A escola, a bicicleta e a vida
Arturo Alcorta, Escola de Bicicleta, sobre a vida, rodando um pouco por tudo
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
A dificuldade de comecar
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Romaria 2026 e o absurdo de romeiros na estrada
A romaria de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida foi de arrepiar. A quantidade de romeiros em peregrinação na Rodovia Dutra foi impressionante, uma fila praticamente continua se movimentando pelo acostamento de São Paulo a Aparecida, 180 km.
Pois então..., acabei de fazer pedalando o trecho entre São Paulo e São José dos Campos e o que vi desta romaria 2026 é mais impressionante do que a dos 300 anos. Muito mais romeiros, grandes grupos organizados, um continuo de blocos de gente mais compacto, com menos e menores buracos entre eles. De certa forma o 'de arrepiar' passou para um 'assustador'.
Todos com quem conversei dizem que esta romaria está crescendo ano após ano. Ironia do destino, meu único furo de pneu aconteceu uns 10 km depois de minha parada para um café e gravar o vídeo com cabelo xuxuquinha, e a poucos metros de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. A conversa com os policiais rodoviarios comecou pela confirmação que a cada ano cresce, e que faz tempo virou um problemão para eles.
- O que está vindo para cá é assustador. Eu sei que com isto vocês acabam ficando entre a cruz e a espada. Tem alguma coisa que se possa fazer....?
- Nós já fomos até ao Ministério Público, não tem o que fazer. Nós orientamos os pedestres, mas... olha ali (vinham quatro romeiros conversando animados já dentro da pista). Nós não podemos fazer nada. Estamos trabalhando (para a romaria) desde de março. Mapeamos cada pedacinho, cada problema... Sinalizamos a estrada, você viu. Fora isto não podemos fazer nada.
- Vocês pensaram alguma ideia fora da caixinha?
- Nós já até tentamos tirar a romaria da Dutra. Não deu. Fez um breve pausa, e apontando para mim - O pior são os ciclistas. Ano passado morreu um atingido na cabeça pela caçamba de um caminhão. Vocês invadem a pista sem a menor responsabilidade...
- Eu sei, sou contra....
- É! Vocês todos falam a mesma coisa. Mas não é só na romaria. O pessoal vem pedalar com estas bicicletas de R$ 100 mil todo fim fim de semana. Pode? Nós não podemos fazer nada. Nós queríamos e pedimos que os romeiros caminhassem no contra fluxo para melhorar a segurança dos ciclistas. Eles vão (os pedestres para o contra fluxo)? Olha aí.
Não vou identificar, mas os dois eram graduados, o mais velho alta patente, homem com experiência, autoridade e um saco cheio sem tamanho.
Não só entendo o saco cheio com tudo, como não queria estar na pele deles. Numa situação destas fica difícil pensar em algo que fuja do trivial. Como exemplo de ações fora das convencionais, mas dentro da lei, contei a história do adesivamento das bicicletas de operários com restos de material refleivo das placas de sinalização que aconteceuna decada de 90 na Ayrton Senna, no trecho de Guarulhos. Ação simples, fora da caixinha, com ótimo resultado. O mais graduado cortou no meio, e terminou nossa conversa com um pouco convincente "nós já fizemos isto". Entrou na viatura e se foi.
Almoçando em São José dos Campos não parei de pensar. A única certeza é que a romaria é vontade popular, um fenômeno social sem retorno. E vai crescer. A Dutra virou patrimônio social, assim como várias rodovias viraram patrimôniode ciclistas. O que acontece na Dutra é um fenômeno humano e mundial, creio eu irreversível. Tem que ver com fé, religiosidade, mas definitivamente não só. É uma espécie de contra cultura. Inclusive contra a cultura do automóvel, ou o que ele se transformou.
Num país onde as autoridades simplesmente derreteram o que restava de suas credibilidades, no país cheio de lei não cola, continuar pensando e trabalhando no estrito da lei, muitas delas anacronicas ou disfuncionais, é incorrer em mais que um erro grave, é aprofundar crises e dramas.
Nós só vamos sair deste caos brasileiro, generalizado, quando pararmos de cacarejar soluções obsoletas para buscar saídas criativas.
Terminando, quero lembrar que a instituição com melhor conceito no Brasil é a Polícia Federal. Se tem alguém com cacife para pensar soluções fora da casinha são eles.
domingo, 4 de outubro de 2026
Dia de eleição e a vã esperança
O editorial do Estadão não poderia ser outro. Ainda não li o da Folha e de outros jornais, mas devem estar na mesma linha. É o fio de esperança que resta, e escrevo isto chorando, literalmente. Mas, vamos lá.
É fato que qualquer resultado que saia desta eleição terá que ser seguido por uma forte pressão social, o que é de certa forma uma ilusão. Se houver, provavelmente será contra os eleitos e não pelo Brasil, por todos nós.
A aceitação dos desvios generalizados que temos nos três poderes é relativamente fácil de explicar. Lojas de departamento em shoppings centers de classe média e alta tem um percentual muito sensível de roubos, números que não são encontrados em qualquer outro país. Mais, o supermercado AAA, a referente do Brasil, tem roubos. Duvida? Vá lá e pergunte aos gerentes.
É deprimente, mas o resultado desta eleição provavelmente será a mais apropriada expressão do "você sabe com está falando?" tão arraigado na cultura deste povo.
É muito difícil que esta eleição venha mudar o Brasil de todos crimes organizados. Sobre quais organizações criminosas estou falando? As instituídas por votos ou as ditas ilegais?
Se depois do que tivemos nestes últimos dias o povo não entender onde se meteu, então...
Aos cidadãos de bem, qualquer que seja o resultado, logo depois teremos que começar a trabalhar nos escombros.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Ontem, que dia triste, deprimente
É simplesmente inacreditável a quantidade de notícias péssimas que estamos tendo todos dias, dia após dia, neste país. Pior, já deixamos o dia após dia para entrar no a cada hora. O fundo do poço, virou abismo, o abismo virou buraco negro, aquele fenômeno astronômico que suga impiedosamente tudo que está em volta, não se sabe para onde.
E ontem foi um dia particularmente deprimente, péssimo. Recebi as notícias da morte de Lito e que não seria realizado o debate dos candidatos a presidente na Globo quase ao mesmo tempo. Que perda, que horror, que nojo, que asco! E não demorou muito vieram as razões para a suspensão do debate. Sem palavras.
Nasci em 1955. Em 1964 estava na casa de uma vizinha quando ouvimos pelo rádio que os militares estavam nas ruas... Voltei para casa aos prantos, apavorado.
Em 1975 um amigo, o Pancho, e mais dois conhecidos, Diniz e Noronha, foram brutalmente assassinados pela Rota 66. No mesmo ano Wladimir Herzog foi assassinado pelas forças de segurança. Ainda neste mesmo ano, um pouco depois destes assassinatos, ouvi de Lúcia, que fazia faculdade comigo, que Geisel tinha sido derrubado. Uns dias depois ela me contou que ele tinha voltado ao poder, uma história que só chegou a público anos depois.
Já em 1975 começaram as articulações para dar um basta àquela situação, que aos olhos de muitos era inaceitável. Em 1982 acabei como ouvinte na Casa Madre Teodora. Alguns anos depois as passeatas e o grande comício no Anhangabaú, aquele que uns imbecis chacoalharam o caminhãozinho da Globo na tentativa de joga-lo de cima do Viaduto do Chá.
Em 1986 chorei a não poder com o Sarney assumindo no lugar de Tancredo doente. Anos depois, sentado ao lado de minha mãe, vi a imbecil da Zélia anunciar o confisco geral...
Enfim, tenho alguma vivência para dizer que nunca antes neste país tivemos uma merda tão grande, mole, fedida, escorregadia, pegajosa, contaminante, como a que temos agora. Absolutamente nada se compara ao que temos hoje, nada, até porque a diarréia virou pandemica e afetou o cérebro da maioria. Merda na cabeça de muitos não é novidade, mas nesta escala, não tenho referência.
Esfacelamos de tal forma que fica difícil saber por onde buscar uma saída.
Aos de bem, respirem fundo, soltem o ar contaminado devagar, respirem de novo. Temos que pensar com calma. Temos que olhar este desastre total como uma janela de oportunidade. Como? Não faço ideia, ainda.
Aliás, um segundo depois desta publicação caiu a ficha: sei sim, a união da maioria que agora olha de fora todo este absurdo, aquela que considera inaceitável tudo isto. A única saída estará aí.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Lito, muito muito obrigado
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Nossa Senhora, que bagunça!
Aproveitando a oportunidade, esta que agora se apresenta onde até Nossa Senhora Aparecida virou cabo eleitoral... Minha Nossa Senhora, que bagunça!
Então, cá estamos, no meio de um messias e de um salvador dos pobres e oprimidos. Não, não o "Messias", aquele enviado por Deus; nem o Salvador que cuidou de pobres e oprimidos, não, não é Jesus Cristo, mas um dos Bolsonaros que por sobrenome tem 'Messias' e Lula, que é conhecido por muitos como o salvador dos pobres e oprimidos. Pensando bem, só nesta frase eu poderia considerar finita as minhas considerações.
Mas arderei no inferno com minha língua solta e meus dedos que insistem em digitar.
A história de Jesus Cristo começou a ser escrita 60 anos depois de seu desaparecimento. Faz pouco descobri que os primeiros escritos foram em hebraico e aramaico arcaicos, ainda abjad, o que não fazia ideia o que fosse, mas pela explicação de Leandro Karnal, abjad é uma forma de escrita onde as palavras ainda não tem vogais, não há separação entre palavras, e a compreensão do que está escrito tem variáveis. O mesmo Karnal soltou um texto sobre o 'tradutor' São Jerônimo, 347 - 420 D.C., o responsável da tradução da Bíblia para o latim e nesta tradução também há uma série de palavras com mais de um sentido ou com diferenças sutis na escrita. Um dos inúmeros exemplos atuais e besta é a palavra casa. Estamos falando do que do lar, da moradia, ou de casamento, ou ainda de coisas que tem algum encaixe? Agora, imagine as variantes de algumas palavras em épocas quando haviam pouquíssimos escritos e leitores, pouquíssimos documentos para referenciar e dar precisão.
Voltando para os dias de hoje, totalmente aloprado, desvairado.
Como Cristo estará pensando sobre esta baderna e sobre estes pretendentes a um lugar no Céu dos bons? O que Cristo acha sobre as religiões que têm como base sua história? E sobre seus fiéis seguidores? Um passo atrás, como Cristo lê a sua própria história contada pelas mais diversas e inúmeras traduções, versões e outras 'cositas mas'? Ele embarcaria? Ele ficaria feliz com os seus 'retratos', suas inúmeras imagens criadas pelos séculos e séculos, Amem? O loiro de olhos azuis das traseiras dos caminhões?
O que Ele deve estar pensando sobre a forma como os dois lados, os ditos messias e os ditos salvadores dos pobres e oprimidos, se engalfinham? E sobre os seguidores destes tão fanáticos que se dizem proprietários do bem e da justiça? Se estivesse aqui, o que faria? Eu aposto que ele teria um ataque e expulsaria de novos os vendilhões do templo, e que Ele me perdoe por supor.
O Cara, Jesus Cristo, deve ter sido alguém muito muito especial, não há outra forma de sua vida ainda ser contada com tantas celebrações. Tudo leva a crer que neste ponto não há discórdia. Quis a vida me fazer conviver com simples mortais muito especiais e não teve um único que não fosse perspicaz e de bom humor, humor inteligente. Pelo que se sabe, o Cara, o lá de Cima, tinha uma forte capacidade de agregação, então é de se acreditar que Ele esteja um pouco, vamos dizer, chateado com esta história de "nós ou eles". Aliás, acabei de ver uma entrevista de um cientista político que afirmou que as gerações mais novas não aguentam mais esta imbecil polarização, boa notícia.
Sempre gostei de qualquer evento popular, daqueles que junta um povão, mas de preferência, sem barulheira ensurdecedora. Ir pedalando no meio da romaria de Nossa Senhora de Aparecida é bem divertido, recomendo. Qualquer com faz, com juízo. Nada de brincar de super herói. Tem ajuda por todo percurso da Dutra, barracas, grupos, amigos, famílias, gente que vai para lá para distribuir água, bananas, maçãs, dar uma sombra, em alguns pontos oferecem massagistas, atendimento médico básico... Que eu me lembre, no meio destas boas almas tem evangelistas e messiânicos oferecendo conforto aos cristãos.
Que seja. O nosso país, Brasil, é um Estado laico. Religião é uma coisa, política de Estado é outra. Diz a sabedoria, e a inteligência também, que não se deve misturar as coisas. Perdemos a noção de limites e aceitamos enfiar Nossa Senhora Aparecida na bagunça. Quanta burrice! O que o Pessoal lá de cima estará achando desta discreta gritaria alucinada?
O apito e a eleição
Ouvi um apito e o ciclista passou rápido por mim com apito na boca. Me deu arrepios. Faz um bom tempo em NYC surgiu a moda de ciclista pedalar usando apito e apitando para tudo quanto era lado. Não demorou muito começou a dar problemas, as autoridades começaram a investigar e o resultado acabou sendo publicado inclusive numa das revistas especializadas para ciclistas, talvez a Bicycling, não me lembro ao certo. O artigo extenso mostrava dados e alertava para que não se pedalasse de apito na boca, o que inclusive tinha causado morte de ciclista.
Eu e o ciclista com apito na boca paramos no sinal, fui conversar com ele, contei sobre o alerta publicado em revista americana. Ele ouviu até que o sinal se abriu. Ai o ciclista cruzou a avenida soltando impropérios e mandando eu calar a boca porque o apito tinha salvado sua vida inúmeras vezes e eu não fazia ideia do que estava falando.
O trânsito brasileiro é um dos mais violentos do planeta, aliás, melhor, o Brasil é bem disfuncional muito por conta que todo brasileiro sabe o que faz, tem sua verdade inabalável e o que faz sempre dá certo. Pesquisas, dados, informações, fatos, nada disto interessa, tudo isto são besteiras, coisa de ignorantes que não sabem o que falam, a única verdade é a que a pessoa tem para si própria. "EU!", o resto está errado. Ou, tem o seguir a boiada; os outros todos estão errados.
Aproveitando a ocasião, o Estadão publicou uma série de três reportagens "O Brasil que dá certo", sobre a história da Embrapa, do ITA \ Embraer, e do Porto Digital de Recife. Vale a pena procurar e ler. Funcionaram exatamente porque tiveram o cuidado de acreditar em qualidade, ouvindo outros, buscando informações, procurando como se faz correto e como minimizar a possibilidade de erros.
Daqui uns dias vamos para os votos. Como será tua decisão em quem votar, pela propaganda da TV, pelas bandeirolas que enchem nossas ruas, pelos santinhos ou pela cara de honesto dos candidatos?
Neste contexto do "eu estou absolutamente correto, todos vocês estão errados", se pode colocar mais um fator interessante: "Gostei de sua cara", uma ótima forma de se dar um 'veredito' sobre alguém desconhecido, no caso candidatos ao poder legislativo ou executivo que farão o seu futuro.
Ainda neste mesmo contexto entra o "gostei deste número", aquele que está sendo divulgado por ai em bandeirolas, santinhos, publicidades, propagandas obrigatórias, etc... Será o número que decidirá sua vida, jogo do bicho total. Aposto que vai dar zebra.
Fato é que eu me pergunto se deveria ter tentado alertar o ciclista com apito na boca. Ou devia deixar que ele corresse um risco? O risco dele é também o aumento de risco para todos.
Nas minhas dúvidas sobre minha atitude com o ciclista vou me perguntando se um candidato passar sorridente tocando o apito quantos cidadãos iriam atrás e votariam nele. Já o outro, aquele que avisa, sempre será o responsável por todos males.
No final das contas, é da natureza nossa que "eu sei o que estou fazendo, o outro só diz besteiras"
