segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

As leis brasileiras, o 'advogues', e a enganação legal

O Estado de São Paulo
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O
 que está neste artigo do Estadão diz respeito ao que vem acontecendo no setor imobiliário, mas contratos, melhor, a aplicação da lei vivente da melhor forma - para o interesse unilateral - é regra. É fato amplamente divulgado, normalmente dá muita confusão, e ninguém faz nada para dar um basta definitivo. Obras atrasadas, paradas, perdidas, processos que nunca terminam. A quem interessa? Óbvio que tem gente ganhando muito, muito, mas muito dinheiro mesmo neste andar das coisas, principalmente os defensores do status quo jurídico. Lei? 

Dou um exemplo simples. Nosso trânsito é um horror, afeta a todos paulistanos, sem exceção. Qual é o conjunto de leis que dá sustentação jurídica ao que acontece? CTB? E o que mais? No 'o que mais' está a razão de você ficar horas engarrafado. No 'o que mais' está a reclamação geral da existência de ciclofaixas que ninguém usa, por exemplo. No 'o que mais' está a justificativa legal para o absurdo número de mortes no trânsito. Alguém aí se interessa pelo 'o que mais?'.

Ontem, mais uma vez li um matéria onde o entrevistado afirma que "brasileiros não se interessam por pesquisas, estatísticas e dados". É fato. As leis que temos servem para advogados e juízes, não para servir ao povo. Aliás, não servem só ao povo, diga-se de passagem. 
A quem interessa o que temos hoje? Sim, tem gente que fará de tudo e mais um pouco para não perder o seu quinhão, e não falo de políticos, que são mais uma vez a distração.

José Serra, quando prefeito, tentou limpar as leis do Município de São Paulo, que na época eram umas 17 mil, se não me falha a memória. Estava lá como amarrar um burro em via pública, por exemplo, dentre outras que empacavam o bom funcionamento da coisa pública. 

Contrato que cidadão não consegue entender? A quem interessa? Não estou perguntando a que interessa de imediato, mas a quem interessa por trás dos panos, por trás dos camarins, aliás, a quem interessa que sequer aparece no teatro? Quem são 'os salvadores da pátria'?
Finalmente, que pátria? De quem?

As leis brasileiras são para iniciados, não para leigos. Não saber ou não entender um contrato não é exclusividade da nova geração, mas uma realidade perene neste país. O famoso 'advogues', ou escrever para que só os próprios entendam ou até que nem eles realmente entendam, mas afirmem que entenderam, é uma realidade incontestável. Além do mais, é trivial deixar o que interessa na incerteza contando que a morosidade,ou, melhor, a baderna do judiciário tardará ou nunca chegará a um veredito.

Cair numa cilada jurídica neste Brasil é trivial. Neste caso em específico, o que aconteceu deveria ser investigado a fundo. Os contratos duvidosos são só um pequeno detalhe frente a deformação urbana e suas consequências sociais que vem causando. Acredito que os que deram a largada a esta baderna vão sair sem sequer bater a poeira de suas roupas de grife.

O interessante é que mais uma vez os que entendem de fato do recado calaram. Por que será? Quem não entendeu que se vire.


sábado, 17 de janeiro de 2026

As imagens dos tiros do agente da ICE em Ms. Good

 Quem está seguindo a investigação sobre a abordagem do ICE, seguida de tiros que mataram Ms. Good, tem tido a oportunidade de ver e ouvir várias versões sobre o que aconteceu vindas de todo tipo de gente, de políticos, militantes, especialistas, cidadãos e aproveitadores de todo tipo. No meio desta enxurrada vi defensores da ação do ICE usando vídeos que aposto foram reeditados, talvez até por inteligência artificial. Num deles, a SUV de MS. Good atropela o policial e quase o derruba. Ilusão ótica induzida pela narrativa? Pode ser.

Achei estranho porque desequilibrado o policial, como parece ser em algumas entrevistas que relatam que ela jogou o carro em cima, provavelmente não teria condição de disparar três tiros tão precisos.

Não sou especialista, não estou tirando conclusões. Acho muito estranho o mesmo ponto de filmagem gerar imagens, sequências tão diferentes, ou pelo menos levar o público a chegar a esta conclusão.

Acho deprimente que uma pessoa tão calma, como fica claro no momento que ela diz sorrindo para um policial algo como "não tenho nada contra você", tenha acerado para matar, e acabado morta da forma como foi. Mas não é  meu ponto aqui.

Eu já vi uma meia dúzia ou mais de entrevistas e comentaristas. Ou estou completamente gaga, louco, cego, ou a mesma coisa é diferente conforme o interesse de quem fala. Sim, eu sei que é, sempre foi, mas não me lembro de tamanha diferença entre o que foi divulgado. Filmagens diferentes? A princípio pensei, mas depois gritou em mim que era o mesmo, mas diferente.

O que realmente me assusta é que tenho a nitida sensação que imagens retrabalhadas estejam servindo como base de defesa de pontos de vista, e que estas possam chegar aos tribunais. Pior, muito pior, que emissoras de grande poder de divulgação, com grande público, estejam colocando no ar versões diferentes criadas ou editadas a partir de uma gravação original. Mais, é muito mais que um absurdo (literal) que as editorias não tenham checado a originalidade do material divulgado. Ou, a veracidade do fato divulgado. Sim, eu sei, acontece cada vez com mais frequência 

Esta entrevista na CNN, mostrando e explicando frame a frame, joga luz no que realmente aconteceu. 

Que loucura estamos vivendo? Vai ao gosto do freguês, não importa as consequências? Pelo jeito, vai! Ou, vai mesmo, eu que sou um tônho. Do fundo da alma, espero que eu esteja completamente gaga e que a sensação que tive nesta enxurrada de notícias esteja errada, mas provavelmente será uma questão de tempo para o IA ir mais fundo do que as atuais fake news. 

Sobre edição da verdade, sempre aconteceu. O que assusta é a entrada de um novo player, o mesmo que já não perde mais no poker e jogo de xadrez. O que será do judiciário?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Itens de segurança ou limite de velocidade?



Tem um documentário sobre segurança para motoristas que no seu fechamento faz a pergunta para o maior especialista da época: Qual seria o automóvel mais seguro para os motoristas? Num típico humor britânico, ele solta: O que tivesse uma faca no meio do volante apontada para o peito do motorista. Ele seria mais cuidadoso.

Um amigo, que trabalhou com sistemas de segurança para ciclistas e era motociclista, dizia com toda razão que "o sujeito pode estar dentro de um tanque de guerra. Se ele conduzir errado vai se machucar".

A questão de boa parte dos itens de segurança obrigatórios nos automóveis podem ser rebatidos sob vários aspectos, todos com base na ciência, portanto em dados. Também deveriam ser debatidos sob aspectos econômicos e sociais. Mas quem se interessa?

Segurança, a real, é ciência, não tem nada a ver com falácia ou propaganda.

A verdade é que quanto mais ilusão, mais chique. Ou, "Dane-se o trabalho semi escravo, se eu tiver mais, melhor, e me sentir mais confortável pagando menos".

Uma revista especializada europeia, não me lembro qual, apontou que muito mais da metade de automóvel moderno são inutilidades. Portanto custos com algum impacto futuro, impacto sério.

Dados estatísticos confiáveis, colhidos em várias partes do planeta, provam sem deixar dúvida, que a quase totalidade dos acidentes tem por razão o seu condutor. Óbvio que sobre isto ninguém quer falar, não interessa. O negócio é ter proteção contras as próprias besteiras, os próprios erros, bem barato, de preferência.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Reformas urbanas que não acabam. Projetos que desaparecem.

Vendo uma matéria sobre a reforma da av. Santo Amaro, no SPTV 2, lembrei que quando ainda estava trabalhando nos projetos cicloviarios, portanto meio dentro da Prefeitura, entre 2005 e 2007, soube de fonte segura que o Banco Mundial fez uma oferta de U$ 1 bi para reforma e recuperação da av. Celso Garcia e redondezas, algo parecido com o que se está fazendo na Santo Amaro. Minha fonte foi um dos que colocaram a proposta na mesa. Fiquei sabendo porque deveria trabalhar no projeto. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Com muito atraso, como nos é trivial, a reforma da av. Santo Amaro pela metade, já extrapolou o custo previsto, como também é trivial. E com problemas de acabamento. Devemos dizer que pelo menos saiu do papel?

Como já contei, fui contratado para fazer um funcional da ciclovia e recuperação das margens do entorno da Guarapiranga. Fiz as vistorias, entreguei um relatório com um croqui pré funcional, fui pago e finito. Não abriram quem estava por trás. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. Mas neste caso, por um acidente, uns 10 anos depois, um dos responsáveis pelo projeto estava tomando sorvete ao meu lado. No meio da conversa sobre bicicletas e ciclovias, ele riu e contou. O projeto seria a contra partida da vinda do Guggenhein para São Paulo, que seria instalado no Jardim Guarapiranga.


Depois destes fui contratado por ONG americana para o funcional cicloviario de apoio a ciclovia Eliseu. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

O mesmo com a consultoria do cicloviario de Guarulhos. Sumiu...

Bom, enfim, até quando vamos continuar com projetos que não acabam, ou pior, que tem início e somem, literalmente. Acreditem, definitivamente não sai 'di gratis'.

Sentir-se um trouxa é uma coisa. Ver dinheiro público desaparecer sem sentido não dá mais. Aliás, nunca deu.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Bienal de São Paulo. O que é arte? Quem sou eu?

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém

O trocadilho com o "quanto mais sei, mais  sei que nada sei" me veio como a abertura de um filme exibido em 'Cinerama", projeção impecável e som Dolbi, rodando a imagem que via enquanto rodava lentamente a cabeça olhando as obras do segundo andar da 13º Bienal de São Paulo. 
- Quem sou eu? 

Não, definitivamente não tem nada a ver com o que pretende a curadoria desta Bienal e suas preocupações sociais inclusivas, mas com a memória de todas as Bienais que vi pela vida, e as que deixei de ver; para meu prazer. 

Marcel Duchamp morreu em 1968. Seu mictório foi exposto em 1917 sob o nome "Fonte", muito mais que um choque para aquela sociedade que acabara de sair da Primeira Guerra Mundial, uma carnificina sem precedentes. Em 1923 Duchamp exporia seu "Grande Vidro", ou "A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo", um pulo (um pulo?) do nonsense dadaista para as obras conceito, e warp speed para o sense ou nonsense do que temos na arte hoje. 
Vale tudo? O que é arte? 


("Vale tudo?") O que é arte?
E me pus a perguntar para os monitores "O que é arte?". Resposta padrão. "OK, além disto, o que é arte para você?" Olhares de espanto, respostas um pouco mais rebuscadas, mas mais ou menos a mesma coisa.
- Como entra o marchand nesta tua resposta?
- O que é marchand? E quem quase caiu de costas fui eu. Como assim, o que é marchand? 
- Nos treinamentos não falaram sobre a questão dos marchands?
- Nós não recebemos treinamento. Estamos aqui para guardar as obras. De novo, quase caí de costas. 


A garotada que estava lá tinha cara de quem estava engajada com o espírito da coisa. Boa! Já não sou bom saca rolhas, não consigo chegar ao delicioso líquido da cabeça do outros, e depois de saber que eles estavam lá para guardar as obras sem saber qual a influência do mercado de arte na curadoria desta Bienal, caminho só me perguntando "Quem sou eu?". 

Fui no último dia, só, um calor de fritar ovo no asfalto. Marcel Duchamp teria aproveitado a dica para sua próxima obra? Não creio. Duchamp provavelmente estaria trancado em casa olhando assustado pela janela "Aquilo deu nisto?".

Fui com medo, quase não fui. Gato escaldado tem medo de baboseira pegajosa. A última Bienal que tinha ido, felizmente não me lembro qual, foi tão chocante para mim quanto o mictório que Duchamp expos em 1917 deve ter sido. Baboseira sempre teve, mas depois de uma sequência de bienais marcantes pela qualidade, mudar tão radicalmente não desceu. Não fui o único a arrepiar de horror. A música nossa de cada dia que o diga. Chega. A bem da verdade, não sei bem por que criei coragem de ir nesta, mas 'até' que valeu a pena. Este 'até' é um tanto fdp, que seja. 
Queria ter ido com Duchamp. Não faço ideia de como era seu senso de humor, partindo daí ou me divertiria ou acharia ele um saco. O que vale é quem se é, o resto é arte. (Doeu!)

Sou obrigado a barbar numa sumidade? Não caio mais nesta, já perdi muita vida me curvando a quem se vende bem, mas é um babaca. Babacas nesta vida é que não falta.
Sou obrigado a achar uma obra conceitual inteligente? Sou obrigado a achar uma obra conceitual interessante? Desculpe, mas a maioria não consigo, zero. Talvez conseguisse se o marchand responsavel estive comigo e fosse bom de lábia. Bater punheta é uma arte.    

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém


Sai feliz. Aliás, sai deprimido por deixar o ar condicionado e ter que caminhar no frita ovo. Quem quer que tenha feito a curadoria saiu do atoleiro do que vi na última Bienal que fui. Quando? Não me lembro, mas a memória emocional dela que ainda resta em mim é bem desagradável. Hoje eu a definiria como "politicamente correta", aquela. Esta também, mas menas, muito menas, mas muito menas mesmo. Esta Bienal tinha muita coisa boa, boa mesmo. Acabou. 

O que é arte? 






 

Arte democrática(?), como está numa escultura (foto acima). Desculpem, mas li e estourei na gargalhada. E os marchands, curadores, galeristas, colecionadores, investidores, como ficam? Doce ilusão!

Tendo a obra de Duchamp na cabeça respondo a pergunta "O que é arte?" 
- Vai mané! (é a resposta)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência. E Cassia Eller; 1962 - 2001 / a perda de um gênio

O Estado de São Paulo
Sábado, 01 de Agosto de 2020
A16 | Internacional 

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência

Aos 96 anos morre o cronista de sete décadas.
Jornalista e escritor francês chegou ao 'Estadão" em 1951
....

Repercussão
Ruy Mesquita Filho
"Sua lacuna jamais será preenchida, homem de cultura e de um refinamento que não existe mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera."
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E da página dupla em uma curta homenagem a Gilles Lapouge e do que Ruy Mesquita escreveu parto eu.

Uma pessoa culta que vivenciou 70 anos como jornalista tem um nível e conhecimento sobre o que somos, todos, como seres humanos, que é de uma preciosidade única. Eu nasci em 1955, quatro anos depois que Gilles chegou ao Brasil, e ainda vi um país arcaico, com hábitos do século retrasado, os 1800. Vi e usei tecnologias inimagináveis para a atual geração, como um telefone de parede movido a alavanca giratória, gramofone, roda d'água, carro de boi, rádio a válvulas que tinha que esquentar para funcionar, rádio galeno....


(Como tudo nesta vida, deixei, ou esqueci este texto nos rascunhos. Volta e meia via que ele estava ali e que deveira ser publicado. Exatamente como procrastino muito de minha vida. Ou procrastinei. Estou resolvendo tudo um passo por vez, aos pouquinhos, dentro de meus limites, resolvendo o que não tenho jeito ou não gosto. Está indo. Estou melhor) 


09 de janeiro de 2026
Mudou, e como mudou. "... nossos dias, onde a boçalidade impera", e como impera!

Li a notícia quando estava em Penedo. Lugar lindo, terra de finlandeses que vieram tentar a vida nesta floresta chamada Brasil. Montanhas em volta, uma para Visconde de Mauá, outra para a entrada do Parque Nacional de Itatiaia. Subir montanhas, desafio para quem sabe o que faz e está preparado. Muitos ou não vão ou ficam pelo caminho, como na vida.

No mesmo dia que li esta notícia sobre a morte de Gilles Lapouge, assisti na TV um documentário sobre a vida de Cassia Eller, uma Cassia Eller que pouquíssimos sabiam quem de fato era. Foi das poucas mortes que chorei. Gostava, mas não era fã de sua obra. Tinha consciência que ali estava um potencial raro, que foi-se. 'No recreio' é de uma genealidade rara, música que não canso de ouvir. Já tinha lido que ela tinha consciência plena sobre seus erros e o que deveria fazer. Achei incrível quando soube que a ficha caiu quanto seu filho, ainda pequeno, disse para ela que ela estava gritando demais (nas músicas). Caiu a ficha, precisa mais?

Um dos momentos inesquecíveis de minha vida foi, por um daqueles agradáveis acidentes da vida, se é que se pode chamar assim, acabei ficando hospedado na casa do então diretor da agência suíça de notícias Reuters, em Zurich. A casa era incrível, e o jantar, onde pudemos conversar com calma, simplesmente mágico, um outro planeta de conversas.

Gostaria de ter tido a mesma experiência com Gilles Lapouge. E com Cassia Eller. Como com tantos outros, nomes conhecidos ou não. Não precisa ser famoso para ser interessante, precisa ser interessante, no bom sentido, que necessariamente não é do bem. Brain! Brain! Brain! Brain!  

Como é que é? Algo assim: seguimos atrás do cachorro catando os seus dejetos... O original, de onde tirei esta acertiva, está a seguir, no copia e cola do artigo / entrevista publicado hoje no Estadão. Maravilhosa metáfora do que nos transformamos. A diferença de sentido, ou metáfora, ou que realmente é, está no texto: "cachorros são amor puro". 
Nós nos transformamos em metáforas (em metáforas?) do que acontece agora com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro. Aliás, sem querer, primeiro digitei 'Borcaro', é, mais ou menos por aí. 
O que nos transformamos está explicito, o triste é que não se pode mais afirmar "vê quem quer", até isto foi pro saco (sei-la que saco, mas com certeza não de boa coisa).  

"... agora é uma entidade atrás de quem eu ando recolhendo dejetos humildemente". Somos todos nós, a entidade. Entenda o que quiser e pode ser. Se entender. 

Morrerei na era da boçalidade, isto é líquido e certo. Me incluo aí, me considero um boçal, mas rezo a cada minuto o "quanto mais, sei que nada sei", é o que talvez me salve do inferno. Do purgatório não escapo. Por favor, não me mandem para o céu desta turba de repete sem parar "Vai com deus (este eu digo com letra minúscula)" e "Amém!". Não mereço. 

Subir montanhas pedalando (ou caminhando, correndo) é um ato de autocontrole, um honrar e homenagear o conhecimento, o como fazer correto. Chegar lá em cima é uma vitória efêmera, mas deliciosa. Sim ou sim, se tem que dar meia volta e voltar aos pastos da boiada ruminosa. O esterco deles é que faz o pasto crescer - pura ironia.

Antes deste, acabei de postar um outro post onde coloco que queria ter convivido com gente que se foi. Conviver com muitos mais que que convivi, mas os interessantes. 
Fechando as vontades num foco só. Pedalando pelas ruas, olhando minha bicicleta, fazendo alguma manutenção necessária, gostaria ter tido tempo com meus heróis da bicicleta e do ciclismo, nomes brasileiros que são absolutamente desconhecidos pelo Brasil e que mesmo a distância me ensinaram muito. Devo muito a eles, mas com tempo e ouvindo em silêncio poderia ter aprendido muito mais. Este é o ponto.

Uma das coisas que mais me irritam nesta vida é alguém dizer que tenho conhecimento sobre o que é uma bicicleta. Hoje tenho só certeza que já descobri que bicicletas têm duas rodas, e que por isto o nome tem um 'bi' na frente. De resto, sou aprendiz, nada mais. 




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Bebeto, Pedrão, Bernard, e tantos outros que passaram

O incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, me fez lembrar mais uma vez de Bernard Zen-Ruffinen, uma simpática figura que conheci na Bolívia em 1977, me ajudou com orientações e a encontrar uma estadia, aliás, ótima. Por um acidente de viagem acabei na Suíça e na casa de seus pais em Sion. Crans-Montana está muito próxima de Sion e é bem possível que da varanda da casa dos Zen-Ruffinen tenham visto os tragicos clarões do incêndio.

Bernard me marcou porque viajava só com uma bolsa, uma malinha daquelas que a gente usa para ir a academia. Ele estava sempre bem vestido. Eu, carregando uma grande mochila típica de mochileiro, pesada, desconfortável, me vestia como um hippie meio largado. Talvez tenha sido uma das mais marcantes lições para minha vida. Até hoje, quando monto uma mala de viagem lembro da bolsa do Bernard e vou descartando inutilidades, mas confesso que ainda tenho dificuldade em chegar a tamanho espartanismo.

Sim, minha vida foi se transformando a partir de pequenas situações que chamaram a atenção. Poderia enumerar muitas, mas aqui falo sobre três pessoas que gostaria de ter vivenciado e não o fiz. Se tivesse vivenciado meus caminhos certamente seriam outros. 

A última vez que tive contato com eles, os Zen-Ruffinen, foi quando seu irmão, Walter, veio para o Brasil e ficou em casa. De Bernard nunca mais soube, infelizmente. Walter esteve ligado com a FIFA, e pelo menos a imagem dele vi. Agora procurei e encontrei não só referências deles, mas de toda a família, que descobri ter uma história valiosa, importante, consistente. O pai, eu sabia, foi o anestesista do Ivo Pitanguy em cirurgias plásticas fora do Brasil. Lendo a história dos antepassados Zen-Ruffinen tomei consciência que o que me fascinou em Bernard foi ele ser um jovem cidadão do mundo com uma bagagem de cultura grande nas costas. Eu, brasileiro, de boa família, pessoas educadas, tinha uma boa bagagem, mas para Brasil, sem comparação com que Bernard e Walter receberam da família e da Suíça. Nós brasileiros, mesmo os de eleite, eram bem caipiras, bem primários, se não continuamos sendo.
A conversa entre os Zen-Ruffinen durante um almoço deu o grau de ignorância que eu tinha. Primeiro, eu era fluente em espanhol e tinha um inglês primário, ruim digo. Eles misturavam numa mesma frase frances, alemão, ingles e italiano, sempre buscando a palavra mais precisa, não se importando em que lingua, quando queriam entrar fundo no sentido. A conversa base foi em inglês, por gentileza comigo, mas as palavras em frances, alemão e italiano, aliás, algumas em espanhol, saiam com toda naturalidade, fluidas, sem gaguejar. Só decadas mais tarde consegui entender o porque. "Boludo!", expressão típica da argentina, cabe bem para o que eu era então.

Perdi contato porque tinha vergonha de minhas cartas, a forma de comunicação daqueles tempos. Minha letra era um caos, péssima, minha verbalização horrorosa, não sabia como e o que escrever, não me lembro se escrevi para ele e sua família, se escrevi não tive resposta porque provavelmente ficaram assustados. Aliás, minha comunicação verbal era bem ruim também, se não lastimável, o que não exagero aqui.

Pedrão, foi outro que só depois de morto descobri que gostaria de ter convivido, e muito. Pela vida nos vimos muito pouco, eventualmente em alguma comemoração de família. Era de pouca fala, muitos sorrisos, muito ouvido. Tinha notícias dele por sua irmã, Celinha, muito amiga de minha irmã. Tudo que sabia é que ele trabalhava no Estadão, mas não sabia no que. Quando morreu o Estadão dedicou quase uma página a ele, Pedrão, Pedro França Pinto. Aí descobri que seu trabalho foi grande, que sua cultura e pensar valiosos, colaborativos, imprescindíveis. E eu perdi isto tudo.

Bebeto, Luiz Roberto Souza Queiroz, outro primo com quem tive pouquíssimo contato e me arrependo. Bebeto também trabalhou no Estadão. Devo ter lido seus textos num passado distante, mas como sou desligado nunca olhei para o autor. Descobri a preciosidade de sua escrita atravez das crônicas rápidas que ele escrevia no Whatsapp da família. Impecáveis. Eu, muito envergonhado, queria e deveria ter ido a Itu para conversar com ele sobre escrita, textos, e (envergonhado) mostrar meus garranchos que aqui publico. Um dia, com grande tristeza, me avisaram sobre o velório. 

Agradeço muito aos 'malucos' que convivi. Malucos porque um tanto fora da curva, o que foi ótimo, um aprendizado incrível, precioso. Mas deveria ter olhado para a vida de maneira mais aberta. O meu erro: comunicação precária, em alguns momentos desastrosa. 
Criei mitos, o que foi um erro, até porque mito impõe respeito, dá insegurança. Besteira, besteira pura! Mesmo que eu tivesse sido um completo imbecil, para um ser valioso não importaria porque ele aprenderia com a situação. E talvez ensinaria. 

Das situações únicas, vem a única conversa na vida que tive com meu avô Fernando de Azevedo. Rápida, no leito de morte, ele me abriu as portas para o escrever. Ali, mesmo que não tenha conscientizado, aprendi que somos todos humanos, eu também, até e principalmente por todas minhas inseguranças.

Quantas pessoas passaram pela minha vida e perdi a oportunidade de convivência mais que proveitosa. Sempre escolhi convivências meio que fora da curva, 



Textos corrigidos por IA


Minhas cartas eram péssimas. Tinha profunda vergonha delas