sábado, 19 de setembro de 2026

Passageiros sem civilidade

Faz uns 20 anos fiz uma pesquisa de trabalho sobre transporte público aqui em São Paulo. Fui até a SPTrans, fui recebido por uma diretora. Questionei sobre qual seria o maior problema para os motoristas de ônibus. A resposta, dada de imediato e sem titubear: os passageiros. Perplexo, achando que a resposta era uma piada, a diretora contou que as empresas de ônibus estavam com um sério problema para renovar seu plantel de motoristas, uma geração inteira estava se aposentando, e que por causa disto a SPTrans tinha acabado de realizar uma extensa pesquisa. Praticamente todos motoristas responderam que o problema não era o trânsito, nem o barulho do ônibus, nem salário, ou outros, mas ter que lidar com o público, com os passageiros. "Se tirar o passageiro eu trabalho feliz" foi o que mais se ouviu. Quem se transporta por ônibus sabe bem o que os motoristas falam. Eles tem toda razão. O que se vê hoje é lastimável.

É deprimente saber que está medida da ANAC não tenha sido tomada antes, e muito muito antes. E não só ter controle de um mínimo de civilidade dentro dos aviões, mas também dentro dos aeroportos.

Brasil se transformou há muito no país do "você sabe com quem está falando?". Os problemas em vôo são reflexo de um comportamento generalizado, que começa no papelzinho jogado no chão e termina no deprimente exemplo do STF, nesta ordem.

"Você sabe com quem está falando?", ou o nosso maravilhoso "nós ou eles", que só está aí porque a imensa maioria dos cidadãos brasileiros, repito, cidadãos brasileiros, calam perante absurdos. Passaram a acreditar que cidadania e civilidade só existe nos extremos. Deprimente

Saber distinguir uma emoção da outra, saber filtrar, aprender a tolerar. Nos comentários aqui do Estadão vivo batendo na questão da cidadania, que remete à disciplina social e tolerância, o que neste país do "você sabe com quem está falando" praticamente desapareceu, o que por sua vez vem criando uma quantidade enorme de pequenos traumas coletivos. O resultado está neste insuportável "nós ou eles".

Como educador me pergunto constantemente como se pode tirar toda uma população de vícios destrutivos? A resposta talvez esteja em comer os pequenos traumas pelas bordas.

Ótimo artigo, Luciana Garbin

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