segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Um menino de caráter

Juca Kfouri

21/08/2014 15:06 
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Guilherme Murray tem 12 anos e está disputando o Campeonato Panamericano de Esgrima pelo Brasil, em Aruba, no Caribe, numa categoria, espada, dois anos acima de sua idade.
Hoje ele foi eliminado nas oitavas de final.
Perdeu de 10 a 9.
Mas só porque quis.
Ele ganharia o jogo.
O árbitro deu o toque em favor dele.
O Guiga foi ao árbitro e disse que havia um engano, que ele não havia tocado o adversário.
O árbitro tirou-lhe o ponto.
O menino deixou as pessoas impressionadas com seu espírito olímpico.
Um garoto, no meio dos grandes , que poderia estar entre os oito melhores da América, vai ao árbitro, comunica o erro e é eliminado da prova por sua atitude, ao recusar um ponto que não era dele.
Também fruto dos ensinamentos de ética no esporte que os Mestres Régis Trois, Ricardo Ferazzi e Carla Evangelisti professam na sala de esgrima do Club Athletico Paulistano.
Antes de formarem atletas, se preocupam em formar pessoas de caráter.
Hoje Guilherme Murray, campeão brasileiro, sul-americano, e de tantos outros torneios nacionais e internacionais, saiu de Aruba mais campeão do que nunca.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Comunicação de ciclista para ciclista

Logo a frente vai rodando o garoto na sua BMX. Ele baixa o pedal e deixa a pequena bicicleta com o selim lá em baixo deslizar com sua perna esticada e a outra perna cruzada, com uma leve garça. Um pouco a frente troca de perna e volta ser uma garça, e assim por diante, na dança típica do pessoal do BMX. Desliza rápido. A BMX é de primeira, pró, numa pintura alaranjada quase fluorescente. Eu vou me aproximando aos poucos admirado com a dança ritmada da pedalada e vejo comprazer e inveja ele dar um bob no meio fio e a água da chuva parada. Garça! Mesmo grudado nele não ouço o tocar da roda no chão.
Tomo um educado cuidado para ultrapassa-lo, abaixo a cabeça como saudação e também reverência, e sigo na minha cadência, com uma pitada de inveja de seu estilo. Vindo de frente na ciclovia um ciclista que de longe fica claro que está bêbado. Paro de pedalar por um momento e faço uma discreta sinalização com a mão direita com absoluta certeza que o BMX entenderá, o que realmente acontece. Pedalar com quem sabe é uma outra história. Diminuo mais um pouco a velocidade pedalando mais leve e toco a campainha para chamar a atenção do bêbado que se aproxima em uma linha incerta e gesticulando com a mão. Quando o bêbado está bem próximo levo minha bicicleta um pouco para o centro da ciclovia de forma a proteger o BMX. O bêbado passa por mim, olho para trás e ele passa sem problemas pelo BMX. Seguimos em frente com o BMX me seguindo em silêncio de perto. Vou desviando das poças de água deixadas pela chuva. Numa das esquinas diminuo a velocidade na frente de um carro para proteger o BMX e ele me ultrapassa e retribuiu a ação na próxima esquina. E assim fomos pelos 3 km da ciclovia. Não trocamos uma palavra, nem é necessário, só seguimos. Quando viro à esquerda ele passa por mim e disse simplesmente "Boa noite". 
Anteontem na ciclovia da Faria Lima uma menina, linda por sinal, quase arranca a camisa de um pedestre num trecho que ainda é só calçada para em seguida passar a mil raspando no braço de uma criança bem pequena que se segurava desajeitada na mão da mãe. A ciclista sequer diminuiu a velocidade, não sinalizou a aproximação, não pediu desculpas, seguindo em frente como se estivesse numa competição. Para que? Estava fugindo de mim? Ou era mais uma que vê as ciclovias um bom local para treinar? Não sei o que passa pela cabeça deste pessoal, mas tenho a clara sensação de que estão fazendo racha. Tão parecido com os boyzinhos...
Fazendo jus à verdade, esta insanidade não é uma exclusividade paulistana e muito menos brasileira. Munique é uma delícia de se pedalar... fora do horário de pico de final de dia. Ai cada parada em sinal vira largada de prova de curta distância. Acontece igual em outras cidades grandes da Europa. Londres é a pior. Confesso que não quero pedalar nas ciclovias do Tâmisa, até talvez por que tenha medo. Só vendo a velocidade que eles passam e o grau de agressividade de boa parte deles. O pior de tudo é que muitos destes enlouquecidos, aqui, ali, lá e onde mais seja, acham que sabem pedalar, e ai é que mora o perigo. São extremamente individualistas, o oposto do ser ciclista.
Como é raro quem consegue entender o que é uma bicicleta e mais raro ainda os que rezam pelos dogmas do pedalar bem, tenho sentido muita saudade do tempo que eu pedalava no meio dos carros. Era muito mais seguro. Experiências como a pedalada com o garoto do BMX estão se tornado joias perdidas na cidade.

Ciclismo é a arte da suavidade!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Brasil, a década perdida - trabalho

Fica aqui minha recomendação para se se dê uma olhada com cuidado neste trabalho de Vinicius Carrasco†, João M. P. de Mello§, Isabela Duarte† sobre a A Década Perdida: 2003 – 2012 (no Brasil). Se quiser simplificar a leitura, abra o link, clique dentro do texto, e tecle Ctrl + End e vá para fim do longo e ótimo texto. Vá rolando as páginas até chegar nos gráficos comparativos. E ai tire suas conclusões sobre o país do nunca antes. É 
Vinicius Carrasco†, João M. P. de Mello§, Isabela Duarte† 
A Década Perdida: 2003 – 2012
PUC Rio
DEPARTAMENTO DE ECONOMIA
www.econ.puc-rio.br

Do texto se pode concluir é que o ambiente futuro para a bicicleta no Brasil é muito promissor. Mais promissor ainda quando se vê a qualidade da Carta Compromisso aos Presidenciáveis criada por esta nova geração de ciclistas e distribuída pela UCB, União dos Ciclistas do Brasil, que será enviada a todos candidatos à Presidência da República. Cenário, atores e público, tudo pronto para a construção de uma cidade melhor para todos, contanto que todos consigam distinguir objetivo de ideologia, ou seja, construção de inocência útil. 

Infelizmente perdemos o Eduardo Campos, uma liderança política nova e muito interessante. 

sábado, 9 de agosto de 2014

Haddad encomenda estudo sobre os benefícios de ciclovias e ciclofaixas (?)

para
São Paulo reclama;
O Estado de São Paulo

Sobre:
Haddad encomenda estudo sobre os benefícios de ciclovias e ciclofaixas.
E6| Metrópole | Sábado, 9 de Agosto de 2014

A melhoria da segurança, conforto e prazer dos ciclistas se faz com um sistema cicloviário, ou seja, ciclovias, ciclofaixas, transito partilhado, paraciclos, bicicletários, sinalização, educação...; e não só ciclovias e ciclofaixas. Por lei, CTB, estas intervenções obrigatoriamente devem ser pintadas de vermelho, o que chama muito a atenção de todos transeuntes. Provavelmente Haddad sabe que Kassab tinha na questão da bicicleta seu segundo índice de aprovação. O perigo é implantar só ciclovias e ciclofaixas sem educar, principalmente os ciclistas, sinalizar, preparar o resto do trânsito para a novidade, que pode aumentar, e muito, o número de pedestres atropelados por ciclistas, dentre outros problemas.

Diminuição da velocidade do trânsito é medida fraca para a comunicação política, até por que não necessita de emporcalhar de vermelho a cidade, mas tem efeitos muito melhores para a segurança de pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas, além de diminuir as emissões de gases dos veículos. A equipe que está assessorando Haddad na questão das bicicletas é respeitável e já deve ter falado sobre redução de velocidade e acalmamento de trânsito (traffic calming).

Qualquer estudo que apresente números é bem vindo, mas um estudo sobre os benefícios de ciclovias e ciclofaixas talvez não seja assim tão necessário já que a quantidade de estudos similares realizados em várias partes do mundo prova repetidamente e sempre com números muito parecidos, sem deixar qualquer dúvida, a transformação para o bem que vem incluída no uso da bicicleta. Basta procurar na Internet onde se encontrará farta documentação científica. Há formas melhores de aplicar o dinheiro, até terminando ciclovias e ciclofaixas que já funcionam e ainda não estão sinalizadas.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

hoje

Dá para confiar no futuro de um país que até um senhor bem vestido e educado fica vendo mensagens de celular no meio da sessão de cinema? Virou um esculhambo completo.

São Paulo dá Pedal e hoje

Fiquei aqui pensando como poderia explicar quais as diferenças entre o Projeto de Viabilização de Bicicletas como Modo de Transporte, Lazer, Esporte e Turismo, de 1982, e o que se está fazendo hoje em dia. Nesta de ficar pensando acabou caindo a fixa que é muito possível que os órgãos competentes, em especial a CET, nunca tenham entendido corretamente sobre o que se tratava. Tenho certeza que houve um vazio de comunicação, tanto por que a bicicleta era coisa estranha para eles, uma espécie de disco voador aterrissando nas ruas paulistanas; como pelo fato de que o que se propunha era então uma grande novidade, uma mudança de conceitos. Não tinha nada de especial, beirava o óbvio. Pretendíamos usar a experiência de ciclistas comuns, incluindo mulheres, usuários da bicicleta, para implantar uma rede cicloviária de caminhos alternativos às vias de trânsito saturado ou perigoso, que percorresse os trajetos com topografia menos acidentada. Pretendia-se que o ciclista circulasse dentro de ilhas de tranquilidade formadas nos internos de bairros, e que fizesse o cruzamento das vias de trânsito pesado em pontos de menor risco. A princípio seria uma rede de 255 km tendo como base o Centro Expandido de São Paulo, mais rotas até Santo Amaro na Zona Sul e até a Pena, na Zona Leste. Esta era uma das etapas a ser vencida, a mais palpável para os ciclistas e cidadãos comuns, já o Projeto de Viabilização de Bicicletas tinha um olhar abrangente sobre a bicicleta, apontando transformações necessárias na indústria, bicicletarias, educação, políticas públicas, leis, impostos....
A preocupação básica era o respeito pelo então existente, e fazer com que o resultado final levasse a toda cidade e seus cidadãos uma melhora na qualidade de vida. O Projeto de Viabilização não é um projeto de ciclistas apaixonados só para ciclistas.

São Paulo dá Pedal, proposta apresentada e aceita pelo concurso São Paulo 450 anos de 2004, seguia os mesmos passos do Projeto de Viabilização, mas com dois projetos pilotos de baixo custo, fácil e rápida implantação.
A grande diferença, principalmente do São Paulo dá Pedal, para o que está sendo feito ou proposto hoje era a formação da equipe que assinava o projeto. Para começar, dois vinham de famílias com passado ligado ao automobilismo e à sua indústria. Três eram ciclistas cotidianos, um deles pedalava mesmo tendo uma deficiência física de nascença; o segundo era um ciclista comum, mas fora o responsável pela introdução de uma das marcas de bicicleta mais importantes (Specialized) do mundo, e o terceiro pedalou quase toda a vida, para transporte, lazer, cicloturismo e competição, além de ter uma boa prática em ensinar pessoas a pedalar do zero e no trânsito. Três eram técnicos vindos da CET e outros órgãos de trânsito e rodoviários. Todos eram pedestres. Duas mulheres, quatro homens, três pais de família; um professor secundário, dois engenheiros, dois arquitetos, quatro funcionários públicos, um empresário e especialista em vendas, marketing e logística. O São Paulo dá Pedal tinha um grau de experiência notável, que fechava praticamente todos os pontos relativos à questão da do sistema cicloviário, da bicicleta, do ciclista, da qualidade da bicicleta, da educação, das leis, do uso do espaço público, do direito dos outros: pedestres, motociclistas, motoristas, pessoas com deficiência, das crianças, mulheres, idosos, da propaganda, do financeiro, cronograma de evolução, variáveis... Hoje fala-se em só sistema cicloviário. Além do pessoal que assinava a proposta havia uma equipe de colaboradores por trás que optaram por não assinar, mas que estiveram ligados ao processo, a maioria primeiro escalão do setor público e privado. Como curiosidade, dois destes colaboradores fizeram cálculos de econometria para dimensionar o número real de ciclistas circulando em São Paulo em 2005 e ver como seria a curva de crescimento do uso da bicicleta, cálculos estes que se provaram corretos. Ao todo éramos mais de 15 pessoas, todas de primeira linha. Deve se render agradecimento a alguns funcionários públicos que ajudaram muito o projeto fornecendo dados e informações que deveriam ser públicas, mas não eram. Para se ter ideia do esconde-esconde de então, não nos foi dado acesso aos mapas oficiais da cidade e a apresentação do São Paulo dá Pedal foi feita com um mapa desenhado a mão.
No São Paulo dá Pedal havia um cronograma de etapas, de forma a que todos envolvidos, técnicos, funcionários públicos, agentes de trânsito, polícias e população, fossem treinados e se adaptassem na nova situação. A primeira etapa seria o entorno do Ibirapuera, seguindo para o Centro – Zona Norte, pilotos para as sequentes implantações no resto da cidade.
O projeto Ibirapuera abrangia o Parque Ibirapuera, Vila Nova Conceição e Jardim Luzitânia, trabalhando todas ruas no interno dos bairros, todas as entradas e saídas do Parque do Ibirapuera, mais todos os caminhos alternativos e seguros para se chegar ao parque. O do Centro – Zona Norte abrangia todo Centro, o entorno do eixo da av. Tiradentes, cruzava a Ponte das Bandeiras e do outro lado do rio abrangia Parque Anhambi, entorno do Campo de Marte, Shopping Center Norte, Center Norte e Carandiru, hoje Parque da Juventude.
Em tudo estava incluído mapeamentos, sinalização vertical e horizontal, totens, para-ciclos, bicicletários, orientadores ciclistas (o que hoje se conhece como “bike anjo”), material educativo em todas formas e mídias, site, propaganda, criação de um padrão de comunicação, treinamento em todas bicicletarias, lazer, esporte, cicloturismo urbano, melhorias para pedestres, paisagismo, meio ambiente...


Um pouco depois ainda se fez uma tentativa de viabilizar estas ideias com o Ciclo Rede Butantã, e seus 100 km de sistema cicloviário de alimentação das ciclovias Eliseu e Paraisópolis. Mesmo tendo uma forte entidade internacional por trás o projeto não só morreu, como desapareceu. Puft!

São Paulo dá Pedal: Arturo Alcorta; Luiz Dranger; Sérgio Luís Bianco; Fernando Gutieres; Úrsula Miranda; Eliana Haberli. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Hierarquia

Faz alguns dias ensinei a pedalar um jovem de 11 anos. Foi das experiências mais marcantes. A mãe telefonou, contou que ele iria para um camping em poucos dias onde provavelmente todos garotos pedalariam, que ele havia tentado, mas sem sucesso. O jovem chegou para a primeira aula acompanhado da irmã um pouco mais velha e uma senhora, uma situação normalmente constrangedora para a idade. Com jeito tímido não demorou muito a soltar-se e posicionar-se no contexto de aprendiz. Fato também notável foi sua objetividade expressa num português formal, impecável, claro e firme. Zero gíria; zero palavrão, zero rebuscamento, manha ou qualquer tipo de subterfúgio. Uma objetividade difícil até em adultos. As aulas se seguiram até um dia antes da partida para o camping, já pedalando, mas ainda sem prática, o que só a rodagem lhe dará.
A cada aula eu voltava para casa perplexo com o jovem, me remetendo ao que fui na juventude e principalmente pensando na sociedade que temos hoje no Brasil. A cada espanto com as reações tranquilas e pensadas do jovem me perguntava como seria a educação que ele recebe em casa e porque todos jovens não podem ser educados com o mesmo bom senso.

O que me passa pela cabeça é que seja uma questão de hierarquia. Há um velho ditado que diz ‘a hierarquia forma o caráter’. É bem verdade, hierarquia sempre funcionou, deu certo através da história, transformou o bicho homem ereto e ser humano e civilizado. A base da educação é o conhecimento, que só se tem através da hierarquia. O Brasil do passado, pelo menos o que conheci, tinha um grande respeito pela hierarquia, o que podia ser comprovado pelo ficar quieto para poder ouvir e aprender e assim ganhar sabedoria. Hoje estamos sendo instigados a olhar nossos próprios umbigos. Cada um olha o seu e acha lindo! Dai cai da bicicleta (antigamente dizia-se ‘cair do cavalo’) e não sabe por que.