"Tá maluco? História do Renault Teimoso? Que porra é esta?". Este questionamento fiz a mim mesmo, e a ideia do texto ficou nos rascunhos por um bom tempo.
Ok, fiquei maluco, ou sou maluco, pelo menos um pouquinho com certeza, mas, contudo, entretanto, agora, teimoso, consigui fechar o que pensei apoiado em entrevistas / chamamentos para a SP Innovation Week sobre luxo.
Preciso procurar de novo um artigo muito bom comparando o gasto energético dos automóveis de 1960 para os de hoje, o ponto de partida para o que tínhamos em tempos passados e o que temos hoje, e aí não falo sobre automóveis, mas sobre forma, função, e sustentabilidade. Como disse um dos cientistas que participaram para a SPIW:
‘Não há saída para crise climática dentro dos marcos do capitalismo’
Emergência climática é uma realidade. Não temos planeta B. Não há segunda chance quando se trata de corrigir a rota que estamos percorrendo
Prof. Josemar Carvalho
A história do Renault Teimoso
Luxo e inteligência, ou a íntima ligação do luxo - real - com o melhor da inteligência humana.
E aí vem uma enorme confusão sobre o que é luxo. Os gênios, os que têm uma inteligência acima do normal, os que sabem exatamente o que é luxo, que conhecem o público, que criam luxo, estes olham com muito respeito para algumas coisas - as verdadeiramente geniais - até as que vem da pobreza, que fazem parte da pobreza. Inteligência é inteligência, não é aparência. Em outras palavras, luxo extrapola e muito o conceito rasteiro, e pobre, muito pobre, sobre o que é luxo, e ou sua ligação íntima com custo, dinheiro, riqueza.
Aliás, o que é riqueza, a real?
Renault Teimoso? Um luxo? Estou louco? Não. Renault Teimoso, VW Pé de Boi, Citroen 2CV, Renault 4, Mini Morris, Fiat Panda, e outros carros extremamente básicos, funcionais, econômicos, eficientes, e principalmente de impacto ambiental baixo na produção e uso. Funcionariam hoje? Aposto que seriam um fracasso. Mas o conceito básico deles é um luxo total, alguns são coisa de gênios, basta colocar na perspectiva correta.
O que é luxo? O que é luxo hoje? O que deveria ser luxo?
Trabant 601 se encaixa aí? A meu ver não, pelo menos no sentido mais amplo. A ideia básica é boa, a qualidade é ruim, o bichinho foi muito mal fabricado, tipo o povo precisa, não tem outra opção, que se danem. Estes são elementos básicos do luxo - da inteligência? Não. Luxo tem uma relação muito forte com qualidade. E qualidade com inteligência.
No meio de um bate papo com uma executiva de primeira linha que tem olhos bem abertos para o que ela considera luxo, veio a baila a importancia de ensinar o que é qualidade para os filhos e mais jovens, quando fui bruscamente interrompido por um "Como assim, qualidade?" disparado por ela. Eu e a senhora ao meu lado ficamos desnorteados com o questionamento, mas não deveríamos, é só mais um sinal claro do porque de nossa pobreza, e aí entenda o que seu luxo de cabeça quiser.
O Renault Teimoso é um Renault Dophine / Gordini rapado de toda e qualquer coisa não essencial para a função mais básica de um automóvel, ou seja, transportar pessoas e cargas de lá para cá . Dophine é um projeto muito inteligente, revolucionário para sua época. Não teve o sucesso devido por problemas de qualidade, não de projeto. O Teimoso é tão espartano, tão limpo, tão cru, que caiu no "tá de gozacão?".
Agora, Teimoso, Pé de Boi, e outros extremamente básicos são hoje o máximo do luxo ambiental. Ou seriam caso seus conceitos básicos fossem a base para automóveis modernos que incorporassem tecnologias funcionais que surgiram nestes anos. Nada de vidro elétrico ou de confortos exagerados. Economia, racionalidade, eficiência, isto sim. Para que serve um monte de opcionais que nunca serão usados? São um luxo? Isto é luxo? O meio ambiente que se dane?
Acho que o primeiro Gol, o quadradinho, pesava em torno de 700 kg. Um Teimoso pesava menos. O mais básico dos básicos de hoje pesa uns 300 kg a mais, muito em razão de um montão de coisas dispensáveis. Quanto é o gasto energético por quilo? A resposta mais direta e facil de entender está num comparativo com base científica feito entre ciclistas profissionais de diferentes pesos, e afirmo, é muito.
Automóvel, luxo, bicicleta, energia? Enlouqueceu de vez?
Básico: quanto mais pesado, maior o gasto de energia para se movimentar; física pura e inequívoca.
No país onde o luxo extravagante surgiu, França, a história dos automóveis que foram criados no pré e pós WWII, são um luxo de inteligência. Forma e função levados ao mais alto grau de responsabilidade social. Ok, a fabricação foi francesa. "Life is too short to drive a french car", diziam os americanos, lá com suas boas razões. O Daphini vendido no mercado americano derretia - literalmente - em uns dois anos.
Este vídeo conta a história do Honda CVCC de 1969, o carrinho que mudou a história da indústria mundial: simples, funcional, durável, economico. Como tudo realmente deveria ser.
E chegam os japoneses, olham, entendem, copiam tudo que aprenderam das melhores ideias e projetos, com uma grande diferença: o fazem com uma qualidade apurada, da correção dos erros, detalhes, ao processo de produção e produto entregue ao consumidor.
Eu teria um Renault Teimoso? Não, por uma simples razão, eu sou muito grande para conseguir dirigi-lo. Mas um Renault 4, um pouco menos básico e bem mais espaçoso por dentro, com certeza. Ou um Fiat Panda, o da primeira geração. Minha dúvida aí é cruel. Hoje dirijo um Honda Fit primeira geração, no final das contas tão genial, tão funcional, inteligente, tão luxo quanto um destes carrinhos que citei.
Escrever sobre o Teimoso? Não, sobre o luxo que é pensar com qualidade o que é luxo de verdade. Quem não entendeu agora provavelmente entenderá num futuro não muito distante.

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