quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dois exemplos


Sexta-feira, 02 de Junho de 2012, estive no evento realizado na Assembleia dos Deputados do Estado de São Paulo e promovido pelo Partido Verde relativo ao Dia do Meio Ambiente. Foi uma experiência assas interessante e ao mesmo tempo um tanto assustadora. O evento foi levado por políticos ligados a grupos evangélicos, com leitura de Salmo, agradecimentos a Deus, cantorias gospel, e homenageados: “o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos Edson Giriboni; a atriz Letícia Sabatella, ativista social e ambiental; a jornalista e cicloativista Renata Falzoni; o projeto TAMAR-Ubatuba, o Portal Ciclo Vivo; e a estilista que atua com moda sustentável Consuello Matroni” (lista retirada do site do PV); mais o Prefeito de Rio das Pedras e Marcelinho Carioca (não citados pelo site do PV).

Entre os acontecimentos que me pareceram “exóticos”, o Prefeito de Rio das Pedras recebeu sua homenagem e fez o agradecimento para “meu pastor”, no caso o presidente da mesa (Deputado do Estado de São Paulo pelo PV), como se aquilo fosse uma conversa entre amigos de culto e o povo ali sentado (eleitores) simplesmente não existisse.

Outra situação que não entendi bem foi uma das razões para a homenagem para Marcelinho, que parece ser um empreendimento que os dois, Marcelinho e alguém da mesa diretora, têm em conjunto. De novo, e me desculpem, mas não entendi bem o que eles falaram; ou se entendi direito prefiro não ter entendido.

Creio que todo aquele evento esteja gravado na TV Assembleia SP para quem quiser ver. Desculpem, mas que Assembleia era aquela, a do povo de São Paulo ou a de Deus? Não tenho a menor dúvida que dentro da casa que representa o povo qualquer solenidade ou evento de caráter oficial deve se ater a um formalismo chato, mas neutralizador, que serve exatamente para respeitar todos credos, raças, gêneros, etc.., sem qualquer exceção. Protocolo, meus caros, protocolo! O Estado não deve ser laico?

Infelizmente a política no Brasil virou uma terra de ninguém. Gostaria de conhecer alguém que se sente representado para entender as coisas. Vai ver que mudou algo que eu ainda não pesquei e que é bom. Eu não consigo enxergar. Sinto o Brasil de meus sonhos profundamente traído e quero achar um caminho para reconstruí-lo. Isto que está ai é...





Na manha seguinte ao evento na Assembleia aconteceu uma reunião promovida pelo Ciclocidade e Ciclobr para preparação de um documento reivindicatório que será entregue aos candidatos à Prefeitura de São Paulo. A reunião foi clara, objetiva, focada, demonstrando que temos uma nova geração de lideranças que sabe o que quer e faz corretamente. O documento que será criado tem por base uma pesquisa realizada, que está tabulada, foi apresentada e discutida de maneira neutra, madura para entrar em outro estágio de revisão e só então sairá o documento final; como deve realmente deve ser feito.

Sai de lá realmente feliz, principalmente porque venho, desde os anos 80, chamando as lideranças da bicicleta para fizessem isto, sem grande sucesso. Até criei uma espécie de manual para criação de um documento reivindicatório no site Escola de Bicicleta - http://www.escoladebicicleta.com.br/cicloativismoEB.html - para ver se estimulava outros manifestos, mas desconheço algum resultado. Ficaria muito feliz se estiver enganado. Aqui em São Paulo principalmente eu e o Sérgio Luís fazíamos toda eleição um documento reivindicatório próprio para o momento e eleição e saíamos entregando, mas definitivamente dois pássaros não fazem revoada. Hoje, pelo que vi, temos uma bela revoada de pássaros que querem voar longe e conhecem um norte. Parabéns garotada!




Acredito que o Brasil está passando por um dos piores momentos da história que eu vivi. Quando tudo está aparentemente tranquilo é que as pessoas relaxam e põe tudo a perder. Não se perde oportunidades. Dinheiro não nasce em árvore. Não tenho dúvida que o Brasil está desperdiçando uma oportunidade única para construir um futuro. O que temos é uma imensa ilusão, ou pior ainda: uma monstruosa enganação. A base de sustentação do país hoje, infraestrutura, educação, saúde, segurança social, é muito mais frágil do que era antes. Cidades justas, equilibradas, com futuro, não se fazem com IPI baixo, estímulo ao carro individualista, TV e linha branca. Se isto ai é socialismo, sou mico de circo de cavalinhos.

E ai vivencio estes dois exemplos sociais, um oficial, de partido político importante, numa casa de representantes importantíssima no cenário brasileiro; e o outro realizado por um grupo de jovens “internéticos” da sociedade civil.  Pena que vocês não estivem juntos para ver os eventos tirar suas próprias conclusões.

sábado, 2 de junho de 2012

B.O.


Algumas lógicas parecem que são difíceis de ser aprendidas. Há alguma razão humana que faz com que as pessoas tenham grande dificuldade de entender que 1 mais 1 tem como resultado 2, nem mais nem menos. Mas é assim que caminha a humanidade. Uns mais, outros menos. Somos todos humanos. Buscamos paz e felicidade por caminhos que facilmente transformam 1 mais 1 em qualquer coisa, e ai os resultados normalmente acabam bem longe do esperado.

Uma destas somas mal feitas é acreditar que 1 (leia-se “um”), no caso “eu próprio”, não precisa de outro 1 (leia-se “um”) para se transformar em dois. A famosa equação do individualismo, tão praticado principalmente no trânsito brasileiro ou na segurança pessoal (dentre outros). É acreditar que tocando sozinho vai fazer som de orquestra. Definitivamente não vai – ponto final!

Para ter uma orquestra afinada é necessário ter um grupo de músicos com noção de coletivo e um maestro, que conhece a partitura, sabe ouvir, reconhece as qualidades, defeitos e erros de cada um dos músicos. Quanto mais afinado o trabalho de todos melhor o resultado. Se houver um individualismo, um achismo, um que não queira ou consiga se encaixar, e pronto, a música vai doer no ouvido. Explicação óbvia. Exatamente o mesmo vale para segurança. Metáfora não tão óbvia.

Simples: ou todos temos segurança ou ninguém tem segurança de fato. Não há variáveis. Segurança só existe num casamento estável com o coletivo. É uma questão de inteligência. Coletividade: foi assim que a humanidade se desenvolveu. Esta é a razão porque surgiram os agrupamentos sociais e as cidades. É uma questão de sabedoria, de construção uma matemática prática: dois são mais fortes que um. De garantir e facilitar a vida própria, individual, em todos sentidos. Um por todos, todos por um. Etc...

Infelizmente nossa educação vai muito mal das pernas e o brasileiro não aprendeu bem contar além do “um”. Imagine fazer um mais um... Salve-se quem puder! O resultado é que a maioria dos acidentes e crimes simplesmente não é registrada em Boletim de Ocorrência, portanto não ajuda a formar uma inteligência. “É chato...” “Vou perder meu tempo”. “Não adianta nada...” O fácil se transformou num monstro; num dos países mais violentos do mundo. Não conseguimos aprender que “o barato sai caro, muito caro, absurdamente caro”.

E ai ficamos com inveja de países onde o trânsito não é perigoso e o índice de criminalidade é praticamente zero. Qual é a diferença? Precisa explicar?

O que transforma esta minha “ironia” difícil de engolir é que o Brasil se transformou num dos gigantes da economia mundial, portanto há um Brasil coletivo que é exemplar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

SESC - A bicicleta na contramão da cidade


SESC, que é uma referência em qualidade de serviço ao público e programação, mais uma vez se volta a questão da bicicleta e sua inclusão na cidade. Esta relação com as bicicletas vem desde o início do montain bike, por volta de 1990. Começando pelo SESC Ipiranga, com seu Clube do Pedal, que iniciou o processo, hoje vários SESCs tem ações para estimular novos ciclistas: palestras, exposições, passeios, oficinas. Abaixo segue mais uma programação, na qual tenho o prazer de participar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Amsterdã


Amsterdã vai muito além do centro histórico – turístico rico e de rara beleza que está no imaginário da maioria. Nada a ver com algumas ruas onde se encontra prostitutas sentadas em vitrines, com cafés que servem maconha. Ai Amsterdã não difere em praticamente nada do resto do mundo; a não ser que jogam aberto, dentro da lei e tiram proveito da situação com inteligência, ordem e respeito. O grande charme é que de fato uma cidade livre, como talvez nenhuma outra.
Amsterdã, como todos os Países Baixos (Holanda), sempre usou a bicicleta no que ela oferece de melhor: modo de transporte. Como no resto do mundo, no início dos anos 70 o carro estava em alta e a bicicleta em baixa. Com a crise do petróleo de 1972 a bicicleta foi retomada, a sério. Um parto dolorido, com problemas de trânsito, ciclistas machucados e mortos, protestos, pressões dos proprietários de automóveis... Enfim, a história se repete, mas quem tem coragem e usa o bestunto acaba na frente. Enfim: Amsterdã hoje é conhecida mundialmente como a cidade das bicicletas. Há muitas cidades que têm o mesmo índice de uso, umas poucas até maior, incluindo no Brasil, mas Amsterdã ganhou a fama, e com isto muito dinheiro com turismo. 
Já estive aqui três vezes, o que dá uns quase 40 dias caminhando, pedalando e muito bonde. Hoje conheço boa parte da cidade, do centro à periferia. Caminhar ou pedalar no centro histórico está muito chato, algumas horas até desagradável, por conta da quantidade absurda de turistas. Meus últimos três dias foram feriado na Europa e algumas ruas pareciam uma 25 de Março em época de Natal. Desagradável. Infelizmente este público não conhece nem tem interesse no resto da cidade, que em alguns pontos é de uma riqueza urbana difícil de encontrar. Quem gosta de art-decot tem um prato cheio. Ou arquitetura moderna inteligente, uso do solo, mobiliário urbano, tratamento paisagístico... Amsterdã tem uma qualidade de vida de dar inveja. Escolha seu modo de transporte, que não um carro ou moto, e divirta-se muito.
A grande mudança na paisagem de Amsterdã é a quantidade de scooter pequenas, abaixo de 50CC, trafegando nas ciclovias; o que me incomodou demais. Um policial de trânsito me disse que a partir do ano que vem será obrigatória carta para condução, o que não creio que resolva problemas futuros que certamente irão aparecer. Ciclovias devem ser exclusivas para ciclistas, principalmente os mais sensíveis e frágeis, como crianças, mulheres e idosos. As pequenas scooter devem rodar junto ao trânsito motorizado, até para forçar a diminuição geral da velocidade em ruas e avenidas e aumentar a segurança de todos. Espero que um dia seja resolvido o problema da poluição sonora delas, que é muito alto. O mesmo para algumas motos. Em cidades silenciosas incomoda demais. Amsterdã é deliciosamente silenciosa.
O trânsito de bicicletas é grande, rápido e fluido. A maioria pedala forte e usa da melhor forma possível a inércia da bicicleta. Tudo vai se ajeitando e usasse pouco os freios, pelo menos onde não há semáforo. Onde há, se estiver vermelho, a maioria para e espera normalmente, mesmo entre os esportistas e suas bicicletas de estrada em ciclovias de bairro ou periferia. Como em qualquer país civilizado a lei e os policiais são respeitados. Quem não conhece pensa que é fácil pedalar ali, mas não é tão fácil. Conversei com vários turistas que alugaram bicicleta e boa parte estava assustada.
Peguei uns dias bons, até um pouco de sol. É divertido sentar num bar de esquina, pedir uma ótima cerveja, e ficar olhando as belas mulheres passando em suas bicicletas. Muitas estão com mini saias e suas maravilhosas pernas de fora. Não me lembrava que as meninas de Amsterdã fossem tão lindas. Algumas são imensas para o padrão feminino brasileiro e é fácil encontrar as que tenham 1,85m ou mais.  É raríssimo ver uma gorda (ou um gordo). É muito provável que o intenso uso da bicicleta, desde muito pequenos, tenha a ver com a beleza dos corpos claramente sadios.
Amsterdã tem um bom espírito. Seus habitantes são educados, simpáticos, demonstram estar bem resolvidos, felizes. É uma cidade é leve, agradabilíssima (pelo menos com temperaturas quentes). O que se vê claramente em cada rosto, palavra, expressão, é fruto de uma cidade, um país, que foi criado e existe porque teve lutar contra a água para existir. Só se controla a água quando todos estão juntos envolvidos no mesmo trabalho, destino. Todos! Para isto é necessário conviver e tolerar, o que a bicicleta naturalmente oferece ao usuário; ao contrário do transito motorizado e individual que só isola. Por incrível que possa parecer, os Países Baixos tem um dos maiores índices de motorização do planeta. A opção pela bicicleta é resultado de racionalidade.
Bom, enfim, “I Am sterdan”. É uma daquelas experiências que não podem passar em branco na vida.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Bruxelas, Belgica, bondes e velhinhas ciclistas



Estou em Bruxelas e na TV5, francesa, passa um especial sobre policiais que ficam girando por Paris em dupla, numa moto, a paisana. Ficam caçando contravenções, desde uso de celular ao volante até entregador de pizza pilotando scooter e furando sinal vermelho para entregar mais rápido.... Só se apresentam na hora de mandar parar o carro ou moto, o que o pessoal faz imediatamente. Como já contei, por aqui não tem moleza, conversa, brincadeira. Policial é educado e tem autoridade, que é respeitada; o que não pode ser de outra forma.

O trânsito de Bruxelas é mais agressivo que o do Centro de Paris. É lógico que param para pedestre, que respeitam os poucos ciclistas, mas aceleram com mais vontade e descontração. Assisti um pequeno acidente estúpido que resultou em portas abrindo, pessoas conversando em voz baixa e resolvendo o problema com calma. Civilizado.

Parte da circulação de Bruxelas é por bonde e eu estou me divertindo. Não é uma questão de saudosismo, mas do que acredito que deve ser uma cidade. Bonde (e ônibus elétrico) não costumam deixar um rastro de degradação que nossas linhas de ônibus deixam. Ok! Aqui o transporte é pensado para pessoas, seres humanos. Não se transporta gado, como fazemos no Brasil. De qualquer forma eu prefiro o bonde, mesmo que os custos de implantação sejam bem mais elevados. A qualidade de vida resultante é outra.

Em Bruxelas bonde vai pela rua, serpenteia pelo bairro, desce para as profundezas, segue como um metro, volta para a rua, e assim vai.  A forma como é aproveitado o espaço disponível nas vias públicas é diferente do que fazemos em nossas cidades brasileiras. Quando voltar vou procurar entender melhor o que realmente acontece e ai escrevo algo.

Ontem vi descer de um bonde duas bicicletas, uma aro 26 com alforges de cicloturismo e uma dobrável aro 20com com reboque de carga acoplado, isto em pleno horário de trabalho. Gostaria de estar dentro do bonde na hora que o ciclista colocou o trambolho articulado lá dentro. Com certeza o reboque ficou no meio do corredor, a circulação deve ter ficado quase impossível, mesmo o bonde sendo dos mais modernos e mais largos. Não foi a primeira vez que vi volumes grandes sendo transportados em ônibus e bonde, como duas malas jumbo transportados por uma brasileira em horário de pico, mas o sujeito exagerou. Veja a foto. Bicicletas dentro de trem normal é comum, principalmente em curtas distâncias. Em TGV, os de alta velocidade, é necessário uso de mala-bike e pagar uma taxa de 10 Euros.

Tenho encontrado até senhoras, algumas já na casa dos 70, fazendo cicloturismo. Alguns usam bicicleta elétrica, mas só acionam o motor em raras exceções. Muitos idosos, alguns provavelmente na casa dos 80 e até 90, usam a bicicleta como modo de transporte. O ritmo de alguns é bem forte. Vai atrás... Mas colocar a bicicleta no trem ou bonde só vi jovem fazendo.

Amanha chego em Amsterdã, minha paixão. Não por causa das bicicletas, mas pelo espírito livre da cidade. Quero voltar a sentar num bar de uma das ruas centrais por onde só pode passar bonde e bicicleta. A diversão é ver os ciclistas distraídos que deixam a roda dianteira entrar nos trilhos, o que é relativamente frequente. Tombos também. De certa forma bonde e bicicleta não convivem em plena paz.

Provavelmente a velhinha holandesa da cadeira de rodas com um motor 2 tempos provavelmente já deve ter morrido. Ela circulava pelas ciclovias do centro de Amsterdã a pleno acelerador numa mão e batendo a campainha de bicicleta com a outra. Ai de quem não saísse da frente! Na minha primeira vez fiquei olhando para rua a procura de uma Mobilite alucinada e só quando ela estava praticamente tocando minha traseira é que olhei para trás. Se não tivesse jogado a bicicleta no meio dos pedestres, que riram, ela teria me derrubado.

Paris, França, eleição


No domingo rodei de bicicleta um pouco mais de 40 km, em pleno dia de eleição presidencial. A cidade estava bem mais agitada que o normal. Tirando uns poucos cartazes de tamanho padronizado colados aqui e ali, a eleição é muito discreta. Excepcionalmente havia Velib disponível. Normalmente aos domingos é muito difícil encontrar alguma Velib disponível, a qualquer hora do dia. Estão todas pelas ruas. Muita gente prefere pagar a multa pelo tempo excedente do que correr o risco de devolver a bicicleta e não encontrar outra para voltar a pedalar. Infelizmente vi muitas Velib danificadas por vândalos. Cheguei a ver uma estação de 30 bicicletas com mais de 10 destruídas. Deprimente! Aliás, vandalizar qualquer bicicleta é normal por aqui. Gostaria de entender o porque.

Como qualquer turista pedalando, andei fazendo umas besteiras no trânsito. É comum a sinalização para ciclistas estar apagada e quando você se dá conta já está fora do espaço definido para ciclistas. Outro problema é que a cidade é realmente interessante e pedala-se com olho na paisagem. Mesmo assim é muito raro ouvir uma buzinada, um grito de repreensão, um palavrão, ver um gesto grosseiro. Quem conhece Paris diz que no passado era muito diferente.

Ontem passei o dia caminhando. Foi 12 horas de rua e um único buraco numa faixa de pedestre. Por muita sorte não cai ou torci o pé. Repito mil vezes: buraco por aqui é muito raro. Que inveja, que vergonha! Você caminha sem interferências, sustos, problemas, principalmente postes de fiação. Você consegue enxergar a arquitetura, as pessoas, os veículos em movimento; você se integra à vida da via, bairro, da cidade. Sente-se calmo; dá prazer. As pessoas são leves. Postes, como os que temos em nossas cidades, cria uma parede, uma barreira, que prejudica não só a visão, mas também gera algumas distorções sociais. Quando fiz rádio falei várias vezes sobre o assunto o que me resultou numa não muito discreta ameaça a minha integridade.

Cadeirantes tem dificuldade de locomoção. Muitas calçadas são realmente estreitas, cheias de obstáculos para a passagem da cadeira, incluindo bicicletas estacionadas. Guia rebaixada não é regra. Se os ônibus transportam com facilidade e cortesia cadeirantes e carrinhos de bebe, no sistema de metro e trens metropolitanos praticamente inexiste elevador e até mesmo escada rolante até a rua é pouco comum. Taxi não se encontra com facilidade.

A quantidade de desabrigados e pedintes pelas ruas é grande, chega a incomodar. Tenho lembrado muito da Nova Iorque que vi em 1994, ainda em plena crise, a palestra de um dos responsáveis pelo “Tolerância Zero” que vi na Prefeitura de São Paulo, e da mesmíssima Nova Iorque que tive o imenso prazer de vivenciar no ano passado. A melhora de qualidade de vida para todos é clara. Paris parece desconhecer a experiência, ou ter outra visão do caminho para a solução de seus problemas. Francês tem uma visão própria do universo; interessante, mas muito particular. Somos todos humanos, apesar dos egos. As soluções não diferem muito onde quer que seja (incluindo no Brasil).

Elegeram um socialista, François Hollande, um pouco porque não gostam da pessoa Sarkosi como porque acreditam que ele possa gerar as mudanças sociais desejadas. Um dos pontos de seu programa é o congelamento do preço dos combustíveis usando o estoque regulador das empresas petrolíferas. Infelizmente mesmo aqui há muita gente que cai na ilusão inocente de que as coisas se resolvem com soluções milagrosas. Todas as experiências desastrosas resultantes de congelamento de preço não vale nada, mesmo num país de bem educados. Por outro lado, entre todos candidatos não foi colocada uma proposição para resolver a questão da segurança no trânsito, que custa ao dinheiro público uma barbaridade. Quem chamou atenção para o fato foi um jornalista que participava de uma mesa redonda num dos principais canais de TV. Os outros cinco presentes olharam para ele com espanto e fizeram ponderações por puro ego e obrigação de trabalho.

Como curiosidade, até patética: Hollande e Sarkosi, os dois candidatos do segundo turno, prometeram não assinar a anistia de todas as multas de trânsito de todos franceses, como é a tradição de primeiro ato praticado por todos presidentes da história da França. Quando me contaram pensei que fosse piada. Não é. Somos todos humanos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

qualidade do pavimento

Qualidade do asfalto
Foi exatamente um buraco em mais de 3.000 km dirigindo um carro pelas estradas francesas. Sim, exatamente um buraco, passando por todo tipo de estrada, desde autopistas para limite de 130 km/h até estradinhas vicinais bem estreitas onde dois carros pequenos praticamente tocam espelhos. Exatamente um buraco. E só em raríssimos trechos apareceu sinalização avisando sobre irregularidades no asfalto, que para o padrão brasileiro é estrada de boa qualidade. Dá raiva lembrar a condição de nossas ruas, avenidas e estradas.
Lembro da primeira pedalada que dei em Miami. Depois de uns 20 km eu comecei achar que havia algo realmente estranho. Demorei a tomar consciência que o rodar da bicicleta era absolutamente macio, sem qualquer tranco, e depois de quase meia hora sobre o selim ainda não havia sentido sequer um defeito ou irregularidade no asfalto. Foge a nossa lógica tupiniquim.
Aqui em Paris, que parece estar passando por tempos mais difíceis, tive o desgosto de pegar somente um buraco maior, pelo menos para a bicicleta de pneus finos que estava usando. Pouco seria sentido num carro ou moto. Por aqui é relativamente comum encontrar o pavimento com algum tipo de problema, rachaduras, suaves irregularidades, nada comparado com a baixíssima qualidade que normalmente temos em qualquer cidade brasileira. Mesmo quando há paralelepípedo o rodar é bem mais macio, não só por conta do tamanho das pedras, que na França são quadradas e bem menores que as brasileiras, mas também pela forma de assentamento.
Vi várias obras viárias e fiquei impressionado com a grossura do pavimento cortado. Aqui eles cortam a rua e sai um bloco grosso e inteiriço, como um pedaço de boa cocada ou pé de moleque. No Brasil o asfalto sai meio quebradiço, em pedaços bem menores e irregulares, uma espécie de farofa mal feita.
Tenho um amigo que trabalha com asfalto e ele diz que o maior problema brasileiro é que a base da maioria de nossas ruas está subdimensionada para a carga de trânsito que temos hoje e que para corrigir definitivamente só retirando tudo, asfalto, brita, base e tudo mais, e refazendo tudo do zero. Difícil de acontecer.
Qualquer remendo no asfalto Francês tem a qualidade das realizadas em nossas melhores rodovias concessionadas. O resultado final praticamente não deixa irregularidade, degrau, bolha, deformidade ou um novo buraco. O remendo fica absolutamente liso e passa desapercebido. Eles usam uma compactadora mais pesada e com uma área de compactação bem maior, completamente diferente da usada (quando usada) no Brasil que mais vibra o operário que compacta o asfalto. A diferença é da água para o vinho.


Aqui não existe esta história de liberar o trânsito com a obra em andamento, com buraco aberto. Caso tenham abrir passagem eles fecham cuidadosamente o buraco com paralelepípedo, corretamente assentado.
Confesso que não consigo entender como nós, brasileiros, aceitamos algumas coisas. Já passei por vários países e cidades da América Latina, América do Norte, Europa e Turquia (que está entre dois mundos e é fantástica) e o pavimento sempre teve boa qualidade. Não dá para entender o nosso lixo. Não dá para entender nosso silêncio.