terça-feira, 10 de março de 2026

Semáforos que apagam. Economia estúpida.

Sobre semáforos quebrados, quando a imprensa vai fazer uma matéria profunda sobre a qualidade da semaforizacão que temos em São Paulo. A troca pelos novos, os de borda amarela, falham tanto quanto os velhos. Os velhos, os ainda da geração gambiarra feita pela administração Haddad, tentava de solução barata que tinha tudo para não funcionar, apagam na primeira chuva.

Aliás, vergonhoso é uma cidade que responde a 17% do PIB do país não resolva um problema como este que afeta brutalmente a fluidez, portanto a economia. Tempo é dinheiro, nossos brutais congestionamentos são burrice extrema.

Finalizando: ou se faz um projeto para a troca completa do sistema, do semáforo ao softwares, passando por cabeamento e transmissão de dados às telas de controle, ou continuaremos nesta palhaçada.

Resta saber quem ganha com está baderna.
Quem perde sabemos bem, todos nós. Só não entendo por que não há um levante popular contra nosso caos no trânsito. Aliás, entendo. Nós acostumamos com o ruim. Pura e deprimente verdade.

Velhice é uma merda!

"O cú do cupido está entupido" *.
Entupiu. Que merda! Não experimente. 

Fui para Penedo, fugir um pouco da loucura paulistana e aproveitar para subir pedalando para Visconde de Mauá, 1.300 metros de altimetria e 960 metros de subida em 10 km no meio de um verde Mata Atlântica maravilhoso. 

"Cada subida é uma subida" dizem os profissionais, ciclistas. Pura sabedoria. Me lembro das outras subidas longas que fiz e sei que esta foi a mais difícil. Cheguei lá em cima no limite, e não teria chegado caso não tivesse uma técnica apurada. O limite desta vez foi uma área tênue muito próxima de dar ruim, uma sensação estranha de poder, muito estranha, que traz consigo um gostinho de fundo de perigosa irresponsabilidade. Quem já competiu sabe bem que cruzar a linha de chegada no limite do limite é a glória. Se bobear dá ruim, e pode ser bem ruim mesmo.

Larguei muito errado numa prova de mountain bike. Quando dei conta do tamanho da besteira sai atrás do prejuízo. Fiz a subida sem preocupação com o cardíaco e continuei a besteira na descida. Resultado, pedalei uns 50 metros desmaiado, sim desmaiado, com a cabeça gritando "acorda idiota, você está numa competição, acorda!". Quando voltou a consciência, caiu a ficha do absurdo e parei. Contei para meu médico que explicou que eu tinha chegado ao limite máximo do meu coração, o que não deveria repetir. 
Num treino de natação decidi medir forças com um amigo, triatleta profissional. Simples: nadei uns 400 metros lutando para não desmaiar. De novo, coloquei meu coração num limite que não deveria.

A brincadeira para Visconde de Mauá são 960 metros de aclive até o topo da montanha e mais 420 de declive até a vila. Subi consciente, cheguei bem cansado, bem cansado. Quando começou a descida aí caiu a ficha em qual limite meu corpo estava. Na vila acabaram as forças. Demorei um bom tempo para normalizar o cardiorrespiratorio, bem mais que o normal.

Estabilizei, almocei, peguei carona de volta, e terminado o dia estava muito mais inteiro do que imaginava e minha experiência diz que deveria estar. 
A noite fui para a cama sem cãibras, o que depois de tudo não é normal. Enfim, foi ótimo. Dormi bem.

Dia seguinte "o cu do cupido está entupido". Não quero relembrar. Posso dizer que no meio do horror, e toca horror, meu coração chegou muito próximo do limite, mas um limite aterrorizante onde você vira passageiro do estado clínico. Não há forma de conseguir baixar o cardiorrespiratorio, pelo menos não tenho prática, e não pretendo ter.
Resolvido o problema constrangedor, leve feito uma pena, comecei a sentir um leve estiramento no adutor. Só pode ser piada, depois de sair bem da heroica subida da serra, vou sentir a perna no trono?


Sai de São Paulo com a ideia de ver como estava subindo para Visconde de Mauá, descansar uns dias, partir para o Rio e subir o Cristo Redentor. Micou de cara. Uma tromba d'água encheu Penedo logo na  minha chegada. Resultado numa roupa empapada e bunda suja de terra. As notícias sobre tempestades e enchentes fizeram o Cristo Redentor ficar para um dia quem sabe. 
Aliás, nunca fiz uma viagem com tantas intercorrências, no sentido médico e figurativo, quanto esta. Até uma garrafa de mel partiu-se ao meio quase do nada. Vivendo e aprendendo.


* José A B C, grande amigo, disparou no meio de uma aula de religião "o cu do cupido está entupido". O padre, que era uma fera, ouviu, virou-se e seguiu-se uma explosão de gargalhadas da gurizada que demorou para ser controlada. Zé quase foi expulso do colégio, até porque a frase virou hino de guerra nas aulas chatérrimas de religião.


domingo, 8 de março de 2026

"Não adianta falar. Eles não entendem"

Ontem pedi informações sobre dados detalhados de trânsito para uma pessoa que está na coisa pública e tem possibilidade de consegui-los na CET. Em específico, curva de carga de trânsito, horários e locais, para ver novas possibilidades de caminhos alternativos para ciclistas e dar ferramentas de organização para os passeios noturnos. O número de passeios noturnos diminuiu porque dependendo do local e horário de saída o pessoal simplesmente não consegue pedalar. A cada dia aumenta a saturação de carros das ruas e mesmo ciclistas não tem mais espaço para seguir em frente.  Foi um baile até ela entender sobre o que eu estava falando, e a hora que entendeu sua expressão mudou de "o que este cara está falando?" para uma expressão com um jeitinho um tanto "este cara é louco".
E uns dias depois ampliei o pedido para curva de carga de trânsito, horários e locais, valor agregado por veículo, e no rosto dela a expressão passou para um "não acredito, quem interna este fdp!". Mesmo assim recebi como resposta, imediata, tiro certo, que é muito provável que a CET não tem estes dados por falta de pessoal. Deprimente.

Dois depois deste pedido, uma aula de expressão facial, encontrei uma das peças mais atuantes dentro do poder público e fiz o mesmo pedido, contando que já havia pedido o mesmo para outra pessoa, que ela conhece. Ela se interessou, disse que vai ver o que consegue, e sobre a cara de espanto do outro com minha demanda ela deu o tiro: "Não adianta, eles não entendem". Eles quem? "Todos". Ah, ok.

Eu, Renata, Sérgio, e outros tantos pre históricos da bicicleta, tivemos num passado distante inúmeras vezes a mesma experiência que tive desta vez, uma cara de incompreensão seguida de um risinho inconfundível que diz com todas as letras "este cara é completamente maluco, é um idiota". Era e continua sendo uma reação socialmente quase pré estabelecida para tudo que é ou parece ser, ou se quer incompreensível. Dependendo sobre o que se entrava a fundo, antigamente o pessoal ouvia com atenção e fazia de conta que estava interessado ou queria entender. No caso da bicicleta normalmente o martelo estava batido no discurso corrente "bicicleta é coisa de pobre", então era ponto pacífico "este cara (o que está falando sobre bicicletas) é um idiota". 
Para muitos assuntos a reação era mesma, principalmente para aqueles onde havia esta distinção 'inteligentíssima', direi eu, entre pobres e ricos.

Tudo muda. Com tempo a bicicleta passou de assunto 'desinteressante e até desagradável' para um tema que hoje levanta a orelha geral. 
Faz um bom tempo, numa reunião de família, um primo, que sempre fizera bullying sobre meu gosto pela bicicleta, pediu orientação sobre que bicicleta comprar. Infelizmente eu caí na gargalhada e tirei um sarro sem tamanho e em voz um tanto alta que os mais próximos ouviram. Ou, rebati a bola com força e mach point para mim, ele e todos que haviam ridicularizado a bicicleta por tanto tempo de certa forma engoliram o próprio "maluco e idiota" estampado durante anos em suas caras e falas.

Falo aqui sobre bicicletas, mas este desinteresse por muitos assuntos continua igual, com as mesmas reações.

A piãozada se empoderou. Passaram de meros "ignorantes, analfabetos" para os donos da situação. Não que no geral tenham mudado, aliás, mudaram, para pior. Num passado distante eram cuidadosos, respeitosos, a maioria fazia um serviço bem feito, com orgulho do esmero, e terminavam o que estavam fazendo. Hoje, além da "rebiboca da parafuseta" que quem contrata tem que engolir, ou não resolvem o problema, quando resolvem.

"Não adianta falar, eles não entendem", ouvi sobre esta baderna bandalheira asquerosa do Banco Master.

Quem não entende? Todos nós, sem exceção.
Afinal, quem é o idiota nestas histórias?
Não responda que fico deprimido.

Com jeito de comemoração, ouvi "A empresa é ótima, não dá para acreditar. Entraram, fizeram o serviço rápido (a troca de uma coluna de esgoto em dois apartamentos), saíram, e quando fui conferir se estava tudo certo não dava para ver onde eles tinham realizado o trabalho". Deveria ser regra, mas não é. Geralmente entram, quebram tudo, transformam o ambiente em cenário de guerra, fecham rapidinho do jeito que for e saem correndo deixando para trás "tá tudo limpo" tipo cracolândia. 

Eu adoro a expressão "rebiboca da parafuseta", define bem o que nos tornamos, contratantes e contratados. Reboca da parafuseta é um retratos fiéis deste país. Estou errado? Vide nosso índice de produtividade e qualidade, e porque não dizer, no roubo e na corrupção. Fato é que só nós, o povo, estamos nesta contramão.

Publicado no Estadão em artigo opinião de Demi Getschko sobre diferenças de respostas do IA:
É da expectativa humana que, a toda pergunta, se houver uma resposta supostamente correta, ela tenderá a ser única. Pode ser difícil cavar essa resposta no universo do conhecimento, mas, escondida em algum canto, ela seria fixa.



quarta-feira, 4 de março de 2026

terça-feira, 3 de março de 2026

Pedágio urbano para frear o uso do carro

NYC não foi a primeira. Muito antes várias cidades européias usaram instrumentos para frear o uso indiscriminado do automóvel nos centros urbanos. Não só pedágio.

Como europeu passou por duas guerras brutais, a forma de pensar é outra, pragmática. Eles até acreditam em milagre, mas meio da boca para fora. Na hora de resolver as coisas, pensam de maneira prática e realista, o que definitivamente não é nosso caso.

Até dá para impor um pedagio urbano em São Paulo, eu até sou a favor, mas há uma série de senãos aí, começando pela questão social, que aí sim é uma questão a ser muito bem pensada. Em NYC, ou em qualquer cidade européia, não há o abismo social que temos por aqui, o que é um fator a se pensar bem. Pedágio urbano gera mudanças significativas no fluxo de dinheiro. Quanto maior a diferença social, maior o impacto na macro economia urbana. 

Temos que resolver o caos que estamos vivendo e que só piora. Para isto precisamos de um planejamento que olhe para a cidade e seu cidadãos, sem imediatismos ou delírios. É mudança de médio longo prazo, mesmo que necessitemos de uma ação dura para sanar gravíssimos problemas ontem.

NYC começou um plano de recuperação e reestruturação da cidade na década de 80, quando disseram um basta a uma violência incontrolável de 82 assassinatos por 100 mil. O primeiro passo foi colocar ordem na questão social, diminuindo a violência brutal, através do Tolerância Zero. O segundo passo foi iniciar o que é conhecido como Cidade Sustentável, que teve Jeanette Sadik Khan e sua reforma da Broadway av inaugurada em 2007. Pedágio urbano faz parte do processo, de certa forma está contabilizado e equacionado pela população.

Em Bogotá, outra cidade que teve uma profunda mudança urbana, o que Penalosa fez só foi possível porque foi preparado o caminho pelo prefeito anterior Antanas Mockus. Ou seja, houve um planejamento de longo prazo que foi seguido.

Não há referência histórica do "faz que dá certo" que tenha realmente dado certo. O melhor exemplo de que o "eu sei, eu faço, vai dar certo..." não funciona está aí e tem nome: Trump. Os próprios americanos estão só començando a pagar o pato.

Outro exemplo deste tipo a não ser seguido chama-se São Paulo, o Município e sua área metropolitana. Desde a década de 70 se faz tudo no "eu sei, vai dar certo..." O resultado está aí. Planejamento? De longo prazo? 

Interessante é que nos dois casos, Bogotá e NYC, o ITDP teve atuação marcante na transformação das mobilidades destas cidades. Na mesma época, o ITDP estive aqui, deixaram muitos ensinamentos, mas parece que não aprendemos nada.

"Nós sabemos, nos somos diferentes, faz isto que vai dar certo..." dito e repetido aqui sem parar parece, repito, parece que não deu certo, só parece. 

Eu definitivamente não quero mais. 

A saber, em plena ditadura, em seus momentos mais duros, houve por parte dos que sabiam o que era uma cidade uma gritaria contra a construção do Minhocão. O sonho destes estudiosos então era a construção de uma cidade em cima de um plano diretor organizado e realista a ser seguido, que tinha como base experiências nacionais e internacionais. Curto, médio e longo prazo. Venceu o "eu sei o que estamos fazendo, nós somos diferentes..." É isto aí, somos diferentes, o resultado está aí, no sonho de boa parte dos brasileiros que todas cidades se transformem em Balneários Camboriu. Que beleza! Igualzinho a Manhattan. 

Que pobreza vergonhosa!

segunda-feira, 2 de março de 2026

A ilusão, a falta de conhecimento, e o fracasso inevitável

Me engana que eu gosto. Ahh, ilusão, doce ilusão. Atender aos mais íntimos desejos de ser leve, livre e solto no planeta de todos os prazeres que se desejar. Como é bom. 


Quer me tirar do sério? Diz "Precisamos pensar na segurança dos ciclistas". 



"Precisamos pensar na segurança dos ciclistas", óbvio que sim, mas isto são palavras, não ações concretas. A pessoa que repetia sem parar este "Precisamos pensar na segurança dos ciclistas" tinha um curriculo mais sujo que puleiro de galinheiro, pior, não fazia ideia do que estava falando porque tinha medo de bicicleta. Mais ainda, era aplaudida por seus iguais num gesto de corporativismo férreo. Um dia caiu a ficha do pessoal e de aplausos partiram para do FDP para baixo, tudo que se pode ouvir. 
 
"Precisamos pensar na segurança dos ciclistas" dito ao peido (expressão típica de porteños que vem bem a calhar) é o caminho mais curto para reduzir a segurança de todos, ciclistas, pedestres, até motoristas.

"Precisamos pensar na segurança dos motociclistas"?

Venho há muito falando sobre a necessidade urgente de nós, brasileiros, termos dados corretos sobre o que acontece para só então estabelecer um plano de ação com prioridades. Alguém se interessa? Bom, creio que não, como apontam inúmeros artigos e textos, de inúmeros especialistas. Não sou eu que digo, um joão ninguém, mas o pessoal reconhecido e respeitado como conhecedores em suas áreas, todas, as mais diversas, não só segurança no trânsito. Exemplo: Marcos Lisboa e outros de primeira linha denunciando que o BC, Banco Central, falhou feio em ter informações para controlar a inacreditável bagunça que há muito vem ocorrendo com o Banco Master e amiginhos deste, uma brincadeirinha de até aqui R$ 60 bi, só isto, até aqui! Ou da inoperância das agências reguladoras, todas. Ou a baderna de dados sobre a criminalidade. Ou dos órgãos coletores de dados estarem em boa parte entregues a partidários. Etc...

Não há estudioso deste país que não afirme com todas as letras que "brasileiro não gosta de dados, estatísticas, de precisão".

O artigo sobre os resultados negativos das faixas azuis para motociclistas vai por aí, a falta de interesse em dados e informações precisos para criar soluções. (Eu quero melhorias imediatas nas perícias e corpo de legistas). Dados existem, excesso de velocidade mata, motoboy com pista livre acelera, cruza sinal vermelho, não respeita nada, quer e precisa entregar o mais mais rápido possível, a pizza não pode chegar fria... Mas com que qualidade de detalhes e como são utilizados?

Estou exausto de repetir o mesmo. Coisa chata!

Segurança, a de verdade, a que traz resultados positivos, não se faz com achismos, mas com dados precisos, o que brasileiro não é muito afeito, todos, sem exceção. Não sou eu quem afirma, um mero cidadão leitor curioso, mas quem conhece.
A pior coisa para a segurança são as soluções mágicas, o que incluí boas ações realizadas pela metade, sem um olhar horizontal, periférico e tangencial, micro e macro, de curto, médio e longo prazo, o que se faz aos montes e sempre, o que é regra. "Eu vou inaugurar em..." Bingo! Sorrisos.
Somos o país da solução mágica, do tiro certo no pé. Mortes aos montes são uma consequência natural.

Mais uma vez repito, que chato!

Quando há uma situação aguda, a reversão mais eficiente desta é atravéz do estabelecimento de ações prioritárias, que nem sempre são do agrado de gregos e troianos, muito menos populistas. E menos ainda ideológicos. Aliás, neste país estabelecer prioridades de verdade levanta uma gritaria ensurdecedora de tudo quanto é lado.

Segurança é uma ciência, e como tal deve ser tratada. Viajou na maionese, danou se.

Faixa azul é uma boa solução, está provado. A crítica que se faz está apoiada no comportamento de meia duzia que fazem besteiras, continuam sofrendo acidentes e morrendo. Não era previsível que com pista livre o problema sairia da colisão lateral para os cruzamentos? Vai se melar mais uma boa ideia porque tem idiota que faz o que quer e bem entende em sua moto? "Eu tenho direito..."
  • quando se entra num corredor qualquer, o foco de atenção fica no final deste
  • na aproximação da saida de um corredor, como é o caso dos cruzamentos, para onde se está olhando?
  • no final do corredor quanto se tem que girar a cabeça para olhar primeiro para um lado e depois para o outro. Quanto maior o giro de cabeça, maior o tempo para visualizar o todo, quanto maior este tempo menor o tempo de reação e de segurança.
  • quando alguém que vem pelo corredor tiver uma SUV ou qualquer outro veículo grande formando paredes laterais na aproximação da esquina, qual o tempo de visualização e reação que o motociclista tem para o que vem em diagonal?
  • caso o corredor cruze uma rua, no momento do cruzamento o motociclista tem muito menos rotas de fuga para evitar uma colisão. O caminho natural é seguir pelo corredor.
  • como é realizada a fiscalização da velocidade dos motociclistas? 
  • como sempre foi a fiscalização de velocidade? Como é a lei relativa?
  • como parar um motociclista infrator que vem num corredor estreito no meio de uma avenida? Como deter um motociclista fechado num corredor que tem atrás vários outros motociclistas?
  • como a lei trata este problema?
  • etc...
O advogado do diabo não serve para destruir uma ideia, mas para colocar questões que tem que ser analisadas para se chegar a um bom resultado. Não sou contra a faixa azul, muito pelo contrário. Aproveitando, e repetindo, não sou contra ciclovias. Sou contra não ir atrás de qualidade, de errar o mínimo possível e de efeitos colaterais. 
Quer reduzir a acidentalidade e as ocorrências? Estabeleça prioridades reais e faça cumpri-las.    

A prioridade deste país tem que ser dar um basta a todo e qualquer estúpido. Feito isto entraremos no caminho para o país do futuro de verdade, não esta vergonha que vivemos. A nossa prioridade, a dos seres normais, deve ser estabelecer uma linha da qual não passarão, ponto final. Os que usam a faixa azul, assim como os políticos, os executivos, os judiciários, os vizinhos, conhecidos, reliogiosos,, as empresas, os contraventores..., todos sem exceção. Estou escrevendo besteira? 

O outro, principalmente o desconhecido, morrer de forma estúpida importa para o brasileiro em geral? Responda você.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O paralelo entre um ciclista e este país

Fui (ou sou, sei lá) guia de passeio urbano de bicicleta, daqui a pouco fará 40 anos. Frase estranha tanto pela forma do portugues escrito quanto, para mim, os 40 anos corridos. Tempus fugit. 
Ser guia de passeio é uma boa escola de vida, passa por você um farto zoológico e situações cidadãs as mais variadas possível. Entre os ciclistas passam alguns, uns poucos, que foram marcantes pelo bem e pelo mal. Os pelo bem eu os saldo com a cabeça curvada em reverência, agradecimento e respeito. Os do mal, de todo tipo e grau, criaram os problemas mais vairados possíveis, alguns destrutivos para o próprio grupo. Incluo aqui a fofoca invejosa, uma praga maldita até bem aceita, como faz parte, vai arrasando o que estiver pela frente. "Espelho, espelho meu, tem alguém mais mais que eu?"

O mesmo acontece no ambiente de trabalho, com a diferença que num pedal o pessoal solta a franga, deixa rolar, o que pode não ser conveniente quando o salário está em jogo; aí o corno fica manso. Num passeio um chilique de vez em quando escapa e não raro é absorvido até com brincadeiras.

Em tudo nesta vida há uma forte ligação entre o micro e o macro. Não é diferente no caso do micro cosmos de um grupo de ciclistas pedalando juntos e o que acontece na vida dos ditos cidadãos. Como tudo, a organização de um simples passeio segue o básico da macro organização social.

Um destes passeios que se vê passando por aí tem um guia, responsável pelo trajeto e como o grupo vai pedalar, alguns apoiadores, que vão orientando a boiada, e a boiada, os ciclistas que estão lá para passear, fugir de casa, conversar, estar com os amigos e pedalar; via de regra nesta ordem, com fugir e casa em primeiro lugar.

Um pelotão de ciclistas profissionais de competição de alto nivel, como os de um Tour, Giro ou Vuelta, as provas mais importantes do mundo, tem uma estrutura semelhante, mas objetiva. Cada equipe tem 8 ciclistas, que são divididos em gregários, os que pedalam para ajudar os bons da equipe, e pelo menos um sprinter, o que é bom de chegada, um escalador, que é bom de subida, e um novato de futuro. Por trás destes tem os que não pedalam, chefe de equipe, treinador, mecânicos, massagistas, médicos, nutricionistas, motoristas... A hierarquia predeterminada é clara e praticamente inquebrável, tanto entre os ciclistas, quanto em relação à estrutura de suporte, identico a uma empresa rentável e vencedora.

O objetivo final é fazer certo, errar o minimo possivel, e ganhar, no final das contas uma copia do que é, ou melhor, deveria ser o objetivo final de qualquer ser humano, de qualquer sociedade ou união. 

Os passeios de bicicleta também seguem uma regra bem humana: diversão, ou, como dizem rindo, foda-se o mundo!  Aliás,  nada mais natural e esperado,  reflexo do que vivemos nesta sociedade.

Pulo para os simples mortais, nós os ciclistas urbanos, individuais e indivíduos, os que pedalam por lazer, esporte, treino e os usuários da bicicleta como modo de transporte. Entre estes, que tanto reclamam da segurança no trânsito, deveriam valer as mesmas regras estabelecidas pelo CTB, ou pelo menos comportar-se sob o básico do bom convívio social, ou cidadania.

Aqui entramos numa comparação entre micro e macro interessante: boa parte dos ciclistas se comporta civilizadamente, ou pelo menos dentro do que se está jogando como civilizado, mas uma minoria, maior e mais influente que o desejável, joga pesado com suas próprias regras, e é aceita em silêncio, mesmo prejudicando o coletivo. É um empoderamento para si próprio das regras de convivência civilizada,  as reais,  funcionais,  as que produzem resultados desejados por todos. E aí, no permitir, dar liberdade para estes usurpadores é que está o nosso problemão, e bota problemão nisto. Começa no passeio de bicicleta e termina em Brasília. Só em Brasília?

Pesquisas do governo Alemão e da CETSP sobre comportamento social apresentam resultados praticamente iguais: 90% procura ou se comporta civilizadamente, evitando cometer erros; 7% fazem lá suas besteiras, mas sabem de qual linha social não devem passar, 3% se acham donos do mundo com todos direitos e que se dane o próximo. Finalmente tem o traço dos sociopatas, um número infimo, o pior só pior dentro de um grupo social.  

"Trânsito é o melhor reflexo de uma sociedade" - Roberto da Matta, antropólogo. Não tenham dúvidas que o uso da bicicleta, e seu ciclista, reflete com precisão o que somos como sociedade.

Eu tenho medo de pedalar nas ciclovias. Tenho medo de ciclista, muito mais que de motorista. Me sinto bem desconfortável ao circular na ciclovia Capivara nos horários que os bonitinhos e bonitinhas estão "treinando".
Por que estes meus medos? Conhecimento de causa.

Como ciclista posso definir o Brasil como a ciclovia da Avenida Faria Lima. Quem pedala e já pedalou nesta ciclovia em horário de pico sabe sobre o que estou falando. Salve-se quem puder. Hoje menos, mas ainda "sai da frente, pedestre". "Motorista FDP!" E, "... o outro é culpado!", esta uma especie de hino nacional. Definitivamente este não foi o Brasil dos meus sonhos. Quase esquecendo, tudo é responsabilidade dos políticos e autoridades, nunca do ciclista (ou do cidadão).
Será?

A humanidade sempre se curvou a alguma autoridade, sempre caminhou dentro de uma hierarquia, quem manda, quem é mandado. É assim por natureza, é assim na natureza. Deveria ser assim neste país. A questão é que autoridades, quais predicados devem ter para serem considerados autoridades.

Mesmo com uns prováveis 40 milhões de ciclistas o Brasil não consegue ter um ciclista de destaque nas grandes provas de ciclismo mundial. Por que será? 
Mesmo sendo um dos territórios mais propensos a gerar riquezas no planeta, o que deveria ser terra do mais alto PIB e IDH do mesmo planeta, continuamos na mesma lenga-lenga sem resolver o básico do básico que nos maltrata e atraza.

Eu não aguento mais o silêncio dos 90%. Desculpem, mas não consigo aceitar os 3%. Sobre os do traço, filhotes dos 3%, o que dizer?
E você? 
Então, o que fazer? Vamos continuar nesta?
No passeio que sou guia estou me esforçando para por ordem no galinheiro. Chega!