Arturo Alcorta, Escola de Bicicleta, sobre a vida, rodando um pouco por tudo
terça-feira, 26 de maio de 2020
Discurso de Barroso e a compreensão do povo
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Fazer o que?
"No que posso ajudar?" dá prazer de ouvir e falar.
Dá para fazer algo e ajudar nesta crise brutal. Sempre dá, em qualquer
circunstância, a história ensina.
Mesmo sendo uma pessoa socialmente pouco hábil consegui, ajudei no
passado. Agora não estou conseguindo e isto me doe, e muito.
Reli meus últimos textos e minha sensação foi dúbia. Fiquei ao mesmo tempo um tanto envergonhado e orgulhoso, pelo menos pela qualidade do texto, o que talvez não adiante muito neste momento, já não sei mais. Alguém tem uma resposta?
Envergonhado porque é fácil escrever críticas sobre o que os outros
estão ou não fazendo. Duro é não ficar apontando o dedo acusatório para o
próximo, vício meu, humano ou brasileiro? Olho no espelho e me sinto repetindo
as minhas próprias palavras críticas acusatórias. Ou, pior, ficar esperneando
como barata que em chão liso não consegue desvirar de sua carapuça. Não sou o
único a ter estes sentimentos, acredito eu, mas talvez nem nisto deva acreditar.
Ajudar...
"Formar formadores de opinião", esta é a missão da Escola deBicicleta. Nos seus mais de 16 anos ajudou, forneceu uma base de informação
sobre a bicicleta e as possibilidades de uso, sobre o ciclista e seu meio
ambiente, questões legais, formas de agir, um pouco de história; um básico
geral que só excluiu logística de distribuição e tributário, temas muito
específicos.
A fórmula para construir o site, passar a informação e com isto tentar ajudar
os outros foi a mais básica possível: colocar no papel, organizar, parar,
revisar, editar e distribuir a informação. Mais ou menos assim:
Mesmo não sendo um site com números muito altos (faz uns bons anos
tínhamos tido 7 milhões de entradas) cumpriu seu dever. Influenciou um bom punhado
de eficientes atores e mesmo que alguns resultados não tenham sido como eu
sonhava, no geral creio que tenha ajudado muito na melhora da qualidade do
geral da vida do ciclista, das cidades, da relação com o poder público, e da bicicleta
em si. Desde que foi colocado no ar em sua primeira e primária versão, ainda em
texto Word creio que lá por volta de 2001, mesmo sem qualquer propaganda ou
mídia social chamou atenção e fez diferença. Acabou decolando sozinho.
Uma das principais razões para o Escola de Bicicleta ter conseguido o resultado que conseguiu foi dar informação com o máximo de neutralidade possível. Nem patrocinadores foram aceitos.
Quem me conhece pessoalmente sabe que sou confuso, disperso, pulando da
gozação para irritação com facilidade, tenho dificuldade de comunicação e
principalmente de interação social. Muito diferente do sou quando escrevo, mas
isto se deve às inúmeras revisões* que faço nos textos. Demoro até dias para
finalizar. Mas fiz.
Se eu fiz qualquer um faz. Todos nós temos algum conhecimento ou
vivência que pode ajudar muito nesta crise. A carência do Brasil é muitíssimo
maior que imaginávamos antes da pandemia, em todos os sentidos. O que agregue
qualidade é mais que bem vindo, urge.
Ajudar e coçar é só começar.
terça-feira, 19 de maio de 2020
Ainda não afundou porque a turma do baldinho evitou
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Pegou quem de surpresa?
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Misto frio ou quente?: chororô; Tia Milão. Robério
A primeira rejeição amorosa resultou num chororô ao som de músicas meladas que durou quase um mês. Acordava, ia cabeça baixa para a escola, voltava, não falava nada, entrava na sala, ligava a vitrola, encostava na janela e perdia o olhar na vida normal que passava lá fora. Terminou quando, como sempre, estava ouvindo testa colada no vidro da janela mais um disco dor de cotovelo, sua mãe entrou, desligou a vitrola, olhou para trás ela vindo determinada em sua direção. "Chega, você sai desta casa agora e só volta quando parar com esta tristeza burra", disse olhos nos olhos. Deu as costas, saiu quase marchando, abriu a porta do apartamento, apertou o botão do elevador, voltou para dentro, pegou o filho pelo braço, puxou porta afora sem que reagisse, abriu a porta do elevador, o empurrou para dentro, tocou o térreo, fechou a porta do elevador. Ele ainda ouviu a porta do apartamento fechando e a chave girando. Andou sem destino sem perceber as horas ou o anoitecer, primeiro com raiva da mãe e a dor do amor negado, e com o tempo com o aumento da fome. E com a fome presente as imagens do amor negado foram se esmorecendo até se transformarem na determinada pergunta “o que tem no jantar?”. Meio envergonhado, mas muito esfomeado, voltou sem saber como seria recebido. Entrou pela cozinha para não ser percebido. A porta da sala estava aberta e todos estavam sentados à mesa. Sentiu o cheiro de comida bem feita, panelas no fogão, o ruído dos talheres trabalhando na sala no meio de conversas triviais. Parou no meio da cozinha envergonhado, sem saber o que fazer; e lá ficou. Ouviu em voz sempre doce da irmã “Tá esperando o que? A comida vai esfriar. Senta”. O jantar correu como sempre e a fome desapareceu. A dor de cotovelo foi sendo educada a cada refeição. “Tira os cotovelos da mesa. É falta de educação”, bronqueava a mãe aos risos dos irmãos.
Tia Milão era uma mulher muito especial. Viúva, baixinha, cheinha, determinadíssima, sempre que encrencava alguma situação era ela a chamada, e vinha e resolvia. Não tinha tempo ruim ou mar revolto, ia lá e dava jeito, colocava as coisas “no seu devido lugar” como dizia, ponto final. Dentre estas habilidades estava socorrer todos na hora das tratativas pertinentes as mortes. Num vapt vupt resolvia tudo. Tinha prazer em contar as histórias e situações inusitadas, que naquela época eram comuns. Numa destas corria o velório no silêncio, tristezas e alguns choros, tudo segundo as regras e bons costumes, quando o defunto teve um espasmo após morte (espasmo cadavérico) levantando a perna e atirando flores para todos lados. Sobrou tia Milão no velório completamente vazio, flores e castiçais espalhados pelo chão de ladrilhos, cadeiras tombadas, portas escancaradas, uma delas ainda se movia lentamente, e queixumes horrorizados e algumas gargalhadas histéricas vindas da rua onde de onde fosse longe do caixão. Tia Milão ainda tentou baixar a perna esticada e não pode, não teve forças. Deu meia volta, foi pelo corredor buscar o pessoal do velório ou da funerária, quem pudesse ajudar. Saiu para rua e foi recebi com um macabro espanto por todos. Pegou sua piteira, encaixou o cigarro, acendeu, deu um trago, e deu a ordem “Eles ajeitam e nós voltamos”. Assunto encerrado.
Aqui e agora, o último texto publicado, foi pesado, é pesado. Ironia do destino, destas que não sabemos como ou porque acontecem e nos fazem lembrar o “yo no creo en brujas, pero que las hay las hay”, ou no “Hóme” lá de cima. Cansado, terminado e publicado o texto saí para relaxar com a bicicleta e acabei perdendo minha carteira que caiu do bolso na Diógenes Ribeiro, a velha Estrada da Boiada. Já de volta fui pagar a comida e bolso vazio, mochila nada, putz! Que dia! Subi na bicicleta e fui refazendo o caminho. Algumas folhas e objetos quadrados se transformam na carteira perdida. Imaginei onde poderia ter caído e fui seguindo em frente. Esperançoso passei por uns moradores de rua sentados na porta do supermercado e aos Céus prometi que se encontrasse minha carteira daria os R$ 50,00 que ainda tinha no bolso dos que retirara para pagar a comida. Olhei o céu estrelado. “Meio canalha meu pedido, mas talvez seja desculpado” confessei meus pecados para as boas almas que certamente nos cercam e Eles, talvez incluindo o texto publicado. Alguns quarteirões a frente o celular tocou, número desconhecido, e uma voz nordestina do outro lado falou "Seu Arturo?"; respondi sem pensar "Você encontrou minha carteira"; "Foi" minha felicidade ouviu. O nome do meu anjo da guarda: Robério. Só aqui no Brasil.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Aqui e agora
"O Valdeci está na
UTI" respondeu Tereza pelo telefone.
Banho quente acalma. Desliguei
a água, fiz a barba, liguei a água, vi a espuma desaparecer pelo ralo e
desliguei a água. Parado, cabeça baixa, olhando a água secar aos meus pés,
senti as últimas gotas da deliciosa água quente batendo no meu corpo. A
intensidade foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, gotas quentes espaçadas,
alternadas, parou. Fiquei imóvel no pensamento perdido por um bom tempo. Abri o
box, me enrolei na toalha em frente ao espelho, mas não me vi, só via
pensamentos rápidos, alguns desconexos e perdidos passando pela consciência turva.
Estranho como os olhos se voltam para dentro.
Sentei no computador, comecei
a digitar. Reli o texto passando a mão no rosto e me dei conta que não terminei
de fazer a barba. Que importa? Ia sair para fazer um pouco de exercício, mas
prefiro escrever. preciso escrever. Saio a tarde. Ou não saio. Sei lá.
A Rádio Eldorado pela manhã,
no final do noticiário, às 8:30 h, colocam uma música que serve de chamariz
para a programação musical que segue ou diz respeito a algum fato relativo à
música, ao compositor ou intérprete da música. Tocaram a Dionne Warwick
cantando Alfie do Burt Bacharach em homenagem ao aniversário do Burt. Nos
breves eternos segundos que a música tocava no silêncio da Carolina e Haissen
Abaki, apresentadores do noticiário, pensei que a Diane tivesse ido embora. Foi uma pedrada no meio da cabeça.
As músicas de Burt fazem parte de uma época maravilhosa de nossas vidas quando
inocentemente sonhávamos que realmente construiríamos um mundo melhor e mais
justo. Todos nós temos seu ponto de fratura, este quase foi o meu. Estamos
cansados, estou cansado, mas não dá para parar agora. Não são pedras no
caminho, mas respiradores, UTIs, covas.
"Eliane (mulher do
Valdeci) não para de chorar. Diz que não consegue comer. Não para de chorar.
Dei uma bronca, carinhosa, mas uma bronca" disse Tereza pelo celular.
Os presuntos estão cada dia mais próximos. Por aqui já tenho sete conhecidos contaminados, quatro passaram por UTI, e morreram dois, o irmão de uma figura bem conhecida e o pai do João. É, estão cada dia mais próximos.
Bem no começo da pandemia, quando tudo estava aberto, tomando sorvete conversei com uma família que a mãe, avó das jovens que acompanhavam os pais no sorvete, já estava em situação crítica, cheia de comorbidades. Entrei na conversa deles porque a família estava completamente perdida, desnorteada sobre o que fazer. "No hospital tem um setor de orientação para parentes e amigos de pacientes terminais. Vocês precisam entrar em contato, principalmente você" falei apontando para a filha da senhora terminal. Eles ouviram e agradeceram. Ninguém tinha falado de forma tão direta e clara sobre morte. Em um determinado ponto da conversa usei a palavra "presunto", percebi minha indelicadeza, ou minha imprudência, ou minha secura no trato de assunto tão cercado de simbologias. Tive que explicar. Não me convenci do pedido de desculpas não dito, mas implícito. "Presunto" para os não iniciados vai além da curva. "Nós nascemos, vivemos e morremos; ponto. Esta é a visão do Budismo, simples e objetiva". Isto fato, ninguém nega e ninguém aceita.
É da cultura de boa parte do Brasil não dar muito valor à vida. "Morreu, morreu, antes ele do que eu" está no ditado popular. Verdade verdadeira.
Morei por um ano em Olinda e
comecei a ir à missa com cantos gregorianos do início de noite na belíssima
Igreja do Mosteiro de São Bento. Monges afinadíssimos, boa acústica, uma
maravilha. Um destes monges me contou que entrou para vida religiosa porque já
tinha visto muita desgraça e muita morte. Em sua terra natal, cidade pequena de
sertão, nos fins de semana tinha forró num bar onde se dançava numa área
coberta, aberta aos ventos, cercada por muros baixos, festa muito animada. De
vez em quando saía uma briga que não raro terminava em morte. O povo pegava o
morto, colocava do lado de fora, voltava e continuava o forró. No fim da festa
cada um pegava seus mortos e levava para casa para depois ser enterrado. Era
corriqueiro.
Ninguém quer morrer ou ver o outro morto. Ou quer, dependendo da situação e da noção das consequências envolvidas. "Morreu, morreu, antes ele do que eu".
As entidades que representam a
medicina no Brasil acabam de definir regras para quem tem chance de sobreviver
e quem não terá. Até que enfim. Discussão e definição que deveria ter sido debatida faz tempo, mas morte é tabu "e não se fala mais nisso".
O drama maior será para os
médicos. São educados para salvar vidas. Não foram treinados para "isto" - deixar
morrer.
A verdade é que o Brasil vive há
muito com uma regra de quem morre e quem vive não escrita, mas
estatística. Norma não estabelecida no papel, mas de conhecimento geral e
irrestrito via programas macabros de rádio e TV de início de noite. Notícias
Populares na cabeça!
A diferença entre os "do
asfalto" e os favelados, os perifa, e os nortistas, é o costume de ver a morte
de perto, se não são os seus, o gado. Morre tudo igual, onde dá, onde está.
Morre, simples assim, matado ou morrido. Já viu de perto um presunto, já sentiu na mão a última vibração do corpo
já morto, viu o olhar da certeza que ali acabou? Não? Pois é, morreu. A gente
se acostuma, mas não sem um preço, não sem um preço, isto não, isto não.
Vai morrer às pencas. Eles infelizmente estão acostumados, é trivial, acaba não fazendo tanta diferença do dia a dia. Faz! As famílias estão se contaminando e muitos estão indo para auto isolando e assim não ter que enterrar filhos, país, tios, primos. Aí faz diferença.
Espero que caia a ficha deste povo quem os colocou nesta situação.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Vai mudar o que? O carácter brasileiro?
Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
Muda, muda, muda, muda....
Esta é a esperança da maioria.
Uai, se já tinham tanta vontade de mudar e tanto para mudar por que não mudaram
antes? Tinha um bocado de gente trabalhando para mudar situações críticas antes
da pandemia, no contexto geral eram poucos, muitos heroicos, alguns barulhentos,
outros utópicos. O grau de eficiência não foi medido, mas é certo
que bem poucos foram eficientes.
Esta maioria dos que agora
estão no grito da torcida muda muda até o começo dos males do coronavírus até
pensavam, falavam, resmungavam, brigavam em nome de suas mudanças, de novo, de suas mudanças, mas
praticamente não fizeram nada prático. A verdade é que aqui no Brasil nem jogar
lixo no lixo se joga, vejam nossas ruas. Portanto muda, muda, muda... o que? Mudar o que, para que, como,
de que forma, em quanto tempo, com que objetivo, para qual resultado, para
quem?
Muda, muda, muda, muda....
O que é capaz de mudar o
carácter de uma pessoa? E de um grupo social? E de uma nação? Uma nação. Exemplos
e respostas não faltam.
Bombas atômicas mudaram o
carácter do Japão? A devastação imposta pelos Aliados à Alemanha Nazista na
Segunda Guerra Mundial mudou o carácter de seu povo? Não, definitivamente não. Alemães
e japoneses entenderam seus erros, aprenderam com eles, e mudaram, mas o
carácter secular voltado ao bem coletivo continua exatamente o mesmo. Não os
únicos.
Pelo andar da nossa carroça a
pandemia não deve mudar o Brasil. Somos o que somos e nos orgulhamos disto.
Fazemos parte de um país que foi loteado, fragmentado, usurpado,
descaracterizado, principalmente nestas últimas décadas. Pior, um país que parece se orgulhar de sua pobreza e ignorância. Definir o Brasil como um país bipolar é uma
definição simplória. Não exagero dizendo que o carácter do brasileiro está intimamente
ligado à usurpação. Usurpação de uns pelos outros, de grupos sociais e da sociedade
por alguns, independentemente do nível social. Usurpação da terra, dos bens naturais,
das riquezas, também independentemente do nível social. E justificamos por ser um
país diverso. Diverso sim, mas sem unidade, que não se reconhece mais como Brasil,
mas como “nós e eles”, muitos “nós” e muitos “eles”, muitos, tantos que mal
sabemos.
Os erros do Brasil são
gritantes, mas parece que nada nos faz vê-los, sequer esta loucura da pandemia. A cegueira faz parte de nosso
carácter. A pandemia nos fará mudar?
Parece piada macabra, mas definitivamente não é.
No meio de toda esta baderna mortal as usuais práticas de autoridades e
políticos não mudaram, continuando seu persistente trabalho de autoproteção e a incessante busca
de vantagens. A sociedade é incapaz de manter um mínimo de estabilidade mesmo
em acordos os mais básicos e necessários. Ladrões e golpistas continuam os
mesmos agindo sem uma reação civil. Faz parte de nosso carácter a aceitação. Estamos acostumados a chorar nossas mortes inúteis.
Depois de um certo tempo as
coisas vão voltar mais ou menos para o que eram antes da pandemia. É humano. É
o que dizem pensadores, analistas e historiadores.
Depois deste tranco mundial
vai mudar o que? O valor humano, o valor ambiental, ou o ecológico? Vai mudar
para quem?
Tudo muda. Depende do que,
depende de cada momento e depende do carácter.
"Que a gente saia da epidemia sem amar controles de
comportamento" diz Pondé