sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Conflito de gerações

Escrevi e participei de vários manifestos, isto num passado que agora parece distante. Em todos eles, uns 10, fui o redator da base, passei para quem se interessava, eles revisavam, e saíamos para entregar aos candidatos ou partidos, que então eram poucos. Hoje são 27, se não me engano. 

O pessoal que colaborava e assinava o fazia por pura civilidade, vontade de melhorar as coisas para todos. A bem da verdade e puxando da memória, não me lembro que os manifestos levassem nossa assinatura ou mesmo nossos nomes. Acabamos conhecidos por que a entrega era feita na mão, pessoalmente. O Manifesto pelas bicicletas e ciclistas foi o mais trabalhado e entregue. Demorou para dar algum resultado, nem tudo aconteceu como propúnhamos, mas no fim das contas valeu e muito. Entre os que estiveram envolvidos no processo alguns se beneficiaram depois, bem depois, porque passaram a ser reconhecidos pela boa vontade e seriedade.

E cá estou eu novamente envolvido com um manifesto. Exatamente como nas outras vezes escrevi o básico e passei a chamar pessoas interessantes para revisar e ou incluir algo novo. Aos do meu passado não precisei avisar porque a maioria foi-se, morreu. Mas tem gente nova com boa cabeça. Avisei-os que para funcionar bem é crucial a neutralidade do documento. Diferente do passado, dos já se foram, a alguns da nova geração parece não poder ou conseguir ficar neutros, ou ainda, não entendem o que é. Outros tempos. 

Outra diferença, e esta me deixou impressionado, foi os que simplesmente não deram sequer retorno. Simplesmente sumiram. E pela primeira vez um dos que contatei não entendeu o espírito da coisa, construir um manifesto, e perguntou literalmente "quanto eu levo?". Confesso que errei ao reagir de bate pronto e ficar muito irritado. Um pouco depois, mais calmo, pedi desculpas pela minha reação no meio de muita confusão na cabeça. Não faço ideia do que realmente aconteceu, se foi erro de comunicação ou se as coisas mudaram tanto daquela velha época de sonhos de um Brasil melhor que agora, para esta jovem geração cheia de selfies, um manifesto só faz sentido caso tenha no jogo um algo mais.

Estou sendo bem sarcástico, até sacana. Fato é que há uma enorme diferença entre como nós, os velhinhos, víamos o Brasil, e estes jovens vêem. Espero que eu esteja complemente errado e que esta molecada (40 anos ou menos) vá mostrar sua cara e fazer isto aqui melhorar. Infelizmente, minha sensação é que o "eu selfie" uniu se ao "nós ou eles" e encrustou para valer um individualismo libertário populista igualzinho para direita como esquerda. "Que se dane tudo, eu quero o meu" perece que colou colado.

Tesão de dia!

Hoje, depois de muito tempo, mas muito tempo mesmo, acabei de olhar para o relógio e vi que trabalhei praticamente 14 horas, um prazer que, repito com prazer, não sentia faz muito. Que dia maravilhoso! Vocês não fazem a mais remota ideia de como foram divinos meus anos de trabalho. De quantas vezes tomei bronca, "Larga isto e vem dormir!"
Sim, mesmo sem trabalho remunerado, aposentado como se diz, continuo fazendo minhas coisas, mas com menos tempo para mim mesmo, para meu trabalho, para meus trabalhos, para mim. A vida vai atropelando, ou, eu fui permitindo que me atropelassem, melhor dito.
Não faz muito separei um dia da semana para mim. Uau! que delícia. Me acalmou muito, eu próprio não podia imaginar quanto.
Ócio, hoje foi meu dia do ócio. Se pudesse continuaria no trabalho, mas amanhã será outro dia. 

Cara, que dia!

Bom dia. Acordei. Agora pela manhã percebi o que aconteceu ontem. Abri o celular para ler as notícias, cada dia mais desconfortáveis, e depois vi algumas besteiras, e o tempo passa. Estamos todos vivendo uma fábrica de dispersões que me parece vai muito além de uma simples teoria da conspiração. Nunca foi tão significativa a expressão "recuperar o tempo perdido", no caso o tempo imediato, o que passa agora. Tive um dia para lá de feliz no meu ócio do tempo perdido, estranho dizer, mas ócio realizado no trabalho, uma inversão do velho sentido de ócio, mas sem qualquer dúvida um ócio literal. 

Estou lendo "História da Felicidade". Maravilhoso. Recomendo. Reposiciona muito do que pensamos sobre quem somos e nossa época. 


Manifesto pelas cidades; revisado e corrigido

Eu me sinto envergonhado de ter entregue para algumas pessoas este manifesto sem ter realizado uma revisão cuidadosa. Mais uma vez fui estabanado, o que não é legal. Agora foi. A revisão mais cuidadosa está aqui.

Sempre se diz "esta eleição é a mais importante da história", e não resta dúvida que a que teremos dentro de uns dias terá um peso no nosso futuro que nenhuma outra teve. Vide a baderna institucional generalizada que estamos vivendo. Nunca o Brasil viveu um caos igual, isto é líquido e certo.

Eu acredito que para começar arrumar a casa os votos mais importantes serão os dos deputados estaduais, federais e senadores, muito mais decisivos que os dos governadores e presidente da República.  

Por outro lado, acredito que mingau quente se come pelas bordas, ou seja, sem a vontade popular, sem um tomar de consciência coletivo, entre quem entrar a coisa vai ficar mais ou menos igual, ou pior, bem pior, acredito eu. Sem pressão pública não saímos desta.

O Manifesto pela Cidade quer propor mudanças na forma como nos comportamos como cidadãos. Sem esta mudança continuaremos a merce dos outros. Com uma melhora da qualidade de vida urbana diminui tensões e coloca as ideias mais claras, o que está provado pela história e principalmente pela evolução de 'n' cidades mundo afora no sentido da qualidade de vida de todos cidadãos.

Se acharem pertinente façam bom uso deste manifesto - proposta. 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O ganho do turismo

Sou turista e concordo em grau gênero e número que se coloque um freio no que está acontecendo, principalmente quando entra álcool na história. Alcoolizado e bêbado é um porre, literal e mataforicamente. Álcool aliado ao comum pensamento "estou fora de casa então vale qualquer coisa", muito comum entre alguns tantos turistas, causa problemas em todas as partes, aliás, neste estado de espírito com ou sem álcool. Reprimir turista que acha que tudo aquilo é seu e pode fazer o que quiser é crucial para a saúde pública de curto, médio e longo prazo.

Infelizmente somos uma espécie com uma grande capacidade de adaptabilidade, o que faz com que alguns desvios que não parecem daninhos ganhem uma escala não desejada e prejudicial ao coletivo. Nada a ver com moralismo barato, politicamente correto, ideologias, ou religiões, mas com um sadio controle de limite social, que deve ser pensado com inteligência. Contam histórias maravilhosas da Croácia e esta notícia do Estadão dá mais vontade de conhecer.

Saúde pública começa na qualidade de vida coletiva sadia. Permitir perturbar muitos porque uns têm o direito de ganhar seu dinheiro é um tiro no pé futuro. Vila Madalena e Pinheiros que o digam, e a cidade que o pague. Sim, os custos da festança geral é paga por todos nós, e não deve ser barata. Gera empregos, impostos, o povo precisa se divertir, com certeza, mas a que custo/benefício? É isto que está sendo repensado em vários destinos turísticos.

Brasil tem números pífios no receptivo de turistas estrangeiros vindos do hemisfério norte, os que podem mais, portanto gastam mais. As razões são várias, mas tudo que vi publicado não cita uma vergonhosa inversão de valores bem a la brasileira. Aqui quem incomoda e muito, mas muito mesmo, começa nos prestadores de serviço de baixa qualidade de atendimento, e outros 'pobreminha', e termina (ou passa por) em muita barulheira e sujeira. Maldito som alto! Aliás, não raro vira uma baderna generalizada envolvendo comportamentos nada civilizados dos clientes. São poucos os restaurantes onde se pode conversar em voz baixa.

Sobre os beubos... falar o que?

Turismo vem se transformando em algo tenso. Você sai para descansar e dá com situações desagradáveis, exaustivas, desnecessárias. Não é legal para quem viaja e está se tornando um pesadelo para os moradores locais. Mesmo como negócio está começando a não valer a pena.

Brasil tem um potencial imenso, mas desperdiçamos. No turismo não poderia ser diferente.

Como se pode chegar a um meio termo? Turismo, festas, eventos, todo tipo de reunião popular é importantíssimo tanto para o equilíbrio social quanto para a economia. Deve haver um jeito para frear o desequilíbrio que estamos tendo em todas as partes do planeta.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O perdão

Perdão. Muito mais fácil perdoar o outro que a si próprio. O perdoar o outro implica em uma série de fatores emocionais, numa espécie de negociação consigo próprio onde entra o vale a pena ou não, o é bom negócio ou não, que vantagem eu levo nesta, se o conflito ou a paz de espírito se encaixam melhor para a situação. 
Já o auto-perdoar entra num pântano cheio de crocodilos que foram criados, acariciarinhados, alimentados por nós mesmos, até não caber mais no nosso quartinho, ou pior, no armário. A solução mais fácil costuma ser sair ou fugir de lá de dentro, da área de conflito, e trancar a porta muito bem trancada pelo lado de fora. A cervejinha nossa de cada dia que o diga. Mas é quem não consegue?

Perdão está nos livros sagrados, e não é como receita de biscoito. 
E lá vem o inferno, criado muito depois dos escritos sagrados. 

A questão é não conseguir se perdoar, ou não saber se perdoar. Quem tem um minimo de consciência difilmente perdoa seus erros mais pesados. Consciência? Ou inconsciência?  Olhe se no espelho e não saberá, ou nunca saberá (eis a questão). Na tentativa de se perdoar, de se aceitar como quem realmente se é, está o real inferno, aquele que a gente vê nas ilustrações bíblicas, as que descrevem os piores horrores que algum pecador pode sofrer.

Dizem que é sadomasoquismo. Não é. Quem o diz ou não tem espelho ou vê-se no reflexo sendo um outro, delírio de si próprio. Óbvio que o mundo está cheio dos que não fazem ideia sobre o que aqui se fala e um selfie para comemorar. Clic! Que inveja destes. A ignorância é uma benção.

Pecador? Sim, pecador, pecado, aquela instituição religiosa doutrinada tanto pelos seguidores da fé quanto pela sociedade que nos atormenta a todos. Sem este sentido, o da culpa (religiosa), que nos leva à responsabilidade coletiva, ou nos impõe goela abaixo a responsabilidade, provavelmente não teríamos chegado aonde estamos como sociedade. "Minta, minta, minta mil vezes e a mentira se transformará em verdade", maldita sábia eficiente técnica de controle social, e caímos nesta feito peixes na rede.

Taoismo e confucionismo têm inferno? Numa pesquisa mequetrefe a resposta é não, mas ditam sobre disciplina para se ter uma vida harmoniosa com o ambiente externo (por assim dizer), portanto o perdoar e o subsequente inferno devem estar ali em algum canto.

Somos uma sociedade moderna, temos o direito a escolha. "E a escolha certa é..." "Ser livre e feliz, mandar a culpa para o inferno". "Você está absolutamente correto! A escolha correta é ser feliz sem culpas". "Podemos tirar um selfie?" "Mas é claro! Sorria!" 
No não se perdoar a tortura é constante, inacabável, ferroz. "Ajoelhe-se no milho, reze todas as contas, pague seus pecados para entrar no céu". Quando você imagina que conseguiu fugir do peso torturante da memória, e consegue, sempre de alguma forma se consegue, logo algo vem de surpreza e traz de volta a agonia da culpa. A vida não perdoa.

"Nossa, que drama!" Minha confusão, ou conclusão, é que não tenho dúvida que aprendi e amadureci, e me tornei maduro e feliz, com o peso da consciência de meus erros, muitos dos quais não consigo me perdoar. Bom, e daí, e se não tivesse passado por eles, como eu seria? Um ignorante abençoado. Eu não. Prefiro morrer queimado na fogueira da auto Inquisição.

Quem não sabe o que é esta barreira, a barreira das culpas entalhadas? Quem é livre, será um sociopata? Um libertino? A liberdade é sua ou emprestada pela sociedade? Ou serão as duas, unidas numa força imparável na qual sempre aceitamos com frequência o Cavalo de Tróia, lindo, imponente, que dentro de nossas porteiras nos trai?

Com perdão da palavra.




domingo, 9 de agosto de 2026

80 anos das bombas atômicas sobre o Japão.

Fato: somos erráticos. Fato, a história da WWII começa a ser aberta de uns anos para cá. Antes era propaganda ou o que seja. Quem viu os últimos documentários sobre o que aconteceu, mesmo ainda com censura, começa a entender que a história foi outra, e que no meio daquela barbárie decisões foram tomadas sob condições que agora, mais de 80 anos depois, simplesmente não são compreensíveis ou são distorcidas. Mesmo para historiadores é difícil contextualizar e precisar os fatos, imagine para nós, simples mortais que vivemos esta época absurdamente diferente. Outro dia estive com uma brilhante jovem mulher esclarecida e muito vivenciada, Marina, que disse, corretamente, que nós que estamos nos Jardins, na Zona Oeste de São Paulo, fazemos comentários sobre quem vive a uns 20 km de distância sem nunca ter ido lá, sem saber onde fica, só tendo um breve e muito limitado contato com os de lá. Se sequer se faz ideia destas realidades, como julgar decisões tomadas no meio de um massacre generalizado na Europa e Asia dos anos 30 e 40? Telefone a manivela! Máquina de fotos caixote. Telégrafo. Rádio amador. Mata borrão... Cara a cara. Tempo para pensar. A instrução base de tomada de decisões tinha outra carga de veracidade e, mais importante, tinham tempo para serem pensadas, discutidas e definidas. E assumidas. Nada de imediatismos e muito menos distorções na escala que estamos vivendo agora. Fato, parou definitivamente a WWll. Fato, a barbárie generalizada da WWll foi responsabilidade direta de fanatismos de várias espécies, tão parecidos com as dos sabichões que temos agora. Este estúpido fator humano é a única coisa que nos une aquele passado. De resto...

A única coisa que quero é que passemos a conversar feito gente civilizada. O passado serve de referência, ou pelo menos deveria servir.

Massacres, barbáries, monstruosidades foram e seguem sendo fatos corriqueiros da humanidade. O que choca é um ineditismo. Não, não estou reduzindo as duas bombas atômicas ao ineditismo, mas colocando mais um fator de peso no entendimento que temos hoje. Junte-se ao emocional individual e vivido no coletivo.

As imagens do momento são fortes, os depoimentos mais ainda, as imagens do pós então... E foram usadas com determinados fins.

Soube se dos bombardeios na Alemanha muito depois, não faz muito. Foram piores, mais violentos que as duas bombas juntas, mas era história que não interessava, talvez sequer aos perdedores.

A história é a história do vencedor. A versão é feita pelos interesses do indivíduo que as diz. A compreensão está nos olhos e ouvidos que cada consegue assimilar

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Fiat 126 da socia do Paulistano e o projeto Fiat 147



Quando a Fiat decidiu entrar no mercado brasileiro eles precisavam descobrir com que modelo começar a produção. Na Argentina eles já produziam o Fiat 128, um compacto de quarto portas, motor transversal e tração dianteira, ótimo espaço interno, um projeto maravilhoso. Eu ia com frequência para Buenos Aires e Fernando, um grande amigo, comprou um assim que foi lançado. Maravilhoso, maravilhoso mesmo.

Mas o mercado brasileiro era outro e Fiat quis saber se aqui haveria espaço para um carrinho pequeno, urbano, bem menor que um 147 ou Uno, com preço final ao público bem barato. E trouxeram doze Fiat 126, o sucessor do Fiat 500 na Europa. Dez ficaram com pilotos de teste profissionais e dois acabaram nas mãos de duas senhoras, não me pergunte porque, mas provavelmente para eles saberem como seria recebido pelo público feminino. Um destes 126, lindo, quadradinho, genial projeto de Sérgio Sartorelli, veio parar com uma senhora que era socia do Clube Paulistano, que fica no Jardim América, São Paulo. Que por sua vez tinha do outro lado da rua a casa aonde morava um amigo meu, o Zé.

Entre os amigos do Zé, que eram sócios do Paulistano, estavam uns fortinhos, um deles bem grande, jogador de pólo aquático. Só aprontaram. Um dia passaram pelo pequeno 126 e decidiram ver se conseguiam levantar o bichinho. Se levantavam um Fusca, o 126 foi moleza. E para completar a brincadeira inverteram a posição do carrinho na vaga, e lá ficaram esperando a dona de dentro da casa do Zé. Óbvio que a senhora não entendeu nada, e que a brincadeira estava só começando para eles.

Bastava o 126 ser encontrado pelos pastilhas para ser carregado para lá e para cá, enlouquecendo sua dona cada vez que ela saia do clube. Um dia pegaram o 126 e carregaram para dentro do jardim da casa do Zé (na realidade a casa dos santos avós dele). A senhora vai pegar o carro e nada. Olha para um lado, olha para outro, anda para cá e para lá, é finalmente vê a cor do carrinho por entre a cerca viva da casa. Vai até lá, toca a campainha, aparece a Terezinha, a santa empregada de 1,48 m de altura, e a senhora com calma pergunta se ela poderia entrar para pegar o carro dela... E antes que ela terminasse o pedido ouviu-se um urro da santa Terezinha - José, venha imediatamente devolver o carro da senhora. Urro seguido por uma gargalhada da tropa escondida na janela do segundo andar.

Não faz muito, por uma ironia do destino, encontrei um dos envolvidos no projeto 126. Ele conhecia a história, não em detalhes, riu muito e confirmou que a bricadeira pesou na decisão da Fiat começar a operação no Brasil com o 147, que é derivado do 127.

Um pequeno detalhe de velhas molecagens também pesou na decisão final. São várias as histórias da garotada pegar as Romi-Isetas e colocá-las entre dois obstáculos para travar a única porta, dianteira, do carrinho minúsculo. E a história do problema que a VW teve com seus "CornoWagen", apelido dado aos fuscas 1965 com teto solar. Enfim, com brincadeira de povão não se brinca.