domingo, 5 de julho de 2026

Estradas virtuosas: manifestos, manifestar-se

Mais um manifesto com propostas para tirar o Brasil desta loucura, desta vez um grupo coordenado por Michel Temer. Mais um grupo de pessoas trabalha para propor saídas, mudança, transformações. É assim que se faz. Vamos lá, vamos pensar.


Todo meu apoio a toda e qualquer proposta que ajude a reconstruir o que resta de nossa sociedade. E apoio por que no passado pensei, escrevi e distribuí, junto Sergio Luis Bianco, manifestos que demoraram, mas vingaram ideias práticas e construtivas. Na época procurava atender às necessidades de mais de um terço da população brasileira (IBGE 1981), algo em torno de 40 milhões de Brasileiros, tentar organizar um setor industrial que então era o terceiro maior do mundo, e que se provava ser uma ferramenta importantíssima na reorganização das cidades e sua população. Muitas vezes fomos recebidos com sorrisos irônicos, outras com desprezo, e até com irritação, mas entregamos o manifesto e mesmo com demora conseguimos resultados.

Interessa as ideias positivas, construtivas, interessa o bom trabalho, interessa o trabalho. Há uma imensa diferença entre as ideias, o trabalho, e quem as produz. O que interessa, de fato e em última instância, é o resultado que causará.

Um bom historiador prova com facilidade que muito do que de bom foi construído pela humanidade partiu de pessoas que tinham lá seus defeitos, não eram boazinhas ou foram execradas em suas épocas. Galileu! dentre milhares.

Interessa o resultado final do trabalho ou a Santa Inquisição? Ah! a Santa Inquisição... quantos resultados maravilhosos deram à humanidade... Pelo jeito, muitos ainda estão nesta, e como estão. Viva a cegueira da ideologia, viva os santos de pau oco, viva as fogueiras, mando eu! Minhas críticas são imponentes, transformadoras, essenciais. Queime-se quem de mim discordar. Que ardam no inferno, no inferno que lhes desejo.

(Meus caros, não sei se perceberam, mas o inferno se instalou aqui. E que inferninho caprichado!)

Pelo que se lê aqui nos comentários, o único poder que nós, brasileiros, temos é o da crítica. Deprimente.

Uma das sabedorias é fazer críticas que possam ser construtivas a uma ideia. A crítica pela crítica, pelo "você sabe com quem está falando?" é o criador deste Brasil "nós e eles" absolutamente disfuncional.

Um dos comentários diz que estamos desorientadas com o que acontece na política faz décadas. Sim, estamos. Está claro, fica patente quando se lê os comentários aqui. O trágico é estarmos desorientados há tanto tempo e simplesmente não reagirmos. Empacamos quendo o outro pirou de vez, virou uma coisa inaceitável. E aí? abaixa a cabeça, aceita, não faz nada, sequer vai procurar construir sua própria vida, a vida dos seus, a vida dos que querem um futuro melhor? Você senta e em silêncio vê a loucura enlouquecer e destruir todos e tudo? Uau!


Sobre o que era o manifesto? Sobre o artigo de primeira necessidade para boa parte da população, como declarava o IBGE de 1981, sobre o transporte de uns 40 milhões de trabalhadores, sobre um setor que gerava uma quantidade imensa de trabalhos, sobre a construção de cidades amigáveis, sobre diminuiçãode mortes no trânsito, sobre diminuiçãode custos previdenciários... O manifesto falava sobre 'bicicletas' e tudomque ela envolve, que émuito mais que pedalar em segurança.

Valeu a pena cada linha. Valeu a pena cada crítica. Valeu a pena cada sorrisinho irônico. Não só pela bicicleta, mas pelo país, por todos.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Caco de vidro na água da professora. Novidade?

Antes de qualquer coisa digo: esta história é um absurdo, literalmente, mas não tem qualquer novidade. Como está em vários comentários, só reflete o país que vivemos. Ou quem somos.


Não fui um bom aluno. Sempre fui da turma do fundão. Tive um currículo escolar nada abonador, com inumeras suspensões e algumas expulsões. Na última acabei em um colégio que acolhia indisciplinados, por assim dizer. Colégio de expulsos era uma outra coisa, e as histórias que se ouvia de lá eram completamente absurdas, inaceitáveis (, mas eram aceitas por uma parcela da sociedade). Eu fazia parte de um grupo que aprontou, mas tinha noção clara de que linha não deveria passar. A bem da verdade, todos aprontaram, fazia parte das bênçãos da adolescência. Infelizmente conheci os que se sentiam livres para fazer a merda que bem entendessem, muitos deles com uma espécie de conivência das próprias famílias e da sociedade. Alguns destes mesmos viraram figuras proeminentes em suas áreas, a maioria se dando bem principalmente num mercado de trabalho tão difícil, selvagem, como o nosso, do Brasil. Os bonzinhos sobreviveram pela vida. Isto é fato. O ambiente de vida no Brasil não é para inocentes.

Quase no fim de meus estudos básicos, 1959 - 1973, pedi autorização para ter um dia de aula com os colegas de classe do colégio que tinha sido expulso. Eles eram os bons alunos, eu era o expulso. Saí de lá assustadíssimo como que vi. Muitos dos "bons alunos" tinham um comportamento muito pior que os expulsos que eu tinha convivido, comportamentos durante as aulas que seriam inaceitáveis entre os expulsos. Descobri que a regra é saber fazer para não ser pego. Sim, hoje está claro, a regra no Brasil, em tudo, é saber fazer para não ser pego. A baderna jurídica nos leva a isto. Nós três níveis, federal, estadual e municipal, temos a bagatela de 2.740.000 leis vigentes, muitas sobrepostas. O número de leis dos códigos criminal e civil é outra loucura inexplicável. Não sei como estamos agora, mas até ontem tínhamos algo como 54 impostos (é isto? Nãoestou louco? ), muitos imposto sobre imposto, o que é ou deveria ser ilegal. Ilegal? Aqui? Piada! E para completar, como afirma Marcos Lisboa, algo em torno de 800 normas comerciais novas por semana...

Temos dois problemas graves, um é da educação escolar, outro da educação social e familiar. O Brasil que temos nas escolas é fruto inequívoco do Brasil social. O que não falta neste Brasil é santo do pau oco. A lavanderia é literalmente generalizada, financeira e jurídica. Sem isto é praticamente impossível sobreviver aqui. Que exemplo damos aos nossos filhos e netos? O que vai da boca para fora? É coerente com os pequenos pecados que fazemos com toda naturalidade no dia a dia?

Não é só repensar a educação escolar. É repensar quem somos. Ou fica muito confuso para nossos filhos, netos, sobrinhos...

Senhoras e senhores, o pior crime é o silêncio, a falta de ação para corrigir o errado, o "não posso fazer nada".

domingo, 28 de junho de 2026

Festa junina de rua genuína

A filmagem é mal feita de propósito. Deixei o foco para baixo para não identificar o local. Vi pela vidr inúmeros eventos e festas organizados por comunidades locais acabarem depois que viraram "populares". Há uma monumental diferença entre o que deveria ser cultura popular e o que se faz com está.mesma cultura popular para ganhar escala. 

Infelizmente tive que ir até em casa para pegar o celular para filmar. Quando voltei a festa estava menor, principalmente porque tinha acabado o horário dos menores. Na minha primeira passagem a festa tomava toda rua, com o palco numa ponta e as crianças pequenas noutra. Estava maravilhoso, é um pouco menor seguiu assim. 

Era assim na Festa da Achiropita, San Genaro, São Vito e tantas outras. Era possível andar, parar, conversar, saborear, não ficar surdo... Festas juninas pequenas, com respeito às tradições, som em volume normal...

Infelizmente temos a horrorosa capacidade de estragar a maioria das coisas boas que temos ou tinhamos. E mais triste ainda é que não há qualquer exagero meu nesta afirmação. 

Fato é que fazia muito tempo que não via uma festa junina tão linda e agradável como esta tão mal filmada - de propósito.



Governo vai fazer algo pelos moradores de rua

Está noticiado, o Governo Federal apresentou algo em relação aos moradores de rua deste país, que segundo pesquisas já contam 380 mil, uma tragédia.

Parabéns pela iniciativa. Moradores de rua é uma questão dramática muito particular em todas sociedades, mas que aqui neste Brasil de tantas ditas e convenientes preocupações sociais só agora parece entrar na pauta do dia. Demorou. Mais um vez, a frente de uma eleição. Milagre populista? Realmente espero que não, mas tendo em vista tantos bons projetos desta dita esquerda que nos governa, não acharia estranho que mais uma vez ficasse na intenção ou os resultados acabem pífios.

Faz muito, décadas, que li uma matéria na revista Time sobre a questão dos moradores de rua em NYC. Em tradução raza, o título é "Lenta descida para o inferno". Brutal. A Time liberou um de seus jornalistas para viver seis meses nas ruas. O relato é seco, duro, brutal. Mais brutal ainda foi o artigo complementar sobre o drama da Time para tirar o repórter das ruas, o que ele não queria e lutou para não acontecer, mesmo tendo família e tendo passado o rigorosíssimo inverno congelante nova-iorquino dormindo na calçada, revirando lixo em busca de comida e tendo sido enxotado com frequência, dentre outras. Exatamente como aqui ou em qualquer lugar do planeta.

Mais ou menos na mesma época da matéria da Time, um dos que estudaram na mesma escola que estudei, foi parar na rua. Não se afastou de onde vivia e convivia, rua Augusta e travessas, o dito Jardins, local rico da cidade. Viajado, coisa rara naqueles tempos, falava fluentemente inglês e francês. Cito este caso porque a família lutou mas não conseguiu evitar que morresse como indigente. Em outras palavras, morador de rua é uma questão social muito mais específica e complexa do que parece a princípio. Já foram publicados aqui no Brasil vários textos e entrevistas com especialistas apontando as dificuldades reais no trato e recuperação deles, e não é nada fácil.

Seria interessante a publicação de um outro artigo, sem papas na língua, aprofundando a realidade dos moradores de rua, causas e consequências. E se quiserem ir mais a fundo nas causas se deve entrar na responsabilidade das cidades tanto no que toca ao econômico e pricipalmente sobre a saúde mental da população, toda, não só da periferia ou de favelas, como alguns imaginam ser o ponto de partida. Morador de rua não é uma questão só de pobreza, periferia ou ser periférico, mas uma questão de saúde psicológica coletiva. E o que é a cidade,mde todos, de tudo, tem tudo a ver com isto. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

As bets no Brasil

Sobre o editorial do Estadão 
26 de junho de 2026

A onipresença das bets tem de acabar


'A filha está ficando adolescente, então vende o sofá'. Vale a gozacão, que em outras palavras reflete a forma trivial de pensar como nós resolvemos problemas. Como tudo, a nossa questão é educação, a básica do básico, aquela que rege qual linha não se deve passar, que não é inteligente sequer se aproximar. E a falta de interesse do que acontece lá fora, das referências. E o "você sabe com quem está falando? Eu sei o que estou fazendo" que impera entre nós.

Sempre fiz minha fezinha na Mega Sena, mas confesso que tenho uma 'certa' desconfiança sobre a lisura dos jogos oficiais. Como a cidade que mais aposta no país é tão pouco premiada? Por que a lei da probabilidade tem uma variação tão... estranhamente variável? Quantos políticos já ganharam na loteria oficial? Para onde vai de fato o dinheiro arrecadado? Vai para bens sociais, como deveria? Será?

Tirando meus pensamentos conspiratórios, brasileiros têm razões de sobra para não confiar no 'oficial', o que quer que seja, incluindo jogos. Em quem você confia mais, no governo federal ou num jogador de futebol vencedor mundo afora?

Nos falta educação, a social, familiar, e a escolar, o b a ba, nos falta discernimento, capacidade de julgamento, senso pragmático. Nos falta noção de limite. Nosso problemão é o sofá da sala.

Eu gostaria de ver uma entrevista das boas, sem censura, dom jornalista inteligente fazendo perguntas para um bicheiro dos grandes que soltasse o verbo sobre o que de fato foram e são estas bets no Brasil. Eu quero muito saber qual é a história real por trás disto tudo, inclusive os reais vencedores desta história. Pensamentos conspiratórios? Será?

terça-feira, 23 de junho de 2026

De duas coisas (chatas) não se escapa nesta vida. Então, encare.

Funciona deixar passar um problema na família dizendo que vai passar, vai melhorar? Funciona esconder doença? Funciona não falar sobre as dividas? Funciona fazer de conta que algo não existe?

Via de regra deixar passar, não conversar, não se interessar acaba dando problema ou piorando muito a situação.

Não passamos da hora de começar a discutir temas importantes, mesmo os desagradáveis, mas de importância capital para cada um de nós? Eu gosto de entrar de sola nestas chatices? Sou gente como qualquer um, também prefiro sombra e água fresca.

Tem saído cada dia mais matérias, mais entrevistas, mais recomendações, para que assuntos desagradáveis sejam discutidos de forma aberta, seja com familiares, amigos, sócios, empregados, cuidadores, especialistas ou advogados..., com quer que seja. Nada mais sábio.

Toda vez que entro no tema que escrevo abaixo vejo que o número de leituras despenca. Peço encarecidamente que leiam e pensem. Por vocês próprios, encarem o inevitável. E começo com uma piada para amenizar:

Há duas coisas na vida que ninguém escapa, pagar impostos e morrer.

Estes temas são inevitáveis. Sobre imposto de renda a conversa está cada ano mais fácil. Quem é novo não faz ideia do que era entregar tudo para o contador e esperar por notícias, nem sempre boas. O IR atual é uma baba, mesmo assim coisa chata de se falar. Quem morou fora do Brasil diz que lá fora é muito mais complicado.

O tema morte não é só desagradável, o tema morte é simplesmente inevitável, ponto final. Não há escapatória, ponto final. "Nós que aqui estamos por vós esperamos", verdade verdadeira. Qualquer posicionamento contrário é de uma burrice, uma falta de auto respeito sem tamanho. Negar é masoquismo, dos piores, os mais devastadores. Não faça isso consigo.

Repito o que já escrevi várias vezes: quer melhorar e muito sua qualidade de vida? Pois então entenda o que é e deve ser morte. Não é um contrassenso. Simples, prepare-se. Não estou falando de sua morte, mas de mortes que vão acontecer pela vida.

Quer melhorar e muito a vida de todos nós, brasileiros, pois então coloque a conversa e a discussão 'morte' na pauta do dia a dia.



Comentário meu no Estadão:

Abrir a discussão sobre mortes, todas, sem excessão, urge neste país. Temos que começar de alguma forma, e os temas e a forma que Ana Cláudia traz é um ótimo ponto de partida. Brasil é um dos países mais violentos do planeta. Morte violenta não é só as de tiros, assassinatos e acidentes de trânsito, que são um descalabro total, uma vergonha nacional sem tamanho e justificativa, mas também a morte natural sem um pingo de dignidade que acontece em hospitais.

O outro lado da questão é simples de entender. Espero que nós, brasileiros, tentemos acertar esta situação vergonhosa antes que ela venha doer mais ainda em nossos bolsos, que parece ser a única coisa que se entende por aqui. Sou um brasileiro que acompanha finitudes há tempo e afirmo que o que vem acontecendo está errado, muito errado.

Afirmo com todas as letras, nós brasileiros perdemos o sentido da boa humanidade. O bom senso se foi faz muito.


PS.: T W, que está velhinha e doente, teve um treco há quadro dias. Levada para o hospital, horas depois um médico veio conversar sobre a situação, grande probabilidade de óbito em 24 horas, máximo. Pois então, 24 horas após a notícia a médica que está atendendo simplesmente não conseguiu entender a recuperação absurda que ela teve. E eu fritei a cabeça, estou exausto. Toda a equipe que cuida em casa dela, cuidadoras, enfermeira chefe e médica geriátrica, já percebeu que ela não quer morrer num hospital, mas em casa. Segundo vários relatos, são inúmeros os casos assim.

Eu tenho pensado muito no que é ou deveria ser morte. Tenho lido, tenho conversado com médicos e especialistas, tenho buscado informações. A única coisa que para mim está claro, que todas as informações não deixam mais duvidas é que do jeito que a morte vem sendo tratada no Brasil é um erro grotesco, e que se tem que fazer algo para mudar a situação. O tema não é fácil, não tenho dúvidas, mas passamos da hora de encará-lo.

Mortes no trânsito e seus números

 Recomendo que procurem via Google o número de mortos no trânsito brasileiro. É diferente do publicado aqui, muito menor. Como trabalhei na área, acredito mais no número publicado aqui. Os um pouco mais de 6 mil mortos / ano que encontrei no Google me parece pouco. Que seja, palpites costumam ser errados, mas fatos são fatos, o trânsito brasileiro é violento, principalmente quando se olha nosso PIB, aí é uma vergonha completa. Mas, como está num outro comentário, quem se importa. "Morreu, antes ele do que eu", velho ditado bem brasileiro. Dane se o outro.

Porque meu palpite vai para os mais de 13 mil publicados aqui? Simples. Tenho um amigo que fez uma pesquisa detalhada sobre acidentalidade numa das importantes cidades nordestinas. Acabou descobrindo que a Prefeitura e o órgão de trânsito não faziam ideia dos números nem da esquina mais perigosa da cidade. Um dia ele me ligou dizendo que mais de 80% dos leitos do hospital público da cidade estavam ocupados por acidentes de trânsito, quase todos motos. Não cito nomes para não criar problemas para ele, que já sofre mais que simples pressão. Ou seja, é provável que os números de mortes violentas sejam maiores, por falta de notificação. Por exemplo, não são contadas as mortes ocorridas depois de uns tantos dias pós acidente, dentre outras.

Brasileiros reclamam pesado de multas, a dita 'industria da multa'. A verdade é que o Brasil é um dos países que menos multa. Faz um tempo a CET SP divulgou um dado sobre o número de multas aplicadas X o número de multas que deveriam ser aplicadas com base no CTB. Uma vergonha! 

Sem dúvida, fiscalização e punição. É inaceitável que um nome dito 'importante' provoque uma morte porque estava a 180 km/h e só venha ser julgado anos e anos mais tarde. É inaceitável que um casal escape de condenação mesmo as provas sendo irrefutáveis. É inaceitável que aceitemos a precariedade de trabalho de nossas perícias e legistas. É inaceitável que brasileiro não entenda a importância de pesquisas e dados precisos. Mas é crível que aceite o que temos, afinal, "morreu, morreu, antes ele do que eu", definição trágica de quem somos.