sexta-feira, 19 de julho de 2019

Fez bem no passado, estará bem no futuro

Comprovei que estava ficando velhinho quando numa largada de prova fui ultrapassado por uma gurizada que mais pareciam foguetes. A princípio não entendi nada, mas caiu minha ficha e comecei a gritar as gargalhadas para aquela massa de foguetes "Vocês não respeitam os mais velhos?" Era o que me restava. Em seguida começou a chuva, ficou escorregadio, e a situação ficou de igual para igual, ou melhor para mim com os guris apanhando do barro ou indo para o chão.
Hoje, até com os pentelhos brancos, me divirto de vez em quando dando chinelada na molecada e em alguns marmanjos com suas bicicletas caras. Ah! a experiência! Lógico que não dá para ir muito longe, brincar por muito tempo, mas dá para perturbar o outro, o que acaba lavando a alma. Tenho meu momento, meu ego sorri, volto para casa leve porque o velhinho ainda está vivo e bem. 
Pedalar é a arte da suavidade, suavidade é técnica em estado de arte, só se chega a arte com disciplina trabalho e trabalho, disciplina é autoconhecimento e autorrespeito, enfim maturidade.
Sou menos disciplinado, ou menos neurótico com disciplina, do que era quando tinha lá meus 30 e poucos anos. Aos 30 olhava demais a técnica de pedal e menos do que deveria para o respeito ao próprio corpo. Abusei, sem dúvidas, e abusar é uma besteira. E algumas vezes fiz menos que poderia por erro de avaliação. Talvez porque ter boas informações disponíveis não era tão fácil na época. Hoje não me resta dúvida que ficar no meio termo, o do bem estar, faz milagres. De qualquer forma só tenho que agradecer por ter sempre procurado pedalar da melhor forma / qualidade possível. Quando se cuida ou faz bem no começo se tem bons resultados no final. Meu corpo agradece os cuidados tomados no passado assim como meu pedal agradece o respeito à técnica que sempre tive.

Do Budismo para o ciclista:
  1. compreenção correta
  2. aspiração correta
  3. fala (comunicação) correta
  4. conduta correta
  5. meio de subsistência correta
  6. esforço correta
  7. atenção correta
  8. contemplação correta

quarta-feira, 17 de julho de 2019

erros de técnica de pedal

O que é conduzir bem um veículo? Para quem teve sempre uma ligação próxima com automobilismo de competição a resposta é relativamente fácil. Envolve uma série de fatores que podem ser resumidos em ter um veículo em prefeito estado de funcionamento e usar de técnicas de condução corretas, o que por sua vez quer dizer respeitar a máquina, sua condição física e psicológica e finalmente o ambiente onde você está. Prever correto, olhar correto, pensar correto, agir correto; parafraseando princípios do Budismo. Quem respeita estas regras dificilmente se envolve ou é responsável por acidentes.

Qualquer veículo mal conduzido é perigoso. E não tenha dúvida que é, principalmente em veículos de equilíbrio precário como bicicletas. No pedal é crucial respeitar regras básicas ou se acaba no chão. O exemplo mais simples: saber parar corretamente a bicicleta; ou seja, frear com suavidade e manter os pés bem apoiados nos pedais até a bicicleta de parar por completo. Segundo médicos de PA (Pronto Atendimento, o antigo Pronto Socorro) o número de crianças acidentadas por não saber parar corretamente a bicicleta é grande. Acaba sendo a mesma situação que quando desce do skate em velocidade. Chão feio!
Amo pedalar e como qualquer ser humano normal prezo não tomar tombo ou sofrer acidentes. Enquanto estou pedalando fico atento a minha qualidade de pedal e a meus erros. Pedalo seguido a 42 anos e sei que tenho muito a aprender. Li muito. Não tive vergonha de ouvir recomendações e até mesmo broncas de ciclistas profissionais respeitados, e de seus técnicos. Por sorte tive uma preciosa base técnica vinda do automobilismo (e motociclismo) que me ajudou muito. Boa parte das técnicas são aplicáveis para todos tipos de veículos. Antecipação, suavidade e respeito aos limites são as mais preciosas.
É impressionante a baixa qualidade de pedal dos ciclistas normais que circulam pela cidade, aqueles que pedalam para se transportar e os que pedalam por lazer. Infelizmente a maioria não aceita que você fale "a" sobre qualquer problema, até mesmo os mais gritantes. Pena. Ou triste, muito triste. 

Quanto mais sei, mais sei que nada sei.
Sou humano, brasileiro, tenho ego como todos, sou um tanto cabeça dura, em parte por minha larga experiência. Mas a cada dia tenho mais certeza que nada sei, e este é o bom caminho para tentar pedalar cada dia com mais qualidade.

Bom pedal

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vergonha! A Prova 9 de Julho de 2019 não foi realizada.


Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Hoje pela manha bem cedo deveria ter acontecido mais uma etapa da Prova 9 de Julho, uma das mais tradicionais provas de ciclismo do Brasil. Não aconteceu. É uma vergonha, e não só para o esporte ou para o ciclismo. Os organizadores da tradicional prova alegaram que não tiveram condição de realizar a edição deste ano e ponto final, mais um ano sem 9 de Julho. Para quem não sabe ou nunca esteve lá para ver, não é uma prova de ciclismo qualquer, mas um evento público tradicional que faz parte da história não só do ciclismo, mas de São Paulo. Já foi primeira página de jornal, já foi transmitida por rádio e TV, teve grande público, como de final de futebol, quase morreu, mas vinha crescendo firme nestes últimos anos, com um número para lá de expressivo de participantes profissionais e amadores, e um público assistente nas ruas a cada ano mais presente e entusiasmado. Os custos para realização de uma prova destas não é pequeno e envolve entidades privadas e a Prefeitura. Agora, os custos de não realizar uma 9 de Julho ou qualquer outro evento de cunho social e histórico é imenso. Só se tem uma estrutura social estável, que vive em paz e constrói bom futuro, quando suas tradições são respeitadas. Mais ainda, no exato momento que se discute o futuro das mobilidades ativas em São Paulo, suspender "o" evento ciclístico do ano é um contra-senso sem tamanho. A bem dizer é uma burrice inominável.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O ciclista trabalhador na contramão não tem outro caminho

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

É impressionante a quantidade de ciclistas passando pela contramão e na estreita calçada na av. Cidade Jardim esquina com a rua Dr. Mário Ferraz, a maioria trabalhadores de baixa renda voltando para casa. Moram do outro lado do rio e só conseguem ter acesso ao Centro Expandido, onde está a maioria dos empregos, por ai e assim. A enorme ponte estaiada, orgulho paulistano, está exatamente em frente a grande favela Real Parque, poderia dar acesso ao corredor de ônibus e ciclovia Berrini, mas simplesmente não permite a passagem de pedestres e ciclistas. A ciclovia do rio Pinheiros que passa sob a ponte também é inacessível ai. O número de ciclistas indo ao trabalho pela contramão da Marginal Pinheiros entre a favela e ponte Cidade Jardim também impressiona. Para os pedestres resta ou longa caminhada até a ponte mais próxima que está longe ou encarar lotados ônibus. CPTM também está do outro lado do rio. É assim para boa parte dos moradores do lado de lá do rio Pinheiros. O problema é mais ou menos igual em todo São Paulo, mas quem se interessa? A mobilidade paulistana é tratada pontualmente, como no caso recente dos patinetes, e não com uma visão séria, realista, para todos, que vise resolver problemas macro que são ou vão se tornar crônicos.


A ciclovia rio Pinheiros não só poderia, como deveria, ter acessos em todas as pontes para evitar que ciclistas se lancem ao perigo da Marginal, o que fazem hoje e é fácil de comprovar. Várias questões dificultam a instalação destes acessos: custo e falta de espaço talvez sejam os principais O poder decisório olha qualquer projeto pelo lado custo / benefício. Não temos ainda a cultura do custo hoje / benefício futuro no que diz respeito a mobilidade. As demandas imediatas são enormes, como a dos transportes de massa, e no meio da crise brutal que vivemos a decisão cai sobre o prioritário urgentíssimo e nada mais. Acessos e pontes para ciclistas custam muito e são difíceis de justificar para o povão. "Vão gastar com bicicleta e não vão consertar buracos no corredor de ônibus", para citar um mínimo exemplo.

Alguns acessos poderiam ser resolvidos de maneira não convencionais, sem grandes gastos ou obras, o que o poder público não costuma aceitar por razões legais e outras mais. Infelizmente há um forte corporativismo em torno da mesmice, e bota mesmice nisso. Bom exemplo pode ser do acesso a ponte e avenida João Dias, hoje uma realidade criada pelos ciclistas. Eles abriram um buraco na cerca, passam por estreito espaço entre as paredes da ponte, pulam esta parede e cruzam dois acessos de alta velocidade da marginal para bairros de baixa renda: Jardim São Luís, Jardim Ângela, Capão Redondo, Campo Limpo, Taboão... O número de ciclistas aí só faz crescer. Houvesse flexibilidade por parte do poder público seria possível oficializar este acesso com obras e ações de engenharia de trânsito, mas não há, e estamos a um ano luz disto. Os ciclistas continuarão a se arriscar muito neste local para seguir viagem com segurança e rapidez pela ciclovia, que é a maior parte de seus trajetos, num cálculo próprio de custo / benefício bem sensato. Situações como esta se repetem por toda cidade, com diversos graus de periculosidade. 

Na outra ponta da ciclovia do rio Pinheiros, ao lado da ponte Jaguaré, uma passarela que ligaria ao Parque Villa Lobos e ao Jaguaré e Osasco, caminho de vários trabalhadores, permanece desmontada e jogada ao relento faz muito. Está debaixo do viaduto que cedeu faz uns meses, em frente ao Parque Villa Lobos, por onde acessariam os ciclistas. Talvez quando for consumida pela ferrugem digam que não serve mais e abram uma nova licitação para um novo acesso, o que não seria o primeiro caso do gênero.

"Todos somos pedestres", sempre diz Reginaldo Paiva

Mesmo todos sendo pedestres o poder público não foi e continua não sendo capaz de resolver problemas crônicos dos pedestres, que são inúmeros, dos mais diversos tipos, alguns graves.
As calçadas que ligam a Estação Vila Olímpia CPTM, que está na Marginal Pinheiros, ao interior do bairro são muito estreitas e obrigam os pedestres trabalhadores a caminhar no meio das também estreitas ruas. Em horário de pico o que se vê é um absurdo que demandaria medidas urgentes, mas nada. Ao lado da estação há um acesso à ciclovia do rio Pinheiros por meio de uma perigosa escada que já causou vários acidentes com ciclistas usando sapatilha com taco. Também é óbvio que os ciclistas entram em conflito com os pedestres. O detalhe é que a rua é indicada como um dos acessos dos carros à marginal. Enfim, viva o caos. Que se dane os pedestres.

Pedestres e ciclistas têm seus caminhos naturais que na medida do possível devem ser respeitados. Normalmente é o caminho mais curto e sensato. As cidades onde a mobilidade ativa está sendo construída com bons resultados dá prioridade a pedestres e ciclistas, nesta ordem. Aqui não. O fato é que nossa engenharia de trânsito ainda é obsoleta, rodoviarista, muitas vezes perigosa, muito perigosa. E estou sendo bonzinho.

domingo, 23 de junho de 2019

Crianças pequenas vendendo balas no sinal


Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Faz muito tempo que crianças pequenas, todas com menos de 7 ou 8 anos, algumas com 4 anos, se tanto, vem colocando sacos de balas nos espelhos dos carros que esperam abrir o sinal da av. Nove de Julho esquina com av. Brasil. A situação é completo absurda por si só, mais absurda ainda quando este cruzamento é um dos caminhos preferenciais para a Câmara dos Vereadores, a Prefeitura de São Paulo, e pela av. Brasil para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. É impossível acreditar que nenhum político, o próprio Prefeito, seus assessores, e ou Deputados Estaduais nunca tenham visto a situação que já vem de anos. A sede de um dos principais partidos políticos do Brasil (PTB) fica a menos de 50 metros da esquina. Com tanta autoridade passando por lá precisa denunciar? O "pai" das crianças outro dias colocou mais alguns para também trabalhar na esquina da rua Venezuela com av. Brasil, todos muito pequenos. O negócio deve ser lucrativo. É fácil identificar o "pai", só não o viu quem não se interessa pelas crianças. Hoje é domingo e lá estão 5 deles "trabalhando" no meio dos carros. Pelo jeito esta situação só se resolverá quando um deles for atropelado e morrer. Aí vira uma gritaria e a culpa será do motorista ou motociclista.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

"obra de arte" brasileiro


O sonho de todo brasileiro é ter um ponte estaiada na sua cidade. São José dos Campos é o exemplo mais recente deste desejo tupiniquim e terá a sua em breve no meio da área rica da cidade, justo ao lado do mais chic shopping center. Bingo! São Paulo é muito importante e tem duas pontes estaiadas, a mais famosa e publicitada, o grande X da questão na Marginal Pinheiros com av. Roberto Marinho, ex Águas Espraiadas, e outra bem menor e mais simples, mas ainda assim estaiada, na Marginal Tiete com av. do Estado, pertinho da ponte das Bandeiras. 
Não gosto de pontes estaiadas, prefiro ver o horizonte, o que as pontes tradicionais permitem por serem baixas, ao contrário das estaiadas. A vista de cima das tradicionais é livre, roda-se o corpo e é possível ver em 360º, horizonte completo.
Dá para entender esta paixão nacional estaiada. As ditas obras de arte, seja lá o que isto queria dizer, incluem pontes, e convenhamos que as pontes tradicionais que temos por aqui só podem ser arte para engenheiros de prancheta. Provavelmente sonharam em fazer arquitetura, voar livre, virar artista plástico famoso formado pela FAU, mas acabaram bons artistas em cálculos e desenhos pranchetas. Nada contra, mas falta ousadia, mas muita ousadia mesmo, desbunde. Os projetos de engenharia brasileiros são muito respeitados lá fora, mas aqui falta muito para poderem ser chamados de interessantes, agradáveis. Talvez a Lei de Licitação , a famosa 8.666, a lei do infinito apocalipse, como diz seu número, atrapalhe um tanto, mas de resto estamos a um ano luz para nossa engenharia produzir "obra de arte". Mas como eles são os donos da bola, nós cá ou chamamos de obra de arte ou não tem jogo. E concluída a obra de arte, leia-se ponte, esquece manutenção, palavra inexistente no dicionário da administração pública. Aí algumas "obras de arte" que até são bacanas, bem projetadas, delicadas, esteticamente equilibradas, com um que de arte, mas de tão descuidadas que só podem ser chamadas de engenharia. 

E nesta toada, a dos donos da bola, agora outros, os da bicicleta, foram pintados caminhos no asfalto ou no cimento que um dia cobriu jardins e gramados. Eu quero pedalar, o resto que se dane. A ironia é que são ambientalistas, mesmo quando o canteiro central verde dá lugar ao cimento vermelho da ciclovia. 
Não era para ser assim. Teve gente por aqui que sonhou. 
O link acima, na primeira linha, é sobre a Bienal de Arquitetura para Bicicletas (tradução porca). Não custa sonhar. Ou ficar com raiva.

sábado, 15 de junho de 2019

Pequeno histórico paulistano dos descaminhos do transporte e mobilidades:

Patinete ou no patinete, eis a questão. Minhocão ou não minhocão, eis a questão. Quadro viagens ou duas viagens, eis a questão. Monotrilho ou não monotrilho, eis a questão. Indecisão, eis a questão. 
Não decide quem não sabe sobre o que está falando nem para onde está indo.

Ponto de partida para tentar entender a baderna que vivemos no transporte e mobilidades: A lei diz que a qualidade e manutenção das calçadas é responsabilidade direta do proprietário do lote lindeiro; ou seja, o poder público não está nem aí e calçada é de ninguém. Como definir o que queremos no transporte e mobilidades se sequer entendemos a importância capital de ter calçadas por onde seguir um caminho tranquilo e seguro?

A verdade definitiva é que não temos políticas de estado, aquela que é estabelecida como norte do futuro de nossas vidas. Vamos ao bel prazer dos ventos, sem rumo, sem destino, ao sabor das ondas e marés. No transporte não é diferente, e agora também nas mobilidades. Onde estamos e para onde queremos ir, eis a questão fácil de responder: deste jeito para lugar nenhum. Ou para o abismo. Escolha.

Transporte e principalmente mobilidade depende integralmente do que é e se pretende com a cidade, ou seja, com a vida coletiva. Se inexiste sentido claro sobre o que cada um de nós, como indivíduos, desejamos do coletivo, inexiste uma noção clara e proveitosa sobre o que é rua, bairro, cidade. "A calçada é minha (individual) e faço o que quiser (como o coletivo). O vizinho faça o que quiser, não é meu problema e nem vou falar nada. O poder público não fiscaliza mesmo". Resumo: a cidade não existe.
A reboque da calçada de ninguém vem o direito de ir e vir, liberdade, justiça social, educação e saúde, pontos pacíficos para a construção de um futuro melhor. Vocês tem filhos, netos, sobrinhos...?

Pequeno histórico paulistano dos descaminhos do transporte e mobilidades:

1933 Prestes Maia cria o Plano de Avenidas de São Paulo, propondo derrubar todo Centro e reconstruí-lo com grandes avenidas radiais, um delírio sob inspiração da renovação de Paris de Haussmann em 1852. O projeto de Prestes Maia incluía metro na cidade, que só se tornou realidade a partir de 1968 no Governo Abreu Sodré com início da construção da primeira linha de Metro, ou seja, 35 anos depois. Como detalhe, a estação Sé na época foi considerada um absurdo de grande. Pouco tempo depois de sua inauguração a Sé já estava saturada.
Veja desenhos e explicações em:

1971 Paulo Maluf, que vendia elevados como solução para o trânsito, inaugura o Minhocão. Na época um grupo de urbanistas fez pesadas críticas ao projeto tendo como referências o que estava acontecendo em outras cidades do mundo, mas nem mesmo eles poderiam imaginar o nível de degradação que o Minhocão causaria não só em seu entorno, mas em todo Centro de São Paulo. Maluf até hoje é elogiado por suas obras, mesmo que boa parte delas tenha problemas e se sabe muito dinheiro...

1974 Figueiredo Feraz inicia a construção da "Nova (av) Paulista" criando um boulevard que faria que veículos cruzassem a avenida numa via expressa subterrânea. Também prevista ali a construção de uma linha de metro. Do projeto só restam dois quarteirões mais o cruzamento por baixo da av. Consolação. Tivessem terminado o projeto a interdição da Paulista para a população teria acontecido faz décadas. Mais, o boulevard estimularia mais vida que temos hoje neste ponto central da vida paulistana. http://www.saopauloinfoco.com.br/a-nova-paulista-e-o-calcadao-que-nao-deu-certo/

1974 - 1992 Alguns projetos de ciclovias são criados, mas o único colocado em prática foi o da av. Juscelino Kubistchek que ligava nada a lugar nenhum. Dos projetos que mereceram mais atenção e o único que quase saiu do papel foi a ciclovia de ligação entre o Parque do Ibirapuera e Cidade Universitária da USP passando pela JK. Tanto o alto custo da ponte sobre o rio Pinheiros quanto a confusão jurídica do então Parque do Povo, por onde a ciclovia teria que passar, derrubaram o projeto. Provavelmente na mesma época surgiu a ideia de uma ciclovia acompanhando o rio Pinheiros, mas também pela confusão jurídica de quem manda na área o projeto se arrastou até morrer com a inauguração da ciclovia na outra margem do rio.

1982 Projeto de Viabilização de Bicicletas como Modo de Transporte, Esporte e Lazer para o Estado de São Paulo entra no Programa de Governo Franco Montoro. A proposta prevê desde a reorganização do setor da bicicleta até a melhor forma de fomentar o uso da bicicleta nas cidades, com preocupação com a melhora da qualidade de vida no interno de bairros. Propõe uma base legal tanto no CTB quanto para as questões urbanas e de qualidade da bicicleta. Propõe também um projeto completo para a cidade de São Paulo baseado em longa pesquisa de campo, não só o sistema cicloviário, mas a educação dos ciclistas, correções no setor, leis, metodologia...

1993 é apresentado para a Prefeitura de São Paulo o Projeto de Viabilização com um desenho básico de mais de 250 km de sistema cicloviário que incluiria ciclovias, ciclofaixas e acalmamento de trânsito, sinalização completa, educação dos ciclistas e leis. Covas, o Prefeito, aprova, mas o projeto é duramente rejeitado pela CET SP
1986 Jânio Quadros deforma os corredores de ônibus, projetos e iniciados na gestão Mário Covas, o que causa a completa deterioração das avenidas Santo Amaro e Celso Garcia. O projeto original, aos moldes do bem sucedido sistema de ônibus de Curitiba, previa quatro terminais de integração e a circulação exclusiva de ônibus articulados nestas avenidas. 

1990 Luiza Erundina manda aterrar as obras do boulevard Juscelino Kubistchek iniciadas pelo Prefeito Jânio Quadros. Hoje teríamos duas avenidas importantes abertas para a população, a Paulista e a JK. Enrundina reconhece em entrevista que este foi seu maior erro como Prefeita.

1994 Maluf cria o Projeto Ciclista dentro da Secretaria de Verde e Meio Ambiente comandada por Werner Zulauf. Gunter Bantel é o responsável por tocar o Projeto

2005 Projeto GEF - Banco Mundial para fomento do uso de bicicletas na periferia, para transporte de população trabalhadora de baixa renda. 

2007 Walter Feldman da Secretaria de Esporte e Lazer de São Paulo cria a Ciclo Faixa de Domingo  São Paulo com apoio de Eduardo Jorge da SVMA. O sucesso é imediato.

2007 José Serra, Governador do Estado, cria da ciclovia do rio Pinheiros  

2012 Haddad propõe e entrega mais de 400 km de ciclovias, que na realidade são ciclovias, ciclofaixas e rotas para ciclistas

2017 Dória para todo processo de construção das ciclovias e ciclofaixas para avaliar e reorganizar o processo. Ciclovias ou ciclofaixas ou urgência de um plano diretor para mobilidades?

Planos diretores? Quantos? No que resultaram? Foram respeitados?

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O fim das pedras portuguesas no calçamento do Centro de São Paulo

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A substituição das pedras portuguesas do calçamento do Centro de São Paulo por um calçamento em concreto ou em peças pré fabricadas provavelmente será bem vinda pela população, mas prova a despreocupação do poder público com nossa história e tradição de belos calçamentos decorados com os mais diversos motivos que só as pedras portuguesas proporcionam. A incapacidade de manter as calçadas em bom estado, seja pedras portuguesas ou qualquer outro material, tem várias razões principalmente a falta de calceteiros, especialistas em construção de calçadas, vital profissão por aqui completamente esquecida. De qualquer forma espero que a garantia exigida seja mais longa, possível de ser acionada que da reconstrução dos Largos de Pinheiros e Batata e algumas ruas do baixo Pinheiros, onde desde a inauguração as pedras começaram soltar e não pararam mais, encontrando-se hoje em péssima condição. A Prefeitura reconheu recentemente o descontrole sobre a qualidade dos trabalhos de concessionárias que abrem buracos e depois tapam de qualquer jeito. Espero que não seja só retórica. Antes é necessário que a tubulação enterrada sob a calçada tenha ótima qualidade de projeto e execução, e mapas de subsolo precisos sob a responsabilidade da Prefeitura, o que hoje não acontece. Cada consecionária tem seus próprios mapas, o que torna comum uma acertar e arruinar o que é de outra. Sem estes mínimos cuidados não se evitará novos buracos e a rápida degradação do calçamento. Calçadas perfeitas ajudará muito na tão esperada recuperação do Centro de São Paulo - ou de qualquer outra rua. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Sem patinetes, com patinetes, sem...


Atropelado por outras notícias sobre segurança no trânsito, as mais variadas, deixei este texto nos rascunhos. Sem os patinetes é coisa do passado, eles estão de volta para ficar. A vida é assim. Nada contra, muito pelo contrário.

O parágrafo abaixo ainda tem validade, mesmo passados mais de 10 dias:

Tem sido uma delícia pedalar na ciclovia da Faria Lima, prazer que havia até esquecido. A razão é simples: a ciclovia está vazia porque estão dando um rapa nos patinetes. O título da matéria no O Estado de São Paulo do hoje, 31 de Maio de 2019, página A20, Metrópole, "Empresa de patinete não fica acima da lei, diz Covas (o Prefeito)", diz tudo: as empresas donas dos patinetes não legalizaram os mesmos, não tinham autorização para colocar milhares no meio do trânsito. Tenho dito e repito: a questão da mobilidade não pode ser resolvida de qualquer forma ou a qualquer custo. O que está acontecendo com os patinetes é mais um caso emblemático da improvisação que é tratado trânsito e mobilidade aqui em São Paulo. Aliás em todo planeta.

O problema começa porque simplesmente as leis de trânsito ainda não sabem o que fazer com estas coisas novas, as novíssimas geringonças movidas a motor elétrico e aplicativos. Na rua não dá por "n" razões de segurança principalmente o diferencial de velocidade para os carros e quase invisibilidade para o motorista dos patinetes e seus condutores; calçada é e deve continuar sendo para pedestres; e nas ciclovias vira mais bagunça que já é. Como a lei não responde o patinete vai por onde der, que se dane os outros. E os inúmeros acidentes não param de crescer. Então, o que se faz? Boa pergunta. É certo que se acredita ser uma boa opção de mobilidade. Será?

Patinete tem muito de contracultura, mas também de salve-se quem puder. Ninguém acredita mais em solução pelas vias normais, principalmente nestas pastagens sempre melancólicas, lentas, muito lentas, isto quando chegam. Contracultura não é nenhuma novidade. "Se a lei (ou regra, ou cultura, ou...) é injusta desobedecer é uma virtude". Bicicleta já rodou por aí, o automóvel também. A questão é como se faz uma boa ideia se tornar viável e prática, com mais benefícios que custos. Faz e depois a gente acerta, um pouco da contracultura, neste país do improviso tem tudo para criar novos problemas, como está mais que provado. Por outro lado, aceitar que uma empresa simplesmente resolva seu problema imediato e que se foda o resto, como acontece com as mobilidades de aplicativo, é aceitar o capitalista selvagem em nome do social, e porque não dizer do socialismo.

Porque estão parando ou proibindo patinetes em todas as partes do planeta se eles são mais uma possível solução? Para começar patinetes tem um altíssimo custo para a saúde pública, os hospitais estão metendo a boca no trombone. O número de acidentes vai diminuir com o tempo? Provavelmente sim, diz a história da bicicleta. Os usuários se acostumam, aprendem com os erros, a novidade passa, diminui o entusiasmo, o povo vai ficando mais cuidadoso, sabendo o quanto dói um tombo, e diminuem os acidentes. A diferença do patinete para a bicicleta é o nível de instabilidade de qualquer patinete ou outras geringonças elétricas de rodas bem pequenas. As empresas de aplicativos estão preocupadas? Responda você. E você, está preocupado?

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Bolsonaro e o trânsito: sem dados só baboseira

Fórum do Leitor 
O Estado de São Paulo

Está na primeira página do Estadão: Em SP, só 6.3% dos motoristas têm mais de 20 pontos na CNH. Faz alguns anos o Governo Alemão divulgou uma pesquisa sobre como ia o respeito às leis pela população alemã e praticamente na mesma época que a CET de São Paulo divulgou seus dados. Eram praticamente iguais: 90% respeita as leis; uns 7% respeita, tem noção de limite, mas comete infrações que acreditam não ter maiores consequências; e finalmente uns 3% cometem infrações mais graves. E há um traço de pesquisa onde aparecem os sociopatas, os que não tem limite e cometem infrações gravíssimas. Os dados sobre acidentes, aqui ou em qualquer parte do planeta são parecidos e apontam que uma minoria é responsável pela maioria das infrações gravíssimos. Vários especialistas vem chamando atenção para o disparate das propostas de Bolsonaro, que no final vai privilegiar principalmente os maiores infratores. A questão é que baboseira mata. Morre-se as pencas no Brasil porque é difícil conseguir dados confiáveis, não por má fé, mas porque são pouco detalhados, falhos ou até inexistentes. A CET São Paulo é dos pouquíssimos órgãos do país que tem dados detalhados e confiáveis e que tem força para divulga-los. No geral não temos pessoal suficiente para atender os incidentes e acidentes, há falta crônica de corpo técnico e perícia, laboratórios e cruzamento de dados, que nos permitiriam ver a real situação. O resultado dá asas a qualquer populismo, como os de Bolsonaro.  

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bolsonaro, segurança no trânsito e o custo Brasil

Fórum do Leitor 
O Estado de São Paulo

Trânsito é o sistema legal mais básico e simples de ser compreendido. Sinal verde segue, sinal vermelho para, está escrito pare você para, placa redonda com um 50 grande no meio indica o limite de velocidade, assim por diante e simples assim. Entender e respeitar estas regras básicas é passo essencial para construir uma sociedade justa e pacífica, desejo de todos. Trânsito é reconhecido como um dos melhores indicadores de cidadania e civilidade. Segurança no trânsito se transformou em prioridade mundial não só pelas perdas de vidas e sequelas em acidentados, mas principalmente para o equilíbrio de contas públicas. Enquanto países altamente civilizados, sonho de consumo de todo brasileiro, falam em "acidente zero", Bolsonaro toma medidas de um populismo irresponsável de fazer inveja a Lula e Dilma que facilitarão a vida de infratores, aqueles que provocam acidentes, incluindo homicídios culposos ou dolosos. Bolsonaro diz que quer fazer o Brasil crescer, mas como se não resta a menor dúvida que violência no trânsito é fator altíssimo de custo Brasil? Deixo aqui o convite para uma visita a qualquer Pronto Atendimento Infantil para ver as inocentes vítimas de trânsito, algo que normalmente clareia ideias.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

USP proibida de novo


A USP colocou limites para os ciclistas que vão lá para treinar. Desta vez não baniram os ciclistas como da vez passada, mas colocaram regras claras para quem quer entrar na Cidade Universitária do Butantã e treinar com suas bicicletas de estrada. Desta vez não tenho meu irmão Murillo por aqui para me contar o que está acontecendo, mas da vez passada a paciência do Prefeito e da Diretoria estourou quando um ciclista partiu para cima de senhora que dirigia um carro e que, por ironia do destino, era casada com um dos conselheiros. Isto depois de uma semana quando um corredor (a pé) foi espancado por um ou mais ciclistas que vinham num pelotão. Naquele momento a USP estava recebendo no mínimo duas reclamações formais, no papel, contra os ciclistas, o que aqui neste país só acontece quando a situação extrapolou qualquer limite, e olha que o limite brasileiro é bem “largo”. Brigas com motoristas de ônibus, motoristas, pedestres e até mesmo com ciclistas tinham virado hábito. E a USP foi fechada. Na época fiquei feliz de ouvir de alguns ciclistas que “eles (ciclistas que treinam) tem que ir pedir desculpas (para a USP) e mudar o comportamento”.
Não faço ideia do que está acontecendo agora. Fui pedalar com amigos num começo de noite não faz muito e foi tranquilo, exceto na “bolinha”, a grande praça rotatória que fica no final da avenida da entrada principal da USP. Lá os ciclistas ficam dando voltas no entorno da praça a milhão. Thomaz teve a pachorra de contar quantos ciclistas passavam por volta e foram mais de 120, um senhor pelotão. O pessoal pedala muito rápido mantendo a esquerda e vai conversando descontraído, sem se preocupar com o trânsito, o que pode ter causado alguns conflitos. Nos fins de semana os ciclistas pedalam por todas as partes, principalmente na avenida da raia olímpica. Não resta dúvida que acalmaram, que os absurdos que se via antes do último fechamento diminuíram muito, mas ainda deve estar acontecendo algo não bom ou a USP não fecharia as portas de novo.
Vai restar treinar na ciclovia do rio Pinheiros. Sábados pela manha muitos ciclistas pegam pesado, achando que aquele espaço é exclusivo para eles, os que mantém média maior que 30 km/h. Uns poucos, é verdade, vem aos gritos com os mais lentos e fazem ultrapassagens que o bom senso evitaria. Repete-se ali o pouco civilizado comportamento dos mesmos quando motoristas. Somos todos brasileiros.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

64 anos, 14º de 678?


Num domingo destes participei de uma corrida a pé beneficente para a Graac. Estou descobrindo agora, muito tarde, o grande prazer de me inscrever nestas corridas. O ambiente amigável me lembra muito o início do mountain bike no Brasil quanto todos se conheciam e as rivalidades eram resolvidas na boa gozação. 
O que me assustou foi meu resultado. Dizem eles que fui o 14º em 678 da minha categoria, 64 anos, para 5 km. Eu duvido, e tenho minhas boas razões para duvidar. Sei quanto corro, qual é meu condicionamento atual, assim como sei que estou mais próximo de uma lesma usando bengalas, ou seja, um pouco mais rápido do que caminhando. Na corrida fui ultrapassado por uma senhora de seus 70 e muitos anos e achei supernatural. Me assusta o resultado porque, tirando a própria gozação, se a cronometragem está correta e fui o 14º na minha categoria o sinal é muito claro: o condicionamento do pessoal vai mal.
Faz uns meses participei de minha primeira corrida a pé beneficente, pró Hospital A C Camargo. Neste fui o 36º na categoria, para 8 km, o que também não faz sentido, mesmo num tipo de evento onde o foco é o encontro, a diversão, zero competição. Ou faz sentido se, de novo, o condicionamento físico do pessoal estiver mal. 
O que me incomoda é o que diz respeito à saúde pública e a reboque a saúde das cidades brasileiras. Felizmente o povão vem se mexendo e melhorando sua condição física, o que é ótimo para a saúde individual e coletiva. As cidades brasileiras também estão mais preocupadas em abrir espaços para o povo fazer seus exercícios, pedalar, dar suas corridinhas, mas ainda estamos muito longe do mínimo ideal. Nossos índices de área verde por habitante nas cidades é muito ruim, bem abaixo do índice considerado ideal pela UNESCO.
Ouvi de um participante de uma etapa amadora do Tour de France que ficou impressionadíssimo com o nível de todos ciclistas, incluindo idosos e velhinhos. Ele foi muito bem preparado, se comparado com o que pedalam aqui, e não acreditou quando não conseguia acompanhar ciclistas da idade do pai dele. Eu várias vezes pendurei a língua para acompanhar velhinhos e velhinhas holandeses pedalando suas Old Dutch sem marcha. Já corri a pé lá fora, mas nunca acompanhado ou em local que poderia dar uma base de comparação com os daqui, mas fico imaginando que sejam mais rápidos. Lá é muito mais fácil e seguro sair para rua e simplesmente correr ou treinar. O trânsito é muito mais amigável, o número de parques é maior e sempre há algum por perto. A poluição é muito, mas muito mesmo, menor que a nossa. Enfim, tudo joga a favor.

terça-feira, 21 de maio de 2019

sinal apagado

Em pleno domingo de av. Paulista fechada para veículos e lotada de pedestres, ciclistas, crianças, patinetes e outros circulando para todos lados, o semáforo do cruzamento com a av. Consolação apagou. Rapidamente juntou um povão para cruzar a rápida e movimentada avenida de trânsito que nunca para. Ao meu lado esperava uma brecha ou um golpe de sorte para cruzar sem ser atropelado um professor de uma das principais universidades do país. Impacientes com a demora sem fim, a massa se lançou pela faixa de pedestres, uma alma bondosa parou seu carro, outra mais, e assim foi indo até que todos conseguimos chegar sãos e salvos do outro lado. No meio desta operação de guerra reclamei da situação precária dos semáforos de São Paulo, o professor ao meu lado ouviu, concordou. Quando afirmei que não trocarem os semáforos era responsabilidade direta da população que não faz pressão, ele discordou e partir daí começamos uma longa e proveitosa conversa sobre a situação geral que vivemos. Ele jogou a responsabilidade destes problemas para os que tem poder de mudança, ou seja, governantes, e seguiu falando sobre a situação da educação e da saúde, para ele prioridade absolutas.

Custo direto e custo indireto, eis a questão. A bem da verdade sequer fazemos corretamente o cálculo de quanto vai custar, o que dizer sobre projeção futura e suas consequências. E no meio desta baderna generalizada fica muito difícil estabelecer as prioridades e deixar para trás o que parece - e é - correto, mas pode e deve esperar mais um pouco. Nunca consegui achar um livro sobre como são estabelecidas prioridades em situação de guerra, informação que nos seria valiosa nesta altura do campeonato.

Ele contou que alunos da cota que tem que dormir em leito hospitalar porque não tem condição de voltar para casa; o que é impróprio do ponto de vista da saúde e ilegal, mas fato. O drama de não conseguir voltar para casa todos dias não é novo. Faz muito tempo que o Centro de São Paulo está cheio de trabalhadores dormindo nas ruas porque não tem condições, tanto por tempo quanto por custo, de voltar diariamente para suas casas na periferia. O conforto de dormir em casa só nos fins de semana.
Junta-se a este drama que jovens vindos de áreas pobres não conseguem pensar em futuro. Para eles fica bom estar vivo mais um dia. Simples e trágico assim. No Jardim Ângela a média de vida da população local é de 56 anos, quando a nacional é de 72. Jovens pobres e negros são as principais vítimas da violência que é mais que notícia, é uma realidade brutal. E estes são boa parte dos estudantes que dormem em qualquer canto para conseguir terminar seus cursos universitários.
Os professores estão perdidos, não sabem o que fazer com esta nova realidade, até porque formaram-se num tempo onde a quase totalidade dos alunos vinham da classe média e sonhavam com um futuro – até porque havia futuro. Hoje os problemas são críticos e imediatos.

O que significa gastar com troca de semáforos? É prioridade? Mesmo no meio desta tragédia acredito que sim. Tenho várias razões para tanto, não só a proximidade com o tema. A primeira é diminuir os custos gerais da cidade, o que influencia diretamente no custo de todo e qualquer cidadão. Para a saúde semáforos funcionando melhoram significam uma sensível diminuição de atendimentos não só na ortopedia, mas em todas áreas. Só o número de atendimentos de emergência já deve justificar dar prioridade para os semáforos, ou seja, o preventivo. Há uma relação direta entre congestionamento e violência de todos tipos, o que se traduz em piora na produtividade no trabalho e escola, problemas diversos de saúde, degradação urbana... Os benefícios de um trânsito mais organizados são incontáveis. É preventivo, não é gasto para remediar.

São Paulo vem perdendo seu poder no cenário nacional e internacional, o que é uma tragédia não só para paulistanos. Porque investir numa cidade que não funciona? Ou se trata os principais males da cidade ou a situação geral fica muito pior que está. O mínimo que qualquer cidade tem que ter é fluidez ou ela morre sufocada.
Detroit: o supremo dos Estados Unidos bateu martelo definindo que a cidade deve ter prioridade sobre os problemas de seus habitantes. Exagero? Absurdo? Se o teto da tenda hospital de campo de batalha rasgar no meio de uma tempestade você continua tratando dos pacientes estragando equipamentos ou prioriza salvar o hospital para salvar muito mais vidas futuras?
João Batista, querido primo, diz que lei de trânsito é o código social mais simples de ser entendido por qualquer um. Está vermelho para, ficou verde segue, numa placa de pare deve-se parar... Para mudar uma sociedade tão perdida e deturpada quanto a nossa é preciso dar um primeiro passo. Fazer fluir o trânsito com certeza que tudo vai continuar funcionando bem é um ótimo exemplo que as coisas podem funcionar. Os motoristas de ambulâncias vão agradecer.

Conversamos, eu e o professor, o que seria o gatilho social para uma mudança perene no Brasil. Creio que o que quer que seja está na forma de pensar do brasileiro. Não adianta investir no que quer que seja se o pessoal acha que depredar é normal. Para ver futuro ´necessário saber que você seguirá em frente com tranquilidade e segurança.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Patinetes e capacetes

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Temos no Brasil um dos mais altos índices de incidentes, acidentes e fatalidades no trânsito do planeta Terra.  As causas são várias, sem dúvida falta de educação e desprezo pelo coletivo. O problema dos patinetes elétricos por aplicativo está principalmente no completo despreparo da população para usá-los. Foi assim com o banho de sangue dos motoboys, foi assim com o desrespeito dos ciclistas para com os pedestres (e trânsito geral), e está sendo assim com o caos provocado pelos patinetes. Mais uma vez prevenção e educação foram deixados de lado pelo poder público. Sobre o caso uma autoridade deu entrevista à TV Globo (SPTV 1) dizendo que o acordo da Prefeitura com os responsáveis pelos patinetes era colocar 100 deles para testes e para surpresa deles agora temos 4.000 rodando e enlouquecendo a cidade. Como assim? Sem comentários. Qualquer veículo mal conduzido é perigoso, até um tanque de guerra, quanto mais um veículo instável como um patinete. Para resolver os problemas sempre buscamos soluções mágicas. Desta vez capacetes e multas. Ninguém se pergunta porque capacete para ciclistas (urbanos) não é obrigatório, repito: não é obrigatório em todos países da Europa, nos Estados Unidos e Canada, ou em qualquer país ou cidade onde segurança no trânsito é coisa para lá de séria. Capacete não é obrigatório porque os dados são irrefutáveis: não funciona. A explicação é longa e parece não haver interesse em sabe-la. No caso dos patinetes o capacete não evitará bater com o rosto no chão, onde ocorrem praticamente a totalidade das lesões na cabeça, ou evitar que dentes, ombros, braços, pulsos acabem quebrados, ou ainda lesões graves nos joelhos e pés, ou mesmo lesões cervicais. Patinete é instável e suas pequenas rodas inapropriadas para o horror de calçamento que temos. Também ninguém parece se lembrar, nem se perguntar, porque não se multou ciclistas com comportamento pouco adequado. Um buraco no emaranhado de leis torna impossível multar ciclistas. Quero lembrar que estamos no país onde tem lei que cola e lei que não cola, simples assim. Capacete e multa vai resolver o caso? Foram incluídas aì monociclos, skates, minimotos elétricos? E os entregadores de aplicativos? Só os patinetes?

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Falta de critério no trato com as ruas

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A rua Canada foi recentemente recapeada. E a uns dias atrás abriram buracos para fazer manutenção de gaz ou água, não sei bem. Fecharam os buracos com qualidade de concessionária de rodovia, deixando o asfalto perfeito, liso, liso. E sobre este remendo perfeito recapearam a rua, faltando só a pintura. Deveria ser sempre assim, mas dado a péssima condição do asfalto de nossas ruas o perfeccionismo beira o completo absurdo. Por todas as partes ruas e avenidas estão em péssimo estado de conservação, esburacadas, com remendos mal feitos, bueiros afundados, ou com crateras tão grandes que podem entortar o eixo de um ônibus e até mesmo matar um motociclista ou ciclista. Sei que por lei o responsável por abrir o buraco deve fecha-lo com perfeição. Preferia que o mesmo recurso usado para chegar ao primoroso trabalho realizado na rua Canada fosse distribuído para que tivéssemos boa qualidade no maior número possível de consertos de buracos ou manutenção do asfalto. E que houvesse prioridade no uso do parca verba pública ou verba privada para fins públicos. É inacreditável que a administração pública e sua zeladoria não consiga ordenar este completo caos que é a manutenção de nossas ruas. 

terça-feira, 7 de maio de 2019

a insegurança de xingar

Qualquer erro pode resultar em acidente, erro próprio ou erro de outro.

Uma fechada na maioria das vezes resulta em susto. Não passa de um incidente. O que não se fala é que reagir a um incidente, como uma fechada, pode sim resultar num acidente de fato, com vítima, não imediatamente, mas mais a frente. Com a reação, um xingamento por exemplo, o nível de tensão do condutor é tirado do foco das ações seguras e se o acidente não aconteceu lá trás aumenta muito a possibilidade que aconteça depois. Quem já não viveu esta experiência de apagar fogo com gasolina. Simplesmente não funciona. 

Dados estatísticos de todas as partes do mundo provam e comprovam que discussão no trânsito reduz a segurança dos que discutem e de todos em volta. Os dados são claros, inequívocos. Por isto está estabelecido em lei e em todos códigos de trânsito, daqui, Brasil, e de todas as partes do planeta, que qualquer disputa, discussão, xingamento ou ofensa está sujeito a punição, algumas pesadas. Não buzine em país civilizado porque pode acabar na frente de um chefe de polícia, e não duvide do que falo.

Mantenha o foco no essencial, controlar desvios, administrar erros (incidentes) e evitar distrações. Abstraia as besteiras. Quem é tranquilo tem muito menos possibilidade de se envolver em acidentes. 

Que xingar é bom é bom, ninguém duvida. Ufa! Você berra, xinga e pelo menos naquele momento você extravasa sua raiva, PQP! Mas que não funciona, isto não funciona.

E ai entra Goebels com seu minta mil vezes que a mentira será verdade. Vendeu-se que todo motorista é uma besta assassina que odeia ciclista. Assim como vendeu-se que a esquerda come criancinhas, que a direita odeia pobre, e outras besteiras sem nexo. Cultura religiosa onde o bem tem lado certo, o mal também - a culpa é dos outros. 

A maior qualidade da bicicleta é melhorar a condição cardio - respiratória, e com isto acalmar o ciclista. Aproveite este pequeno milagre do ciclismo. Pedale em paz.  

sábado, 4 de maio de 2019

Bueiros paulistanos. meio fio, valetas, canaletas também.

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

São Paulo talvez seja campeã mundial de bueiros com problema. Encontra-se por todas as partes, em qualquer rua ou avenida bueiros afundados, com o concreto em volta quebrado e até mesmo sem tampa. Perde-se o número de pneus, rodas e suspensões arruinadas, motociclistas e ciclistas com lesões na coluna ou acidentados. É um problema que vem de muito tempo sem solução e não há sinal que alguém tenha inteligência e competência para mudar. Para quem reclamar? É um empurra empurra sem solução. A Prefeitura que deveria fiscalizar claramente não o faz e os bueiros vão se deteriorando rapidamente até que o escândalo, ou será escárnio, seja tão gritante que alguém seja obrigado a refazer o serviço, de novo com baixa qualidade, que de novo apresentará problema, de novo será consertado, num círculo debochativo e vicioso. Alguém deve ganhar muito e a população perde sempre constantemente. Nada muda, o jogo é este, todos aceitam. Mas não caba aí. Meio fio, valetas e canaletas em cruzamentos parecem ser construídas com um concreto de gesso, alguns refeitos com uma frequência e constância admiráveis. O mesmo concreto que se vê despedaçando em pontes e corredores de ônibus. Faz-se um remendo, pouco depois é necessário refaze-lo, e refaze-lo, e refaze-lo....
Em Milão, Itália, vi uma rua próxima ao Scala sendo reformada. Obra praticamente concluída uma tampa de ventilação da calçada tinha ficado exatos 2 mm mais alta. O engenheiro, bravo com o erro de um operário, me disse que o trabalho seria refeito para alinhar perfeitamente. E foi. A garantia da obra é de 25 anos.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

The Freedom Writers Riders e o escrever a história

Outro dia vi na TV o filme TheFreedom Writers Diary, história real sobre uma professora, Erin Gruwell, que transformou a vida dos alunos problemas de uma escola usando a inteligência e sensibilidade fazendo com que eles escrevessem um diário sobre suas próprias vidas. Os diários foram publicados em livro de sucesso e o trabalho realizado pela professora Erin Gruwell na High School Woodrow Wilson, em Long Beach, Califórnia, virou referência educacional colocando em cheque métodos tradicionais de pedagogia em classes de alunos ditos problemas.

Encontrei e pedalei com um dos garotos que fizeram parte do núcleo do cicloativismo na época que São Paulo recebeu as melhorias, eficientes ou não, que estão aí. Ele disse que está trabalhando em outra área, não mais no cicloativismo. Como é muito tranquilo achei que tinah saído do movimento por conta do que considero radicalismo de então.  "O que é radical?" respondeu ele completando "Foi a forma de conseguir resultados". Conseguiram, mas não poderia ser diferente?
Estávamos pedalando para o mesmo lado e ele fez questão de seguir na ciclofaixa, pelo que entendi até como uma forma de reafirmar suas posições e realizações. Como a conversa estava interessante eu o segui, mesmo tendo críticas sobre o trajeto da ciclofaixa e principalmente pela qualidade técnica e de segurança do que foi implantado. Ao nos despedirmos coloquei que "Vocês (movimento cicloativista daquela época) pensaram dentro das ciclovias e ciclofaixas (fazendo um movimento cartesiano com as mãos). A cidade é toda possibilidades".

A história dos alunos e alunas do Freedom Writers prova mais vez que com a forma correta de comunicação e estímulo é possível tirar leite de pedra mesmo do mais duro dos jovens. Bater de frente pode ser produtivo a curto prazo, mas raríssimamente o é a longo prazo. Os cicloativistas paulistanos fizeram muito, não resta dúvida. Boa parte do resultado é facilmente questionável, até porque as ciclovias que realmente deram certo estavam na lei muito antes deles entrarem em ação, mas a mudança está ai, eles realizaram, colocaram a discussão na ordem do dia. Tem que se levar em consideração que é questionável porque o país chamado Brasil é questionável, duvidoso, ineficiente, errado, insensato. O resultado que eles tiveram é coerente com nossa realidade.

Paul McCartney em entrevista diz que nos Beatles sempre houve uma preocupação em ter limites no que as letras colocavam. Questionar sim, criticar também, mas ultrapassar certos limites não. Estimular violência de qualquer tipo não. Deu certo. Os Beatles mandaram mensagens positivas que foram 'compradas' por todas sociedades e simplesmente viraram o planeta de ponta cabeça, revolucionando costumes com resultados positivos que estão aí e ninguém pode negar. Revolution, que abre um dos dois discos do álbum branco deixa esta posição pacifista muito clara.

Procurando algo na estante dei de cara com o livro "A 3° visão" de T. Lobsang Rampa, um dos primeiros livros que li com interesse para valer. Logo depois li Sidarta, o mais marcante de minha vida. Estes e outros livros fizeram parte de uma geração pacifista, até porque ainda se vivia as feridas abertas do horror da Segunda Guerra Mundial. Não que fossemos uns anjinhos 'paz e amor', fazíamos das nossas, mas a imensa maioria tinha um norte e limites muito claros, não violentos, independente do lado que se estava, o que não vejo agora. Aqui tem história para mais de mil, mas aceitem pelo quanto a simplicidade e simploriedade.

País questionável, duvidoso, ineficiente, errado, onde um único funcionário pode, num chilique ou atendendo interesses muito particulares, melar todo um projeto de grande interesse da população. Ou fazer o contrário, como queira.  A estrutura do funcionalismo público e as leis que o regem permitem esta absurda distorção.
Como vi e vivencie coisa surrealistas acontecerem posso não gostar do aconteceu, mas não resta dúvida que aconteceu. Poderia ser diferente? Com certeza, em qualquer lugar minimamente civilizado.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Na onda do patinete – mais comentários

"As autoridades foram atropeladas pela novidade" declara Sérgio Ejzenberg para a matéria sobre patinetes elétricos publicada sábado, 20 de Abril de 2019, no Metrópole do O Estado de São Paulo. A frase de uma verdade cruel simplesmente reflete em espelho de cristal lapidado com rara precisão a realidade brasileira. Autoridades deste país sempre estão muito, muito, mas muito mesmo atrás da realidade diária que nós cidadãos temos. Patinetes são mais uma realidade que só recebe atenção das autoridades quando a situação já passou muito de qualquer nível de razoabilidade. Não é por menos que somos um dos países com trânsito mais violento do planeta.

Um pouco de história:
Quando surgiram os primeiros Segway se imaginou que ali se iniciaria uma revolução na mobilidade urbana. De fato, o Segway, quando foi lançado em 2001, foi um marco na mobilidade, mas não vingou porque não existia definição legal sobre o que aquela novidade era e como encaixa-la no trânsito. Resumo da ópera não podia circular nas ruas nem nas calçadas por várias questões segurança. Acabou sendo vendido para serviços internos de empresas, depósitos, para agilizar a segurança, e outras mobilidades ou transportes restritos a áreas internas. Hoje é usada em excursões de turismo e é gozado ver o guia com os patinhos se equilibrando acompanhando atrás em fila. Provavelmente o custo, muito alto, também foi um problema para se popularizar.

Patinete não é novidade em muitas capitais europeias, portanto autoridades tem referência sobre o seu uso e os cuidados que se deve ter com segurança no trânsito. Estou falando sobre patinete não motorizado, portanto de baixa velocidade. Mais; usado numa pequena escala, principalmente por público infantil e infanto juvenil, portanto circulando em calçadas normalmente largas com boa qualidade de piso, pouquíssimos buracos ou defeitos perigosos, patinete de propriedade particular, com custo relativamente alto, usado por um público bem educado, em locais com policiamento bem preparado e com capacidade legal de ação, mesmo no caso de uma criança. Não faço ideia de como a lei vê patinetes nestes países, mas com certeza deve haver algo. Na França bicicletas podem circular nas calçadas em velocidade compatível com a segurança do pedestre. Na Florida bicicleta e ciclista que tem menos de 46 polegadas de altura total não pode circular na rua porque fica invisível no meio dos carros (mais baixo que a altura média das capotas) e por isto só na calçada. Lá fora aparece uma novidade as autoridades agem e tomam providências.

O que temos aqui, no Brasil, é um trânsito salve-se quem puder, onde lei cola ou não cola numa população sem noção do que é civilidade, menos ainda sobre o que possa ser CTB, Código de Trânsito Brasileiro, onde o policiamento não tem suporte legal para parar e reprimir comportamentos pouco civilizados, não pode multar ciclistas porque não tem poder legal para tanto...

O que é certo é que os patinetes elétricos estão causando problemas e acidentes em todas as partes. Já autoridades de metrópoles questionando até sua existência nas ruas. Se lá fora, onde ruas e calçadas tem uma qualidade excelente, os patinetes elétricos estão causando problemas, imagina aqui onde as vias mais parecem pista de treino para o Paris-Dakar e Rally dos Sertões.  

Patinetes são pouco ou nada visíveis, principalmente no meio do trânsito. A noite, quando ocorrem a maioria dos acidentes, patinete é mais invisível ainda porque as luz traseira é posicionada próximo do chão, o que torna praticamente invisível no meio do trânsito. Reparem que os carros mais modernos tem as luzes traseiras altas, alguns até com pontos no teto ou sobre o vidro traseiro, e isto é feito para deixar visível não só para o carro que vem atrás, mas principalmente para o que vem atrás deste. Os refletores ou luzes de uma bicicleta estão muito mais altos, e o ciclista ainda conta com o reflexo vindo dos pedais em movimento, mesmo assim o motorista tem dificuldade em ver o ciclista a noite. Ciclistas vistos por trás são mais largos portanto visíveis que um condutor de patinete. 
Um alto percentual de acidentes com bicicleta é por colisão lateral. Bicicleta de lado é muitíssimo maior e mais visível que um patinete. Mais, o ciclista movimenta as pernas o que chama a atenção dos motoristas.
Pelo menos o farol destes patinetes é bom, alguns mais do que deveria, porque de tão fortes atrapalham a visão do ciclista ou motorista que vem em sentido contrário. O ideal seria que fossem direcionados para o chão e que tivessem uma linha de corte de iluminação como a dos carros em um metro de altura máximo. 

Outro ponto é o caster destes patinetes elétricos que temos por aqui. É comum ver o patinete entrando em shimming, efeito dinâmico que coloca a roda dianteira do patinete em vibração, dificultando o seu controle. 
Capacete? Não faço ideia. O que sei é necessário ter dados sobre acidentes para saber a eficiência do capacete. No caso do ciclista urbano, que pedala numa posição mais em pé e em baixa velocidade, o capacete é quase inútil porque quase todas as lesões na cabeça acontecem na face. Não faço ideia de como são as lesões que um condutor de patinete sofre. É certo que o capacete pode ser muito útil se tiver refletores e porque não uma luz vermelha, e abas largas. Capacete é eficiente mesmo para proteger do sol.

A verdade é que necessitamos ter dados abertos sobre segurança no trânsito de todas as mobilidades. 

doações para Notre-Dame X Museu Nacional

Os camisas amarelas que fazem protestos por toda a França reclamaram das doações que vem sendo feitas, já próximas a um bi de Euros, direcionadas para a reconstrução da Notre-Dame. Eles não conseguem entender porque não se fez estas doações para causas sociais defendidas por eles. Burrice completa ou má fé, porque não dá para acreditar em inocência. 
Notre-Dame tem um público anual de 16 milhões de visitantes e é uma das mais importantes e famosas atrações da França e de Paris, um chamariz para o turismo internacional que rende a todos franceses, todos, sem exceção, uma invejável estabilidade econômica e social. Não reconstruir Notre-Dame ou qualquer outro monumento histórico de tal importância é cometer suicídio bem lento e doloroso. Não sei por quanto o setor de turismo responde no PIB Francês, mas sei é uma montanha de dinheiro. Europa depende de turismo para sobreviver, portanto cidadãos europeus também, incluindo aí esta pouco inteligente esquerda francesa. Toda cadeia produtiva da França (e Europa) tem alguma relação e dependência do turismo; do receptivo à produção de alimentos, do serviço à indústria, da telecomunicação à educação, tudo enfim.
E aqui no Brasil se fez a dolorosa comparação das doações para a Notre-Dame com as que foram realizadas até agora para a reconstrução do Museu Nacional, que são pífias. Não dá para comparar. Lá há um sentimento coletivo, nacional, Francês, Europeu, internacional e histórico que fortalece a preservação do patrimônio e da memória. Aqui nem Deus consegue que nossa história seja preservada, todos conspiram contra. Turismo? Não é só uma questão do Brasil ser um destino distante, mas do medo da violência, do atendimento receptivo de baixíssima qualidade, da falta de respeito com nosso patrimônio histórico que está caindo aos pedaços, do lixo na rua, da poluição em nossas praias... 
Museu Nacional faz parte de nossa cultura! Sim, eu sei, mas o brasileiro está cagando e andando para nossa cultura. Funk-se quem puder! Bom mesmo é lá fora; lá é que eles cuidam das coisas! Turismo cultural no Brasil? Como? O que é isso?
Não tenho vontade de doar dinheiro para a reconstrução do Museu Nacional simplesmente porque não confio nem nas pessoas nem no sistema que cuida da cultura no Brasil. Tenho inúmeras razões para tanto. Se eu der dinheiro onde ele irá parar, como será usado? Se não houver desvios, com que inteligência, bom senso e qualidade será aplicado? Que vontade dá de doar dinheiro para o Nacional se outros museus e patrimônios históricos estão largados às traças? Qual é a política de estado para preservação de memória e patrimônio histórico? Qual a pressão ou interesse da sociedade para a real preservação de nossa história? E a Biblioteca Nacional, como está?....
Contribuí com o MUBI durante toda sua existência. Um dia armou-se uma confusão tipicamente brasileira e colocaram Valter Busto e sua coleção para fora, extinguindo o MUBI. Joinville abriu um novo museu de bicicletas no lugar do MUBI pequeno, acanhado, sem curadoria a altura, o museu dos amigos. Valter tem raríssimo conhecimento sobre a história da bicicleta no Brasil, é de fundamental importância para a preservação de nossa história, principalmente a história da população trabalhadora. Felizmente as 43 bicicletas e inúmeras peças e documentos que doei estão com o Valter, e infelizmente estão guardadas num galpão longe do público. História triste que mais uma vez reflete o que pensamos sobre cultura. 

sábado, 20 de abril de 2019

Na onda do patinete (OESP), eu diria: na maré da baderna!

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Na onda do patinete - matéria de capa do OESP.
Metrópole - Mobilidade
Patinete elétrico chega a 10 capitais, mas ainda não há regulamentação
sábado, 20 de Abril de 2019 - pg A11

Por razões óbvias e previsíveis encurralamos nossas cidades num trânsito caótico. Para problemas complexos multi setoriais foram apresentadas, aceitas e realizadas soluções mágicas e imediatistas centradas neste ou naquele modo de transporte o que com o tempo só foi piorando o caos. O automóvel individual foi a solução e se construíram vias para eles, esquecendo o transporte coletivo. O transporte coletivo passou a ser a prioridade sem saber o que fazer com os automóveis particulares. Não faz muito tempo a solução mágica para todos os problemas tinha por nome bicicleta, logo em seguida os táxis por aplicativos. Agora são os patinetes elétricos. Em todos os casos o discurso sempre foi o bem da população e em todos os casos os ditos benefícios acabaram localizados em um setor restrito da população ou com um grupo restrito de empresários. O sonho de todo paulistano, e porque não dizer brasileiro, é ter mobilidade eficiente. Isto não quer dizer que qualquer novidade deve ser simplesmente aceita sem um mínimo questionamento ou ordenamento. Patinetes elétricos poderiam ajudar como mais uma possível solução de transporte não fosse tratado e usado com tanta displicência não só pelas autoridades, mas principalmente pela própria população. A nova e sonhada mobilidade só acontecerá quando todo foco deixar de ser na mobilidade e se pensar a cidade como um todo, com todos seus cidadãos, no uso inteligente de espaços públicos, incluindo vias públicas, e dos espaços privados de uso público. Estamos a um ano luz desta realidade. Enquanto buscamos soluções fáceis e mágicas, e caímos em diversões perigosas como os patinetes, na Europa várias cidades estão fazendo uma revolução extinguindo o que conhecemos como rua. Pode parecer loucura, mas as "naked streets", ruas sem calçada ou asfalto, sem nenhuma sinalização vertical, horizontal ou mesmo semáforos, nem postes, aumenta a segurança de todos, principalmente pedestres, melhorando e muito a qualidade de toda a população. Aqui a mágica de mobilidade do patinete tem acabado para muitos no hospital.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Uma bicicleta entre nós

Não nos desligamos de um amor assim com tanta facilidade. Ou de amores. Não vou ser processado por amar várias bicicletas. Separar me de uma bicicleta não tem nenhuma das implicações de largar a bruxa com quem a gente se casa - ela me mata pela sutileza do comentário! É fato que quis lhe comprar uma vassoura, ela ficou ofendida, mesmo que isto lhe desse a garantia de sair voando por aí.  Até abri a janela para ela sentir o frescor da noite de lua cheia, mas só para contrariar ela queria pedalar. E ela tanto fez, deve saber que mulher quando insiste até o diabo desiste, que acabou sendo mais uma destas ciclistas fanáticas com o apartamento cheio das malditas bicicletas. 
Valter Busto um dia encontrou uma piaçava perfeita, madeira torta tirada de um galho de árvore de madeira amarga, das que não dá cupim, escova de palha dura amarrada com cordinha, péssima para varrer, maravilhosa como voa quando os gatos brigam no meio da noite, bruxaria de Santa Catarina. Pronta para sair voando, mas acabei eu ficando com a dita vassoura. E daqui de casa não sai. Nunca tentei voa-la porque não sou muito chegado a pau no meio do rabo. Basta o que ele sofre quando eu, velho idiota, saio para dar uma voltinha fora da cidade sentado no selim da bicicleta de estrada. Torce o rabo para um lado, torce para o outro, para frente, para trás, e não tem jeito, é incomodo sem fim. Ciclista que é ciclista sabe que é no selim que treinamos o que depois fazemos com elas trancados no quarto. Imagine o que deve ser voar sentado no pau da piaçava? Já perguntei para a mulher: meu pau tem ficar em cima do pau da piaçava, para a direita ou para esquerda? mas o feminismo desenfreado dela se enfureceu. 
Já que nesta sociedade maluca quem sai dando vassouradas são elas em nós, não importa que você jure de pés juntos que foi para estrada (Fazer o que? Com quem?) pedalar (ela está surda e entende pelada - Quem estava pelada?) e toca vassourada, e você com cara de coitado ainda é estúpido suficiente para virar as costas e dizer resmungando que vai tomar uma banho porque depois de horas pedalando está com o saco completamente adormecido. Toma vassourada, mas de vassoura comprada no mercadinho da esquina. Na minha piaçava ninguém toda. Nem que ela queira sair voando pela janela do 15º andar. Aí disse que emprestava minha piaçava amada. E não saiu, nem foi até a janela dar uma olhadinha como estava o tempo. Pior! Pegou a bicicleta e foi pedalar para aliviar. Diz que esta com tesão pela bicicleta - ou pelo selim da bicicleta. Foda-se! se ela quiser ficar com a periquita adormecida problema dela. Ela ouviu o comentário. Pura bruxaria, o gato passou voando perto de minha orelha. Gatos voam?
Aliás, bicicleta estaciono na porta da igreja? Duvido que o padre permita que eu me ajoelhe no altar agarrado na bicicleta. 
Na minha relação com a bicicleta a única que tenho que fazer é de vez em quando colocar umas gotas de óleo SAE 40. Muito mais barato que KY! Depois de umas gotas de óleo a bicicleta roda quietinha, macia, deliciosa. Já a mulher começa perguntando se a data de validade está legal, cuidado para não derrubar no lençol, vai, vai, vai, vai, vai... quando você foi ela reclama - já foi? e quando você sai de cima ai é que ela não para de falar. - Ok! eu te dou uma bicicleta melhor!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O supremo pirão pirado

Brasil não é nem nunca foi "nós e eles" ou "eles e nós", como queiram, mas nós, vós, eles, sendo vós, vossas excelências, o que está entre, no meio de nós e eles, vós os reais donos deste país. Brasil que pode pender para nós ou para vós, independente do lado sempre representado por vós. Não importa a matemática, quando se subtrai nós ou eles sempre restará e preponderá vós. Eu, tu, ele somos brasileiros exaustos desta falsa bipolaridade, nós ou eles, esquerda ou direita, frutos do mesmo verbo, qualquer que seja, que de inocente é útil e bem serve a vós, vossas senhorias os mandatários. Eu, tu, ele, brasileiros, queremos nosso país em todas suas conjugações. A ideia do nós e eles, país dividido, por este ou por aquele, é muito pobre, medíocre. Basta! Não aguento mais gente burra e incompetente. Quero a receita de pirão do Crusoé. 

terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame. Museu Nacional, Museu de Bicicleta de Joinville, Outro Preto...

Fórum do Leitor 
O Estado de São Paulo

Espero que não se faça qualquer comparação do incêndio na Notre-Dame com o crime anunciado do Museu Nacional. Assim como espero também que não tenha sido ato terrorista, o que infelizmente é uma possibilidade em se tratando de Europa, França e principalmente Paris. Pelo menos aqui no Brasil terrorista não tem vez; basta a falta de civilidade geral para destruir tudo que temos: museus queimados por puro desleixo, patrimônio histórico ruindo ou sendo jogado ao chão sob aplausos de todos, enchentes provocadas por lixo e entulho jogado nas ruas, edifícios desmoronando, poder público dando garantias que as represas estão seguras...

----------------------------------------------------------------------------
Ainda estou completamente passado com o incêndio na Notre-Dame. Notável e triste é que não chorei, não consegui. Talvez esteja me acostumando. Procurando informações sobre a Notre-Dame fiquei imaginando o que sentia a população européia pouco antes da chegada dos exércitos na Segunda Guerra Mundial que dizimariam boa parte do patrimônio histórico da Europa. Uma espécie de aceitação profundamente dolorida.

Em 2007 estava vendo TV quando deram a notícia do incêndio no clipper Cutty Sark, um dos mais importantes barcos a vela da história que estava sendo restaurado em Greenwich, vizinho a Londres. A imagem a distância da fumaça doeu em mim até os ossos. Felizmente o incêndio foi controlado, não pegou o casco e outras partes importantes, o Cutty Sark foi restaurado e está lá para visitação num pequeno e mágico museu de vidro que imita uma grande onda. 

Acho inacreditável que restaurações realizadas em qualquer patrimônio histórico não siga rigorosamente as mesmas normas de segurança da aviação, que é o padrão mais alto de controle de procedimentos que temos.

Acabei de me lembrar do Buda bombardeado e de outros patrimônios da humanidade destruídos pelo Estado Islâmico. Infelizmente é muito difícil controlar atentados terroristas e os imbecis já fizeram estragos inacreditáveis. É muito difícil, chocante até, ver uma única escultura pixada de vermelho em Paris. Como disse antes aqui no Brasil não precisamos de terrorismo para destruir nosso patrimônio. Vide a escultura em bronze em homenagem ao Pixinguinha que está sendo arrancada aos pedaços e nada acontece, ninguém sabe, ninguém viu.

Nunca chorei tanto quanto durante o incêndio do Museu Nacional. Provavelmente por conta de tudo que vi sendo destruído aqui em São Paulo. Apagamos sem piedade nossa história em nome de uma modernidade irresponsável e de uma boçalidade sem precedentes. Meu irmão Murillo Marx trabalhou toda sua vida com patrimônio histórico, sei do que falo. Brasileiro faz e anda para sua história. Mesmo obras declaradas Patrimônios da Humanidade pela UNESCO estão abandonadas, se não depredadas. O MASP quase foi para saco. Ninguém se importa. Nossa elite, cultural e econômica, é muito pobre, de um complexo de inferioridade ruim, doentio. Museu Nacional pegou fogo? A notícia triste se encerrou ali, do contrário a sociedade teria pelo menos perguntado ao poder público "como estão os outros museus?". Nem pensar. Se algo sobrevive é por conta de um abnegado aqui outro ali; é o que nos resta; e muitos destes heróis são tidos como idiotas.

Fecharam o MUBI, Museu de Bicicleta de Joinville, já faz um bom tempo. Valter Busto é um destes abnegados, para mim um herói. O Perassolo é outro. Harold Capelina. Carlãozinho Coachman... Parece que agora os responsáveis se deram conta que fizeram uma caca sem tamanho. A coleção 

O Museu da Língua Portuguesas torrou porque um débil mental colocou um pano de cenário quase colado a uma lampada incandescente. O incêndio do Museu Nacional começou no ar condicionado, coisa comum por estas paragens que matam famílias e meninos de futuro, mas que ninguém faz nada. 

O Museu do Mar em São Francisco do Sul, Santa Catarina, era uma gracinha, pequeno, mas muito consistente. Depois de uma briga estúpida sobre quem manda no pedaço já não sei como está. A história mais importante do Brasil vem do mar.

Lembrando: o governo do Egito mandou uma pesada nota de protesto pelo descuido com a segurança e manutenção do Museu Nacional. Lá estavam quase 10 vezes mais múmias que as que o Estados Unidos tem. Nada mais.

No final da noite trágica de ontem, com o incêndio na Notre-Dame ainda sendo combatido, a população cantou em coro o seu amor aquela construção medieval que é um dos símbolos de Paris e da França.
O que acontece aqui no Brasil é crime contra a humanidade.

Patrimônio histórico? Aqui no Brasil? Temos profunda vergonha do que fomos e do que somos.