quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A lógica da sustentabilidade das cidades

 

O modelo de cidade que temos não se sustenta mais?

Amyr Klink em entrevista brilhante para o Provoca de Marcelo Tas e TV Cultura disse com sabedoria 'que o plástico não vai acabar, que o problema da poluição não é o plástico em si, mas a consciência de seu uso. O problema não está no que a gente vê, mas no que a gente não vê'

A bicicleta foi usada para transformar a vida nas cidades porque diminui a velocidade do trânsito na rua. Este é o ponto básico, diminuir a velocidade. Menos velocidade, mais vida, mais vida mais economia, mais vida mais integração social: unidos venceremos. Mas parados ou muito lentos perderemos. Há uma relação entre velocidade e economia, velocidade e crescimento, velocidade e desenvolvimento, velocidade e bem-estar social; relação para o bem e para o mal. A documentação sobre isto é farta e extremamente bem fundamentada. Num determinado ponto as curvas se cruzam e o que era benefício passa a ser custo. "É a economia, estúpido!", dito em 1982 por James Carville. Óbvio.

Poluição, lixo, assim como o dito grande vilão de nossos urbanos problemas, o automóvel, são pauta de discussão e busca de soluções faz muito. Nas cidades (e países) mais adiantados (e, portanto, educados) já se fez muito para solucionar estes problemas, pelo menos a olhos vistos. Mas como diz Amyr Klink, o problema mesmo está no que os olhos não veem. O automóvel está aí em cada centímetro de nossas vidas portanto é mais fácil acertar com pedras atiradas. O lixo nem tanto porque depois que sai de casa desaparece como por milagre pelo trabalho dos lixeiros. Sumiu, acabou, resolvido. Resolvido? Lixo não vai acabar e fiquem certos o automóvel também não, aliás são dois problemas que só aumentam.

O lixo gerado por vários países ricos continua sendo empurrado para debaixo do tapete ou para bem longe onde não possa ser visto ou sentido por narizes empinados. Lixo descartável não raro segue viagem sem visto nem passaporte para países pobres. Ou, se recicláveis, iam para a China que parece que não vai mais aceitar os ditos recicláveis. E reciclados voltam para nossas casas com tigelas, embalagens... A reciclagem, que ainda é muito baixa e ineficiente, ajuda e muito, mas continua sendo um problema urbano grave. "É a economia, estúpido!", dito em 1982 por James Carville. Óbvio.

Como diz Amyr, plástico é artigo básico para nossa civilização e é óbvio que sem ele nossa estrutura de sobrevivência não funciona, a individual, a coletiva, portanto a urbana. Esta é uma das cidades que não vemos, se não vemos não conhecemos, se não conhecemos, portanto, não existe, não é problema nosso.

Mesmo tendo vasta experiência passada que nos deu soluções funcionais o drama de nossas vidas urbanas segue a passo de lesma, em alguns casos de ostra, para uma solução. Aí não é uma questão econômica, mas pura estupidez coletiva.

O mercado imobiliário está a toda. Vai gerar muitos empregos de baixo valor agregado. Isto é bom ou não? O dito progresso será visível em edifícios cada vez mais altos. Bom para a economia de quem? Pelo que diz o plano diretor será bom para diminuir os problemas do transporte e facilitar as mobilidades. O que há por trás disto que não vemos, que não sabemos, que não nos interessamos.
Aqui em São Paulo, na esquina das ruas Pará com Itacolomy, vão ser colocados abaixo quatro ou cinco casas para a construção de mais um prédio que ainda não se sabe comercial ou residencial, provavelmente residencial, pouco importa. A questão é que nestas casas estão instaladas dois restaurantes, um consultório, e mais sei lá o que. Qual o problema? 
Primeiro, a esquina é um ponto de encontro da população local, pelo sim ou pelo não é um polo gerador de empregos, e carrega o que resta da memória do bairro. Vai ser demolido e com ele acabam empregos diretos e indiretos, geração de impostos, vida e principalmente geração de riquezas não visíveis que de alguma forma beneficiam quem precisa, mas é ou parece invisível.

O progresso que as grandes capitais do mundo vinham tendo antes da pandemia agora está sendo questionado. Como será a cidade ideal para todos? Mais uma vez estamos num impasse sobre para onde vai a humanidade que em sua maioria vive em cidades. É uma questão econômica, simples assim? Não é só, mas ou a cidade tem suas finanças equilibradas, no positivo, ou se está degradando tudo e num futuro não muito distante vai se distribuir pobreza e violência. Ok, não é simples assim, mas a história mostra que é o que acontece.
Londres perdeu 300 mil habitantes durante a pandemia que não conseguem renda para continuar na cidade. Uma barbaridade de nova-iorquinos saiu da cidade no mesmo período. Mesmo antes já havia uma discussão sobre as cidades ficando cada vez mais caras e os pobres sendo empurrados para longe, um problema que não é de hoje. As soluções não são fáceis e não há fórmula mágica. O único que podemos fazer é procurar ver o que não está na cara. 

Uma coisa me parece absolutamente clara: a solução, principalmente aqui em São Paulo e no Brasil, definitivamente não é demolir e reconstruir. O que geramos de entulho é absurdo, inaceitável. A perda da memória, das referências, num país onde a violência é epidêmica, uma selvageria completa. Num país que de certa forma silenciou com a morte de 600 mil concidadãos talvez explique.



Ideias geniais podem se transformar em mágicas perigosas. Bom exemplo é esta febre de construir casas com containers. O vídeo a seguir diz que...

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Como matar o pobre diabo?

Muitos ao ler o título deste texto vão pensar imediatamente "Capetão Cloroquina". Não, não me refiro a ele. Primeiro, eu não ofenderia o diabo. Segundo, o capitão de pobre não tem nada. Por último eu o considero inominável, a não ser pelo próprio nome que espero seja realmente messiânico e fique marcado como adjetivo para algo muito além do mal, mais além do ignóbil. Dito isto, vamos em frente.

Quem não teve vontade de matar aquele que incomoda, é chato, ou comporta-se de maneira socialmente inapropriada, o pobre diabo. Afinal, que mal faria matar uns e outros? Em pensamento talvez seja um alívio, mas matar para valer geralmente não compensa. O pós geralmente é, vamos dizer, desagradável, ineficiente.

Qual é o problema?
- É normal. Garanto que não é só você que quer matar o velho.
No caso aqui o problema é, por ironia do intestino, o texto for lido por quem se sentiria ofendido. Sim, ironia do intestino, porque pode dar merda. 
Se posso fazer uma sacanagem ou matar em palavras e pensamentos porque não fazê-lo com requintes?

Politicamente incorreto? Bom, ser politicamente correto para mim é coisa de gente que é religiosamente correta, segue a cartilha e a catequese que lhe convém. Medo mesmo, dependendo é pânico na cabeça, tenho é destes religiosamente corretos. Estes deixo ao juízo final de Deus. 👍👍👍👍👿👍

Rir de piadas ou comentários politicamente incorretos é sinal de inteligência, diz a ciência. Soltar uma barbaridade "politicamente incorreta" não necessariamente é concordar com a barbaridade, mas se expressar da forma que consegue, que está habituado no trivial.
Procissão é o carnaval das carolas. Já há as que sequer conseguem e se resumem a pagar o dízimo pelo aplicativo. Aleluia! Viva a santa inquisição! Para o inferno com os libertinos! Tudo pela causa!

Quanto mais aberta a sociedade mais eficiente ela é, foi, será, isto inclui suas formas de expressão. 
Por outro lado, sociedades violentas não funcionam, não resta a mais remota dúvida. Rir é violento?
Chico Anísio faria sucesso em nosso tempo, ou seja, desde o nascimento do politicamente correto, ou seria execrado, preso e condenado? Seria queimado na fogueira ou fuzilado? Incluí as diversas pontas de religiosos radicais, os de fé e os de ideologia, e isto infelizmente não é piada nem politicamente incorreta, mas real. 

"Eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca para fazer pano de prato" diz o divertido refrão da música de carnaval que adoro e vivo cantando. 

Vira e mexe, melhor, com frequência falo barbaridades. Amo todos aqueles com os quais posso jogar ping-pong de barbaridades. Só me culpo quando sou inapropriado com desconhecidos que não entendem e se ofendem com minha língua ferina. Humor é uma questão de timing e só funciona no fio da navalha. Mas entre iguais se não falo besteiras fico com algo entalado na garganta e o desentalar é o que me faz ser mais aberto, justo.  

Erra quem acredita que o pobre diabo é o outro. O pobre diabo que se deve matar, melhor, controlar, é o que temos dentro de nós próprios. E não é um único diabo. Temos dentro de nós um inferninho completo que ninguém segura; e tome muito cuidado com aqueles que tudo faz crer santidades, pois destes, como em bundinha de bebê, nunca se sabe o que vai sair.

"Ou você ri da vida, ou a vida vai rir de você"

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Quase romaria até Aparecida

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três; fui! E assim saí no domingo 10 de outubro 7h00 de casa para pedalar até Aparecida do Norte. Romaria? Não exatamente, mais para ver ver que para crer. Treino? Com certeza. Dúvida? Aguento ou não fazer os 180 km em duas etapas: São Paulo - São José dos Campos 100 km, dormir e encarar mais 84 km até Aparecida.
Os primeiros 100 km, exatos, foram bem, mas o entusiasmo do meio para o final aumentou minha média e tiveram seu custo na derradeira última subida, curta e não muito inclinada, que foi um sofrimento memorável. Psicológico ou físico? Provavelmente os dois juntos, mas acima de tudo custo da burrice de não exagerar. Hoje falei com o Zé, amigo meu que mora em SJC, e expliquei por que mesmo passando a 100 metros da casa dele não o fui ver. Ele riu. "Eu sabia!"

Peguei uma leve garoa neste primeiro dia. A meteorologia afirmava que choveria e se choveu não foi em mim. Fiquei decepcionado com os poucos romeiros que ultrapassei, mesmo tendo ouvido que em razão da pandemia não seriam muitos. Ainda muito distante de Aparecida encontrei romeiras sentadas com os pés cheios de esparadrapos ao ar.  A fé vai levá-los ao destino final, mas a que custo? Me pergunto se isto é fé ou o que será?  

A exaustão diminui depois da massagem que me faço durante o banho. Saio para caminhar um pouco o que ajuda a diminuir as dores nas pernas. De resto estou bem. A cabeça está ótima, mas com dúvidas que no dia seguinte consigo chegar a Aparecida. Excitação e exaustão me fazem demorar para dormir.
Descendo para tomar o café da manhã entra um americano no elevador. Good morning, good morning, e pergunto se está trabalhando aqui no Brasil, ele diz que não, que está num congresso de religiosos. Saímos do elevador e ele me diz todo feliz que "Ontem rezamos para uma menina que não mexia mais as pernas e ela saiu andando". "That's good" respondo.
O restaurante e o lobby estão lotados de americanos religiosos tomando café da manhã. Pego uma mesa vazia próxima a um senhor negro muito parecido com o gorducho que dança, canta e encanta no clip 'Come on to me' do Paul MacCartney; só que sem a barba. Simpático, sorridente, falante, trocamos um bom dia. Me sirvo e sento numa posição diagonal a ele. Percebo que num momento ele arregala os olhos como um lobo tarado de desenho animado, giro a cabeça e vejo que está olhando as costas, qual seja bunda, da senhora negra, alta, bem delineada, arrumadinha e com marido. O casal se serve, volta a mesa, conversam com o gordinho simpático; sem dúvida conhecidos. O marido se levanta e vai se servir, a mulher segue atrás um pouco depois, e eu me controlo para não cair na gargalhada com o gordinho simpático olho arregalado para o teto numa expressão inequívoca "que puta gostosa". Queria ser milionário para leva-lo para Salvador. Bato aposta que viraria umbandista.

Subo para o quarto, escovo os dentes, pego minhas coisas, desço, e quando estou passando pelo lobby lotado de religiosos americanos não posso deixar de pensar que esta fé faz as pernas paralisadas de uma menina se moverem, mas não faz a terceira perna do simpático senhor gorducho ser tão fiel aos mandamentos. 

Ainda em São Paulo procurei a melhor forma de entrar e sair de São José dos Campos, o que foi para lá de providencial. O trecho conurbado da cidade é longo, sem acostamento, com movimento pesadíssimo, terrível para pedestres e principalmente para ciclistas, que existem, estão lá no dia a dia. A solução na chegada a São José dos Campos foi cruzar a Dutra na altura da UNIPE e seguir por rua, calçada e gramado até depois da Johnson & Johnson, caminho completamente seguro. A saída para Aparecida, também planejada para longe da estrada, foi por dentro da cidade até pegar a avenida GM e de lá cruzar a Dutra para seguir em frente; uma tranquilidade.

não é romeiro, é trabalhador
O triste é que as autoridades simplesmente negam a existência de pedestres e ciclistas trabalhadores da Dutra conurbada, situação comum a todas as cidades deste país. A saber, em Guarulhos, onde o problema é o mesmo e as autoridades negavam a existência de ciclistas e pedestres, foi feita a contagem em horário de trabalho nas indústrias e apareceu um ciclista a cada 17 segundos. Espero estar vivo para ver estes absurdos pelo menos humanizados. 

Passar de frente a fábrica da GM me dá agonia. Está desativada. O sindicato bateu o pé muito além do que deveria, com prefeitura e outros sindicatos avisando que estavam esticando a corda muito além do limite. Estupidez pura ou fanatismo quase religioso? O complexo industrial da GM é imenso e fechado. Dói. 
Demoro quase uma hora e meia para ver a Dutra cheia de romeiros e a partir de então fico assustado com a quantidade deles. Nem na romaria de 300 anos estava tão cheia. Começa a garoar, não coloco a capa tendo fé que não vai piorar. A ciência da meteorologia rapidamente supera minha leda fé.
Muitos não se preocupam em caminhar lado a lado com outros romeiros ficando com o corpo quase dentro da faixa de rodagem. Os caminhões passam raspando e ninguém se assusta. Pedalando tenho que tomar cuidado nas ultrapassagens, em algumas delas olhar para trás e quando der invadir a pista para seguir em frente. Foda-se o ciclista. Fodam-se os ciclistas, que cada vez aumentam mais. A bem da verdade os ciclistas também estão fazendo e andando para tudo, pedestres, caminhões e até ciclistas mais lentos como eu. Mais lento, diga-se de passagem, pedalando numa média um pouco acima de 20 km/h. Um me ultrapassa sem avisar pela direita quase tocando em meu guidão. Fé na romaria, mas não nos princípios cristãos. 
A garoa vira chuva, a chuva vira torrencial. Estou encharcado, com frio. Paro debaixo de uma ponte onde muitos se abrigam e aproveitam as duas bases de apoio cheias de frutas, café, bolinhos e um final de paçoca deliciosa. Paro um pouco, tiro fotos, ensopado e me sentindo culpado pela burrice visto a capa. Já é hora do almoço. Quando estou subindo na bicicleta vejo que o pessoal do apoio está servindo marmitas, grandes, com arroz, carne moída, feijão e batata. Os primeiros a se servir têm cara de ser os mais ricos do pedaço. Um senhor menos abonado em pé e parado ao meu lado olha com inveja os que comem absortos.
Volto a estrada que mesmo com a chuva torrencial está cheia. Não demora muito e cai um raio a uns 1.000 metros, se tanto. Um sinal que já deu o que tinha que dar? Ultrapassar os romeiros encharcados que a cada km enchem mais o acostamento fica cada vez mais perigoso. Não é uma questão de fé parar. Fé definitivamente não é obsessão.   

Já fiz 50 e faltam um pouco menos de 40 km. Taubaté está passando a minha direita. Olho minha velocidade, com a chuva devo diminuir um pouco, vou demorar algo em torno de 3 horas a Aparecida. Sinto meu cansaço, minhas pernas, meus incômodos; se quiser chego. Vale a pena? Daqui para frente será cada vez mais perigoso ultrapassar os romeiros. Pensando bem sensatez faz mais sentido, sempre faz sentido. Vou para a rodoviária e o pneu traseiro está furado. "Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay. Este pneu é mais um sinal. Chega." Compro a passagem, sento-me para esperar o ônibus e a chuva acalma. "Sigo em frente por Pindamonhangaba?" Chega de loucura, de volta para casa. Enquanto espero faço o remendo e encho o pneu. 

Na rodoviária do Tiete desço do ônibus e dou de cara com dois ciclistas parados olhando desolados a chuva torrencial que despenca. Ainda vão para Santo André. Um tem 43 anos e o outro, que está com joelho doendo muito, 47. Contam que fizeram a romaria numa tacada só, 18 horas pedalando. Foi uma loucura e reconhecem que deveriam ter feito em pelo menos duas etapas, como eu pretendia. 
Não é difícil encontrar os que achem bacana pagar promessa fazendo os 180 km numa tacada só. A fé está relacionada em fazer a coisa certa ou em sofrer? Bato aposta em fazer o certo. Não sei se Nossa Senhora de Aparecida está feliz com tanta devoção irracional e fanatizada.

Meu pneu de trás murchou. Entro no Metro e compro passagem. Na hora que vou cruzar a catraca sou parado por um segurança que diz que "bicicleta só até as 16h00. São 16h15". Sento num canto e troco a câmara. A cola está velha e não colou o remendo. "Saco!"
Entro em casa, solto a mochila, tomo água, faço pipi, volto para guardar a bicicleta e encontro o pneu da frente furado. "É, sem dúvida, foi sábio ter parado. Mais um sinal". Talvez volte a pedalar na Dutra que tem trechos lindos. Nunca mais em tempo de romaria. Tudo tem limite.

sábado, 2 de outubro de 2021

desdentado e sem comer

A idade chegou e perdi mais um dente, o terceiro. Ontem tive que extrair mais um pré molar. Causa: bruxismo. Com isto acordei e não pude tomar um café da manhã normal, normal para mim. Olhei minha papaia raspada, papinha no prato, ouvi o silêncio do entorno de minha casa e não gostei da brincadeira. Quero pão torradinho e quentinho, manteiga sem sal, geleia, mel, café expresso! 
"Quanta frescura!" pensei.

Na volta do dentista peguei um taxi. Chovia, dobrei a bicicleta, coloquei-a no porta-malas e seguimos viagem conversando. Foi um inferno de trânsito, tudo parado, muita conversa. Ele, motorista dito "pai-avô", aos 60, filha com 15 anos. 
- É difícil, mas precisa fazer esta criançada cair na real. 
- Minha mulher faz trabalho beneficente e ela vai junto. Já começou a entender as coisas. Já não diz mais que dá (para comprar), que é só pagar no cartão (de crédito).

Manhã nublada, silenciosa e eu parado encarando a papinha de papaia. A dobrável está encostada na sala. Vai chover, não vou poder sair de casa, muito bom, não vou passar vontade. Sem saber bem o que fazer com, melhor, sem dente, fico parado no meio da sala num desorientado mimado. "Que direito tenho eu?"
Durmo só, na minha cama, no meu quarto, na minha casa que está num lugar silencioso, sem violência. Tenho uma pequena geladeira. Tenho uma vida normal. Normal? Para quem?
"Como será lá?"

Ela se levanta com cuidado para não acordar os outros que ainda dormem no pequeno e mal ventilado quarto. Ela dormia junto com a filha mais nova num colchão velho e meio deformado; a mais velha com os dois irmãos no colchão jogado no chão, corpos invertidos, pé com cabeça, cabeça com pé, para caber todo mundo. Abre a porta que ficou encostada para ventilar um pouco, estica a perna sobre os corpos, e sai para a cozinha. Ainda meio atordoada da noite mal dormida, regra nesta vizinhança que gosta de uma festa ou de conversar noite adentro. Cheira o que resta de leite, não está estragado ainda, coloca mais água e põe para esquentar. O pão de forma que foi deixado aberto é colocado sobre a mesinha coberta por pano limpo, florido, comprado na liquidação. Os pratos amontoados ao lado do pão, pote econômico de margarina, e uma faca. Leite quente, água do café ralo fervendo, hora de acordar os meninos, um por vez, a casa só tem um banheiro, pequeno, pintura do teto mofada, com ladrilhos imitando mármore cinza nas paredes brilhando, um orgulho, chão de cimento queimado, vaso sanitário sem acento, mas com uma velha tampa de lixo para evitar mosquito. Tudo limpo. Um por vez. 
Pelo vitro apertado ela olha o amontoado sem fim de casinhas sem pintura ou telhado, tudo laje e caixa d'água, e lá longe vê as árvores da praça na avenida. Por uns instantes preocupada com o velho senhor maltrapilho que dorme debaixo da lona e que não terá sequer café da manhã para tomar. Fica na espera de um filho dela que desce com meio pacote de biscoito. Um dia o magérrimo velho estava ainda mais quieto que o normal naquele fim de tarde da volta do trabalho dela, nem agradeceu como de costume. Um dos filhos não entregara o pão velho pela manhã. Justificando acabrunhado "Estava com muita fome".


Fico com a colher cheia de papa de papaia no ar, congelado, lembrando da matéria na TV sobre as dificuldades que a população está tendo depois da pandemia. Minha paz, minha segurança, meu dia a dia me dá o direito, a capacidade de pensar. 
Coloco a papai gelada na boca e sinto o local onde foi feita a extração do dente. Não é uma dor, mas um leve desconforto.
"Como estará a boca deste pessoal?" 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Como morrem projetos de interesse público

"Eu não vou colocar em risco a educação de meu filho" e esta frase enterrou mais um dos ambiciosos projetos sobre mobilidade. Uma razão, um funcionário, e uma pena capital, fim e acabou.

Lá por 2009 Guarulhos conseguiu verba para o projeto executivo de seu sistema cicloviário que ficou pronto dois ou três anos antes das Olimpíadas aqui no Brasil. O projeto inicial que foi contratado não levava em consideração as ligações entre algumas ciclovias previstas inicialmente, o que foi corrigido com autorização de Brasília. O total de ciclovias projetadas aumentou algo em torno de 20%, o que faria a ligação norte entre bairros e o principal parque da cidade, o Bosque Maia, ampliando a finalidade das ciclovias implantadas e aumentando o público alvo, dentre outras ideias não previstas originalmente.
Bem no finalzinho dos trabalhos foi lançada a possibilidade de se criar em uma destas ciclovias, a da av. Faria Lima que acompanha um córrego, o que se chamou "Parque Linear Olímpico de Guarulhos". A ideia básica era aproveitar a implantação da ciclovia de aproximadamente 4 km, entre o Parque Jardim Adriana / SESI até a Prefeitura, e formar um parque linear junto ao córrego que uniria 12 clubes, estabelecimentos públicos e privados, escolas, parques, equipamentos esportivos ou de apoio ao esporte que já existem no local e que fomentam mais de 15 práticas esportivas todas olímpicas, incluindo baseball. A implantação do parque linear dependia da implantação do Plano Cicloviário de Guarulhos e a ciclovia Faria Lima ali prevista, mas tudo foi enterrado pela reação de um único funcionário. Anos de trabalho, um projeto executivo completo, caro, financiado pelo poder público simplesmente enterrados, sumiram, ninguém sabe, ninguém viu.


SP Reclama
O Estado de São Paulo

O caderno mobilidade do Estadão de 18 de setembro de 2021 veio com a página "Acidentes com ciclistas crescem 30% em 2021" e subtítulo "Cidade de São Paulo lidera o ranking nacional; o uso de bicicletas vem aumentando continuamente há dez anos". Mais em baixo vem as recomendações da ABRAMED: 1 - Construção ou ampliação das ciclovias e ciclofaixas; 2 - Manutenção frequente das ciclofaixas e ciclovias; 3 - Campanhas educativas; 4 - Mais placas de sinalização; 5 - Ampliar a interligação entre modais
Óbvio que São Paulo lidera o número de acidentados. É o estado e tem a cidade com a maior população do país. Talvez o dado correto devesse ser publicado em cima do número de acidentados por 100 mil, o que talvez tirasse São Paulo da liderança, talvez. E deixo a pergunta que tipo de acidentados?
"Uso de bicicleta vem aumentando continuamente há dez anos" está correto, mas creio ser informação incompleta. "Uso de bicicleta vem aumentando continuamente há dez anos" entre as classes mais altas das cidades grandes, enquanto está diminuindo em antigos redutos de baixa renda que usavam intensamente a bicicleta, mas não apareciam nas estatísticas, e que vem há muito trocando a bicicleta pela moto. Muda completamente o panorama. A acidentalidade migrou também? Pelo que se sabe sim.

Nas recomendações da ABRAMED publicada no artigo, em outra ordem de prioridade:
  1. Campanhas educativas; - este é o ponto de partida: cidadão educado; ciclista educado e disciplinado dificilmente se envolve em acidentes. Tinha concluído a frase com "outros veículos, sejam motorizados ou não", mas o correto é “acidentes”, todos, sem exceção.
  2. Mais placas de sinalização; - a sinalização tem que atingir o objetivo desejado, o que não necessariamente quer dizer mais placas de sinalização e sim uma sinalização inteligente, eficaz, que de fato apresente resultados. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é... Placa é sinalização aérea, portanto a proposta da matéria é uma sinalização incompleta. Aliás, sinalização tem que ser de solo, aérea e semafórica, ou seja, "sistema semafórico".
  3. Construção ou ampliação das ciclovias e ciclofaixas; - Ciclista educado, civilizado, que sabe pedalar, vai necessitar muito menos ciclovia ou ciclofaixa porque saberá conviver com o trânsito, pedestres e a cidade. Nunca vi uma comparação entre os custos de educação e treinamento de ciclistas X construção de vias segregadas aqui no Brasil; e custos X benefícios de cada opção. Se alguém viu, por favor me envie. Outro ponto é que só temos as estatísticas de acidentes fatias. Acidentes não fatais em ciclovias e ciclofaixas são subnotificados, quando o são, o que distorce a realidade. Nem falo sobre incidentes.
  4. Manutenção frequente das ciclofaixas e ciclovias; - óbvio que tem que haver manutenção frequente não só das ciclovias e ciclofaixas, mas de tudo que envolve a circulação e transporte no entorno. Por quê? Exemplo simples: pedestre que sai caminhando pela ciclovia porque a calçada é ruim ou menos cuidada. "Ou todos tem segurança ou ninguém está completamente seguro" é princípio básico de segurança. Insegurança na via dos veículos motorizados certamente vai se refletir na segurança dos ciclistas, mesmo que estes estejam segregados.
  5. Ampliar a interligação entre modais; tem que ampliar o diálogo não só com outros modais, mas com a cidade, daí a interligação será um detalhe que se resolverá naturalmente.

Defender uma boa causa vale a pena, mas precisa ter cuidado.

Aumentar a segurança do ciclista é importantíssimo, mas de que forma? O que é líquido e certo é que as cidades entraram num processo de revisão imposto pela inteligência artificial. Neste contexto será que se deve colocar tantas fichas num projeto de cidade dos anos 80? E deixo a pergunta: qual o custo da segregação neste novo contexto que vivemos?

Felizmente não repetiram o erro sobre uso de capacete, o que a ciência nega dar a segurança que todos apregoam. Por favor ler - http://escoladebicicleta.com/dicascapacetes.html ou qualquer outro documento sério sobre o assunto.

Fred Tejada


Recebi a notícia que Fred Tejada, um dos mais importantes nomes da história de todos os tempos do motociclismo e ciclismo brasileiro, morreu em um acidente de bicicleta a princípio bobo: tocou sua roda dianteira na roda traseira do ciclista que ia a frente e caiu 'ruim', para dizer o mínimo. A perda para o esporte é literalmente irreparável, e no caso do Fred Tejada literalmente não é uma cortesia para um caríssimo amigo de quem gostava demais e acabou de partir. 
Poucos sabem quem realmente foi Fred Tejada e está aí a prova de sua grandeza. A saber, ele foi a referência dos que são referência. Pessoa simples, tranquila, de fácil acesso, fala mansa, lutador, abriu caminho para o moto trial no Brasil, sendo um de seus maiores campeões. Nos primórdios do mountain bike. Só vim a saber quem realmente era Tejada, qual a importância dele para os esportes, muito tempo depois por um amigo. Quase caí da cadeira. Quem conheceu bem a história de Fred sempre o colocou num outro planeta, um olimpo para os verdadeiros vencedores, colaborativos e justos.
A última imagem que guardo dele foi quando chamaram o vencedor da categoria veterano na última Prova 9 de Julho antes da pandemia: Fred Tejada. Não fazia ideia de que o baixinho estava pedalando tudo aquilo. Sorridente subiu ao pódio e foi muito aplaudido. Aquele pessoal sabia bem o quanto ele pedalava, mas provavelmente poucos devem saber os títulos que carregava. Campeão!

Vi pouquíssimos esportistas com o nível técnico e consciência das ações como Fred Tejada tinha, mesmo assim se enroscou com a bicicleta da frente numa descida, bateu desajeitado a cabeça e partiu. Vai fazer muita falta, mesmo que seja só para bater um papo informal. Forte abraço, amigo. Boa viagem.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A ciclovia mais além de Machiavelli (Nicolau Maquiavel)

O caderno mobilidade do Estadão de 18 de setembro de 2021 veio com a página "Acidentes com ciclistas crescem 30% em 2021" e subtítulo "Cidade de São Paulo lidera o ranking nacional; o uso de bicicletas vem aumentando continuamente há dez anos". Mais em baixo vem as recomendações da ABRAMED: 1 - Construção ou ampliação das ciclovias e ciclofaixas; 2 - Manutenção frequente das ciclofaixas e ciclovias; 3 - Campanhas educativas; 4 - Mais placas de sinalização; 5 - Ampliar a interligação entre modais

Ontem almocei com minha neta e conversamos sobre gasto consciente de água. Ela colocou que a responsabilidade não é nossa, população, que só gasta 1% do total da água e que se tem que controlar a indústria... Depois do almoço sai para ver onde está um dos meus livros prediletos, "Como mentir com estatística", de Darrell Huff, publicado em 1956 e ainda hoje a bíblia para entender como funciona de fato a comunicação geral. Creio que vá ser um presente valioso para ela que é curiosa e gosta muito de ler. Disse para ela que os dados que tinha pesquisado estavam corretos, mas sempre tem algo a mais por trás.

Cada um conta sua versão. Olho para trás e sinto profunda vergonha das besteiras que disse e pensei. Dependendo da fase da vida a gente fala sem pensar literalmente. Efeito boiada. Híper feliz porque a guria pensa e corre atrás de informação. 
Mesmo o que acredito ser verdade hoje tenho certo receio de dizer que o é. O que não resta dúvida é que se tem de trocar informação, mesmo que seja besteira.  Então vamos lá:
  • Óbvio que São Paulo lidera o número de acidentados. É o estado e tem a cidade mais populosa do país. Talvez o dado correto devesse ser publicado em cima do número de acidentados por 100 mil, o que talvez tirasse São Paulo da liderança, talvez. E deixo a pergunta que tipo de acidentados?
  • "Uso de bicicleta vem aumentando continuamente há dez anos" está correto, mas creio ser informação incompleta. "Uso de bicicleta vem aumentando continuamente há dez anos" entre as classes mais altas das cidades grandes, enquanto está diminuindo em antigos redutos de baixa renda que usavam intensamente a bicicleta, mas não apareciam nas estatísticas, e que vem há muito trocando a bicicleta pela moto. Muda completamente o panorama. A acidentalidade migrou também? Pelo que se sabe sim.
Nas recomendações da ABRAMED publicada no artigo, penso que a ordem de prioridade deveria ser outra:
  1. Campanhas educativas;este é o ponto de partida: cidadão educado; ciclista educado e disciplinado dificilmente se envolve em acidentes. Tinha concluído a frase com "outros veículos, sejam motorizados ou não", mas o correto é "acidentes", todos, sem exceção.  
  2. Mais placas de sinalização; - a sinalização tem que atingir o objetivo desejado, o que não necessariamente quer dizer mais placas de sinalização e sim uma sinalização inteligente, eficaz, que de fato apresente resultados. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é... Placa é sinalização aérea, portanto a proposta da matéria é sinalização incompleta. Aliás, sinalização tem que ser de solo, aérea e semafórica, esta última crucial em algumas situações, ou seja sistema de sinalização.  
  3. Construção ou ampliação das ciclovias e ciclofaixas; - Ciclista educado, civilizado, que sabe pedalar, vai necessitar muito menos ciclovia ou ciclofaixa porque saberá conviver com o trânsito, pedestres e a cidade. Nunca vi uma comparação entre os custos de educação e treinamento de ciclistas X construção de vias segregadas aqui no Brasil; e custos X benefícios de cada opção. Se alguém viu, por favor me envie. Outro ponto é que só temos as estatísticas de acidentes fatias. Acidentes não fatais em ciclovias e ciclofaixas são subnotificados, quando o são, o que distorce a realidade.  Nem falo sobre incidentes.
  4. Manutenção frequente das ciclofaixas e ciclovias; - óbvio que tem que haver manutenção frequente não só das ciclovias e ciclofaixas, mas de tudo que envolve a circulação e transporte no entorno. Por quê? Exemplo simples: pedestre que sai caminhando pela ciclovia porque a calçada é ruim ou menos cuidada. "Ou todos tem segurança ou ninguém está completamente seguro" é princípio básico de segurança. Insegurança na via dos veículos motorizados certamente vai se refletir na segurança dos ciclistas, mesmo que estes estejam segregados.
  5. Ampliar a interligação entre modais; tem que ampliar o diálogo não só com outros modais, mas com a cidade, daí a interligação será um detalhe que se resolverá naturalmente.
Defender uma boa causa vale a pena, mas precisa ter cuidado.
Aumentar a segurança do ciclista é importantíssimo, mas de que forma? O que é líquido e certo é que as cidades entraram num processo de revisão imposto pela inteligência artificial. Neste contexto será que se deve colocar tantas fichas num projeto de cidade dos anos 80? E deixo a pergunta: qual o custo da segregação neste novo contexto que vivemos? 
 
Acabei de ler e fiquei muito impressionado com "Viagem ao crepúsculo" de Samarone Lima, livro que conta sua experiência na viagem que fez como turista mochileiro de esquerda para Cuba. Recomendo como leitura obrigatória. Sempre quis ir para Cuba e conhecer Havana antes que seu patrimônio arquitetônico seja "mudernizado". Acho que não vai dar. Quem quiser saber por que que leia a Viagem ao crepúsculo. 

Nunca li Machiavelli. Deveria e um dia talvez o faça. De qualquer forma, digo eu, uma verdade dita ou escrita incompleta pode ou não ser uma verdade. Não resta dúvida que quanto mais informação menor a distorção.