sábado, 26 de setembro de 2026

Teu candidato vai ser decidido por uma bandeirola?

"Limpar a imagem e arranjar um punhado de votos" está no subtítulo. Algum deles, candidatos, faz diferente? "São tudo bonzinho (os meus)".

Eleições sempre foram um 'me engana que eu gosto', mas nenhuma chegou perto da esculhambação que vivemos agora. Isto acontece porque eles se sentem livres para dizer e fazer qualquer coisa, e de fato estão. Quem dá este papel em branco com plenos poderes a eles somos nós. No passado eles não cruzavam certos limites porque sabiam que não teriam apoio. Hoje...

Esta não é só uma eleição para presidente, como parece que está sendo discutida e posta. É a definição de qual o tamanho do abismo que vamos nos meter. Que o abismo é certo, creio que não há mais dúvidas. Você não vê abismo, por favor, peço que acorde, pelo menos pelos seus.

Se os brasileiros tiverem um mínimo de juízo, um mínimo, vão ter muito cuidado para escolher os nomes dos deputados estaduais, federais e principalmente senadores. É a única saída. O menos pior, o voto neste para aquele não entrar, a opção mais aparentemente fácil nos trouxe até aqui. Se continuarmos com este baixíssimo nível no congresso e assembleias o que será deste país? Sendo mais claro e objetivo: o que será de sua vida e dos seus? Ou para não ficar ruim com os companheiros, os parças e os tão fiéis, vai votar no que?

"Limpar a imagem e arranjar um punhado de votos".  Algum destes candidatos está fazendo diferente? "Somo tudo bonzinho. Vote nim mim", "Deus lhe pague". Acredite, vote neles, pega o número, o número que interessa, a propaganda manda. Vai lá, aposta nesta. Não vai demorar para descobrir que as bets são um probleminha de nada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quem ganhou foram só as bets? E agora?



De 40% vai se passar para 80% as apostas ilegais? Com estes valores citados na matéria do Estadão? Uau! Isto é que é ameaça! E feita na cara dura. 

Queda da arrecadação, perdas na publicidade, falência do futebol...? Primeiro, para quem está indo a arrecadação? Perguntei para quem, não para que, pergunta mais que pertinente neste estado de coisas. Publicidade, o mercado de publicidade vai perder? Vire-se. Meus caros, é livre mercado. Vocês ganharam dinheiro com algo profundamente prejudicial ao povo brasileiro e se sentem no direito de reclamar? Futebol, aí sim é mais que pertinente perguntar para quem está indo o arrecadado. O futebol brasileiro virou... como dizer... uma fábrica de más notícias, principalmente "meteram a mão". Futebol brasileiro destruído já está, basta ver os resultados e a maravilha que é ir a estádio.

Infelizmente a Polícia Federal não tem estrutura para ir atrás de todos absurdos. Mui provavelmente iríamos ver mais muitos bonzinhos e bonitinhos de todos matizes metidos até a unha encravada nesta história. Alguém aí acredita que eles perderam esta boquinha?

Fato: o que está aí foi decisão dos poderes legislativo e executivo. Ou, de todos, com apoio irrestrito dos "nós ou eles". Fato: mais uma vez todos nós, simples mortais do povo, nus fú para valer.

Este descalabro de números absurdos, dezenas, centenas de bilhões, demonstra algo muito mais preocupante que a barbaridade que está aqui. A administração pública do país é dividida em dois, os funcionários públicos permanentes, concursados, e os que eleitos estão governando. Quem é eleito tem o poder de mandar, mas o corpo de funcionários concursados, permanente, tem seu poder, grande por sinal, e querendo ser um regulador ou mesmo freio consegue com facilidade. Dentro do serviço público tem muita gente de alta qualidade, com bom discernimento das coisas, capaz de dar bom rumo às decisões. Eu sei, entre os funcionarios por um lado há um forte corporativismo, por outro é um mato sem cachorro, os dois juntos, com foice voando no escuro. Normalmente o corporativismo do salário impõe regras. É a vida.

Um governo eleito tem o dever, ou deveria ter, de tirar da estrutura permanente do funcionalismo o melhor para criar políticas de longo prazo, políticas de Estado. Se faz isto ouvindo com respeito, o que duvido que esteja acontecendo faz muito. A surdez é generalizada, e atende bem a interesses bem particulares. As bets são fruto de um desacerto monumental generalizado. Como tudo indica está acontecendo com tudo. Impossível não prever o tamanho da mer... que se transformaria e se transformou a entrada das bets como foi feita. Há experiências internacionais que servem de referência.

Com o que se apresenta ainda tem gente que acredita que este governo é de esquerda, que tem como meta o bem só povo..., desculpem meus caros, mas acho que vocês estão mal informados. 

O que aconteceu foi política de governo, mas não só, porque foi amplamente aprovado por todos, situação e oposição, mais os pseudo neutros, os nem lá nem cá. 

Como até este buraco das bets virar um abismo sem fundo visível não havia, como ainda não há, manifestação do outro lado, os messiânicos da direita (deles), está claro que o jogo jogado era exatamente o mesmo.

Neste caso todos os dois lados assinaram a permissão desta loucura pouco se importando com o bem estar do país e de sua população.

As apostas esportivas ("bets") foram legalizadas no Brasil em dezembro de 2018, no final do governo de Michel Temer, por meio da Lei nº 13.756/2018. - pesquisa Google. Acredito que se tenha tido tempo para ajustes que evitariam a baderna que estamos vivendo. Pelo jeito não houve interesse. Por que será?

Um pedido de desculpas e a explicação

Tenho que pedir desculpas por vários textos que tenho publicado. Tenho entrado em temas e assuntos que não creio estar dentro do que este blog propõe. A bicicleta, a escola e a vida, no fundo no fundo tem a intesão de levantar pontos e ideias que ajudem a pensar e se possível agir para melhorar a qualidade de vida de todos, sem exceção. Alguns parecem desconectados do propósito, mas não o são.

Fui educado, quase condicionado, para a prioridade. No sentido coletivo o ensinamento ficou claro e é posto. No pessoal nem tanto ou pouco, mas isto é outra história que não vem ao caso.

A prioridade máxima neste momento é evitar que o Brasil colapse para valer. Nem nos piores momentos dos anos militares, que chamo de 'dentadura', e tenho minhas razões, a coisa ficou tão ruim, tão fora do controle, tão inaceitável, tão absurda como temos agora. Falo isto porque vivi num vasto meio que tinha de tudo, esquerda revolucionária, esquerda, centro, direita, direita religiosa, extrema direita, etc..., portanto me sinto cômodo no que penso. As gerações daquela época podiam ser o que se bem pensem, mas uma coisa é certa: tinham noção clara dos limites que não se devem cruzar. 

Com muitos que tenho conversado, alguns de esquerda, todos concordam que se esta escala de estupidez que vivemos hoje tivesse acontecido naqueles tempos duros, os militares teriam dado um basta inclusive metendo em cana os mais assanhadinhos da direita, da sua própria turma, como aconteceu. Há histórias endossando este meu pensamento, a mais conhecida foi eles, militares, terem dado um basta na ala mais alucinada no pós Herzog. Aliás, como foi feito pelos militares na tentativa de golpe atual quando Bolsonaro foi avisado que se continuasse seria preso.

Quis a vida que praticamente todos anos entre 1969 e 1980 eu fosse mandado para Buenos Aires nas férias. Sei bem o que um desvario como o que estamos vivendo pode fazer com um país de grande potencial. Os populismos fizeram Argentina caminhar para trás, desintegrar lentamente, durante 70 anos seguidos, com seguidos voos de galinha que sempre acabaram na goela das raposas. "Foda-se o povo". Não quero que repita aqui, mais, não quero que continue se repetindo aqui. 

Temos que encontrar um caminho seguro. Não existe segurança quando há histéricos sem controle alucinando todos em nome de seus próprios delírios.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Roubaram a placa comemorativa do...



Deprimente. Espero que recuperem. Mas... por onde começar? Roubaram mais um patrimônio histórico? Deprimente! Falando nisto... Descobriram onde foi parar a escultura de 400 kilos de bronze que foi arrancada da parede da praça Carlos Gomes? Se sabe onde foi parar tudo que foi roubado dos cemitérios, e olha que deve ter sido muito mais que os 400 kg da praça? Grana legal! Aliás, explica como alguém no meio da noite consegue arrancar um treco de 400 kg de uma parede em local público sem ser notado? Ou, num único dia roubarem 4 km de cabo elétricos, notícia que até hoje sou meio descrente, mas como todas as redes divulgaram... A plaquinha histórica é pequena... biscoito fácil, espero que recuperem, espero mesmo. Estará ainda inteira, nas mãos de quem? Desdentados ou protestantes indignados com acusações infundadas aos seus?

Roubos pequenos... por onde começar? Uma loja da Kalunga dentro de shopping de classe media alta tem em média uma perda de 5% ao dia. O mesmo para a loja da Hering, C&A, e outras... um pouco mais, um pouco menos... em dias normais... Fins de semanas e datas especiais a diversão é melhor. E as figurinhas da Copa das Coca-Cola? Ok, estou descriminando? O que será que acontece no Santa Luzia, o mercado mais chique do país, classe AAA? Nos restaurantes? "Você está brincando! Levaram o que? O lustre?" perguntei pasmado para uma amiga dona de restaurante. A coisa aqui é master muito antes do escândalo (?) Master. Farra nacional generalizada.

A plaquinha comemorativa é muito mais que uma placa. Quem tem idade para ter vivido aqueles tempos sabe o que significaram para todo país, para toda o povo, aquelas manifestações, que diga-se de passagem, eram inteligentes, não raro bem humoradas, nada parecido com a estupidez generalizada que temos hoje.

Dado que a OAB está cada dia mais ausente, nada a ver com os tempos da 'plaquinha comemorativa' arrancada do chão, será que moverá uma palha para recuperá-la? Ou permanecerá com suas preocupações corporativistas tão lucrativas que balançam em Brasília e no STF? Ora, se um dia o Brasil deixar de ter uma justiça tão corporativa e lucrativa para alguns, ou uma 'justiça', peço que tenhamos uma "práca" irremovível. Irroubável dependerá muito do que queremos ser. Digo, como civilização. Hoje somos 'Brasil'.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro... e daí?

Hoje é o dia mundial sem carro, letras minúsculas e sem aspas. Hoje deveria ser o 'Dia Mundial Sem Carro'. Poderia, deveria, seria legal, divertido. Seria. Quem se lembra.

Não lembro quando e onde criaram este dia de manifestação, que levado no bom sentido serviria para fazer a população pensar num mundo novo, pelo menos um pouco menos congestionado. Nos primeiros anos houve até uma pequena e interessante adesão. Foi diminuindo, diminuindo, diminuindo... Até me lembrei da data, não creio que vá esquecê-la, tive momentos bem divertidos nas comemorações, mas hoje, em particular, neste dia de chuva intensa e alertas de tempestades, sem carro complica. Complica dentro de uma sociedade como a nossa que perdeu seu bom humor coletivo faz tempo. 

A bem da verdade decidi escrever este texto porque na minha rede social recebi um texto de um ciclista daqueles bem ciclistas confessando que justo hoje estava de carro. "Vai de retro Satanás". Não, eu não entro nesta. Eu absolvo este pecado até porque já tive que fazer exatamente o mesmo. E absolveria caso eu não tivesse pecado igual. Quanta besteira!

Ontem abri o mapa de Manhattan no Google Maps e descobri que a Broadway Ave. praticamente desapareceu do mapa. Simples, de uma das mais importantes e movimentadas avenidas de NYC, a partir de 2007 foi transformada num espaço público para pedestres, ciclistas e quem quiser simplesmente sentar, mais o que restou para os carros,  uma simples rua separada por vasos de flores. A gritaria inicial mudou para total apoio, e mais e mais avenidas hoje estão quase sem carros, ou automóveis. Pandemia de "Dia Mundial Sem Carro", contagiante. O mesmo em Paris, Londres, etc e tal, tantas que não me lembro mais - felizmente. 

Eu não tenho mais saco para sair de carro. Se já não tinha muito, agora estourou. Não só o meu. Que tal fazer 4 km dirigindo ou como passageiro em quase uma hora? Sim. A pé se vai mais rápido. Que tal não ter mais qualquer previsibilidade de tempo de viagem num automóvel? O mesmo trajeto pode durar 15 minutos ou dar graças a Deus que conseguiu chegar em casa e não fez pipi no carro. 

'Dia Mundial Sem Carro' poderia ser o início de algo muito bom para todos, especialmente para os próprios motoristas. É muito provável que não tenha colado porque se deve ter enfiado no mesmo saco do "nós ou eles", como tudo que vem acontecendo neste país. Ideia de comunista? Carro é o simbolo do capitalismo? Nossa! que mais? Triste.

O automóvel não vai desaparecer, disse um amigo que sabe das coisas. E não vai, nem deve, não pode. Não há outra saída a não ser racionalizar seu uso. Só isto já ajuda uma barbaridade.

'Dia Mundial Sem Carro'.

PS.: Sair de bicicleta em dia de chuva é uma benção. Os motoristas ficam encalacrados, você segue em frente. Basta uma boa capa... ou não só. Os ineptos que projetaram as ciclovia e ciclofaixas esqueceram que chove, se chove junta água, se junta água faz poça, se tem poça o ciclista mesmo com a melhor capa se encharca... Como nossa educação, inclusive a Universitária, está secando, virando deserto, não ensinam o que é drenagem. Faz todo sentido.

O que dá certo no Brasil (e no mundo)

Duvido que algum candidato se interesse realmente por este precioso artigo. Nosso formato de eleição não abre espaço para colocações como a desta preciosa verdade aqui apresentada. Bandeirolas? Horário político obrigatório? Debates de duas horas com candidatos ausentes e temas genéricos? "Nós ou eles" e todos seus fanáticos seguidores já deram provas cabais que querem o poder, o resto que se dane. Acho deprimente escrever isto, mas creio com profunda tristeza que não esteja tão errado.

Chama atenção datas citadas para a criação da Embrapa, ITA e Embrear, 1969, 1970, plena 'dentadura'. E em relação ao Porto Digital, 1990, poucos anos pós 'dentadura'. Nos comentários vem outros exemplos, todos do mesmo período. Eu citaria a Engesa. Gurgel não, há muito de nacionalismo aí e desconhecimento do interno. De qualquer forma, as datas de suas criações foram dentro da 'dentadura' ou embrionadas ali. Não é uma defesa, é um fato. Algum exemplo tão notável pós ditadura? Por favor, dêem.

A única saída para o Brasil, como para qualquer sociedade do mundo, em qualquer momento da história, está na qualidade, que, como citado no texto, por vezes pode não funcionar por diversas razões externas a qualidade. Mas sem qualidade não há progresso, não há futuro, ponto. Os brasileiros, todos, de todos níveis econômicos e educacionais, sem exceção, ainda não entenderam isto. Se tivessem entendido haveria apoio maciço à pesquisa, o que definitiva e vergonhosamente não temos.


A filosofia irresponsável do precisamos de quantidade para distribuir trás consigo um futuro incerto, errático, que em algum momento vai dar problemas, vai sobra para muitos alguens, isto é líquido e certo. Muito pior é o faz de qualquer jeito, instituição brasileira, marca registrada, desastre certo.

Obrigado pelo artigo. Pena que só vá ser lido por assinantes. Fico ansioso pelos artigos complementares.

Deixo meu profundo agradecimento ao Marcos Lisboa, um brasileiro. De verdade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ler a coluna de Karnak como Manifesto pela Educação

Poucas vezes em minha vida um texto pegou tão pesado quanto este de Leandro Karnal sobre a situação da educação brasileira. Sou professor, prefiro dizer que sou educador. Como professor dei aulas em colégios estaduais por um curto período, e em particular por alguns anos, isto entre 1978 e 1984, época que a educação brasileira já apresentava problemas, mas nada na escala que se tem hoje.

A educação no Brasil entrou em colapso, e não só a educação escolar, mas a social também. As formalidades mínimas para um decente convívio social, coletivo, estão num limbo de "você sabe com quem está falando", nós ou eles, é meu direito, pandemia de celulares, selfies e redes sociais "veja meu sorriso e como sou rico, lindo, e gostoso". Ok, desculpem, ia esquecendo o politicamente correto que obriga a uma correção "como sou rica, linda e gostosa". A distorção geral do que é conhecimento e saber é um horror. 

Karnal pública um texto no Estadão, este que consegui copiar e está aqui abaixo, que é com certeza um Manifesto pela Educação do Brasil. Pedi nos comentários do Estadão que seja liberado por Karnal e o Estadão em Word ou PDF para ser divulgado para público muito além dos assinantes. Com o dito palavrão e tudo mais. 

É deprimente ver o que a educação escolar se transformou. Tem que mudar. Ou melhora ou estamos muitíssimo mais fodidos que estamos agora.

Salvem a educação. Salvem a escola. Salvem os professores. Salvem o Brasil. 

E se não entenderam, salve se quem puder, o que em qualquer hipótese não acontecerá. 

Sem educação, sem professores, você e os seus simplesmente não têm qualquer futuro, não importa quem ou o que você seja. Se você acha que estou errado..., bom, aí... fazer o que? Meu caro, a história não mente.

Leandro Karnal, muito muito obrigado. 



Estadão 

Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião


Quando a admiração pelo professor passa ao influenciador, a crise não é da escola - é da sociedade
Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula. A desilusão tem causas objetivas: Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte
Por 
20/09/2026 | 05h30
Sócrates não cobrava. Os sofistas, sim. O debate sobre o preço de ensinar é tão antigo quanto a filosofia ocidental, e parece que nunca o resolvemos. No Brasil de 2026, entretanto, o problema mudou de foco.

Os números assustam quem quiser olhar. Entre 2010 e 2021, houve uma redução de cerca de 26% nas matrículas em cursos de formação de professores no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. Um quarto dos aspirantes simplesmente desapareceu. Evaporaram para onde? Para cursos tecnológicos, para o empreendedorismo digital, para a vida adulta precoce dos aplicativos de entrega. Qualquer lugar virou opção, menos a sala de aula.

Há um dado que eu repetiria em qualquer mesa de jantar, só para ver a reação dos comensais. Das 2,8 milhões de vagas ofertadas em cursos de licenciatura em 2021, apenas 300 mil foram preenchidas. Apenas 15% dos quase 4 milhões de ingressantes em cursos superiores optam por licenciatura. Mais de 50% dos matriculados abandonam a formação antes de concluí-la. Traduzo: abrimos as portas da vocação, e os corredores estão vazios. Quem entra desiste. Quem não desiste chega ao fim desencantado e, por vezes, endividado. Minha área de formação virou um território de crise.

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A desilusão tem causas objetivas. Salário baixo, sala superlotada, violência escolar, desprestígio social, pais que desautorizam, celulares que disputam a atenção, redes sociais que difamam o docente por esporte. O rendimento médio do professor brasileiro da educação básica com nível superior foi de cerca de R$ 5.500 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica (Todos pela Educação, com dados do Inep e da RAIS), enquanto a média da OCDE chega praticamente ao dobro. Mas há também uma causa subjetiva, menos discutida: o professor deixou de ser figura de aspiração. O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador. A menina que queria ser professora agora quer ser algo, qualquer coisa, que produza conteúdo em vídeo vertical. Pesquisa Varkey de 2018, em 35 países, colocou o Brasil em último lugar em prestígio docente: ficamos atrás inclusive da Argentina, da Colômbia e do Peru.

Sala de aula vazia na Escola Estadual Tacísio Alvees Lobo (Eetal), na Feguesia do Ó, em São Paulo, em foto de janeiro de 2001. Foto: Celso Junior/Estadão
Opinião por Leandro Karnal
É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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Tudo Sobre
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Karnal, parabéns! Sua análise toca no âmago da questão. Apesar de já não ser mais jovem, ainda me recordo dos meus professores com afeto, e com o passar dos anos, apercebi-me de suas limitações, afinal todos temos no exercício de nossas profissões e tarefas, e de suas magnanimidades. Infelizmente, fico sempre com a sensação de que, apesar dos "estímulos" do governos, de que há um profundo interesse dos deles em manterem a população no desconhecimento e na ignorância.
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Olhando para a realidade sem filtros, sinto que a sala de aula virou um doloroso teste de resistência. Exigimos que um professor exausto dispute a atenção de mentes hiperestimuladas, pagando um salário que ridiculariza o ato de ensinar. Mas o erro é culpar a tecnologia ou demonizar o jovem. Para quem enfrenta a precarização, a tela oferece uma rota real de fuga, ao passo que o diploma virou uma promessa vazia. Trata-se do colapso de um pacto onde a atenção virou moeda e o esforço paciente perdeu valor. O influenciador não substituiu o mestre por carisma, mas porque a sociedade mercantilizou o imediatismo e abandonou a base do saber. Se a escola não ressignificar seu papel diante dessa economia do engajamento, restará apenas a ilusão dos tutoriais vazios. Taxar a busca dos jovens pela monetização digital como uma fantasia revela um ponto cego diante da precarização do mercado de trabalho tradicional. Para a periferia, a tela representa uma estratégia de sobrevivência racional e imediata, uma vez que a promessa de ascensão social por meio do diploma universitário perdeu eficácia prática. Em outras palavras, a crise da educação não decorre de uma hipnose tecnológica da juventude, mas do colapso de um pacto social onde a escola permaneceu engessada, o diploma perdeu sua força de ascensão e a tela se tornou a única rota palpável de sobrevivência material e validação em um mundo dominado pela pressa.
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Em relação à sociedade, eu vejo todo dia porque trabalho como secretário de escola. Todo santo dia várias mães e pais ficam indo na escola retirar o filho ou filha mais cedo sempre alegando os mais variados motivos, só que a maioria fala médico e dentista, e sabemos que vários é mentira. É um desrespeito enorme com a educação. E a cada buscada interrompe a aula e atrapalha todos: o professor, os alunos e o próprio aluno que está indo embora. E se questionamos esses pais, eles acham ruim ainda, acham que estão certos. Além disso, vários alunos inventando dor para ir embora, com o detalhe de a maioria ser tudo depois do recreio, e pior: os pais ainda buscam, por isso fica mal acostumado e vira meio de vida. E mais uma situação: hoje se o professor chama a atenção do aluno, a mãe ou o pai vai lá querer falar com a diretoria para reclamar do professor. A situação tá bem difícil. Isso também foi um desabafo da minha parte. O buraco está bem fundo mesmo. A sociedade não valoriza a educação, essa é a realidade.
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A PND do ano passado teve um milhão e setenta mil inscritos, ou seja, há muito licenciado em prontidão. Ao contrário do que dizem, há muito, mas muito mais diplomados do que o que pode ser absorvido pela necessidade. Caso se considere a tendência de redução do crescimento populacional, isso se acentua mais. Além disso, o professor não é mais, nunca foi, o único que pode ensinar hoje. Recomendo o Mariano Fernandez Enguita, intelectual espanhol muito reconhecido: "hoje não nada que se possa aprender na escola que não possa ser aprendido fora dela". As coisas mudam, gente.
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Meus parabéns caro Professor Karnal. É espantoso, à Luz da tragédia que a sociedade brasileira passa com o desmonte da estrutura republicana e democrática, na esteria de um projeto (Brasil República de fato) que nunca se realizou totalmente, vermos um sem número de bandeirolas nas cidades brasileiras estampando políticos e aspirantes aos cargos da atual eleição como se tudo estivesse um maravilhoso espetáculo. Tenho muita convicção de que o riso dos políticos nestas fotos é de nós e não para nós. Estamos assistindo um circo de horrores na gestão da coisa pública em todos os níveis e o seu diagnóstico é muito preciso. Temo que o estado Orwelliano que vivemos e o aparelhamento do estado, junto da inércia do poder do Centrão e os resquícios do poder concentrado nos donos das Capitanias Hereditárias estejam em rota de colisão com o que o senhor aponta como diagnóstico. No momento é só ladeira abaixo. Que Deus nos ajude.
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Hoje já li diversas notícias em vários veículos de comunicação. Essa coluna foi a que mais me deixou abalada por sua realidade nua e crua. Estamos preocupados e falando amplamente sobre o crescimento da IA e seus perigos na sociedade? Isso é um detalhe pequeno em comparação a falta de educadores em nossa sociedade. Esse artigo cumpriu seu papel: me fez pensar muito, mas também me deixou apreensiva .
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Professor parabéns pelo verdadeiro texto. Como seu colega de docência veja a cada ano o desprestígio da profissão, o desinteresse e a ausência de qualquer política pública verdadeira sobre a educação. Os governos e os candidatos nesse tema falham miseravelmente. Uma tragédia.
É um dos textos mais pesados que li na vida, pior, absolutamente realista. É um manifesto. Peço encarecidamente que o Estadão e Karnal liberem este documento em Word ou PDF para divulgação pública. Tem que ganhar outra escala, muito além da nossa, assinantes. Por favor, liberem.
“Não haverá um Brasil que valerá a pena num futuro imediato…” é ser muito otimista, professor. O nosso pobre Brasil está indo ladeira abaixo na educação, na segurança, na infraestrutura e não há menor esperança de que o cenário vai mudar nas próximas décadas. Na matéria de capa hoje aqui no Estadão o assunto é o estrago que a atitude do ‘ministro’ Dino fez na campanha de reeleição de Lula. O que aconteceu essa semana no STF foi vergonhoso e absurdo, mas o governo só faz as contas de quanto o episódio vai interferir nas eleições. É só isso que interessa ao governo: se reeleger. A educação? A segurança? A saúde? Não é problema deles…
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Se daqui a 10 anos professores forem substituídos por salas de videoconferência com IA dando aulas, não se espantem. Se daqui a 10 anos, influenciadores forem convidados para dar aulas, também não se espantem.