segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Roberto Giannetti da Fonseca, um texto manifesto

Faço das palavras de Roberto Giannetti da Fonseca as minhas. Aliás, como tenho feito.

E aí, o que fazemos para sair desta?

Ficar como está é muitíssimo mais que dar um tiro no pé. 

Um novo olhar sobre política, justiça e economia

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BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

Por Roberto Giannetti da Fonseca

da Redação

06 setembro 2026

BRASÍLIA, a Capital da Desesperança

O ano era 1960, 21 de abril, feriado de Tiradentes. Aos 10 anos de idade, assistia eu, embasbacado, ao lado do meu pai, o discurso emocionado do então presidente Juscelino Kubitschek no ato de inauguração de Brasília, a nova capital do Brasil, denominada a Capital da Esperança. Aquela cerimônia de inauguração retratava não apenas a transferência física da capital brasileira, mas também um momento de transição entre o passado e o futuro, na esperança de um país progressista e justo com seus cidadãos. Triste ilusão.

Passaram-se 66 anos e muita coisa aconteceu desde então. Entre erros e acertos, a história deste nosso país chamado Brasil vem sendo desenhada pelos governos que se sucedem, até que chegamos aqui às eleições gerais de 2026. Neste longo período de mais de seis décadas, vivemos alguns momentos de confiança e otimismo. Não podemos deixar de lembrar que fomos o país com maior taxa de crescimento no mundo entre os anos 50 e 80. Sem contar a conquista de cinco campeonatos mundiais de futebol e o surgimento de heróis nacionais como Pelé e Ayrton Senna. Após 21 anos de regime militar, conseguimos retomar a democracia em 1985, logo após o histórico e patriótico movimento das Diretas Já, que reuniu no mesmo palanque todos os líderes democráticos da nação brasileira. A esperança era alta, mas a frustração logo veio nos visitar já nos primeiros anos da jovem democracia brasileira.

Superamos com bravura, nos anos 90, a crise da dívida externa que impunha ao país uma grave restrição ao crescimento econômico e, logo após, em 1994, com a eleição do presidente FHC, conseguimos debelar o monstro da hiperinflação, que corroía os salários dos mais pobres, causava uma desordem de preços relativos na economia e desmoralizava a nossa moeda como unidade monetária aos olhos do mundo. Mas o custo destas medidas não foi baixo: convivemos, a partir de então, com sucessivas crises fiscais, juros nas alturas, longos períodos de câmbio sobrevalorizado, desindustrialização progressiva e o pior de tudo, que foi a recorrente deterioração política e institucional que se verificou ao longo dos últimos 20 anos, o que nos faz sempre recordar do vaticínio do memorável deputado federal Ulysses Guimarães quando perguntado sobre a qualidade moral dos integrantes do Congresso Nacional: “Achou ruim o nível destes deputados e senadores agora eleitos? Então espera para ver os próximos daqui a quatro anos!”

Entre os escândalos da Lava Jato, do Mensalão, das emendas secretas do Congresso Nacional, do assalto às contas do INSS e a atual holística crise do Banco Master, que numa amplitude de 360º conseguiu atingir os três Poderes da República e todo o espectro político-partidário de A a Z, além de tantos outros eventos reprováveis que nem vale a pena nominar, o fato é que agora, em 2026, a chamada “Desesperança” tomou conta da alma brasileira. Nunca vi na minha vida uma eleição como esta atual, tão medíocre, seja pela baixa qualidade dos candidatos que se apresentam, seja pela falta do bom e construtivo debate das ideias e de conteúdo programático para enfrentar os graves desafios econômicos e sociais desta grandiosa nação brasileira. Brasília tornou-se a Capital da Desesperança, pois é lá que se processam todos estes desmandos que assolam o país e corroem a moral e a ética das novas gerações de brasileiros, que percebem este vale-tudo como sendo o novo “normal” — são todos assim, numa generalização perigosa.

A pergunta que devemos nos fazer todo dia de manhã, quando nos olharmos no espelho, é óbvia: “Como e quando vamos sair desta crise moral e política que supera todas as outras que já enfrentamos?”

A resposta é mais óbvia do que parece: no regime democrático, toda iniciativa se origina na sociedade civil, em primeiro lugar pela eleição de seus legítimos representantes aos cargos no Executivo e no Legislativo; ou seja, se não votarmos bem e escolhermos candidatos notoriamente corruptos e desonestos, tudo será como antes. Em segundo lugar, podemos agir pelas manifestações organizadas em nome de nossos princípios e direitos. Lembram-se de Junho de 2013 e o breve movimento Passe Livre? Ou dos caras-pintadas de Setembro de 1992? Chegamos ao mesmo ponto de intolerância, não dá mais para esperar.

Comecemos com uma analogia ao Plano Real, que combateu e venceu a hiperinflação nos anos 90. Precisamos agora que os atuais candidatos aos cargos eletivos que em breve elegeremos, e que virão nos representar em Brasília e nos 27 estados, embarquem publicamente no compromisso de apoiar e seguir um Plano Moral de acirrado combate à hipercorrupção, que hoje em dia salta aos perplexos olhos da sociedade brasileira e que destrói qualquer autoridade moral de confiança entre a sociedade e o Estado brasileiro. Só a partir desta iniciativa poderemos também combater os privilégios funcionais abusivos em todas as esferas do setor público, combater o desperdício do dinheiro público, o empreguismo corporativo, a gastança desenfreada sem controle e sem prioridade.

Não basta apresentar belos diagnósticos e medidas de como enfrentar a crise fiscal do setor público, ou de como reduzir a taxa de juros escorchantes que empobrecem o povo brasileiro e inibem os investimentos produtivos. Se a crise moral não for definitivamente debelada, assim como foi a hiperinflação nos anos 90, o fantasma da Desesperança continuará a corroer o futuro de nossa nação. Assim como em 1994 o presidente FHC reuniu os melhores economistas deste país para o combate à hiperinflação, o próximo presidente eleito, se quiser entrar para a História como um Estadista, deveria reunir um Conselho da República com 10 a 15 cidadãos notáveis, escolhidos a dedo pelo Poder Executivo, sem discriminação partidária ou ideológica, e a eles delegar a elaboração de uma ou mais PECs revisoras que reforcem o regime democrático, as instituições brasileiras em todos os níveis, e promovam as sempre adiadas reformas do Judiciário e da estrutura política brasileira.

Pode parecer ingenuidade minha, mas somente assim vejo a sociedade brasileira retomando as rédeas de seu destino e devolvendo a Esperança ao povo brasileiro.

*Roberto Giannetti da Fonseca é economista e empresário, autor dos livros “Memórias de um Trader” (2002) e “Penúltimas Memórias” (2022).


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