sexta-feira, 15 de maio de 2026

Eu sou inteligente. O outro é ignorante. Cuma?


Estamos mais inteligentes? Sabemos mais? Provavelmente. Mesmo o mais ignorante dos ignorantes de hoje tem muito mais informação que um qualquer do povão de tempos passados, principalmente nestes tempos de celular e internet. Mas ter informação não significa que o sujeito saiba pensar melhor. Conheço uma tonelada de pessoas ditas de elite, econômica e cultural, que sempre tiveram e continuam tendo pleno acesso a informação de qualidade e são umas bestas quadradas ambulantes.

Eu adoro a expressão que um amigo sempre usava para referir-se a estes que se acham inteligentes: "É um ostra com paralisia mental". É o que não falta. Os ou as piores são aquelas / aqueles que se acham um gênio, os famosos ou as famosas que acham a "Última bolacha do pacote".

Na busca pelo Google: Inteligência é a capacidade mental de aprender com a experiência, adaptar-se a novas situações, compreender conceitos abstratos e usar o conhecimento para manipular o ambiente ou resolver problemas. Envolve raciocínio, planejamento, criatividade e memória, sendo descrita tanto como uma habilidade geral quanto por múltiplos tipos (lógico, emocional, social).

No geral, no jargão popular, quem era considerado inteligente num passado não muito distante, uns 40 anos atrás? Quem conseguia decorar as lições, que por conseguinte tirava boas notas, os CDFs. Os que vão na escola, são bons no trabalho, ou para o povão "os que sabem das coisas". Alguns de fato eram e são. Este conceito geral de inteligência ainda vale ainda para a maioria. Boa memória faz muita diferença na venda de quem se é. Pequeno detalhe, memória até pode ajudar na formação da inteligência, mas não é inteligência, é memória.

Tive a sorte de ter conhecido algumas pessoas bem fora da curva, uns de memória excepcional, outros de inteligência excepcional, e os que juntavam as duas. Não tenho dúvidas que conviver com quem tem memória acima da média é muito mais agradável porque eles a usam como ferramenta de poder social relembrando fatos e nomes com uma facilidade invejável. 
Já os superdotados..., bem, estes são um pouquinho mais complicados, só um pouquinho. Cito dois, um fechado em sí próprio, arredio, difícil de conversar. O outro expansivo, comunicativo, explosivo, como definia seu filho "Não é se ele vai ou não brigar com alguém, é certeza que num momento ele vai aprontar uma discussão pesada, resta saber quando". Os dois fizeram coisas na vida completamente fora da compreensão dos normais, da família, amigos e os que trabalharam junto.

E há o que a ciência definiu não faz muito, faz uns 30 ou 40 anos, como inteligência específica. Garrincha fora das quatro linhas, o campo de futebol, pensava quase como uma criança. Já  jogando um mundial foi 'a' diferença, um gênio, inteligência de jogo e habilidade incomparáveis. Numa partida decisiva para o Brasil, com placar contra, Garrincha entrou sozinho na área, diblou um, diblou dois, ficou de frente para o goleiro sozinho, voltou a diblar os zagueiros, e só então fez o gol. No vestiário os que viram tudo aquilo e quase enfartaram, perguntaram para ele se estava louco, porque não tinha marcado o gol na primeira vez que ficara de frente para o gol. Garrincha respondeu com toda a sinceridade: "O goleiro não abria as pernas".

Voltando: inteligência específica é a capacidade de pensar e resolver bem situações muito específicas. Um favelado criou barracos dobráveis, que permitiam desmontar e montar a pequena favela muito rapidamente, alguém avisava a chegada do rapa, e eles desapareciam. Outro favelado, um velho senhor, criou uma favela com a mesma técnica de castelo de cartas, se tirasse uma parede caia tudo, mas a estrutura era muito firme e estável. Um velho trabalhador de uma tecelagem entrava no setor de produção e sabia qual máquina que estava com qual problema, com um detalhe, um setor de máquinas de tear faz um barulho ensurdecedor, mesmo assim ele não errava. Um pescador, já muito velho, subia num morro e orientava os pescadores onde estavam os peixes, isto a centenas de metros de distância. Inteligências específicas. 
  
Se a sociedade fosse treinada para perceber e aproveitar estas inteligências estaríamos muito mais bem arranjados. Por uma série de razões, inclusive pela venda que todos somos inteligentes e que cada um de nós temos que lutar pela própria inteligência para garantir um lugar ao sol, não interessa reconhecer uma inteligência que seja de fato útil a todos. O outro é uma besta e nós somos inteligentes, ponto final.



Eu sou inteligente? Não! sou invejoso, muito invejoso da inteligência dos outros, as normais e as específicas, e os fora da curva, os superdotados. Adoro conviver com eles, agradeço muito a benção de ter tido vários 'malucos' por perto, da mesma forma agradeço muito não ser um deles.



E não é que a Eldorado silenciou

 Ouvi os últimos minutos de transmissão da Rádio Eldorado. E não é que um pouco antes da meia noite ela silenciou. Confesso que não sei o que pensar. Mais uma perda em minha vida. Mais uma perda em nossas vidas, perda incalculável. Mas quantos saberão calcular, quantos tem a ciência e a consciência para avaliar?

Vivemos uma época de terra arrasada, da vulgarização do passar por cima a qualquer custo para abrir caminhos incertos. O passado é a bússola para o futuro. Cultura!

A vida é como nuvens que passam, não voltam e nunca serão as mesmas. A bússola do passado ensina o saber olhar o caminho das nuvens, as que vem e as que somem no horizonte. Nada será como antes amanhã. Mesmo assim é sábio viver a vida bem, acordar, comer, andar, pensar, trabalhar, descansar, acordar... Moto continuo. Aí entra a bússola, agulha do passado que aponta para o norte do futuro seguro.

Algumas coisas não se deve deixar estragar, acabar. Inteligência é uma delas, talvez a principal. Rádio Eldorado silenciou. Que horror. Silenciou de verdade. Pode?

Nós silenciamos. Há momento para tudo, para o silêncio e para a manifestação. Onde eu errei? Quando troquei de momento certo meu silêncio? Com certeza agora foi. Melhor, foi-se. Deprimente.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

O absurdo fim da Rádio Eldorado FM

Fórum do Leitor, O Estado de São Paulo

Quinta-feira, dia 14 de Maio de 2026, se derá a última transmissão da Rádio Eldorado FM, o que é mais um absurdo dentre os inúmeros que este país está vivendo. Pertencente ao Grupo O Estado de São Paulo, a Rádio Eldorado completa 68 anos no ar não só como uma simples rádio, mas como uma emissora que realmente cumpriu o dever civilizatório de informar e transformar para o bem não só a cidade de São Paulo, mas o Estado de São Paulo e o Brasil. Emitiu uma programação musical diferenciada em todo país, muito inteligente, desde seus primeiros dias. Lançou vários artistas de alta qualidade no mercado. Encampou inúmeras ações de melhoria da qualidade de vida da população, como o da recuperação das águas do rio Tiete, o que influenciou em ações semelhantes por todo país. Falando sobre vários esportes, de grande público ou não, dentre eles a vela, se pode dizer que teve uma participação, discreta e pouco conhecida, na conquista até de medalhas Olímpicas.

Sendo leitor do Estadão desde sempre, 71 anos de vida, confesso não entender como foi permitido o fim da Rádio Eldorado. Conhecendo a história deste jornal, simplesmente não consigo entender o que está acontecendo. 

Novamente, por mais que tente, não consigo entender a posição do Grupo Estado de São Paulo.

A todos que fizeram e fazem a Rádio Eldorado, muito, muito, muito obrigado.

Agradeço muitíssimo a oportunidade que me deram para participar desta rádio sensacional com o Bike Repórter Rádio Eldorado. 


Renata gravou está gravado: eu vergonhosamente pedalando nas calçadas. Mea culpa!


sábado, 9 de maio de 2026

O que deveríamos aprender com os 20 anos do cortiço na Oscar Freire

20 anos? 20 anos? 20anos! Sim, 20 anos. 20 anos para uma decisão da justiça. Justiça?

Na esquina das ruas Oscar Freire com Haddoc Lobo tem um comércio que está fechando faz sei lá quanto tempo, mas a décadas. Na al. Casa Branca, abaixo da Oscar Freire, um edificio ficou inacabado por mais de 30 anos. Pela cidade são inúmeros os edifícios que estão largados ou invadidos. São inúmeros os casos de disputas judiciais sem fim como o deste pequeno e belo edifício na esquina da Oscar Freire com Peixoto Gomide. Onde está o problema? Nas leis? Desconheço, mas é bem provável. A morosidade de nossa justiça é patente, a probabilidade que as leis existentes ajudem a confusão é grande.

Estas construções abandonadas fazem parte de uma rua, de um bairro, de uma cidade, de uma comunidade, portanto são propriedades privadas dentro de um contexto coletivo. Em NYC os imóveis não podem ficar mais de 6 meses desalugados ou o proprietário sofre sanções pesadas por dano ao coletivo. Em Paris os edifícios são obrigados a restaurar a faixada a cada 10 anos, pelo bem coletivo. Em Detroit a justiça definiu, pela primeira vez na história da humanidae, que a cidade tem prioridade sobre abandonos e disputas judiciais, ou sobre um senso de propriedade nocivo ao interesse,coletivo. Ou seja, pode ser propriedade particular ou o que seja, mas está inserida num contexto coletivo e este contexto coletivo tem prioridade pelo bem de todos.

A cidade não pode ficar refém da vontade de uns e outros, aos interesses particulares, ditos justos ou não. O interesse coletivo tem que estar acima, tem que ser respeitado, ou afetará inclusive o direito individual em questão. Esta é uma posição que interessa e muito inclusive ao capitalista mais aguerrido. Quanto melhor está funcionando, melhor para o social, melhor para a economia, melhor para todos. Um câncer é um câncer e deve ser tratado ou extirpado o quanto antes. É assim que funciona em qualquer cidade do planeta, e é assim que deveria ser aqui.

Convivi com a invasão do pequeno edifício da Oscar Freire. Sujeira, barulho, e outras inconveniências foram um problema, diria gritante numa área nobre de São Paulo. Mas não só lá; pergunte a um funcionário seu que vive numa comunidade se ele está feliz com a sujeira e a barulheira em seu bairro. Se ele gosta de vizinhos que fazem o que querem, não se importando com o coletivo. Que se faça uma entrevista com os funcionários e trabalhadores do entorno do edifício invadido perguntando o que eles acham.

Fato é que o Poder Público é fraco, ineficiente e não raro inexistente, e não é de hoje. O exemplo do edifício invadido na Oscar Freire é piada pronta. Sem trocadilho, drama pronto, e que drama. Grita aos olhos por que envolve pobres. Já os bares que passam as noites ao som altíssimo, que vivem oferecendo aos vizinhos bêbados falando, rindo e brigando alto no meio da rua, manobristas fritando pneus, que no dia seguinte entulham a calçada com lixo mal cheiroso, que geram baratas e ratos... Estes 'passam' por não ser negócio de pobre, por gerar impostos? Pergunte aos vizinhos. Aliás, próximo do edifício invadido na rua Oscar Freire tem exemplos do que digo. Ok, não se vê ratos e baratas, o lixo é recolhido de madrugadapor caminhões barulhentos, mas de resto incomodam tanto quanto os invasores do edifício. Maldito cheiro de carne na brasa! É de e para a elite, se houver reclamação vai acontecer algo? Pergunte aos vizinhos?

Toda e qualquer cidade do planeta que tem boa qualidade de vida respeita a regra básica onde o bem coletivo a prioridade máxima. Urge rever as leis. Urge quema população se faca ouvir. Urge a recuperação de um mínimo de qualidade de vida. Urge que tomemos consciência que é para amanhã e não para daqui 20 anos, ou sabe-se lá quando.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Boa entrevista de Sérgio Avelleda

 





Corrupção generalizada / master

 

Fanatismo é a forma mais fácil de se levar a cegueira. Estamos colhendo os frutos do fanatismo, que no passado era chamado de "inocente util", e hoje virou "nós e eles" ou também "nós e eles", escolha seu lado. Não sentiu o cheiro de queimada quem não quis, o fogo ardendo vermelho e quente está lá faz muito.

Depois que foram descobertos os campos de concentração, os aliados pegaram toda a população de cidades no entorno e os levaram para ver a barbárie in loco. Hoje temos informações de qualidade a disposição, basta ler.

Temos um país com uma riqueza natural sem igual. Como só olhamos para o próprio umbigo destruímos sistematicamente nosso potencial, e com ele nosso futuro. Alguma novidade no que está vindo a tona? Não sei, mas não me surpreende muito, aliás, não me surpreende nada.

Aos "nós e eles", dos dois lados, que tal vocês deixarem de ser fanáticos inocentes úteis para se transformar em brasileiros?

A única verdade na história da humanidade é "unidos venceremos". Fraticidio é para os doentes. A maluquice que vivemos só irá parar quando nós quisermos - todos, unidos, mesmo discordantes. Não há outra saída. O problema não são diferenças, mas a cegueira que não deixa ver a realidade. E a realidade não está no proprio umbigo, ou dos iguais.

Diferenças, com o uso da inteligência, aponta caminhos e soluções novas. Não sabe disto quem não quer ou não tem capacidade.


PS.: a cegueira, o desinteresse, o olhar só o próprio umbigo, é fato corriqueiro deste Brasil desde sempre, em tudo, em todos setores da sociedade e economia. Os erros que cometemos em tudo beiram o absurdo. "O Brasil não é para iniciantes", dito lá pelos anos 60 ou 70, já deveria ter acabado há muito, mas muito tempo mesmo. O que nos destrói é uma soberba altamente destrutiva embutida no "nós somos diferentes, fazemos do nosso jeito". O jeitinho Brasileiro é mágico quando olha para a eficiência, o contexto, o futuro, o que os outros fazem e nós podemos melhorar. 

Nós e eles é de uma mediocridade sem tamanho. Remete a falência de inúmeras sociedades, a História prova de maneira farta.


Olha só que boa coincidência. O segundo Opinião do Estadão traz o seguinte. 

Meu comentário, ainda no Opinião "O ecossistema da corrupção"

Recomendo a leitura do outro Opinião de hoje, "Um grito de socorro pelas universidades", pricipalmente os três últimos parágrafos. Não se faz necessário lembrar que o mesmo texto poderia ter sido escrito como um olhar sobre a outra face do " nós e eles". Infelizmente, não terá a universidade se transformado numa nova religião? Que diferença há?





quarta-feira, 6 de maio de 2026

Resposta a Miguel Reale Junior

 


Excelentíssimo Senhor Miguel Reale Junior
Antes de mais nada, agradeço e muito suas falas e ações em prol da construção de um país mais justo.

O que respondo aqui tem como ponto de partida uma conversa que quis ter com o senhor durante um jantar em apartamento de um amigo comum.

Na época, por volta de 2005, o senhor teve uma reação imediata e furiosa quando iniciei uma explicação sobre a questão legal da bicicleta. Não tive tempo, aliás, sequer me foi permitido evoluir dada a reação as minhas primeiras palavras. Não pude argumentar que na época o transporte de uns 40 milhões de brasileiros se fazia praticamente só por bicicleta, ou seja, era uma questão de amplo impacto social.

Aziz Ab'Saber, geógrafo brasileiro reconhecido por sua importância mundo afora, um dia declarou que a cidade de São Paulo não tinha topografia própria para o uso de bicicletas. Alertado sobre o erro de sua fala, o sábio, tranquilo e querido Aziz veio a público corrigir sua fala. São Paulo está assentada sobre vastas áreas de várzeas, Tiete, Pinheiros, Tamanduateí, Aricanduva, etc...  

Interessante ver uma eminência se interessando agora por temas, digo eu, mundanos e populares, como a segurança no trânsito de pedestres e motociclistas. Entendo que o desconhecimento sobre bicicletas foi, naqueles anos geral. Bicicletas eram, como continuam a ser para boa parte, um brinquedo, lazer ou esporte de elite, dita sem muita importância no contexto dos temas prioritários ou do social. Mesmo que esta miopia tenha melhorado, ainda representa uma visão de classe média e alta sobre a realidade, aliás, não só sobre bicicletas.

A motocicleta vem substituindo a bicicleta, mesmo assim o número de usuários da bicicleta como meio de transporte nas classes menos abastadas é relevante. Quando tive a infeliz tentativa de conversa, um pedido de orientação, com Miguel Reale Junior, quase um terço dos brasileiros faziam uso intenso da bicicleta no dia a dia, mas eram, como continuam sendo, invisíveis por simples razão: onde circulam e horários de uso constitui um universo fora da realidade das classes média e alta motorizadas.

Interessante o interesse pela segurança de pedestres, outro cidadão praticamente invisível aos olhos de usuários de veículos motorizados.

Por fim, é sabido que temos uma intelectualidade um tanto fechada, restrita a suas áreas específicas de atuação, o que prejudica muito a perspectiva de um Brasil mais funcional e justo.
Devemos e muito a sábios do calibre de Miguel Reale Junior. Ninguém, nem os que tem notório saber, tem obrigação de conhecer a fundo todo o universo. Mas ouvir não faz mal a ninguém, afinal, o mundo não acaba no que se vê.