quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O perdão

Perdão. Muito mais fácil perdoar o outro que a si próprio. O perdoar o outro implica em uma série de fatores emocionais, numa espécie de negociação consigo próprio onde entra o vale a pena ou não, o é bom negócio ou não, que vantagem eu levo nesta, se o conflito ou a paz de espírito se encaixam melhor para a situação. 
Já o auto-perdoar entra num pântano cheio de crocodilos que foram criados, acariciarinhados, alimentados por nós mesmos, até não caber mais no nosso quartinho, ou pior, no armário. A solução mais fácil costuma ser sair ou fugir de lá de dentro, da área de conflito, e trancar a porta muito bem trancada pelo lado de fora. A cervejinha nossa de cada dia que o diga. Mas é quem não consegue?

Perdão está nos livros sagrados, e não é como receita de biscoito. 
E lá vem o inferno, criado muito depois dos escritos sagrados. 

A questão é não conseguir se perdoar, ou não saber se perdoar. Quem tem um minimo de consciência difilmente perdoa seus erros mais pesados. Consciência? Ou inconsciência?  Olhe se no espelho e não saberá, ou nunca saberá (eis a questão). Na tentativa de se perdoar, de se aceitar como quem realmente se é, está o real inferno, aquele que a gente vê nas ilustrações bíblicas, as que descrevem os piores horrores que algum pecador pode sofrer.

Dizem que é sadomasoquismo. Não é. Quem o diz ou não tem espelho ou vê-se no reflexo sendo um outro, delírio de si próprio. Óbvio que o mundo está cheio dos que não fazem ideia sobre o que aqui se fala e um selfie para comemorar. Clic! Que inveja destes. A ignorância é uma benção.

Pecador? Sim, pecador, pecado, aquela instituição religiosa doutrinada tanto pelos seguidores da fé quanto pela sociedade que nos atormenta a todos. Sem este sentido, o da culpa (religiosa), que nos leva à responsabilidade coletiva, ou nos impõe goela abaixo a responsabilidade, provavelmente não teríamos chegado aonde estamos como sociedade. "Minta, minta, minta mil vezes e a mentira se transformará em verdade", maldita sábia eficiente técnica de controle social, e caímos nesta feito peixes na rede.

Taoismo e confucionismo têm inferno? Numa pesquisa mequetrefe a resposta é não, mas ditam sobre disciplina para se ter uma vida harmoniosa com o ambiente externo (por assim dizer), portanto o perdoar e o subsequente inferno devem estar ali em algum canto.

Somos uma sociedade moderna, temos o direito a escolha. "E a escolha certa é..." "Ser livre e feliz, mandar a culpa para o inferno". "Você está absolutamente correto! A escolha correta é ser feliz sem culpas". "Podemos tirar um selfie?" "Mas é claro! Sorria!" 
No não se perdoar a tortura é constante, inacabável, ferroz. "Ajoelhe-se no milho, reze todas as contas, pague seus pecados para entrar no céu". Quando você imagina que conseguiu fugir do peso torturante da memória, e consegue, sempre de alguma forma se consegue, logo algo vem de surpreza e traz de volta a agonia da culpa. A vida não perdoa.

"Nossa, que drama!" Minha confusão, ou conclusão, é que não tenho dúvida que aprendi e amadureci, e me tornei maduro e feliz, com o peso da consciência de meus erros, muitos dos quais não consigo me perdoar. Bom, e daí, e se não tivesse passado por eles, como eu seria? Um ignorante abençoado. Eu não. Prefiro morrer queimado na fogueira da auto Inquisição.

Quem não sabe o que é esta barreira, a barreira das culpas entalhadas? Quem é livre, será um sociopata? Um libertino? A liberdade é sua ou emprestada pela sociedade? Ou serão as duas, unidas numa força imparável na qual sempre aceitamos com frequência o Cavalo de Tróia, lindo, imponente, que dentro de nossas porteiras nos trai?

Com perdão da palavra.




domingo, 9 de agosto de 2026

80 anos das bombas atômicas sobre o Japão.

Fato: somos erráticos. Fato, a história da WWII começa a ser aberta de uns anos para cá. Antes era propaganda ou o que seja. Quem viu os últimos documentários sobre o que aconteceu, mesmo ainda com censura, começa a entender que a história foi outra, e que no meio daquela barbárie decisões foram tomadas sob condições que agora, mais de 80 anos depois, simplesmente não são compreensíveis ou são distorcidas. Mesmo para historiadores é difícil contextualizar e precisar os fatos, imagine para nós, simples mortais que vivemos esta época absurdamente diferente. Outro dia estive com uma brilhante jovem mulher esclarecida e muito vivenciada, Marina, que disse, corretamente, que nós que estamos nos Jardins, na Zona Oeste de São Paulo, fazemos comentários sobre quem vive a uns 20 km de distância sem nunca ter ido lá, sem saber onde fica, só tendo um breve e muito limitado contato com os de lá. Se sequer se faz ideia destas realidades, como julgar decisões tomadas no meio de um massacre generalizado na Europa e Asia dos anos 30 e 40? Telefone a manivela! Máquina de fotos caixote. Telégrafo. Rádio amador. Mata borrão... Cara a cara. Tempo para pensar. A instrução base de tomada de decisões tinha outra carga de veracidade e, mais importante, tinham tempo para serem pensadas, discutidas e definidas. E assumidas. Nada de imediatismos e muito menos distorções na escala que estamos vivendo agora. Fato, parou definitivamente a WWll. Fato, a barbárie generalizada da WWll foi responsabilidade direta de fanatismos de várias espécies, tão parecidos com as dos sabichões que temos agora. Este estúpido fator humano é a única coisa que nos une aquele passado. De resto...

A única coisa que quero é que passemos a conversar feito gente civilizada. O passado serve de referência, ou pelo menos deveria servir.

Massacres, barbáries, monstruosidades foram e seguem sendo fatos corriqueiros da humanidade. O que choca é um ineditismo. Não, não estou reduzindo as duas bombas atômicas ao ineditismo, mas colocando mais um fator de peso no entendimento que temos hoje. Junte-se ao emocional individual e vivido no coletivo.

As imagens do momento são fortes, os depoimentos mais ainda, as imagens do pós então... E foram usadas com determinados fins.

Soube se dos bombardeios na Alemanha muito depois, não faz muito. Foram piores, mais violentos que as duas bombas juntas, mas era história que não interessava, talvez sequer aos perdedores.

A história é a história do vencedor. A versão é feita pelos interesses do indivíduo que as diz. A compreensão está nos olhos e ouvidos que cada consegue assimilar

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Fiat 126 da socia do Paulistano e o projeto Fiat 147



Quando a Fiat decidiu entrar no mercado brasileiro eles precisavam descobrir com que modelo começar a produção. Na Argentina eles já produziam o Fiat 128, um compacto de quarto portas, motor transversal e tração dianteira, ótimo espaço interno, um projeto maravilhoso. Eu ia com frequência para Buenos Aires e Fernando, um grande amigo, comprou um assim que foi lançado. Maravilhoso, maravilhoso mesmo.

Mas o mercado brasileiro era outro e Fiat quis saber se aqui haveria espaço para um carrinho pequeno, urbano, bem menor que um 147 ou Uno, com preço final ao público bem barato. E trouxeram doze Fiat 126, o sucessor do Fiat 500 na Europa. Dez ficaram com pilotos de teste profissionais e dois acabaram nas mãos de duas senhoras, não me pergunte porque, mas provavelmente para eles saberem como seria recebido pelo público feminino. Um destes 126, lindo, quadradinho, genial projeto de Sérgio Sartorelli, veio parar com uma senhora que era socia do Clube Paulistano, que fica no Jardim América, São Paulo. Que por sua vez tinha do outro lado da rua a casa aonde morava um amigo meu, o Zé.

Entre os amigos do Zé, que eram sócios do Paulistano, estavam uns fortinhos, um deles bem grande, jogador de pólo aquático. Só aprontaram. Um dia passaram pelo pequeno 126 e decidiram ver se conseguiam levantar o bichinho. Se levantavam um Fusca, o 126 foi moleza. E para completar a brincadeira inverteram a posição do carrinho na vaga, e lá ficaram esperando a dona de dentro da casa do Zé. Óbvio que a senhora não entendeu nada, e que a brincadeira estava só começando para eles.

Bastava o 126 ser encontrado pelos pastilhas para ser carregado para lá e para cá, enlouquecendo sua dona cada vez que ela saia do clube. Um dia pegaram o 126 e carregaram para dentro do jardim da casa do Zé (na realidade a casa dos santos avós dele). A senhora vai pegar o carro e nada. Olha para um lado, olha para outro, anda para cá e para lá, é finalmente vê a cor do carrinho por entre a cerca viva da casa. Vai até lá, toca a campainha, aparece a Terezinha, a santa empregada de 1,48 m de altura, e a senhora com calma pergunta se ela poderia entrar para pegar o carro dela... E antes que ela terminasse o pedido ouviu-se um urro da santa Terezinha - José, venha imediatamente devolver o carro da senhora. Urro seguido por uma gargalhada da tropa escondida na janela do segundo andar.

Não faz muito, por uma ironia do destino, encontrei um dos envolvidos no projeto 126. Ele conhecia a história, não em detalhes, riu muito e confirmou que a bricadeira pesou na decisão da Fiat começar a operação no Brasil com o 147, que é derivado do 127.

Um pequeno detalhe de velhas molecagens também pesou na decisão final. São várias as histórias da garotada pegar as Romi-Isetas e colocá-las entre dois obstáculos para travar a única porta, dianteira, do carrinho minúsculo. E a história do problema que a VW teve com seus "CornoWagen", apelido dado aos fuscas 1965 com teto solar. Enfim, com brincadeira de povão não se brinca.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Uma Opinião no Estadão imperdível: menino Ney e o Brasil

Quem puder, por favor, leiam este Opinião. Absolutamente na mosca, absolutamente um comentário acertado e terrível para minha geração, absolutamente fiel aos acontecimentos. Publico printes como se fosse minha palavra, e é, como um pedido de desculpas, vergonhoso, dolorido, agora inútil, aquele Brasil virou isto. Deprimente. 

E agora, o que se faz? Como saímos desta? 














domingo, 2 de agosto de 2026

Montesuma's Revenge

- Senhor e senhora ..., por favor, me acompanhem.

Levanta-se ela é vai até ele, explica que o marido está num número dois.

- Número dois? Minha senhora, que número dois? Os próximos são vocês, esta é a ordem dos números. Que número dois?

- Olha lá. Ele está chegando. E a passos largos e sorrindo lá vem ele

- Me acompanhem, por favor. Sentem-se. Quem vai ser o primeiro. Ele aponta para ela.

- Nome, data de nascimento, naturalidade... e é interrompido pelo marido.

- Desculpe, mas o senhor pode prosseguir com o passaporte dela que eu já volto.

E no meio da fuga, ouve-se um - O senhor não pode sair daqui!, mas não adianta, a passos curtos e rápidos o marido some.

- Por favor, tenha um pouco de paciência com ele. É o número dois.

- Minha senhora, de uma vez por todas, que número dois?

- Montezuma's revende, responde ela com cara consternada

- Montezumas Revenge? Quem é este Montesumas? O que ele tem a ver com o número dois? Ele é o número dois? Minha senhora, esclareça!

- Meu senhor, número dois, Montezuma's Revenge, piripiri, dor de barriga.... Ontem fomos convidados para um almoço mexicano... E reaparece o marido sorrindo meio amarelo, mas com expressão feliz.

- Acho que está resolvido, diz ele.

- Ok. Vou deixar passar. Vamos recomeçar. O senhor está bem? Se sair de novo vou ter que parar e vocês vão ter que remarcar.

- Estou bem. Por favor, temos viagem marcada, não temos tempo, não dá para remarcar, peço desculpas.

- Ok. Então vamos recomeçar, desta vez pelo senhor. Nome, data de nascimento... E ouve-se um peido alto, forte e em pouco tempo a sala fede terrivelmente. - Dá para o senhor se controlar? pede o federal levantando a voz.

- Dá. Peço desculpas, não vai acontecer novamente.

- Está bem, vamos lá, nome... e mais uma vez ouve-se um peido alto. A mulher não se aguenta e dispara a rir.

- Se o senhor soltar outro peido vou dar ordem de prisão. Remarquem... e ouve-se mais outro peido, agora com os dois caem às gargalhadas. O federal pasmado fica mudo, respira fundo e decreta,

- Vocês estão presos por desrespeito à autoridade.

A mulher consegue se controlar um pouco e no meio de suas gargalhadas e lágrimas nos olhos diz para o federal

- Com todo respeito, se eu fosse o senhor não faria isto. Com todo respeito e com idade para ser seus avós, a nossa experiência de vida diz que se o senhor nos prender por - e cai na gargalhada, lágrimas escorrem e molham a blusa, mas toma fôlego, consegue controlar se e termina, - se o senhor prender dois velhinhos por soltarem peidos numa entrevista - e cai na gargalhada de novo - o senhor vai virar o meme de toda PF. Por favor pense bem.

O federal, pasmado, cabeça baixa, olhos na mesa, mãos na testa, pergunta: - Pelo menos o senhor tem condições de terminar a entrevista sem cagar na minha cadeira? Aí os três caem num incontivel acesso de gargalhada.

Entra o chefe na sala e pergunta se está tudo bem?

Ouve-se mais um barulho, diferente agora, vindo do marido que para de gargalhar e responde - Ops!

O futebol de ídolos ou voltar a ganhar?

Vivemos num país que para a turba apedeuta só há felicidade quando se faz um selfie onanista, ou no onanismo, de preferência com corretor de imagem para o foco da foto, leia-se selfie, a escolher a cabeça em questão, ou o capô de fusca, ou ainda o 'x' da questão (para ser politicamente correto).

Nosso futebol e nossos jogadores refletem o que somos, brasileiros. O país dos muros, o país de uma farmácia a cada esquina, o país das festas, dos selfies, um dos campeões mundiais de selfies, de uso de redes sociais, de plásticas, preenchimentos, de gastos com cosméticos e maquiagens... Que jogador de futebol esperar disto? Que resultados esperar disto?

As entrevistas que Gerson, o Canhotinha de Ouro, tem dado são geniais. Ele não tem papas na língua. As entrevistas de velhos jogadores falando sobre Pelé são elucidativas sobre o que é que somos hoje. Elucidativas sobre que país é este. 

Futebol é um ótimo reflexo de sua sociedade, parafraseando o brilhante Roberto Da Matta nos seus 90 anos de sabedoria e serviços prestados a todos nós. Mas quem conhece? Quem se interessa pelos que falam sobre um Brasil, o coletivo, o unidos venceremos, tal qual arroz japonês? (Perdão, mas só um momento para o selfie). 

Talvez um dia a nova geração de brasileiros venha um dia entender a devastação que um Neymar fez para este país, e aí não falo sobre futebol, mas sobre a construção de um futuro melhor para todos. Sem dúvida, a opção da maioria é por um país menino, festivo, irresponsável, narcisista. Nós contra eles em estado de arte bruta e profundamente mediocre.

Unidos venceremos. Que um dia olhemos com mais carinho para os Mirassol de nossa história. "Ou nós ou eles" é um nojo, um asco, uma estupidez sem tamanho. 

Foi a nossa pior Copa? É mesmo? Não? Você jura?


Eu não li ainda este artigo "O menino Ney e o Brasil que não cresce", mas este comentário bate exatamente com o que penso. É literalmente inaceitável o que vivemos




quinta-feira, 30 de julho de 2026

Churrasco holandês

Churrasco holandês? O que é isso? 

A bem da verdade nunca tinha pensado num churrasco holandês. Deve até ter. Eles gostam de carne, gostam muito. Sei porque trabalhei com e para eles, e invariavelmente quando estavam aqui, no Brasil, bastava ouvirem a palavra mágica 'rodízio' para abrirem um vasto sorriso ou acabar com qualquer mal humor. A bem da verdade 'rodízio' faz milagres com qualquer gringo, até argentinos. 

Numa desta idas a um rodízio com os holandeses, que são uns gozadores de marca maior, um deles ficou impressionado com o garçom retirando os pratos, montanhas deles numa tacada só. Chamou o gerente e disse que pagaria o que fosse para ver quantos pratos o garçom conseguiria retirar de uma única vez. A churrasqueira não estava cheia, final de horário de almoço, mesas ainda por limpar, o gerente olhou em volta, chamou o franzino garçom e lançou o desafio. Ele sorriu e saiu com sua bandeja para mostrar quem era. Colocou 54 pratos na bandeja aos gritos de mais um e foi-se para a cozinha sob aplausos. E... quase um desastre. De dentro da cozinha saiu outro garçom que quase manda tudo para o chão. Mais urros, mais aplausos, entram o franzino garçom e os 54 pratos na cozinha sem querer se ouvisse barulho que quebras. Volta o garçom para a sala aos fortes aplausos de toda a churrascaria. E os holandeses felizes, rindo, e obviamente comentando em holandês.

Churrasco holandês? Segundo este Instagram, é horrível. Bem, pode até ser, mas não tão horroroso como o sanduíche de arenque cru com cebola, a única comida que após a primeira dentada mandei pro lixo.

Minha recomendação na Holanda e nos Países Baixos? O cachorro quente do supermercado é . E sair de lá sem comer batatas fritas é um crime. Todas batatas fritas são iguais? Não são, definitivamente não são. As holandesas....

Um aparte: o centro de Amsterdã é um dos lugares mais perigosos do planeta para se pedalar. Acredite, dica de ciclista profissional que conhece aquilo na palma da mão. A saber, o povo de Amsterdã acha o mesmo. Eles não aguentam mais os malditos turistas em bicicleta.

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Amsterdã é maravilhosa. Descubra a cidade, vá além do centro histórico. Atrás do Museu Van Gogh tem um bairro art deco que é maravilhoso, único, imperdível.

E estando lá, este Wok to Walk é imperdível, minha paixão. Aliás, a rua onde está também. Estica as pernas até o American Café, umas três quadras