quinta-feira, 9 de abril de 2026

Obsolência programada? E se obtarmos pela durabilidade?

O carro teve um chileque e decidiu por conta própria que ia ficar com luzes e parte elétrica toda ligada. Bom, se deve dar um desconto a ele, velhinho, já com uns 20 anos de uso constante. E lá vai a dona à concessionária. A troca da peça sai por R$ 30 mil. O carro vale R$ 35 mil. A dona já sabia que a coisa estava ficando cara. Uma troca de lâmpada do farol tinha custado a bagatela de R$ 1.500,00, sim a "lampida", nada mais. Achou caro? Naquele modelo ainda se troca só a lambada, nos mais novos a lambada queimou só é possível a troca do conjunto ótico inteiro, ou seja, mais de R$ 5 mil, isto nos modelos mais simples. Nos de luxo? Não quero nem saber.

Se na década de 60 ou 70 dissesse que um dia as coisas ou não teriam conserto ou sairia uma fortuna, ninguém iria acreditar. Já sabíamos que tudo tinha vida útil, mas não que chegaríamos onde estamos. 

Em tempos passados não se falava em colapso do planeta. Já haviam sinais que a coisa não ia muito bem, como por exemplo na época das chuvas e de férias os bueiros começavam a vomitar água podre, isto onde havia esgoto, coisa rara então. Mas colapso estava fora de nossa imaginação. 

Naquele passado distante, uns 50 ou mais anos atrás, bateu o carro? Funileiro. Os caras eram mágicos, puxavam aqui, desentortavam ali, e o carro voltava a funcionar. Hoje se troca as peças tortas por novas, desmonta, joga no lixo, peça nova, encaixa, pintar, ponto final. Em tudo, quando compensa. "Deu PT". Como assim? "Perda total" Como assim??? "Não compensa consertar". Uau!

Você já viu o que se transformou um reparo de válvula de privada? Ou o courinho de torneira? Aquele que para parar o pinga pinga. Virou uma peça plástica sofisticada de alta tecnologia que acabou, descarta, compra e põe outra igual. Meio ambiente? Quem? Quanto tempo durava um courinho? Quanto dura um reparo destes novos? Qual o impacto ambiental? "Quem?" Mais, cadê o sujeito que faz o reparo? Quanto ele cobra? Quando ele vem! "O que?" Conversa de loucos.

Como criança sabia que se quebrasse a bicicleta não teria outra. Tinha que cuidar de tudo, porque era único, custava caro e não dava para comprar outro. Aliás, não fazíamos ideia do que era cultura do desperdício pela simples razão que era impensável desperdiçar. Coca-Cola? Uma garrafa, das de vidro, aos domingos, ou no aniversário, ponto final, sem mais conversa.

Sim, sabíamos o que era obediência programada... 

Corrigindo, sabíamos o que era obsolescência programada, ou pelo menos tínhamos uma noção do que era, mas nada como a loucura que vivemos hoje. 

Já obediência, a programada pelos pais, tios, avós, era para ser obedecida, ponto final, sem mais conversa... mesmo. Fez besteira? A insolência estava bem programada para a surra e o castigo. Quebrou, pagou! Ponto final.

Um rádio custava o que um rádio devia custar e uma escovinha de unha custava o que devia custar, pelo menos o custo fazia algum sentido. Hoje? A escovinha pode custar bem mais que um pequeno aparelho eletrônico fabricado dentro de um complexo processo industrial de alta tecnologia. É a escala de produção, está certo, mas não faz sentido que um pedaço de plástico com cerdas encaixadas, um processo industrial básico, de poucas etapas, possa custar mais que algo altamente tecnológico. As escovinhas já não duram tanto, o mesmo para as porcarias eletrônicas. 

Tive um celular Nokia, dos antigos, que caiu 10 andares, ficou submerso por uns 15 minutos, foi seco e voltou a funcionar. Uma amiga comprou um celular de última geração que deu defeito ainda novo. Recebeu um novo e o velho foi descartado, lixo, ponto final. Obsolescência programada?

Outra amiga levou sua bicicleta, uma 29, das básicas,  baratas, para trocar os pneus e fazer uma manutenção geral preventiva. O orçamento veio com R$ 2.600,00. Roubo? Não. O orçamento feito pela bicicletaria, tradicional e séria, foi padrão dentro do mercado: troca tudo por novo. Ou joga fora a antiga e compra uma bicicleta nova que vai custar uns trocados a mais em suaves prestações. Os pneus, estes sim tinham que ser trocados, mas o resto? Pelo que recomenda o manual do fabricante da corrente,  desgastou,  sim troca tudo, todo sistema de marchas. O jogo é este, se quiser joga, se não quiser dá o fora. 

Uma outra amiga trocou sua bicicleta depois que também levou a uma outra bicicletaria e o orçamento veio algo próximo de R$ 5.000,00, quase o preço de uma bicicleta nova. Roubo? Não, de novo, gente séria, com anos de mercado e montes de clientes. O que explica? Filosofia comercial, digo eu. Troca tudo, simples assim, e troca em nome da segurança do ciclista. Segurança do ciclista? A bicicleta estava funcionando perfeitamente, só tinha a quilometragem que o fabricante recomenda a troca da corrente. E o povo paga, seja porque não entende nada, seja porque não quer fazer feio na roda dos amigos ciclistas. 

Pausa para os comerciais 


De volta à programação 

Conta a história que a Phillips, uma marca inglesa impecável de bicicletas, que não dava defeito nunca, quase indestrutível, faliu na decada de 80, se não me falha a memória, por não querer baixar a qualidade.

Quer entender melhor o que 'foi' qualidade? Um dia, faz tempo, comprei uma bicicleta para levar para o museu de bicicleta. Detalhe: ela tinha rodado 50 anos sem fazer qualquer manutenção, só tendo trocado os pneus e câmaras. A corrente? Óbvio, muito gasta, mas rodando.

Em 1992 a Specialized deu um salto no mercado quando passou a entregar na caixa as bicicletas básicas já praticamente prontas para rodar. Era só tirar da caixa, encaixar e apertar alguns parafusos e sair rodando com segurança. Qualquer idiota conseguia, e a bicicleta funcionava bem, segura. Fizeram isto até porque a qualidade de serviço de boa parte das bicicletarias não atendia um padrão mínimo de qualidade. Ainda na fábrica as bicicletas recebiam ajustes básicos, o que fazia toda diferença no pedalar e na durabilidade do produto. 
Mike Sinyard, fundador da Specialized, recomendou ao Luiz que nunca desfazer-se das bicicletas do início dos anos 90. Ele estava certo. Naquela época obsolescência programada tinha um outro parâmetro. As velhinhas continuam por aí, deliciosas, impecáveis.


Ineptocracia



Ineptocracia, termo muito interessante, que calha bem para o largo momento que estamos vivendo neste país chamado Brasil. Aliás, eu digo, vivemos uma inepto-larapiocracia.

Fiquemos com a ineptocracia 'brasa', como tentaram emplacar como apelido na seleção brasileira. Faz sentido quando se olha para os últimos incêndios, o do prédio histórico no Paraná e o velódromo no Rio. Qual será o próximo. Aguardem que vira. Cultura? Cultura no Brasil? Esportes? Faça sua bet! Aposte que o número de endividados crescerá. Barbada.
Ineptos. Faz quantos anos que não temos um macro projeto de estado de longo prazo para o país? Remendos temos aos montes, em todos setores. As mudanças necessárias demoram anos, décadas para virem, e não raro quando vem chegam pela metade. Vide a reforma fiscal, décadas atrasada. Vide a segurança pública. Vide...

30 março de 2026, foi inaugurado o monotrilho que deveria ter ligado o Aeroporto de Congonhas com o estádio do São Paulo F. C., como obra para a Copa do Mundo de Futebol aqui, Brasil. Iniciada em 2010, deveria ser entregue em 2014, antes da Copa. Finito pela metade, ok, um terço, ok, pequena parte, ok, foi inaugurado, Thanks Gold!, doze anos depois. Uma das desculpas é que mudaram o estádio da Copa por vontade e desejo do Exce. Presidente. Saiu do Morumbi de ricos e foi para Itaquera de gente bem mais simples,  estádio novinho, dívida também... Não qualquer dívida, mas uma senhora dívida que ninguém sabe quando paga, isto se paga. E a torcida achou lindo. 
Nada fora do normal, o atraso, aumento de custo, obra abandonada por anos, transtornos, votos no candidato que ajudou na realização do sonho Corinthiano, mesmo que tenha sobrado uma dívida que não se sabe quem e quando será paga... Onde está e de quem é esse dinheiro? Sei lá? Duvido que alguém consiga contabilizar de forma que se entenda. UAI, se tem uma dívida monumental, quem segura a bronca?
Pelo menos os custos da obra parada se sabe. Como sempre custava tanto no projeto e custou tanto a n potência no final, dinheiro público, meu, teu, nosso, deles...Dinheiro público, portanto nas bundas de quem vai sobrar sabemos. Já o custo gerado pela mudança de projetos da Copa, quem sabe?

E a confusão no Oriente Médio vai rolando, vai rolando, vai rolando..., e se transformou num drama planetário. Vai sobrar para todo mundo. Alguém lá em Brasília pensou nesta possibilidade? Alguém estudou o que fazer com as possíveis (possíveis???) dificuldades e oportunidades que se apresentam com esta guerra? Qualquer um minimamente esclarecido ficaria com uma pulga na orelha, mas os 'inteligente', os 'eficiente', do Planalto não, eles sabem o que fazem. Sabem? 
Que o barril de pólvora que o instável (instável??, só isto?) presidente dos USA está armando acho que os inteligentes de Brasília já tenham sacado, mas daí a terem noção do que fazer, vai longo caminho a deriva.
Precisa de 'pobrema' vindo de fora? Não, não, não, mas servem bem como cortina de fumaça para a baderna caseira. Nada melhor que notícias sobre a viagem a lua para esquecer por um tempo os lunáticos caseiros.

Vamos para o que nos afeta diretamente. São Paulo está tendo com frequência congestionamentos de mais de 1.000 km. Tem solução? Sim, mas...
Ontem foi mais um dia de caos completo. Mesmo pedalando tive dificuldade para chegar onde devia. Estou cansado de repetir isto. Cada dia mais frequente e cada vez pior. Responsabilidade de um acidente? Não. Sem razão aparente. Que loucura. Alguma palavra sobre o que fazer? Sim, magias, milagres momentâneos, soluções. Soluções: qual é o plural e o aumentativo de soluço? Sim, soluções, tentativas de resolver aos soluços. IP! IP! IP! A médio longo prazo, alguma idéia inteligente? Qual? Desculpem, não ouvi ou não consigo entender.

Ineptocracia.

Aliás, olhando as primeiras páginas de jornais, vendo as notícias na TV, ouvindo rádio, melhor inepto-larapiocracia.

Temo fú! Ou vamos colocar a caixola para funcionar. E agir

Nunca na história deste país o nível geral foi tão baixo. O país caminha, mas como?
Nestes últimos dias tem ficado claro que o que mais se tem é inepto e larápio. Um país se faz de exemplos. Os nossos exemplos neste momento são Brasília e Rio de Janeiro. Vai dizer que não, que estou exagerando? 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Queima Brasil, queima

"O Brasil só tem jeito se jogarem uma bomba atômica". Cansei de ouvir esta irritação de gente que de fato quer ver este país ir para frente. 
Não precisa, a inteligência nacional toca fogo no que a gente tem de melhor. Começou com o Museu Nacional, ou começou antes, sei lá, definitivamente não quero lembrar, foi muito.
Desta vez foi o Velódromo do Rio.
A Santa Inquisição durou em torno de 600 anos, quanto anos mais durará nossa infame estupidez? Quanto é o que mais vamos permitir que vire cinzas?


Crianças doentes da cabeça


Eu fracassei no meu trabalho. É muito duro ler este Notas & Informações sobre a delicada saúde mental das crianças de São Paulo, e provavelmente de todo Brasil. No caos urbano, portanto social, que estamos metidos era de se esperar uma notícia destas. Triste, deprimente.

A função da bicicleta dentro das cidades vai muito além da tentativa de ajudar no trânsito, melhor a mobilidade, reduzir a poluição. Bicicleta está sendo introduzida mundo afora também para obter estes resultados tão divulgados e usados como ferramenta política, mas não só. 

Bem introduzida, ou seja, com intervenções urbanas inteligentes, principalmente com traffic calming, ou acalmamento de trânsito, reduz o ritmo da cidade, trazendo de volta a possibilidade da convivência justa de espaços públicos de forma prazerosa e com segurança, pela população, o que incluí mães, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais. Não aconteceu, não é o que vemos. O foco está só no aumento de kms segregados para ciclistas através da implantação de ciclovias e ciclofaixas, o que defino como 'a bicicleta, pela bicicleta, com a bicicleta', ponto.

Bicicleta bem introduzida, com inteligência e usando técnicas urbanas conhecidas e testadas faz décadas, diminui as tensões sociais, reduz a violência, melhora a saúde pública, fortalece a economia local, melhora a produtividade no trabalho e o rendimento escolar, dentre outros. Dados internacionais provam isto sem deixar sombra de dúvidas, não só na Europa, mas em todas localidades onde houve e há preocupação com a qualidade de vida na cidade. 

Parte de minha geração quis implantar através da bicicleta uma transformação urbana mais profunda. Com profunda tristeza vi tudo reduzido a ciclovias e ciclofaixas. Fomos inocentes, acreditamos que brasileiros tinham uma noção (vaga) sobre o que deve ser uma cidade. Não tinham e não tem e pelo jeito não estão interessados em ter. A selvageria urbana está aí para quem quiser ver e viver, pior, acreditando que isto é progresso. Coitadas de nossas crianças. O resultado está aí.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Hail Mari. A vantagem da falta de opções

Funcionária nova de fábrica de chocolate ganha o direito de comer quanto chocolate quiser. Não demora muito a 'liberdade' enjoa e o direito a escolha cai na realidade. Fazer o que quer e bem entende geralmente não é uma escolha interessante, menos ainda inteligente.

No meio do filme, na cena quando é dado três horas para o personagem principal decidir sua vida, viver ou morrer, simples assim, eu tive um acesso de gargalhada alta, incontida, solitária no meio de um cinema lotado. E quanto mais percebia que gargalhava solitário no meio de um silêncio geral incomodado, pior ficava meu descontrole sobre minha gargalhada incontida. Foi difícil me conter. Um dia aquele público jovem vai entender minha gargalhada. A vida vai lhes ensinar. Ou não, aí triste.

Ontem, no meio de um almoço de Páscoa, como convidado de uma família de boa condição social financeira e cultural, sentado na mesa frente a três meninas jovens, bem vestidas, lindas, com suas mães juntas, disparei que brincar com a liberdade, que elas têm para dar e vender, emprestar e jogar fora, um luxo para poucos, é uma tremenda desvantagem frente aos que vem do nada e têm fome de comer. Não ter muitas escolhas faz diferença. Minha verborragia saiu quando peguei o gancho na fala de uma das mães que dizia que a filha não se decide sobre o que fazer da vida, e que ela deveria partir para a vida, buscar um trabalho, entender como são as coisas, inclusive para se decidir. As meninas, bem educadas, prestavam atenção em silêncio. A para quem se dirigia a conversa ouviu com expressão neutra, consciente que tem o luxo da escolha no seu tempo, luxo que tem tudo para virar um lixo.

Ironia, outra pessoa, outra história. De manhã, cedinho, vem a ligação de vídeo. "Chega de besteira. Vou tocar para frente". Foi uma decisão demorada, difícil, e pela forma como foi dita parece que vai ser cumprinda, o que sei bem que não é fácil. Tendemos a nos acomodar, mesmo com o ruim.  

"Não existe liberdade sem disciplina", disparei para a mãe da menina que acredita saborear com prazer sua liberdade libertina de escolha para a vida. Sentada ao lado da filha a mãe concordou imediatamente comigo. "Trabalhei desde de nova. Sou executiva. Não tenho dúvida que tem que cair na vida, achar um trabalho qualquer, não importa o que, para saber o que quer". A filha, sorriso leve, cara de pastel, ouvia, e nós a sua volta vimos as letras entrarem por um ouvido, saírem pelo outro e baterem na testa das primas, estas sim atentas, decididas.

Três horas para decidir sua vida. Com o direito de uma escolha única, a que se deve fazer naquele momento, não a desejada, aquela ideal para os sonhos utópicos, líricos,  desejados, sobre tudo enganadores. 
Sem tempo para pensar. É aquilo ou aquilo mesmo, simples assim. Ser caça ou caçado, esta é a verdade constante na vida.

O cano da 45 foi batido no meio do olho esquerdo, engatilhado. Momentânea perda de visão, dor, volta o mundo desfocado. Numa fração de segundo toda vida veio à tona. Opção zero. A situação imediata impõe.

A urgência de uma reforma fiscal está rondando o governo e congresso faz décadas. Tudo desanda e todos continuam sem tomar posição. O gatilho está armado faz tempo, mas as vítimas, nós, provavelmente morreremos de inanicão. O gatilho foi acionado várias vezes, os tiros disparados um atrás do outro, vamos morrendo a cada minuto, mas nos acostumamos. 

Minha gargalhada, na cena das três horas para decidir o que o personagem faz da vida, me remete a minha própria vida. Quisera fosse assim, ou vai ou vai, teria sido bem mais fácil. Fácil talvez não, funcional, eficiente, cheio de possibilidades pela vida. Tendo vivido o luxo do luxo de terem me dado o pleno direito à escolha, qualquer, sinto profundamente inveja dos que não a tiveram. Tenho inveja dos que não ficaram parados no meio do campo verde, semeado, pronto para colheita, curtindo a beleza até que ela secasse. E a colheita fosse toda perdida. 

Final do almoço fiquei conversando com a mãe da linda jovem que não se decide. Uma nem-nem que tem tudo, pode tudo, recebe tudo, certa que o mundo é dela, que nada se acaba, tudo sempre será assim, tudo se ajeita, a delícia não vai se acabar.
Apavorante!

Queria ter sabido avaliar melhor as escolhas. Queria ter realizado uma verdade: não existe liberdade sem disciplina.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Love, amor, amour, amore...: rentabidade garantida

Made in China

All need is love - Beatles, faixa dos álbuns Yellow Submarine e Magic Mistery Tour, e lado A do compacto com lado B, Baby you're a rich man

Tudo que você precisa é amor, grande sucesso do compacto (45 ou 33?, talvez nas duas versões) com lado B tendo a música Meu caro, você é um homem rico (minha tradução); sucesso também nos discos LP Submarino Amarelo e Passeio Mágico e Misterioso
All need is love - hit parede!

Ironia completa. O que eu tenho a dizer sobre love, amor, e sua incrível rentabilidade está nestes títulos, inocentes, de músicas e álbuns do Beatles. Inocentes porque são um pós WWII, por favor não descontextualizar. 
Dá até para brincar: Você precisa de amor para ficar rico e fazer um passeio mágico e misterioso num submarino amarelo. Imagina só estar num grupo de amorosos ricos proprietários (ricos sempre são amorosos e proprietários de muita coisa) falando sobre seus carrões SUV e esportivos, e matar todo mundo de inveja mostrando que você tem um submarino particular, amarelo ainda por cima. Uau! que chique! Suponho que um submarino custe mais que um belo yate, com 'y'. Iate com 'i' é coisa de pobre, e pobre não sabe amar. Pague o dízimo e entenderá o que escrevi. Que seja, cala boca, e calo a boca, envergonhado!

De qualquer forma, meu delírio aqui pode ser tornar realidade (realidade de verdade verdadeira) se você for um bom vendedor de 'amor'. Dependendo de sua capacidade e inteligência o negócio da venda de amor terá uma linda lojinha (algumas vezes do tamanho de um quarteirão) e sequer será obrigada a declarar imposto de renda. Negócio infalível, um milagre!
Se você for menos esperto, mas ainda assim bom de vendas, vai usar a palavra amor para vender o que quer que seja. Aliás, não precisa sequer usar a palavra (amor, love, amour, amore...), basta mostrar imagens de pessoas em êxtase, insinuação da presença do amor. Enfim, coloca amor de qualquer forma que provavelmente você se dará bem. All need is love!

Pondé disse no Linhas Cruzadas que Jesus Cristo é a mais rentável comodite do planeta. Ou será amor?

Amor virou mercadoria barata e altamente rentável. Todo mundo sabe o que é amor, mas pouquíssimos sabem o que é amor de fato, o amor verdadeiro. Talvez o maior grupo dos que tenham sentido, vivido e saibam o que é amor esteja entre mães. Por experiência de vida, tenho que acreditar que muitas que usam a palavra confundam amor com apego. Fora as que falam sobre amor aos filhos por razões e compromissos sociais, se sentindo aviltadas pela existência deles.

Amor é infinitamente mais popular que Jesus Cristo, isto é líquido e certo. Ou a chinesa que costura por dia montanhas de ursinhos cor de rosa com um coração vermelho no peito bordado com 'love' só o faz porque é uma cristã? Duvido. A chinesa está trabalhando para alguém que vai ganhar um bom dindin vendendo os ursinhos cor de rosa com o coração bordado 'love', nada além disto. O ursinho venderia tanto se fosse só rosinha, sem um 'love' no peito? 
Coração para fora do peito com a palavra amor estampada ou bordada me remete a inúmeras imagens de Cristo que vi. Terá o ursinho e tantos outros bichinhos amorosos que levam no peito o amor alguma relação com a famosa imagem de Cristo?

O que Cristo está pensando sobre a forma como se usa o 'amor'? Cristo, Buda, Alá, Moises, Orixás... sei lá quem mais lá de cima, todos Eles, com todo meu respeito e apesar de minha ignorância, o que acham desta avacalhação. (Coitada da vaca) 
  
Amor é propriedade privada e patenteada em nome do cristianismo? Budistas, islamistas, judeus, hinduistas, orixas... e outros não sabem o que é amor e amar? Será? Aos cristãos, o que será que Cristo acha? 

Estarão Eles felizes com toda este business?

Quer aumentar a chance de ter um grande sucesso com seu filme ou música? Toca amor neles.
Quer ter uma boa conversa com os filhos? Toca amor no meio da conversa.
Quer dar uma receita de felicidade? Infalível: amor!
O almoço está uma delícia? Feito com amor!

All you need is love.
Quanto rende o amor?
Pergunte ao Darth Vader. Este amor que está aí vende até o Dark Side of the Moon. Pink Floyd e Darth Vader que o digam.

O conceito 'criança' só passou a existir (ou ser compreendido com tal) depois da revolução industrial. 'Adolescência' só passou a ser realizada pela população depois da Segunda Guerra Mundial.
Quando se formou o conceito 'amor'? Quando ele passou a ser usado e abusado para impulsionar vendas? A história das religiões pode responder parte, mas não esta bandalheira que temos hoje. E repito, brinquei com a música dos Beatles, mas em 1967, quando foi lançada, o babado era outro. Não tire do contexto. Aliás, não tire do contexto nada. Nem o que acontece agora, meu amado leitor ou leitora.

Pergunta final: o que politicamente correto tem a ver com tudo que eu escrevi aqui sobre 'amor', o mote de venda? 

O que é amor para você?


que lindo!


quarta-feira, 1 de abril de 2026

As janelas do outro edifício

A geração atual não sabe nada. Não faz ideia da emoção que era, quando criança e adolescente jovem, aliás, deve ter tido muito adulto fazendo o mesmo, olhar pelo buraco da fechadura. Já faz muito que as fechaduras são apertadinhas, que fecharam o buraco vazado e não dá para ver mais nada. As velhas fechaduras é que eram divertidas! Permitiam um olhar curioso, meio criminal, um tanto imoral, definitivamente politicamente incorreto, mas ótimas para tentar ver detalhes. Mal trancavam o que quer que fosse, a porta ou o olho. Qualquer um com um pouquinho de jeito conseguia destrancá-las, ou ver, quando via. Hoje, qual seria o grande crime, a diversão do olhar indiscreto ou o abrir e invadir? Não tenho dúvidas, abrir, invadir, roubar é muito menos criminal. Olhar? Nem pensar! Você pode ser linchado socialmente.

E tem a janela do apartamento escancarada. Aí, desculpem, é  inevitável.

No apartamento em frente, janela com janela, um andar abaixo, a linda menina insistia em ficar nua. Começo de noite, fui fechar a cortina e dei com ela, no auge de seus 20 e poucos anos, tudo em cima, curvas perfeitas, pele lisa, olhar perdido, parada, quieta no meio do quarto. Alguma coisa está errada com ela, impossível que não tivesse ouvido o barulho da minha cortina sendo fechada. Ela está completamente absorta em seus pensamentos, pela expressão, em algum problema sério. Parei antes de fechar a cortina por completo, primeiro pelo susto de vê-la daquele jeito, não só nua, depois por curiosidade, e finalmente por prazer, não um prazer sexual, mas pela beleza real como de uma pintura renascentista, semi deusa dando o toque de leveza que conta numa boa pintura. Perfeita, mas de olhar introspectivo, triste, fechado em si. Terminei de fechar a cortina, me preparei para sair, fechar janelas, outras cortinas, pegar as sacolas, calçar os sapatos para ir ao supermercado, e desci. De volta do supermercado passo por ela caminhando, o mesmo olhar introspectivo, triste, fechado, vestida como se quisesse esconder seu próprio corpo. Estranho. 

Da sala vejo o gordo com barriga de fora vendo TV, programa horroroso, sentado próximo de sua mãe, senhora muito idosa, doente, que já não sai de casa. Faz muito calor, mesmo neste tarde da noite, janela escancarada, vejo o ventilador ligado ventando para a velha senhora pernas esticadas sobre um puff, poucas roupas. O gordo é um figura simpática, gosta de puxar conversa quando encontra alguém no térreo. Nunca vi o rosto de sua mãe, sempre com o corpo exposto ao vento da janela aberta e ao ventilador, e sempre com a cabeça escondida pela parede.

Vizinhos novos no apartamento de frente. Muito discretos, meia janela aberta, raramente os vê circular. Se a menina nua ficava um andar abaixo, o gordo dois abaixo e mais para a direita, os novos vizinhos estão cara a cara, mesmo andar, frente a frente. Já peguei um fantasma ali olhando meus movimentos. Curiosidade matou o gato, diz o ditado, todo mundo olha. O máximo que vi foi alguém se maquiando no espelho. Não faço ideia de que cara tem.

Na primeira noite neste apartamento, o das janelas, ainda sem qualquer móvel, vou receber amanhã bem cedo o cara que vai instalar a Internet. Vou dormir no chão da sala, no sleeping bag. Me ajeito, começo a relaxar e começam os sons inconfundíveis de uma maravilhosa trepada. A mulher está sendo muito bem tratada, está se divertindo, geme com muito prazer e alto. Dou risada. Me levanto e vou até a janela. Nada. Deve ser num andar de baixo. A coisa fica cada vez mais quente, no meio de um dos orgasmos ouve-se um urro "Cala a boca, sua puta!", seguida de algumas gargalhadas e da resposta da que goza, rindo: "Cala a boca você. Mulher mal comida é uma merda!". Breve silêncio geral. E a função recomeça, agora com o casal reforçando o espetáculo.

Indecente mesmo é o maravilhoso cheiro de comida deliciosa que sai de alguns apartamentos. Aí dá vontade de arrombar a porta e invadir a cozinha. O aroma da carne de panela que sobe é torturante. Não poder colocar a colher naquela comida é difícil de aceitar. Fazer o que?


A borboleta da bicicleta

É com muito prazer que apresento a borboleta que acaba de sair do casulo que se prendeu à roda de minha bicicleta. Eu travei a roda e deixei a bicicleta parada por três semanas. E hoje vi o milagre da nova vida acontecer. Fiquei tão emocionado que não tirei os olhos do processo de rompimento do casulo e nascimento da borboleta, ou seja, não fotografei nem filmei. Mas aí estão as fotos do antes e depois. A que nasceu é a que está na folha da palmeira. A outra, que nasceu antes e não vi o processo, e infelizmente tem as asas deformadas.








A transformação da lagarta em borboleta ocorre dentro da pupa (ou crisálida), um estágio de repouso onde o corpo se reconstrói. Durante dias ou semanas, a larva utiliza suas reservas para criar asas e novas estruturas. O esforço de romper o casulo é vital para expandir as asas e fortalecer o corpo para o voo

segunda-feira, 23 de março de 2026

Carlos Barcellar e O valor da preservação da memória; Opinião do Estadão. E a minha

Esta Opinião do Estadão, "O valor da preservação da memória", foi publicada horas depois que escrevi e subi meu último texto, Portal de governo apagado, onde toco exatamente no mesmo ponto, a memória pública. Sobre preservação de memória sei muito bem o que escrevo e falo porque convivi com meu irmão, Murillo de Azevedo Marx, que fez toda sua vida, ou luta, no sentido de preservar a memória não só da arquitetura, sua área específica de atuação, mas de tudo.

A noite li o último texto, crônica, publicado de Leandro Karnal sobre colapso de poder dos USA, e como geralmente faço, terminando nos comentários. No meio do texto, Karnal conta que é professor de história dos Estados Unidos, o que sabendo quem ele é não deve ser de pouco conhecimento, portanto ele deve saber o que está falando ou ponderando. Como é comum em comentários, sempre aparece quem se apresente como sendo a história em si, sem cuidados respeitosos tanto pelo que escreve quanto por fatos inegáveis. Não estranho, até porque agora o chique, o must, é o eu; eu selfie, eu sei, eu estou absolutamente correto, todos os outros são uns imbecis, só eu tenho a verdade...

História. Preservação de memória. Quem sou eu? Quem eres tu? Quem somos nós? Ou isto ou navega se a deriva num mar de esperanças vãs sob o canto das sereias. 

BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA, dito e repetido, verdade incontestável, e simplesmente deprimente. Ainda teremos futuro? Sem memória, eu duvido. 

Fica aqui o meu mais sincero agradecimento a Carlos Barcellar e a todos que lutaram e continuam lutando para preservar o que ainda resta da memória deste país. Fica aqui meu agradecimento a quem estava e está no poder e deu guarida ao trabalho de Carlos Barcellar, e de qualquer um que quis e quer preservar história.

Não preservar serve, dentre outras coisas, a dar passos largos e rápidos para, no mínimo, livrar histórias indesejáveis de conhecimento e julgamento. Ou coisa pior, muito pior.

Quem tem medo da verdade?

 







domingo, 22 de março de 2026

Portal de governo apagado. É um crime!


Esta pesquisa de Frankito traz um dado apavorante: "Depois de mais buscas em outros sites, descobri que a fonte era o Portal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2007. Mas este portal não existe mais, foi apagado. E isto é normal porque, quando os governos se sucedem, eles alteram a estrutura dos ministérios e a estrutura dos próprios sites também (lembrando que o MDA chegou a ser extinto em 2016)". Sim, sei que dados e documentos públicos que estejam em versão digital somem, e sei porque tive contato de trabalho com a coisa pública. Aliás, não só os digitais, dependendo some tudo. Não me lembrava mais. Perda de dados e documentos é de extrema gravidade, um prejuízo imensurável para a vida de qualquer cidadão. Do sumiço para a pior das bandidagens não precisa sequer um passo.

Trabalhei em dois projetos cicloviários que simplesmente desapareceram: Ciclorrede Butantã e Projeto Cicloviario de Guarulhos. Sumiram, ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe. 
O do Butantã, com 115 km de vias cuidadosamente mapeadas e estudadas, era de um detalhamento que até hoje é raro, se é que foi repetido em algum outro projeto.
O de Guarulhos, pago pela secretaria de transportes da cidade, em nível funcional, com detalhamento quase de nível básico, propunha uma política de implementação, função social, de mobilidade, e desenvolvimento futuro não comuns aos projetos cicloviários.
Sumiram, desapareceram...

Em outros trabalhos foram pedidos documentos necessários que nunca foram encontrados, em papel ou digital. No digital houve ainda casos que o programa impregado simplesmente não existia mais, portanto tudo se perdera. Mais uma coisa: onde está, com quem, em qual departamento...
Com a digitalização deveria ser mais fácil preservá-los, mas pelo que diz Frankito, mas fica muito mais fácil vapt vupt... e sumiu. E com isto ideias, propostas, projetos, ou provas. De qualquer forma o prejuízo para todos nós é imensurável.

Lembro a todos que uma das bases de construção dos países desenvolvidos e ricos foi e segue sendo justamente a preservação da memória. 
E reafirmo o que todos nós estamos cansados de ouvir e saber: 
BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA 
Não pode dar certo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Reitores, universidades e livros


Desculpem, aproveitando. No meio desta reforma ou atualização legal nas universidades, urge rever a lei de direitos autorais referente a literatura específica relacionada a cultura e ciências. Obras importantes de eminentes professores, pesquisadores e pensadores simplesmente desaparecem porque não se consegue reeditá-los.

Cito dois casos que conheço bem, o do Professor Fernando de Azevedo, a quem se faz desnecessária maiores apresentações, e de Murillo de Azevedo Marx, titular de História do Urbanismo da FAU USP.

Sei que são inúmeros os casos de obras importantíssimas que desapareceram em nome de um direito que atende única e exclusivamente à família e herdeiros, mas que deveriam ser prioridade do interesse nacional, a bem da verdade não só o nacional.

Apesar do grande interesse na reedição de livros de Fernando de Azevedo, foi impossível encontrar todos seus descendentes.

No caso de Murillo de Azevedo Marx, os direitos autorais são da própria universidade, que por sua vez não tem dinheiro para a reedição.

Não posso deixar de apontar uma outra questão. Sei de trabalhos importantes, até por serem únicos em suas áreas, que foram 'cancelados', usando um termo atual, porque seus autores não tinham plena simpatia dentro da academia.

Finalmente, pelo que sei a condição das bibliotecas universitárias está muito longe de ser a ideal. Preservar livros e documentos custa e muito, mas é investimento de retorno mais que garantido. O mesmo para museus, acervos....



Urge uma política solida e construtiva de Estado para a cultura e ciência. Sem cultura e ciência literalmente não há futuro, ou há, o da selvageria, da desordem, descontrole social e da violência, como consequência uma baixa qualidade de vida para toda a população, mesmo a mais abastada.

Um dos símbolos deste país de hoje é o Museu Nacional em chamas. Preciso dizer mais?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Seguir em frente com o que realmente importa

Ainda não sei ao certo por que aconteceu, mas partiu a corrente de um participante de passeio logo nos primeiros metros. Como a bicicleta sempre está impecavelmente brilhante e tem gente que tem mania de fazer revisões desnecessárias para ter a bicicleta nos trinques, eu acredito que mais uma vez a bicicleta foi levada para uma revisão desnecessária, provavelmente revisão completa, onde o mecânico cortou a corrente para fazer uma limpeza mais profunda, e ao montar de volta não fechou o elo como deveria. A outra hipótese, que minha raiva momentânea descarta, é que a corrente estava montada com um elo de ligação, e que por uma tremenda falta de sorte ao tirar a bicicleta do carro o elo de ligação tenha aberto. Acontece. 
Bom, agora sei que não foi revisão.  De qualquer forma, vamos ficar com a primeira hipótese, que já vi acontecer outras vezes,  nãoa corrente,  mas voltar desregulada ou com algo solto. Uma destas vezes aconteceu na mão do então considerado o melhor mecânico de bicicletas do Brasil. Então... acontece.

"Eu fabrico bicicletas para as pessoas usarem, não para deixá-las bonitinhas" - tradução minha sobre a resposta de Mike Sinyard, fundador e proprietário da Specialized Bicycle Components, para Luiz Dranger, representante da marca aqui. Já publiquei esta resposta incisiva mais de uma vez, e provavelmente publicarei mais vezes, porque nela há mais verdades que simplesmente a forma de o que envolve o mundo da bicicleta.

Voltando a corrente quebrada. Desde 1986, quando a qualidade das peças de bicicleta mudaram e ganharam a mesma qualidade aplicada na indústria automobística, mandar a bicicleta para o mecânico se tornou praticamente desnecessário. Ok, as bicicletas atuais são menos duráveis que as da década de 90, mas mesmo assim são feitas para não apresentar problemas por anos, até porque atendem ao mercado americano e europeu.

O que vivemos no Brasil em relação ao entendimento do que deve ser qualidade é uma loucura generalizada, um desvario sem tamanho, em tudo. Exagero meu? Leia os jornais. Nós, todos, estamos pensando errado, e não é só na política, mas no geral. O olhar para a bicicleta não escapa deste pensar errado. Poderia fazer uma análise mais detalhada, profunda, mas vamos ficar só no sentido mais profundo do "bicicleta é feita para ser usada".

Por diversas razões posso dizer que conheço bem a Holanda, ou melhor, os Paises Baixos, nome correto do país. Acho que ninguém tem dúvida que eles são a referência do que e para que serve uma bicicleta. A primeira coisa que chama a atenção de um estrangeiro que goste de bicicleta e tenha recém chegado a Amsterdam, por exemplo, é que a maioria das bicicletas anda, roda, funciona, e olhando com cuidado fica uma certa dúvida: "Como assim? Holandeses pedalam isto?". Enquanto a bicicleta está funcionando eles seguem em frente com elas. Bicicleta é um utilitário, ponto final. Pelo menos a bicicleta do dia a dia.

Vamos ao holandes que tem uma segunda bicicleta, a bicicleta de fim de semana, o que bem comum. Geralmente está numa condição muito melhor que a bicicleta do dia a dia, a que se amarra em qualquer lugar e tem grande chance de ser roubada. Bicicleta de dim de semana bem cuidada, funcionando direito, é uma coisa, mas neurorica e constantemente revisada é outra, até porque encontrar bicicletarias não é uma coisa tão fácil, é um serviço mais perfeccionista sai bem caro, bem caro mesmo.

Outro ponto a se levar em consideração é a consciência ambiental dos holandeses. Duvido que entre os amigos e conhecidos pegue bem a conversa que a bicicleta vive fazendo revisões para ficar nos trinques, brilhante, chamativa. Não é do feitio deles. A regra é "tem que funcionar bem", ou, ser usável para o fim desejado. É quase uma lei para tudo, da bicicleta à conservação da casa. Não sei exatamente como eles encaram os exageros, mas por tudo que vi e vivenciei em minhas várias vezes que estive lá, não deve cair bem.

Numa a primeira das muitas estadias tive lá, pegamos um carro e fomos visitar uma amiga na Alemanha. Nós Paises Baixos o asfalto e a sinalização eram impecáveis. Já o matinho em volta estava aparado, mas era matinho. O foco todo voltado para a segurança no trânsito, não para quaisquer supérfluos. Cruzamos a fronteira e na Alemanha o asfalto, a sinalização eram muito bons, ponto, o paisagismo lindo. Uns dias depois fomos para a Suíça, tudo irritantemente impecável, organizado, funcional, eu adoro,  mas concordo que é um pouco duro, sem molejo. 

De uns tempos para cá tenho olhado minhas coisas de uma maneira diferente. Me dei conta da barbaridade de coisas inúteis que tenho, ou acumulei, sei lá. Demorou. O dito por Mike Sinyard, em 1991, sobre o uso que se deve dar a um bem sempre fez toc toc na cabeça. A vivência com os holandeses no trabalho e como turista me mostrou a inteligência do só o necessário. O dia que entrei numa locadora de bicicletas em Amsterdam e dei com um grande cartaz gritando "Nós pedalamos. Americanos usam capacete" só confirmei que em tudo na vida é necessário aprender a olhar para o que realmente importa. O resto é resto. 

Pesquisa Radio Eldorado sobre o trânsito de São Paulo

Rádio Eldorado FM está pedindo comentários sobre nossa vida no trânsito de São Paulo, que vem piorando de maneira assustadora. 
Mandei para eles um pouco do que conheço desta história de como chegamos nesta situação horrorosa. 

Em 1965 Arturo José Condomi Alcorta levou para o então diretor de trânsito, Coronel Fontenelle, a mudança das parábolas dos semáforos, o que tornou visível as luzes vermelha, laranja e verde. Projeto dele Arturo José e de seu primo José Luiz Whitaker Ribeiro (fundador da Engesa).

Logo após Arturo José apresentou um projeto de sincronização sequêncial dos semáforos, como usado em Buenos Aires e em diversas capitais do mundo. Foi recusado.

A história de um olhar para o trânsito errada vem de longe e foi alertada por diversos estudiosos e especialistas sobre cidades.

Na década de 70 houve uma gritaria por parte de eminentes urbanistas contra a construção do Minhocão e de outras obras viárias pontuais que estavam fadadas a criarem problemas futuros. Criaram, a prova está ai.  

É o caso do Boulevard Paulista, obra primordial para o trânsito não só local, morreu nos seus primeiros metros. Como estaria a Av. Paulista se seu trânsito tivesse dois níveis, um deles privilegiando pedestres? 

Desde 1898 as grandes cidades se reúnem para trocar experiências que melhorem a qualidade de vida dos cidadãos. Desde que me conheço por gente ouço "somos diferentes, sabemos o que estamos fazendo".

Nós anos 80 Mario Covas Prefeito deu início a um projeto de transporte coletivo baseado na experiência de Curitiba. Seu sucessor, o personalista Jânio, deformou a ideia inicial.

Erundina declarou que um de seus maiores erros foi acabar com o projeto Boulevard JK. Ou seja, trânsito expresso no subsolo, e local privilegiando pedestres e ligação entre bairros.  
 
Visitei a Central CET Bela Cintra em 2005 e pasmado constatei quase a metade dos monitores apagados, outros sem nitidez, e o uso de computadores ainda de tela verde.

Na administração Haddad se tentou fazer uma gambiarra no sistema dos semáforos, mesmo com inúmeros alertas que não funcionaria. Não funcionou. 

Os novos semáforos, outra solução mais em conta, como manda a lei de licitação, já estão apagando.

Faz muito que parte do corpo técnico da própria CET pede a mudança completa de todo sistema semafórico e outros investimentos urgentes para o trânsito de MSP.

A pergunta que tem uma resposta consistente se deve fazer é para a população: vocês se interessam mesmo, de verdade, pela melhora no trânsito? Sinceramente, eu duvido. Que realmente se interessa vai atrás.


Muda administração, mudam as prioridades. Não há continuidade. Não há projeto. E vale afirmar, a população entalada no trânsito não se manisfesta.

Analise seria e comentários....

A análise da curadora Téo Foresti Girardi mais que merece u a leitura cuidadosa, deve ser tomada como um norte pelo qual devemos nos movimentar para alcançar. 
Como pensar plano, como abranger em círculos o que realmente é produtivo? Como aproveitar uma oportunidade histórica?  

Como acontece com frequência, comentários a textos, análises, proposições, são feitos com soberba. Soberba temos ou somos todos, mas qual é o limite entre o construtivo e o destrutivo que devemos aceitar numa soberba? Como filtrar o conteúdo da soberba mais soberba, do espelho, espelho meu, alguém mais inteligente que eu? Eu diria treinamento, o que nos falta. Me falta.

Liberdade de expressão? Apoio, total, mas uma coisa é liberdade de expressão, de ser, e outra é usar ferramentas expressivas, batidas, que já cansaram, para misturar coisas, confundir, sabotar pelo sabotar, pelo prazer de se posicionar socialmente nas mídias enaltecendo sua própria gloriosa soberba. 

Tenho lutado muito para não me empastelar com minhas próprias soberbas estupidas. Olho para trás e vejo quanto foram improdutivas, para mim e para a construção coletiva, que bem lá no fim das contas é o que realmente conta. Até para mim mesmo.

Se lerem os comentários desta análise e acharem que errei, por favor, peço que digam. 
Não posso copiar e publicar comentários dos outros aqui. 
Adoraria debater. No tete a tete sou presa fácil. Escrevendo consigo sobreviver. 

co. U

Parabéns pelo texto, parabéns pela inteligência, parabéns pela iniciativa. E sinto muito pelo baixo nível de alguns comentários, aqui e em outras. Já estive no meio da coisa pública e tenho boa noção do que é. Aliás, não é necessário viver um incêndio para ter uma noção do que é. Alguns comentários me fazem lembrar inúmeras passagens passadas onde quem tinha respostas foi ridicularizado por sentados numa cadeira. E cá estamos nós, neste Brasil...

Passamos da hora de quem quer um país de fato começar a ouvir quem realmente interessa, quem realmente tem o que dizer, quem tem ideias positivas, funcionais, por mais difíceis que sejam de implementar.

Lembro de um funcionário público, Renato Brandão, que um dia apareceu com uma pequena lata cilíndrica e disse que aquilo era o futuro, a mesma que hoje enche os supermercados. Foi pesadamente ridicularizado. O mesmo Renato Brandão foi para sul de Minas e criou uma pequena granja de porcos com padrão europeu, foi chamado de louco. E assim foi. Pelo menos os grandes fazendeiros do café, reunidos num canto discreto de uma pequena padaria, quando viram Renato entrar na padaria o chamaram para ouvir sua opinião. O resto é história, o cafezinho nosso de cada dia e nossas exportações quero digam.

terça-feira, 10 de março de 2026

Semáforos que apagam. Economia estúpida.

Sobre semáforos quebrados, quando a imprensa vai fazer uma matéria profunda sobre a qualidade da semaforizacão que temos em São Paulo. A troca pelos novos, os de borda amarela, falham tanto quanto os velhos. Os velhos, os ainda da geração gambiarra feita pela administração Haddad, tentava de solução barata que tinha tudo para não funcionar, apagam na primeira chuva.

Aliás, vergonhoso é uma cidade que responde a 17% do PIB do país não resolva um problema como este que afeta brutalmente a fluidez, portanto a economia. Tempo é dinheiro, nossos brutais congestionamentos são burrice extrema.

Finalizando: ou se faz um projeto para a troca completa do sistema, do semáforo ao softwares, passando por cabeamento e transmissão de dados às telas de controle, ou continuaremos nesta palhaçada.

Resta saber quem ganha com está baderna.
Quem perde sabemos bem, todos nós. Só não entendo por que não há um levante popular contra nosso caos no trânsito. Aliás, entendo. Nós acostumamos com o ruim. Pura e deprimente verdade.

Velhice é uma merda!

"O cú do cupido está entupido" *.
Entupiu. Que merda! Não experimente. 

Fui para Penedo, fugir um pouco da loucura paulistana e aproveitar para subir pedalando para Visconde de Mauá, 1.300 metros de altimetria e 960 metros de subida em 10 km no meio de um verde Mata Atlântica maravilhoso. 

"Cada subida é uma subida" dizem os profissionais, ciclistas. Pura sabedoria. Me lembro das outras subidas longas que fiz e sei que esta foi a mais difícil. Cheguei lá em cima no limite, e não teria chegado caso não tivesse uma técnica apurada. O limite desta vez foi uma área tênue muito próxima de dar ruim, uma sensação estranha de poder, muito estranha, que traz consigo um gostinho de fundo de perigosa irresponsabilidade. Quem já competiu sabe bem que cruzar a linha de chegada no limite do limite é a glória. Se bobear dá ruim, e pode ser bem ruim mesmo.

Larguei muito errado numa prova de mountain bike. Quando dei conta do tamanho da besteira sai atrás do prejuízo. Fiz a subida sem preocupação com o cardíaco e continuei a besteira na descida. Resultado, pedalei uns 50 metros desmaiado, sim desmaiado, com a cabeça gritando "acorda idiota, você está numa competição, acorda!". Quando voltou a consciência, caiu a ficha do absurdo e parei. Contei para meu médico que explicou que eu tinha chegado ao limite máximo do meu coração, o que não deveria repetir. 
Num treino de natação decidi medir forças com um amigo, triatleta profissional. Simples: nadei uns 400 metros lutando para não desmaiar. De novo, coloquei meu coração num limite que não deveria.

A brincadeira para Visconde de Mauá são 960 metros de aclive até o topo da montanha e mais 420 de declive até a vila. Subi consciente, cheguei bem cansado, bem cansado. Quando começou a descida aí caiu a ficha em qual limite meu corpo estava. Na vila acabaram as forças. Demorei um bom tempo para normalizar o cardiorrespiratorio, bem mais que o normal.

Estabilizei, almocei, peguei carona de volta, e terminado o dia estava muito mais inteiro do que imaginava e minha experiência diz que deveria estar. 
A noite fui para a cama sem cãibras, o que depois de tudo não é normal. Enfim, foi ótimo. Dormi bem.

Dia seguinte "o cu do cupido está entupido". Não quero relembrar. Posso dizer que no meio do horror, e toca horror, meu coração chegou muito próximo do limite, mas um limite aterrorizante onde você vira passageiro do estado clínico. Não há forma de conseguir baixar o cardiorrespiratorio, pelo menos não tenho prática, e não pretendo ter.
Resolvido o problema constrangedor, leve feito uma pena, comecei a sentir um leve estiramento no adutor. Só pode ser piada, depois de sair bem da heroica subida da serra, vou sentir a perna no trono?


Sai de São Paulo com a ideia de ver como estava subindo para Visconde de Mauá, descansar uns dias, partir para o Rio e subir o Cristo Redentor. Micou de cara. Uma tromba d'água encheu Penedo logo na  minha chegada. Resultado numa roupa empapada e bunda suja de terra. As notícias sobre tempestades e enchentes fizeram o Cristo Redentor ficar para um dia quem sabe. 
Aliás, nunca fiz uma viagem com tantas intercorrências, no sentido médico e figurativo, quanto esta. Até uma garrafa de mel partiu-se ao meio quase do nada. Vivendo e aprendendo.


* José A B C, grande amigo, disparou no meio de uma aula de religião "o cu do cupido está entupido". O padre, que era uma fera, ouviu, virou-se e seguiu-se uma explosão de gargalhadas da gurizada que demorou para ser controlada. Zé quase foi expulso do colégio, até porque a frase virou hino de guerra nas aulas chatérrimas de religião.


domingo, 8 de março de 2026

"Não adianta falar. Eles não entendem"

Ontem pedi informações sobre dados detalhados de trânsito para uma pessoa que está na coisa pública e tem possibilidade de consegui-los na CET. Em específico, curva de carga de trânsito, horários e locais, para ver novas possibilidades de caminhos alternativos para ciclistas e dar ferramentas de organização para os passeios noturnos. O número de passeios noturnos diminuiu porque dependendo do local e horário de saída o pessoal simplesmente não consegue pedalar. A cada dia aumenta a saturação de carros das ruas e mesmo ciclistas não tem mais espaço para seguir em frente.  Foi um baile até ela entender sobre o que eu estava falando, e a hora que entendeu sua expressão mudou de "o que este cara está falando?" para uma expressão com um jeitinho um tanto "este cara é louco".
E uns dias depois ampliei o pedido para curva de carga de trânsito, horários e locais, valor agregado por veículo, e no rosto dela a expressão passou para um "não acredito, quem interna este fdp!". Mesmo assim recebi como resposta, imediata, tiro certo, que é muito provável que a CET não tem estes dados por falta de pessoal. Deprimente.

Dois depois deste pedido, uma aula de expressão facial, encontrei uma das peças mais atuantes dentro do poder público e fiz o mesmo pedido, contando que já havia pedido o mesmo para outra pessoa, que ela conhece. Ela se interessou, disse que vai ver o que consegue, e sobre a cara de espanto do outro com minha demanda ela deu o tiro: "Não adianta, eles não entendem". Eles quem? "Todos". Ah, ok.

Eu, Renata, Sérgio, e outros tantos pre históricos da bicicleta, tivemos num passado distante inúmeras vezes a mesma experiência que tive desta vez, uma cara de incompreensão seguida de um risinho inconfundível que diz com todas as letras "este cara é completamente maluco, é um idiota". Era e continua sendo uma reação socialmente quase pré estabelecida para tudo que é ou parece ser, ou se quer incompreensível. Dependendo sobre o que se entrava a fundo, antigamente o pessoal ouvia com atenção e fazia de conta que estava interessado ou queria entender. No caso da bicicleta normalmente o martelo estava batido no discurso corrente "bicicleta é coisa de pobre", então era ponto pacífico "este cara (o que está falando sobre bicicletas) é um idiota". 
Para muitos assuntos a reação era mesma, principalmente para aqueles onde havia esta distinção 'inteligentíssima', direi eu, entre pobres e ricos.

Tudo muda. Com tempo a bicicleta passou de assunto 'desinteressante e até desagradável' para um tema que hoje levanta a orelha geral. 
Faz um bom tempo, numa reunião de família, um primo, que sempre fizera bullying sobre meu gosto pela bicicleta, pediu orientação sobre que bicicleta comprar. Infelizmente eu caí na gargalhada e tirei um sarro sem tamanho e em voz um tanto alta que os mais próximos ouviram. Ou, rebati a bola com força e mach point para mim, ele e todos que haviam ridicularizado a bicicleta por tanto tempo de certa forma engoliram o próprio "maluco e idiota" estampado durante anos em suas caras e falas.

Falo aqui sobre bicicletas, mas este desinteresse por muitos assuntos continua igual, com as mesmas reações.

A piãozada se empoderou. Passaram de meros "ignorantes, analfabetos" para os donos da situação. Não que no geral tenham mudado, aliás, mudaram, para pior. Num passado distante eram cuidadosos, respeitosos, a maioria fazia um serviço bem feito, com orgulho do esmero, e terminavam o que estavam fazendo. Hoje, além da "rebiboca da parafuseta" que quem contrata tem que engolir, ou não resolvem o problema, quando resolvem.

"Não adianta falar, eles não entendem", ouvi sobre esta baderna bandalheira asquerosa do Banco Master.

Quem não entende? Todos nós, sem exceção.
Afinal, quem é o idiota nestas histórias?
Não responda que fico deprimido.

Com jeito de comemoração, ouvi "A empresa é ótima, não dá para acreditar. Entraram, fizeram o serviço rápido (a troca de uma coluna de esgoto em dois apartamentos), saíram, e quando fui conferir se estava tudo certo não dava para ver onde eles tinham realizado o trabalho". Deveria ser regra, mas não é. Geralmente entram, quebram tudo, transformam o ambiente em cenário de guerra, fecham rapidinho do jeito que for e saem correndo deixando para trás "tá tudo limpo" tipo cracolândia. 

Eu adoro a expressão "rebiboca da parafuseta", define bem o que nos tornamos, contratantes e contratados. Reboca da parafuseta é um retratos fiéis deste país. Estou errado? Vide nosso índice de produtividade e qualidade, e porque não dizer, no roubo e na corrupção. Fato é que só nós, o povo, estamos nesta contramão.

Publicado no Estadão em artigo opinião de Demi Getschko sobre diferenças de respostas do IA:
É da expectativa humana que, a toda pergunta, se houver uma resposta supostamente correta, ela tenderá a ser única. Pode ser difícil cavar essa resposta no universo do conhecimento, mas, escondida em algum canto, ela seria fixa.