quinta-feira, 10 de junho de 2021

"Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições"

Filme já começado, numa troca de canal a procura de algo que não fosse o mesmo, pego um personagem que dispara "Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições". Nos olhamos com cara de espanto e voltamos ao personagem da fala, um imponente senhor vestido num manto preto, reto, como uma estátua póstuma sobre pedestal, tranquilamente parado frente ao rei dispara a frase e cala; olhar fixo, altivo, imóvel. Controle remoto ainda na mão, quente de tanto mudar de canal, cai no sofá. Não se sabe sequer que filme é, mas o cenário é uma beleza entre o art nouveau e o medieval, rico nos suaves detalhes, imponente, meio místico, meio religioso, denso. Que importa, penso eu, "nós de fato perseguimos alegremente nossas próprias maldições" falo baixinho.

"Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa" repetem em coro ecoando pela igreja quase cheia. O padre lá longe, pequeno frente ao altar, puxa novamente a ladainha "Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa" e todos a repetem mais uma vez. Breve silêncio em toda igreja, o padre volta a levantar a cabeça e solta "Cordeiro de Deus vós que tirais os pecados do mundo tende piedade de nós, Cordeiro de Deus vós que tirais os pecados do mundo tende piedade de nós. Cordeiro de Deus dai-nos a paz." e o povo repete, nesta e em toda santa missa, todo santo domingo ou qualquer outra celebração religiosa que se faça. Novamente silêncio compenetrado.
- Culpas são maldições? sai o sussurro.
- Pode ser, responde espantado com a pergunta o fiel ajoelhado ao lado. Curva a cabeça, mãos espalmadas e juntas à testa, olhos fechados, volta ao silêncio. Sem abrir os olhos estica e curva lentamente o pescoço para sussurrar ao ouvido do outro - A maldição são nossas culpas que nunca cessam; e volta a sua oração.
 
"Diga-se de passagem, toda organização social funciona em cima de limites estabelecidos, o que tem a ver com o sentimento de culpa. Neste sentido a religião teve um papel importantíssimo para a organização e desenvolvimento da sociedade. Não sei onde estaríamos sem o pecado". Olhos arregalados grita como se perguntasse para o entrevistado da televisão - E sem a religião?

O vasinho que se ganhava no parque de diversão ou é vendido no 1.99 é a cópia da cópia da cópia da cópia da cópia... de vasos que um dia fizeram parte da vida da realeza Francesa. Releitura perpétua do estilo Luís XV.

Uma longa fila se forma na porta de uma das marcas mais famosas marcas de bolsas na Galeries Lafayette de Paris. Chinesas, russas e árabes esperam pacientemente para pagar EU$ 4.200,00 pelo lançamento. 
No ponto de ônibus da periferia, 5:30 h da manhã, a funcionária espera que seu ônibus não chegue lotado, doce ilusão. Enfia a mão na bolsa semiaberta Louis Vuitton bem falsificada para olhar o celular. Fecha rápido porque vem uma moto com dois garotos. Eles passam sem olhar para o lado e o ponto cheio de trabalhadores pobres suspira em alívio. O assalto não foi desta vez. A partir de então ela mantém sua preciosa bolsa baixa, escondida atrás da bundona gorda que está a sua frente. Faz cara de coitada, da mais pobre, mas não consegue esconder seu medo de perder bolsa e celular.

"Nós perseguimos alegremente nossas próprias maldições"

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Meleca abençoada: 7 dias em casa

Preciso parar, preciso parar, preciso parar! O pensamento não me sai da cabeça faz dias, meses. 
Tomo café da manhã no meio de um monte de coisas largadas sobre a mesa, algumas estão abandonadas faz tanto tempo que não sei mais o que são, sobre o que tratam, para que serve, nem quando quem as abandonou ali, no caso e sem dúvida eu próprio. Toda manha tenho que as empurrar para preparar as bandejas, prato, talheres, manteiga, geleia, mel. Forninho aquecendo até tostar o pão, café no fogo. Todo dia igual. Terminado o café da manhã, lavados pratos e talheres, seco a pia, passo pela mesa e olho a bagunça e sigo em frente, banheiro, quarto, cama arrumada, subo a escada, computador, trabalho, desço a escada passa pela sala que perdi o controle, sinto a mesma angústia, levanto a cabeça e sigo em frente. Preciso parar, preciso pôr ordem nesta baderna.
Dia seguinte.
Procuro focar meu olhar no pão, manteiga, geleia e mel para evitar o sufoco de minha falta de iniciativa para colocar ordem em minha própria vida. Como habitual termino o café da manhã, lavo os pratos, enxugo as mãos e inicio imediatamente meu trabalho no computador, longe daquela mesa, daquela sala. Bem mais tarde me dou conta que sequer escovei os dentes ou fiz a barba. Preciso parar! Indo para o banheiro passo pela desorganizadíssima sala e me sinto mal. Terminada a barba, seco o rosto, viro o corpo e novamente olho a bagunça da sala. Ai! Pequeno corte no queixo não para de sangrar. Espero parar de sangrar na frente do espelho impaciente. Preciso parar! Parou; tenho um momento de reflexão, olho no olho. "Está louco? Onde vai chegar com isto?" No quarto, fora vários livros no chão e o pó que nunca é vencido, a situação está sob controle, em ordem. Estico lençol, cobertores, travesseiros, tudo em ordem para outra noite agitada. Deito um segundo para alongar. Respiro, fecho os olhos, acalmo. Um mosquito passa zunindo, abro os olhos, sento na cama, olho em volta e penso no que tenho que fazer. Tudo me passa pela cabeça, menos colocar a sala em ordem. Me levanto num tranco, passo rápido e sem olhar pela sala, subo as escadas e volto ao computador. Tenho que trabalhar. 

Minha prima está com Alzheimer e precisa de ajuda. Ajudo. Meu amigo precisa de uma ajuda. Ajudo. filhos e netos precisam de ajuda. Ajudo. Ajudar me faz bem, mas sito que este meu lado bonzinho em parte encobre o fato que quem precisa de ajuda sou eu próprio. Será que ajudo para fugir de minha própria bagunça? Possível. Provável, bem provável. 

Segunda-feira: amanheço um lixo. Tomo café da manha sem muita vontade. Sinto gosto e cheiros, mas o nariz não para de escorrer. Termino, café da manha, barba, escovar dentes, e fica claro que tenho que ficar em casa, que vou forçosamente ficar parado. Não vou conseguir sair daqui com este nariz que não para de escorrer. Pesado, lento, penso; tudo pode esperar. 
     
"Vai até a farmácia e faz um exame rápido"
"Tem certeza que não está com Covid? Tá sentindo cheiro, gosto? Tá com febre?"
Não quero mais atender o telefone nem o celular.

A rádio solta uma entrevista sobre a umidade do ar e a poluição típica de desta época do ano e suas consequências. Me incluí nos casos de renite, sinusite, e nariz escorrendo que estão estourando pela cidade. Nariz escorrendo sem parar, o resto acho que não tenho. A meleca gelatinosa derrete meu sentimento de culpa por não estar cumprindo meus deveres - com os outros. Uma lata de lixo cheia de papel molhado, exatos três rolos de papel higiênico em dois dias, e a pele do nariz que pedia a Deus para parar esta corredeira. Mesmo assim não consegui parar quieto. "A obrigação primeiro" foi sábio ensinamento que se transformou em neurose. A meleca me curará? 
A corredeira parou e então entrou uma garganta irritada e leve tosse. Choveu muito, meus barris de captação de água de chuva amanheceram com uma água escura e muita fuligem assentada no fundo. A entrevistada estava certa; o ar está bem ruim, justifica minha reação nasal. Tem muita gente indo para hospital pensando que foi infectado. Nem imaginei que pudesse ser Covid, mas gripe. Nem uma coisa, nem outra. Já tenho a primeira dose e a de gripe. O que quer que seja, mesmo com nariz escorrendo, tossindo, me sentindo pesado, nesta semana que forçadamente fiquei tipo acamado aproveitei e coloquei em ordem a mesa, a sala e minha oficina. Ficar parado não consigo.
Ainda fico cansado no final da tarde, mas não sei se é gripe ou consciência que não posso voltar a loucura. Psicossomático, bato aposta nele.

Acordo, espreguiço, levanto, abro a porta do quarto, olho a mesa organizada e limpa. Paro, e sei que tenho na cara sonolenta um leve e profundo sorriso de felicidade. Meleca abençoada! Parei. Esta semana vai ser minha! Mereço.

sábado, 5 de junho de 2021

Dia Mundial do Meio Ambiente

Hoje, 05 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente declarado pela ONU. Aqui no Brasil não se tem o que comemorar, muitíssimo pelo contrário. Neste exato momento da história somos considerados párias mundiais em vários sentidos, no ambiental nem dizer.

Estou escrevendo enquanto o Jornal da Cultura deste sábado solta uma matéria sobre a questão do lixo no Brasil, o que também estamos na idade da pedra. Nossa evolução foi de deixar de jogar o pinico pela janela; e para quem nunca viu e não sabe o que é um pinico traduzo: pinico é um recipiente, uma panela com alça que servia para sentar em cima e fazer suas necessidades ou escarrar e, sim, era comum jogar o seu conteúdo pela janela sem se importar com quem passasse pela rua. Não resta dúvida que atualmente varemos nosso lixo e nossa merda para debaixo do tapete, e isto não vê quem não quer.

A mesma TV Cultura exibiu antes do Jornal da Cultura o documentário "O resgate do Mar Sem Fim" sobre a história da retirada do barco de João Lara Mesquita que naufragou na Antártica durante uma tempestade. Mar é também meio ambiente. Olhamos muito para a Amazônia, mas não nos interessamos pela questão ambiental dos mares. Aviso aos navegantes: nosso problema começa, mas não se resume na falta de esgoto, no completo descontrole em relação ao descarte de lixo, em especial de plásticos, aos mega desastres de Mariana e Brumadinho que de uma forma ou outra contaminam o mar. A sujeira é bem maior. Em águas profundas e dentro do território marítimo brasileiro temos pesca ilegal em escala industrial praticamente sem controle. A retirada do Mar Sem Fim da Antártica mais que cumprir um tratado internacional de zero lixo deveria ser referência de como se deve tratar todos ecossistemas das águas. E vou lembrando de outras questões. Escoamento de produção agrícola pelo ria Amazonas... Mangues... Garimpo ilegal... aliás, para onde está indo o ouro retirado?
Você sabia que cientistas encontraram micro partículas de plástico na musculatura de peixes que são consumidos por nós, humanos?

Florestas. Cerado. Pantanal. Fogo, fogo
Tempestades. Reservatórios quase secos.
'Quão mais baixa a escolaridade, pior são os índices ambientais'.
'Por corte no orçamento IBGE não fará o Censo Demográfico este ano'.

O jornal O Estado de São Paulo neste dia Mundial do Meio Ambiente soltou página dupla com três textos originais do inglês The Economist, traduzidos, sobre a situação atual do Brasil: O capitão e seu país; É hora de ir embora; e Brasília tem políticos novos e ideias velhas, sobre o que somos, ou o que estamos. Mais que preciso, deprimente. Tem sido muito grande o número de publicações internacionais de grande tradição e influência expondo o completo absurdo que vive o Brasil.

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente pelo menos envergonhe-se por um minuto. A responsabilidade do que vem acontecendo é nossa, de cada um de nós, todos nós. 
Chega!

473.000 mortes por Covid19

Fiz a besteira de escrever e soltar este texto antes de dormir. Passei a noite tendo pesadelos ambientais. Qualquer pessoa com um mínimo de consciência sabe que a humanidade é o câncer ambiental. E nós brasileiros somos a metástase mais agressiva deste câncer. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Minhocão e sonho com o High Line? Cidade cloroquina?

High Line de NY deve ter nascido muito antes de receber os primeiros passos de cidadãos extasiados com a ideia genial; provavelmente germinou quando conseguiram equalizar as inúmeras distorções do funcionamento da cidade. Não sei em que estágio de ideia ou projeto o High Line estava quando colocaram em funcionamento as “ruas sustentáveis de NY” na Broadway (2007), praticamente fechando o trânsito de automóveis para dar espaço a pedestres, ciclistas e voyeurs pacificamente sentados em 20 quarteirões até então congestionados. Também não sei a cronologia do projeto desta nova Broadway, mas bato aposta que não teriam ariscado tanto se antes não tivessem dado um jeito na baderna generalizada da Times Square e redondezas varrendo as contravenções e contraventores, extinguindo a bandidagem geral, batedores de carteiras, assaltantes, traficantes, prostitutas, revitalizando teatros e cinemas que a muito viviam de pornografia e outras questões mais que afastam o grande público.

O sucesso costuma estar na qualidade dos detalhes, não no grande feito. Tolerância Zero de NY cuidou dos mínimos detalhes.

Aqui em São Paulo todos se perguntam sobre o destino da obra mais simbólica de Maluf: a Via Elevada Presidente Costa e Silva, o vulgo "Minhocão". Não resta dúvida que o Minhocão é o principal responsável pela profunda degradação não só das áreas em seu entorno como também do Centro de São Paulo. Mesmo a alegação que deu fluidez ao trânsito fazendo uma ligação rápida e necessária entre as zonas leste e oeste não se justifica em vista dos altíssimos custos gerados pelos inúmeros e graves efeitos colaterais.
Num ato de inteligência sem tamanho a esquerda renomeou esta obra tão polêmica e criticada para “Via Elevada Presidente João Goulart”, mas o minhocão continua.
Por tudo que li, por conhecer e gostar do High Line de NY, por ver que o viaduto de velhos trilhos desativados resultou num passeio agradabilíssimo entre e por dentro de edifícios, com vistas para o rio Hudson, espreguiçadeiras, bancos, cadeiras, floreiras, arbustos, seu entorno reurbanizado, e olhando para o que temos aqui em São Paulo no Minhocão, acredito que o melhor, mais sensato e barato será desmontar o Minhocão, e reaproveitar suas vigas em outro lugar, o que já foi proposto, com dados e números apresentados. Mas o povo não quer; quer ter seu sampa's high line, mais uma vez quer copiar o que está lá fora sem saber exatamente sobre o que se trata.

Fazer do Minhocão um parque suspenso parece bacana, mas é brincar com a falta de inteligência da população, pão e circo, e não falo do povão, mas dos instruídos, dos que conhecem, que tem leitura, viajados. Vai continuar dando sombra onde não deve, diminuindo a circulação de de ar, quebrando a visualização da avenida São João e Amaral Gurgel, o que é mais grave que possa parecer, abrigando um estacionamento (na curva) que poderia ser um parque... Vai rolar uma dinheirama na reforma, instalação de mobiliário. Vai custar mais caro que o desmonte, mais caro ainda para o poder público se pensar que as vigas podem ser reutilizadas em outro local. E aí entra a manutenção, opa! a manutenção de tudo, oba! Aos que apoiam o parque suspenso peço que lembrem dos mui frequentes problemas que historicamente temos com a manutenção de coisas públicas. Vou mais longe sobre manutenção: isto se for realizada. Quem vai controlar para não rolar um PF mágico? O dinheiro da obra é numa tacada, o da manutenção é permanente. Você prefere bolada ou pingado?
Pergunta final:
Quanto tempo duraram os equipamentos novos que foram colocados com a reforma da praça perto de sua casa? Deterioram, desapareceram ou foram roubados?
O sucesso de um empreendimento está nos detalhes. Relembro mais uma vez que Janette Sadik-Khan fez umas 2.000 reuniões oficiais, muitas delas no meio da rua, para ajustar os detalhes para implantação do sistema cicloviário de NY. Provavelmente fizeram um monte de reuniões com os afetados pela transformação da Broadway. E o mesmo com o High Line. Mais, com certeza eles têm o custo e os resultados sociais e financeiros no papel; curto, médio e longo prazo. Detalhes.

Cópia é a mesma coisa que o original? Pode ser. Pode até ser melhor que a original, basta usar a inteligência e fazer as mudanças necessárias.
São Paulo vai novamente virar NY como quis a geração cidade do automóvel ou desta vez vira Amsterdam com quer a geração ciclo ativista? Resposta no próximo capítulo de Plano Diretor da Cidade... Pelo quanto o que temos é que a especulação imobiliária segue cada dia mais alta alcançando os céus e a propaganda diz que como mobilidade ativa está na moda o caminhar e o pedalar tudo salvará. Será?

sábado, 29 de maio de 2021

Jaime Lerner e a cidade do futuro em 70, e para onde caminha a atual 3 cidade das bicicletas

Jaime Lerner projetou e implantou em Curitiba, na década de 70, soluções sensatas, das quais se sabia que os números tirados da experiência apontavam para os melhores resultados. Cidade humana. As soluções de Lerner foram copiadas em várias cidades do mundo, mas não aqui. A preferência nacional foi seguir o que acontecia na cidade mais rica do Brasil, a São Paulo de Maluf. Aquilo deu nisso; o resultado está aí para quem quiser ver.
Lerner em seu primeiro mandato como Prefeito de Curitiba (1971 - 1975) pensou a cidade e a vida de seus cidadãos como um todo, criou uma estrutura de transporte coletivo eficiente, implantou um plano diretor adensando o uso de solo nas proximidades do transporte de massa, e fortaleceu a vida do centro da cidade tirando os carros e abrindo espaço exclusivo para pedestres e encontros da vida na mais importante rua comercial, a XV de Novembro, o primeiro calçadão do país.
Maluf, mais ou menos na mesma época, seguiu pelo caminho oposto. Deixou sua marca concentrando boa parte dos investimentos de São Paulo em "melhorias" para o transporte individual, leia-se carros particulares, então poucos e coisa de elite. Endividou a cidade com suas novas avenidas, pontes e viadutos, criticadas por urbanistas e até mesmo por engenheiros de trânsito. Estas ações deixaram na população a ideia que tudo se resolveria com novas obras, sem preocupações com efeitos colaterais na população. O desenvolvimento urbano passou a ser agressivo e desordenado. As transformações em várias grandes cidades da Europa e Estados Unidos já demonstravam que o futuro não era por aí.
A cidade proposta por Lerner tem uma relação íntima com a cidade humana, a "vivacidade - cidade viva", que hoje se luta para ter.
O legado de Maluf é justamente o modelo de cidade que entrou em colapso em todo planeta, a tão conhecida cidade do automóvel, desumana, poluída, desigual, de economia disfuncional, perigosa para as mobilidades ativas, incluindo a bicicleta. Mais, este modelo de desenvolvimento urbano parece facilitar desvios, corrupção, mal gasto. Maluf acaba com sua foto estampada em relatórios internacionais sobre desvio de dinheiro público, espécie de garoto propaganda da corrupção.

Aqui cabe uma explicação: o automóvel não é em si o problema, mas o mal uso que se fez dele é um imenso problema. A cidade de Lerner e de outros pensadores inclui o automóvel, mas com inteligência e agindo em cima do que a ciência aponta.

Interessante que exatamente da mesma forma como as grandes obras viárias de Maluf pelo bem dos motoristas tiveram amplo apoio por parte de uma população pouco esclarecida, para dizer o mínimo, e que se dane o resto da cidade, a situação de certa forma se repete com a questão da bicicleta. Implantar um sistema fechado em si mesmo, sem um olhar e diálogo amplo e irrestrito com toda cidade e sociedade costuma não dar certo. É naif acreditar que esta festa desordenada vai dar certo só por causa das inúmeras qualidades atávicas da bicicleta e do ser ciclista. Ciclo cloroquina?

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Aro 27 Bike Café

O sobrado que abrigou o Aro 27 Bike Café está em obras. Não faço ideia o que vá ser, mas sinto falta da boa, melhor, da ótima, divertidíssima confusão diária daquela bicicletaria, café; e depois restaurante. E porque não dizer sinto falta de Fábio e da tropa que lá trabalhou. Passei pela caçamba cheia e como sempre fui ver o que tinha de interessante. Em cima do entulho, um pouco suja, mas inteira, uma tela de silk screen "um carro a menos" dos tempos de máxima agitação. Peguei, tirei a poeira, olhei com emocionado saudosismo, deixei a no chão, contornei a caçamba, puxei um banner do meio dos tijolos partidos, o abri um pouco, apareceu o chique logo Aro 27. Tirei o segundo banner, abri, CicloCidade, que durante muito tempo fez suas reuniões no bike café.  Caçamba pronta para ser descarregada em algum lixão da cidade. Este é o Brasil. 

Não tenho receio em afirmar que o Aro 27 foi um dos marcos na história da bicicleta no Brasil. Bem mais que simplesmente mais uma bicicletaria, ou um café, um restaurante, ou até o primeiro bicicletário particular que oferecia segurança para as bicicletas, armários para as roupas suadas, ótimos chuveiros, e café da manhã feito com carinho para os trabalhadores dos edifícios comerciais em volta. Foi o ponto de encontro do zoológico social completo, de A a Z, todos gêneros, todas espécies, de radicais (simpáticos, educados) a liberais (simpáticos, educados) do mercado financeiro, dentre muitas que vez ou outra via por lá. Fábio Minori, o dono, "mediava" tudo com rara habilidade.

Peguei os três troféus e fui para casa, do outro lado da rua. Cruzando meu fundo corredor passou um longo filme do que vi nestes meus mais de 40 anos de bicicletarias. Imediatamente lembrei de Celso e sua Shop Cycle, boutique de bicicletas, a primeira bicicletaria chique da história do Brasil. Celso foi diretor na Caloi antes de abri-la, não me lembro de que área, creio que comercial, portanto sabia muito bem onde estava se metendo. Eram outros tempos, década de 70. Só fechou o negócio quando não tinha mais condição física. 
Fábio Minori, queria ter um negócio ligado à bicicleta, sua paixão, mas não sabia onde estava se metendo. O negócio da bicicleta não é para amadores. Um negócio que não é para amadores num Brasil que não é para amadores definitivamente não é para sonhadores, e Fábio é um destes mágicos sonhadores que estupidamente o Brasil faz questão de desperdiçar. 
A Shop Cycle ficava na rua João Cachoeira quase com esquina da Pedroso Alvarenga, o bairro da vez naquela São Paulo com uma classe média explodindo, única bicicletaria por perto. Celso mirou e acertou o público alvo que não fazia ideia do que era uma bicicleta, mas então bastante interessado em pedalar as Caloi 10 e Ceci, bicicletas da moda, objeto de desejo empurrado pelo tão falado Passeio da Primavera que acontecia uma vez por ano. 

Fábio abriu um negócio muito mais sofisticado, coisa de primeiro mundo, apostando que o público responderia a propostas ousadas que demandam um nível cultural que definitivamente não temos. Mesmo os que têm pecam por um pedantismo tupiniquim.  
Quando o Aro 27 Bike Café foi aberto estava claro que o entorno da Estação Terminal e Metro Pinheiros iria crescer, mas aconteceu uma explosão bem diferente da esperada.  

O Aro 27 Bike Café era chique. Quando entrei pela primeira vez adorei a decoração, os detalhes, as minúcias cuidadosamente espalhadas pelas estantes, penduradas nas paredes, a oficina de ferramentas de alta qualidade, o jardim bicicletário nos fundos e depois dele o vestiário e banheiro com acabamento que poucas academias e clubes da cidade ofereciam. Esta foi a primeira parte do projeto que não deu certo. Fábio imaginou que oferecendo serviço de alta qualidade o pessoal viria pedalando de casa para o trabalho, deixaria a bicicleta ali, tomaria um delicioso banho, guardaria a roupa de ciclismo no armário, se fosse o caso usaraia os serviços da bicicletaria, e iria trabalhar. Ledo engano. Um pouco depois vestiário e banheiro foram transformados na cozinha e o bike café ofereceria almoços, aliás bem boas refeições O detalhe é que na mesma rua outros restaurantes foram abrindo, e mais restaurantes, e outros... Enfim, antes da pandemia haviam 15 restaurantes próximos, a maioria quase ao lado. Não há santo que aguente. Hoje sobraram 3 ou 4 que vivem vazios.

O diferencial mesmo estava na diversidade de público que frequentava o "Aro". Duvido que tenha havido e exista qualquer outro ponto da cidade e do Brasil que tenha juntado zoológico tão diversificado, completo e com tamanha riqueza. Fábio foi o catalizador porque é pessoa rara, de inteligência aberta, fluente, conversa para horas, sonhador de primeiro mundo.   

terça-feira, 25 de maio de 2021

álcool gel, máscaras: como se faz o cálculo ambiental?

Mais um dia, mais uma máscara lavada na pia. Sempre a mesma coisa; tampar a pia, abrir a água, ensaboar a máscara, fechar a água e deixar a máscara ensaboada na água por um tempo. A água fica escura, cheguei pensar que fosse a tinta da máscara até que caiu a ficha: poluição do ar. Destampa a pia, escorre a água suja, aperta a máscara, tampa a pia, um pouco de água, máscara dentro. Subindo a av. Rebouças passou um caminhão pequeno soltando muita fumaça. Olho a água escura da segunda lavagem da máscara e entendo porque. Vejo o caminho que fiz e lembro da quantidade absurda de máscaras perdidas no chão. Quero chuva para melhorar o ar e diminuir o risco de racionamento de água que dizem ser uma possibilidade.    

Volto minhas lembranças para as águas de março. Cai uma tempestade, enche e transborda, sobe na calçada. Estou em baixo do toldo de uma loja de rua que como todas outras lojas destes muitos quarteirões, mais de dez, estão com álcool gel obrigatório em suas portas. Em muitas delas fica num totem e é espirado para as mãos com um apertar do pé. Sai um jato e boa parte cai no chão. Olho para baixo procurando onde vai manchar minha calça, mas desta vez o excesso acabou mesmo no chão. Quanto álcool desperdiçado, poluição ambiental. Tomei um expresso numa casa recém inaugurada e o assoalho em madeira, chique, bonito, está assustadoramente todo manchado. Perguntei para a dona o que havia acontecido. "Álcool gel. Já tentamos de tudo para tirar as manchas e nada funcionou. Vou ter que trocar todo o piso". 
Estico o pescoço para fora para ver em quanto tempo a tempestade para. Olho as lojas e tenho certeza que o álcool gel que caiu no chão de todas não deveria correr para a captação de água pluvial. Olho as pessoas que também estão ansiosas para ir embora sem se molhar e tenho certeza que entre encherem até transbordar suas mãos de álcool gel contra o Covid e tomar cuidado usando só um pouco pensando no meio ambiente a opção é óbvia: que morram os peixes que acabaram de voltar ao rio Pinheiros. 
Cada vez que entro em casa lavo as mãos. Como estarão as estações de tratamento de água da SABESP? Para onde vai todo o resíduo? Provavelmente os resíduos devem ter aumentado e muito na pandemia, principalmente as gorduras contaminadas vindas de sabonetes e detergentes. E os outros produtos de limpeza, onde vão parar? Boa parte dos trabalhadores de baixa renda que perderam seus empregos não tem esgoto encanado em casa, mas tinham no trabalho. Como estão os índices de poluição comparados a antes da pandemia?

O maluco só dá péssimo exemplo; não usa máscara e tira um sarro de quem usa. A turba o segue em raivosa festa. O problema do mal exemplo não termina só na pandemia, seus mortos, o colapso da economia que deve se alongar sem os devidos cuidados, mas no sabotar um olhar mais apurado da população em relação às próprias máscaras.   
Especialistas em meio ambiente estão chamando a atenção para o descuido com o descarte de máscaras. Muitas são carregadas para os bueiros, daí para córregos, rios e mares, causando contaminação, já comprovada, que ainda não se sabe bem as consequências, certamente boas não serão. A ciência já avisou que o problema não ficará restrito aos peixinhos, mas que com certeza retornará aos humanos. O cálculo de danos é muito mais complexo do que posso imaginar e até os próprios sábios e cientistas não conseguem fechar.

Assisto o Repórter Eco da TV Cultura. 
Como fazer o cálculo do impacto ambiental causado por esta pandemia? 

Ontem divulgaram dados inequívocos que provam que onde há negacionismo há mais mortes. Nas cidades onde Bolsonaro ganhou o número de internações, mortes e problemas econômicos é muito maior que nas localidades onde houve e segue havendo respeito à ciência. 
Onde vai parar isto?