistemas de alta qualidade. o que seus funcionários replicaram em suas vidas fora da empresa?
Etc...

É triste, mas Brasil lembra cada dia mais aquele ditado árabe: "O que os sábios demoraram 8 anos para construir, um imbecil destrói em 8 minutos".

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és, sabedoria correta e inegável. É possível fazer uma versão digna para estes dias: "Diz-me com o que você se preocupa e pratica, e dir-te-ei qual é tua afeição pelos acertos". Acertos, o bem feito, o que dá certo, o que não deixa rabichos... Ou ainda: "Diz-me qual é a importância que dás aos acertos (ou à qualidade) e dir-te-ei quão responsável eres socialmente". Por favor, não jogue papelzinho amassado na calçada antes de responder.

Responsabilidade social. Aí o bicho pega, aí fica difícil.
Responsabilidade social: temos a obrigação de aprender e repetir nossos acertos
Responsabilidade pessoal: temos a obrigação de repetir nossos acertos
Responsabilidade familiar e com os amigos: aponte os acertos para que sejam replicados.

Como a única coisa que vale nestes dia é o bolso, um último comentário: acertar sai muitíssimo mais barato.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Menos carros, mais ônibus e ciclovias. Só isto? Por que não funcionou?

Rádio Eldorado FM
SP Reclama
O Estado de São Paulo

Sobre entrevista de Sérigio Aveleda para a Rádio Eldorado FM

Tirar os carros da rua. Ótimo. Aumentar o número de usuários no transporte público. Certo, lógico, ótimo. Implantar mais ciclovias. Fechou, ótimo!  Completou o menu da melhora do trânsito e da vida na cidade. Será? Só isto? E o que mais?

Antes de Penalosa, Mockos preparou a população de Bogotá para uma profunda mudança. O que Sadi Khan iniciou com a Broadway, NYC, incluindo o sistema cicloviario pela cidade, foi preparar a população para uma grande mudança urbana. Foram 2.000 reuniões oficiais com a população, a maioria nas ruas, para explicar o que seria feito e ouvir. As grandes cidades da Europa e algumas dos USA tiveram um processo de venda, leia-se preparação, para as mudanças que viriam e já estava claro que seriam necessárias. Começaram logo após a Segunda Grande Guerra, 1945, na reconstrução de algumas vias das cidades destruídas, pegou embalo a partir da década de 60 nos países nórdicos, e a partir de 1972 e a revolta contra atropelamentos de crianças em Amsterdam, virou referência mundial. Isto para ficar nos últimos 50 anos da metade do século XX.
Exemplos como estes são inúmeros e em inúmeras cidades. Aliás, ou vende a ideia bem vendida ou está fadado ao fracasso. É fator humano, qualquer produto só vai para frente com o imaginário bem estabelecido, cristianismo que o diga.  

São Paulo? Brasil? Paulistano vem há muito perdendo a noção do que é cidade e ser cidadão. Não só paulistano, porque a cidade mais rica normalmente exporta conceitos. Sentir-se hoje paulistano tem a ver com o que? Com a vida particular da pessoa em seu bairro, no local de trabalho, no clube, no shopping, atrás dos muros dentro de casa? Da visão que ele tem da cidade a partir do carro? No que se transformou a cidade? O que é o Município de São Paulo para os paulistanos? Há pesquisas?

São Paulo vem apagando sua história impiedosamente. Quem é o paulistano hoje? No que e para que está se transformando a cidade? Se não se sabe ao certo com qual público se está trabalhando, como saber o que fazer? Ok; a parte financeira se pode imaginar, mas dinheiro não é urbanidade. Menos carros, mais transporte coletivo, mais ciclovias, (melhorias para pedestres, pouco falada), são falas mágicas, soluções óbvias, discurso comum, real, repetido a exaustão, mas da forma como é dito (e sempre repetido), tem um cheirinho e gosto de populismo. 

A pandemia..., sempre a pandemia... e o pós pandemia. Boa e justa justificativa, ou será desculpa, mas e o que mais? Por que tivemos estes impactos pós pandemia e outras cidades pelo mundo não, pelo menos não nesta intensidade? Onde está a diferença?

Av. Faria Lima costuma ser apresentada como sucesso das ciclovias e consequente aumento do uso da bicicleta. Quantas bicicletas/dia? Quantos automóveis/dia no mesmo periodo? Qual a relação da evolução das bicicletas com a diminuição do trânsito no mesmo local? 4.000 motoristas a menos, mais ou menos. Em quanto tempo? E quantos carros a mais? Quais as razões para a mudança de modal? Por que naquele caos diário absurdo o número ciclistas não aumenta muito mais rapidamente? Qual o tempo de viagem de carro X tempo de viagem a pé? Etc...

Nossas cidades, as brasileiras, estão entrando em colapso porque o discurso correto, com saídas óbvias, foi repetido a exaustão e não cola mais. Estão querendo vendendo soluções para uma população que não faz ideia do que é uma cidade, começamos por aí. Aliás, não faz a mais remota ideia do que qualidade de vida, a real, não a da 'classe média vai ao paraiso'. "Eu conheço NYC", dizem os viajados. Conhece? "Fiquei três dias passeando pelos pontos turísticos e fazendo umas comprinhas obrigatorias". Upa! Deve conhecer mesmo.

O discurso que se faz para melhorar a cidade é o mesmo faz mais de 50 anos. Adiantou? Pelo que tudo indica, não. Então, como se faz? Lenga lenga em época de ormações e novidades faiscantes?

sábado, 16 de agosto de 2025

666 e Babylon, a diferença que a idade faz

A década de 60 desencadeou uma série de misticismos. Imagino que tenha sido uma reação às regras que imperavam no ocidente, ou sob as asas da santa igreja católica, ainda sob influência dos últimos resquícios da santa Inquisição, já não mais sob o poder da igreja, mas dos fiéis, e por que não dizer num pós Segunda Guerra Mundial que praticamente dizimou todos valores. De qualquer forma continuamos temerosos ao desconhecido e daí as teorias da salvação no meio de uma transformação social que redefiniria tudo, da economia ao social. E surgem as minorias barulhentas indo atrás de budismo, cristianismo, novos profetas, velhas escrituras, enfim bobagens sem fim que salvariam o planeta e a humanidade, tais qual esta analise sem pé nem cabeça que faço aqui. 

Apocalipse! Uau! Apocalipse! A palavra apavorante de tudo que envolvia um futuro previsto entrou nas conversas, primeiros dos adultos, depois dos adolescentes, Apocalipse virou um apocalipse social, muito mais assustador e mais divertido que filmes de Hollywood. Fora meus exageros de praxe, esta é a mais pura verdade.

O desconhecido cria imagens interessantes. Não era tão fácil pesquisar naquela época. Aliás, dependendo do que, era muito chato para começar, e depois era uma trabalheira danada para chegar na informação que se queria. Não sei como está pesquisar um tema numa biblioteca de hoje, ou sei mais ou menos, é na telinha, mas nos séculos e séculos antes da telinha era ir para o fichário, procurar por ordem alfabética (se você soubesse o que estava procurando), folhear ficha por ficha, até encontrar o que queria, o que eu em particular raramente conseguia. 

Como todo adolescente de minha geração, adorava mistérios, a busca de magias, de caminhos para a paz e amor, o que quer que fosse isso. 

Aos 17 anos, ver um disco na vitrine da loja com a capa vermelha e um 666 estampado em preto, foi o máximo. Comprei, levei para casa, tirei o LP cuidadosamente da capa, coloquei no toca discos, e... Interessante, muito interessante, bem diferente do que estava acostumado, principalmente a faixa 'The Four Horsemen', cantada como um chamamento do Corão. Babylon, a música, era simpática, mas não minha preferida. Ouvi umas tantas vezes o disco, sem nunca ter feito uma relação mais direta com misticismos ou religião. Era só música.
O que eu ouvia na época era percebida como uma obra, letra, arranjos, composição, tudo junto e misturado. Eu tinha uma educação musical de ouvido estruturada, tinha condição de perceber e saborear nuances, pequenos detalhes, mas a preocupação com letra, sentido, mensagem, era praticamente zero. Era só música.
Mesmo na época dos Beatles e de outras descobertas, aliás, bem atrás no tempo, bossa nova, música clássica, big bands, música era simplesmente música.

Passou o tempo dos misticismos e outros devaneios spirituals, sim, spirituals, sem dúvida com toda a magia de Disney ai no meio. Com as mídias novas pesquisar ficou 'biscoito', como dizíamos.
Acabei de descobrir que Paul McCartney e George Harrison, no meio destas novas descobertas espirituais e etc... pegaram um avião e foram para San Francisco ver qual era o babado do movimento Flower Power e de tudo mais que estava acontecendo por lá. Acharam uma tremenda babaquice, ficaram dois dias, e voltaram para casa para o real life. 

Aqui, no Alto de Pinheiros, senhoras da mais fina educação e sociedade descobriram um "santo" que dava consultas espirituais numa das mansões. Reuniam-se todas ali uma vez por semana, na quarta-feira se não me engano, e entrava uma por vez numa sala fechada para ter com o "abençoado". O máximo que cheguei perto destes eventos foi esperando dentrou do carro estacionado na rua para que saíssem de lá iluminadas, com suas áureas brilhando felicidade. De fato algumas saiam. Um dia tudo acabou inesperadamente. Perguntei e ouvi a resposta impiedosa para as gargalhadas que se seguiram: as puras e esperançosas senhoras entravam na sala abençoada e... Bom, um dia, a dona da casa, um sobrarão, melhor, mansão, inadvertidamente abriu a porta e deu com a benção carnal que estava internisada na amiga. Santo pau na periquita!

O fato curioso desmontou muito de meus misticismos, mesmo assim continuei acreditando que havia muito mais entre céu e terra que se possa explicar. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.   

Outro dia, ouvindo o 666, que é maravilhoso, tive a curiosidade e fui atrás do significado de Babylon, que na realidade é Babylon the great, Meretriz da Babilônia, ou também 'Grande Prostituta'. Primeiro, em minha santa estúpida ignorância sempre pensei que Balylon fosse uma cidade ou um homem. Abrindo uma série de páginas de pesquisa acabei descobrindo que é uma alegoria, melhor, que pode ter várias interpretações, praticamente todas relacionadas as políticas ou práticas sociais da época que foi escrito o Apocalipse. Já 666 sempre soube que está relacionado às bestas apocalípticas, que também são alegorias. 

Ignorância é uma benção*. E o caminho para o inferno. Escolha.

Este disco do Aphrodite Child, 666, musicalmente ótimo, hoje, nesta era de autocracias populistas baseadas na loucura estratégica, manda um recado que faz todo sentido. 




Babylon the great

*Já dizia o poeta inglês Thomas Gray que “Onde a ignorância é uma bênção, é loucura ser sábio”, mas a frase “Ignorância é uma bênção” ficou famosa com o personagem Cypher de Matrix (filme de 1999). Porém, antes de Matrix, outra figura icônica da Cultura Pop, John Lennon, já tinha proferido que “A ignorância é uma espécie de benção porque se você não sabe, não existe dor”.

Uau! 

Quando o Spirit se desfez, alguns de seus membros formaram o Jo Jo Gunne, que também tem uma música Babylon. Desta não faço ideia sobre o que fala, só saio dançando. Divirta-se. Aproveite porque ignorância é divertida por bem pouco tempo.




segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Reclamações sobre a privatização do saneamento básico

SP Reclama
O Estado de São Paulo 


Em 1986 tivemos a volta à normalidade institucional. E com ela a volta das esquerdas mais pesadas ao poder, primeiro com Brizola e depois com o PT. Interessante é que só agora se fala com tanta ênfase em saneamento básico. É muito simbólico olhar para Guarulhos e seu saneamento básico em todas suas administrações ditas de esquerda que se sucederam até bem pouco. É simbólico olhar para a região sul da Capital e sua "tatolandia", com graves problemas de saneamento, não só para a região. A os dois exemplos afetam e muito toda população.

Pergunto: a gritaria em cima da privatização da Sabesp é sobre saneamento básico ou manutenção de poder?

Pegando o brilhante editorial de hoje no Estadão, o que está aí é esquerda? Como alguém que acredita e busca praticar princípios e ações relacionados à responsabilidade social, afirmo que não. O que temos é um populismo daninho ao país e principalmente à população mais necessitada. Saneamento básico que o diga.

domingo, 10 de agosto de 2025

A medicina e os conceitos e preconceitos sociais

"Não entendo porque ele (ou ela) é assim?"
As causas são inúmeras, por diversas razões ambientais, sociais e clínicas. Na maioria dos casos não interessa para a maioria ir fundo, saber por que ele ou ela é assim, mas optar como vai lidar da forma mais simples com o resultado final, com o que está a frente, ou, com quem se diz que a pessoa é. Mas quem de fato é a pessoa?

Eu fiz erros pela vida que me arrependo muito. E fizeram erros comigo. A vida é assim, mas poderia ser menos errática. 

Pego meu caso como exemplo. Quem me conhece sabe que eu tenho uma boa dose de imprevisibilidade (tem gente que vai rir sobre esta minha afirmação. "Dose de imprevisibilidade?"). Mas por que a imprevisibilidade?

No pré primário tive minha primeira suspensão. Quando terminei o ginásio (acho que hoje é o 8º ano)  já contava com 21 suspensões e três expulsões. Aí fui parar num colégio que aceitava alunos problemáticos e dele passei para um colégio de educação experimental. Nestes colégios e na faculdade não tive problema com a disciplina. Mas por que?

Meus problemas disciplinares foram consequência da minha hipo-hiper glicêmia, TDAH e mais outras cositas mas. Detalhe: nenhuma delas era ou conhecida ou bem definida no campo clínico em meu tempo de estudante. Nos colégios onde a disciplina era mais relaxada e menos fincada em besteiras, eu fui bem. Hoje não se tem mais dúvida que o comportamento tem muito a ver com meio ambiente.

Desconhecimento, hábitos sociais, falta de flexibilidade.
 
- Hiper-hipo glicêmico? Isto não existe! Aqui começa uma outra confusão.
Já ouvi esta afirmação de médicos, num farto plural. E também ouvi de várias enfermeiras de PA, pronto atendimento, emergência, que não só existe, como muitos médicos nunca viram um paciente em crise ou sequer ouviram falar de hipo-hiper glicemia. Para muitos o caso não existe, simples assim. 
O que é hipo-hiper glicêmia? Uma curva glicêmica em zig-zag que faz o sujeito viver aos trancos, além das mudanças muito rápidas de humor, em outras palavras, os estouros. Até hoje. Nicas a ver com bipolaridade.

Aliás, como detalhe, mudaram as definições e a nomenclatura não só da diabetes, como até de partes humanas, mudou, então não sei mais quem ou o que sou. Roubaram minhas tíbias, agora tenho perônios. E aí vai.

Hoje há uma discussão sobre como lidar com pessoas fora do comum, incluindo autistas. A bem da verdade, a sociedade saiu de um não fazer ideia do que se tratava, para uma discussão maluca sobre o que fazer com eles.
A medicina saiu das garras da santíssima igreja e dos bons costumes sociais para cair no labirinto do politicamente correto e juridicamente seguro. Não resta dúvida que avançamos muito, mas... ainda tem muita confusão.

Lá pelos anos 60, quando tive minha primeira crise glicêmica grave, me passearam pela epilepsia, esquizofrenia, e sei lá mais o que. E, o pior, muito pior, fui filho de desquitada e neto de importante educador que pregava respeito aos alunos. 
Felizmente minha infancia foi nos anos 50 e 60. Pense bem, se eu tivesse vivido na época da Santa Inquisição provavelmente teria terminado torturado para confessar o diabo e queimado vivo para pagar meus pecados. Não que depois da minha primeira crise não tivesse quem quisesse fazer um exorcismo básico em mim.

De lá para cá as mudanças foram imensas. Ficando nos diabéticos, ninguem da geração de meus avós e para trás sabia ao certo o que tinham, aliás, se eram diabéticos. Não havia conhecimento, nem tecnologia para tanto.
Quando se trata de doenças mentais ou neurológicas, falta muito para se chegar a uma cura, mas já não se trata mais destes casos com o grau de obscurantismo do passado. Via de regra já se sabe sobre o que se trata, e em vários casos há tratamento indicado, mas a maioria dos pacientes continua sofrendo tanto pela falta de tratamento quanto muito mais pela discriminação social.

Não me lembro se na minha época ainda falavam sobre lobotomia, mas lembro que aprendi o que era, portanto deveria ser praticada. Lobotomia? Sim, uma discreta técnica cirúrgica para casos graves de alteração de comportamento, onde se abria um buraco na cabeça, a seco, sem anestesia, e se retirava parte do cérebro para acalmar o bicho, digo, paciente. Tive sorte, desta escapei. Bom, se me tivessem lobotizado teriam encontrado muita merda. 

Era estranho? Faz umas coisas esquezitas? "Nossa! É um perigo para a sociedade! Manda para o hospício!". O que? está pensando que é brincadeira minha? Não é. Um primo meu passou por esta,  fora conhecidos, vários. Tá achando que pirei? Uai, hoje não se cancela? Só parece menos traumático, mas os dramáticos resultados estão aí para quem quiser ver. De qualquer forma é bem mais barato. Você sabe quanto custa internar alguém? Se não sabe, não procure, é um tremendo business, vai que você só por perguntar acabe lá e de lá não sai mais.  

Medicina é uma ciência em aberto. Tem muita coisa que é conhecida, sabe-se como tratar com um bom grau de segurança, mas todas os novos conhecimentos e as novas tecnologias deixam em aberto novas possibilidades de cura. Espero que cheguem rápido.

Já os maus da sociedade, o que dizer?

Tanto a medicina, quanto a sociedade, tem, ou temem, limites estabelecidos pela lei. Óbvio que em vários sentidos a santa inquisição ainda está nos assombrando. Médicos não arriscam, a sociedade segue seu rumo na manada, uma hora desembestada atrás das bestas do apocalípse, outra desembestada atrás das palavras que parecem bondosas, os milagres que estão em todas partes. Os diferentes que saiam da frente. "O que é estranho da medo e deve ser evitado", dizem. A vida é assim.

PS.: vale apena ler ou seguir o blog Vencendo Limites do Luís Alexandre Ventura.
 https://www.instagram.com/blogvencerlimites?igsh=azZweW0xZGJ1MzZv