terça-feira, 8 de setembro de 2026

A nova geração tem menos vida social (aliás, como eu tive na juventude). É um erro

Uma pesquisa nos Estados Unidos mostra que a geração mais nova está participando de menos festas que as mais velhas. Mais, tem bebido menos, se preocupado muito mais com sua própria segurança, com seu bem estar, o que a jornalista diz que é uma boa coisa. Mas também tem convivido menos, feito muito menos trocas sociais tete a tete, e menos interação social reflete diretamente na saúde cardíaca, como provam inúmeras pesquisas.

A entrevista da BBC que publico aqui fala sobre uma série que questões que eu vivi e vivo, e sei muito bem o que dá. 

Olha só que chique, eu sou filho do Jardim Europa, área nobre de São Paulo e Brasil. Nasci e tive toda minha infância numa linda casa, com um belo jardim, bastante espaço, vários luxos de classe média alta, como carros, barcos, até o prazer de voar nos fins de semana. Chiquérrimo, não é? Pois bem, trocaria tudo para ter um grupo de moleques para brincar no meio da rua. 

A linda casa estava encravada num bairro chique, vazio de crianças e vida infantil nas ruas. Minha diversão na infância foi ver carros importados fazendo a longa e aberta curva da esquina cantando pneus a 'mil por hora', motos berrando em acelerações disparadas, e sonhando com uma bicicleta a motor dois tempos, barulhenta, fedorenta, que algum visinho desconhecido tinha. Ouvindo histórias de adultos que fascinam crianças. Mas outra criança para brincar... não. Ah! e TV, desde meus mais tenros aninhos, TV com regras e horário para ligar e desligar. E rádio, que ficava ligado boa parte do dia. A noite, jantar e cama. Meu irmão e minha irmã eram mais velhos, meus primos não apareciam, até tive um único amigo, Edu, que não durou muito. 

Enfim, tive uma infância isolada não muito diferente da vida das novas gerações que é descrita nesta entrevista da BBC. A diferença para hoje, e enorme, era que a estupidez paranóica dos muros transformando as casas e as vidas dentro deles ainda era bem rara. A idade média não tinha aterrissado por aqui. Fato, brincadeiras de rua com outras crianças não tive. 

A casa afundou junto com o casamento de meus pais, no fim das contas uma benção para todos. 

Quando nos mudamos para um edifício na antiga e desaparecida rua Iguatemi, hoje av. Faria Lima, comecei a descobrir a vida. Lá viviam famílias judias com filhos da mesma idade que eu. Não tenho como agradecer a eles. Ali comecei a descobrir a vida. Juntando mais alguns amigos deles, também judeus, nos divertimos muito no fundo do edifício. Quebramos sei lá quantas janelas jogando bola, e não sei como não fomos esganados. 

Não demorou muito foi construído o Shopping Center Iguatemi praticamente em frente do nosso edifício. Eu já estava na pré adolescência e tinha liberdade para sair sozinho. Repito: sozinho. Os garotos do edifício tinham lá suas vidas e boa parte do meu dia eu ficava só, vendo televisão e um pouco mais tarde ouvindo música. 

E aos 14 anos fui expulso e tive que trocar de colégio. Que benção! Começando por ser misto. Descobri que eu era gente ou que poderia ser gente. Vamos ficar com o 'poderia ser gente'. Ok, colégio novo, muito mais liberal, quase fui expulso uma semana depois porque mandei a merda a Marcia, coisa que definitivamente não se fazia naqueles tempos. Marcia virou uma grande amiga. Os anos seguintes de escola foram de um precioso aprendizado social, mas não uma vivência social. No meio de todos, mas não dentro do todo. Socializar só dentro da escola, e mais ou menos, mais para menos. Fora, eu estava fora. 

Meu aniversário de 15 anos acabou sendo um desastre. Minha mãe fez um vatapá maravilhoso (ela cozinhava divinamente bem) para todos os convidados, não sei quantos, mas minha classe do velho colégio, e o único que apareceu foi um primo. Até hoje não sei o que houve, mas ali foi marcado o jogo de minha vida. 

Meu núcleo familiar foi ótimo, de uma qualidade que hoje sei ser de rara qualidade. Uma mãe com uma inteligência familiar muito acima do normal, uma casa onde circulava todo tipo de gente, todos amigos de minha mãe ou de meus irmãos, mas gente para lá de inteligente, preparada e divertida. Meus amigos? Poucos, se tantoEm toda vida de minha mãe só houve uma briga entre os irmãos, uma única vez com meu irmão, aos berros, num jantar, no final da vida dela. Nos arrependemos brutalmente mais tarde. Depois, já com nossa mãe morta, meu irmão veio pedir desculpas. 

Minha formação acabou sendo diferente da convencional. Virei uma coisa que não se encaixava socialmente. Um outsider, introspectivo, fora das regras triviais, com interesses pouco comuns. Eu não me encaixava, e tenho certeza que os 'amigos' também não queriam que eu me encaixasse nos grupos sociais que eles viviam. Dou razão a eles. Eu não tinha prática comportamental para me integrar em festas e reuniões, o que para mim dificultava muito qualquer iniciativa. A bem da verdade fui um chato de galochas. Mais ou menos a mesma coisa que um jovem que só sabe se comunicar com o celular.

Enfim, olho para meus netos e a geração mais nova e fico angustiado com o que eles estão fazendo de suas vidas. De certa forma não há grande diferença em isolar-se frente a uma telinha com o que vivi. Não funciona. Socialização tete a tete é crucial para uma saúde mental e física, a ciência prova e comprova, não há qualquer sombra de dúvida.  

O entrevistado fala rápido. Vá até as configurações, aquele símbolo em forma de engrenagem, e reduza a velocidade do vídeo para 90%. 


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Roberto Giannetti da Fonseca, um texto manifesto

Faço das palavras de Roberto Giannetti da Fonseca as minhas. Aliás, como tenho feito.

E aí, o que fazemos para sair desta?

Ficar como está é muitíssimo mais que dar um tiro no pé. 

Um novo olhar sobre política, justiça e economia

Artigos

BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

Por Roberto Giannetti da Fonseca

da Redação

06 setembro 2026

BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

O ano era 1960, 21 de abril, feriado de Tiradentes. Aos 10 anos de idade, assistia eu, embasbacado, ao lado do meu pai, o discurso emocionado do então presidente Juscelino Kubitschek no ato de inauguração de Brasília, a nova capital do Brasil, denominada a Capital da Esperança. Aquela cerimônia de inauguração retratava não apenas a transferência física da capital brasileira, mas também um momento de transição entre o passado e o futuro, na esperança de um país progressista e justo com seus cidadãos. Triste ilusão.

Passaram-se 66 anos e muita coisa aconteceu desde então. Entre erros e acertos, a história deste nosso país chamado Brasil vem sendo desenhada pelos governos que se sucedem, até que chegamos aqui às eleições gerais de 2026. Neste longo período de mais de seis décadas, vivemos alguns momentos de confiança e otimismo. Não podemos deixar de lembrar que fomos o país com maior taxa de crescimento no mundo entre os anos 50 e 80. Sem contar a conquista de cinco campeonatos mundiais de futebol e o surgimento de heróis nacionais como Pelé e Ayrton Senna. Após 21 anos de regime militar, conseguimos retomar a democracia em 1985, logo após o histórico e patriótico movimento das Diretas Já, que reuniu no mesmo palanque todos os líderes democráticos da nação brasileira. A esperança era alta, mas a frustração logo veio nos visitar já nos primeiros anos da jovem democracia brasileira.

Superamos com bravura, nos anos 90, a crise da dívida externa que impunha ao país uma grave restrição ao crescimento econômico e, logo após, em 1994, com a eleição do presidente FHC, conseguimos debelar o monstro da hiperinflação, que corroía os salários dos mais pobres, causava uma desordem de preços relativos na economia e desmoralizava a nossa moeda como unidade monetária aos olhos do mundo. Mas o custo destas medidas não foi baixo: convivemos, a partir de então, com sucessivas crises fiscais, juros nas alturas, longos períodos de câmbio sobrevalorizado, desindustrialização progressiva e o pior de tudo, que foi a recorrente deterioração política e institucional que se verificou ao longo dos últimos 20 anos, o que nos faz sempre recordar do vaticínio do memorável deputado federal Ulysses Guimarães quando perguntado sobre a qualidade moral dos integrantes do Congresso Nacional: “Achou ruim o nível destes deputados e senadores agora eleitos? Então espera para ver os próximos daqui a quatro anos!”

Entre os escândalos da Lava Jato, do Mensalão, das emendas secretas do Congresso Nacional, do assalto às contas do INSS e a atual holística crise do Banco Master, que numa amplitude de 360º conseguiu atingir os três Poderes da República e todo o espectro político-partidário de A a Z, além de tantos outros eventos reprováveis que nem vale a pena nominar, o fato é que agora, em 2026, a chamada “Desesperança” tomou conta da alma brasileira. Nunca vi na minha vida uma eleição como esta atual, tão medíocre, seja pela baixa qualidade dos candidatos que se apresentam, seja pela falta do bom e construtivo debate das ideias e de conteúdo programático para enfrentar os graves desafios econômicos e sociais desta grandiosa nação brasileira. Brasília tornou-se a Capital da Desesperança, pois é lá que se processam todos estes desmandos que assolam o país e corroem a moral e a ética das novas gerações de brasileiros, que percebem este vale-tudo como sendo o novo “normal” — são todos assim, numa generalização perigosa.

A pergunta que devemos nos fazer todo dia de manhã, quando nos olharmos no espelho, é óbvia: “Como e quando vamos sair desta crise moral e política que supera todas as outras que já enfrentamos?”

A resposta é mais óbvia do que parece: no regime democrático, toda iniciativa se origina na sociedade civil, em primeiro lugar pela eleição de seus legítimos representantes aos cargos no Executivo e no Legislativo; ou seja, se não votarmos bem e escolhermos candidatos notoriamente corruptos e desonestos, tudo será como antes. Em segundo lugar, podemos agir pelas manifestações organizadas em nome de nossos princípios e direitos. Lembram-se de Junho de 2013 e o breve movimento Passe Livre? Ou dos caras-pintadas de Setembro de 1992? Chegamos ao mesmo ponto de intolerância, não dá mais para esperar.

Comecemos com uma analogia ao Plano Real, que combateu e venceu a hiperinflação nos anos 90. Precisamos agora que os atuais candidatos aos cargos eletivos que em breve elegeremos, e que virão nos representar em Brasília e nos 27 estados, embarquem publicamente no compromisso de apoiar e seguir um Plano Moral de acirrado combate à hipercorrupção, que hoje em dia salta aos perplexos olhos da sociedade brasileira e que destrói qualquer autoridade moral de confiança entre a sociedade e o Estado brasileiro. Só a partir desta iniciativa poderemos também combater os privilégios funcionais abusivos em todas as esferas do setor público, combater o desperdício do dinheiro público, o empreguismo corporativo, a gastança desenfreada sem controle e sem prioridade.

Não basta apresentar belos diagnósticos e medidas de como enfrentar a crise fiscal do setor público, ou de como reduzir a taxa de juros escorchantes que empobrecem o povo brasileiro e inibem os investimentos produtivos. Se a crise moral não for definitivamente debelada, assim como foi a hiperinflação nos anos 90, o fantasma da Desesperança continuará a corroer o futuro de nossa nação. Assim como em 1994 o presidente FHC reuniu os melhores economistas deste país para o combate à hiperinflação, o próximo presidente eleito, se quiser entrar para a História como um Estadista, deveria reunir um Conselho da República com 10 a 15 cidadãos notáveis, escolhidos a dedo pelo Poder Executivo, sem discriminação partidária ou ideológica, e a eles delegar a elaboração de uma ou mais PECs revisoras que reforcem o regime democrático, as instituições brasileiras em todos os níveis, e promovam as sempre adiadas reformas do Judiciário e da estrutura política brasileira.

Pode parecer ingenuidade minha, mas somente assim vejo a sociedade brasileira retomando as rédeas de seu destino e devolvendo a Esperança ao povo brasileiro.

*Roberto Giannetti da Fonseca é economista e empresário, autor dos livros “Memórias de um Trader” (2002) e “Penúltimas Memórias” (2022).