terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Fiat 126 da socia do Paulistano e o projeto Fiat 147

Quando a Fiat decidiu entrar no mercado brasileiro eles precisavam descobrir com que modelo começar a produção. Na Argentina eles já produziam o Fiat 124, um compacto de quarto portas, motor transversal e tração dianteira, ótimo espaço interno, um projeto maravilhoso. Eu ia com frequência para Buenos Aires e Fernando, um grande amigo, comprou um assim que foi lançado. Maravilhoso, maravilhoso mesmo.

Mas o mercado brasileiro era outro e Fiat quis saber se aqui haveria espaço para um carrinho pequeno, urbano, bem menor que um 147 ou Uno, com preço final ao público bem barato. E trouxeram doze Fiat 126, o sucessor do Fiat 500 na Europa. Dez ficaram com pilotos de teste profissionais e dois acabaram nas mãos de duas senhoras, não me pergunte porque, mas provavelmente para eles saberem como seria recebido pelo público feminino. Um destes 126, lindo, quadradinho, genial projeto de Sérgio Sartorelli, veio parar com uma senhora que era socia do Clube Paulistano, que fica no Jardim América, São Paulo. Que por sua vez tinha do outro lado da rua a casa aonde morava um amigo meu, o Zé.

Entre os amigos do Zé, que eram sócios do Paulistano, estavam uns fortinhos, um deles bem grande, jogador de pólo aquático. Só aprontaram. Um dia passaram pelo pequeno 126 e decidiram ver se conseguiam levantar o bichinho. Se levantavam um Fusca, o 126 foi moleza. E para completar a brincadeira inverteram a posição do carrinho na vaga, e lá ficaram esperando a dona de dentro da casa do Zé. Óbvio que a senhora não entendeu nada, e que a brincadeira estava só começando para eles.

Bastava o 126 ser encontrado pelos pastilhas para ser carregado para lá e para cá, enlouquecendo sua dona cada vez que ela saia do clube. Um dia pegaram o 126 e carregaram para dentro do jardim da casa do Zé (na realidade a casa dos santos avós dele). A senhora vai pegar o carro e nada. Olha para um lado, olha para outro, anda para cá e para lá, é finalmente vê a cor do carrinho por entre a cerca viva da casa. Vai até lá, toca a campainha, aparece a Terezinha, a santa empregada de 1,48 m de altura, e a senhora com calma pergunta se ela poderia entrar para pegar o carro dela... E antes que ela terminasse o pedido ouviu-se um urro da santa Terezinha - José, venha imediatamente devolver o carro da senhora. Urro seguido por uma gargalhada da tropa escondida na janela do segundo andar.

Não faz muito, por uma ironia do destino, encontrei um dos envolvidos no projeto 126. Ele conhecia a história, não em detalhes, riu muito e confirmou que a bricadeira pesou na decisão da Fiat começar a operação no Brasil com o 147, que é derivado do 127.

Um pequeno detalhe de velhas molecagens também pesou na decisão final. São várias as histórias da garotada pegar as Romi-Isetas e colocá-las entre dois obstáculos para travar a única porta, dianteira, do carrinho minúsculo. E a história do problema que a VW teve com seus "CornoWagen", apelido dado aos fuscas 1965 com teto solar. Enfim, com bricadeira de povão não se brinca.

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