segunda-feira, 6 de maio de 2013

mi Buenos Aires querida


Eu ainda me sinto em casa em Buenos Aires e acredito que sempre vou me sentir. Durante muitos anos foi minha cidade de alma. Quando a situação financeira de minha família estava bem ruim era mais barato que fosse mandado para lá nas férias de verão. Ficava no apartamento de meu amado avô Arturo. Foram muitos verões, principalmente entre 1969 a 1984. Gastei muita sola por aquelas ruas, olhando apaixonado a boa e arquitetura, vários épocas e estilos, rica, charmosa, cativante. Nunca tive dinheiro para aproveitar melhor e ir a bares, restaurantes, sair a noite estava fora de cogitação, mesmo assim curti demais.

Foi em Buenos Aires que aprendi na prática a olhar a cidade. Não entendia nem gostava de São Paulo. Meu avô e os Garcia Frugoni, principalmente Fernando filho, procuravam sempre que podiam me levar junto para algum trabalho na rua ou laser. Com seu primeiro carro, Fernando ficava rodando a esmo, tanto pelo prazer de dirigir, como para “levantar unas chicas” (paquerar), no que eu era muito útil por ser brasileiro. Bons tempos... E a ‘Capital Federal’ ia passando pela janela do carro. Ou com meu avô nos ‘micros’ (ônibus). Ou então a paisagem ia surgindo degrau a degrau surpreendente e imponente, cheia de vida, a cada saída estreita do ‘subte’ (subterrâneo, metro).
Nesta época pedalar em Buenos Aires era impensável por que o carro era prático, desejável, e havia uma lei que proibia a circulação de veículos movidos a sangue, portanto bicicletas incluídas. Creio que derrubaram esta lei lá pelos anos 90. Meu pai, nascido em 1932, conta que a circulação de carroças e carruagens era comum na sua juventude, fosse para vários tipos de entrega, transporte de cargas e passageiros, cortejos fúnebres; e a av. Santa Fé então tinha calçamento em madeira justamente não machucar as patas dos cavalos.

Só vim pedalar em Buenos Aires em 2008. Foi uma experiência ótima, tranquila, mesmo conhecendo bem a rápida desordem com que se movimenta o trânsito porteño. Ficamos dois dias com bicicletas alugadas, circulando por todas as partes. Pegamos as bicicletas em Flores, fomos até o estádio do River, passamos por todo Parque Palermo, que é grande e maravilhoso, circulamos pelos bairros mais chiques, pelo Centro, enfim, gastamos os pedais. A brincadeira só acabou no dia seguinte quando, no canal da Boca, me enfiaram uma 45 automática no meio da testa e levaram minha bicicleta. Tereza atendeu meu pedido e se afastou. A história é ridícula-cômica: parei para fotografar a ponte levadiça (da foto) e no banco da rua, justamente atrás de mim, estavam tirando ‘la siesta’ três moleques assaltantes. Acordados pelo turista não poderiam deixar passar a oportunidade. Ainda tomei um murro no olho, mas a máquina fotográfica e a foto voltaram para casa.
Acabo de voltar de Buenos Aires. O que me espantou é o aumento de ciclistas circulando por todas as partes. Nunca vi uma mudança tão grande. Entre os porteños não há quem não comente o fenômeno. Meus parentes disseram que a grande mudança vem de uns dois anos para cá, se tanto. O fato é que neste meio tempo, entre 2008 e agora, foi implantado o início de um sistema cicloviário integrado que é bem interessante e funcional. As ciclovias geralmente são estreitas, tem algo próximo a 1,50m para mão dupla, posicionadas a esquerda da mão de direção da via, com uma sinalização algumas vezes precária, mas funciona. As antigas faixas para ciclistas nas avenidas principais, também a esquerda, ainda são utilizadas, tanto por ciclistas como por veículos estacionados.

Os ciclistas vão de roupa e bicicleta normal, ou seja, pedalam para transportar-se e muito pouco para estar na moda ou mostrar status, como é comum aqui. Ciclista vestido de franga pedalando bicicleta cara, ou seja, brincando de ciclista profissional ou americano rico, é raro. Tem gente treinando, mas ai estão treinando, e nos parques, não no sistema cicloviário. A maioria quer sair de um ponto e chegar noutro com rapidez e sem pegar trânsito, que cada dia está pior, mesmo a cidade sendo toda quadriculada. É difícil ver alguém barbarizando, todos simplesmente vão. Muitas mulheres e idosos, numa proporção quase dos meus sonhos para terras tupinambás, tupiniquins e até guaranis.
Experimentei as bicicletas coletivas de Buenos Aires (http://mejorenbici.buenosaires.gob.ar/) e a experiência foi boa. A bicicletinha é simples, feminina, com uma geometria de quadro bem estranha, curta e com movimento central muito alto, todas um tanto judiadas e com manutenção um tanto precária, mas rodam. Tive que fazer ajuste nos freios, que simplesmente não paravam; desentortar o cobre corrente; mas a bicicletinha rodou, mesmo que algumas vezes a catraca tenha travado e virando fixa. Pontos negativos são o canote de selim, em metal de baixa qualidade, de pouco diâmetro e curto; e o grampo de selim, em aço estampado, portanto pontudo, que marca o canote e dificulta o ajuste. A sensação é que o projeto foi feito para mulheres e não homens, principalmente os mais altos.

Circular por esta nova Buenos Aires é uma experiência para lá de agradável. É só não pegar um grupo de ‘tarados’ protestando qualquer coisa ininteligível, o que fácil acontecer, principalmente na área central.
Como já escrevi, a Argentina está uma baderna econômica, com uma cotação de dólar oficial patética, o que faz com que o dólar paralelo seja cotado a quase o dobro do oficial. Estas palhaçadas populistas costumam ser ótimas para os turistas

Deixo umas dicas:
La Biela: http://www.labiela.com/esp/home.php - tradição pura

El Cuartito - http://www.guiaoleo.com.ar/restaurantes/El-Cuartito-104 - maravilhosa pizza de massa grossa, como a romana. A casa tem longa história na boemia porteña. Experimente a pizza de cebola
Rodi Bar - http://www.guiaoleo.com.ar/restaurantes/Rodi-408 - excelente. Restaurante tradicional da comunidade que está a mais de 40 anos com o mesmo dono, cardápio, gosto... Comparado aos ditos restaurantes chiques de São Paulo dá de 10 X 0. A recomendação pode ser o cardápio inteiro, mas principalmente a berinjela é memorável.

Via Flaminia Helados, na calle Florida 121, com seu ‘Super Dulce de Leche’, sorvete de doce de leite misturado com doce de leite....
Nucha - http://nucha.com.ar/ - o bolo, ou torta, de chocolate amargo com uma fina camada de doce de leite é um crime. Não é o único crime da casa. O que não recomendo é o chocolatinho que acompanha o café, indigno da casa.

Galeria Santa Fé – av. Santa Fé quase com calle Rodrigues Peña. Pequena galeria dos anos 50 – provavelmente – patrimônio de BsAs, com um charme arquitetônico quase único. Tem um belo café.


Tealosophy – Recoleta – Hotel Alvear - http://www.citylog.com.ar/tealosophyrecoleta - uma das melhores casas de chá da América do Sul. Sabores quase inigualáveis.

Palermo Soho – principalmente a Plazoleta Julio Cortaza – é o local da moda de BsAs e tem seu charme especial. Bons lugares para comer e se divertir, dia e noite

Guido Mocasines - http://www.guidomocasines.com.ar/  - referência em qualidade de sapatos – até entre os argentinos. Maravilhosos

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O preço de uma pichação e a Teoria das Janelas Quebradas


Creio que já tenha escrito sobre uma palestra realizada dentro do edifício da Prefeitura de São Paulo, quando um dos administradores do mais conhecido como ‘Tolerância Zero’ de Nova Iorque, mostrou planilhas com o custo para a cidade de lixo, sujeira, pichações, mendigos e outros problemas ou distorções urbanas e sociais. Há correntes a favor e contra, principalmente entre a esquerda oportunista, mas não resta dúvida que qualidade, ou seja, regras, limites, baixa tolerância com distorções destrutivas, etc... dá resultado. Não há como negar.

Repito sempre: o melhor exemplo de tolerância zero, ou qualidade, como queiram, está numas filmagens antigas do Terminal Barra Funda de São Paulo, que mostram a mudança de comportamento dos passageiros dentro da área da CPTM e depois que cruzavam as catracas para usar o Metro.

Nova Iorque prova hoje que há uma diferença monstruosa entre procurar manter a ordem e reprimir diferenças. O contraste com um filme de propaganda da ‘comunista’ capital da Coreia do Norte é brutal. Questão de princípios... E tem partidos que colocam manifesto público aquele país...

A discussão vai longe, exceto no ponto onde ela bate na qualidade, portanto na diminuição de custos, no espalhamento do bem para todos, na educação, caráter... O resto é semântica, normalmente populista e destrutiva.

Dois textos abaixo completam esta postagem, um que circula em mensagem e outro fruto de uma breve pesquisa.
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mensagem circulando na Internet, seguida de ponto de origem e texto do Wikipedia
TEORIA DAS JANELAS PARTIDAS

Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o Prof. Philip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social.

Deixou duas viaturas abandonadas na via pública, duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor.

Uma deixou em Bronx, na altura uma zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia.

Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram.

Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.

É comum atribuir à pobreza as causas de delito.
Atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras, (da direita e da esquerda).

Contudo, a experiência em questão não terminou aí.

Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto.


O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre.
Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?
Não se trata de pobreza.

Evidentemente é algo que tem que ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, como o "vale tudo".

Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a 'Teoria das Janelas Partidas', a mesma que de um ponto de vista criminalístico conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.


Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais.

Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem 'pequenas faltas' (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves.

Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor a criminalidade) , estes mesmos espaços abandonados pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinquentes.

A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade.

Começou-se por combater as pequenas transgressões: graffitis deteriorando o lugar, sujeira das estacões, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens.

Os resultados foram evidentes.

Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de 'Tolerância Zero'.

A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana.

O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão 'Tolerância Zero' soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança.

Não se trata de linchar o delinquente, nem da prepotência da polícia, de fato, a respeito dos abusos de autoridade deve também aplicar-se a tolerância zero.

Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito.

Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja
em nosso bairro, na vila ou condominio onde vivemos, não só em cidades grandes.

A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.

Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.

Pense nisso!

Provável link de onde foi traduzido o texto acima

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“…..
According to scholars, zero tolerance is the concept of giving carte blanche to the police for the inflexible repression of minor offenses, homeless people and the disorders associated with them.[10][11][12] A well known criticism to this approach is that it redefines social problems in terms of security,[13] it considers the poor as criminals, and it reduces crimes to only "street crimes", those committed by lower social classes, excluding white-collar crimes.[14]

On the historical examples of the application of zero tolerance kind of policies, nearly all the scientific studies conclude that it didn't play a leading role in the reduction of crimes, a role which is instead claimed by its advocates. On the other hand, large majorities of people who living in communities in which zero tolerance policing has been followed believe that in fact has played a key, leading role in reducing crime in their communities.[14] It has been alleged that in New York City, the decline of crimes rate started well before Rudy Giuliani came to power, in 1993, and none of the decreasing processes had particular inflection under him.[14][15] and that in the same period of time, the decrease in crime was the same in the other major US cities, even those with an opposite security policy. But the experience of the vast majority of New Yorkers led them to precisely the opposite conclusion and allowed a Republican to win, and hold, the Mayor's office for the first time in decades in large part because of the perception that zero tolerance policing was key to the improving crime situation in New York City. On the other hand, some argue that in the years 1984-7 New York already experienced a policy similar to Giuliani's one, but it faced a crime increase instead.[14]

Two American specialists, Edward Maguire, a Professor at American University, and John Eck from the University of Cincinnati, rigorously evaluated all the scientific work designed to test the effectiveness of the police in the fight against crime. They concluded that "neither the number of policemen engaged in the battle, or internal changes and organizational culture of law enforcement agencies (such as the introduction of community policing) have by themselves impact on the evolution of offenses."[14][16]

The crime decrease was due not the work of the police and judiciary, but to economic and demographic factors. The main ones were an unprecedented economic growth with jobs for millions of young people, and a shift from the use of crack towards other drugs.[14][17]

etc...”

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Argentina argentina

Minha primeira lembrança de Buenos Aires data do inverno de 1966, de meu tio Zico me pegando no Aeroparque com um pequeno Fiat 600 branco e me entregando no apartamento de meu avô Arturo (Raul), que ficava na calle Ayacucho quase com av. Santa Fé. Ai descobri a delícia de um apartamento aquecido, de ter água quente em abundancia no chuveiro, não sentir frio dentro de casa. Civilização. O café da manha sempre cheirava a torradas quase queimadas, a manteiga tinha gosto de manteiga, geleias com sabor acentuado da fruta... E o abrir da porta do edifício para o vento gélido da rua.

Creio que já no dia seguinte acompanhei meu avô ao trabalho, no centro, e descemos do micro (ônibus) na esquina da Santa Fé com Florida. Ali estavam estacionados vários mini-carros, do tamanho ou mesmo menores que o Fiat 600. Maravilhosos Goggomobile, Isetas, Bianchis...  Eram meu tamanho. Calle Florida era um mar de gente vestidos de maneira sóbria, formalmente educados, cumprimentando-se e perguntando sobre familiares com naturalidade. Eu era apresentado pelo velho Arturo, meu avô, a todos com orgulho. Um dia teve que ir ao banco e providenciou meu primeiro blazer e gravata, ou eu não poderia entrar no banco, mesmo sendo uma criança de 11 anos.
As formalidades eram muitas, voltadas para o acolhedor. Foi nesta estadia, em La Plata, que meu avô me ensinou a dirigir numa rua ou estrada secundária. De noite, já debaixo dos lençóis, ele veio me parabenizar pela primeira vez ao volante e também para dar um conselho que marcou minha vida de condutor: “Lembre-se sempre que para conduzir (dirigir) bem você deve evitar usar os freios”. Verdade pura e absoluta.

Uns anos mais tarde voltei, já com carteira de habilitação, e tive o segundo aprendizado prático sobre condução ao estilo porteño : “Vai! (não freia)”. Buenos Aires é uma cidade planejada, quadriculada. As avenidas tinham os semáforos em “ola”(onda) e se o carro mantivesse uns 50 km/h praticamente seguia-se sem parar.  Nas ruas estreitas dos internos de bairros eram raros os semáforos e fazia-se a aproximação da esquina aliviando o acelerador e ajeitando para passar pela frente ou por trás do veículo que cruzava. Parque de diversão! Também foi lá que aprendi que espelho e seta são simples acessórios quando se sabe mudar de direção com suavidade. Play the game! Tive a melhor escola possível, principalmente para minha opção pela bicicleta. Ciclismo é a arte da suavidade. Usou o freio perdeu energia, quebrou a inércia, cansou, aumentou os riscos. Depois daquilo qualquer trânsito virou brincadeira.
Buenos Aires e Argentina começaram a afundar muito antes da Guerra das Malvinas, ou Falklands, como queira. Havia distorções sociais claramente notáveis, mesmo que tudo parecesse muito normal e equilibrado. Não era sequer necessário sair do seu grupo de amigos ou mudar de nível social para perceber uma deformação no ar. Como um país tão bom, rico, educado, pode ter se enfiado na truculência política dos anos de chumbo? Fácil explicar. Basta lembrar o trânsito de então.

Não tive meus cabelos cumpridos raspados a força numa delegacia por que na hora H soltava o português de turista perdido. As histórias de Lopes Rega, El Brujo, e Isabelita mais parecem Kafka, que hoje em dia, nos tempos repetitivos de Cristina, são tão citados. As conversas, de todos, eram truculentas, radicais, apaixonadas, muitas vezes quase psicóticas, mistura de fé inabalável, igreja católica ortodoxa, e complexo de inferioridade bem educada. Como o trânsito, fluente, caótico, veloz, tão organizado com em uma corrida de pretendentes saudosistas de Fangio. Os acidentes eram brutais, com carros simplesmente desintegrados em plena avenida Libertadores (ou em qualquer outra via, expressa ou não). Os carros seguiam amassados, mas seguiam.
Venceram, cada um a seu tempo e forma, os radicais, a bem dizer os fascistas, todos, de todos tipos e credos, principalmente os populistas, os peronistas de todos tipos e credos. Vi o país perder lentamente a pujança do passado, despedaçada pela saudade, ilusões, mentiras, como uma mão que prende na moenda, e vai levando o pulso, antebraço...

Buenos Aires, hoje, não difere da cidade de outros tempos ruins. Acompanhei praticamente todas as principais crises argentinas, mas não tenho referência de situação tão apavorante quanto a que o governo de Cristina Kirchner está impondo ao futuro. A cidade símbolo deste país riquíssimo ainda reflete, favelizada, mesmo onde é mais rica e limpa, a ilusão de uma Europa. Continua tendo uma qualidade de vida alta para os padrões brasileiros, com muita gente nas ruas, crianças e velhos incluídos, alegres falantes ou reclamantes falantes (mas sempre falantes). Hoje tem um trânsito muito pesado, nada nem próximo ao que temos no país do nunca antes IPI zero, mas já socialmente destrutivo. Há pichações, muitas pichações, o que sempre foi impensável. Mendigos aos montes. La Casa Rosada está cercada de faixas e reclamantes, alguns com frases e slogans ridículos, fora do contexto da mínima sensatez. Por toda cidade Evita vive de fato e Gardel canta cada dia melhor, como uma flecha indicativa do caminho do delírio coletivo. Pelo que os jornais publicam, quando decidirem internar Cristina no hospício judiciário ela já terá fugido segura com seus comparsas para qualquer paraíso fiscal. Infelizmente não consegui encontrar o editorial do La Nacion do último domingo, 28 de Abril de 2013, que é o melhor retrato do suicídio financeiro e social de uma nação.
Suzana Gimenez, uma famosa apresentadora de programas de televisão, deve estar pelos 70 anos de idade. Na capa da revista que leva seu nome aparece como uma mulher cheinha de uns 30 anos, quando tanto. Photoshop completo. Realidade zero. Realidade argentina. Olho, pergunto a menina que me trás o café e ela responde sorrindo: “Si, es Suzana Gimenez, la misma de siempre.” É uma revista cara, voltada para um nível social mais alto, com sonhos de vida que só uns poucos tocaram. É a Cara(s) dos pampas. Talvez seja este o caminho. Tem até ciclista nas ruas. Quando Suzana Gimenez era jovem, coisa que nunca cheguei a ver, estava proibido a circulação de todos meios de transportes movidos por sangue quente, incluindo bicicletas. Pelo menos os ciclistas estão por todas as partes, vestidos normalmente, com bicicletas normais.
 




terça-feira, 30 de abril de 2013

Palo em la rueda

"La Presidenta (da Argentina, Cristina Kirchner) reclamo que no le pongan palos en lá roda", numa expressão típica do ciclismo. "Colocar um pau na roda (dianteira da bicicleta)" para fazer o ciclista capotar referia-se ela. É interessante ver uma autoridade de um pais onde a bicicleta praticamente nao existia para toda sociedade até bem pouco tempo sair com um ditado tão peculiar. Impressiona mais quando penso que a quatro anos, que foi a ultima vez que estive aqui, era muito difícil encontrar ciclistas circulando pelas ruas portenhas. A mudança de dois anos para cá, segundo os próprios portenhos, foi grande, não só por conta da introdução do inicio de um sistema cicloviario e algumas bicicletas publicas, mas principalmente por que uma parte significativa da população aderiu sem problemas ao uso da bicicleta como modo de transporte. Para quem não sabe, o automóvel é parte importantíssima da cultura argentina, traço cultural muito mais enraizado que no Brasil.
Cristina Kirchner, uma populista da pior espécie, usa todos os recursos possíveis de comunicação, como é típico aos da mesma laia.
Neste exato momento estou sentado em uma da poucas áreas de Buenos Aires que faz jus a esta riquíssima cidade. O resto esta se desfazendo, literalmente. Para entender o tamanho do estrago que o kirchenerismo fez e segue fazendo na Argentina procurem, se encontrar, e leiam o editorial do Lá Nacion deste ultimo domingo, 28 de abril de 2013. Poucas vezes em minha vida li algo tão assustador. Argentina já acabou. Não é força de expressão. Hace mucho que le meteron un palo em la rueda del futuro desta gente. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Etiqueta social sem tempo

Encontrei um livro velho que foi de uma tia, Ligia Marx, e que passou para as mãos de minha mãe. O livro de Etiqueta, de Amy Vanderbilt, 1962, que folheei rapidamente e acabei lendo a introdução escrita pela própria Amy, me surpreendeu pela atualidade e bom senso. Na penúltima página, que está abaixo, uma leitura obrigatória para todos nós da sociedade do automóvel, ciclistas ou não. Etiqueta, ou seja, civilidade, é a saída mais fácil desta insanidade que vivemos hoje.





segunda-feira, 22 de abril de 2013

Quando morrerei?

1989: atrasado para o trabalho, fiz a curva muito rápido e toquei o pedal no chão, o que me fez capotar de frente. Fiquei estendido no asfalto, na porta de uma loja, e nenhum dos que estavam lá olhando para mim saíram para me socorrer.

1992: passou por mim um caminhão de cerveja enquanto estava parado para abastecer num posto de Queluz, Rio de Janeiro. Sai em seguida e uns quilômetros depois a estrada parou por que o caminhão de cerveja havia tombado na pista. A horda começou a correr para o caminhão, não para socorrer o caminhoneiro, mas para saquear as cervejas.
1996: inexperiente com bicicletas de estrada, terminando uma curva tracionei forte no asfalto sujo de arreia e a bicicleta saiu de baixo imediatamente, num tombo duro, seco, muito dolorido. Fiquei estendido no meio da curva, numa esquina de avenida, na frente de um posto de gasolina. Todos ficaram olhando. Ninguém se mexeu.
Hoje, uma da manha: um bêbado ou alguém usando celular simplesmente entrou na traseira de meu carro estacionado, que foi arrastado e arrebentou o carro da frente, de um amigo. P.T.. Apesar do forte estrondo que a batida provavelmente causou, e do carro que bateu ter seguramente ficado muito deformado, portanto com dificuldades de mover-se e fugir, nenhum dos seguranças, parados 24 horas no edifício do outro lado da rua, viram absolutamente nada...
Agora: o garoto empurrando um carrinho de mão com caixas pesadas cruza a rua que no instante não tinha carros. A roda do carrinho de mão trava num buraco exatamente no meio da rua e o menino não consegue tirá-lo de lá. O semáforo  abre e os carros vem na direção do menino assustado. Ninguém para. Uma menina passa por ele olhando o celular e sem as duas mãos no volante. Provavelmente sequer percebeu o garoto desesperado.
A família do jovem de 19 anos Vitor Hugo Deppman repetiu o mesmíssimo discurso de outras famílias vítimas de barbáries semelhantes: a morte do filho não será em vão...
Um garoto de 15 anos aparece morto nos trilhos. Não há testemunhas. No meio da empurra-empurra do embarque ele pode ter caído nos trilhos. Não há mais respeito pelos outros e vale a lei do mais forte ou esperto para fazer a viagem sentado, não importa o que tenha ficado para trás.
Renan Calheiros, Presidente do Senado Federal do Brasil... Paulo Maluf...
Silêncio

Continuará assim.
Amo a vida. Mas, me pergunto toda vez que chego à porta de minha casa: quando serei executado por um merdinha de um assaltante qualquer?

Boa vida..., morte desnecessária


A lua no horizonte parece uma banana da terra de tão grande e amarelada. Está baixa, próximo a linha dos telhados e árvores. Linda. O céu está limpo pelo vento e é possível ver as estrelas mais brilhantes. Não consigo mais me lembrar como era este mesmo céu na minha infância, mas lembro claramente quando foi instalado um farol para minha pequena bicicleta. Levava uma pilha imensa, praticamente não iluminava nada, mas tinha uma buzina acionada por um botão vermelho que ficava ao alcance do dedão. A temperatura da noite era parecida com a desta noite. Devia haver um céu maravilhoso, mas certamente não olhei. Fico feliz por estar pedalando numa noite de temperatura amena de mais um outono. Fico feliz por ter límpido na memória aquela minha fuga para experimentar o farol com buzina de lata em forma de foguete. Poderia ter tomado um tombo enquanto pedalava porque não parava de olhar para o presente luminoso e barulhento.

A bicicleta estava parada do lado de fora da garagem. Surpresa, das bem boas, de pai, que instalou e foi para dentro ler e não me avisou de nada. Peguei a bicicleta, acendi o farol, dei uma volta no cimentado e antes de começar a segunda volta vi o pesado portão de madeira aberto. Em silêncio fugi. Dobrei a direita, passei pela frente de casa sem ser visto; cheguei ao vizinho e a partir de lá me senti livre, tão livre quanto me sinto olhando para a banana da terra pendurada no céu de hoje. Dobrei a esquina buzinando, desci pedalando forte pela calçada irregular só olhando o farol. Um pouco a frente a calçada ficava escura por causa da grande árvore que cobria a luz do poste e deformava o piso com suas raizes. Meu farol funcionava, provavelmente iluminando muito pouco, mas aos olhos dos meus sonhos de criança... Cheguei quieto e feliz. Fui dormir como se não me lembrasse de antes ter entrado tão leve numa cama. Estou voltando para casa e talvez pelo friozinho as ruas estejam vazias e quietas, como era comum em minha infância. A lua banana da terra aparece inteira nas esquinas e entrecortada pelas copas das árvores no meio dos quarteirões que se seguem. O jantar com meu pai foi ótimo, como normalmente o é, mas sempre comemos muito. Depois de aposentado o velho decidiu fazer cozinha gourmet e a faz para valer. Salada fresca e crocante, maravilhoso risoto ao funghi com osso buco, compotas de peras, café e limoncello geladérrimo de saída. Chic! Voltar de bicicleta debaixo da lua. Banho quente, leitar e pegar um livro. Talvez um chá quente antes de apagar as luzes. Feliz. Boa vida...
Pela manha foram divulgadas as imagens de Victor Hugo Deppman sendo assassinado na porta de casa. Param um segundo antes de sua cabeça ser atingida. O assassino completou 18 anos três dias mais tarde. Entregou-se a Polícia consciente que era “de menor” e logo saiu pela porta da frente. É a lei. A família de Victor, em entrevistas, diz que a morte do filho não pode ser em vão. Não se faz apostas sobre tais barbáries, mas certamente não mudará nada. Nem no próximo. Nem no próximo. Nem no próximo. Nem no próximo. Nem no próximo.... Nem no próximo