quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Bicicletas protegem as águas e...

Pedalei na ciclovia do Rio Pinheiros com um professor universitário especialista em meio ambiente que dá aulas em uma das mais importantes instituições do país. Lógico que a conversa foi "o Pinheiros tem jeito?". Tem, segundo ele, que deu explicações técnicas sobre a situação atual, pelo jeito uma situação menos dramática que tinham pintado para mim. Perguntei como está o esgoto lançado nos córregos que afluem no Pinheiros ele respondeu que não sabe exatamente, mas que é baixa. Tem que se recuperar os córregos ou não adianta fazer grandes obras no rio. 
Fato é que mundo afora foram recuperados inúmeros rios com situação semelhante aos dos rios Tiete, Pinheiros e Tamanduateí. Estive em NY agora e as águas dos Hudson e Easr River estão recuperadas segundo as autoridades. Devem estar porque vi o pessoal fazendo turismo em jetski. Pareciam patinhos seguindo o guia. Só se recupera com pressão pública, trabalho sério e tempo, muito tempo, nada muito complicado, fora a paciência. O mais difícil aqui no Brasil é manter a pressão pública. Das nossas frases prediletas está o "não vai dar em nada"; daí é que não dá mesmo.

Um pouco depois da inauguração da ciclovia do Rio Pinheiros encontrei pedalando o Fábio Barbosa que na época tinha alguma relação próxima, não me lembro qual, com o pessoal que estava trabalhando pela recuperação do rio. Ele contou que o mais surpreendente não era o número de ciclistas pedalando e se divertindo ali, mas o incrível aumento das reclamações e pedidos de providências ao poder público para trazer de volta a vida ao rio. 


Quando a população de Amsterdam saiu as ruas em 1972 para dar um basta na total liberdade que o automóvel e seus motoristas tinham então é possível que não fizessem ideia de todos benefícios que a retomada do espaço público e fomentar o uso da bicicleta trariam. Em relação às bicicletas, que a partir daí se transformou em ponta de lança de uma série de mudanças, a quantidade de benefícios é tão ou mais surpreendente do que poderiam imaginar, alguns hoje fartamente divulgados outros poucos conhecidos, dentre eles a proteção às águas. 

A poluição nas águas causada pelo automóvel começa pela emissão de gases e segue nos pingos de gasolina, óleo e graxa, nas partículas de borracha desprendidas pelo pneu, na transferência de detritos e poeiras, na morte de insetos, sapos, pássaros e outros animais, no que se joga discretamente ou não pelas janelas... A bicicleta pode até poluir e polui, mas numa escala infinitamente menor. A diferença mesmo vem através da baixa velocidade que circula o ciclista, o que faz com que seu olhar, cheirar e sentir na pele o faça mais atento, crítico, conectado ao meio ambiente. Hoje se sabe que relacionar diretamente a bicicleta com as águas deve ser uma das prioridades numa política de mobilidades e ambiental que seja séria. 
Falo aqui sobre "as águas" porque são canais, córregos, rios, lagos, represas, charcos, mangues, mar.

O caminho das águas costuma ser o melhor caminho para os ciclistas. A criação de parques lineares junto aos córregos dá aos ciclistas caminhos menos acidentados, mais agradáveis, ligando-os à preservação das águas, portanto da vida. Leva os moradores do bairro para junto da água estabelecendo um senso crítico importantíssimo para a sobrevivência de todos, não só os locais, mas de toda a cidade. Estes parques lineares transformam-se em corredores de alimentação para as ciclovias principais. 

Infelizmente nossas grandes cidades, que normalmente são recheadas de córregos e rios, optaram por usar os caminhos dos córregos e rios para implantar ruas e avenidas. Não só e pior, esgoto. O maravilhoso trabalho desenvolvido pela ONG Ruas e Rios mostra o a situação atual.
Assim como cano de esgoto que não se vê, boa parte de nossos córregos também não se vêem ou porque estão canalizados ou porque correm entre construções que os escondem, situação muito comum em favelas, mas não só. O Shopping Center Iguatemi fez uma grande obra de correção para colocar um trecho do córrego Iramaia ao lado de sua construção. Durante décadas o córrego corria por baixo de um dos estacionamentos cobertos. Em ótima entrevista José Bueno do Ruas e Rios explica bem o que acontece.

O Estado de São Paulo
17 de Outubro de 2019
Notas e Informações | A3

Apenas o básico

Seja lá quais forem as conquistas e expectativas dos brasileiros em relação ao crescimento econômico do País, se o Brasil não promover um choque de produtividade no saneamento básico, seguirá reputado como um bolsão de injustiça social e miséria. Afinal, quaisquer avanços em índices de qualidade de vida são irrisórios quando parte expressiva da população permanece alijada do básico para a subsistência: água limpa e esgoto.
Com 35 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada, 100 milhões sem coleta de esgoto e 4,4 milhões sem qualquer forma de esgoto, apenas 12% da população é servida por um sistema de saneamento irrepreensível. Com justiça, o País ocupa a 102ª posição no ranking de saneamento da Organização Mundial da Saúde.
(segue ao parágrafo final)
É um velho adágio no meio político que "cano enterrado não dá voto". Cabe à sociedade pressionar a atual legislatura, invertendo a lógica desse refrão não só velho, mas carcomido e perverso: político que não mostrar empenho redobrado em pôr fim à tragédia humanitária da falta de saneamento deveria ter sua ambição à vida pública morta e enterrada.

A bicicleta pode ajudar e muito mudar esta situação histórica. Basta ter um olhar mais amplo e social que se tem hoje e começar a falar sobre a cidade.  

A morte do ciclismo de estrada e o fechamento da Ford

O UOL publica reportagem sobre a morte do ciclismo de estrada no Brasil e por ironia no mesmo dia a Ford fecha suas portas no ABC Paulista. Mostra exatamente o país que temos, e não falo de agora. 

O ciclismo de estrada no Brasil chegou onde chegou porque os erros cometidos vêm de muito longe, muito mais longe que esta reportagem diz. Fazer acontecer de maneira não correta uma hora vai dar problema. Tendo trabalhado na Bicisport entre 1988 e 1990, e em outros órgãos de imprensa, sempre tendo contato com os bastidores soube de histórias nada promissoras cujo resultado ai está.

Por outro lado, os governantes, todos eles, ainda não entenderam o que está acontecendo no planeta. Não sei o que pensam sobre a bicicleta, mas tenho impressão que pensam errado, são completamente anacrônicos. Não vou falar sobre política esportiva porque vivemos num 7X1 que não conseguimos deixar para trás. Como escrevi no texto sobre o Pedal Anchieta 2019 os governantes e políticos brasileiros não conseguiram ainda entender o que é pão e circo, o verdadeiro, não esta tragicomédia porca que temos aí.

A saber, creio que o IBGE não esteja fazendo a contagem das bicicletas, mas todos do setor e mais algumas autoridades calculam, em cima dos números existentes, que temos mais de 40 milhões de bicicletas rodando pelo país. Portanto: bicicleta é fato, existe, ninguém pode negar, nem a mais desinformada autoridade que dirige olhando para o celular. Só aqui no Município de São Paulo pedalam para o trabalho algo em torno de 360 mil ciclistas/dia e vão para as ruas mais de um milhão de ciclistas nos domingos de sol, fora aos sábados.

A Ford está fechando sua fábrica no ABC Paulista, uma das primeiras do país. É uma tragédia dolorida, mas previsível, tanto pelo número absurdo de fabricantes que entraram no país principalmente nos anos PT, como pelos estímulos dados para salvar o setor que até um imbecil como eu sabia que seria um tiro de arrancar o pé fora. E arrancou. O resultado está aí. Primeiro, encheram as cidades de automóveis o que aumentou os problemas urbanos, inclusive a violência; e encheram as estradas de caminhões sem uma política de transporte de longo prazo, o que empobreceu e muito os caminhoneiros, não resolveu os graves problemas de logística, aliás piorou, e de quebra levou a uma greve geral da qual o pais ainda não se recuperou por completo. E... não resolveu o problema dos sindicatos e sindicalizados do setor; nem poderia, nem que quisesse, nem em delírio, já que o setor caminha para a mecanização completa da linha de produção, caminho irreversível. Acabou, ponto final!

O Brasil não tem uma política de estado de longo prazo para os transportes. Nem sequer para a logística de escoamento de nossas super safras agrícolas. Não temos uma diretriz para os transportes urbanos. Não temos nada. Vai tudo no pontual, na persona, no tiro no pé, um atrás do outro.

Enquanto lá fora já se falava em redimensionar, mudar o rumo e até mesmo frear o setor automobilístico, aqui no Brasil a política foi no sentido contrário. 

Enquanto todo planeta está eletrificando, o Brasil, um dos países com melhores condições para o setor elétrico, traz tecnologias obsoletas e tacha os elétricos. Protege o Pré Sal? Será possível?

Enquanto as bicicletas e o esporte ganham cada dia mais importância na qualidade de vida e produtividade dos países que caminham a passos firmes rumo a este futuro que chega numa velocidade impressionante, nós continuamos emperrados num passado desordenado, improdutivo, obsoleto, pobre, pobre, pobre. 

O desaparecimento do ciclismo de estrada e o fechamento da Ford tem um denominador comum: o país bipolar que dá mais atenção a surtos psicóticos dos dois lados do que em planejar um futuro melhor para todos.


domingo, 27 de outubro de 2019

O elo perdido no senhor dos anéis

Qual seria o elo perdido que daria ao Brasil um futuro de fato melhor? Esta é a pergunta que muitos se fazem neste país do futuro que não só nunca chega, mas que a cada dia parece mais e mais distante do tão esperado futuro melhor.

Da mesma forma que o jeitinho brasileiro de um passado distante, aquele do fazer as coisas de uma maneira diferente, com inteligência, desprendimento, para chegar a um resultado bom, surpreendente, mudou de bom vinho, boa cachaça seria melhor, para água podre e fedorenta, firmado e afirmado depois de uma propaganda, a famosa "lei de Gerson", simbolo de sacanagem, a má esperteza, desvio, má fé. Deve haver algo que leve ao caminho contrário, do negativo para o positivo.

No fim do filme sobre a vida de J. R. R. Tolkien, o escritor de Senhor dos Anéis, ele recebe a mãe de um de seus colegas de escola que morreram durante a Primeira Guerra Mundial. Ela senta na cadeira onde seu filho se reunia com os amigos da escola e diz, muito emocionada, que tinha perdido dois filhos e que uma outra mãe, amiga sua, tinha perdido três para aquela guerra. Morreram 9 milhões de combatentes e 7 milhões de civis na maior carnificina da história. Duas décadas depois mais outros entre 50 a 70 milhões entre civis e militares na Segunda Guerra Mundial. 
O contexto no qual milhares de mães perderam seus filhos nas duas Guerras Mundiais foi da luta do bem contra o mal de verdade, não o imaginário, da liberdade contra a mais cruel ditadura, contra a barbárie, contra o fanatismo sem limites, sem razão. As perdas, mesmo dos próprios filhos, apontavam para um futuro de esperança. Esperança!

Não sei qual é o número proporcional de mães brasileiras de periferia que perderam seus filhos de forma violenta, mas é alto, inadmissível. Não tenho medo de dizer que foram vidas e mortes vazias, sem sentido, pior, sem qualquer esperança. Na estupidez generalizada que vivemos a violência não faz mais qualquer sentido. Não há uma luta do bem contra o mal, mas tratar de manter-se vivo no dia a dia, nada além disto.

Um dos documentários que vi sobre a reconstrução da Alemanha pós Segunda Guerra Mundial fala sobre adolescentes que foram ou ficaram escondidos, não quiseram ou não se interessaram em ajudar na reconstrução das cidades e da vida de todos. Quando descobertos foram executados pela própria comunidade no meio da rua. Não se deve colocar esta brutal cena histórica sem contextualiza-la, mas dá para avaliar o que é o valor da esperança como prioridade absoluta para um futuro de paz.

Somos animais com uma capacidade quase sem igual de adaptação e acomodação ao meio ambiente. O ser humano se acostuma com o ruim, principalmente quando não tem referência sólida do que é bom, correto, eficiente, digno, racional. Nossas periferias e favelas têm uma qualidade de vida precária, em muitas localidades miserável, indigna, degradante. Aliás, vou mais longe, nossas cidades têm no geral uma qualidade urbana ruim, muito longe dos parâmetros definidos pela UNESCO como saudáveis e dignos. Como boa parte da população brasileira não conhece outra opção, o que é ruim passa a ser o normal, quando não referência, e por isto mesmo parte da identidade coletiva.

"Quanto pior melhor" foi e continua sendo usado como princípio político partidário em discurso e ação ideológica. Esta posição visa por um lado confirmar as identidades locais e individuais deslocando as mazelas para os próximos, de preferência para os "inimigos", reais ou criados, a maior parte deles criados. Uma luta do bem contra o mal, exatamente como nas religiões mais distorcidas e fanáticas. Muita gente ganha com o Brasil bipolar, e aí toda nossa verdadeira esperança é derrotada.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Pedal Anchieta 2019

Como tudo neste país, Pátria Amada Brasil, não poderia ser de outra forma: ninguém sabe ao certo se o Pedal Anchieta 2019 sai ou não sai. A explicação que dão Renata e Willian no abaixo vídeo diz tudo.

Quem já viu o vídeo sabe que os ciclistas estavam em tratativas para fazer que o Estado se responsabilizasse pelo Pedal Anchieta 2019 e que por sua vez o Estado queria passar a organização, a responsabilidade e principalmente os custos para alguém, quem quer que fosse. Precedentes eles têm porque a maioria dos eventos de corrida a pé são organizados por entidades particulares e não pelo poder público. O modal, bicicleta, que é pela lei um veículo, o tamanho, a extensão e a escala do Pedal Anchieta, tudo junto, não permite pensar o evento da mesma forma que uma corrida a pé, mesmo se comparado à São Silvestre, o maior evento do pedestrianismo. Não dá para jogar nas mãos do primeiro que levanta a mão. Só ser bem-intencionado não basta principalmente num evento deste tamanho e complexidade. É dever do Estado olhar as credenciais de quem vai prestar um serviço público.
Fato é que as autoridades tiveram um ano para pensar e organizar o evento. É praxe que as autoridades percam as tartarugas sobre a mesa, e perderam. Uma coisa é querer repensar e reorganizar a coisa toda da bicicleta, outra é cozinhar o galo vivo e com pena e tudo. Ninguém aguenta mais o empurrar com a barriga de autoridades.
Não dá para brincar com um evento que ano passado reuniu 33 mil participantes, não só, 33 mil ciclistas; ou mais. Quantos sejam, foi uma linda loucura ter a Anchieta entupida de bicicletas, gente feliz para valer pedalando mais de 70 km, algo sem precedentes. Teve problemas, sim, teve, um infelicíssimo acidente fatal, sim, mas não contar com uma possível situação destas é ficar fora da realidade. Virou conversa para muitos dias entre os que não foram, e criou uma ansiedade sem precedentes para este ano. Tem muita gente perguntando como vai ser este ano. A ansiedade está maior ainda porque São Paulo perdeu a Ciclo Faixa de Domingo.
Em cima da risca as autoridades vão dizer que não deu, não vai acontecer? Vão ser tão irresponsáveis imaginando que simples palavras evitarão que o passeio ciclístico para Santos aconteça de qualquer forma e que se repita numa escala maior o que aconteceu em 2017? Vão brincar de acender estopim? Uma pancadaria na serra não pode se espalhar? Não sabem do que está acontecendo aqui na América do Sul, no Chile, no Equador, na Bolívia? O Governador do Estado João Dória vai bancar a aposta?
Lembro a todas autoridades e a Vossa Excelência Governador do Estado de São Paulo: “pão e circo”. A história prova que dá ótimos resultados acalmando os ânimos.

Como tudo é entendido como ameaça neste país bipolar reafirmo que não sou de meter fogo no circo; quero paz. Vejo com muita preocupação o que pode acontecer. Não vejo outra saída a não ser o Pedal Anchieta ser realizado.
Entendo os problemas que o Estado de São Paulo vem passando, assim como acho que o uso da bicicleta tem que ser pensado e trabalhado com muito menos entusiasmo juvenil. É modo de transporte importantíssimo, lazer de milhões, esporte cada dia mais popular. Não é coisa para se brincar.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

ciclovias e parques no entorno da Represa Guarapiranga

Você já pedalou no entorno da Represa de Guarapiranga? Não. Não sabe o que está perdendo. É um dos locais mais bonitos e agradáveis de São Paulo. Hoje temos a ciclovia que acompanha toda a av. Robert Kennedy, que vergonhosamente mudaram de nome para av. Atlântica. Que seja. Tiraram praticamente todas as construções irregulares que estavam entre a avenida e a represa, o que aumentou muito a beleza do lugar. É um passeio para dia inteiro porque dá para subir até Interlagos, há muitos bares, padarias e restaurantes, bairros agradáveis, e se o tempo estiver bom dá até para ir velejar. Alguns córregos foram recuperados, criados pequenos parques lineares. Um pouco mais adiante tem o SESC Interlagos, o maior de todos em área e sempre com uma boa programação. Dá para terminar a tarde tomando um café num dos clubes de vela vendo o pôr de sol. Melhorou muito, mas poderia estar muito melhor.

Em 2009 fomos contratados para fazer o projeto funcional de um anel cicloviário no entorno da represa. Sabíamos que seria contrapartida para um mega projeto de reurbanização de um bairro residencial de pequenas casas próximo à barragem próxima a av. Socorro, com a criação de imenso parque com algumas poucas torres, algumas residenciais, outras comerciais. O que eu não sabia é todo o projeto tinha por trás a vinda para o Brasil de um dos principais museus do planeta, o que se não é verdade, pelo menos faz todo sentido. A contrapartida iria muito além da ciclovia, e passaria pela recuperação e reurbanização de toda margem da represa Guarapiranga. Entre a barragem e o Clube de Campo São Paulo se propunha a criação de um extenso parque linear para pedestres, ciclistas, montarias, pescadores, velejadores e praticantes de outros esportes náuticos. Para a então já prevista ciclovia do rio Pinheiros seriam feitos dois acessos, um pelo canal que liga a barragem ao rio e fica paralelo a av. Guido Caloi, e outra direta para Estação CPTM Jurubatuba através de ponte para pedestres e ciclistas. Seria feita também a ligação com o autódromo de Interlagos e com terminal Grajaú através do já recuperado córrego São José.
Na outra margem da represa seria realizada a correção viária da avenida Guarapiranga, a ligação direta para pedestres e ciclistas, com deques e pequena ponte sobre um córrego, entre os Parques Municipal e Estadual - Ecológico da Guarapiranga. Uma ciclovia ligaria ao terminal M Boi Mirim. As Estradas da Baronesa e da Cumbica seriam alargadas e receberiam calçadas largas e ciclovia.
Os responsáveis pelo mega projeto nos avisaram que estava proposta a construção de uma ponte para pedestres e ciclistas ligando o Balneário Dom Carlos com o Jardim das Palmeiras, ligando as duas margens para fechar o círculo e dar a volta completa, 55 km de ciclovias, calçadas e em alguns trechos trilhas para equitação; em meio a parques náuticos e os parques lineares dos córregos recuperados. Não preciso nem falar sobre o fortalecimento dos clubes de náutica e iatismo, em especial as escolinhas de vela.
Depois de várias vistorias o projeto funcional foi entregue. Nunca mais tivemos notícia. Mais um belo projeto que sumiu do mapa. Pena. A Guarapiranga merece. Sei que há toda uma questão política e social, mas se deve levar em consideração a prioridade de preservação das águas. Com água não se brinca. Um dia recuperam, na paz ou no tapa, as nossas represas. A crise hídrica que tivemos acendeu o sinal de alerta, que não parará de tocar daqui para frente.

Estava conversando com um morador de uma das travessas da avenida Dona Belmira Marin, a que passa pelo terminal Grajaú e vai até a balsa de Bororé. Eu contava para ele sobre este projeto de recuperação da Guarapiranga com a recuperação de todos córregos pelo Projeto Córrego Limpo da SABESP com colaboração da Prefeitura de São Paulo, mais os 55 km de calçadas e ciclovias. Ele, antigo morador da área, começou a levantar as orelhas, ficar a cada palavra mais interessado. Num determinado momento ele me interrompeu e contou que mora no Jardim Shangrilá desde a década de 70, num terreno e sobrado legalizados, com documentação, água, esgoto, IPTU e tudo mais. Durante vários anos o córrego que fica próximo de sua casa era limpo e cheio de mato, dava para pescar. Começaram a chegar os invasores, gente muito pobre, e os moradores ficaram com pena, deixaram invadir e construir seus barracos ainda longe da represa. A invasão foi indo até acabar com o córrego e chegar nas águas da represa.
Depois que viram o a recuperação do córrego São José, de onde retiraram invasores, reformaram e organizaram as casas, canalizaram o esgoto, criaram um parque com campinhos e área de lazer, os vizinhos começaram a sentir inveja e mudar de ideia sobre os invasores que se instalaram no córrego. Mais, estão começando um movimento para tirar os invasores do córrego e ter parques como o São José e mais dois córregos que foram recuperados pelo Projeto Córrego Limpo.
A matemática das águas é simples: a vida depende dela e água poluída praticamente para nada serve a não ser deixar a população doente. Caiu a fixa. Há um drama social, ninguém duvida, mas se não for trabalhado rapidamente teremos um caos hídrico. Aliás, já temos. E aí, como fica?
Tudo muda com uma rapidez absurda nesta terra. O projeto funcional que fizemos faz 10 anos provavelmente tem que ser refeito. O que não pode é demorar. Guarapiranga e Billings tem que ser recuperadas com a máxima urgência.
Enquanto isto não acontece aproveita o que já existe porque é lindo, vale a pena. E o passeio deixará uma mosquinha na sua cabeça, a mesma de quem pedala na ciclovia do rio Pinheiros e vê aquela tristeza de água.


sábado, 19 de outubro de 2019

A cidade brasileira e a indústria 4.0

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Para colocar o Brasil na rota da Industria 4.0 não basta revolucionar o setor industrial, o que dificilmente gerará os resultados esperados se não houver em paralelo uma grande revolução para melhoria da qualidade de vida nas cidades brasileiras. O ambiente hostil de nossas cidades comprovadamente prejudica e muito a educação, o aperfeiçoamento e treinamento, essenciais para qualquer mudança, principalmente a exigida não só por indústrias 4.0, mas nas mudanças que se impõe tão rapidamente. É muito difícil compreender o que é de fato valor agregado se a base da vida, a cidade, é uma baderna, funciona mal, suja, poluída, imprevisível, com esgoto correndo a céu aberto... O Brasil não conseguiu sequer consolidar o patamar de qualidade de décadas atrás. Os trabalhadores de indústrias e serviços com selo ISO não conseguiram replicar o básico do sistema de qualidade do ambiente de trabalho em suas comunidades, em seus bairros, em suas casas. Quando há uma dissociação, um conflito e até um abismo entre o padrão de vida pessoal e a do trabalho a probabilidade de ocorrerem problemas e distorções diversas no macro é grande. A verdade é que o Brasil não conseguiu sequer implementar em todos seus sistemas administrativos, econômicos e sociais o básico de qualquer sistema de qualidade. As principais cidades do planeta estão sendo preparadas para a nova realidade que está aí. O jogo que se apresenta é bem definido no excelente e tenebroso texto "O Brasil e a Industria 4.0" da página A3 do Estadão: ou se está dentro ou se está fora desta revolução industrial. Vale para as cidades. Vale para nosso futuro.



terça-feira, 15 de outubro de 2019

Não tenha chilique, reclame. Não reclame, seja preventivo


Sou um dos privilegiados deste país. Como tal não tenho direito de ter chiliques com as malditas formalidades necessárias burocráticas estúpidas, ineficientes, desnecessárias, arcaicas, mas tenho obrigação, principalmente por ser privilegiado, de reclamar com razão e sensatez. 
Tive um estouro porque me pediram uma série de dados pessoais dos sensatos aos surrealistas para realizar uma operação. "Prende o pessoal que faz irregularidades. Prende! Por que um cidadão que faz tudo certinho tem que preencher um monte de papeis estúpidos?" disse entre outras no meio de um chilique. Minha reclamação é justa, assim como a necessidade de garantias por parte do banco para realizar a operação. Reclamação é uma coisa, chilique é outra, isto é fato. Reclamação se transforma em chilique porque situações como esta que descrevo, ou infinitas outras corriqueiras neste país, poderiam não acontecer caso no passado eu, tu, ele, nós, vós, eles, tivéssemos feito alguma coisa para que as coisas mais simples funcionassem de maneira mais racional, prática, sensata, produtiva. Se não fiz, não fizemos, não tenho, não temos o direito de ter chilique. Tenho, temos hoje o que compramos no passado.
Logo ali na sala de onde digito este mais que um desabafo, largada no chão, está uma torradeira do Mickey que quebrou na terceira vez que foi usada. Sempre reclamei, tenho um logo histórico de gritaria indo atrás de meus direitos, mas estou exausto e desta vez simplesmente não tive forças para reclamar mais uma vez de mais um produto que dá problema logo no início de sua teórica vida útil. Antes da torradeira foi uma cafeteira expressa Philco que quebrou um mês depois do uso, foi para a garantia, voltou com defeito, foi para a garantia, e mais uma vez deu defeito. Na terceira vez num técnico, aí não mais de autorizada, ouvi que poderiam consertar, mas a bomba padrão daquele modelo de cafeteira era frágil e provavelmente quebraria de novo em pouco tempo. Não duvidei. depois fiquei sabendo que o amigo que a recomendou também descartou a sua. Não me lembro mais qual produto que tive problema antes da cafeteira e da torradeira, nem quero me lembrar, ou fico mais furioso que estou. Ah! o acendedor automático de fogão. Antes dele... Em nome de minha sanidade mental paro por aqui, mas sei que enquanto digito este texto mais e mais quebradas lembranças serão recordadas. Fato é que não só os 1,99 são de baixa qualidade. Infelizmente baixa qualidade faz parte da vida dos brasileiros, eu sei disto, vivo batendo na mesma tecla. Lembrei de outro: freio a disco de duas bicicletas que pararam de frear. Chega, não quero lembrar de mais nada; sigamos em frente.
Pausa!

Na vida tem certos problemas que tem que ser resolvidos e ponto final!
Preciso recolocar minha cabeça no lugar e voltar a reclamar se quero ter paz. Chilique é que não dá. Reclamar é chatíssimo, mas dá resultados não só para você, mas para toda a sociedade. Se o povo todo reclamasse nossa indústria não estaria da pindaíba que está, o serviço público seria outro, não teríamos tanto problema com lixo, teríamos uma sociedade mais justa... É nosso dever, dos privilegiados, reclamar, sem chiliques, reclamar com razão, inteligência, persistência, reclamar até corrigir o errado.

Ontem estive com uma pessoa do mercado de bicicletas que está horrorizada com a baixa qualidade das 29 baratas que estão sendo vendidas. Para sobreviver tem marca americana que foi considerada primeira linha, referência de qualidade, que está oferecendo uma versão baratinha da 29 com 21 marchas câmbio Shimano. Shimano, mas nem tanto, o resto é mistureba, passador de uma marca, coroa e catraca cada uma de outra, corrente de mais outra, uma mistura feita para baratear que até aqui só era encontrada em bicicletas vagabundas de, digamos assim, 1,99. Mas para leigo o que vale é ouvir Shimano e o resto ele não quer nem saber, nem mesmo que seja só Shimano o câmbio traseiro e ainda assim o mais básico. Não vai funcionar como deve, provavelmente vai ficar dando problemas. Mais, a relação de marchas é própria para roda 26, muito pesada para 29 que tem diâmetro maior, pouco reduzida para subidas, péssima para iniciantes. Ninguém reclama, ninguém fala uma palavra, acha tudo normal até a hora que fica na mão, aí tem um chilique no meio da rua e depois na bicicletaria. Ou pior, encosta a bicicleta e nunca mais pedala, o que é muito comum. O número de bicicletas empoeiradas e jogadas na garagem aqui no Brasil é absurdo. O setor reconhece que só na cidade de São Paulo passa de alguns milhões, uns prováveis três ou quatro, dizem. Deprimente.

Ficar esperando que os outros resolvam seus problemas é dar tiro no próprio pé. Quem espera nunca alcança, diz aquela música que acho chatérrima, mas diz a verdade. Assim como é verdade que os que tem chilique tem um perfil displicente, esperneando no bar e não fazendo nada no lar. O “não é responsabilidade minha” quando cai na cabeça vira “FDP!”. Ou então não sabe a diferença entre reclamar e ter chilique.
Vale aqui um deprimente exemplo, a Argentina, que já foi o 5º país mais rico do mundo, com um dos melhores índices de escolaridade, que em 1974 tinha 4% da população na pobreza e agora tem 35,4%. Em 1973 elegem Peron e a Argentina entra num ciclo de populismos sem fim, com massa gritando chiliques de todos lados. O resultado está aí. Este exemplo conheço porque vi pessoalmente boa parte dos absurdos. Não é o único.
Europa e Estados Unidos tem a cultura de reclamar, e reclamar imediatamente. Aconteceu, reclamou. Acho que deu certo.

O Japão segue um lema que é mais ou menos assim: Não importa como você encontrou o lugar (ou uma coisa), interessa como você vai deixar para o próximo (sempre melhor).

O ideal é não ter que reclamar e muito menos ter chilique; o certo é agir para não ter que reclamar. Numa palavra: ser preventivo.
Não tenha chilique, reclame; não reclame, seja preventivo. Exemplo prático vem da medicina: o Brasil sofre surtos de sarampo, varíola, dengue, dentre outros, porque não foi e segue não sendo preventivo. O resultado são pessoas morrendo. Para que?