Sai para pedalar com um dos netos e numa das passarelas para a ciclovia do Pinheiros parei para olhar a bela vista. Chamei a atenção dele e para meu espanto descobri que ele está com problemas para ver. Não, não é uma questão de óculos, mas de funcionamento do cérebro de quem usa demais o celular. Não é besteira, é ciência, está amplamente provado, documentado e publicado em revistas científicas. Tem tanta notícia, tantos artigos científicos, foi tão noticiado, que não preciso colocar um link. Relato o que vi pessoalmente. Triste.
Parei, chamei a atenção dele, inclusive apontando, e mesmo assim ele teve dificuldade para ver o que eu apontava. Foi claro, tanto pelo girar a cabeça procurando algo, como pela expressão que fez.
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz... acho que esta é a letra da belíssima música. Olhos nos olhos? Também é certo que perdemos muito esta capacidade que deveria ser natural. Olhar, ver, dar tempo para deixar o cérebro entender o que se está olhando e vendo, um processo que a telinha transforma, ou deforma em seu foco fechado a uma área muito restrita, pré programada. Começa por aí. Uma paisagem é um campo aberto, amplo, com um grau de leitura e compreensão cheio de detalhes e sutilezas.
Estou apaixonado pela Stela Cole, uma jovem, 27 anos, linda e com uma maravilhosa voz. E estou preocupado com ela. Como venho seguindo sua trajetória, e como tenho por hábito olhar com atenção as pessoas, alguns movimentos de seu lindo rosto apontam que Stela andou tomando umas chacoalhadas brabas da vida. Tem quem não consiga ver. É treinamento. Falei sobre isto com pessoas que conhecem o trabalho dela, mas ficam mais tempo na telinha, e tive como resposta "Não percebi nada". Uau!
Faz muito que se sabe que o uso excessivo das telinhas afetam o foco do olho. Agora está claro que também afeta a forma do pensar, do entender o que se vê, e a percepção da realidade, da vida.
Fala-se muito sobre os perigos do celular no trânsito. Dirigir demanda uma adaptação da conexão olho - cérebro. Uma série de informações vão sendo vistas, lidas e transmitidas ao cérebro que sequer realizamos. Incluem o que se vê no foco e o que passa pela visão periférica. O cérebro vai limpando o que não é essencial, o que não causa perigo, o que não é interessante, assim não fica sobre carregado. Há um fluxo de informação pré estabelecido, uma série de regras fáceis de serem cumpridas, uma previsibilidade de ações, o que facilita e permite que o olho viaje na 'paisagem' aberta.
A maluquice é que nosso cérebro está se adaptando a fazer tudo junto, o dirigir e olhar para o celular que o diga. Sim, é um perigo, mas o número de acidentes per capita de motoristas olhando o celular diminuiu. Por outro lado, aumenta e muito o nível de stress e consequente desconexão com a realidade.
Faz uns dias vi uma reportagem sobre um movimento que surgiu na Europa para ficar longe do celular, tipo 'slow food'. Slow Ford? Sim, movimento nascido na Itália contrário ao fast food. Estão certos. Engolir macarronada? Não! Sente o cheiro, rala o parmesão, enrola na borda o espaguete, coloca na boca, saboreia, mastiga, engole, limpa a boca, um gole de vinho tinto da Sicília...
Eu desaprendi o olhar e ver. E não sou fã de celular. Mas acabei descobrindo que tenho que me controlar para menos, bem menos. E preciso pesquisar para ver o que faço com o neto. Minha ideia era matar o moleque, fritar o rabo dele no selim pedalando até Aparecida. Vai ver que de dor no olho de trás ele arregava os olhos e enxergava a paisagem. Não deu certo, travei a coluna.
Minha telinha a mais vem da curiosidade, da facidade de busca de informações que no passado eram chatas para conseguir ou impossíveis. De qualquer forma, menos.
