"Sai do meio da rua!", falou com voz grossa e enfurecida o senhor que parou dirigindo o carro imbicado atrás e em cima de nós três, eu, um pai que acompanhava seu filho de um ano e poucos meses sentado num brinquedo de rodinhas.
Eu de longe, quando entrei na mesma rua pedalando, vi de longe o pequeno empurrando ferozmente o brinquedo pelo meio do asfalto deserto, manhã cedo de feriado, cidade vazia. Adorei, não contive o sorriso de felicidade. Rua que liga nada a lugar nenhum, sempre calma, mesmo em dias de trabalho e trânsito louco no entorno. Quase na esquina o pai me viu chegando e tranquilo pediu que o pequeno parasse, e ele, obediente e disciplinado, parou encostado ao meio fio. Foi quando me aproximei e iniciamos uma conversa. Veio um primeiro carro, diminuiu a velocidade, fiz sinal para ele passar pela esquerda, onde havia espaço de sobra, ele sorriu, deu um joia com o dedão, desviou um pouquinho e se foi acenando.
Continuamos a conversa sobre "a pequena fera voadora" enquanto o bebê olhava para nós atento e ansioso para voltar à sua correria. Ouvimos mais um carro dobrando a esquina, lá longe, quarteirão longo. Foi se aproximando e parou a uns cinco metros de nós. Não demos atenção, havia espaço para passar com folga uma caminhonete grande, mas ele não se mexeu, não esterçou nem um pouco, ficou apontando o carro para nós. Demos um "boa tarde", quem sabe ele também estivesse fascinado com o bebê sobre rodas.
Não vimos quando abriu a janela, só ouvimos o "Sai do meio da rua!" alto e grosseiro. Dei um passo a frente, o carro passou raspando, o motorista, já senhor, grunhiu algo incompreensível e se foi acelerando forte e irritado. Eu e o pai nos olhamos sem entender.
Três quarteirões abaixo, mesma hora, minutos depois...
"Tomara que você morra..." em alto e bom som de voz feminina estourou pela rua também deserta logo atrás de mim. Parei de abrir o portão e dei volta. Dou com um homem abrindo a porta traseira do carro e delicadamente tentando fazê-la entrar no carro para se acalmar. Em vão. Os urros "Tomara que você morra... tomara que morra..." Procurando pela rua, não foi facil achar, mas vi o meio corpo de uma garota sentada e encostada numa árvore, imóvel. "Morra com este teu maldito cigarro! Morra! Morra!" E finalmente o calmo e paciente marido conseguiu fazê-la entrar no carro. Mais adiante a menina sentada debaixo da árvore seguia quieta, imóvel. O carro comecou a sair da vaga e ela girou a cabeça. Eu a reconheci, uma jovem lá pelos seus 17 ou 19 anos, neta de um dos meus vizinhos. Vira e mexe ela senta debaixo da árvore e conversa com outras vizinhas da mesma idade. Nunca a vi estridente, agitada, falando alto ou com uso de palavras grosseiras. Nem sabia que fumava.

















