sábado, 28 de fevereiro de 2026

O paralelo entre um ciclista e este país

Fui (ou sou, sei lá) guia de passeio urbano de bicicleta, daqui a pouco fará 40 anos. Frase estranha tanto pela forma do portugues escrito quanto, para mim, os 40 anos corridos. Tempus fugit. 
Ser guia de passeio é uma boa escola de vida, passa por você um farto zoológico e situações cidadãs as mais variadas possível. Entre os ciclistas passam alguns, uns poucos, que foram marcantes pelo bem e pelo mal. Os pelo bem eu os saldo com a cabeça curvada em reverência, agradecimento e respeito. Os do mal, de todo tipo e grau, criaram os problemas mais vairados possíveis, alguns destrutivos para o próprio grupo. Incluo aqui a fofoca invejosa, uma praga maldita até bem aceita, como faz parte, vai arrasando o que estiver pela frente. "Espelho, espelho meu, tem alguém mais mais que eu?"

O mesmo acontece no ambiente de trabalho, com a diferença que num pedal o pessoal solta a franga, deixa rolar, o que pode não ser conveniente quando o salário está em jogo; aí o corno fica manso. Num passeio um chilique de vez em quando escapa e não raro é absorvido até com brincadeiras.

Em tudo nesta vida há uma forte ligação entre o micro e o macro. Não é diferente no caso do micro cosmos de um grupo de ciclistas pedalando juntos e o que acontece na vida dos ditos cidadãos. Como tudo, a organização de um simples passeio segue o básico da macro organização social.

Um destes passeios que se vê passando por aí tem um guia, responsável pelo trajeto e como o grupo vai pedalar, alguns apoiadores, que vão orientando a boiada, e a boiada, os ciclistas que estão lá para passear, fugir de casa, conversar, estar com os amigos e pedalar; via de regra nesta ordem, com fugir e casa em primeiro lugar.

Um pelotão de ciclistas profissionais de competição de alto nivel, como os de um Tour, Giro ou Vuelta, as provas mais importantes do mundo, tem uma estrutura semelhante, mas objetiva. Cada equipe tem 8 ciclistas, que são divididos em gregários, os que pedalam para ajudar os bons da equipe, e pelo menos um sprinter, o que é bom de chegada, um escalador, que é bom de subida, e um novato de futuro. Por trás destes tem os que não pedalam, chefe de equipe, treinador, mecânicos, massagistas, médicos, nutricionistas, motoristas... A hierarquia predeterminada é clara e praticamente inquebrável, tanto entre os ciclistas, quanto em relação à estrutura de suporte, identico a uma empresa rentável e vencedora.

O objetivo final é fazer certo, errar o minimo possivel, e ganhar, no final das contas uma copia do que é, ou melhor, deveria ser o objetivo final de qualquer ser humano, de qualquer sociedade ou união. 

Os passeios de bicicleta também seguem uma regra bem humana: diversão, ou, como dizem rindo, foda-se o mundo!  Aliás,  nada mais natural e esperado,  reflexo do que vivemos nesta sociedade.

Pulo para os simples mortais, nós os ciclistas urbanos, individuais e indivíduos, os que pedalam por lazer, esporte, treino e os usuários da bicicleta como modo de transporte. Entre estes, que tanto reclamam da segurança no trânsito, deveriam valer as mesmas regras estabelecidas pelo CTB, ou pelo menos comportar-se sob o básico do bom convívio social, ou cidadania.

Aqui entramos numa comparação entre micro e macro interessante: boa parte dos ciclistas se comporta civilizadamente, ou pelo menos dentro do que se está jogando como civilizado, mas uma minoria, maior e mais influente que o desejável, joga pesado com suas próprias regras, e é aceita em silêncio, mesmo prejudicando o coletivo. É um empoderamento para si próprio das regras de convivência civilizada,  as reais,  funcionais,  as que produzem resultados desejados por todos. E aí, no permitir, dar liberdade para estes usurpadores é que está o nosso problemão, e bota problemão nisto. Começa no passeio de bicicleta e termina em Brasília. Só em Brasília?

Pesquisas do governo Alemão e da CETSP sobre comportamento social apresentam resultados praticamente iguais: 90% procura ou se comporta civilizadamente, evitando cometer erros; 7% fazem lá suas besteiras, mas sabem de qual linha social não devem passar, 3% se acham donos do mundo com todos direitos e que se dane o próximo. Finalmente tem o traço dos sociopatas, um número infimo, o pior só pior dentro de um grupo social.  

"Trânsito é o melhor reflexo de uma sociedade" - Roberto da Matta, antropólogo. Não tenham dúvidas que o uso da bicicleta, e seu ciclista, reflete com precisão o que somos como sociedade.

Eu tenho medo de pedalar nas ciclovias. Tenho medo de ciclista, muito mais que de motorista. Me sinto bem desconfortável ao circular na ciclovia Capivara nos horários que os bonitinhos e bonitinhas estão "treinando".
Por que estes meus medos? Conhecimento de causa.

Como ciclista posso definir o Brasil como a ciclovia da Avenida Faria Lima. Quem pedala e já pedalou nesta ciclovia em horário de pico sabe sobre o que estou falando. Salve-se quem puder. Hoje menos, mas ainda "sai da frente, pedestre". "Motorista FDP!" E, "... o outro é culpado!", esta uma especie de hino nacional. Definitivamente este não foi o Brasil dos meus sonhos. Quase esquecendo, tudo é responsabilidade dos políticos e autoridades, nunca do ciclista (ou do cidadão).
Será?

A humanidade sempre se curvou a alguma autoridade, sempre caminhou dentro de uma hierarquia, quem manda, quem é mandado. É assim por natureza, é assim na natureza. Deveria ser assim neste país. A questão é que autoridades, quais predicados devem ter para serem considerados autoridades.

Mesmo com uns prováveis 40 milhões de ciclistas o Brasil não consegue ter um ciclista de destaque nas grandes provas de ciclismo mundial. Por que será? 
Mesmo sendo um dos territórios mais propensos a gerar riquezas no planeta, o que deveria ser terra do mais alto PIB e IDH do mesmo planeta, continuamos na mesma lenga-lenga sem resolver o básico do básico que nos maltrata e atraza.

Eu não aguento mais o silêncio dos 90%. Desculpem, mas não consigo aceitar os 3%. Sobre os do traço, filhotes dos 3%, o que dizer?
E você? 
Então, o que fazer? Vamos continuar nesta?
No passeio que sou guia estou me esforçando para por ordem no galinheiro. Chega!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A república do rabo preso. E os que abanam o rabo.


O aplicativo do Estadão sofreu uma atualização profunda no dia que tentei publicar meu comentário.

O texto de Luiz Felipe D'Ávila é um dos mais incisivos e precisos sobre o que estamos vivendo. Não dá para seguir desta forma, será muito mais que um tiro no pé. Segue o link do mesmo texto publicado no Brasilagro.

Tanto quanto A república do rabo preso, somos A república presa numa comunicação errada, ineficiente, a bem da verdade, imbecil. Os fatos, estarrecedores, estão aí faz muito e não fizemos absolutamente nada, a não ser continuar numa conversa de compadres num botequim ou a não parar de apontar o dedo no nariz do diferente enquanto vomita seu fanático posicionamento envenenado contra os que não rezam a mesma cartilha messiânica/populista. No meio do embate estupido destes ineptos, para dizer o mínimo, como que delirando o quanto o silêncio e a falta de ação é o único a se fazer, está a maioria, tão inocentes úteis e devastadores quanto os fanáticos mais cegos. Quem vomita verdades está doente, contaminado por mentiras, mais mentiras, mais mentiras. Goebbels venceu, e venceu sem saber que os ditos de direita e esquerda, tão iguais, tão gêmeos siameses em seus propósitos, embarcaram e remam o mesmo populismo devastador para o país, acreditando que não para eles próprios. 

Quem cala e se abstém deve ser encaixado no "a ignorância é uma benção" ou numa covardia suicida?

O Brasil está muito doente, doença que se agrava a cada dia, praga coletiva. E nós, brasileiros, estamos ao lado do moribundo num silêncio macabro.

A república do rabo preso, não é uma denuncia, mas descreve fatos que só podem ser descritos como psicopatia generalizada, coletiva. 

Um mínimo de leitura sobre pacientes psiquiátricos aponta o básico do básico para obter resultados no tratamento: ter uma comunicação correta entre os familiares e amigos. Ou, informar se e conscientizar se sobre o que realmente se trata e quais caminhos seguir. E principalmente comunicar se com o próximo de maneira apropriada, respeitosa. Respeitosa! Do contrário se vira refém da situação descontrolada, que é exatamente o que está acontecendo neste país.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Eu não consigo? Não consegue?

O que eu teria feito de tivesse parado com minhas frescuras tipo "não dá" há muito tempo?
Não quero pensar. Aliás, é bom não pensar mesmo, mas estou num momento no qual tudo que faço é revisar meu passado. Devia ter feito muito antes.

Esta baboseira que depois da aposentadoria vou fazer é de uma desinteligência sem tamanho. Se não faltar dinheiro, se sobrar tempo, se o corpo ainda estiver azeitado, se você não estiver preso por esganar aquele filho, neto ou qualquer outro fdp da família... Se, se, se, se... é muita condicional para ter alguma possibilidade de dar certo. 
Já que estamos nos condicionais, porque não usar o 'se' positivamente? E se eu pensar diferente? E se eu agir diferente? E se eu mandar a pqp todos estes fdp? Mas vai com calma, mande, mas sabendo o que você vai fazer com sua liberdade.

O mais importante. E se eu colocar a cara no espelho e tomar vergonha na cara? "Meu nego, você merece, você pode, você vai fazer". Nossa! Como você é fuderoso! Quero ver se vai continuar com toda esta inteligência depois que apagar a luz do banheiro. Miau! Miou. 

Como se escreve "foda-se" em letrinhas, da mesma forma que fdp ou... ou... ou... Que merda! Fiquei velho, já não me lembro mais qual é o outro palavrão que num texto educado, como este, devo me referir em código alfabético. Ah! claro, pqp! Então, puta que o pariu, não deixe para depois.
 
Tá vendo, a vida passou, não me permiti usar o bom condicional 'se', agora...
Velho repete as coisas. Cá vou eu de novo, vamos lá. 
- Não existe liberdade sem disciplina.
Fácil dizer... 


Estou em Santos. Ontem desci pedalando a estrada de manutenção da Rodovia dos Imigrantes junto com um grupo de ciclistas guiado, 50 ao todo.

"Não consigo fazer a curva". "Não consigo descer rápido". Não consegue por que? perguntei às duas que desceram também. Uma delas respondeu com tranquilidade e plena consciência: "Não sei", e está certa, não sabem mesmo. É uma maldição escondida na cabeça dela e todos nós. Não fazemos ideia de como resolver. A única coisa liquida e certa é o maldito condicional "... e se...?", e não é frescura, não consegue mesmo.

Bom, e daí, e se?
Pensa que para este aqui não teve o drama "e se eu não conseguir?" acompanhar o grupo, se cair, se... Lidar com os mosquitos de casa passando pela orelha é muito mais fácil de lidar que com o som do "se" zunindo sem cessar dentro da cabeça. 

Tive a benção de ajudar pessoas que não simplesmente não conseguiam. Todas conseguiram. Como eu fiz? Tirei o foco de cada uma delas usando as técnicas mais absurdas, nonsense puro individualizado. Tudo que não usei foi o "e se...", expressão proibida.

Como sempre, não me lembro quem, mas um dos maiores pintores de nossa história, Picasso talvez, negou que fosse um gênio, respondendo com todas as letras que era um insistente, que conseguira atravéz do trabalho, ou da repetição consciente, o caminho para cruzar as cordilheiras do "eu não consigo". 

Fórmulas prontas dão certo? "Se ele conseguiu, eu também consigo", é estimulante, mas, como tudo nesta vida tem seus limites, não é bem assim. Cada qual com o seu. 
Passo a passo, e 'se' em passos curtos, respirando fundo, mas decisivos. 

Martha Suplicy um dia disparou um "Se o estrupo for inevitável, relaxa e goza". Óbvio que deu uma puta repercussão negativa, caíram de pau nela, mas pensando bem, a analogia é ótima, um ensinamento para se guardar para toda vida como referência. 

Em qualquer situação, por pior que se imagine ser ou seja se, calma é a melhor opção. Relaxa e goza! Caiu, levanta e anda, letra de música, regra de sobrevivência, regra sobre a vivência. Viva a vida.

E se você der um passo (cuidadoso) no sentido do foda-se tudo? O que pode acontecer do outro lado da cortina? De gênio e louco todo mundo tem um pouco. Mas tenha inteligência para aproveitar o maravilhoso passeio de bicicleta na Serra do Mar sem tatuar a canela como eu fiz.

A bem da verdade, o que eu não estou conseguindo é aceitar esta normalidade. Ô coisa chata!
- Disciplina, meu caro, disciplina!

Como eu posso ajudar as duas? Está é a pergunta que me queima agora? O ... e se... que roda na minha cabeça é na busca de alternativas. Bom ... e se...
Se elas chegarem em casa felizes porque conseguiram é tudo que interessa. Se você pensar bem, interessa também a você e a todos. O bem comum sempre foi construído por quem fez sem ficar enredado em malditas inúteis incertezas incompreensíveis resumidas no ...e se...


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Selo de qualidade IMETRO?

Nas décadas de 70 e 80 o Brasil foi o terceiro maior fabricante de bicicletas do planeta. A qualidade das bicicletas estava longe de uma qualidade desejável, os defeitos se sucediam, alguns afetando a segurança do ciclista. Foi uma luta para tentar melhorar a qualidade via propostas e projetos de lei, manifestos entregues para políticos, conversas, reuniões, artigos publicados, uns tantos inimigos e muitos não levando a sério. E um dia aprovaram a obrigatoriedade de selo de qualidade IMETRO. A alegria acabou rapidinho quando ficou claro os procedimentos para aprovação e seu controle posterior. Lei brasileira, detalhes mais detalhes, mais detalhes, uma meada de procedimentos e regras sem fim, pelo menos no que se refere ao prático e funcional. 
Lá fora, no mercado de primeiro mundo, a bicicleta, um veículo, não pode apresentar qualquer defeito, ponto final. A qualidade é estabelecida em cima do conjunto, do todo, não nos pequenos detalhes. Aqui, uma bicicleta tem que ser aprovada peça por peça, detalhe por detalhe, tintim por tintim. Mudou o tamanho, modelo, forma ou mesmo detalhe de uma peça que tenha a mesma função mecânica, tem que passar por novo teste para receber o selo IMETRO. 
Para entender a brincadeira. Houve, por exemplo, uma confusão tremenda com a Ferrari, sim os responsáveis carros esportivos, mas pelas leis brasileiras precisariam ser desmontados para testes de cada detalhe, mais um crash teste. Virou piada. Não temos sequer laboratório com capacidade para isto. 
No universo das bicicletas se quis obrigar que pneus Vitória, de altíssimo rendimento, recebessem selo do IMETRO impresso para serem vendidos no Brasil. Enquanto isto alguns pneus e câmaras 'Made in Brazil' que não atendiam a um padrão minimo de qualidade recebiam o selo.
Antes destes exemplos, um modelo de bicicleta de um dos grandes foi recusado no mercado boliviano. Acabei sabendo desta história porque a propaganda da bicicleta foi feita com minha imagem... sem que eu soubesse e muito menos tivesse autorizado. Óbvio que pedalei a dita bicicleta e ela era... vamos deixar pelo "ruinzinha".
Bom, era assim, e não faço ideia de como está agora, mas...

Acabei de ver um vídeo mostrando como é a fabricação de peças com rolamentos para bicicleta da Cris King, uma joia feita em CNC com qualidade muito próxima à Fórmula 1. Parte do maquinário foi fabricado nas décadas de 50 e 60 e ainda produzem peças com precisão de milésimo de milimetro. Tornos e fresas da década de 60? Sim, Cris King fala com orgulho delas.
Já volto a está história. 

Minha briga pela qualidade das bicicletas começou numa época que nossas fábricas ainda trabalhavam no décimo de milímetro, quando tanto. Não só no setor de bicicletas vi muitas destas máquinas funcionando, algumas maravilhosamente bem, outras precariamente, sem qualquer manutenção. Uma das razões para o setor industrial de bicicleta no Brasil ter quase desaparecido do cenário mundial foi, dentre outras, o "temos que produzir, temos que vender, não importa o que". Em outras palavras, ganhar dinheiro até sucatear tudo. Não foi só aqui que fizeram esta burrice. A Raleight, o maior fabricante de bicicletas da Inglaterra e do mundo, sumiu do mapa pela mesma estupidez. Mas as Raleight tiveram algum respeito pela qualidade.

O Brasil de hoje, e o que falam os que conhecem.

Quem administra bem empresas ou dinheiro usa uma regra de ouro que a história ensinou: não colocar todos ovos numa mesma cesta. Nossa economia vai bem (?!?), mas uns poucos alertam que precisamos de um setor industrial mais forte para dividir nossos ganhos e termos mais estabilidade. Fala-se muito, e com toda a razão, na questão das leis e do sistema tributário, um caos. Ia esquecendo: a condição de nosso maquinário. O que nos ensina um Cris King? 
Fala-se pouco sobre educar a população sobre o valor e a importância estratégica da qualidade (de verdade), a melhor possível, em tudo. No final das contas quem de fato define qual qualidade um país terá é o povo. Para terminar, nossos órgãos regulatórios funcionam como deveriam? Como cidadão, digo que não me parece.

Pergunto: quanto se pode confiar num selo IMETRO? Vale alguma coisa fora do Brasil? Serve como referência para exportações? Ou o problema interno da qualidade de nossos produtos com selo IMETRO se dá pela falta de fiscalização? Ou seja, "vai, mané, que o selo garante" (que vai demorar um pouco mais para dar defeito). Qual o índice de burla ou falsificação?

IMETRO? Tive que trocar o garfo rígido de minha bicicleta 26 pela terceira vez. Imperícia minha? Não. Falta de confiança no material, não há outra opção no mercado. Ou é este ou é este, ponto. Óbvio que se fosse rico traria de fora, mas não é meu caso. Todos vieram com selo IMETRO e todos vieram desalinhados de fábrica. O que consegui trazer para o alinhamento veio com o suporte de freio a disco desalinhado e... mesmo sem ter feito um teste mecânico padrão IMETRO, afirmo que sua flexão lateral, ou torção, está fora do que deveria ser padrão de segurança. Como sei? Macaco velho que sou, 50 anos de história no meio e tendo tido umas 50 bicicletas ou mais, nacionais e importadas, baratas e caras, acho que sei quanto um garfo pode torcer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Foi ele, foi ele, o meu não fez nada!

O inacreditável desta e de histórias passadas é boa parte dos comentários feitos aqui - nos comentários das matérias publicadas pelo Estadão, mas não só.

Aparece a criançada toda manchada de chocolate. Você pergunta se mexeram nos brigadeiros antes da festa. Ninguém mexeu. Então, onde foram parar os brigadeiros? Silêncio. Vem as mães dos meninos e gritam defendendo seus filhos lambuzados. Meu filho não faz isto! O único que aparece sem manchas, aquele que diz que nunca fez nada e que a culpa é sempre dos outros, deixou o fogo ligado, queimou a panela, quase toca fogo no apartamento e mata todo mundo, é defendido pelos pais, irmãos e primos porque, diz, não entrou no brigadeiro, mesmo com a toalha da pia da cozinha estando jogada no chão ensopada e pisoteada, e tendo as mãos úmidas e os pés lavadinhos.

A gritaria está armada. Os pais quase saem no tapa. O que menos interessa neste momento é ter uma festa que comemore o futuro feliz do aniversariante, de todas as crianças, de todas as famílias, a união de todos. A única coisa que interessa é cada um defender com unhas e dentes seus filhos da acusação dita injusta. Ninguém tocou nos brigadeiros, afinal o que provam as manchas, o que prova todo brigadeiro ter desaparecido, as paredes sujas de chocolate? Enquanto a guerra está armada, a tropa do que destruiu a cozinha foge discretamente para não arcar com os prejuízos deixados. No elevador os pais se vangloriam que o filho foi o único que não tinha manchas, um exemplo para os outros.

Como está num dos comentários, se fizer uma série do Netflix com o enredo deste Brasil, será um fracasso porque não será crível, vão dizer "os carinhas exageraram".

Um dos maiores problemas em nossas escolas é a quantidade de pais de alunos que entram furiosos gritando "eu pago, vocês não tem o direito de fazer isto com meu filho".

Em outras palavras, não interessa o Brasil, a nação, seu povo, nosso futuro. Interessa defender com unhas e dentes suas posições, mesmo com um forte cheiro de queimado se espalhando por todos lados.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Ciclovia Faria Lima. Só ela virou uma bagunça?


No meio de 4 amigos, ex ciclistas profissionais com respeitáveis currículos, inclusive internacionais, ouvi deles sobre o medo, ou pavor, de pedalar nas ciclovias de São Paulo. "Prefiro peladar no meio dos carros, que é muito mais seguro. Este pessoal que pedala na ciclovia não faz ideia do que faz, além de serem grosseiros" soltou um deles seguido da concordância dos outros, e risos de todos. Não dou nomes aqui, mas digo que são reconhecidos e bem respeitados fora do Brasil, venceram provas e campeonatos do calendário internacional. Aqui são desconhecidos, por isto não servem de exemplo, não podem deixar um legado social que gostariam. Aos que os ouvem, ensinam regras importantissimas de tecnica, convivência, condução e respeito ao próximo, básico para qualquer ciclista.

Como está num dos comentários feitos aqui (no artigo do Estadão), falta educação, com certeza. Falta não só educação, a básica, aliás, a básica do básico, mas falta um minimo de civilidade, ou pior, civilidade.

A introdução da bicicleta ganhou importância mundo afora, não só pela questão da mobilidade, mas muito mais pelas transformações individuais, sociais e na qualidade de vida urbana que sua presença e uso trouxe e traz. Diminuição da violência, melhora da qualidade de vida do usuário, com acréscimo de 7 anos de vida, redução dos custos com saúde pública, melhora da micro economia local, melhora dos indices escolares dos filhos, melhora da produção no trabalho, melhora da percepção ambiental com consequente melhora do ambiente em geral, melhora do verde e qualidade da água, etc..., é o que mostram pesquisas internacionais sobre o ocorrido mundo afora.

Mesmo num centro urbano tão saturado e confuso como NYC, a introdução bem realizada da bicicleta (no cidade sustentável de Janette Sadik Khan) trouxe e segue trazendo benefícios muito além da mobilidade. Ganharam todos, ganhou toda população, ganhou a economia, ganhou a cidade, ganhou os Estados Unidos. Bicicleta bem introduzida é um ganha ganha, o que já não resta dúvidas desde 1972 quando Amsterdam e outras cidades decidiram implantá-la como parte de um extenso programa de recuperação social e urbana.

O problema que temos aqui é que Brasileiro não faz ideia do que é ou deveria ser uma cidade. Nossa noção de civilidade para no selfie, fenômeno social que nos tornamos campeões mundiais. Salve-se quem puder. Eu tenho direito. "Eu tenho direito" vem sendo discurso recorrente, se pode dizer doutrinação. Esperar o que dos usuários das ciclovias implantadas, incluindo aí os que treinam na Ciclovia do Rio Pinheiros e que não fazem ideia sequer do que é etiqueta esportiva?

No geral, como é de se esperar, "você sabe com quem está falando?". Este é nosso problema.

Perdemos uma oportunidade de ouro com a forma como a bicicleta foi e continua sendo estimulada.  Não é "a bicicleta, pela bicicleta, para a bicicleta" como foi (im)posto, mas sobre a cidade, sobre os cidadãos e no que a bicicleta pode auxiliar na mudança para uma melhora geral, para tudo, para todos, sem exceção.

Sim, "quantos km a mais melhor" foi ideologia, populismo eleitoral. Aliás não foi exceção, mas atendeu a regra geral de como se programa este país. Jogou-se dinheiro público no lixo com kms e kms de segregações que praticamente ninguém usa. Os próprios envolvidos no processo confessam que foram uns 25%. Hoje tem quem fale em bem mais.

Não só daria, como deveria ter sido feito diferente. Importantes ONGs internacionais estiveram aqui trazendo expertise sobre como introduzir a bicicleta da melhor forma. Esforço inútil. "Nós somos diferentes e fazemos do nosso jeito". O desastre está aí. Transformar uma cidade não se faz com libertinagem imobiliária, de transporte e mobilidade, como a que estamos vivendo. A experiência dos outros é preciosa, mas quem de nós se interessa? "Eu quero o meu. Eu tenho direito". E... Selfie!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Corporativismo perverso geral e irrestrito

A melhor definição sobre o Brasil é 'corporativo'. A melhor definição sobre quem somos está no "Você sabe com quem está falando?", aplicável a todos, de todas camadas sociais, sem exceção.  Por que não mudar o lema da  bandeira brasileira, de Ordem e Progresso para Você sabe com quem está falando?, seria mais honesto.

Corporativismo perverso geral e irrestrito, sempre fomos ou nos tornamos? Corporativismo perverso geral e irrestrito estamos, e não há qualquer sinal de interesse para uma mudança. Leia os jornais. "Eu não sou assim!", dirão indignados a esta minha afirmação. Numa sociedade tão corporativa, se não for corporativo dificilmente se sobrevive, social e ou financeiramente.

Virá o discurso que corporativismo e prepotência é coisa da elite, qualquer que seja, a que manda ou do dinheiro. Besteira pura. Nas favelas ou você cala a boca ou vai se dar muito mal; exatamente como na elite. Corporativismo de sobrevivência.  Pobre não é imbecil, sabe as regras do jogo, ou você imagina que na cabeça deles o celular comprado de um garoto que custa tão baratinho veio de onde? Celular e outras muitas coisas. Aliás, sejamos honestos, a mesma regra de compra se aplica a todas camadas sociais.  

Sabe com quem está falando? É discurso só dos poderosos? Quando o pedreiro, encanador, funcionário qualquer simplesmente some, e você não pode fazer nada, e não faz, é o que? Ele sabe que está protegido por uma forte rede corporativa, copiada com inteligência e qualidade daqueles que cantaram de galo no passado. 

Os três Poderes deste país tem certeza que atos absurdos não terão consequência. Nós calamos. Nós, a mortadela, os que estão entre os religiosos, crentes nos dois milagreiros que estão aí. Calamos por telhado de vidro, ou medo do corporativismo? Ou os dois juntos?

E aí vem a pergunta: que país você quer? Melhor, como nós brasileiros perdemos a noção do que é um país, o que é um macro coletivo, pior, o que ou quem é o outro, a pergunta correta é "Que vida você quer?". Selfie! 

Um corporativismo suicida só existe quando o medo da transformação impera. Melhor, o medo de agir, de se posicionar, de pensar. "Se eu for diferente fico sozinho". Que medão!

Todo ato tem uma consequência. O que acontece quando ninguém entende que todo ato tem consequência? O que acontece quando todos acreditam piamente que tem poder, que são o poder, que são a autoridade?

Muito obrigado Camila Farani pelo ótimo texto e pela coragem.