quarta-feira, 22 de abril de 2026

Quem censurou?

Escrevi comentários em jornais sobre textos e artigos publicados. Publiquei e depois descobri que foram despublicados, ou seja, retirados dos comentários. Aconteceu duas vezes. A primeira veio uma explicação que li, mas não tinha nada a ver com meu texto. Não ofendi, não xinguei, não escrevi palavrões. Fiz críticas para alguns dos comentaristas generalizando: "precisamos conversar feito adultos", uma resposta aos que insistem em apontar o dedo para o outro, aquela história de "nós e eles" que trouxe o país, Brasil, onde estamos. Aliás, onde estávamos, a coisa dia a dia fica muito mais feia, coisa de aluno de 5ª série, como acaba de dizer um senador sobre o bate boca dos chefões, os pederosos lá de cima. 

Já entrei em jornal grande, no Estado de São Paulo, na Folha de São Paulo e Diário do Comércio de Recife. Em todos eles, num canto, em uma sala fechada e silenciosa, ficavam (e devem continuar) os revisores, um grupo de experientes leitores que lêem o jornal de cabo a rabo a procura de erros ou impropriedades. (Rindo vou escrever que) A redação é o inferno e os revisores são os santos da casa. Se não é isto, deve ir por aí.

A pergunta que me faço é se os comentários estão sendo revisados por IA. Como no fim de alguns dos textos publicados vem a informação do uso do IA, acredito que a triagem dos comentários também esteja sendo realizada por IA, o que acho muito perigoso. Aliás, depois da entrada em cena do IA nas redações o número de erro crassos, os que até eu pesco, aumentou muito, muito mesmo. De qualquer forma, tendo a acreditar que meus comentários caíram pelo IA. Se for isto, uau!
   

Mata a véia!

"Mata a véia!", dependendo de quem ou porque diz, também pode ser "Não mata a véia não"; sem exclamação.

Algo cai no chão e de bate pronto alguém solta um "Tá vivo. Mata, mata, mata!", e todos riem.

"Morre, morreu, antes ele do que eu", esta acho que não precisa comentários.

Meu cunhado, um piadista incontível, entrou em casa, e para minha mãe começou com uma das suas, "Sogra boa tem que ser como cerveja". Ela, rindo, sabia que vinha besteira da grossa, então pediu, "Vamos, termina", e ele disparou "Gelada e em cima da mesa". A gargalhada foi geral e incontida, inclusive de minha mãe.

Tem a politicamente incorreta, o sempre repetido "Bandido bom é bandido morto". Ditado burro digo eu, porque bandido bom é aquele vivinho da silva que dá com a língua nos dentes, traduzindo para a geração mais nova, dedura, entrega tudo, fornece informações para que outros entrem em cana.

E por aí vamos, mata tudo e todos. Não sobraria ninguém, nem nada. Tudo morto. Sobrariam risadas?

Numa sessão de cinema, os trailers foram todos um banho de sangue, contos de terror, assassinatos, lutas cheias de mortos. Isto antes do filme 'Drama', uma mistura de drama e suspense que tem como ponto de apoio para o seu roteiro uma ação violenta que não se realiza. Tudo gira em torno do quis matar, mas não matou, e da consequente reação coletiva a notícia. O que o banho de sangue dos trailers têm a ver com o filme não faço ideia, mas "mata!", da forma que for, porque é rentável, mui rentável, dindin. 
Nos filmes é ketchup, mas traduzindo, traz o desejo real e profundo da plateia: ver sangue quente jorrando. Se fosse sangue para valer, o de verdade, ia ter um bocado da plateia histérica e vomitando.

Faz um bom tempo Antônio Penteado Mendonça soltou num Crônicas da Cidade da Rádio Eldorado, um texto sobre como resolver a bagunça no legislativo: soltar algumas onças pardas esfomeadas no plenário e trancar as portas. (Enquanto escrevo isto dou risada). Como piada, como delírio libertador (?!?), funciona.

Voltando a coisa séria, que dá vontade, isto dá, mas resolve? Vontade do que? "Eu mato, eu pico, eu ponho no pinico", me dizia minha irmã quando ficava brava com minhas travessuras. 
Bem..., não, a história diz que não, que via de regra piora a situação. Gandhi e Mandela mostraram um caminho muito mais tranquilo, que não resolveu tudo, mas foi bom porque não deixou ou criou ressentimentos duradouros e perigosos.

Um dos mais brutais momentos de revanche, é a história de Vlad II, que ficou conhecido como o Empalador, ou Draculea, ou Conde Dracula (~ 1448) em suas inúmeras versões de grande sucesso. Empalador? Empalar é uma das técnicas de tortura e assassinato mais brutais já praticadas, transpassar um corpo com uma estaca. Não dou mais detalhes porque realmente é de revirar o estômago. Vlad II fez uma floresta de empalados, uns 5 mil, em vingança ao assassinato de sua amada mulher. No cinema, ou na imaginação do povo, um Dracula bem mais romantizado faz sucesso, mas Vlad II faria o mesmo sucesso na vida real?

Está claro que a humanidade quer dar um basta ao que incomoda. Vide os malucos que estão por aí em todas partes. Eu concordo em grau, gênero e número que o que temos hoje não está funcionando para grande parte do povo, mas daí partirmos para um banho de sangue banalizado é uma outra história.  
Incomodar é uma coisa, estar errado é outra. Estamos fazendo uma tremenda confusão aí. Segundo historiadores, nunca na história da humanidade os incômodos foram tão poucos, mesmo para os que tem maiores dificuldades.
Errar é humano,  as concordo que deve haver limites, e tem gente indo muito além, mas muito além...
Banalizar a morte, como está acontecendo aqui, é inaceitável. Como sabem que dificilmente serão pegos, então matam, fácil assim. É o viés inaceitável do "tá vivo? então mata!", aqui não falo sobre politicamente correto, mas o asquerosamente inaceitável.

Queremos soluções fáceis e rápidas. Mata! Será? Qual a dos filmes? De nossa imaginação fértil?
Uma coisa é certa: até ketchup espirada na blusa do outro cria confusão.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Obsolência programada? E se obtarmos pela durabilidade?

O carro teve um chileque e decidiu por conta própria que ia ficar com luzes e parte elétrica toda ligada. Bom, se deve dar um desconto a ele, velhinho, já com uns 20 anos de uso constante. E lá vai a dona à concessionária. A troca da peça sai por R$ 30 mil. O carro vale R$ 35 mil. A dona já sabia que a coisa estava ficando cara. Uma troca de lâmpada do farol tinha custado a bagatela de R$ 1.500,00, sim a "lampida", nada mais. Achou caro? Naquele modelo ainda se troca só a lambada, nos mais novos a lambada queimou só é possível a troca do conjunto ótico inteiro, ou seja, mais de R$ 5 mil, isto nos modelos mais simples. Nos de luxo? Não quero nem saber.

Se na década de 60 ou 70 dissesse que um dia as coisas ou não teriam conserto ou sairia uma fortuna, ninguém iria acreditar. Já sabíamos que tudo tinha vida útil, mas não que chegaríamos onde estamos. 

Em tempos passados não se falava em colapso do planeta. Já haviam sinais que a coisa não ia muito bem, como por exemplo na época das chuvas e de férias os bueiros começavam a vomitar água podre, isto onde havia esgoto, coisa rara então. Mas colapso estava fora de nossa imaginação. 

Naquele passado distante, uns 50 ou mais anos atrás, bateu o carro? Funileiro. Os caras eram mágicos, puxavam aqui, desentortavam ali, e o carro voltava a funcionar. Hoje se troca as peças tortas por novas, desmonta, joga no lixo, peça nova, encaixa, pintar, ponto final. Em tudo, quando compensa. "Deu PT". Como assim? "Perda total" Como assim??? "Não compensa consertar". Uau!

Você já viu o que se transformou um reparo de válvula de privada? Ou o courinho de torneira? Aquele que para parar o pinga pinga. Virou uma peça plástica sofisticada de alta tecnologia que acabou, descarta, compra e põe outra igual. Meio ambiente? Quem? Quanto tempo durava um courinho? Quanto dura um reparo destes novos? Qual o impacto ambiental? "Quem?" Mais, cadê o sujeito que faz o reparo? Quanto ele cobra? Quando ele vem! "O que?" Conversa de loucos.

Como criança sabia que se quebrasse a bicicleta não teria outra. Tinha que cuidar de tudo, porque era único, custava caro e não dava para comprar outro. Aliás, não fazíamos ideia do que era cultura do desperdício pela simples razão que era impensável desperdiçar. Coca-Cola? Uma garrafa, das de vidro, aos domingos, ou no aniversário, ponto final, sem mais conversa.

Sim, sabíamos o que era obediência programada... 

Corrigindo, sabíamos o que era obsolescência programada, ou pelo menos tínhamos uma noção do que era, mas nada como a loucura que vivemos hoje. 

Já obediência, a programada pelos pais, tios, avós, era para ser obedecida, ponto final, sem mais conversa... mesmo. Fez besteira? A insolência estava bem programada para a surra e o castigo. Quebrou, pagou! Ponto final.

Um rádio custava o que um rádio devia custar e uma escovinha de unha custava o que devia custar, pelo menos o custo fazia algum sentido. Hoje? A escovinha pode custar bem mais que um pequeno aparelho eletrônico fabricado dentro de um complexo processo industrial de alta tecnologia. É a escala de produção, está certo, mas não faz sentido que um pedaço de plástico com cerdas encaixadas, um processo industrial básico, de poucas etapas, possa custar mais que algo altamente tecnológico. As escovinhas já não duram tanto, o mesmo para as porcarias eletrônicas. 

Tive um celular Nokia, dos antigos, que caiu 10 andares, ficou submerso por uns 15 minutos, foi seco e voltou a funcionar. Uma amiga comprou um celular de última geração que deu defeito ainda novo. Recebeu um novo e o velho foi descartado, lixo, ponto final. Obsolescência programada?

Outra amiga levou sua bicicleta, uma 29, das básicas,  baratas, para trocar os pneus e fazer uma manutenção geral preventiva. O orçamento veio com R$ 2.600,00. Roubo? Não. O orçamento feito pela bicicletaria, tradicional e séria, foi padrão dentro do mercado: troca tudo por novo. Ou joga fora a antiga e compra uma bicicleta nova que vai custar uns trocados a mais em suaves prestações. Os pneus, estes sim tinham que ser trocados, mas o resto? Pelo que recomenda o manual do fabricante da corrente,  desgastou,  sim troca tudo, todo sistema de marchas. O jogo é este, se quiser joga, se não quiser dá o fora. 

Uma outra amiga trocou sua bicicleta depois que também levou a uma outra bicicletaria e o orçamento veio algo próximo de R$ 5.000,00, quase o preço de uma bicicleta nova. Roubo? Não, de novo, gente séria, com anos de mercado e montes de clientes. O que explica? Filosofia comercial, digo eu. Troca tudo, simples assim, e troca em nome da segurança do ciclista. Segurança do ciclista? A bicicleta estava funcionando perfeitamente, só tinha a quilometragem que o fabricante recomenda a troca da corrente. E o povo paga, seja porque não entende nada, seja porque não quer fazer feio na roda dos amigos ciclistas. 

Pausa para os comerciais 


De volta à programação 

Conta a história que a Phillips, uma marca inglesa impecável de bicicletas, que não dava defeito nunca, quase indestrutível, faliu na decada de 80, se não me falha a memória, por não querer baixar a qualidade.

Quer entender melhor o que 'foi' qualidade? Um dia, faz tempo, comprei uma bicicleta para levar para o museu de bicicleta. Detalhe: ela tinha rodado 50 anos sem fazer qualquer manutenção, só tendo trocado os pneus e câmaras. A corrente? Óbvio, muito gasta, mas rodando.

Em 1992 a Specialized deu um salto no mercado quando passou a entregar na caixa as bicicletas básicas já praticamente prontas para rodar. Era só tirar da caixa, encaixar e apertar alguns parafusos e sair rodando com segurança. Qualquer idiota conseguia, e a bicicleta funcionava bem, segura. Fizeram isto até porque a qualidade de serviço de boa parte das bicicletarias não atendia um padrão mínimo de qualidade. Ainda na fábrica as bicicletas recebiam ajustes básicos, o que fazia toda diferença no pedalar e na durabilidade do produto. 
Mike Sinyard, fundador da Specialized, recomendou ao Luiz que nunca desfazer-se das bicicletas do início dos anos 90. Ele estava certo. Naquela época obsolescência programada tinha um outro parâmetro. As velhinhas continuam por aí, deliciosas, impecáveis.


Ineptocracia



Ineptocracia, termo muito interessante, que calha bem para o largo momento que estamos vivendo neste país chamado Brasil. Aliás, eu digo, vivemos uma inepto-larapiocracia.

Fiquemos com a ineptocracia 'brasa', como tentaram emplacar como apelido na seleção brasileira. Faz sentido quando se olha para os últimos incêndios, o do prédio histórico no Paraná e o velódromo no Rio. Qual será o próximo. Aguardem que vira. Cultura? Cultura no Brasil? Esportes? Faça sua bet! Aposte que o número de endividados crescerá. Barbada.
Ineptos. Faz quantos anos que não temos um macro projeto de estado de longo prazo para o país? Remendos temos aos montes, em todos setores. As mudanças necessárias demoram anos, décadas para virem, e não raro quando vem chegam pela metade. Vide a reforma fiscal, décadas atrasada. Vide a segurança pública. Vide...

30 março de 2026, foi inaugurado o monotrilho que deveria ter ligado o Aeroporto de Congonhas com o estádio do São Paulo F. C., como obra para a Copa do Mundo de Futebol aqui, Brasil. Iniciada em 2010, deveria ser entregue em 2014, antes da Copa. Finito pela metade, ok, um terço, ok, pequena parte, ok, foi inaugurado, Thanks Gold!, doze anos depois. Uma das desculpas é que mudaram o estádio da Copa por vontade e desejo do Exce. Presidente. Saiu do Morumbi de ricos e foi para Itaquera de gente bem mais simples,  estádio novinho, dívida também... Não qualquer dívida, mas uma senhora dívida que ninguém sabe quando paga, isto se paga. E a torcida achou lindo. 
Nada fora do normal, o atraso, aumento de custo, obra abandonada por anos, transtornos, votos no candidato que ajudou na realização do sonho Corinthiano, mesmo que tenha sobrado uma dívida que não se sabe quem e quando será paga... Onde está e de quem é esse dinheiro? Sei lá? Duvido que alguém consiga contabilizar de forma que se entenda. UAI, se tem uma dívida monumental, quem segura a bronca?
Pelo menos os custos da obra parada se sabe. Como sempre custava tanto no projeto e custou tanto a n potência no final, dinheiro público, meu, teu, nosso, deles...Dinheiro público, portanto nas bundas de quem vai sobrar sabemos. Já o custo gerado pela mudança de projetos da Copa, quem sabe?

E a confusão no Oriente Médio vai rolando, vai rolando, vai rolando..., e se transformou num drama planetário. Vai sobrar para todo mundo. Alguém lá em Brasília pensou nesta possibilidade? Alguém estudou o que fazer com as possíveis (possíveis???) dificuldades e oportunidades que se apresentam com esta guerra? Qualquer um minimamente esclarecido ficaria com uma pulga na orelha, mas os 'inteligente', os 'eficiente', do Planalto não, eles sabem o que fazem. Sabem? 
Que o barril de pólvora que o instável (instável??, só isto?) presidente dos USA está armando acho que os inteligentes de Brasília já tenham sacado, mas daí a terem noção do que fazer, vai longo caminho a deriva.
Precisa de 'pobrema' vindo de fora? Não, não, não, mas servem bem como cortina de fumaça para a baderna caseira. Nada melhor que notícias sobre a viagem a lua para esquecer por um tempo os lunáticos caseiros.

Vamos para o que nos afeta diretamente. São Paulo está tendo com frequência congestionamentos de mais de 1.000 km. Tem solução? Sim, mas...
Ontem foi mais um dia de caos completo. Mesmo pedalando tive dificuldade para chegar onde devia. Estou cansado de repetir isto. Cada dia mais frequente e cada vez pior. Responsabilidade de um acidente? Não. Sem razão aparente. Que loucura. Alguma palavra sobre o que fazer? Sim, magias, milagres momentâneos, soluções. Soluções: qual é o plural e o aumentativo de soluço? Sim, soluções, tentativas de resolver aos soluços. IP! IP! IP! A médio longo prazo, alguma idéia inteligente? Qual? Desculpem, não ouvi ou não consigo entender.

Ineptocracia.

Aliás, olhando as primeiras páginas de jornais, vendo as notícias na TV, ouvindo rádio, melhor inepto-larapiocracia.

Temo fú! Ou vamos colocar a caixola para funcionar. E agir

Nunca na história deste país o nível geral foi tão baixo. O país caminha, mas como?
Nestes últimos dias tem ficado claro que o que mais se tem é inepto e larápio. Um país se faz de exemplos. Os nossos exemplos neste momento são Brasília e Rio de Janeiro. Vai dizer que não, que estou exagerando? 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Queima Brasil, queima

"O Brasil só tem jeito se jogarem uma bomba atômica". Cansei de ouvir esta irritação de gente que de fato quer ver este país ir para frente. 
Não precisa, a inteligência nacional toca fogo no que a gente tem de melhor. Começou com o Museu Nacional, ou começou antes, sei lá, definitivamente não quero lembrar, foi muito.
Desta vez foi o Velódromo do Rio.
A Santa Inquisição durou em torno de 600 anos, quanto anos mais durará nossa infame estupidez? Quanto é o que mais vamos permitir que vire cinzas?


Crianças doentes da cabeça


Eu fracassei no meu trabalho. É muito duro ler este Notas & Informações sobre a delicada saúde mental das crianças de São Paulo, e provavelmente de todo Brasil. No caos urbano, portanto social, que estamos metidos era de se esperar uma notícia destas. Triste, deprimente.

A função da bicicleta dentro das cidades vai muito além da tentativa de ajudar no trânsito, melhor a mobilidade, reduzir a poluição. Bicicleta está sendo introduzida mundo afora também para obter estes resultados tão divulgados e usados como ferramenta política, mas não só. 

Bem introduzida, ou seja, com intervenções urbanas inteligentes, principalmente com traffic calming, ou acalmamento de trânsito, reduz o ritmo da cidade, trazendo de volta a possibilidade da convivência justa de espaços públicos de forma prazerosa e com segurança, pela população, o que incluí mães, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais. Não aconteceu, não é o que vemos. O foco está só no aumento de kms segregados para ciclistas através da implantação de ciclovias e ciclofaixas, o que defino como 'a bicicleta, pela bicicleta, com a bicicleta', ponto.

Bicicleta bem introduzida, com inteligência e usando técnicas urbanas conhecidas e testadas faz décadas, diminui as tensões sociais, reduz a violência, melhora a saúde pública, fortalece a economia local, melhora a produtividade no trabalho e o rendimento escolar, dentre outros. Dados internacionais provam isto sem deixar sombra de dúvidas, não só na Europa, mas em todas localidades onde houve e há preocupação com a qualidade de vida na cidade. 

Parte de minha geração quis implantar através da bicicleta uma transformação urbana mais profunda. Com profunda tristeza vi tudo reduzido a ciclovias e ciclofaixas. Fomos inocentes, acreditamos que brasileiros tinham uma noção (vaga) sobre o que deve ser uma cidade. Não tinham e não tem e pelo jeito não estão interessados em ter. A selvageria urbana está aí para quem quiser ver e viver, pior, acreditando que isto é progresso. Coitadas de nossas crianças. O resultado está aí.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Hail Mari. A vantagem da falta de opções

Funcionária nova de fábrica de chocolate ganha o direito de comer quanto chocolate quiser. Não demora muito a 'liberdade' enjoa e o direito a escolha cai na realidade. Fazer o que quer e bem entende geralmente não é uma escolha interessante, menos ainda inteligente.

No meio do filme, na cena quando é dado três horas para o personagem principal decidir sua vida, viver ou morrer, simples assim, eu tive um acesso de gargalhada alta, incontida, solitária no meio de um cinema lotado. E quanto mais percebia que gargalhava solitário no meio de um silêncio geral incomodado, pior ficava meu descontrole sobre minha gargalhada incontida. Foi difícil me conter. Um dia aquele público jovem vai entender minha gargalhada. A vida vai lhes ensinar. Ou não, aí triste.

Ontem, no meio de um almoço de Páscoa, como convidado de uma família de boa condição social financeira e cultural, sentado na mesa frente a três meninas jovens, bem vestidas, lindas, com suas mães juntas, disparei que brincar com a liberdade, que elas têm para dar e vender, emprestar e jogar fora, um luxo para poucos, é uma tremenda desvantagem frente aos que vem do nada e têm fome de comer. Não ter muitas escolhas faz diferença. Minha verborragia saiu quando peguei o gancho na fala de uma das mães que dizia que a filha não se decide sobre o que fazer da vida, e que ela deveria partir para a vida, buscar um trabalho, entender como são as coisas, inclusive para se decidir. As meninas, bem educadas, prestavam atenção em silêncio. A para quem se dirigia a conversa ouviu com expressão neutra, consciente que tem o luxo da escolha no seu tempo, luxo que tem tudo para virar um lixo.

Ironia, outra pessoa, outra história. De manhã, cedinho, vem a ligação de vídeo. "Chega de besteira. Vou tocar para frente". Foi uma decisão demorada, difícil, e pela forma como foi dita parece que vai ser cumprinda, o que sei bem que não é fácil. Tendemos a nos acomodar, mesmo com o ruim.  

"Não existe liberdade sem disciplina", disparei para a mãe da menina que acredita saborear com prazer sua liberdade libertina de escolha para a vida. Sentada ao lado da filha a mãe concordou imediatamente comigo. "Trabalhei desde de nova. Sou executiva. Não tenho dúvida que tem que cair na vida, achar um trabalho qualquer, não importa o que, para saber o que quer". A filha, sorriso leve, cara de pastel, ouvia, e nós a sua volta vimos as letras entrarem por um ouvido, saírem pelo outro e baterem na testa das primas, estas sim atentas, decididas.

Três horas para decidir sua vida. Com o direito de uma escolha única, a que se deve fazer naquele momento, não a desejada, aquela ideal para os sonhos utópicos, líricos,  desejados, sobre tudo enganadores. 
Sem tempo para pensar. É aquilo ou aquilo mesmo, simples assim. Ser caça ou caçado, esta é a verdade constante na vida.

O cano da 45 foi batido no meio do olho esquerdo, engatilhado. Momentânea perda de visão, dor, volta o mundo desfocado. Numa fração de segundo toda vida veio à tona. Opção zero. A situação imediata impõe.

A urgência de uma reforma fiscal está rondando o governo e congresso faz décadas. Tudo desanda e todos continuam sem tomar posição. O gatilho está armado faz tempo, mas as vítimas, nós, provavelmente morreremos de inanicão. O gatilho foi acionado várias vezes, os tiros disparados um atrás do outro, vamos morrendo a cada minuto, mas nos acostumamos. 

Minha gargalhada, na cena das três horas para decidir o que o personagem faz da vida, me remete a minha própria vida. Quisera fosse assim, ou vai ou vai, teria sido bem mais fácil. Fácil talvez não, funcional, eficiente, cheio de possibilidades pela vida. Tendo vivido o luxo do luxo de terem me dado o pleno direito à escolha, qualquer, sinto profundamente inveja dos que não a tiveram. Tenho inveja dos que não ficaram parados no meio do campo verde, semeado, pronto para colheita, curtindo a beleza até que ela secasse. E a colheita fosse toda perdida. 

Final do almoço fiquei conversando com a mãe da linda jovem que não se decide. Uma nem-nem que tem tudo, pode tudo, recebe tudo, certa que o mundo é dela, que nada se acaba, tudo sempre será assim, tudo se ajeita, a delícia não vai se acabar.
Apavorante!

Queria ter sabido avaliar melhor as escolhas. Queria ter realizado uma verdade: não existe liberdade sem disciplina.