domingo, 10 de maio de 2020

Ineos Petroquímica e os patrocínios ao esporte

Dois dias antes do início de nossa bagunça pandêmica o Financial Times publicou a matéria especial de página dupla "Ineos: why Jim Ratcliffe is mixing petrochemicals and sports" (Monday 16 March 2020). Infelizmente o link é só para quem assina. Eu li a matéria no jornal que me foi trazido de Londres por uma amiga, Cristina.
Fiz estas anotações na época para começar a escrever sobre a questão dos patrocínios ao esporte; (meio) SIC do Financial Times, (por conta de minha tradução):
  • Empresa com nome sujo limpando o nome com esporte.
  • Ineos patrocinando futebol, F1 (Mercedes), ciclismo, corrida a pé, barco a vela.
  • No projeto da Ineos um esporte ajuda o outro com expertise específico e com seus centros de treinamento (interessante)
  • "A maioria não faz ideia do que é Ineos ou o que outro patrocinador faz, e o patrocínio não afeta as vendas no mercado químico, mas está jogando uma imagem positiva na companhia."
  • Questão ambiental.
Não faço ideia de como ficará estes patrocínios da Ineo daqui para frente. Fato é que o mercado do petróleo derreteu do dia para a noite. Aliás, ninguém faz ideia de como ficarão todos os patrocínios esportivos, dos atletas, das equipes e até mesmo dos eventos.
Para quem quer saber quem é a Ineos: Ineos se esforça para se tornar o maior produtor de petróleo e gás do Reino Unido.

Bom artigo para ser lido e bom momento para pensar sobre esportes, tão cruciais em nossas vidas: 
  • O que são de fato as empresas que patrocinam esportes, bens sociais e culturais na vida real? 
  • A importância destes patrocínios ninguém tem dúvida, mas qual o custo / benefício destas ações computando todos fatores envolvidos? 
  • Dá para ter um filtro para os patrocinadores? 
  • Como formar entre esportistas amadores e torcedores a cultura de apoiar empresas corretas e não comprar de empresas problemáticas? 
  • As empresas que patrocinam os esportes têm objetivos outros além dos óbvios?
O outro lado da moeda é o patrocinar um esportista de péssimo carácter e comportamento social. No ciclismo temos talvez o pior de todos exemplos, Lance Armstrong, que para quem não sabe não só foi excluído do ciclismo por doping como varrido de qualquer esporte por ameaçar pessoas com quem trabalhou (trabalhou?) e outras próximas. Duvido que os patrocinadores não soubessem de nada antes do estouro do escândalo. São inúmeros os casos de atletas que são péssimos exemplo para a sociedade e mesmo assim foram patrocinados. E as consequências sociais, como ficam?
Deslealdade e práticas pouco recomendáveis sempre fizeram parte da história dos esportes. Erros no esporte acabam sendo uma boa oportunidade para a população em geral discutir, portanto pensar os erros da própria sociedade e fazê-lo em paz. Não faça guerra, faça esporte é uma das melhores ferramentas de paz existentes. Garantido, bons resultados, em todos sentidos.

Não sei se sou contra ou a favor do árbitro de vídeo e outras tecnologias de precisão que diminuem o fator humano no resultado dos esportes. Aprendemos mais com nossos erros que com nossos acertos.
O charme secular do esporte está numa certa dose de imprevisibilidade.

Dinheiro pesado dos patrocínios está criando problemas para vários esportes, inclusive a F1. Para tudo tem limite.

Richard Denton, professor of marketing at Johan Cruyff Institute, takes an in-depth look at the Covid-19’s impact on the sport sponsorship industry and reviews past crises, such as the 2008 financial crisis or the 2001 terrorist attack in New York

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Covid é a...

Final de tarde era sagrado igreja e supermercado, nesta ordem. Ela saia ainda cedo de casa para preparar a igreja para a missa do meio dia. Assistia a missa, terminava os serviços, comia um lanche segundo dizia, de lá ia direto para o supermercado e só no fim da tarde voltava para casa com as compras, sempre o sorriso de mais que dever cumprido. O hábito não mudou com as restrições da pandemia. A igreja estava fechada para os fiéis, mas era necessário mantê-la cuidada, como sempre fizera nestes muito anos. Quando os filhos, um casal, ainda iam à missa viam a mãe cabeça abaixada nas primeiras filas a rezar e cantar. Um destes dias em meio ao sermão o irmão olhou em volta e viu que a limpeza não era tão perfeita como a que a mãe fazia questão de deixar em casa, mas ali era muita coisa para limpar, uma igreja antiga, cheia de entranças, capelas, decorações, santos, altar..., é compreensível.
Sábado de noite chuvosa e fria o irmão perguntou para a irmã se queria consertar o barulho do painel do carro dela domingo pela manhã quando continuaria o tempo ruim. Logo após a partida da mãe acordaram, tomaram café, ele pegou a velha caixa de ferramentas do pai que ainda dormia, e desceram para a garagem. Desde que mudaram para aquele condomínio a vaga dos carros da família sempre ficou no fundo, num lugar mal iluminado, que os filhos nunca gostaram e sempre pediram para ir nas reuniões de condomínio, mas a mãe, enérgica, era quem descia para as discussões. "Falou sobre as vagas? Conseguiu melhores?" perguntavam os filhos e silenciava o pai gordo que do sofá não saía para não perder seu futebol, e as cervejinhas, que se diga. A resposta sempre foi a mesma; que a reunião tinha tratado de muita coisa, que como sempre houve discussão e que era um ato de boa-fé não se preocupar com seus próprios incômodos quando estes fossem em benefício do outro. Assunto encerrado.
Desceram juntos, caminharam em silêncio até o carro da irmã ouvindo gemidos. Olharam um para o outro rindo, ela colocou o dedo nos lábios pedindo a ele silêncio e seguiram em frente cuidando para não fazer barulho ao andar. Abriram as portas do carro olhando um para o outro com vontade de rir, ele lentamente abriu a caixa de ferramentas, tirou a chave de fenda. "Não liga os faróis para não perceberam que tem gente na garagem. Vamos ver no que dá", disse a irmã. Mesmo com pouca luz começou a apertar parafusos e sua expressão foi mudando, ela se divertindo dos gemidos da mulher que dentro de algum carro. Começava o orgasmo. O som vinha baixinho e abafado, provavelmente por janelas fechadas, mas não havia engano, até porque cada vez menos controlado, cada vez mais gozado. "Eu conheço esta voz", disse o irmão. A irmã, controlando-se para não rir disse "é uma gata, não é gente". "Eu conheço esta voz", repetiu ele. "Fica quieto". E depois de outros barulhos, provavelmente uma batida forte de pé no painel ou na porta, no outro carro o silêncio se fez. Os irmãos ficaram imóveis esperando para ver quem e de onde sairia o casal. Ouviram as portas abrirem, um breve demorado silêncio, fecharem, o motor foi ligado, a frente do carro apontando e saindo da vaga. "Eu conheço este carro. Fecha a porta e vamos atrás" e a irmã fechou, já não tão divertida, nem tão excitada e curiosa. Parados e com pescoço esticado sobre o painel deixaram que o casal saísse com calma da garagem para não serem vistos. Não tinham que seguir de perto, nem precisavam, conheciam o carro e sabiam de quem era. "O padre não está aproveitando a pandemia para reformar a igreja?" perguntou a irmã.
A noite o jantar foi num silêncio sepulcral. O pai não estranhou mais entretido com o jogo correndo na TV. De qualquer forma preferiu não perguntar nada, como sempre. Vai que sai um gol. A mãe, sorridente, também não. "Deve ser coisa de jovens". Na hora de recolher os pratos contou que o coroinha tinha pegado a gripe e emendou "Espero que não tenha contaminado ninguém". Passados uns dias e a cara feia de seus filhos que não passava foi explicada com um "na próxima reunião de condomínio você vai trocar nossas vagas" afirmativo e definitivo. No dia seguinte a mãe mandou uma mensagem que o padre tinha pegado a gripe e que ela ficaria uns dias na igreja para não deixa-la abandonada. Na loja de móveis o pai soube, para seu espanto, que o padre tinha comprado a cama de casal mais cara e fugido com uma mulher. Almoço na mesa, TV desligada, contou a novidade. Os filhos riram. "O padre vai morrer de corona!" ironizou o garoto. 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Paulo Salim Maluf, o herói da bicicleta

Paulo Salim Maluf, o herói de muitos ciclistas, é o perfeito candidato das bicicletas nas próximas eleições. Vejam as razões: Foi quem criou o primeiro órgão de promoção do uso da bicicleta em São Paulo, o Pró Ciclista, que nos anos de existência fez um bom trabalho, iniciou o sistema cicloviário da cidade, colocou leis no CTB, atormentou justamente a CET de então, pressionou Brasília... Maluf é o responsável pela construção do Minhocão, aquele viaduto sobre a av. São João que hoje é dos lugares mais agradáveis para pedalar e caminhar e pelo qual há uma luta popular para que seja transformado num parque suspenso nos moldes do High Line de NY. Fez e concluiu uma série de obras usando jeitinhos para contornar os problemas, alguns legais, e adversários, o que talvez tenha servido de exemplo para implantar as ciclo faixas que fazem a maior parte dos 400 km do sistema cicloviário implantado nos tempos de Haddad. Uma de suas fotos mais famosas foi tirada nos gramados de sua mansão dos jardins (México com Costa Rica) com Lula, os dois sorrindo, a alma de Haddad candidato à Presidência. Tido como populista de direita, colocado no posto de Governador do Estado pela ditadura militar, apoiou o PT, ao mesmo tempo não criaria problema com os bolsonaristas. Se Maluf, inteligente oportunista de primeira hora, fez o que fez pelo automóvel, a bola da vez daqueles tempos, imaginem o que não faria pela bicicleta, a bola da vez destes tempos atuais. Teria muitos votos, afinal para muitos não interessa como a partir do momento que a bicicleta seja privilegiada.

Não votaria, não votei, sinto profundamente que tenham demorado tanto para julga-lo, que nunca tenham recuperado o dinheiro, que ele só esteja em prisão domiciliar. Aliás, não votei e não voto em populista dito do bem ou mal. E dói muito saber que todos os julgados culpados aqui no Brasil ainda tenham o mesmo destino de Maluf. Todos. 

Por que colocar Maluf aqui? Porque por puro acidente comecei escrever o que está abaixo, parei para relaxar e rever o texto, saí para pedalar e acabei passando no Jardim Guedala, lugar agradabilíssimo para pedalar. Quem esteve lá sabe sobre o que falo.

Bem, de volta ao texto original: 

"Espero que um dia isto aconteça aqui (em São Paulo)" digitou referindo se ao que será feito em Paris, NY e em outras capitais do mundo para auxiliar o retorno à normalidade e controle da pandemia: incentivo maior ainda ao uso da bicicleta. Sim, eu, Arturo, também espero, mas que se faça bem feito, e aí é que está o nosso nó cego, aí é que eu duvido muito. Começa pelo emaranhado monstro que perdeu até o fio da meada que são nossas leis e termina por confundir técnicas de trânsito e transporte, passando pela capacidade. Vai pela tendência de muita boa gente de olhar tudo com os binóculos da ideologia. Vai pelo poder que alguns tem de fazer o que bem entendem e até melar o que foi bem feito. Vai pela Justiça entulhada de processos que olha o que não entende e dá o parecer que bem entende. Vai por não entender que lá é lá e aqui é aqui, e há uma monstruosa diferença. E assim vai...

Como estamos divididos em dois, como bons idiotas que somos, não interessa quem vá fazer, se é alguém que já fez bem ou mal feito, se já meteu a mão na botica, se jogou dinheiro fora, se implantou com erros grosseiros, se tem uma capivara enorme (processos na Justiça). A força maior é "se for fazer é quem se vai apoiar". O outro é o outro. "Tem que fazer! A bicicleta é a salvação", batem o pé. O outro lado da questão, mesmo que seja da própria questão, não interessa. 

Erundina teve a dignidade de reconhecer que enterrar (literalmente) o projeto do bulevar Juscelino Kubitschek foi uma burrice sem tamanho, mas na época foi ação ideológica. Parar o bulevar av. Paulista, como foi feito em governos de direita e grande e estranhas obras também foi estúpido. E aí vamos. Foda-se a cidade, fodam-se os cidadãos, foda-se a racionalidade, o que via de regra funciona é o "vale é eu gosto ou não gosto". É deprimente, mas os chiliques de Bolsonaro são bem brasileiros, um pouco fora da curva para dizer o mínimo, mas tipicamente brasileiros. "Quem manda sou eu" ou "Sabe com quem está falando?" é nossa deprimente sina. 

Bicicleta não é a salvação, é mais uma ferramenta, neste momento uma valiosíssima ferramenta – se for usada com inteligência e honestidade, algo que nós, brasileiros, estamos cientes que não é nosso forte. E, provocando: "ciclistas não são messias", o que tem muitos que gostariam ser. 

Estou de saco cheio de reescrever sempre a mesma coisa, mas infelizmente nem mesmo a pandemia nos faz parar e olhar para futuro de outra maneira. “Tem que fazer” (de qualquer jeito) para mim não é a resposta. "A Janette Sadik Khan veio e gostou!" Veio e gostou do que? Mostraram para ela o que? Ela falou com quem? Ela fala português e teve tempo de conversar com todos, inclusive os não ciclistas, como fez em NY? Pedalou no Jardim Guedala? Teve acesso as contas? Falou para que plateia?
Parei de escrever e fui pedalar. Acabei passando pelo Jardim Guedala, que é um dos absurdos dos 400 km do Haddad \ Tatto. Não passa mosca, está no meio de um dos mais ricos bairros de São Paulo e do Brasil, pura ‘pata negra’, aquele presunto dos ricos e famosos apelidados de “coxinhas” pelos ciclistas fanáticos e ideológicos. Ciclo faixa “Pata Negra”, que delícia! 
Jardim Guedala não tem movimento, não tem gente nas ruas, não é rota para nada, não liga nada a lugar nenhum. As casas são imensas, lindas, ajardinadas, as ruas arborizadas, cheio de seguranças. Tem um punhado que caminha no sobe desce da Praça Professor José de Melo Pimenta, um avenidão com grande canteiro central gramado, sendo observados de perto por seus seguranças particulares e só. Depois que este pessoal volta para casa não tem ninguém nas ruas, é o paraíso para pedalar livre. Não faz o menor sentido ter ciclo faixa ali, muito menos gastar dinheiro público. As ruas são largas, calmas, sem trânsito, com pessoas caminhando no meio da rua. Não faz nenhum sentido para quem possa ter a mais remota noção do que é responsabilidade social ou sensatez do uso da bicicleta. A cidade tem infinitas outras prioridades. É um dos exemplos máximos do que NÃO deveria ter sido feito e com isto concordaram até ciclistas petistas que apoiam Haddad e o PT. 

Acredito que aquilo não foi e não é dinheiro jogado no lixo, é outra coisa qualquer. Duvido que o dinheiro tenha ido para o lixo. 
Tendo dito isto e despejado meu profundo desgosto com o que foi feito e a forma como foi feito, depois de ter pedalado lá agora tenho a dizer: Não acredito! reasfaltaram, repintaram, e colocaram novas taxas deixando tudo perfeito. 


Moral da história: eu sou um imbecil.


Se conselho fosse bom seria vendido, mas deixo aqui o meu grátis. Apaguei-os. Quem precisa de conselho de imbecil? Desculpem, mas saio de cena. Deixem que façam o que quiserem, que façam o que bem entender com dinheiro público. Somos ricos, sobra dinheiro, são todos competentes e atendem a voz do povo. Fui 

Um dos textos que publiquei menos lido foi o Ouvir todos, inclusive os que parecem idiotas . Faz todo sentido

Mais fotos do Jardim Guedala









segunda-feira, 4 de maio de 2020

Mudanças familiares

Os encontros de família são um misto de prazer com uma pitada de tensão que varia conforme as posições de cada um, sempre família, eternamente com diferenças, não raro um conflituoso que por familiar se tem que conviver sorrindo por regra, levantando a voz por laços familiares. Um prazer em ver todo mundo que sempre gostou, ou não, familiares, amigos da família, primos próximos que via pouco, mas quando se encontram fluí boa conversa atualizando vidas distantes, ou não, que um dia ligadas umbilicalmente. 
A família cultivou um raro prazer pela comida sempre impecável, hábito cultivado como uma disputa sadia e deliciosa. Deixando para trás o espartano de vidas que lutaram muito para sobreviver resgatam as delícias dos antepassados que vieram do Velho Continente, como o que mais era novidade gastronômica naqueles tempos. A troca honesta de receitas definia quem era realmente íntima e de confiança. Aos outros as receitas sempre vinham incompletas ou faltando alguma sutileza, típico que quem sabe das magias do sabor.
União mesmo de todos quando os pratos eram distribuídos com raro cuidado na grande mesa e o ataque familiar autorizado. O momento do abre alas, dos que pegam o prato na não ficam na borda da mesa e, como se para irritar todos, não param a conversa afiada nem se servem e saem da frente. Há os que não largam nem seus copos nem seus lugares e ainda pedem aos de passagem que os sirva sem qualquer agradecimento, só com seus direitos pretensamente adquiridos. É a mais pura integração que dá sabor a pergunta se estão todos lá para se ver e conviver ou para comer e degustar. Cada um com seu prato e seu carácter. Encontros, almoços, jantares e até lanches inesquecíveis por um ou outro fato peculiar e principalmente pelo que foi colocado a mesa não só as conversas por trás dos pratos, mas os sabores delicados. 

Era 1982 e causava muita estranheza que alguém com aquele histórico de família, naquele nível social, chegasse a estes encontros sociais, de família ou não, pedalando, bem vestido e feliz. Os comprimentos e abraços no ciclista eram carinhosos, com sorrisos formais, e cercados de uma pitada de ironia na eterna pergunta "e a bicicleta..." Para ele, ciclista, por um lado divertida, por outro cansativa, parte da vida.

Sentados nas poltronas levemente iluminadas por abajures conversavam os primos trivialidades quando com copo numa mão e outra apoiando no espaldar da poltrona o tio parou e ficou ouvindo a conversa sobre trabalho, vida social, amigos comuns. Numa típica provocação de geração mais velha dentro de qualquer família o tio cortou as falas apertando suavemente o ombro do filho e disse olhando o sobrinho com sorriso provocativo "E como fica no trabalho quando você chega de bicicleta? O que o pessoal acha?" Sabendo ser o pai girou um pouco a cabeça como que querendo olhar a mão carinhosa, primeiro riu e depois embarcou na pergunta maldosa. Vozes sobem, alguém se levanta do sofá a frente e fala ainda mais alto "chegou a sobremesa".
1992, A mesma família, os mesmos primos, os mesmos prazeres, então com a bicicleta em plena moda, quando as palavras mágicas mountain bike estavam jogadas em rádios, TVs, jornais, mais um objeto de desejo. Os mesmos dois primos desenrolam suas notícias colocando suas vidas em dia. Alguém vem e senta quebrando a linha da conversa mole. Aproveita a oportunidade o primo, o mesmo primo que alguns anos ria das bicicletas, e pergunta na maior boa fé "Tô querendo comprar uma bicicleta, o que você recomenda". A gargalhada irresistível vinda das profundezas, assim como a cara de desaponto do primo, ecoou pela casa. Terminada a situação incomoda, que demorou um bom tempo e chamou a atenção de todos, o ciclista tomou folego, pediu desculpas pelo inevitável e fez perguntas sobre para que queria a bicicleta.

Não é sobre bicicletas, é sobre a cidade, sobre as vidas.

Morreu hoje, 04 de Maio de 2020, Aldir Blanc. 
Me faz lembrar quem eu fui e me é dolorido, mesmo estando feliz com quem eu sou.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Disney das fantasias demite na real

A Disney demitiu todos funcionários de seu parque de Orlando. O que importa? É uma empresa como qualquer outra! Definitivamente não. O grupo Disney é símbolo muito forte de um desejo coletivo e não deve ser traduzido simploriamente como um produto do american way, mas como uma fábrica de fantasias de esperanças que resumem de uma maneira infantil, mas nada inocente, o desejo coletivo de boa parte da população mundial que buscam que suas próprias estórias, ou histórias, como queira, sempre cheguem a um final feliz.

Recebi a notícia como uma bomba porque imaginei que os parques da Disney seriam área intocável por sua simbologia. Em qualquer situação de guerra é necessário manter o moral da tropa.
E minha cabeça ficou dando voltas com esta história.

Meu vizinho ponderou que os funcionários dos parques trabalhavam em regime praticamente escravo, num trabalho muito duro, disciplinado, onde não se admitem falhas. Disney é americana e Orlando está nos Estados Unidos. A ideia do que é trabalho é muito diferente da que temos aqui no Brasil. Estados Unidos tem um sentido coletividade, de união, expresso na forma de trabalhar, aliás linha motriz dos filmes da Disney. Unidos venceremos. As leis trabalhistas são outras e lá ou aceita as condições de trabalho ou não tem trabalho, ou trabalha direito ou é demitido, ou cumpre corretamente o que foi acordado ou está fora e ponto final. As leis funcionam para todos e empresas e empregados têm que respeita-las, ponto final. Aliás, o trabalho duro e pesado de lá não é muito diferente de trabalhar num restaurante ou padaria aqui no Brasil, por exemplo. Com uma diferença: lá existe uma expressão, “deixar cair o lápis”, ou seja, o sujeito trabalha de 7 às 17 horas, por exemplo, e as 17:00 h em ponto larga o lápis / caneta / ferramenta e vai para casa ver a família, bem diferente daqui e nossas horas extras pagas ou não.

Meu tio Zico teve a raríssima oportunidade de fazer uma visita aos "porões", o "sub mundo" da Disney de Orlando e ficou maravilhado com o que viu. Taí uma visita que adoraria fazer e ouvi Zico contando sua visita com muita inveja. Não me lembro dele ter falado em escravos ou escravagismo, mas lembro da discrição do profissionalismo e da entrega de todos ao trabalho, o que faz toda diferença; e como faz.

Estive no parque Disney de Orlando e fiquei impressionadíssimo com a organização. Tudo funciona com uma perfeição invejável. A logística de fechamento do parque é uma aula magna sobre mobilidade. Fica se lá o dia todo e não se vê um funcionário com cara de sofrimento, infeliz, muito menos com cara de escravo. Eu sei, eu sei, coisa de contrato de trabalho; todos têm que sorrir ou minimamente ser simpáticos, eficientes. Não é assim na imensa maioria dos negócios de todo o mundo?

O colapso da Disney, mesmo que temporário, quebra um espelho de magias por que escancara que atrás de toda esperança pré coronavírus Covid 19 havia algum problema, para dizer o mínimo. Não poderia ser diferente, mas no caso da Disney a longa e cuidadosa construção da imagem trouxe distorções da realidade. Demitir funcionários tão específicos e treinados não deve ter sido uma decisão fácil nem agradável. Acontecer aqui no Brasil a demissão de toda uma orquestra sinfônica é duro de aceitar, mas demitir na Disney? Nossa! Onde chegamos.

Qualquer sonho se constrói com trabalho. Quanto mais trabalho, mais resultado. É milenar, o Budismo diz que não há liberdade sem disciplina. Quanto maior o bem social, maior é o trabalho por trás do resultado. Prazer e trabalho sempre estiveram intimamente ligados. O sonho vendido pela Disney é resultado de trabalho duro, muito duro, mais, é para quem ama o que faz, mas ama para valer.

O coronavírus Covid 19 e a parada do planeta está tirando debaixo do tapete um monte de situações. Depois dele como iremos conseguimos manter a separação abissal que existia entre o prazer e o trabalho? É, não faz muito uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa. Hoje até temos a cada dia mais e mais gente trabalhando no que gosta, mesmo assim é uma minoria. A maioria trabalha para poder comprar algo ou encher a cara com os amigos no churrasquinho. Fato é que na história do Brasil prazer era prazer, trabalho era trabalho, e quem confundisse as coisas, principalmente neste Brasil, que fosse se tratar. Terá mudado?

O sonho não acabou, nem pode acabar. A reconstrução dos sonhos vai demandar trabalho e será isto que dará valor ao sonho coletivo, e o meu é que seja coletivo, equidade. O que se tem que tirar desta pandemia é que sonhos não são ilusões, muito menos delírios.

A Disney vai voltar com todos seus simbolismos. Não só ela, mas todos os construtores de boas sensações, mesmo que momentâneas. A humanidade só continuará seu caminho, talvez para melhor se em cada criança for plantado um sonho, mas que sejam sonhos bons, realistas, factíveis e respeitosos com este planeta.

 


terça-feira, 28 de abril de 2020

Modernidade liquida, comorbidade certa


Velho, cartesiano, imerso e amante de leituras técnicas e científicas, consciente do alto risco de contaminação entrou e circulou pelo supermercado sem máscara ou outros cuidados. Poderia estar ali, naquele mesmo supermercado onde sempre pegou delícias e comodidades para sua vida, a saída para levar para casa a solução definitiva para seu pulmão exausto da longa maratona de três maços de cigarros diários. Agora é esperar. 

Ao lado do computador mais uma loteria para ser conferida. O papel branco com os números da sorte e códigos traz um jogo de imagens dos desejos do que poderia ser e do que seria bom, mas a leitura do jornal e as notícias na TV dizem que nestes tempos de guerra não mais será, não agora. Será? "O que se faz quando o que será tem grande possibilidade que não pode mais ser?" se pergunta sussurrando e sua companheira de tantos anos médios ouve lá na sala e pergunta em meio ao som da novela "Falou o que?". Não responde, olha para a loteria, arrasta o mouse para uma nova guia e pára em pensamentos, informações, preocupações, na vida, sua, de seus filhos e netos. O melhor dos presentes sonhados por tantos anos num único papel branco cai no vazio, passa como a sombra de nuvens que trazem a esperança para a lavoura, só esperança. A loteria da vida é a única certeza. Na TV que a mulher vê entram os anúncios e a chamada das notícias do jornal noturno que conta doentes e mortos. Não quer ouvir, mas ouve. Tira a flecha da nova guia e volta para o jogo de cartas. Sonhos são sonhos. Vão os dedos ficam os anéis. Qual é o valor dos sonhos? Que sonhos tem valor? Quem somos em nossos sonhos? Ele olha os números, respira fundo e seus medos clicam para fechar o computador. "Amanha eu vejo".  

"O sujeito tem algum valor por um tempo de vida depois é descartado" diz o homem de 65 anos sentado numa velha cadeira surrada de ferro e tiras de plástico colocada na calçada à sombra que evidencia a pintura gasta e descascando da parede da casa. Dá uma pausa na conversa com seu ex patrão que veste calça moletom desbotada e camisa social surrada parcialmente abotoada naquele calor seco e escaldante de fim de tarde. Parado no meio da rua, olhar perdido para um lado e para o outro, mãos nos bolsos, sem saber se fica para jogar conversa fora com aquele velho amigo que fala mole e olhos quase fechando na cadeira ou segue para o boteco. Os dias de suor no trabalho passaram sem deixar explicação aos dois e a todos de sua geração porque não servem mais. "Bons tempos aqueles".

A fortuna foi torrada no vício sego das comodidades as quais se agarrou desde sua infância sem levar em consideração o futuro. O olhar para as contas que não param de vencer preocupa, mas eterna a falsa esperança que erodiu a verdade ainda bate forte, vale mais que a realidade, como que se levando em frente tudo para um precipício consciente, inevitável; mesmo que inaceitável, inclusive para o horizonte dos filhos ainda estudantes. "Vai se ajeitar" repete em voz quase inaudível, sabendo que não irá. Os bons tempos não voltam mais. "Por favor um maço de Hollywood" e pega a carteira de couro magra e puida, abre, tira os trocados. "Alguma coisa mais?"; sinaliza não com a cabeça, se despede com o mesmo sorriso de sempre e toma o caminho de volta para casa. A velha empregada que nunca para de trabalhar logo vai servir o almoço. Esta é a hora do dia para sentar na poltrona puída e com cigarro aceso na mão amarela esperar. A janela está fechada, a fumaça opaca o céu azul, o ar fica pesado, o silêncio toma conta do ambiente, daqui a pouco chegam todos, sentam à mesa e almoçam olhando os pratos. "Me passa a água." Terminam, se levantam, vão cada um para seu canto, ele volta para a poltrona, acende outro cigarro e espera a empregada e o café. Foi assim com seu avô, com seu pai, com ele. Não será com os filhos, não pode, mas quem pode afirmar?

Na aula o professor explica "Vidro é um líquido de alta viscosidade". O distraído aluno levanta a cabeça, entende alta densidade, e porta afora passa a conversar com amigos e meninas sobre a "altíssima densidade do vidro". Não deixa de ser verdade, pelo menos num sentido figurado. Faz todo sentido suas notas de português. Quem conta um conto aumenta um ponto.

Modernidade líquida. Modernidade líquida?
Com certeza a modernidade liquida, sem acento nem assento.
Fato é que a comodidade líquida não escorreu pelo ralo. Tão pouco a verdade.

"É bom tudo isto. Assim acabam todas as classes sociais" dispara a adolescente que se aprofunda nos estudos para o vestibular. Doce ilusão! Vai nessa menina! O mundo gira e a Lusitânia roda.

Roda, roda, roda... um minuto para nossos comerciais
alô alô Terezinha, você está na Buzina do Chacrinha
Vocês querem bacalhau? Vocês querem banana?
Roda... roda...

sábado, 25 de abril de 2020

Pedalar sem máscara e manter isolamento

Creio que foi a Áustria que apresentou um plano de saída do isolamento da pandemia tendo como um dos pontos básicos a bicicleta como modo de transporte. Parece que na Alemanha as bicicletas continuam livres. Milão, na Itália, está fazendo um projeto para aproveitar a oportunidade e reorganizar a cidade tendo como base o transporte público, que já é forte, e melhorar a vida de pedestres e ciclistas. Por trás da ideia está Janette Sadik-Khan, a mesma que em NY teve importância crucial no desenvolvimento do sistema cicloviário. Lembrando: Janette fez mais de duas mil reuniões públicas (todas em agenda oficial) com a população afetada antes de dar passos. 

Mais uma vez a bicicleta é peça importante na reconstrução social. Parafraseando um dito da época da virada do século XIX para o XX, "ao socialismo se vai de bicicleta" hoje se pode afirmar que "a reconstrução se faz com bicicleta". Toda vez na história que o sistema de transporte entrou em colapso ou está muito precário a bicicleta se apresenta como uma opção mais que inteligente. Viva a bicicleta! 

A opção Europeia e agora da OMS pela população pedalar mostra que 'se bem usada', 'de maneira civilizada', a bicicleta não coloca em risco o isolamento, ao contrário de transporte de massa ou mesmo de pedestres aglomerados. No final das contas tudo é questão de como os malditos perdigotos ficam no ar.

Eu tenho pedalado e sei que estou fazendo minha parte no isolamento, mas fico assustadíssimo com o que o pessoal que pedala tem feito. Pedalar próximo do outro provavelmente aumenta o risco de contaminar-se. Tem muita gente pedalando no vácuo do outro, o que não dá tempo para os perdigotos se dispersarem. "Estou de máscara" ajuda, mas atenção porque elas não são inseticida de vírus. Uma pesquisa científica realizada no Japão usa uma câmera de precisão e luzes laser para ver o que acontece com os perdigotos quando as pessoas respiram, espiram ou tossem. Meu caro amigo Álvaro, de formação médica, me explicou que a experiência é válida para ambientes fechados. E completou que a contaminação vai depender da carga viral necessária para o sujeito ficar infectado. Não é uma única gota que vai contaminar, mas um determinado número, grande, de gotas.

Eu não estou usando máscara na rua, mas estou fazendo malabarismos para ficar longe de outras pessoas. Caminhos alternativos não raro são bem mais acidentados, o que é bom para o treinamento.
Sempre tenho uma máscara no bolso que uso para entrar em ambientes fechados.

Os perdigotos ficam, mas parte do texto se perdeu. Vamos lá; voltando...

Faz um bom tempo perguntei a Rosilda Veríssimo, Professora (acho que ela é Doutora e chefe de cadeira) da Faculdade de Enfermagem da UFSC, sobre usar máscaras no meio do trânsito, então no máximo da moda, e resposta dela foi a mesma que os médicos estão dando agora nesta pandemia: tem regras para usar corretamente, tem que trocar de tempo em tempo, máximo 2 horas, e se não for absolutamente necessário é bom não usar por que mascaras retêm as "coisa ruim" (simplória explicação minha) do corpo de quem está usando, o que não é nada bom para o usuário. 
Hoje tomei coragem e fui para estrada, Anhanguera, e fiz deliciosos 58 km, muito tranquilos. Esperava encontrar uma estrada muito mais vazia, mas foi uma bela pedalada de exatas 3 horas com minha bicicleta de poste. Cheguei dolorido, mas sou outro. 

A verdade é que tenho vergonha de sair na rua. Acredito que o isolamento dá bons resultados. Saio meio que escondido, pedalo longe dos outros, em caminhos alternativos. Não quero contaminar outros, mas quero respirar livre, para isto basta ter senso de coletividade.