quinta-feira, 9 de abril de 2026

Obsolência programada? E se obtarmos pela durabilidade?

O carro teve um chileque e decidiu por conta própria que ia ficar com luzes e parte elétrica toda ligada. Bom, se deve dar um desconto a ele, velhinho, já com uns 20 anos de uso constante. E lá vai a dona à concessionária. A troca da peça sai por R$ 30 mil. O carro vale R$ 35 mil. A dona já sabia que a coisa estava ficando cara. Uma troca de lâmpada do farol tinha custado a bagatela de R$ 1.500,00, sim a "lampida", nada mais. Achou caro? Naquele modelo ainda se troca só a lambada, nos mais novos a lambada queimou só é possível a troca do conjunto ótico inteiro, ou seja, mais de R$ 5 mil, isto nos modelos mais simples. Nos de luxo? Não quero nem saber.

Se na década de 60 ou 70 dissesse que um dia as coisas ou não teriam conserto ou sairia uma fortuna, ninguém iria acreditar. Já sabíamos que tudo tinha vida útil, mas não que chegaríamos onde estamos. 

Em tempos passados não se falava em colapso do planeta. Já haviam sinais que a coisa não ia muito bem, como por exemplo na época das chuvas e de férias os bueiros começavam a vomitar água podre, isto onde havia esgoto, coisa rara então. Mas colapso estava fora de nossa imaginação. 

Naquele passado distante, uns 50 ou mais anos atrás, bateu o carro? Funileiro. Os caras eram mágicos, puxavam aqui, desentortavam ali, e o carro voltava a funcionar. Hoje se troca as peças tortas por novas, desmonta, joga no lixo, peça nova, encaixa, pintar, ponto final. Em tudo, quando compensa. "Deu PT". Como assim? "Perda total" Como assim??? "Não compensa consertar". Uau!

Você já viu o que se transformou um reparo de válvula de privada? Ou o courinho de torneira? Aquele que para parar o pinga pinga. Virou uma peça plástica sofisticada de alta tecnologia que acabou, descarta, compra e põe outra igual. Meio ambiente? Quem? Quanto tempo durava um courinho? Quanto dura um reparo destes novos? Qual o impacto ambiental? "Quem?" Mais, cadê o sujeito que faz o reparo? Quanto ele cobra? Quando ele vem! "O que?" Conversa de loucos.

Como criança sabia que se quebrasse a bicicleta não teria outra. Tinha que cuidar de tudo, porque era único, custava caro e não dava para comprar outro. Aliás, não fazíamos ideia do que era cultura do desperdício pela simples razão que era impensável desperdiçar. Coca-Cola? Uma garrafa, das de vidro, aos domingos, ou no aniversário, ponto final, sem mais conversa.

Sim, sabíamos o que era obediência programada... 

Corrigindo, sabíamos o que era obsolescência programada, ou pelo menos tínhamos uma noção do que era, mas nada como a loucura que vivemos hoje. 

Já obediência, a programada pelos pais, tios, avós, era para ser obedecida, ponto final, sem mais conversa... mesmo. Fez besteira? A insolência estava bem programada para a surra e o castigo. Quebrou, pagou! Ponto final.

Um rádio custava o que um rádio devia custar e uma escovinha de unha custava o que devia custar, pelo menos o custo fazia algum sentido. Hoje? A escovinha pode custar bem mais que um pequeno aparelho eletrônico fabricado dentro de um complexo processo industrial de alta tecnologia. É a escala de produção, está certo, mas não faz sentido que um pedaço de plástico com cerdas encaixadas, um processo industrial básico, de poucas etapas, possa custar mais que algo altamente tecnológico. As escovinhas já não duram tanto, o mesmo para as porcarias eletrônicas. 

Tive um celular Nokia, dos antigos, que caiu 10 andares, ficou submerso por uns 15 minutos, foi seco e voltou a funcionar. Uma amiga comprou um celular de última geração que deu defeito ainda novo. Recebeu um novo e o velho foi descartado, lixo, ponto final. Obsolescência programada?

Outra amiga levou sua bicicleta, uma 29, das básicas,  baratas, para trocar os pneus e fazer uma manutenção geral preventiva. O orçamento veio com R$ 2.600,00. Roubo? Não. O orçamento feito pela bicicletaria, tradicional e séria, foi padrão dentro do mercado: troca tudo por novo. Ou joga fora a antiga e compra uma bicicleta nova que vai custar uns trocados a mais em suaves prestações. Os pneus, estes sim tinham que ser trocados, mas o resto? Pelo que recomenda o manual do fabricante da corrente,  desgastou,  sim troca tudo, todo sistema de marchas. O jogo é este, se quiser joga, se não quiser dá o fora. 

Uma outra amiga trocou sua bicicleta depois que também levou a uma outra bicicletaria e o orçamento veio algo próximo de R$ 5.000,00, quase o preço de uma bicicleta nova. Roubo? Não, de novo, gente séria, com anos de mercado e montes de clientes. O que explica? Filosofia comercial, digo eu. Troca tudo, simples assim, e troca em nome da segurança do ciclista. Segurança do ciclista? A bicicleta estava funcionando perfeitamente, só tinha a quilometragem que o fabricante recomenda a troca da corrente. E o povo paga, seja porque não entende nada, seja porque não quer fazer feio na roda dos amigos ciclistas. 

Pausa para os comerciais 


De volta à programação 

Conta a história que a Phillips, uma marca inglesa impecável de bicicletas, que não dava defeito nunca, quase indestrutível, faliu na decada de 80, se não me falha a memória, por não querer baixar a qualidade.

Quer entender melhor o que 'foi' qualidade? Um dia, faz tempo, comprei uma bicicleta para levar para o museu de bicicleta. Detalhe: ela tinha rodado 50 anos sem fazer qualquer manutenção, só tendo trocado os pneus e câmaras. A corrente? Óbvio, muito gasta, mas rodando.

Em 1992 a Specialized deu um salto no mercado quando passou a entregar na caixa as bicicletas básicas já praticamente prontas para rodar. Era só tirar da caixa, encaixar e apertar alguns parafusos e sair rodando com segurança. Qualquer idiota conseguia, e a bicicleta funcionava bem, segura. Fizeram isto até porque a qualidade de serviço de boa parte das bicicletarias não atendia um padrão mínimo de qualidade. Ainda na fábrica as bicicletas recebiam ajustes básicos, o que fazia toda diferença no pedalar e na durabilidade do produto. 
Mike Sinyard, fundador da Specialized, recomendou ao Luiz que nunca desfazer-se das bicicletas do início dos anos 90. Ele estava certo. Naquela época obsolescência programada tinha um outro parâmetro. As velhinhas continuam por aí, deliciosas, impecáveis.


Ineptocracia



Ineptocracia, termo muito interessante, que calha bem para o largo momento que estamos vivendo neste país chamado Brasil. Aliás, eu digo, vivemos uma inepto-larapiocracia.

Fiquemos com a ineptocracia 'brasa', como tentaram emplacar como apelido na seleção brasileira. Faz sentido quando se olha para os últimos incêndios, o do prédio histórico no Paraná e o velódromo no Rio. Qual será o próximo. Aguardem que vira. Cultura? Cultura no Brasil? Esportes? Faça sua bet! Aposte que o número de endividados crescerá. Barbada.
Ineptos. Faz quantos anos que não temos um macro projeto de estado de longo prazo para o país? Remendos temos aos montes, em todos setores. As mudanças necessárias demoram anos, décadas para virem, e não raro quando vem chegam pela metade. Vide a reforma fiscal, décadas atrasada. Vide a segurança pública. Vide...

30 março de 2026, foi inaugurado o monotrilho que deveria ter ligado o Aeroporto de Congonhas com o estádio do São Paulo F. C., como obra para a Copa do Mundo de Futebol aqui, Brasil. Iniciada em 2010, deveria ser entregue em 2014, antes da Copa. Finito pela metade, ok, um terço, ok, pequena parte, ok, foi inaugurado, Thanks Gold!, doze anos depois. Uma das desculpas é que mudaram o estádio da Copa por vontade e desejo do Exce. Presidente. Saiu do Morumbi de ricos e foi para Itaquera de gente bem mais simples,  estádio novinho, dívida também... Não qualquer dívida, mas uma senhora dívida que ninguém sabe quando paga, isto se paga. E a torcida achou lindo. 
Nada fora do normal, o atraso, aumento de custo, obra abandonada por anos, transtornos, votos no candidato que ajudou na realização do sonho Corinthiano, mesmo que tenha sobrado uma dívida que não se sabe quem e quando será paga... Onde está e de quem é esse dinheiro? Sei lá? Duvido que alguém consiga contabilizar de forma que se entenda. UAI, se tem uma dívida monumental, quem segura a bronca?
Pelo menos os custos da obra parada se sabe. Como sempre custava tanto no projeto e custou tanto a n potência no final, dinheiro público, meu, teu, nosso, deles...Dinheiro público, portanto nas bundas de quem vai sobrar sabemos. Já o custo gerado pela mudança de projetos da Copa, quem sabe?

E a confusão no Oriente Médio vai rolando, vai rolando, vai rolando..., e se transformou num drama planetário. Vai sobrar para todo mundo. Alguém lá em Brasília pensou nesta possibilidade? Alguém estudou o que fazer com as possíveis (possíveis???) dificuldades e oportunidades que se apresentam com esta guerra? Qualquer um minimamente esclarecido ficaria com uma pulga na orelha, mas os 'inteligente', os 'eficiente', do Planalto não, eles sabem o que fazem. Sabem? 
Que o barril de pólvora que o instável (instável??, só isto?) presidente dos USA está armando acho que os inteligentes de Brasília já tenham sacado, mas daí a terem noção do que fazer, vai longo caminho a deriva.
Precisa de 'pobrema' vindo de fora? Não, não, não, mas servem bem como cortina de fumaça para a baderna caseira. Nada melhor que notícias sobre a viagem a lua para esquecer por um tempo os lunáticos caseiros.

Vamos para o que nos afeta diretamente. São Paulo está tendo com frequência congestionamentos de mais de 1.000 km. Tem solução? Sim, mas...
Ontem foi mais um dia de caos completo. Mesmo pedalando tive dificuldade para chegar onde devia. Estou cansado de repetir isto. Cada dia mais frequente e cada vez pior. Responsabilidade de um acidente? Não. Sem razão aparente. Que loucura. Alguma palavra sobre o que fazer? Sim, magias, milagres momentâneos, soluções. Soluções: qual é o plural e o aumentativo de soluço? Sim, soluções, tentativas de resolver aos soluços. IP! IP! IP! A médio longo prazo, alguma idéia inteligente? Qual? Desculpem, não ouvi ou não consigo entender.

Ineptocracia.

Aliás, olhando as primeiras páginas de jornais, vendo as notícias na TV, ouvindo rádio, melhor inepto-larapiocracia.

Temo fú! Ou vamos colocar a caixola para funcionar. E agir

Nunca na história deste país o nível geral foi tão baixo. O país caminha, mas como?
Nestes últimos dias tem ficado claro que o que mais se tem é inepto e larápio. Um país se faz de exemplos. Os nossos exemplos neste momento são Brasília e Rio de Janeiro. Vai dizer que não, que estou exagerando? 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Queima Brasil, queima

"O Brasil só tem jeito se jogarem uma bomba atômica". Cansei de ouvir esta irritação de gente que de fato quer ver este país ir para frente. 
Não precisa, a inteligência nacional toca fogo no que a gente tem de melhor. Começou com o Museu Nacional, ou começou antes, sei lá, definitivamente não quero lembrar, foi muito.
Desta vez foi o Velódromo do Rio.
A Santa Inquisição durou em torno de 600 anos, quanto anos mais durará nossa infame estupidez? Quanto é o que mais vamos permitir que vire cinzas?


Crianças doentes da cabeça


Eu fracassei no meu trabalho. É muito duro ler este Notas & Informações sobre a delicada saúde mental das crianças de São Paulo, e provavelmente de todo Brasil. No caos urbano, portanto social, que estamos metidos era de se esperar uma notícia destas. Triste, deprimente.

A função da bicicleta dentro das cidades vai muito além da tentativa de ajudar no trânsito, melhor a mobilidade, reduzir a poluição. Bicicleta está sendo introduzida mundo afora também para obter estes resultados tão divulgados e usados como ferramenta política, mas não só. 

Bem introduzida, ou seja, com intervenções urbanas inteligentes, principalmente com traffic calming, ou acalmamento de trânsito, reduz o ritmo da cidade, trazendo de volta a possibilidade da convivência justa de espaços públicos de forma prazerosa e com segurança, pela população, o que incluí mães, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais. Não aconteceu, não é o que vemos. O foco está só no aumento de kms segregados para ciclistas através da implantação de ciclovias e ciclofaixas, o que defino como 'a bicicleta, pela bicicleta, com a bicicleta', ponto.

Bicicleta bem introduzida, com inteligência e usando técnicas urbanas conhecidas e testadas faz décadas, diminui as tensões sociais, reduz a violência, melhora a saúde pública, fortalece a economia local, melhora a produtividade no trabalho e o rendimento escolar, dentre outros. Dados internacionais provam isto sem deixar sombra de dúvidas, não só na Europa, mas em todas localidades onde houve e há preocupação com a qualidade de vida na cidade. 

Parte de minha geração quis implantar através da bicicleta uma transformação urbana mais profunda. Com profunda tristeza vi tudo reduzido a ciclovias e ciclofaixas. Fomos inocentes, acreditamos que brasileiros tinham uma noção (vaga) sobre o que deve ser uma cidade. Não tinham e não tem e pelo jeito não estão interessados em ter. A selvageria urbana está aí para quem quiser ver e viver, pior, acreditando que isto é progresso. Coitadas de nossas crianças. O resultado está aí.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Hail Mari. A vantagem da falta de opções

Funcionária nova de fábrica de chocolate ganha o direito de comer quanto chocolate quiser. Não demora muito a 'liberdade' enjoa e o direito a escolha cai na realidade. Fazer o que quer e bem entende geralmente não é uma escolha interessante, menos ainda inteligente.

No meio do filme, na cena quando é dado três horas para o personagem principal decidir sua vida, viver ou morrer, simples assim, eu tive um acesso de gargalhada alta, incontida, solitária no meio de um cinema lotado. E quanto mais percebia que gargalhava solitário no meio de um silêncio geral incomodado, pior ficava meu descontrole sobre minha gargalhada incontida. Foi difícil me conter. Um dia aquele público jovem vai entender minha gargalhada. A vida vai lhes ensinar. Ou não, aí triste.

Ontem, no meio de um almoço de Páscoa, como convidado de uma família de boa condição social financeira e cultural, sentado na mesa frente a três meninas jovens, bem vestidas, lindas, com suas mães juntas, disparei que brincar com a liberdade, que elas têm para dar e vender, emprestar e jogar fora, um luxo para poucos, é uma tremenda desvantagem frente aos que vem do nada e têm fome de comer. Não ter muitas escolhas faz diferença. Minha verborragia saiu quando peguei o gancho na fala de uma das mães que dizia que a filha não se decide sobre o que fazer da vida, e que ela deveria partir para a vida, buscar um trabalho, entender como são as coisas, inclusive para se decidir. As meninas, bem educadas, prestavam atenção em silêncio. A para quem se dirigia a conversa ouviu com expressão neutra, consciente que tem o luxo da escolha no seu tempo, luxo que tem tudo para virar um lixo.

Ironia, outra pessoa, outra história. De manhã, cedinho, vem a ligação de vídeo. "Chega de besteira. Vou tocar para frente". Foi uma decisão demorada, difícil, e pela forma como foi dita parece que vai ser cumprinda, o que sei bem que não é fácil. Tendemos a nos acomodar, mesmo com o ruim.  

"Não existe liberdade sem disciplina", disparei para a mãe da menina que acredita saborear com prazer sua liberdade libertina de escolha para a vida. Sentada ao lado da filha a mãe concordou imediatamente comigo. "Trabalhei desde de nova. Sou executiva. Não tenho dúvida que tem que cair na vida, achar um trabalho qualquer, não importa o que, para saber o que quer". A filha, sorriso leve, cara de pastel, ouvia, e nós a sua volta vimos as letras entrarem por um ouvido, saírem pelo outro e baterem na testa das primas, estas sim atentas, decididas.

Três horas para decidir sua vida. Com o direito de uma escolha única, a que se deve fazer naquele momento, não a desejada, aquela ideal para os sonhos utópicos, líricos,  desejados, sobre tudo enganadores. 
Sem tempo para pensar. É aquilo ou aquilo mesmo, simples assim. Ser caça ou caçado, esta é a verdade constante na vida.

O cano da 45 foi batido no meio do olho esquerdo, engatilhado. Momentânea perda de visão, dor, volta o mundo desfocado. Numa fração de segundo toda vida veio à tona. Opção zero. A situação imediata impõe.

A urgência de uma reforma fiscal está rondando o governo e congresso faz décadas. Tudo desanda e todos continuam sem tomar posição. O gatilho está armado faz tempo, mas as vítimas, nós, provavelmente morreremos de inanicão. O gatilho foi acionado várias vezes, os tiros disparados um atrás do outro, vamos morrendo a cada minuto, mas nos acostumamos. 

Minha gargalhada, na cena das três horas para decidir o que o personagem faz da vida, me remete a minha própria vida. Quisera fosse assim, ou vai ou vai, teria sido bem mais fácil. Fácil talvez não, funcional, eficiente, cheio de possibilidades pela vida. Tendo vivido o luxo do luxo de terem me dado o pleno direito à escolha, qualquer, sinto profundamente inveja dos que não a tiveram. Tenho inveja dos que não ficaram parados no meio do campo verde, semeado, pronto para colheita, curtindo a beleza até que ela secasse. E a colheita fosse toda perdida. 

Final do almoço fiquei conversando com a mãe da linda jovem que não se decide. Uma nem-nem que tem tudo, pode tudo, recebe tudo, certa que o mundo é dela, que nada se acaba, tudo sempre será assim, tudo se ajeita, a delícia não vai se acabar.
Apavorante!

Queria ter sabido avaliar melhor as escolhas. Queria ter realizado uma verdade: não existe liberdade sem disciplina.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Love, amor, amour, amore...: rentabidade garantida

Made in China

All need is love - Beatles, faixa dos álbuns Yellow Submarine e Magic Mistery Tour, e lado A do compacto com lado B, Baby you're a rich man

Tudo que você precisa é amor, grande sucesso do compacto (45 ou 33?, talvez nas duas versões) com lado B tendo a música Meu caro, você é um homem rico (minha tradução); sucesso também nos discos LP Submarino Amarelo e Passeio Mágico e Misterioso
All need is love - hit parede!

Ironia completa. O que eu tenho a dizer sobre love, amor, e sua incrível rentabilidade está nestes títulos, inocentes, de músicas e álbuns do Beatles. Inocentes porque são um pós WWII, por favor não descontextualizar. 
Dá até para brincar: Você precisa de amor para ficar rico e fazer um passeio mágico e misterioso num submarino amarelo. Imagina só estar num grupo de amorosos ricos proprietários (ricos sempre são amorosos e proprietários de muita coisa) falando sobre seus carrões SUV e esportivos, e matar todo mundo de inveja mostrando que você tem um submarino particular, amarelo ainda por cima. Uau! que chique! Suponho que um submarino custe mais que um belo yate, com 'y'. Iate com 'i' é coisa de pobre, e pobre não sabe amar. Pague o dízimo e entenderá o que escrevi. Que seja, cala boca, e calo a boca, envergonhado!

De qualquer forma, meu delírio aqui pode ser tornar realidade (realidade de verdade verdadeira) se você for um bom vendedor de 'amor'. Dependendo de sua capacidade e inteligência o negócio da venda de amor terá uma linda lojinha (algumas vezes do tamanho de um quarteirão) e sequer será obrigada a declarar imposto de renda. Negócio infalível, um milagre!
Se você for menos esperto, mas ainda assim bom de vendas, vai usar a palavra amor para vender o que quer que seja. Aliás, não precisa sequer usar a palavra (amor, love, amour, amore...), basta mostrar imagens de pessoas em êxtase, insinuação da presença do amor. Enfim, coloca amor de qualquer forma que provavelmente você se dará bem. All need is love!

Pondé disse no Linhas Cruzadas que Jesus Cristo é a mais rentável comodite do planeta. Ou será amor?

Amor virou mercadoria barata e altamente rentável. Todo mundo sabe o que é amor, mas pouquíssimos sabem o que é amor de fato, o amor verdadeiro. Talvez o maior grupo dos que tenham sentido, vivido e saibam o que é amor esteja entre mães. Por experiência de vida, tenho que acreditar que muitas que usam a palavra confundam amor com apego. Fora as que falam sobre amor aos filhos por razões e compromissos sociais, se sentindo aviltadas pela existência deles.

Amor é infinitamente mais popular que Jesus Cristo, isto é líquido e certo. Ou a chinesa que costura por dia montanhas de ursinhos cor de rosa com um coração vermelho no peito bordado com 'love' só o faz porque é uma cristã? Duvido. A chinesa está trabalhando para alguém que vai ganhar um bom dindin vendendo os ursinhos cor de rosa com o coração bordado 'love', nada além disto. O ursinho venderia tanto se fosse só rosinha, sem um 'love' no peito? 
Coração para fora do peito com a palavra amor estampada ou bordada me remete a inúmeras imagens de Cristo que vi. Terá o ursinho e tantos outros bichinhos amorosos que levam no peito o amor alguma relação com a famosa imagem de Cristo?

O que Cristo está pensando sobre a forma como se usa o 'amor'? Cristo, Buda, Alá, Moises, Orixás... sei lá quem mais lá de cima, todos Eles, com todo meu respeito e apesar de minha ignorância, o que acham desta avacalhação. (Coitada da vaca) 
  
Amor é propriedade privada e patenteada em nome do cristianismo? Budistas, islamistas, judeus, hinduistas, orixas... e outros não sabem o que é amor e amar? Será? Aos cristãos, o que será que Cristo acha? 

Estarão Eles felizes com toda este business?

Quer aumentar a chance de ter um grande sucesso com seu filme ou música? Toca amor neles.
Quer ter uma boa conversa com os filhos? Toca amor no meio da conversa.
Quer dar uma receita de felicidade? Infalível: amor!
O almoço está uma delícia? Feito com amor!

All you need is love.
Quanto rende o amor?
Pergunte ao Darth Vader. Este amor que está aí vende até o Dark Side of the Moon. Pink Floyd e Darth Vader que o digam.

O conceito 'criança' só passou a existir (ou ser compreendido com tal) depois da revolução industrial. 'Adolescência' só passou a ser realizada pela população depois da Segunda Guerra Mundial.
Quando se formou o conceito 'amor'? Quando ele passou a ser usado e abusado para impulsionar vendas? A história das religiões pode responder parte, mas não esta bandalheira que temos hoje. E repito, brinquei com a música dos Beatles, mas em 1967, quando foi lançada, o babado era outro. Não tire do contexto. Aliás, não tire do contexto nada. Nem o que acontece agora, meu amado leitor ou leitora.

Pergunta final: o que politicamente correto tem a ver com tudo que eu escrevi aqui sobre 'amor', o mote de venda? 

O que é amor para você?


que lindo!


quarta-feira, 1 de abril de 2026

As janelas do outro edifício

A geração atual não sabe nada. Não faz ideia da emoção que era, quando criança e adolescente jovem, aliás, deve ter tido muito adulto fazendo o mesmo, olhar pelo buraco da fechadura. Já faz muito que as fechaduras são apertadinhas, que fecharam o buraco vazado e não dá para ver mais nada. As velhas fechaduras é que eram divertidas! Permitiam um olhar curioso, meio criminal, um tanto imoral, definitivamente politicamente incorreto, mas ótimas para tentar ver detalhes. Mal trancavam o que quer que fosse, a porta ou o olho. Qualquer um com um pouquinho de jeito conseguia destrancá-las, ou ver, quando via. Hoje, qual seria o grande crime, a diversão do olhar indiscreto ou o abrir e invadir? Não tenho dúvidas, abrir, invadir, roubar é muito menos criminal. Olhar? Nem pensar! Você pode ser linchado socialmente.

E tem a janela do apartamento escancarada. Aí, desculpem, é  inevitável.

No apartamento em frente, janela com janela, um andar abaixo, a linda menina insistia em ficar nua. Começo de noite, fui fechar a cortina e dei com ela, no auge de seus 20 e poucos anos, tudo em cima, curvas perfeitas, pele lisa, olhar perdido, parada, quieta no meio do quarto. Alguma coisa está errada com ela, impossível que não tivesse ouvido o barulho da minha cortina sendo fechada. Ela está completamente absorta em seus pensamentos, pela expressão, em algum problema sério. Parei antes de fechar a cortina por completo, primeiro pelo susto de vê-la daquele jeito, não só nua, depois por curiosidade, e finalmente por prazer, não um prazer sexual, mas pela beleza real como de uma pintura renascentista, semi deusa dando o toque de leveza que conta numa boa pintura. Perfeita, mas de olhar introspectivo, triste, fechado em si. Terminei de fechar a cortina, me preparei para sair, fechar janelas, outras cortinas, pegar as sacolas, calçar os sapatos para ir ao supermercado, e desci. De volta do supermercado passo por ela caminhando, o mesmo olhar introspectivo, triste, fechado, vestida como se quisesse esconder seu próprio corpo. Estranho. 

Da sala vejo o gordo com barriga de fora vendo TV, programa horroroso, sentado próximo de sua mãe, senhora muito idosa, doente, que já não sai de casa. Faz muito calor, mesmo neste tarde da noite, janela escancarada, vejo o ventilador ligado ventando para a velha senhora pernas esticadas sobre um puff, poucas roupas. O gordo é um figura simpática, gosta de puxar conversa quando encontra alguém no térreo. Nunca vi o rosto de sua mãe, sempre com o corpo exposto ao vento da janela aberta e ao ventilador, e sempre com a cabeça escondida pela parede.

Vizinhos novos no apartamento de frente. Muito discretos, meia janela aberta, raramente os vê circular. Se a menina nua ficava um andar abaixo, o gordo dois abaixo e mais para a direita, os novos vizinhos estão cara a cara, mesmo andar, frente a frente. Já peguei um fantasma ali olhando meus movimentos. Curiosidade matou o gato, diz o ditado, todo mundo olha. O máximo que vi foi alguém se maquiando no espelho. Não faço ideia de que cara tem.

Na primeira noite neste apartamento, o das janelas, ainda sem qualquer móvel, vou receber amanhã bem cedo o cara que vai instalar a Internet. Vou dormir no chão da sala, no sleeping bag. Me ajeito, começo a relaxar e começam os sons inconfundíveis de uma maravilhosa trepada. A mulher está sendo muito bem tratada, está se divertindo, geme com muito prazer e alto. Dou risada. Me levanto e vou até a janela. Nada. Deve ser num andar de baixo. A coisa fica cada vez mais quente, no meio de um dos orgasmos ouve-se um urro "Cala a boca, sua puta!", seguida de algumas gargalhadas e da resposta da que goza, rindo: "Cala a boca você. Mulher mal comida é uma merda!". Breve silêncio geral. E a função recomeça, agora com o casal reforçando o espetáculo.

Indecente mesmo é o maravilhoso cheiro de comida deliciosa que sai de alguns apartamentos. Aí dá vontade de arrombar a porta e invadir a cozinha. O aroma da carne de panela que sobe é torturante. Não poder colocar a colher naquela comida é difícil de aceitar. Fazer o que?