sexta-feira, 31 de julho de 2020

Sinalizações e viabilidade da mobilidade

Reginaldo Farias sempre repete que "Somos todos pedestres, mesmo quando estamos de carro, porque temos caminhar até o carro". 
Somos todos pedestres! ponto final e não há discussão.

Você já se perdeu num shopping? Não? Nunca ficou sem encontrar o banheiro quase fazendo pipi nas calças? Duvido. Se encontrou é por que você sabe onde é o banheiro; do contrário, se não conhece o lugar, o que é muito comum aqui no Brasil, tem que perguntar para um funcionário. 
Sinalização! 
Básico; o meio mais fácil de estimular o ser humano é através do prazer. Estimula-se o caminhar também pelo prazer. Normalmente quem fica desorientado não quer seguir caminhando. Sem uma boa sinalização para. O que leva supor que mobilidade ativa depende de orientação, portanto sinalizar maneira minimamente adequada.

Tive que ir ao Shopping Eldorado para resolver um problema com a Claro. Saí da Estação Pinheiros e fui a pé para o shopping, exatos 1 km, cruzei a passarela dos pontos de ônibus na av. Euzébio Matoso, desci a escadaria e dei de cara com a grade do shopping fechada - e sem nenhuma sinalização, seja por onde entrar ou para que lado ir. Por pura sorte fui para o lado certo e entrei no estacionamento do shopping pela grade que fica escondida debaixo da escadaria, onde também está a rampa para deficientes. Na minha frente todas as portas do shopping fechadas e novamente por sorte, e por já ter entrado no shopping uns dias antes, fui para a entrada correta. Sinalização? Nada. 
Uns dias antes tinha ido ao mesmo Shopping Eldorado pedalando para resolver o mesmo problema com a Claro, que claro não foi resolvido e por isto tive que voltar lá. Que seja. Cheguei no portão do estacionamento próximo da CPTM e estava fechado; e sem qualquer sinalização por onde deveria entrar. Dei a volta, fui para a entrada da Reboucinhas, e de novo sem sinalização para ciclistas imaginei que deveria entrar pela entrada das motos. Um funcionário me parou e deu o caminho correto. Se não conhecesse o local do bicicletário, que fica num canto do segundo subsolo, teria me perdido novamente. Sinalização? Nada! Deixei a bicicleta no bicicletário e a porta de entrada no shopping em si, a área das lojas e da grande academia, estava fechada. Para onde ir? Sinalização? Nada. Caminhei até a próxima porta onde o segurança me disse que a porta estava quebrada. Reclamei da falta de sinalização. Quando voltei ele me avisou que a porta já estava consertada. Sinalização? Nada.
Dentro do shopping descobri que as lojas só abrem às 16:00 h. O shopping fica aberto antes disto por conta do supermercado. Sinalização avisando horários? Nada.
Minha pergunta: o que custa para um dos principais e mais movimentados shoppings do Brasil sinalizar cordialmente para seus clientes? E agora, no meio da pandemia, quando diminuíram sensivelmente os clientes, não valeria a pena ser mais atencioso ou do jeito que está, está bom? Duvido.

Aos ativistas da mobilidade ativa. (rima)
Não estar bem sinalizado não é um problema exclusivo deste shopping, mas de todo Brasil. A regra aqui é "os idiotas têm que saber onde têm que ir". Sabem quando vamos ter a utopia sonhada por todos, incluindo eu, na mobilidade ativa? Quando os idiotas descobrirem para onde tem que ir, ou o processo vai ser lento, lento, lento.... , bem ao estilo brasileiro.


Sobre a Claro: prestou bons serviços durante uns 20 anos, mas que troquei por uma outra por uma simples questão de custo, oferta irrecusável. Depois de fazer a portabilidade comecei a receber ligações da Claro dizendo que tinha algo pendente. A princípio pensei que fosse golpe, mas não demorou muito, ainda antes da pandemia, chequei via internet e nada constava, depois fui até a loja da Claro no Conjunto Nacional e lá me repetiram que estava tudo certo, que eu não devia nada. Como continuei recebendo ligações telefônicas em que me davam dados meus errados pensei que era golpe. Repito, minha relação com a Claro foi de 20 anos e nunca, repito, nunca atrasei uma conta. As ligações feitas por máquina continuaram se repetindo até se intensificar nestes últimos meses, chegando a 3 numa única manha. Não acreditei quando descobriram o telefone de Tereza e numa destas ligações voltaram a dar dados errados. 
Não faz muito telefonou uma menina da cobrança da Claro e finalmente conversei como um ser humano. Me disse que eu tinha em aberto uma conta relacionada a meu chip de celular da Claro. Como? Fui até a agência do Eldorado onde soube que reclamavam ter uma pendência de chip de internet. Celular ou internet? Falar de Arturo Alcorta e misturar com um chip de internet é querer divertir meus amigos. Quem me conhece sabe que não sou destas coisas e é facílimo provar que não sou, que não uso, que não tive, que não tenho, que não quero ter, que não faço ideia para que serve. E nunca comprei um. 
É triste terminar o relacionamento com a Claro desta forma. Sei que as companhias de telefonia são as que recebem mais reclamações, mas aprendi na carne que a bagunça é tanta que nem o sistema de informática de uma das principais empresas do Brasil que trabalham com comunicação e informática funciona corretamente para a própria empresa. Não sei como fazer, mas gostaria de ter gravado todas as ligações que a Claro me fez, que foram muitas, confusas, que me deixaram com um "é golpe" na cabeça. Não era, era muito pior, era péssima qualidade de controle interno da própria Claro. Eles simplesmente erraram com frequência dados que deveriam estar na minha ficha de ótimo ex cliente. Seria uma gravação longa, mas faria o pessoal rir muito, ou chorar, sabe-se lá. Parece golpe, mas não é. De minha parte não acho mais graça. Ontem estive lá na Claro Eldorado, fui bem atendido, e me disseram que dentro de cinco dias úteis estará resolvido. A esta altura do campeonato duvido, mas a esperança é a última que morre. 

protocolos de atendimento Claro:
2020624493861 - 22\07\20
2020625673819 - 23\07\20
2020628498595 - 24\07\20
Nenhum dos atendentes conseguiu ver no sistema os outros atendimentos ou seus protocolos. Infelizmente não acho o primeiro protocolo de atendimento, o do Conjunto Nacional antes da pandemia numa tarde ensolarada depois do almoço.
2020644020107 - 29\07\20
Vamos ver se resolve. Só hoje já recebi 3 ligações de máquina.   


 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Você sabe quem está pedindo desculpas?

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A contradição de fazer e depois desfazer o pedido de desculpas feito pelo desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, a um Guarda Municipal no cumprimento de seu justo dever é a resultante de sempre termos aceitado com tanta naturalidade o perfeitamente lubrificado corporativismo dos Três Poderes da República, assim como dos que deles tiram vantagens. Por pura ironia tipicamente brasileira talvez as arrogâncias, grosserias, prepotências, ignorâncias, e outras tantas demonstrações do mais puro desrespeito a toda população brasileira que Jair Messias Bolsonaro, que está Presidente da República, nos sirva para tomar consciência que já extrapolamos todo e qualquer limite. Definitivamente não será esta Justiça que aí está que dará os limites; e não será porque é a mesma que abafou mais de 40 casos de transgressão deste desembargador, o que é muito provável que venham fazendo corporativamente com tantos outros dos seus iguais. Em mais um sinal de fumaça, muita fumaça, tipo queimada na Amazônia, Augusto Aras, atual Procurador Geral da República, toca fogo no circo para mostrar quem é quem embaraçando investigações que até aqui tem afetado o corporativismo. Definitivamente sabemos com quem estamos falando, nos resta ou mostrar quem é o Brasil ou abaixar o rabo e seguir em frente. A decisão é nossa.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

torres de Babel



Na foto acima uma das "torres de Babel" originais ainda existentes.
Abaixo a "torre de Babel" recém inaugurada em Hudson Yards, NY.

A Torre de Babel, que está no Gênesis, foi construída para que o povo que falava a mesma língua pudesse chegar aos céus, a Deus, que por sua vez embaralhou todas a línguas para que eles não pudessem se entender e se espalhassem pelo mundo, numa punição ao orgulho. 

Onde se falam todas as línguas, no sentido figurativo e literal
é onde nos tornamos mais fortes e mais civilizados
aceitar e compreender o desconhecido
é o caminho para o saber
e quem sabe sabe
ignorância mata
hoje o Google
explica 


Para subir aos céus é preciso pegar ingresso grátis,
o que só pode ser feito pelo aplicativo, ou não sobe


Amem ou amém

O que uma antiga foto de patinete motorizado pode nos dizer



Nada se cria, tudo se copia. A foto acima é datada de 1916, e pelo "Lady" da jovem senhora deve ter sido tirada em Londres, com um patinete motorizado, pelo que se vê a motor a combustão. É muito provável que já houvessem patinetes elétricos, tecnologia que já estava bem desenvolvida antes de 1900, pelo menos os motores; mas não as baterias, ainda eram primárias, de pouca carga e duração, além de altamente poluentes. 
O número de veículos elétricos circulando até os primeiros anos de 1900 era expressivo. A foto a seguir é de um táxi londrino movido a eletricidade que está no Science Museum de Londres; uns dos tantos veículos elétricos que circulavam pelas ruas bem antes de 1900.
Para colocar dentro do contexto das cidades da época, a maioria dos transportes era movida a cavalo, portanto as ruas viviam cheias de bosta física, aquele montinhos pastosos e fedorentos espalhados por todas as ruas.

 
Nada se cria, tudo se copia. E só vira realidade quando está pronto para fazer bom proveito da novidade. A ideia de um veículo movido a eletricidade que não cagasse e deixasse cheiros era brilhante, não fosse os "pequenos" porem da nova tecnologia. Olhando a foto acima dá para perceber que faltava muita engenharia automobilística, como sistema de direção, freios, estrutura mais leve... Ou seja, a tecnologia não estava pronta. O que Ford e seu Fort T fizeram foi colocar nas ruas uma tecnologia própria funcional para o momento, anos 1910, 1920, com disponibilidade de produto e serviços para os compradores a um custo acessível. Com o Ford T a era dos carros elétricos caros e difíceis de manter ficou para trás.

Votando a foto do patinete de 1916 e sendo direto: não é a ideia que é genial, mas a funcionalidade da ideia no contexto do momento. 
 
As fotos que seguem foram tiradas em 2012 em Paris. Patinetes fazem parte da paisagem parisiense há muito tempo, principalmente usados por crianças de todas idades, inclusive as muito pequenas, para ir à escola. 
Os patinetes motorizados elétricos por aplicativo entraram e se espalharam por Paris com a mesma rapidez que aconteceu em todas as partes. Um tempo depois foram proibidos devido ao alto número de acidentes.
Não é porque é simplesmente mobilidade ativa que é a solução genial. Todos fatores envolvidos tem que estar funcionando bem para dar certo ou vira um tiro n'água ou, pior, fogo amigo. Daí o que sempre repito: não é a bicicleta pela bicicleta, é a cidade.











Um dia descubro referências sobre bicicletas elétricas antes de 1900. Enquanto não acho...

quinta-feira, 23 de julho de 2020

O futuro das cidades tendo a crença como dogma

Quem está pedalando ao seu lado é um bolsonarista ou um petista? O que importa? Que diferença faz para sua saúde? Ninguém quer saber enquanto todos estão pedalando. Parado e conversando a história é outra, o contágio dos discursos é instantâneo, a febre da raiva sobe rápida e a garganta fica irritada pela voz alta ou berros imediatamente. Que seja, não importa, a solução é pedalar independentemente de quem esteja por perto. Não é uma gripezinha, a terra não é plana, tem diversidade de terreno, subidas, descidas, ciclistas vestidos de todas as cores, os assaltos continuam independentemente se vêm da esquerda ou direita ou se os assaltantes estão escondidos atrás de um templo ou de galpões, estas são as pragas que não se consegue parar; muito pior que gafanhoto. 
Bicicleta de novo significa liberdade, como sempre significou história afora. Vamos pedalar. Aliás, vamos pedalar, caminhar, correr, tomar cuidado, viver; vamos transformar nossas cidades.

A tarde vou pegar mais máscaras, desta vez para meus queridos amigos Sandrelei e Cláudio, donos do ex quilo onde comi por décadas. São uns 18 km ida até próximo do Horto e mais 18 km de volta, cruzando a Marginal do Tiete lá pela Barra Funda. Fui várias vezes durante o "fique em casa". Final de março e abril o caminho estava vazio e foi uma delícia olhar a marginal com pouquíssimo movimento. A última vez que fui, semana passada, vida normal, trânsito infernal, cheiro horroroso de poluição que gruda em tudo. Parece que a pandemia está sob controle aqui em São Paulo, mas definitivamente não está no resto do país, resultado de profunda mediocridade, da crença religiosa nas falácias e fórmulas mágicas, negação da ciência, objetividade ineficaz, uma soberba sem tamanho, muito "você sabe com quem está falando...", o culpado são os outros... Nunca antes neste país tivemos tamanha ignorância. Ou sempre tivemos e nunca quisemos ver, o que provavelmente é fato. Que seja, vamos pedalar.

Ontem foi comemorado com muita festa a aprovação do Novo Fundeb pelo Congresso, o que significa que pelo menos verba a educação vai ter. Acho, só acho, que a educação brasileira é fraca, mas pelo menos vai ter cacau. Brasil é campeão ou está próximo de ser campeão mundial de inúmeras mazelas: educação, saúde pública, mortes violentas, mortes no trânsito..., e não sigo no etc... porque entupiria este blog com nossos erros perenes. Uma coisa é certa, só a educação salva, inclusive dos obscurantismos, eu disse "dos", o pavoroso que vivemos hoje e outros do passado um pouco menos maléficos. Fato é que o Brasil não vai para frente porque é um país de mal educados, quando não crentes, não só os religiosos, o que também é sinal de ignorância. Besteira até o maior dos sábios diz, o problema é o tamanho e as consequências da besteira dita. Ai....

A Rádio Eldorado - Estadão FM está soltando a série "Cidades em Movimento" dividida em 12 programas com entrevistas e comentários sobre como deve ser a cidade pós pandemia. Vale a pena. É lógico que mobilidade ativa entra na pauta. Está no quinto ou sexto programa e ainda não ouvi falar sobre educação. Muito do que se estão falando é ótimo, mas sou macaco velho e duvido que vá rolar por um problema de educação geral de nossa população, independente da escola de onde saíram, particular ou pública.

Somos quase campeões mundiais de mortes no trânsito; resultado de crença religiosa em falácias e fórmulas mágicas, negação dos dados coletados e uso da ciência, objetividade ineficaz, soberba, os culpados são os outros..., não importa ao lado de quem você esteja no trânsito, assim é e o resultado é este que temos. 

Bicicleta faz o bem até com populações mal educadas, ignorantes, mas poderia dar resultados muito mais expressivos se parassem de crer em falácia, fórmulas mágicas, aceitassem o que a ciência ensina e funciona nos países que nos espelhamos, usássemos bom senso para obter objetividade, parássemos com a soberba que só a bicicleta salva, parassem de culpar os outros por tudo... É uma questão de educação, leitura, boa informação, compreensão do que está lendo ou ouvindo... Definitivamente ter dois palitos na mão não e ter um sistema binário. "Um mais um são dois" é só uma expressão e não se pode transformar esta verdade em dogma.


Notas:
Aqui em São Paulo vendas de bicicletas e oficina estão em alta. Uma bicicletaria pequena chegou a vender 4 bicicletas num dia, notícia que não ouvia fazia muito tempo. O estoque está baixo e alguns produtos são difíceis de encontrar o que se traduz num sorriso dos proprietários das bicicletarias que não se via fazia muito tempo.

Domingo passado voltou a Ciclo Faixa de Domingo agora patrocinada pela Uber. As ruas estavam lotadas e as ciclo faixas mais ainda. Não houve respeito pelos 8 metros de distância entre ciclistas, mínimo, recomendado pela OMS. Ao mesmo tempo que é bom ver o pessoal feliz de volta nas ruas acho assustador. Lucia, uma conhecida, foi uma das primeiras a parar na UTI. Quando saiu, uns 10 dias depois, fez um vídeo acalmando os amigos; e tinha envelhecido uns 10 anos; apavorante. Só não mantém distância quem não teve contato com alguém que pegou para valer. Eu continuo pedalando sempre longe de aglomeração e guardando distância de todos ciclistas. Tenho muita saudade de entrar no vácuo, mas não dá.  

terça-feira, 21 de julho de 2020

cidades.... direito coletivo, direito individual, sobrevivência

Justiça obrigou suspeita de covid a ficar isolada, lembrando decisão sobre febre tifóide; advogados destacam que direito coletivo prevalece sobre o individual
Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo
17 de julho de 2020 | 17h10
Detroit, USA, e a história do pedido de falência da cidade
For Detroit, Chapter 11 Would Be the Final Chapter - by Spencer Abraham; Nov. 24, 2008; NY Times
7 Lessons From The Detroit Bankruptcy - Law360, New York; Nov 14, 2014

Resumindo sobre Detroit, a cidade pediu falência literalmente, ou seja, teria que fechar, acabar, pegar todos habitantes, funcionários públicos, empresas e negócios e colocar no meio da rua, melhor, na estrada mais próxima, e como em qualquer empresa fechar as portas e vender o que puder salvar para pagar as dívidas. Agora, imagina, como é impossível fazer uma coisa destas com uma cidade, ainda mais com uma cidade grande, uma das mais importantes da história dos Estados Unidos e do mundo? Tiveram que encontrar saídas, uma delas pode ser resumida num artigo que li (e acredito que publiquei; e que não encontro mais) que dizia algo como "a cidade é mais importante que o direito individual de seus cidadãos". E é. Opa! Complicado colocar nestes termos, mas vamos lá resumindo a ópera: "unidos venceremos" ou a história da humanidade. Sem união, sem a vila e depois a cidade, não teríamos chegado aqui. 
Na Europa vários países estão pagando para trazer novos moradores para vilas ameaçadas de morrer vazias. Simplesmente não dá para esquece-las, apaga-las do mapa, as implicações são muitas. Se o problema não fosse muito grave não se colocaria dinheiro público para mantê-las vivas. Agora imagina uma das cidades símbolos da história com mais de milhão de habitantes fechando as portas. 

Para evitar situações como esta as grandes cidades estão sendo repensadas e reestruturadas. É uma discussão complexa: o que é prioridade, a cidade, ou seja, todos, a comunidade, ou uma minoria problemática?
Um bom exemplo: o fogo causado por moradores de rua danificou vários viadutos e pontes, o que gerou despesas para recuperar a via, enormes congestionamentos, diminuição de arrecadação de impostos, custos extras, e menor capacidade do poder público agir em prol dos mais necessitados. Repito, não é tão simples assim.   

Brasil, também simplificando: 
São Paulo e Rio de Janeiro têm um problema de poluição de suas águas seríssimo, dentre outras muitas poluições. A saber, as duas cidades tem menos água por habitante do que é recomendável e a situação só piora. Em nome sei lá do que permitiu se, e não foram só a Prefeitura e políticos que o fizeram, que áreas cruciais para a manutenção da qualidade das águas fossem invadidas, devastadas, depredadas e gravemente poluídas. Hoje temos uma imensa população plantada onde não deveria estar, população esta que coloca em risco a vida de todos, ou seja, coloca em risco a vida da cidade. Bom, e daí, o que se faz?
Um bom exemplo de absurdo é o Jardim Pantanal, Zona Leste de São Paulo, que nasceu e cresceu rapidamente numa área alagadiça do rio Tiete. Na época das chuvas boa parte do pantanal fica debaixo d'água. Como aquela área deveria servir para o Tiete se expandir e se acomodar na enchente, o que não acontece mais, as águas que deveriam ficar ali vão parar em outro canto da cidade carregando lixo e outras poluições, danificando tudo que toca. Não, não estou dizendo que as enchentes de São Paulo são resultado da invasão do hoje Jardim Pantanal, nem sou idiota para tanto, mas estou provocando, isto estou. Voltando: deixa o Jardim Pantanal lá?
Você já contornou a Represa Guarapiranga pelas margens? Eu sim. Vale a pena; deixa bem claro que São Paulo tem um PQP de um problema de invasões e degradação; e olha que a Guarapiranga até que não está tão ruim se comparada a outras situações. Cubatão, Santos, São Vicente...
Já viu um córrego todinho? O que é um córrego todinho? Vou explicar, bate um todinho bem grosso, com um pouco de creme de leite, e joga na pia que tem mais ou menos a mesma consistência das águas de um córrego todinho. Pois então, já vi vários córregos com esta consistência. O mais memorável, em Cumbica, Guarulhos, próximo de uma favela e ao lado de uma pequena indústria, quase vomitei. 
Você já pegou um barco para ir até a Ilha de Paquetá, Rio de Janeiro? Pois deveria, a paisagem da Baía de Guanabara é bem explicativa, diz tudo. As implicações daquela degradação vão muito além das vidas dos cariocas, muito além.
Vem a pergunta sobre a vida em comunidade: quem tem mais direito, o individual ou o coletivo? Em nome de nosso sentimento de culpa vamos deixar que uma parte da população prejudique toda a cidade?

O que não se pode é repetir o Singapura. O que é? Singapura foi um projeto de Paulo Maluf que construía edifícios "bonitinhos" na frente das favelas. Quem passava na frente via tudo bonitinho e não conseguia ver o resto da favela. Esta mesma técnica foi repetida por outros, de todas linhas ideológicas. Como diria Nelson Rodrigues "Bonitinha, mas ordinária".

Não importa a condição social, passando de alguns limites tem que imperar o direito coletivo. É uma questão de sobrevivência, inclusive e principalmente das próprias populações mais necessitadas. Distorções devem ser aceitas até um certo ponto. Mesmo nas sociedades mais organizadas esta equação não se resolve com facilidade. O que não pode é ficar do jeito que deixamos até aqui, isto não pode, ou morremos - no caso brasileiro literalmente e sem exageros.

A saber: quando a cidade limpa seus problemas a economia melhora, quando a economia melhora o preço do m² sobe, quando a propriedade fica mais cara uma parte da população mais pobre não consegue se sustentar e tem que morar mais longe. Por outro lado, quando a economia vai bem o poder público tem mais dinheiro para trabalhar o social tanto pelo maior recolhimento de impostos quanto pela diminuição da população com problemas. Etc...

sábado, 18 de julho de 2020

Autódromo no Rio de Janeiro? Impensável!

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

A Baixada Fluminense é uma assustadora a massa cinza conhecida pela falta de verde e seu calor sufocante. A OMS - Organização Mundial da Saúde diz que uma cidade deve ter no mínimo 12 m² de área verde por habitante, sendo que o ideal é 36 m². Deodoro, onde se quer transformar uma importante área verde com mata em autódromo, faz limite com a área rural, mas para efeitos de qualidade de vida da população urbana área rural não é contabilizada como área verde por que seu uso e finalidade são completamente diferentes. O número de parques na Baixada Fluminense é ridículo para a enorme população. Só isto já justificaria a não destruição de extensa área com mata fechada. As 700 mil árvores que dizem que serão dados em contrapartida não sensibiliza. No primeiro grande projeto de plantio de árvores de São Paulo, foi dito que seriam plantadas 1 milhão de árvores, o que é difícil de contabilizar, e do que foi realmente plantado bem menos de 10% se transformaram em árvores adultas. Mesmo que a contrapartida fosse 700 mil árvores adultas, isto não substitui a importância social que um parque tem para convívio e saúde pública, cruciais inclusive para a diminuição da violência endêmica na região. O Rio de Janeiro perdeu seu autódromo para dar lugar a uma Vila Olímpica envolvida em diversas denúncias e praticamente abandonada. O antigo autódromo desapareceu sem deixar rastros de suas contas, que na maioria dos autódromos do Brasil é muito deficitária. O automobilismo brasileiro vem em crise há décadas e as críticas às Federações e Confederação Brasileira de Automobilismo são pesadas, segundo especialistas uma das causas de não conseguirmos formar pilotos com as qualidades necessárias para representar o Brasil na F1, uma das principais razões da popularidade aqui. Qualquer empresa promotora de eventos ou dona de autódromo só pode promover competições sob a tutela das entidades locais e internacionais. Quem acompanha a F1 sabe que é incerto seu futuro, tanto porque o setor automobilístico está passando por uma crise que ninguém sabe onde vai dar, quanto porque sua base tecnológica ainda está vinculada a motores a combustão, tecnologia que tudo indica tem seus dias contados. Por outro lado está havendo um forte e surpreendente crescimento de popularidade da Fórmula E, a fórmula 1 dos carros elétricos, que tem como princípio fazer suas competições em ruas e não em autódromos. Jogar as fichas da Cidade Maravilhosa num autódromo, mesmo com dinheiro privado, é uma insanidade sem tamanho. Mostra o absurdo que não tenhamos sequer iniciado a discussão sobre a função social e econômica dos espaços privados de uso público. Não é simplesmente investimento privado, mas investimento privado de interesse público. É função constitucional do Estado ser o órgão regulador para o bem público. No meio de uma pandemia, com o futuro incerto de todo planeta, com a OMS, Banco Mundial, ONU e outros organismos de fundo social e econômico dizendo que a única certeza é que temos que melhorar a qualidade de vida de nossas cidades e suas populações, se vá pensar em autódromo numa cidade onde falta dinheiro para tudo e é tida como o símbolo máximo do caos. E o Supremo dá corda. Dá para entender? É, acho que dá, é só juntar os pauzinhos.