Uma pesquisa nos Estados Unidos mostra que a geração mais nova está participando de menos festas que as mais velhas. Mais, tem bebido menos, se preocupado muito mais com sua própria segurança, com seu bem estar, o que a jornalista diz que é uma boa coisa. Mas também tem convivido menos, feito muito menos trocas sociais tete a tete, e menos interação social reflete diretamente na saúde cardíaca, como provam inúmeras pesquisas.
A entrevista da BBC que publico aqui fala sobre uma série que questões que eu vivi e vivo, e sei muito bem o que dá.
Olha só que chique, eu sou filho do Jardim Europa, área nobre de São Paulo e Brasil. Nasci e tive toda minha infância numa linda casa, com um belo jardim, bastante espaço, vários luxos de classe média alta, como carros, barcos, até o prazer de voar nos fins de semana. Chiquérrimo, não é? Pois bem, trocaria tudo para ter um grupo de moleques para brincar no meio da rua.
A linda casa estava encravada num bairro chique, vazio de crianças e vida infantil nas ruas. Minha diversão na infância foi ver carros importados fazendo a longa e aberta curva da esquina cantando pneus a 'mil por hora', motos berrando em acelerações disparadas, e sonhando com uma bicicleta a motor dois tempos, barulhenta, fedorenta, que algum visinho desconhecido tinha. Ouvindo histórias de adultos que fascinam crianças. Mas outra criança para brincar... não. Ah! e TV, desde meus mais tenros aninhos, TV com regras e horário para ligar e desligar. E rádio, que ficava ligado boa parte do dia. A noite, jantar e cama. Meu irmão e minha irmã eram mais velhos, meus primos não apareciam, até tive um único amigo, Edu, que não durou muito.
Enfim, tive uma infância isolada não muito diferente da vida das novas gerações que é descrita nesta entrevista da BBC. A diferença para hoje, e enorme, era que a estupidez paranóica dos muros transformando as casas e as vidas dentro deles ainda era bem rara. A idade média não tinha aterrissado por aqui. Fato, brincadeiras de rua com outras crianças não tive.
A casa afundou junto com o casamento de meus pais, no fim das contas uma benção para todos.
Quando nos mudamos para um edifício na antiga e desaparecida rua Iguatemi, hoje av. Faria Lima, comecei a descobrir a vida. Lá viviam famílias judias com filhos da mesma idade que eu. Não tenho como agradecer a eles. Ali comecei a descobrir a vida. Juntando mais alguns amigos deles, também judeus, nos divertimos muito no fundo do edifício. Quebramos sei lá quantas janelas jogando bola, e não sei como não fomos esganados.
Não demorou muito foi construído o Shopping Center Iguatemi praticamente em frente do nosso edifício. Eu já estava na pré adolescência e tinha liberdade para sair sozinho. Repito: sozinho. Os garotos do edifício tinham lá suas vidas e boa parte do meu dia eu ficava só, vendo televisão e um pouco mais tarde ouvindo música.
E aos 14 anos fui expulso e tive que trocar de colégio. Que benção! Começando por ser misto. Descobri que eu era gente ou que poderia ser gente. Vamos ficar com o 'poderia ser gente'. Ok, colégio novo, muito mais liberal, quase fui expulso uma semana depois porque mandei a merda a Marcia, coisa que definitivamente não se fazia naqueles tempos. Marcia virou uma grande amiga. Os anos seguintes de escola foram de um precioso aprendizado social, mas não uma vivência social. No meio de todos, mas não dentro do todo. Socializar só dentro da escola, e mais ou menos, mais para menos. Fora, eu estava fora.
Meu aniversário de 15 anos acabou sendo um desastre. Minha mãe fez um vatapá maravilhoso (ela cozinhava divinamente bem) para todos os convidados, não sei quantos, mas minha classe do velho colégio, e o único que apareceu foi um primo. Até hoje não sei o que houve, mas ali foi marcado o jogo de minha vida.
Meu núcleo familiar foi ótimo, de uma qualidade que hoje sei ser de rara qualidade. Uma mãe com uma inteligência familiar muito acima do normal, uma casa onde circulava todo tipo de gente, todos amigos de minha mãe ou de meus irmãos, mas gente para lá de inteligente, preparada e divertida. Meus amigos? Poucos, se tanto. Em toda vida de minha mãe só houve uma briga entre os irmãos, uma única vez com meu irmão, aos berros, num jantar, no final da vida dela. Nos arrependemos brutalmente mais tarde. Depois, já com nossa mãe morta, meu irmão veio pedir desculpas.
Minha formação acabou sendo diferente da convencional. Virei uma coisa que não se encaixava socialmente. Um outsider, introspectivo, fora das regras triviais, com interesses pouco comuns. Eu não me encaixava, e tenho certeza que os 'amigos' também não queriam que eu me encaixasse nos grupos sociais que eles viviam. Dou razão a eles. Eu não tinha prática comportamental para me integrar em festas e reuniões, o que para mim dificultava muito qualquer iniciativa. A bem da verdade fui um chato de galochas. Mais ou menos a mesma coisa que um jovem que só sabe se comunicar com o celular.
Enfim, olho para meus netos e a geração mais nova e fico angustiado com o que eles estão fazendo de suas vidas. De certa forma não há grande diferença em isolar-se frente a uma telinha com o que vivi. Não funciona. Socialização tete a tete é crucial para uma saúde mental e física, a ciência prova e comprova, não há qualquer sombra de dúvida.
O entrevistado fala rápido. Vá até as configurações, aquele símbolo em forma de engrenagem, e reduza a velocidade do vídeo para 90%.



