quarta-feira, 9 de setembro de 2015

As pessoas estão mais felizes



Depois de termos cruzado pedalando a av. Paulista no domingo à tarde Vera comentou “as pessoas estão mais felizes”. Interessante o comentário dela até porque ela e Teresa uns minutos antes e na mesma Paulista tinham sido literalmente empurradas para o lado, sem aviso ou qualquer palavra de cordialidade cidadã, por um ciclista jovem que queria continuar pedalando rápido. Mais um pouco a frente presenciamos uma pesada discussão entre dois ciclistas porque o ciclista velhinho, um tanto domingueiro, não conseguia pedalar em linha reta e não saia do meio da ciclo faixa de domingo. Como contraponto duas mães conduziam preocupadas suas quatro patinhas, lindas meninas de uns 8 ou 10 anos, se tanto, pedalando suas bicicletinhas cor de rosa. A confusão é geral, o zoológico o mais variado possível, e o clima domingueiro na cidade parece ser realmente mais feliz. E como era no passado?
Lá por volta de 2005 os órgãos oficiais de técnicos da Prefeitura rezavam pela cartinha da O.D. Metro SP que apontava o Município de São Paulo com 135 mil viagens origem-destino / dia em bicicleta com fator 2.1 de viagem por bicicleta. Em outras palavras, algo em torno de 65 mil e uns quebrados de ciclistas / dia de trabalho circulando pelo Município. A sutileza é que fazia silêncio que a O.D. Metro tinha dois filtros: só contavam os deslocamentos para trabalho e modo principal. Portanto a O.D. Metro estava contando só ciclistas que circulavam durante a semana. É logico que São Paulo tinha mais ciclistas que o número oficial apontava. Como a bicicleta era então um incômodo, quanto menor o número de ciclistas muito melhor para quem não gostava de bicicletas e ciclistas. Foi então que Luiz Dranger quis ter uma ideia mais clara da situação, fez cálculos e concluiu que São Paulo tinha no mínimo 150 mil ciclistas / dia. Zé Assumpção fez a desconstrução do número para checar se estava certo e confirmou o cálculo de Luiz: mínimo 150 mil ciclistas / dia. Ou seja, mais que o dobro do número oficial. Quando disparei os 150 mil ciclistas / dia numa reunião mesmo os que rezavam pela O.D. não pareceram assustados. Uns dois anos depois, a ABRACICLO divulgou uma pesquisa que apontava 1 milhão de ciclistas nas ruas em final de semana ensolarado. A partir dai os que rezavam pela O.D. passaram a aceitar em reuniões fechadas que provavelmente São Paulo contava então com 250 mil ciclistas / dia, fora o estouro da boiada de fim de semana. E veio a Ciclo Faixa de Domingo e a coisa explodiu de vez e está ai para quem quiser ver. A bem da verdade, concentrou e está ai. Os ciclistas que estavam espalhados por todas as partes da cidade se concentraram em determinadas vias. Bingo!
Hoje é muito, mas muito interessante mesmo mostrar que está todo mundo feliz, principalmente pedalando. Ora, quem diria? E como se faz isto? Técnica básica de fotografia, filmagem e comunicação: junta todo mundo para sair bem na foto. Sem dúvida, dependendo de onde e como se olhe a cidade está mais feliz. Conforme o contexto como aquilo deu nisto é só um detalhe. Eu acho que eu cruzei com o Niccoló di Bernardi dei Machiavelli pedalando por ai. Eu devia ter apresentado a Vera. Ele iria gostar.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quantos erros se pode aceitar?

Pergunto: você continuaria com um funcionário, ou um gerente, em cujo setor tivesse acontecido mais de 700 falhas por ano? E se o setor tivesse mais de 700 acidentes graves por ano? E se este mesmo setor fosse direta, indiretamente, ou não conseguisse controlar mais de 700 mortes por ano? Você faria o que? 
  1. reformularia o setor mantendo os mesmos funcionários
  2. demitiria todo o setor
  3. demitiria o gerente do setor
  4. tornaria o gerente responsável por um novo setor que nasce problemático
  5. os problemas do setor não fazem diferença nos bons resultados da empresa
E como funcionário deste setor:
  1. você pediria demissão por se sentir mal e não concordar
  2. iria buscar informações para tentar resolver a situação
  3. continuaria trabalhando quieto porque tem família para sustentar
  4. aceitaria assumir a responsabilidade de um setor que você declara ter medo
  5. "o responsável pelo acidente é quem não sabe usar nosso produto"

Errar todo mundo erra. Eu teria errado também. Tenho todos defeitos do mundo, mas não tenho estomago para deixar passar meus erros. Não consigo dormir a noite quando faço besteira. Provavelmente teriam acontecido acidentes e até mortes com os projetos nos quais estive envolvido, o que infelizmente é natural do processo. Acontece em todo mundo. A questão é que deve haver limite para esculhambo. Infelizmente parece que nós não temos qualquer limite de aceitação da baixa qualidade. 

Parabéns, vocês conseguiram!

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
03 de Setembro de 2015

Parabéns, vocês conseguiram

Antes de mais nada, meus sentimentos aos familiares e amigos de Mariana.
Acabei de receber a notícia sobre o falecimento de Mariana Livinalli Rodrigues, a modelo de 25 anos vítima de uma colisão com um ônibus na esquina da av. Faria Lima com rua Chopin Tavares de Lima. Atropelamento é para pedestre. Bicicleta é veículo, segundo o CTB, portanto colisão.
Logo em seguida vi uma entrevista de Getúlio Hanashiro na Rede TV News falando sobre a questão da segurança das ciclovias e o acidente. No meio da notícia se falou que Mariana pode ter seguido em frente, mesmo com o semáforo para ciclistas vermelho, porque o semáforo com a flecha em luz verde para os ônibus dobrarem a esquerda a confundiu. Como eu já fiz a mesma confusão creio que é uma hipótese a ser levantada. 
Que seja, Mariana se foi. Triste. É a terceira vítima em um único mês de erros grosseiros que se vê aos montes nestas ciclovias. Os responsáveis por tudo isto tem muita sorte. Se estão acontecendo acidentes ninguém sabe, ninguém viu, não interessa saber. Tudo pela causa. 
E não posso deixar de parabenizar os que pensam que "Faz, se for o caso depois conserta". Digam isto à família do menino de 9 anos, a do senhor e de Mariana. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Descubra São Paulo


O cartaz manda um recado correto: Descubra São Paulo. Poucos paulistanos conhecem sua própria cidade. E em baixo vem o subtítulo: sou um dos 40% que adoram esta cidade. Só isto? Uau! A moral da cidade nunca esteve tão baixa. Mesmo assim eu recomendo que você saia e conheça sua cidade; ainda é uma das mais diversificadas e interessantes cidades do mundo.
Já conheci praticamente todo Município, só falta Iguatemi, Itaim Paulista e um pedaço de Campo Limpo. O resto já rodei, em carro e bicicleta. Não dá para dizer que conheço São Paulo por que a cidade muda muito rapidamente. Não vou conseguir encontrar a igreja do Jardim Nova Penha onde se casaram Mariazinha e João, isto lá por volta de 1980. Era o fim do mundo. Do topo do morro onde ficava a igreja dava para ver as últimas casinhas espalhadas no que restava do verde lá do fundão da Zona Leste. Uns anos depois aquilo tudo tinha se transformado num mar cinza ligado a Suzano e Mogi Mirim. Provavelmente não vou encontrar mais a estradinha de terra muito estreita que saia de Barragem e chegava até o ponto mais alto da Serra do Mar de onde se via Praia Grande. Não cheguei até esta vista porque começou a anoitecer e estava com Tina. A estradinha era tão estreita que tive que rodar uns 4 km de ré até encontrar um lugar          que desse espaço para girar o pequeno Fiat 147.
Passei para a bicicleta, com aventuras mais curtas e tão ou mais divertidas que as com o automóvel. Não demorou muito e já tinha pedalado todo Centro Expandido, Zona Sul até Socorro, Zona Leste até a Penha, quase toda Zona Norte. A Zona Oeste, onde moro, foi completa. Solitário ou acompanhado, sempre passeios divinos. Cada bairro tinha sua própria peculiaridade, particularidade, personalidade, e é lógico, prazeres. Na época, faz uns 20 anos, boa parte era um mundo desconhecido pelo próprio paulistano, que pouco saia de sua própria região. Parece que continua assim. Muito daquela bela riqueza singela foi ao chão para a construção de uma São Paulo mais uniforme, empobrecida na sua arquitetura e paisagem, mas ainda interessante.
Infelizmente não dá para conhecer todo Município de São Paulo, que inclui reservas florestais. Município é toda a área e cidade é o pedaço urbanizado. Sou um felizardo por que estava no grupo que recebeu autorização especial para conhecer um pedacinho de Capivari-Monos. Lá quase fui atropelado por uma anta (animal) que cruzou a trilha tão rápido que sequer consegui ver o que me deu o susto. O guia que estava conosco mostrou as pegadas e disse que era uma anta. Eu sequer teria visto as pegadas.
Outro dia tive que ir numa festa de aniversário na rua da Mooca. Passei pelo Centro da cidade a noite, fora do horário de trabalho. Confesso que não me senti cômodo. A insegurança está no ar, mesmo São Paulo sendo a capital mais segura do país (dados Governo Federal). Entre o Viaduto do Chá e a Sé pedalei junto com um ciclista que também ia rápido e olhando para os lados, claramente preocupado. É muita gente chapada jogada no chão ou perambulando sem destino. Dá saudades das velhas épocas. Quando puxei o primeiro Night Biker num passeio noturno para o Centro de São Paulo, em 1988, todos voltaram encantados e o Centro virou point. Era seguro, tranquilo, limpo, bonito, agradável, rico e variado. Pedalávamos por quase todas as ruas sem sermos importunados. Num destes passeios na Praça da Sé Luiz foi desviar de um cego e caiu em cima de uma barraquinha de um deficiente. Já se via aqui e ali moradores de rua, um aqui, outro ali, mas nada na escala que se tem hoje. Bêbados sempre existiram, alguns inconvenientes, mas chapados e zumbis com reações imprevisíveis ou muito agressivas não. A loucura era localizada, previsível, e os loucos tinham noção de limite. Infelizmente o Centro da cidade está sujo e cheio de pichação.
São Paulo continua sendo uma das viagens urbanas mais interessantes. Há muito para conhecer. Vale a pena. Para quem é ciclista recomendo que vá descobrir o interior dos bairros, o que acontece fora de avenidas, ciclovias e ciclofaixas. Domingo pedalei com o passeio do Saia na Noite, que foi dos Jardins até o Parque Severo Gomes, na Chácara Santo Antônio, por ruas de bairros. As meninas e nós dois, eu e Celso, adoramos; aliás, como sempre.  
Recomendo a leitura do ótimo texto Primavera paulistana, de Laura Sobral . Descobrir sua cidade é a única saída para reverter estes tempos horrorosos que estamos passando e retomar nossa liberdade, nossa dignidade. Vai para rua, vai descobrir, vai curtir, você não vai se arrepender.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Visibilidade de um motorista de ônibus e ciclistas

A visibilidade que um motorista de um caminhão, ônibus ou qualquer veículo grande é praticamente a mesma: limitada, precária. Mesmo com bons espelhos o motorista não consegue ver tudo o que se passa próximo, principalmente se for algo pequeno.
No primeiro filme, que tem um caminhão parado num galpão, a direção está na direita, portanto inglesa, e os ciclistas estão à esquerda do caminhão. É uma condução invertida em relação ao que acontece na maioria dos países, incluindo Brasil, mas o exemplo é valido por que a realidade é a mesma, independente do lado que a direção está. O caminhão, que é articulado, está posicionado como se estivesse fazendo uma conversão à esquerda, o que significaria que o caminhão passaria por cima de todos ciclistas sem que o motorista se desse conta. O pelotão de ciclistas simplesmente fica invisível para o motorista. 
A visibilidade de um motorista de ônibus urbano tem muitos pontos cegos que escondem completamente um carro, moto e mais ainda um ciclista. É muito importante para o ciclista entender qual a linha de trajetória do ônibus, onde, quando e como vai virar, a velocidade, aceleração, para se posicionar corretamente. O ciclista tem que ser visto e se possível tem que fazer contato com o motorista, olho no olho, seja diretamente ou pelos espelhos. 
Automóveis:
As novas obrigações legais de segurança para automóveis está obrigando os fabricantes aumentar o tamanho das colunas e diminuir a área envidraçada, portanto diminuir a visibilidade que o motorista tem da via. É uma matemática que não me agrada: aumenta a segurança dos passageiros do automóvel no caso de choque e ao mesmo tempo diminui muito a segurança de ciclistas e pedestres. A visibilidade do motorista para frente e a esquerda está muito reduzida e é muito fácil que a coluna dificulte ou mesmo impeça a visão até de um carro pequeno, o que dizer de um pedestre.
É vital ter em mente que você, ciclista, normalmente é invisível para os motoristas. Não dá para culpar sempre o motorista porque ele literalmente não enxerga você. Culpe a neurose com segurança no trânsito. Neurose não é segurança, é neurose.
Resultado de imagem para pontos cegos do veículo
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