sexta-feira, 22 de abril de 2022

Cidade: a única saída para nossa profunda crise

O economista Afonso Celso Pastore e mais outros lançaram um documento de propostas para o Programa de Governo de Moro sobre o que fazer para o Brasil sair do moto perpétuo, melhor, mortos perpétuos que nos metemos. Não li o documento completo de 144 páginas (detalhes neste artigo da Folha), mas as linhas gerais são boas. Já dá para entender que não trata sobre como tirar nossas cidades do caos que estão, nem é a área de expertise do Professor Pastore, como é respeitosamente chamado por todos, e dos outros economistas que assinam a proposta.

Mesmo as nossas cidades mais bem resolvidas tem uma sensível discrepância de qualidade vida quando comparadas às cidades padrão do mundo. Eu ia dar como exemplo as cidades da Europa e Estados Unidos, mas me lembrei de Stambul e outras cidades Turcas que comparadas às brasileiras nos fazem passar vergonha. Lembrei porque a economia Turca é muito menor que a nossa.

Funchal, Ilha da Madeira
Nossa colonização foi portuguesa portanto a princípio deve ser tomada como nosso parâmetro. Estive em Portugal faz uns anos e fiquei impressionadíssimo com a qualidade de vida que eles tem. Agora estive em Funchal. Não dá para comparar com nossas cidades. Vão dizer: entrou dinheiro pesado da Comunidade Europeia. Ok, sim, entrou, mas definitivamente não é só isto. Há um respeito pelo urbano que definitivamente não temos.

O Estado de São Paulo é um dos pontos mais ricos do planeta. O Município de São Paulo é mais rico que a maioria dos países, mesmo assim a qualidade da cidade é baixa. Não falo da qualidade pontual, de um bairro, de uma rua, avenida, mas da cidade como todo. O interior de São Paulo é riquíssimo mesmo assim alguns problemas que se veem nas boas cidades paulistas interioranas são patéticos, são fruto de pura esculhambação, imediatismo insensato, do pensar e agir no sentido que a coisa pública não é de ninguém. Cidades tórridas sem arborização. Bairros inteiros murados. Lixo e entulho. Calçadas ruins, quanto tem calçada. Guarulhos, uma das 10 maiores arrecadações deste país, tem um dos índices mais baixos de coleta e tratamento de esgoto deste mesmo Brasil. 
Valência, Espanha
A situação de nossas cidades tem nome e sobrenome: Efeito da vidraça quebrada. Lá fora cuida-se para que não quebre e quebrou consertou imediatamente. Aqui... diz o ditado: O problema não é meu. A coisa pública não é de ninguém. A cidade não é de ninguém.

Por diversas razões, mas principalmente pelas diferenças humanas, é praticamente impossível chegar a uma cidade igualitária, mas o que não se pode ter é cidades com diferenças tão acentuadas, criminosas até, como as que temos aqui no Brasil. Em qualquer cidade minimamente civilizada até nos bairros mais pobres você encontra parques, áreas de lazer e esportes. Aqui não.

Os dois primeiros pontos da "Pesquisa de percepção em 79 cidades europeias" da Comissão Europeia que avalia a qualidade de vida urbana falam sobre satisfação da população com sua cidade. Se for feita uma pesquisa destas aqui provavelmente o grau de satisfação será aceitável ou bom, resultado do mais completo desconhecimento de outras realidades, do que realmente é uma cidade com qualidade de vida. Incluo aí a maioria dos que tem dinheiro, escola e universidade que viajam para fora mais preocupados com as compras, os presentinhos, a confirmação de que estiveram no exterior ou com cumprir a agenda corrida da excursão para voltar e dizer com orgulho entre amigos "Eu conheci".

Repito, a referência de brasileiro sobre "cidade" é pífia, para dizer o mínimo. O resultado está aí.

Esta na cidade a saída de nossa perene crise. Não é através de grandes obras, de projetos mirabolantes, maquiagens, mas resolver definitivamente os eternos problemas de nosso dia a dia. Ter uma casa com chão varrido e paredes limpas já faz uma enorme diferença no bem estar e na moral dos moradores e visitantes. Se a área de convívio for melhorada todos os outros índices sociais e econômicos vêm juntos, melhoram, é líquido e certo.

Urge reverter o "eu quero o meu agora". A vida numa boa cidade ensina a coletividade, com ela o progresso. Cidades são coletivas. É o individualismo exacerbado que mata nosso futuro.

Faz mais de 20 anos Miguel Reale Júnior ficou furioso quando fui falar com ele sobre a questão das bicicletas e ciclistas trabalhadores no Brasil. Achou o assunto irrelevante, interrompeu minha fala encerrando a conversa, e não ouviu que urgia resolver problemas jurídicos que afetavam a vida de quase 1/3 da população brasileira da época, a imensa maioria trabalhadora de baixa renda, um dos focos do brilhante trabalho que ele próprio desenvolve. A palavra bicicleta não fez o menor sentido para ele, jurista renomado e respeitadíssimo, assim como a palavra cidade é página amassada e ilegível no dicionário das peças chave de nossa macro política nacional. 
Como tenho um bom caminho rodado nesta história afirmo que já ouvi muita coisa até de urbanista sério e respeitado completamente desconexo da realidade. "Meu umbigo é lindo!"; exerga só o próprio bairro e acha que aquilo é a definição da sua cidade.

A cidade não é analisada e discutida a sério por que grande parte da população não tem tempo para isto. Trabalham para comer, dormir e quando possível ter alguma diversão. Para os manda chuva que estão aí é bom que assim seja ou acreditam que perderão espaço. Burrice ou mediocridade, sei lá.

Acertar a qualidade de vida na cidade tem exatamente o mesmo valor de ter qualidade na escola básica. Sem educação de qualidade, sem futuro; simples assim. O mesmo para a cidade. 

PERCEPTION SURVEY IN 79 EUROPEAN CITIES
QUALITY OF LIFE IN CITIES

TABLE OF CONTENTS 
INTRODUCTION 
MAIN FINDINGS 
I. PEOPLE’S SATISFACTION WITH THEIR CITY 
1. Overall satisfaction 
2. Satisfaction with infrastructure and facilities of the city
2.1. Public transport
2.2. Health care services
2.3. Sports facilities
2.4. Cultural facilities
2.5. Educational facilities
2.6. Streets and buildings
2.7. Public spaces
2.8. Availability of retail shops
II. PEOPLE’S VIEWS ABOUT THEIR CITY
1. Employment opportunities
2. Housing situation
3. The presence and integration of foreigners
4. Safety and trust
5. City administrative services
III. ENVIRONMENT
1. Air quality
2. Noise level
3. Cleanliness
4. Green spaces
5. Fight against climate change
IV. PEOPLE’S PERSONAL SITUATION
1. Life in general
2. Place where people live
3. Financial situation of household
4. Personal job situation
V. MOST IMPORTANT ISSUES FACING CITIES
ANNEX - List of cities and technical specifications

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