Poucas vezes em minha vida um texto pegou tão pesado quanto este de Leandro Karnal sobre a situação da educação brasileira. Sou professor, prefiro dizer que sou educador. Como professor dei aulas em colégios estaduais por um curto período, e em particular por alguns anos, isto entre 1978 e 1984, época que a educação brasileira já apresentava problemas, mas nada na escala que se tem hoje.
A educação no Brasil entrou em colapso, e não só a educação escolar, mas a social também. As formalidades mínimas para um decente convívio social, coletivo, estão num limbo de "você sabe com quem está falando", nós ou eles, é meu direito, pandemia de celulares, selfies e redes sociais "veja meu sorriso e como sou rico, lindo, e gostoso". Ok, desculpem, ia esquecendo o politicamente correto que obriga a uma correção "como sou rica, linda e gostosa". A distorção geral do que é conhecimento e saber é um horror.
Karnal pública um texto no Estadão, este que consegui copiar e está aqui abaixo, que é com certeza um Manifesto pela Educação do Brasil. Pedi nos comentários do Estadão que seja liberado por Karnal e o Estadão em Word ou PDF para ser divulgado para público muito além dos assinantes. Com o dito palavrão e tudo mais.
É deprimente ver o que a educação escolar se transformou. Tem que mudar. Ou melhora ou estamos muitíssimo mais fodidos que estamos agora.
Salvem a educação. Salvem a escola. Salvem os professores. Salvem o Brasil.
E se não entenderam, salve se quem puder, o que em qualquer hipótese não acontecerá.
Sem educação, sem professores, você e os seus simplesmente não têm qualquer futuro, não importa quem ou o que você seja. Se você acha que estou errado..., bom, aí... fazer o que? Meu caro, a história não mente.
Leandro Karnal, muito muito obrigado.
Estadão
Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades
Opinião
Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola - é da sociedade
Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte
Por
20/09/2026 | 05h30
Sócrates não cobrava. Os sofistas, sim. O debate sobre o preço de ensinar é tão antigo quanto a filosofia ocidental, e parece que nunca o resolvemos. No Brasil de 2026, entretanto, o problema mudou de foco.
Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.
Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.
Publicidade
A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.
Sala de aula vazia na Escola Estadual Tacísio Alvees Lobo (Eetal), na Feguesia do Ó, em São Paulo, em foto de janeiro de 2001. Foto: Celso Junior/Estadão
Opinião por Leandro Karnal
É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros
Encontrou algum erro?
Tudo Sobre
45 online
Karnal, parabéns! Sua análise toca no âmago da questão. Apesar de já não ser mais jovem, ainda me recordo dos meus professores com afeto, e com o passar dos anos, apercebi-me de suas limitações, afinal todos temos no exercício de nossas profissões e tarefas, e de suas magnanimidades. Infelizmente, fico sempre com a sensação de que, apesar dos "estímulos" do governos, de que há um profundo interesse dos deles em manterem a população no desconhecimento e na ignorância.
...
Olhando para a realidade sem filtros, sinto que a sala de aula virou um doloroso teste de resistência. Exigimos que um professor exausto dispute a atenção de mentes hiperestimuladas, pagando um salário que ridiculariza o ato de ensinar. Mas o erro é culpar a tecnologia ou demonizar o jovem. Para quem enfrenta a precarização, a tela oferece uma rota real de fuga, ao passo que o diploma virou uma promessa vazia. Trata-se do colapso de um pacto onde a atenção virou moeda e o esforço paciente perdeu valor. O influenciador não substituiu o mestre por carisma, mas porque a sociedade mercantilizou o imediatismo e abandonou a base do saber. Se a escola não ressignificar seu papel diante dessa economia do engajamento, restará apenas a ilusão dos tutoriais vazios. Taxar a busca dos jovens pela monetização digital como uma fantasia revela um ponto cego diante da precarização do mercado de trabalho tradicional. Para a periferia, a tela representa uma estratégia de sobrevivência racional e imediata, uma vez que a promessa de ascensão social por meio do diploma universitário perdeu eficácia prática. Em outras palavras, a crise da educação não decorre de uma hipnose tecnológica da juventude, mas do colapso de um pacto social onde a escola permaneceu engessada, o diploma perdeu sua força de ascensão e a tela se tornou a única rota palpável de sobrevivência material e validação em um mundo dominado pela pressa.
...
Em relação à sociedade, eu vejo todo dia porque trabalho como secretário de escola. Todo santo dia várias mães e pais ficam indo na escola retirar o filho ou filha mais cedo sempre alegando os mais variados motivos, só que a maioria fala médico e dentista, e sabemos que vários é mentira. É um desrespeito enorme com a educação. E a cada buscada interrompe a aula e atrapalha todos: o professor, os alunos e o próprio aluno que está indo embora. E se questionamos esses pais, eles acham ruim ainda, acham que estão certos. Além disso, vários alunos inventando dor para ir embora, com o detalhe de a maioria ser tudo depois do recreio, e pior: os pais ainda buscam, por isso fica mal acostumado e vira meio de vida. E mais uma situação: hoje se o professor chama a atenção do aluno, a mãe ou o pai vai lá querer falar com a diretoria para reclamar do professor. A situação tá bem difícil. Isso também foi um desabafo da minha parte. O buraco está bem fundo mesmo. A sociedade não valoriza a educação, essa é a realidade.
...
A PND do ano passado teve um milhão e setenta mil inscritos, ou seja, há muito licenciado em prontidão. Ao contrário do que dizem, há muito, mas muito mais diplomados do que o que pode ser absorvido pela necessidade. Caso se considere a tendência de redução do crescimento populacional, isso se acentua mais. Além disso, o professor não é mais, nunca foi, o único que pode ensinar hoje. Recomendo o Mariano Fernandez Enguita, intelectual espanhol muito reconhecido: "hoje não nada que se possa aprender na escola que não possa ser aprendido fora dela". As coisas mudam, gente.
...
Meus parabéns caro Professor Karnal. É espantoso, à Luz da tragédia que a sociedade brasileira passa com o desmonte da estrutura republicana e democrática, na esteria de um projeto (Brasil República de fato) que nunca se realizou totalmente, vermos um sem número de bandeirolas nas cidades brasileiras estampando políticos e aspirantes aos cargos da atual eleição como se tudo estivesse um maravilhoso espetáculo. Tenho muita convicção de que o riso dos políticos nestas fotos é de nós e não para nós. Estamos assistindo um circo de horrores na gestão da coisa pública em todos os níveis e o seu diagnóstico é muito preciso. Temo que o estado Orwelliano que vivemos e o aparelhamento do estado, junto da inércia do poder do Centrão e os resquícios do poder concentrado nos donos das Capitanias Hereditárias estejam em rota de colisão com o que o senhor aponta como diagnóstico. No momento é só ladeira abaixo. Que Deus nos ajude.
...
Hoje já li diversas notícias em vários veículos de comunicação. Essa coluna foi a que mais me deixou abalada por sua realidade nua e crua. Estamos preocupados e falando amplamente sobre o crescimento da IA e seus perigos na sociedade? Isso é um detalhe pequeno em comparação a falta de educadores em nossa sociedade. Esse artigo cumpriu seu papel: me fez pensar muito, mas também me deixou apreensiva .
...
Professor parabéns pelo verdadeiro texto. Como seu colega de docência veja a cada ano o desprestígio da profissão, o desinteresse e a ausência de qualquer política pública verdadeira sobre a educação. Os governos e os candidatos nesse tema falham miseravelmente. Uma tragédia.
É um dos textos mais pesados que li na vida, pior, absolutamente realista. É um manifesto. Peço encarecidamente que o Estadão e Karnal liberem este documento em Word ou PDF para divulgação pública. Tem que ganhar outra escala, muito além da nossa, assinantes. Por favor, liberem.
“Não haverá um Brasil que valerá a pena num futuro imediato…” é ser muito otimista, professor. O nosso pobre Brasil está indo ladeira abaixo na educação, na segurança, na infraestrutura e não há menor esperança de que o cenário vai mudar nas próximas décadas. Na matéria de capa hoje aqui no Estadão o assunto é o estrago que a atitude do ‘ministro’ Dino fez na campanha de reeleição de Lula. O que aconteceu essa semana no STF foi vergonhoso e absurdo, mas o governo só faz as contas de quanto o episódio vai interferir nas eleições. É só isso que interessa ao governo: se reeleger. A educação? A segurança? A saúde? Não é problema deles…
...
Se daqui a 10 anos professores forem substituídos por salas de videoconferência com IA dando aulas, não se espantem. Se daqui a 10 anos, influenciadores forem convidados para dar aulas, também não se espantem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário