Lá vem a briga de sempre, o famoso "Eu quero metrô, mas não deste jeito, não como eles (Metrô) querem".
Não defendo ninguém aqui. Coloco minha profunda irritação com a forma como mais esta questão está sendo discutida. Sim, é óbvio, dentro de um grupo social, como numa cidade, há interesses particulares, interesses coletivos de um determinado grupo e interesses gerais da cidade. Reafirmo mais uma vez: brasileiros não sabem o que é uma cidade. Se soubessem as conversas e discussões estariam nos levando a futuro melhor. O que temos hoje é um futuro incerto, um presente caótico, uma falta de inteligência generalizada.
A pergunta óbvia e crucial "que cidade queremos?" Nos faz sentido esta pergunta? Entendemos a importância do que ela nos remete?
Começando por um dos comentários publicados numa matéria sobre a nova linha do metrô que passará por baixo dos Jardins: quem já esteve em NYC e Londres, citados no comentário, sabe que são cidades planas, com linhas de metrô correndo em profundidade rasa, uns metros abaixo das ruas. A forma de construção destes metrôs foi em boa parte no sistema de trincheiras, ou seja, abre a rua ou avenida, faz um buracão, constrói o túnel, instala trilhos, sistemas, e tudo mais, e aí fecha. Isto só é possível em terreno plano. O que foi construído nas cidades européias e americanas num passado distante, virada do século XIX para o XX, foi dentro de cidades ainda com baixa população, se comparado a hoje, e com uma carga de trânsito muito muito muito menor que a que temos agora. A brincadeira é outra.
A linha do metrô da Av. Liberdade foi construída na década de 70 neste método de trincheira, o que acompanhei pessoalmente porque a casa de meu bisavô ficava lá, no meio da bagunça que durou anos. Hoje é praticamente impossível repetir o mesmo processo em São Paulo. Imagine só fechar uma rua ou avenida por anos. Aliás, é fácil de imaginar porque há uma gritaria infernal quando há qualquer problema num pequeno trecho de rua e avenida. Fechar por anos ruas ou avenidas levaria a um colapso no trânsito maior do que já temos, se é que é possível piorar o que está aí.
Sim, as estações de lá, nas capitais européias e americanas, são quase invisíveis, mas, de novo, vale perguntar, como e quais as razões para terem sido construídas daquela forma? E o crucial para uma resposta correta: quando foram construídas? Por que não se faz o mesmo aqui? Boa pergunta. Se fez, é há muitas estações que se resumem a quase uma portinhola.
Estação Fradique Coutinho é uma das estações mais ou menos igual as de lá, uma discreta entrada, metrô correndo praticamente no nível da rua. Depois da estação Faria Lima até a Rebouças o metrô corre raso. Quantos anos a rua dos Pinheiros ficou fechada para a construção do metrô?
Estações do metrô quando passam sob o rio ou o espigão têm que ser profundas. A estação Pinheiros tem 10 andares de profundidade. Como se constrói uma estação tão profunda sem abrir um imenso buraco na profundidade e largura? Largura para subir e descer máquinas, entulho, terra, etc... Moro a uns 100 metros da estação Pinheiros e acompanhei sua construção, aliás apareço numa reportagem sobre o desmoronamento. Há uma resposta razoável para algumas estações serem do tamanho que são. A engenharia de nosso metrô, que se saiba, é respeitada mundo afora.
De novo, e mais uma vez, há uma gritaria em cima do trajeto da nova linha. Sempre há e é um direito do cidadão. As alegações são as variadas, algumas facílimas de entender e dar todo apoio, outras... Uma delas é a passagem por áreas tombadas.
Antes do que escrevo a seguir tenho a dizer que sou, aliás, sempre fui favorável ao tombamento do patrimônio histórico e cultural da cidade. É farta a documentação que prova que sem preservação da memória os problemas sociais se seguem. Deve haver um problema com as leis de preservação, talvez precisem de alguma atualização. Não paramos de perder patrimônio histórico. A memória de nossas cidades está sendo varrida, melhor, já foi varrida. Sou contra. Acho que toda a sociedade já deveria ter sentado e conversado séria e abertamente sobre o tema.
Tombadas? Tombamento? "O metrô vai passar por áreas tombadas..." Se passa em toda e qualquer cidade européia tombada, por que não poderá passar aqui?
Estão destombando alguns (muitos) patrimônios históricos da cidade, demolindo na calada da noite, roubando bronze, descaracterizando acintosamente tudo, e vão falar sobre tombamento para tentar frear o metrô? O silêncio geral em relação a estes crimes contra a história é completo. Sim, concordo, também acho uma maluquice mandar abaixo casas numa área tombada, mas para quem passa no dia a dia por lá sabe que falar agora sobre tombamento fica estranho. Pois se quiserem falar sobre tombamento, que falem, mas falem de verdade, falem sobre o que vale de fato, falem sobre manter nossa história viva, sobre respeito ao bem coletivo. Eu sei que tem gente que fala e fala bem, sabe o que está falando, mas e os gritantes de ocasião que estão vencendo de goleada? Por favor, não usem a palavra 'tombamento' para benefícios e interesses particulares, o que há décadas vem acontecendo. De minha parte, sou totalmente a favor da manutenção não só de nossa memória, mas de um urbanismo civilizatório, ou preservação de patrimônio histórico. Mas... volto, faz tempo que se tem muita gritaria em prol de interesses muito particulares, um profundo desinteresse ao bem coletivo futuro.
Sei exatamente onde ficam as desapropriações propostas para a Sampaio Vidal e Praça Morungaba. A da Sampaio Vidal é exatamente em frente ao portão de um amigo. A da Morungaba, fica a alguns metros da casa de uma amiga. Confesso que não sei como ou por que não se encontrou outras técnicas construtivas para evitar as demolições, mas afirmo que na Sampaio Vidal uma das casas a serem demolidas é obra que nunca termina, mais parece abandonada. A casinha que existia ali, tombada, foi-se para dar lugar a mais uma caixa de sapatos abandona.
Eu não gostaria que mudassem mais ainda aquelas áreas que faz tempo estão sendo degradadas.
Como se pode ter uma conversa civilizada? Quem não se interessou ou acompanhou as histórias das 'ex futuras' estações Metrô USP Butantã e Higienópolis, sabe o que digo. Conversa civilizada exige um mínimo de inteligência. "Não quero porque não quero", "Não quero pobre descendo de metrô aqui" (fato real), "Metrô não tem que passar pela universidade" (publicado em jornal), ou qualquer (?) semelhante... acho que não vale.
Uma dos pedidos dos que protestam é que a nova linha do metrô que cortará os Jardins deveria passar por toda a av. Faria Lima, e não só na Faria Lima para lá da av. Cidade Jardim sentido Brooklin. A princípio faz sentido, mas o Metrô alega que tem dados que demonstram que não é viável mais estações nan Faria Lima pela saturação das linhas existentes. Quando ainda trabalhava vi uma planilha de definição de trajeto e, como leigo, me pareceu trabalho sério, bem feito. E, como morador visinho da Estação Terminal Pinheiros e Faria Lima, Linha 4, faço o depoimento que estão muito próximas do limite. Em outras palavras, fazer uma nova linha carregando mais ainda as da CPTM e Linha Amarela mui provavelmente não vai dar certo.
Como resolver tudo isto? Conversando como adultos paulistanos, não como quem olha para seus interesses mais particulares. Perdemos todos.
https://youtu.be/tZHSOH7cWEM?is=RvsAVs6UcNjDYhte. Como localizar estações
https://youtu.be/CG3lOXGx_vk?is=j6wLFtp3-XaNVO0i. Melhores cidades








