segunda-feira, 6 de abril de 2026

Love, amor, amour, amore...: rentabidade garantida

Made in China

All need is love - Beatles, faixa dos álbuns Yellow Submarine e Magic Mistery Tour, e lado A do compacto com lado B, Baby you're a rich man

Tudo que você precisa é amor, grande sucesso do compacto (45 ou 33?, talvez nas duas versões) com lado B tendo a música Meu caro, você é um homem rico (minha tradução); sucesso também nos discos LP Submarino Amarelo e Passeio Mágico e Misterioso
All need is love - hit parede!

Ironia completa. O que eu tenho a dizer sobre love, amor, e sua incrível rentabilidade está nestes títulos, inocentes, de músicas e álbuns do Beatles. Inocentes porque são um pós WWII, por favor não descontextualizar. 
Dá até para brincar: Você precisa de amor para ficar rico e fazer um passeio mágico e misterioso num submarino amarelo. Imagina só estar num grupo de amorosos ricos proprietários (ricos sempre são amorosos e proprietários de muita coisa) falando sobre seus carrões SUV e esportivos, e matar todo mundo de inveja mostrando que você tem um submarino particular, amarelo ainda por cima. Uau! que chique! Suponho que um submarino custe mais que um belo yate, com 'y'. Iate com 'i' é coisa de pobre, e pobre não sabe amar. Pague o dízimo e entenderá o que escrevi. Que seja, cala boca, e calo a boca, envergonhado!

De qualquer forma, meu delírio aqui pode ser tornar realidade (realidade de verdade verdadeira) se você for um bom vendedor de 'amor'. Dependendo de sua capacidade e inteligência o negócio da venda de amor terá uma linda lojinha (algumas vezes do tamanho de um quarteirão) e sequer será obrigada a declarar imposto de renda. Negócio infalível, um milagre!
Se você for menos esperto, mas ainda assim bom de vendas, vai usar a palavra amor para vender o que quer que seja. Aliás, não precisa sequer usar a palavra (amor, love, amour, amore...), basta mostrar imagens de pessoas em êxtase, insinuação da presença do amor. Enfim, coloca amor de qualquer forma que provavelmente você se dará bem. All need is love!

Pondé disse no Linhas Cruzadas que Jesus Cristo é a mais rentável comodite do planeta. Ou será amor?

Amor virou mercadoria barata e altamente rentável. Todo mundo sabe o que é amor, mas pouquíssimos sabem o que é amor de fato, o amor verdadeiro. Talvez o maior grupo dos que tenham sentido, vivido e saibam o que é amor esteja entre mães. Por experiência de vida, tenho que acreditar que muitas que usam a palavra confundam amor com apego. Fora as que falam sobre amor aos filhos por razões e compromissos sociais, se sentindo aviltadas pela existência deles.

Amor é infinitamente mais popular que Jesus Cristo, isto é líquido e certo. Ou a chinesa que costura por dia montanhas de ursinhos cor de rosa com um coração vermelho no peito bordado com 'love' só o faz porque é uma cristã? Duvido. A chinesa está trabalhando para alguém que vai ganhar um bom dindin vendendo os ursinhos cor de rosa com o coração bordado 'love', nada além disto. O ursinho venderia tanto se fosse só rosinha, sem um 'love' no peito? 
Coração para fora do peito com a palavra amor estampada ou bordada me remete a inúmeras imagens de Cristo que vi. Terá o ursinho e tantos outros bichinhos amorosos que levam no peito o amor alguma relação com a famosa imagem de Cristo?

O que Cristo está pensando sobre a forma como se usa o 'amor'? Cristo, Buda, Alá, Moises, Orixás... sei lá quem mais lá de cima, todos Eles, com todo meu respeito e apesar de minha ignorância, o que acham desta avacalhação. (Coitada da vaca) 
  
Amor é propriedade privada e patenteada em nome do cristianismo? Budistas, islamistas, judeus, hinduistas, orixas... e outros não sabem o que é amor e amar? Será? Aos cristãos, o que será que Cristo acha? 

Estarão Eles felizes com toda este business?

Quer aumentar a chance de ter um grande sucesso com seu filme ou música? Toca amor neles.
Quer ter uma boa conversa com os filhos? Toca amor no meio da conversa.
Quer dar uma receita de felicidade? Infalível: amor!
O almoço está uma delícia? Feito com amor!

All you need is love.
Quanto rende o amor?
Pergunte ao Darth Vader. Este amor que está aí vende até o Dark Side of the Moon. Pink Floyd e Darth Vader que o digam.

O conceito 'criança' só passou a existir (ou ser compreendido com tal) depois da revolução industrial. 'Adolescência' só passou a ser realizada pela população depois da Segunda Guerra Mundial.
Quando se formou o conceito 'amor'? Quando ele passou a ser usado e abusado para impulsionar vendas? A história das religiões pode responder parte, mas não esta bandalheira que temos hoje. E repito, brinquei com a música dos Beatles, mas em 1967, quando foi lançada, o babado era outro. Não tire do contexto. Aliás, não tire do contexto nada. Nem o que acontece agora, meu amado leitor ou leitora.

Pergunta final: o que politicamente correto tem a ver com tudo que eu escrevi aqui sobre 'amor', o mote de venda? 

O que é amor para você?


que lindo!


quarta-feira, 1 de abril de 2026

As janelas do outro edifício

A geração atual não sabe nada. Não faz ideia da emoção que era, quando criança e adolescente jovem, aliás, deve ter tido muito adulto fazendo o mesmo, olhar pelo buraco da fechadura. Já faz muito que as fechaduras são apertadinhas, que fecharam o buraco vazado e não dá para ver mais nada. As velhas fechaduras é que eram divertidas! Permitiam um olhar curioso, meio criminal, um tanto imoral, definitivamente politicamente incorreto, mas ótimas para tentar ver detalhes. Mal trancavam o que quer que fosse, a porta ou o olho. Qualquer um com um pouquinho de jeito conseguia destrancá-las, ou ver, quando via. Hoje, qual seria o grande crime, a diversão do olhar indiscreto ou o abrir e invadir? Não tenho dúvidas, abrir, invadir, roubar é muito menos criminal. Olhar? Nem pensar! Você pode ser linchado socialmente.

E tem a janela do apartamento escancarada. Aí, desculpem, é  inevitável.

No apartamento em frente, janela com janela, um andar abaixo, a linda menina insistia em ficar nua. Começo de noite, fui fechar a cortina e dei com ela, no auge de seus 20 e poucos anos, tudo em cima, curvas perfeitas, pele lisa, olhar perdido, parada, quieta no meio do quarto. Alguma coisa está errada com ela, impossível que não tivesse ouvido o barulho da minha cortina sendo fechada. Ela está completamente absorta em seus pensamentos, pela expressão, em algum problema sério. Parei antes de fechar a cortina por completo, primeiro pelo susto de vê-la daquele jeito, não só nua, depois por curiosidade, e finalmente por prazer, não um prazer sexual, mas pela beleza real como de uma pintura renascentista, semi deusa dando o toque de leveza que conta numa boa pintura. Perfeita, mas de olhar introspectivo, triste, fechado em si. Terminei de fechar a cortina, me preparei para sair, fechar janelas, outras cortinas, pegar as sacolas, calçar os sapatos para ir ao supermercado, e desci. De volta do supermercado passo por ela caminhando, o mesmo olhar introspectivo, triste, fechado, vestida como se quisesse esconder seu próprio corpo. Estranho. 

Da sala vejo o gordo com barriga de fora vendo TV, programa horroroso, sentado próximo de sua mãe, senhora muito idosa, doente, que já não sai de casa. Faz muito calor, mesmo neste tarde da noite, janela escancarada, vejo o ventilador ligado ventando para a velha senhora pernas esticadas sobre um puff, poucas roupas. O gordo é um figura simpática, gosta de puxar conversa quando encontra alguém no térreo. Nunca vi o rosto de sua mãe, sempre com o corpo exposto ao vento da janela aberta e ao ventilador, e sempre com a cabeça escondida pela parede.

Vizinhos novos no apartamento de frente. Muito discretos, meia janela aberta, raramente os vê circular. Se a menina nua ficava um andar abaixo, o gordo dois abaixo e mais para a direita, os novos vizinhos estão cara a cara, mesmo andar, frente a frente. Já peguei um fantasma ali olhando meus movimentos. Curiosidade matou o gato, diz o ditado, todo mundo olha. O máximo que vi foi alguém se maquiando no espelho. Não faço ideia de que cara tem.

Na primeira noite neste apartamento, o das janelas, ainda sem qualquer móvel, vou receber amanhã bem cedo o cara que vai instalar a Internet. Vou dormir no chão da sala, no sleeping bag. Me ajeito, começo a relaxar e começam os sons inconfundíveis de uma maravilhosa trepada. A mulher está sendo muito bem tratada, está se divertindo, geme com muito prazer e alto. Dou risada. Me levanto e vou até a janela. Nada. Deve ser num andar de baixo. A coisa fica cada vez mais quente, no meio de um dos orgasmos ouve-se um urro "Cala a boca, sua puta!", seguida de algumas gargalhadas e da resposta da que goza, rindo: "Cala a boca você. Mulher mal comida é uma merda!". Breve silêncio geral. E a função recomeça, agora com o casal reforçando o espetáculo.

Indecente mesmo é o maravilhoso cheiro de comida deliciosa que sai de alguns apartamentos. Aí dá vontade de arrombar a porta e invadir a cozinha. O aroma da carne de panela que sobe é torturante. Não poder colocar a colher naquela comida é difícil de aceitar. Fazer o que?


A borboleta da bicicleta

É com muito prazer que apresento a borboleta que acaba de sair do casulo que se prendeu à roda de minha bicicleta. Eu travei a roda e deixei a bicicleta parada por três semanas. E hoje vi o milagre da nova vida acontecer. Fiquei tão emocionado que não tirei os olhos do processo de rompimento do casulo e nascimento da borboleta, ou seja, não fotografei nem filmei. Mas aí estão as fotos do antes e depois. A que nasceu é a que está na folha da palmeira. A outra, que nasceu antes e não vi o processo, e infelizmente tem as asas deformadas.








A transformação da lagarta em borboleta ocorre dentro da pupa (ou crisálida), um estágio de repouso onde o corpo se reconstrói. Durante dias ou semanas, a larva utiliza suas reservas para criar asas e novas estruturas. O esforço de romper o casulo é vital para expandir as asas e fortalecer o corpo para o voo

segunda-feira, 23 de março de 2026

Carlos Barcellar e O valor da preservação da memória; Opinião do Estadão. E a minha

Esta Opinião do Estadão, "O valor da preservação da memória", foi publicada horas depois que escrevi e subi meu último texto, Portal de governo apagado, onde toco exatamente no mesmo ponto, a memória pública. Sobre preservação de memória sei muito bem o que escrevo e falo porque convivi com meu irmão, Murillo de Azevedo Marx, que fez toda sua vida, ou luta, no sentido de preservar a memória não só da arquitetura, sua área específica de atuação, mas de tudo.

A noite li o último texto, crônica, publicado de Leandro Karnal sobre colapso de poder dos USA, e como geralmente faço, terminando nos comentários. No meio do texto, Karnal conta que é professor de história dos Estados Unidos, o que sabendo quem ele é não deve ser de pouco conhecimento, portanto ele deve saber o que está falando ou ponderando. Como é comum em comentários, sempre aparece quem se apresente como sendo a história em si, sem cuidados respeitosos tanto pelo que escreve quanto por fatos inegáveis. Não estranho, até porque agora o chique, o must, é o eu; eu selfie, eu sei, eu estou absolutamente correto, todos os outros são uns imbecis, só eu tenho a verdade...

História. Preservação de memória. Quem sou eu? Quem eres tu? Quem somos nós? Ou isto ou navega se a deriva num mar de esperanças vãs sob o canto das sereias. 

BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA, dito e repetido, verdade incontestável, e simplesmente deprimente. Ainda teremos futuro? Sem memória, eu duvido. 

Fica aqui o meu mais sincero agradecimento a Carlos Barcellar e a todos que lutaram e continuam lutando para preservar o que ainda resta da memória deste país. Fica aqui meu agradecimento a quem estava e está no poder e deu guarida ao trabalho de Carlos Barcellar, e de qualquer um que quis e quer preservar história.

Não preservar serve, dentre outras coisas, a dar passos largos e rápidos para, no mínimo, livrar histórias indesejáveis de conhecimento e julgamento. Ou coisa pior, muito pior.

Quem tem medo da verdade?

 







domingo, 22 de março de 2026

Portal de governo apagado. É um crime!


Esta pesquisa de Frankito traz um dado apavorante: "Depois de mais buscas em outros sites, descobri que a fonte era o Portal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2007. Mas este portal não existe mais, foi apagado. E isto é normal porque, quando os governos se sucedem, eles alteram a estrutura dos ministérios e a estrutura dos próprios sites também (lembrando que o MDA chegou a ser extinto em 2016)". Sim, sei que dados e documentos públicos que estejam em versão digital somem, e sei porque tive contato de trabalho com a coisa pública. Aliás, não só os digitais, dependendo some tudo. Não me lembrava mais. Perda de dados e documentos é de extrema gravidade, um prejuízo imensurável para a vida de qualquer cidadão. Do sumiço para a pior das bandidagens não precisa sequer um passo.

Trabalhei em dois projetos cicloviários que simplesmente desapareceram: Ciclorrede Butantã e Projeto Cicloviario de Guarulhos. Sumiram, ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe. 
O do Butantã, com 115 km de vias cuidadosamente mapeadas e estudadas, era de um detalhamento que até hoje é raro, se é que foi repetido em algum outro projeto.
O de Guarulhos, pago pela secretaria de transportes da cidade, em nível funcional, com detalhamento quase de nível básico, propunha uma política de implementação, função social, de mobilidade, e desenvolvimento futuro não comuns aos projetos cicloviários.
Sumiram, desapareceram...

Em outros trabalhos foram pedidos documentos necessários que nunca foram encontrados, em papel ou digital. No digital houve ainda casos que o programa impregado simplesmente não existia mais, portanto tudo se perdera. Mais uma coisa: onde está, com quem, em qual departamento...
Com a digitalização deveria ser mais fácil preservá-los, mas pelo que diz Frankito, mas fica muito mais fácil vapt vupt... e sumiu. E com isto ideias, propostas, projetos, ou provas. De qualquer forma o prejuízo para todos nós é imensurável.

Lembro a todos que uma das bases de construção dos países desenvolvidos e ricos foi e segue sendo justamente a preservação da memória. 
E reafirmo o que todos nós estamos cansados de ouvir e saber: 
BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA 
Não pode dar certo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Reitores, universidades e livros


Desculpem, aproveitando. No meio desta reforma ou atualização legal nas universidades, urge rever a lei de direitos autorais referente a literatura específica relacionada a cultura e ciências. Obras importantes de eminentes professores, pesquisadores e pensadores simplesmente desaparecem porque não se consegue reeditá-los.

Cito dois casos que conheço bem, o do Professor Fernando de Azevedo, a quem se faz desnecessária maiores apresentações, e de Murillo de Azevedo Marx, titular de História do Urbanismo da FAU USP.

Sei que são inúmeros os casos de obras importantíssimas que desapareceram em nome de um direito que atende única e exclusivamente à família e herdeiros, mas que deveriam ser prioridade do interesse nacional, a bem da verdade não só o nacional.

Apesar do grande interesse na reedição de livros de Fernando de Azevedo, foi impossível encontrar todos seus descendentes.

No caso de Murillo de Azevedo Marx, os direitos autorais são da própria universidade, que por sua vez não tem dinheiro para a reedição.

Não posso deixar de apontar uma outra questão. Sei de trabalhos importantes, até por serem únicos em suas áreas, que foram 'cancelados', usando um termo atual, porque seus autores não tinham plena simpatia dentro da academia.

Finalmente, pelo que sei a condição das bibliotecas universitárias está muito longe de ser a ideal. Preservar livros e documentos custa e muito, mas é investimento de retorno mais que garantido. O mesmo para museus, acervos....



Urge uma política solida e construtiva de Estado para a cultura e ciência. Sem cultura e ciência literalmente não há futuro, ou há, o da selvageria, da desordem, descontrole social e da violência, como consequência uma baixa qualidade de vida para toda a população, mesmo a mais abastada.

Um dos símbolos deste país de hoje é o Museu Nacional em chamas. Preciso dizer mais?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Seguir em frente com o que realmente importa

Ainda não sei ao certo por que aconteceu, mas partiu a corrente de um participante de passeio logo nos primeiros metros. Como a bicicleta sempre está impecavelmente brilhante e tem gente que tem mania de fazer revisões desnecessárias para ter a bicicleta nos trinques, eu acredito que mais uma vez a bicicleta foi levada para uma revisão desnecessária, provavelmente revisão completa, onde o mecânico cortou a corrente para fazer uma limpeza mais profunda, e ao montar de volta não fechou o elo como deveria. A outra hipótese, que minha raiva momentânea descarta, é que a corrente estava montada com um elo de ligação, e que por uma tremenda falta de sorte ao tirar a bicicleta do carro o elo de ligação tenha aberto. Acontece. 
Bom, agora sei que não foi revisão.  De qualquer forma, vamos ficar com a primeira hipótese, que já vi acontecer outras vezes,  nãoa corrente,  mas voltar desregulada ou com algo solto. Uma destas vezes aconteceu na mão do então considerado o melhor mecânico de bicicletas do Brasil. Então... acontece.

"Eu fabrico bicicletas para as pessoas usarem, não para deixá-las bonitinhas" - tradução minha sobre a resposta de Mike Sinyard, fundador e proprietário da Specialized Bicycle Components, para Luiz Dranger, representante da marca aqui. Já publiquei esta resposta incisiva mais de uma vez, e provavelmente publicarei mais vezes, porque nela há mais verdades que simplesmente a forma de o que envolve o mundo da bicicleta.

Voltando a corrente quebrada. Desde 1986, quando a qualidade das peças de bicicleta mudaram e ganharam a mesma qualidade aplicada na indústria automobística, mandar a bicicleta para o mecânico se tornou praticamente desnecessário. Ok, as bicicletas atuais são menos duráveis que as da década de 90, mas mesmo assim são feitas para não apresentar problemas por anos, até porque atendem ao mercado americano e europeu.

O que vivemos no Brasil em relação ao entendimento do que deve ser qualidade é uma loucura generalizada, um desvario sem tamanho, em tudo. Exagero meu? Leia os jornais. Nós, todos, estamos pensando errado, e não é só na política, mas no geral. O olhar para a bicicleta não escapa deste pensar errado. Poderia fazer uma análise mais detalhada, profunda, mas vamos ficar só no sentido mais profundo do "bicicleta é feita para ser usada".

Por diversas razões posso dizer que conheço bem a Holanda, ou melhor, os Paises Baixos, nome correto do país. Acho que ninguém tem dúvida que eles são a referência do que e para que serve uma bicicleta. A primeira coisa que chama a atenção de um estrangeiro que goste de bicicleta e tenha recém chegado a Amsterdam, por exemplo, é que a maioria das bicicletas anda, roda, funciona, e olhando com cuidado fica uma certa dúvida: "Como assim? Holandeses pedalam isto?". Enquanto a bicicleta está funcionando eles seguem em frente com elas. Bicicleta é um utilitário, ponto final. Pelo menos a bicicleta do dia a dia.

Vamos ao holandes que tem uma segunda bicicleta, a bicicleta de fim de semana, o que bem comum. Geralmente está numa condição muito melhor que a bicicleta do dia a dia, a que se amarra em qualquer lugar e tem grande chance de ser roubada. Bicicleta de dim de semana bem cuidada, funcionando direito, é uma coisa, mas neurorica e constantemente revisada é outra, até porque encontrar bicicletarias não é uma coisa tão fácil, é um serviço mais perfeccionista sai bem caro, bem caro mesmo.

Outro ponto a se levar em consideração é a consciência ambiental dos holandeses. Duvido que entre os amigos e conhecidos pegue bem a conversa que a bicicleta vive fazendo revisões para ficar nos trinques, brilhante, chamativa. Não é do feitio deles. A regra é "tem que funcionar bem", ou, ser usável para o fim desejado. É quase uma lei para tudo, da bicicleta à conservação da casa. Não sei exatamente como eles encaram os exageros, mas por tudo que vi e vivenciei em minhas várias vezes que estive lá, não deve cair bem.

Numa a primeira das muitas estadias tive lá, pegamos um carro e fomos visitar uma amiga na Alemanha. Nós Paises Baixos o asfalto e a sinalização eram impecáveis. Já o matinho em volta estava aparado, mas era matinho. O foco todo voltado para a segurança no trânsito, não para quaisquer supérfluos. Cruzamos a fronteira e na Alemanha o asfalto, a sinalização eram muito bons, ponto, o paisagismo lindo. Uns dias depois fomos para a Suíça, tudo irritantemente impecável, organizado, funcional, eu adoro,  mas concordo que é um pouco duro, sem molejo. 

De uns tempos para cá tenho olhado minhas coisas de uma maneira diferente. Me dei conta da barbaridade de coisas inúteis que tenho, ou acumulei, sei lá. Demorou. O dito por Mike Sinyard, em 1991, sobre o uso que se deve dar a um bem sempre fez toc toc na cabeça. A vivência com os holandeses no trabalho e como turista me mostrou a inteligência do só o necessário. O dia que entrei numa locadora de bicicletas em Amsterdam e dei com um grande cartaz gritando "Nós pedalamos. Americanos usam capacete" só confirmei que em tudo na vida é necessário aprender a olhar para o que realmente importa. O resto é resto.