segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Bienal de São Paulo. O que é arte? Quem sou eu?

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém

O trocadilho com o "quanto mais sei, mais  sei que nada sei" me veio como a abertura de um filme exibido em 'Cinerama", projeção impecável e som Dolbi, rodando a imagem que via enquanto rodava lentamente a cabeça olhando as obras do segundo andar da 13º Bienal de São Paulo. 
- Quem sou eu? 

Não, definitivamente não tem nada a ver com o que pretende a curadoria desta Bienal e suas preocupações sociais inclusivas, mas com a memória de todas as Bienais que vi pela vida, e as que deixei de ver; para meu prazer. 

Marcel Duchamp morreu em 1968. Seu mictório foi exposto em 1917 sob o nome "Fonte", muito mais que um choque para aquela sociedade que acabara de sair da Primeira Guerra Mundial, uma carnificina sem precedentes. Em 1923 Duchamp exporia seu "Grande Vidro", ou "A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo", um pulo (um pulo?) do nonsense dadaista para as obras conceito, e warp speed para o sense ou nonsense do que temos na arte hoje. 
Vale tudo? O que é arte? 


("Vale tudo?") O que é arte?
E me pus a perguntar para os monitores "O que é arte?". Resposta padrão. "OK, além disto, o que é arte para você?" Olhares de espanto, respostas um pouco mais rebuscadas, mas mais ou menos a mesma coisa.
- Como entra o marchand nesta tua resposta?
- O que é marchand? E quem quase caiu de costas fui eu. Como assim, o que é marchand? 
- Nos treinamentos não falaram sobre a questão dos marchands?
- Nós não recebemos treinamento. Estamos aqui para guardar as obras. De novo, quase caí de costas. 


A garotada que estava lá tinha cara de quem estava engajada com o espírito da coisa. Boa! Já não sou bom saca rolhas, não consigo chegar ao delicioso líquido da cabeça do outros, e depois de saber que eles estavam lá para guardar as obras sem saber qual a influência do mercado de arte na curadoria desta Bienal, caminho só me perguntando "Quem sou eu?". 

Fui no último dia, só, um calor de fritar ovo no asfalto. Marcel Duchamp teria aproveitado a dica para sua próxima obra? Não creio. Duchamp provavelmente estaria trancado em casa olhando assustado pela janela "Aquilo deu nisto?".

Fui com medo, quase não fui. Gato escaldado tem medo de baboseira pegajosa. A última Bienal que tinha ido, felizmente não me lembro qual, foi tão chocante para mim quanto o mictório que Duchamp expos em 1917 deve ter sido. Baboseira sempre teve, mas depois de uma sequência de bienais marcantes pela qualidade, mudar tão radicalmente não desceu. Não fui o único a arrepiar de horror. A música nossa de cada dia que o diga. Chega. A bem da verdade, não sei bem por que criei coragem de ir nesta, mas 'até' que valeu a pena. Este 'até' é um tanto fdp, que seja. 
Queria ter ido com Duchamp. Não faço ideia de como era seu senso de humor, partindo daí ou me divertiria ou acharia ele um saco. O que vale é quem se é, o resto é arte. (Doeu!)

Sou obrigado a barbar numa sumidade? Não caio mais nesta, já perdi muita vida me curvando a quem se vende bem, mas é um babaca. Babacas nesta vida é que não falta.
Sou obrigado a achar uma obra conceitual inteligente? Sou obrigado a achar uma obra conceitual interessante? Desculpe, mas a maioria não consigo, zero. Talvez conseguisse se o marchand responsavel estive comigo e fosse bom de lábia. Bater punheta é uma arte.    

Quanto mais sou ninguém, mais sou alguém
Quanto mais sou alguém, mais sou ninguém


Sai feliz. Aliás, sai deprimido por deixar o ar condicionado e ter que caminhar no frita ovo. Quem quer que tenha feito a curadoria saiu do atoleiro do que vi na última Bienal que fui. Quando? Não me lembro, mas a memória emocional dela que ainda resta em mim é bem desagradável. Hoje eu a definiria como "politicamente correta", aquela. Esta também, mas menas, muito menas, mas muito menas mesmo. Esta Bienal tinha muita coisa boa, boa mesmo. Acabou. 

O que é arte? 






 

Arte democrática(?), como está numa escultura (foto acima). Desculpem, mas li e estourei na gargalhada. E os marchands, curadores, galeristas, colecionadores, investidores, como ficam? Doce ilusão!

Tendo a obra de Duchamp na cabeça respondo a pergunta "O que é arte?" 
- Vai mané! (é a resposta)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência. E Cassia Eller; 1962 - 2001 / a perda de um gênio

O Estado de São Paulo
Sábado, 01 de Agosto de 2020
A16 | Internacional 

Gilles Lapouge ; 1923 - 2020 / a perda de uma inteligência

Aos 96 anos morre o cronista de sete décadas.
Jornalista e escritor francês chegou ao 'Estadão" em 1951
....

Repercussão
Ruy Mesquita Filho
"Sua lacuna jamais será preenchida, homem de cultura e de um refinamento que não existe mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera."
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E da página dupla em uma curta homenagem a Gilles Lapouge e do que Ruy Mesquita escreveu parto eu.

Uma pessoa culta que vivenciou 70 anos como jornalista tem um nível e conhecimento sobre o que somos, todos, como seres humanos, que é de uma preciosidade única. Eu nasci em 1955, quatro anos depois que Gilles chegou ao Brasil, e ainda vi um país arcaico, com hábitos do século retrasado, os 1800. Vi e usei tecnologias inimagináveis para a atual geração, como um telefone de parede movido a alavanca giratória, gramofone, roda d'água, carro de boi, rádio a válvulas que tinha que esquentar para funcionar, rádio galeno....


(Como tudo nesta vida, deixei, ou esqueci este texto nos rascunhos. Volta e meia via que ele estava ali e que deveira ser publicado. Exatamente como procrastino muito de minha vida. Ou procrastinei. Estou resolvendo tudo um passo por vez, aos pouquinhos, dentro de meus limites, resolvendo o que não tenho jeito ou não gosto. Está indo. Estou melhor) 


09 de janeiro de 2026
Mudou, e como mudou. "... nossos dias, onde a boçalidade impera", e como impera!

Li a notícia quando estava em Penedo. Lugar lindo, terra de finlandeses que vieram tentar a vida nesta floresta chamada Brasil. Montanhas em volta, uma para Visconde de Mauá, outra para a entrada do Parque Nacional de Itatiaia. Subir montanhas, desafio para quem sabe o que faz e está preparado. Muitos ou não vão ou ficam pelo caminho, como na vida.

No mesmo dia que li esta notícia sobre a morte de Gilles Lapouge, assisti na TV um documentário sobre a vida de Cassia Eller, uma Cassia Eller que pouquíssimos sabiam quem de fato era. Foi das poucas mortes que chorei. Gostava, mas não era fã de sua obra. Tinha consciência que ali estava um potencial raro, que foi-se. 'No recreio' é de uma genealidade rara, música que não canso de ouvir. Já tinha lido que ela tinha consciência plena sobre seus erros e o que deveria fazer. Achei incrível quando soube que a ficha caiu quanto seu filho, ainda pequeno, disse para ela que ela estava gritando demais (nas músicas). Caiu a ficha, precisa mais?

Um dos momentos inesquecíveis de minha vida foi, por um daqueles agradáveis acidentes da vida, se é que se pode chamar assim, acabei ficando hospedado na casa do então diretor da agência suíça de notícias Reuters, em Zurich. A casa era incrível, e o jantar, onde pudemos conversar com calma, simplesmente mágico, um outro planeta de conversas.

Gostaria de ter tido a mesma experiência com Gilles Lapouge. E com Cassia Eller. Como com tantos outros, nomes conhecidos ou não. Não precisa ser famoso para ser interessante, precisa ser interessante, no bom sentido, que necessariamente não é do bem. Brain! Brain! Brain! Brain!  

Como é que é? Algo assim: seguimos atrás do cachorro catando os seus dejetos... O original, de onde tirei esta acertiva, está a seguir, no copia e cola do artigo / entrevista publicado hoje no Estadão. Maravilhosa metáfora do que nos transformamos. A diferença de sentido, ou metáfora, ou que realmente é, está no texto: "cachorros são amor puro". 
Nós nos transformamos em metáforas (em metáforas?) do que acontece agora com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro. Aliás, sem querer, primeiro digitei 'Borcaro', é, mais ou menos por aí. 
O que nos transformamos está explicito, o triste é que não se pode mais afirmar "vê quem quer", até isto foi pro saco (sei-la que saco, mas com certeza não de boa coisa).  

"... agora é uma entidade atrás de quem eu ando recolhendo dejetos humildemente". Somos todos nós, a entidade. Entenda o que quiser e pode ser. Se entender. 

Morrerei na era da boçalidade, isto é líquido e certo. Me incluo aí, me considero um boçal, mas rezo a cada minuto o "quanto mais, sei que nada sei", é o que talvez me salve do inferno. Do purgatório não escapo. Por favor, não me mandem para o céu desta turba de repete sem parar "Vai com deus (este eu digo com letra minúscula)" e "Amém!". Não mereço. 

Subir montanhas pedalando (ou caminhando, correndo) é um ato de autocontrole, um honrar e homenagear o conhecimento, o como fazer correto. Chegar lá em cima é uma vitória efêmera, mas deliciosa. Sim ou sim, se tem que dar meia volta e voltar aos pastos da boiada ruminosa. O esterco deles é que faz o pasto crescer - pura ironia.

Antes deste, acabei de postar um outro post onde coloco que queria ter convivido com gente que se foi. Conviver com muitos mais que que convivi, mas os interessantes. 
Fechando as vontades num foco só. Pedalando pelas ruas, olhando minha bicicleta, fazendo alguma manutenção necessária, gostaria ter tido tempo com meus heróis da bicicleta e do ciclismo, nomes brasileiros que são absolutamente desconhecidos pelo Brasil e que mesmo a distância me ensinaram muito. Devo muito a eles, mas com tempo e ouvindo em silêncio poderia ter aprendido muito mais. Este é o ponto.

Uma das coisas que mais me irritam nesta vida é alguém dizer que tenho conhecimento sobre o que é uma bicicleta. Hoje tenho só certeza que já descobri que bicicletas têm duas rodas, e que por isto o nome tem um 'bi' na frente. De resto, sou aprendiz, nada mais. 




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Bebeto, Pedrão, Bernard, e tantos outros que passaram

O incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, me fez lembrar mais uma vez de Bernard Zen-Ruffinen, uma simpática figura que conheci na Bolívia em 1977, me ajudou com orientações e a encontrar uma estadia, aliás, ótima. Por um acidente de viagem acabei na Suíça e na casa de seus pais em Sion. Crans-Montana está muito próxima de Sion e é bem possível que da varanda da casa dos Zen-Ruffinen tenham visto os tragicos clarões do incêndio.

Bernard me marcou porque viajava só com uma bolsa, uma malinha daquelas que a gente usa para ir a academia. Ele estava sempre bem vestido. Eu, carregando uma grande mochila típica de mochileiro, pesada, desconfortável, me vestia como um hippie meio largado. Talvez tenha sido uma das mais marcantes lições para minha vida. Até hoje, quando monto uma mala de viagem lembro da bolsa do Bernard e vou descartando inutilidades, mas confesso que ainda tenho dificuldade em chegar a tamanho espartanismo.

Sim, minha vida foi se transformando a partir de pequenas situações que chamaram a atenção. Poderia enumerar muitas, mas aqui falo sobre três pessoas que gostaria de ter vivenciado e não o fiz. Se tivesse vivenciado meus caminhos certamente seriam outros. 

A última vez que tive contato com eles, os Zen-Ruffinen, foi quando seu irmão, Walter, veio para o Brasil e ficou em casa. De Bernard nunca mais soube, infelizmente. Walter esteve ligado com a FIFA, e pelo menos a imagem dele vi. Agora procurei e encontrei não só referências deles, mas de toda a família, que descobri ter uma história valiosa, importante, consistente. O pai, eu sabia, foi o anestesista do Ivo Pitanguy em cirurgias plásticas fora do Brasil. Lendo a história dos antepassados Zen-Ruffinen tomei consciência que o que me fascinou em Bernard foi ele ser um jovem cidadão do mundo com uma bagagem de cultura grande nas costas. Eu, brasileiro, de boa família, pessoas educadas, tinha uma boa bagagem, mas para Brasil, sem comparação com que Bernard e Walter receberam da família e da Suíça. Nós brasileiros, mesmo os de eleite, eram bem caipiras, bem primários, se não continuamos sendo.
A conversa entre os Zen-Ruffinen durante um almoço deu o grau de ignorância que eu tinha. Primeiro, eu era fluente em espanhol e tinha um inglês primário, ruim digo. Eles misturavam numa mesma frase frances, alemão, ingles e italiano, sempre buscando a palavra mais precisa, não se importando em que lingua, quando queriam entrar fundo no sentido. A conversa base foi em inglês, por gentileza comigo, mas as palavras em frances, alemão e italiano, aliás, algumas em espanhol, saiam com toda naturalidade, fluidas, sem gaguejar. Só decadas mais tarde consegui entender o porque. "Boludo!", expressão típica da argentina, cabe bem para o que eu era então.

Perdi contato porque tinha vergonha de minhas cartas, a forma de comunicação daqueles tempos. Minha letra era um caos, péssima, minha verbalização horrorosa, não sabia como e o que escrever, não me lembro se escrevi para ele e sua família, se escrevi não tive resposta porque provavelmente ficaram assustados. Aliás, minha comunicação verbal era bem ruim também, se não lastimável, o que não exagero aqui.

Pedrão, foi outro que só depois de morto descobri que gostaria de ter convivido, e muito. Pela vida nos vimos muito pouco, eventualmente em alguma comemoração de família. Era de pouca fala, muitos sorrisos, muito ouvido. Tinha notícias dele por sua irmã, Celinha, muito amiga de minha irmã. Tudo que sabia é que ele trabalhava no Estadão, mas não sabia no que. Quando morreu o Estadão dedicou quase uma página a ele, Pedrão, Pedro França Pinto. Aí descobri que seu trabalho foi grande, que sua cultura e pensar valiosos, colaborativos, imprescindíveis. E eu perdi isto tudo.

Bebeto, Luiz Roberto Souza Queiroz, outro primo com quem tive pouquíssimo contato e me arrependo. Bebeto também trabalhou no Estadão. Devo ter lido seus textos num passado distante, mas como sou desligado nunca olhei para o autor. Descobri a preciosidade de sua escrita atravez das crônicas rápidas que ele escrevia no Whatsapp da família. Impecáveis. Eu, muito envergonhado, queria e deveria ter ido a Itu para conversar com ele sobre escrita, textos, e (envergonhado) mostrar meus garranchos que aqui publico. Um dia, com grande tristeza, me avisaram sobre o velório. 

Agradeço muito aos 'malucos' que convivi. Malucos porque um tanto fora da curva, o que foi ótimo, um aprendizado incrível, precioso. Mas deveria ter olhado para a vida de maneira mais aberta. O meu erro: comunicação precária, em alguns momentos desastrosa. 
Criei mitos, o que foi um erro, até porque mito impõe respeito, dá insegurança. Besteira, besteira pura! Mesmo que eu tivesse sido um completo imbecil, para um ser valioso não importaria porque ele aprenderia com a situação. E talvez ensinaria. 

Das situações únicas, vem a única conversa na vida que tive com meu avô Fernando de Azevedo. Rápida, no leito de morte, ele me abriu as portas para o escrever. Ali, mesmo que não tenha conscientizado, aprendi que somos todos humanos, eu também, até e principalmente por todas minhas inseguranças.

Quantas pessoas passaram pela minha vida e perdi a oportunidade de convivência mais que proveitosa. Sempre escolhi convivências meio que fora da curva, 



Textos corrigidos por IA


Minhas cartas eram péssimas. Tinha profunda vergonha delas

sábado, 3 de janeiro de 2026

Boate Kiss, Constalation: e o que não aprendemos com o Deep Purple

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo 
Rádio Eldorado

Uma das maiores vergonhas de nossa história é como foi e continua sendo tratado o incêndio na Boate Kiss. Deixou claro a falência de nossos três poderes, judiciário, executivo e legislativo em julgar, fiscalizar e tomar providências. O recado é claro: pouco importam os familiares das vítimas, quem manda aqui somos nós.
 
Dói muito saber que famílias e amigos das vítimas da Kiss agora revivem o horror com o incêndio no bar Constellation, em Crans-Montana, Suíça. 
Provavelmente vão sofrer mais ainda com a comparação de como se dão as coisas num país onde o respeito e a dignidade com a população conta.
 
Minha forte dor e revolta e pelo que nós transformamos. 


Repetindo a história:

Smoke on the water, Fire in the sky... é considerado um dos hinos do que melhor o rock & roll oferece. Todo mundo sabe quem é o Deep Purple por causa desta icônica música.  Até quem não gosta de rock gosta da música, uma versão divertida do incêndio que consumiu um teatro na Suíça e espalhou cinzas pelo lago.

Repetiu-se a história, desta vez com um fim nada, zero, divertido, muito pelo contrário, horroroso. Na mesma Suíça, tão organizada e certinha Suíça. Repete-se os horrores da Boate Kiss, que completa 13 anos.

Smoke on the water, música baseada no incêndio do Montreaux Casino causado pelo disparo de um sinalizador de socorro (aquels que emitem uma luz vermelha) dentro do teatro durante um show do Frank Zappa, em 1971, não é lembrada pela tragédia. Os íntegrantes do Deep Purple estavam lá e logo depois compuseram a música.

As primeiras informações sobre a causa do incêndio no tradicional bar Constellation,  em Crans-Montana, Valle, Suíça, a menos de 100 km de Montreaux, dão conta de uma tragédia muito parecida com a ocorrida na boate Kiss. Artefato de fogo iniciando um incêndio no teto feito de material inflamável, falta de rotas de escape, jovens encurralados, mais de 40 mortes e 100 feridos.

Como escrevi para o Estadão e a Rádio Eldorado, vai ser um horror para os familiares e amigos das vítimas da Kiss.

De minha parte, quero ver como vai se desenrolar o processo na Suíça. Tendo estado lá, inclusive em Sierre, pequena cidade no Valle bem próxima de Crans-Montana, acredito que os suíços vão seguir os mesmos passos investigatorios de um pós acidente na aviação. E que medidas vão ser tomadas.

E não me sai da cabeça o duplo sentido da palavra 'tomada', a de tomar, o verbo, e a do elemento de eletricidade. As tomadas que foram implantadas no Brasil, únicas no planeta, têm muito a ver com o sofrimento de quem perdeu seus queridos numa situação como a da Kiss. 
Desculpe, não entendeu? 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Estadão editorial / Data Folha, A mensuração do medo

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Quando comecei a sentir que a panela estava quente? Quando Fernando, um sujeito muito calmo, foi fuzilado sem reagir por um ladrão de relógios lá pelos idos de 1990? Quando vi, 1999, o carro da frente ser assaltado sem a mais remota reação de todos os motoristas que estavam em volta? Quando da janela do apartamento no Guarujá, 2005, assistíamos a um assalto armado atrás do outro sem parar com se fosse entrega de brindes? Ou vendo na TV, ouvindo na rádio, lendo no jornal, notícias horrorosas que a cada dia enchiam mais e mais os noticiários? A bem da verdade não faço ideia de quanto tempo faz que o mar não está para peixes, mas piora dia após dia no silêncio dos navegantes. Meu irmão desembarcou de uma viagem para Europa e foi recebido por um amigo com a piada-verdade "Bem vindo ao bang-bang!". De orelha em pé estou faz muito, e com razão.

Tereza diz que exagero quando para um amigo inglês que está aqui de férias peço para ir até uma loja de roupas populares comprar algo barato para o casal ficar com jeito de povão. Sim camuflagem. Tenho experiência, acredito que funcione, faz décadas que me visto o mais discretamente possível, o mais popularesco possível, e vem funcionando. Camuflado, sim. Sou ciclista, minha bicicleta é simples, básica, das que não desperta interesse em ladrões e assaltantes, técnica que aprendi com holandeses. Tenho medo de perder minhas paixões, leia-se bicicletas boas, raramente saio com elas. 
Medo de ser assaltado? Sim e não. Tenho medo do que vou sentir depois, melhor, me conheço e não quero sentir a raiva doentia do pós. Já corri atrás de assaltante, já tive automática engatilhada na cabeça, já evitei um sequestro (na rua México). Tenho medo da raiva e do ódio incontidos que sinto no pós evento, este me mata, me transforma em algo que não quero ser. Não tenho medo de minhas reações, mas dá ódio a covardia, o não agir, o abaixar as calças, como se dizia entre os que lutaram pela democracia. 
Vivemos o que estamos vivendo porque a imensa maioria "abaixou as calças", como se dizia nos anos de chumbo, anos duros da ditadura. Fato é que derrubamos o que é considerado anos de chumbo. Hoje é tempo de bala perdida, achada, não investigada... Temos o que temos porque aceitamos - literalmente.  Recebemos o que compramos, básico. Não reagimos. "Não se pode reagir" afirmam todas as autoridades da segurança pública, e concordo - em parte - com eles. Não se deve reagir da forma como fiz inúmeras vezes, de imediato, mas tenho certeza que pior é se calar, aí está nosso gravíssimo problema, a fonte de nossa horrorosa, asquerosa tragédia diária. Em algum momento, de alguma forma, se tem que reagir. Se tem, não, é obrigação reagir, tomar alguma atitude. Lembro a todos que ser assaltado não é chique. (Fui assaltado, portanto tenho poder aquisitivo. Quanto mais assaltado eu sou, mas interessante sou.) 
Meu medo de um roubo ou assalto? Meu problema é o que vou sentir sobre os outros, todos aqueles que sofreram agressão, de qualquer tipo, e se calaram, deixaram ficar como está porque "Não vai adiantar nada". Aceitar com muita dor a eventual perda, aceitarei. Mas não me peça para aceitar que alguém tenha um celular de vários mil Reais, com todos dados dentro, o mais trivial assalto em voga, e não ir fazer B.O., por exemplo, dentre o 'n' exemplos que estamos sofrendo. "Vou ficar horas até ser atendido..." Não consigo engolir o silêncio covarde e trivial que nos trouxe a este estado de barbárie. Estou velho para reagir, mas se por um acaso eu morrer reagindo, morro feliz. Mesmo que de maneira considerada inapropriada por alguns tantos, crumpri minha obrigação de cidadão: proteger o outro, lutar pelo bem coletivo, ajudar a construir um futuro de paz e progresso.
Reajam! 





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

R$ 1 bi na Mega da Virada. Qual seu sonho?

A bem da verdade, meu sonho foi ter acertado o bilhão de dólares de um prêmio sorteado nos Estados Unidos. Se é que é para chutar o pau da barraca da sorte, então... Um bi de Reais é... (5 X menos, quanta pobreza!)
Delírio a parte, voltando a realidade...

O Jornal da Band de hoje, 26 de dezembro soltou uma matéria sobre o que dá para fazer com 1 bi de reais, prêmio da Mega Sena desta virada para 2026. A comparação foi primeiro com quantas Bugattis dá para comprar, depois quantas Ferraris, depois com sei lá que carro, mas creio que tenha ouvido algo sobre "executivos". Não sei, sai de frente da TV para não continuar ouvindo tanta burrice. Que puta comparação asquerosa, pobre, mediocre, estúpida, distorcida, absolutamente improdutiva! E colocaram a matéria no ar! Mas é inegável que a deprimente besteirada é um reflexo fiel do pensar brasileiro. 

A matéria expõe a completa falta de noção do brasileiro médio sobre o que é ter dinheiro, sobre valores da vida, o que é qualidade de vida, sobre o que é futuro, sobre para o que serve riqueza.

Estou na cama, pronto para dormir. Eu ia terminar este texto depois, mas não dá. A comparação feita com carros esportivos de alto luxo remete a, melhor, reflete com precisão este Brasil completamente desvairado que estamos vivendo. Deprimente!

Para começo e fim de conversa, a cada dia estes esportivos de alto luxo são pegos pela Polícia Federal na mão de gente que tem séria dificuldade de justificar a origem do dinheiro. Daí para frente, pensar nesta matéria...

Esquece, por onde se pense no que foi editado e levado ao ar é... reflexo perfeito deste Brasil. Infelizmente a imensa maioria não vai entender quão grave foi, ou é, a burrice 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Feliz Natal

Este foi o melhor Natal que passei em anos. Sozinho. 

Como seria esta comemoração, do nascimento de Jesus, caso naquele 25 de Dezembro, tivesse um monte de gente fazendo uma festa (algazarra?) como a que fazemos? 

O melhor deste Natal para mim começou com uma série de gags trazendo Maria e José para a realidade atual, em versões italianas e americanas (SNL e outras). Afinal, é uma história humana. Por que tem que ser sisuda, chata, mal humorada?

A pergunta que nos, eu e vários amigos, fizemos, antes do Natal, é: Mudei eu ou mudou o Natal? Provavelmente, mui provavelmente, mudaram os dois, resta saber qual dos dois, nós, ou o espírito do Natal, mudou mais. Difícil responder. Fato é que Natal não é o mesmo, há qualquer coisa no ar que nos faz pensar que Natal virou pouco natalino.
Ouso responder que nós mudamos, muito, e com ele o espírito do Natal. Selfie!

Sozinho tive paz. Creio que a celebração seja relativa a um momento intimista, o nascimento de uma criança, muito especial, diga-se de passagem. Sentimento de paz.
Minha comemoração foi tirar da vitrine meu Papai Noel montado numa bicicleta e colocá-lo bem visível. Deitei, agradeci, apaguei a luz e dormi feliz.

Hoje pela manhã falei com uma amiga, desejar Feliz Natal, mas não consegui. Estourei na gargalhada. A cara dela é de quem passou por uma festa rave com direito a todas as loucuras possíveis. Esta foi a noite de Natal que ela teve com a família e o único e amado neto. Não deve ser a única que está acordando 'meio' torta, nada pronta para o almoço de Natal, sonhando em voltar para cama e ver como acorda amanhã. Tenho muitos amigos que tudo que querem é que acabe, e que a vida volte ao normal.
Peru? Tender? Farofa? Rabanada?
Tenho uma amiga que faz plantão no Natal. Quis organizar para ela estar com os seus, filha e neta, mais alguém. "Por favor, não! Não vou ficar servindo ninguém e ainda correndo atrás de neta. Quero paz. Trabalho no Natal exatamente para isto".

Comemoramos o início da História que nos deixou um legado proveitoso.