Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
Rádio Eldorado FM
Foram divulgados o números de mortes no trânsito de São Paulo, e cresceram, muito, são os piores em muitos anos, uma década. Aliás, cresceram como os números da violência urbana, das mortes por assassinatos. Triste coincidência? Não é, tem tudo para não ser. A meu ver são dados entrelaçados, reflexo da qualidade de vida geral que temos, ou, melhor, nos permitimos ter. É o que somos.
O drama social do Brasil é de total responsabilidade de cada um de nós, do completo desinteresse dos brasileiros pelo coletivo, a única forma de resolver qualquer situação. Estou errado, a responsabilidade é das autoridades, como insistem? É mesmo? Quais são as outras hipóteses? Não existe outra hipótese? Eles são os únicos culpados? É mesmo? Só passando para lembrar que o que chamamos de autoridades são funcionários públicos, explicando melhor, os que exercem cargos delegados por nós, cada um de nós, o povo em geral. É mais complicado do que isto? É, mas em última estância é isto, eles são funcionários que contratamos para nos servir, nada mais. Pois então, de quem é a responsabilidade?
Alguém aí está realmente preocupado com a morte do próximo? Se estiver, explica, porque no silêncio, na mudez, não dá para ouvir e entender. Se não se entende, se não se explica, como se pode acreditar?
Os números divulgados sobre mortes no trânsito, ruins, são os brutos, mas... Quais são os dados particulares? Onde, quando, quem, como e por que? Alguém sabe? É fácil criar imaginários em cima de números brutos, uma imagem inacabada da realidade. É muito mais difícil de ser enganado quando a informação vem bem investigada, detalhada, aprofundada.
A quem interessa números brutos?
Como vieram os dados da pesquisa tirados polícia técnica e legistas? Aliás, alguém os viu? Como e por quem foram analisados? Alguém sabe?
Deixar um morto no meio da rua por horas para só então fazer a perícia é o ideal? Não se perde detalhes que podem mudar a sequência dos fatos que resultaram o acidente e o óbito?
Trânsito pode ser analisado como um jogo onde todos participantes devem respeitar regras e principalmente os outros participantes. A ciência, através dos dados que fartamente coletados em diversas partes do planeta e não só em relação ao trânsito, reza que quanto mais tranquilo, mais calmo for o jogo, menor a quebra do respeito às regras e normas de segurança, portanto menor a possibilidade de acidentes.
Paz no trânsito, menos acidentes, menos mortes. Por isto a opção pelo acalmamento de trânsito, técnica usada e aprovada em todas partes do mundo onde a acidentalidade é baixíssima.
Está provado que segregação, qualquer que seja, cria castas, privilégios, o que contribui para uma segurança particular, individual, não coletiva, que numa análise mais profunda não se sustenta para qualquer sistema de segurança. Trânsito incluído.
Se há uma forte pressão, válida, pelo fim da discriminação, segregação e privilégios, por que no trânsito a opção é por segregar? Sim, eu sei, há situações que separar, segregar, é a única alternativa de segurança, pelo menos por um determinado momento, então pelo menos que se segregue onde de fato é necessário, não indiscriminadamente. Os dados sobre pais super protetores que estão vindo a tona ultimamente colocam este comportamento como um erro crasso.
Minta, minta, minta mil vezes e a mentira se tornará verdade. Ciclovias e ciclofaixas são seguras. É mesmo? Quem disse? A fonte é segura? Sim, dão mais segurança ao ciclista, mas como, quando, por que e principalmente com que efeitos colaterais? A pergunta que fica: quanto ciclovias e ciclofaixas tem responsabilidade sobre os índices de acidentalidade? Nada a ver? Não mesmo?
Minta, minta, minta! Faz décadas que a melhor opção para a segurança individual foi (e segue sendo) a construção de muros, segurança particular, barreiras e outras medidas segregatórias de contensão. Pergunto: funcionou? A segurança de todos aumentou? Que sociedade temos?
A cidade é a resposta para nosssos dramas. Que cidade queremos? Segregada? Discriminatória? De privilégios? É o que seguimos construindo.
Na Holanda surgiu uma cidade onde se extinguiu as ruas como as conhecemos, ou seja, sem calçadas, sarjetas, ruas, faixas de sinalização, sinais, semáforos, ou qualquer outro elemento que separe, segregue. Foram transformadas em espaços públicos indiscriminado, realmente para todos. O que parece uma loucura para a maioria, e não é, os números provam, é o aprofundamento do conceito de cidades acalmadas que há muito se pratica. Quando implantaram pela primeira vez foi uma gritaria: vai matar muita gente! Muito pelo contrário, diminuiu drasticamente o número de acidentes, e mortes. É aplicável em todo e qualquer lugar? Não, mas é o caminho. Aliás, é sim aplicável, depende da inteligência de quem aplicará.
Ciclovias e ciclofaixas são necessárias? Sim, certamente são, mas definitivamente não são 'a' solução para a segurança de ciclistas, e não o são porque os dados que se tem são muito direcionados para o que se quer publicitar e ver, exatamente da mesma forma que muros 'são' seguros para seus moradores.
Por que temos toda esta vergonhosa insegurança? O que fizemos deu certo? Não estará na hora de pensar alternativas? Não passamos da hora de ter um olhar mais profundo sobre o que nos afeta?
Vi este vídeo a seguir sem som, e mostra bem como pode ser a transformação das vias, leia-se espaços públicos, de uma cidade, da organização habitual e tradicional, para as ruas "espaços públicos", sem divisões, sem segregações, sem privilégios. É só um exemplo, nada mais. Por favor assistam, simplesmente assistam, sem 'nós ou eles'.
Antes de assistir lembre-se que nós, brasileiros, (paulistas, paulistanos, no meu caso) somos seres humanos. A voz corrente que nós somos diferentes se sustenta? A meu ver definitivamente não. Se as cidades são todas semelhantes, se usam praticamente os mesmos conceitos e praticas para se organizar, crescer, fortalecer e enriquecer, porque não se pode usar as mesmas boas práticas experimentadas?