Ouvi um apito e o ciclista passou rápido por mim com apito na boca. Me deu arrepios. Faz um bom tempo em NYC surgiu a moda de ciclista pedalar usando apito e apitando para tudo quanto era lado. Não demorou muito começou a dar problemas, as autoridades começaram a investigar e o resultado acabou sendo publicado inclusive numa das revistas especializadas para ciclistas, talvez a Bicycling, não me lembro ao certo. O artigo extenso mostrava dados e alertava para que não se pedalasse de apito na boca, o que inclusive tinha causado morte de ciclista.
Eu e o ciclista com apito na boca paramos no sinal, fui conversar com ele, contei sobre o alerta publicado em revista americana. Ele ouviu até que o sinal se abriu. Ai o ciclista cruzou a avenida soltando impropérios e mandando eu calar a boca porque o apito tinha salvado sua vida inúmeras vezes e eu não fazia ideia do que estava falando.
O trânsito brasileiro é um dos mais violentos do planeta, aliás, melhor, o Brasil é bem disfuncional muito por conta que todo brasileiro sabe o que faz, tem sua verdade inabalável e o que faz sempre dá certo. Pesquisas, dados, informações, fatos, nada disto interessa, tudo isto são besteiras, coisa de ignorantes que não sabem o que falam, a única verdade é a que a pessoa tem para si própria. "EU!", o resto está errado. Ou, tem o seguir a boiada; os outros todos estão errados.
Aproveitando a ocasião, o Estadão publicou uma série de três reportagens "O Brasil que dá certo", sobre a história da Embrapa, do ITA \ Embraer, e do Porto Digital de Recife. Vale a pena procurar e ler. Funcionaram exatamente porque tiveram o cuidado de acreditar em qualidade, ouvindo outros, buscando informações, procurando como se faz correto e como minimizar a possibilidade de erros.
Daqui uns dias vamos para os votos. Como será tua decisão em quem votar, pela propaganda da TV, pelas bandeirolas que enchem nossas ruas, pelos santinhos ou pela cara de honesto dos candidatos?
Neste contexto do "eu estou absolutamente correto, todos vocês estão errados", se pode colocar mais um fator interessante: "Gostei de sua cara", uma ótima forma de se dar um 'veredito' sobre alguém desconhecido, no caso candidatos ao poder legislativo ou executivo que farão o seu futuro.
Ainda neste mesmo contexto entra o "gostei deste número", aquele que está sendo divulgado por ai em bandeirolas, santinhos, publicidades, propagandas obrigatórias, etc... Será o número que decidirá sua vida, jogo do bicho total. Aposto que vai dar zebra.
Fato é que eu me pergunto se deveria ter tentado alertar o ciclista com apito na boca. Ou devia deixar que ele corresse um risco? O risco dele é também o aumento de risco para todos.
Nas minhas dúvidas sobre minha atitude com o ciclista vou me perguntando se um candidato passar sorridente tocando o apito quantos cidadãos iriam atrás e votariam nele. Já o outro, aquele que avisa, sempre será o responsável por todos males.
No final das contas, é da natureza nossa que "eu sei o que estou fazendo, o outro só diz besteiras"
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