quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A guerra das merdas - literalmente; e os merdas

Vim morar nesta casinha em 1987. Naquele tempo a rua era muito tranquila, não ligava nada a nada, crianças brincavam e as velhas fofocavam, todos no meio da rua sem qualquer preocupação. Claro que tinham dois partidos de fofocas, não importava sobre o que, fofoca é fofoca, e as que tendo alguma fofoca estavam lá, juntavam se rapidamente os dois lados mais uma espécie de centrão, as ouvintes que só queriam aproveitar. 

As duas alas eram capitaneadas por duas senhoras que eram vizinhas de muro, uma mais ativa e outra mais na dela. As duas não se bicavam. Uma reclamava dos cachorros da outra, viviam as turras.

E um dia, não se sabe como, por que ou quem, voou merda por cima do muro, o que não demorou muito para ser retaliado na mesma moeda, leia-se merda. E pegou fogo, ou, melhor, deu merda - literalmente. As duas deixaram de aparecer para suas fofocas, mas é lógico que a merda espalhou em fofocas que eram notícias de última hora. "Urgente! Última notícia! Urgente! Voou merda!"

E os policiais foram chamados, não se sabe por quem. Pararam a viatura na frente das casas, chamaram as duas, ouviram até perder a paciência, e mantendo uma calma que quem estava em volta ficou espantado, disseram que elas tinham que parar e que se não parassem iriam as duas para a delegacia. 

Dia seguinte a.mesma merda para tudo quanto era lado. Da rua era possível sentir o cheiro de merda no ar, não era preciso vê-las voando para saber o clima de merda que ali reinava. E mais uma vez foi chamada a polícia, que mais uma vez apareceu, deu uma bronca nas velhas, que aparentemente colocaram o rabo entre as pernas. Que nada! Não tardou e merda voando para tudo quanto era canto.

A terceira chegada da polícia foi apoteótica. Dobraram a esquina sirene ligada, frearam cantando pneu, abriram as portas da viatura antes mesmo de parar, perfilaram se e gritaram para que as velhas aparecessem. Para surpresa do público presente só apareceu a velhinha que era mais mansa na fofoca. Ouviu de cabeça baixa e jurou que se comportaria, que pararia com a guerra. E de fato, para o espanto geral da rua, parou.

Dia seguinte de novo o espalhafato do carro de polícia e seus policiais, os mesmos, pressionados pelo delegado e.muito mais pela vontade de matar as 'véias'. Param na frente da casa da velhinha de língua afiada, tocam a campainha uma vez, duas, três, e tendo sido avisados pelas outras velhinhas da rua que ela estava em casa, urraram que se ela não saisse iriam invadir a casa. E lá vem a velha. "O delegado mandou avisar que ou a senhora para de ligar para encher nosso saco ou vai presa, vai ser colocada na jaula com as outras presas, as bandidas, as ladras, as putas, as bêbadas, e... as assassinas. Ai vamos ver se a senhora sossega". Ela ainda tentou argumentar, talvez para manter sua moral frente ao povo e as velhinhas da fofoca, mas o policial levantou um dedo e gritou a pleno pulmão "Calada!". E ela calou. Foi assim o fim da guerra da merda, que tantas lembranças de merda deixaram para esta pacata rua. 


É inacreditável o que se lê, principalmente em alguns comentários. Minúcias técnicas? O jornalismo é o culpado? Tal ministro tem que ser fortalecido porque atende aos meus interesses? Os juristas são uns imbecis (o que não está escrito, mas subentendido)? 

Senhores, não importa de que lado vocês estão, o que está aí não interessa a absolutamente ninguém. Estamos dentro de um salão, com luzes apagadas, quebrando tudo que está a frente, achando que esta baderna nos vai dar futuro, ou vai dar o futuro que um ou outro lado sonham. Não vai, esta é a única verdade, não vai. Mesmo que um lado vença, o resultado final será muito frágil. Mais, a casa vai estar em ruínas, o que não atende a nenhum interesse, nenhum.

A casa já está em ruínas, não dá para perceber? Que tal acalmar um pouco e começar a colocar as coisas numa ordem minima para que se possa sentar e conversar feito gente grande, como adultos?

Os manifestos e suas muitas assinaturas apontam que tem cada dia mais gente tentando acender uma luz. É minha esperança. 

Aos que estão encostados nas paredes ouvindo a pancadaria, por favor, vão para o meio do salão e acalmem a situação sem se importar de receberão cadeiradas pelas costas. 

Há uma verdade incontestável na história: Trate com respeito deus inimigos. Toda e wualq forma de tratamento só diferente sempre deu errado. É História com H maiúsculo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário