segunda-feira, 23 de março de 2026

Carlos Barcellar e O valor da preservação da memória; Opinião do Estadão. E a minha

Esta Opinião do Estadão, "O valor da preservação da memória", foi publicada horas depois que escrevi e subi meu último texto, Portal de governo apagado, onde toco exatamente no mesmo ponto, a memória pública. Sobre preservação de memória sei muito bem o que escrevo e falo porque convivi com meu irmão, Murillo de Azevedo Marx, que fez toda sua vida, ou luta, no sentido de preservar a memória não só da arquitetura, sua área específica de atuação, mas de tudo.

A noite li o último texto, crônica, publicado de Leandro Karnal sobre colapso de poder dos USA, e como geralmente faço, terminando nos comentários. No meio do texto, Karnal conta que é professor de história dos Estados Unidos, o que sabendo quem ele é não deve ser de pouco conhecimento, portanto ele deve saber o que está falando ou ponderando. Como é comum em comentários, sempre aparece quem se apresente como sendo a história em si, sem cuidados respeitosos tanto pelo que escreve quanto por fatos inegáveis. Não estranho, até porque agora o chique, o must, é o eu; eu selfie, eu sei, eu estou absolutamente correto, todos os outros são uns imbecis, só eu tenho a verdade...

História. Preservação de memória. Quem sou eu? Quem eres tu? Quem somos nós? Ou isto ou navega se a deriva num mar de esperanças vãs sob o canto das sereias. 

BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA, dito e repetido, verdade incontestável, e simplesmente deprimente. Ainda teremos futuro? Sem memória, eu duvido. 

Fica aqui o meu mais sincero agradecimento a Carlos Barcellar e a todos que lutaram e continuam lutando para preservar o que ainda resta da memória deste país. Fica aqui meu agradecimento a quem estava e está no poder e deu guarida ao trabalho de Carlos Barcellar, e de qualquer um que quis e quer preservar história.

Não preservar serve, dentre outras coisas, a dar passos largos e rápidos para, no mínimo, livrar histórias indesejáveis de conhecimento e julgamento. Ou coisa pior, muito pior.

Quem tem medo da verdade?

 







domingo, 22 de março de 2026

Portal de governo apagado. É um crime!


Esta pesquisa de Frankito traz um dado apavorante: "Depois de mais buscas em outros sites, descobri que a fonte era o Portal do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2007. Mas este portal não existe mais, foi apagado. E isto é normal porque, quando os governos se sucedem, eles alteram a estrutura dos ministérios e a estrutura dos próprios sites também (lembrando que o MDA chegou a ser extinto em 2016)". Sim, sei que dados e documentos públicos que estejam em versão digital somem, e sei porque tive contato de trabalho com a coisa pública. Aliás, não só os digitais, dependendo some tudo. Não me lembrava mais. Perda de dados e documentos é de extrema gravidade, um prejuízo imensurável para a vida de qualquer cidadão. Do sumiço para a pior das bandidagens não precisa sequer um passo.

Trabalhei em dois projetos cicloviários que simplesmente desapareceram: Ciclorrede Butantã e Projeto Cicloviario de Guarulhos. Sumiram, ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe. 
O do Butantã, com 115 km de vias cuidadosamente mapeadas e estudadas, era de um detalhamento que até hoje é raro, se é que foi repetido em algum outro projeto.
O de Guarulhos, pago pela secretaria de transportes da cidade, em nível funcional, com detalhamento quase de nível básico, propunha uma política de implementação, função social, de mobilidade, e desenvolvimento futuro não comuns aos projetos cicloviários.
Sumiram, desapareceram...

Em outros trabalhos foram pedidos documentos necessários que nunca foram encontrados, em papel ou digital. No digital houve ainda casos que o programa impregado simplesmente não existia mais, portanto tudo se perdera. Mais uma coisa: onde está, com quem, em qual departamento...
Com a digitalização deveria ser mais fácil preservá-los, mas pelo que diz Frankito, mas fica muito mais fácil vapt vupt... e sumiu. E com isto ideias, propostas, projetos, ou provas. De qualquer forma o prejuízo para todos nós é imensurável.

Lembro a todos que uma das bases de construção dos países desenvolvidos e ricos foi e segue sendo justamente a preservação da memória. 
E reafirmo o que todos nós estamos cansados de ouvir e saber: 
BRASIL, UM PAÍS SEM MEMÓRIA 
Não pode dar certo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Reitores, universidades e livros


Desculpem, aproveitando. No meio desta reforma ou atualização legal nas universidades, urge rever a lei de direitos autorais referente a literatura específica relacionada a cultura e ciências. Obras importantes de eminentes professores, pesquisadores e pensadores simplesmente desaparecem porque não se consegue reeditá-los.

Cito dois casos que conheço bem, o do Professor Fernando de Azevedo, a quem se faz desnecessária maiores apresentações, e de Murillo de Azevedo Marx, titular de História do Urbanismo da FAU USP.

Sei que são inúmeros os casos de obras importantíssimas que desapareceram em nome de um direito que atende única e exclusivamente à família e herdeiros, mas que deveriam ser prioridade do interesse nacional, a bem da verdade não só o nacional.

Apesar do grande interesse na reedição de livros de Fernando de Azevedo, foi impossível encontrar todos seus descendentes.

No caso de Murillo de Azevedo Marx, os direitos autorais são da própria universidade, que por sua vez não tem dinheiro para a reedição.

Não posso deixar de apontar uma outra questão. Sei de trabalhos importantes, até por serem únicos em suas áreas, que foram 'cancelados', usando um termo atual, porque seus autores não tinham plena simpatia dentro da academia.

Finalmente, pelo que sei a condição das bibliotecas universitárias está muito longe de ser a ideal. Preservar livros e documentos custa e muito, mas é investimento de retorno mais que garantido. O mesmo para museus, acervos....



Urge uma política solida e construtiva de Estado para a cultura e ciência. Sem cultura e ciência literalmente não há futuro, ou há, o da selvageria, da desordem, descontrole social e da violência, como consequência uma baixa qualidade de vida para toda a população, mesmo a mais abastada.

Um dos símbolos deste país de hoje é o Museu Nacional em chamas. Preciso dizer mais?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Seguir em frente com o que realmente importa

Ainda não sei ao certo por que aconteceu, mas partiu a corrente de um participante de passeio logo nos primeiros metros. Como a bicicleta sempre está impecavelmente brilhante e tem gente que tem mania de fazer revisões desnecessárias para ter a bicicleta nos trinques, eu acredito que mais uma vez a bicicleta foi levada para uma revisão desnecessária, provavelmente revisão completa, onde o mecânico cortou a corrente para fazer uma limpeza mais profunda, e ao montar de volta não fechou o elo como deveria. A outra hipótese, que minha raiva momentânea descarta, é que a corrente estava montada com um elo de ligação, e que por uma tremenda falta de sorte ao tirar a bicicleta do carro o elo de ligação tenha aberto. Acontece. 
Bom, agora sei que não foi revisão.  De qualquer forma, vamos ficar com a primeira hipótese, que já vi acontecer outras vezes,  nãoa corrente,  mas voltar desregulada ou com algo solto. Uma destas vezes aconteceu na mão do então considerado o melhor mecânico de bicicletas do Brasil. Então... acontece.

"Eu fabrico bicicletas para as pessoas usarem, não para deixá-las bonitinhas" - tradução minha sobre a resposta de Mike Sinyard, fundador e proprietário da Specialized Bicycle Components, para Luiz Dranger, representante da marca aqui. Já publiquei esta resposta incisiva mais de uma vez, e provavelmente publicarei mais vezes, porque nela há mais verdades que simplesmente a forma de o que envolve o mundo da bicicleta.

Voltando a corrente quebrada. Desde 1986, quando a qualidade das peças de bicicleta mudaram e ganharam a mesma qualidade aplicada na indústria automobística, mandar a bicicleta para o mecânico se tornou praticamente desnecessário. Ok, as bicicletas atuais são menos duráveis que as da década de 90, mas mesmo assim são feitas para não apresentar problemas por anos, até porque atendem ao mercado americano e europeu.

O que vivemos no Brasil em relação ao entendimento do que deve ser qualidade é uma loucura generalizada, um desvario sem tamanho, em tudo. Exagero meu? Leia os jornais. Nós, todos, estamos pensando errado, e não é só na política, mas no geral. O olhar para a bicicleta não escapa deste pensar errado. Poderia fazer uma análise mais detalhada, profunda, mas vamos ficar só no sentido mais profundo do "bicicleta é feita para ser usada".

Por diversas razões posso dizer que conheço bem a Holanda, ou melhor, os Paises Baixos, nome correto do país. Acho que ninguém tem dúvida que eles são a referência do que e para que serve uma bicicleta. A primeira coisa que chama a atenção de um estrangeiro que goste de bicicleta e tenha recém chegado a Amsterdam, por exemplo, é que a maioria das bicicletas anda, roda, funciona, e olhando com cuidado fica uma certa dúvida: "Como assim? Holandeses pedalam isto?". Enquanto a bicicleta está funcionando eles seguem em frente com elas. Bicicleta é um utilitário, ponto final. Pelo menos a bicicleta do dia a dia.

Vamos ao holandes que tem uma segunda bicicleta, a bicicleta de fim de semana, o que bem comum. Geralmente está numa condição muito melhor que a bicicleta do dia a dia, a que se amarra em qualquer lugar e tem grande chance de ser roubada. Bicicleta de dim de semana bem cuidada, funcionando direito, é uma coisa, mas neurorica e constantemente revisada é outra, até porque encontrar bicicletarias não é uma coisa tão fácil, é um serviço mais perfeccionista sai bem caro, bem caro mesmo.

Outro ponto a se levar em consideração é a consciência ambiental dos holandeses. Duvido que entre os amigos e conhecidos pegue bem a conversa que a bicicleta vive fazendo revisões para ficar nos trinques, brilhante, chamativa. Não é do feitio deles. A regra é "tem que funcionar bem", ou, ser usável para o fim desejado. É quase uma lei para tudo, da bicicleta à conservação da casa. Não sei exatamente como eles encaram os exageros, mas por tudo que vi e vivenciei em minhas várias vezes que estive lá, não deve cair bem.

Numa a primeira das muitas estadias tive lá, pegamos um carro e fomos visitar uma amiga na Alemanha. Nós Paises Baixos o asfalto e a sinalização eram impecáveis. Já o matinho em volta estava aparado, mas era matinho. O foco todo voltado para a segurança no trânsito, não para quaisquer supérfluos. Cruzamos a fronteira e na Alemanha o asfalto, a sinalização eram muito bons, ponto, o paisagismo lindo. Uns dias depois fomos para a Suíça, tudo irritantemente impecável, organizado, funcional, eu adoro,  mas concordo que é um pouco duro, sem molejo. 

De uns tempos para cá tenho olhado minhas coisas de uma maneira diferente. Me dei conta da barbaridade de coisas inúteis que tenho, ou acumulei, sei lá. Demorou. O dito por Mike Sinyard, em 1991, sobre o uso que se deve dar a um bem sempre fez toc toc na cabeça. A vivência com os holandeses no trabalho e como turista me mostrou a inteligência do só o necessário. O dia que entrei numa locadora de bicicletas em Amsterdam e dei com um grande cartaz gritando "Nós pedalamos. Americanos usam capacete" só confirmei que em tudo na vida é necessário aprender a olhar para o que realmente importa. O resto é resto. 

Pesquisa Radio Eldorado sobre o trânsito de São Paulo

Rádio Eldorado FM está pedindo comentários sobre nossa vida no trânsito de São Paulo, que vem piorando de maneira assustadora. 
Mandei para eles um pouco do que conheço desta história de como chegamos nesta situação horrorosa. 

Em 1965 Arturo José Condomi Alcorta levou para o então diretor de trânsito, Coronel Fontenelle, a mudança das parábolas dos semáforos, o que tornou visível as luzes vermelha, laranja e verde. Projeto dele Arturo José e de seu primo José Luiz Whitaker Ribeiro (fundador da Engesa).

Logo após Arturo José apresentou um projeto de sincronização sequêncial dos semáforos, como usado em Buenos Aires e em diversas capitais do mundo. Foi recusado.

A história de um olhar para o trânsito errada vem de longe e foi alertada por diversos estudiosos e especialistas sobre cidades.

Na década de 70 houve uma gritaria por parte de eminentes urbanistas contra a construção do Minhocão e de outras obras viárias pontuais que estavam fadadas a criarem problemas futuros. Criaram, a prova está ai.  

É o caso do Boulevard Paulista, obra primordial para o trânsito não só local, morreu nos seus primeiros metros. Como estaria a Av. Paulista se seu trânsito tivesse dois níveis, um deles privilegiando pedestres? 

Desde 1898 as grandes cidades se reúnem para trocar experiências que melhorem a qualidade de vida dos cidadãos. Desde que me conheço por gente ouço "somos diferentes, sabemos o que estamos fazendo".

Nós anos 80 Mario Covas Prefeito deu início a um projeto de transporte coletivo baseado na experiência de Curitiba. Seu sucessor, o personalista Jânio, deformou a ideia inicial.

Erundina declarou que um de seus maiores erros foi acabar com o projeto Boulevard JK. Ou seja, trânsito expresso no subsolo, e local privilegiando pedestres e ligação entre bairros.  
 
Visitei a Central CET Bela Cintra em 2005 e pasmado constatei quase a metade dos monitores apagados, outros sem nitidez, e o uso de computadores ainda de tela verde.

Na administração Haddad se tentou fazer uma gambiarra no sistema dos semáforos, mesmo com inúmeros alertas que não funcionaria. Não funcionou. 

Os novos semáforos, outra solução mais em conta, como manda a lei de licitação, já estão apagando.

Faz muito que parte do corpo técnico da própria CET pede a mudança completa de todo sistema semafórico e outros investimentos urgentes para o trânsito de MSP.

A pergunta que tem uma resposta consistente se deve fazer é para a população: vocês se interessam mesmo, de verdade, pela melhora no trânsito? Sinceramente, eu duvido. Que realmente se interessa vai atrás.


Muda administração, mudam as prioridades. Não há continuidade. Não há projeto. E vale afirmar, a população entalada no trânsito não se manisfesta.

Analise seria e comentários....

A análise da curadora Téo Foresti Girardi mais que merece u a leitura cuidadosa, deve ser tomada como um norte pelo qual devemos nos movimentar para alcançar. 
Como pensar plano, como abranger em círculos o que realmente é produtivo? Como aproveitar uma oportunidade histórica?  

Como acontece com frequência, comentários a textos, análises, proposições, são feitos com soberba. Soberba temos ou somos todos, mas qual é o limite entre o construtivo e o destrutivo que devemos aceitar numa soberba? Como filtrar o conteúdo da soberba mais soberba, do espelho, espelho meu, alguém mais inteligente que eu? Eu diria treinamento, o que nos falta. Me falta.

Liberdade de expressão? Apoio, total, mas uma coisa é liberdade de expressão, de ser, e outra é usar ferramentas expressivas, batidas, que já cansaram, para misturar coisas, confundir, sabotar pelo sabotar, pelo prazer de se posicionar socialmente nas mídias enaltecendo sua própria gloriosa soberba. 

Tenho lutado muito para não me empastelar com minhas próprias soberbas estupidas. Olho para trás e vejo quanto foram improdutivas, para mim e para a construção coletiva, que bem lá no fim das contas é o que realmente conta. Até para mim mesmo.

Se lerem os comentários desta análise e acharem que errei, por favor, peço que digam. 
Não posso copiar e publicar comentários dos outros aqui. 
Adoraria debater. No tete a tete sou presa fácil. Escrevendo consigo sobreviver. 

co. U

Parabéns pelo texto, parabéns pela inteligência, parabéns pela iniciativa. E sinto muito pelo baixo nível de alguns comentários, aqui e em outras. Já estive no meio da coisa pública e tenho boa noção do que é. Aliás, não é necessário viver um incêndio para ter uma noção do que é. Alguns comentários me fazem lembrar inúmeras passagens passadas onde quem tinha respostas foi ridicularizado por sentados numa cadeira. E cá estamos nós, neste Brasil...

Passamos da hora de quem quer um país de fato começar a ouvir quem realmente interessa, quem realmente tem o que dizer, quem tem ideias positivas, funcionais, por mais difíceis que sejam de implementar.

Lembro de um funcionário público, Renato Brandão, que um dia apareceu com uma pequena lata cilíndrica e disse que aquilo era o futuro, a mesma que hoje enche os supermercados. Foi pesadamente ridicularizado. O mesmo Renato Brandão foi para sul de Minas e criou uma pequena granja de porcos com padrão europeu, foi chamado de louco. E assim foi. Pelo menos os grandes fazendeiros do café, reunidos num canto discreto de uma pequena padaria, quando viram Renato entrar na padaria o chamaram para ouvir sua opinião. O resto é história, o cafezinho nosso de cada dia e nossas exportações quero digam.

terça-feira, 10 de março de 2026

Semáforos que apagam. Economia estúpida.

Sobre semáforos quebrados, quando a imprensa vai fazer uma matéria profunda sobre a qualidade da semaforizacão que temos em São Paulo. A troca pelos novos, os de borda amarela, falham tanto quanto os velhos. Os velhos, os ainda da geração gambiarra feita pela administração Haddad, tentava de solução barata que tinha tudo para não funcionar, apagam na primeira chuva.

Aliás, vergonhoso é uma cidade que responde a 17% do PIB do país não resolva um problema como este que afeta brutalmente a fluidez, portanto a economia. Tempo é dinheiro, nossos brutais congestionamentos são burrice extrema.

Finalizando: ou se faz um projeto para a troca completa do sistema, do semáforo ao softwares, passando por cabeamento e transmissão de dados às telas de controle, ou continuaremos nesta palhaçada.

Resta saber quem ganha com está baderna.
Quem perde sabemos bem, todos nós. Só não entendo por que não há um levante popular contra nosso caos no trânsito. Aliás, entendo. Nós acostumamos com o ruim. Pura e deprimente verdade.