quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Voar ou saltar de paraquedas? Qual o preço na vida de cada um?

Nunca pensei em pular de paraquedas até que meu pai, aos 88, disse que nesta vida ainda gostaria voar de Paulistinha e de saltar. Voar de Paulistinha não me surpreendeu, mas saltar sim. Vendo como fazia para realizar os desejos dele descobri que voar de Paulistinha é difícil tanto porque restam poucos voando por aí como porque a ANAC não permite mais voos de "turismo" nestes aviões. Queria eu voar de Paulistinha.


No jantar que ele falou sobre seus desejos acabou vindo a pergunta se eu teria coragem de saltar. "E por que não?". Mesmo não sendo um desejo latente, quando abri os sites de paraquedismos acabei ficando com curiosidade. E por que não? Afinal, base jump provavelmente teria sido meu esporte caso existisse quando era jovem. Se faria um esporte onde praticamente não existe qualquer possibilidade para correção de um erro, um esporte chamado por alguns de suicídio controlado, por que não saltar de um avião? Como quero experimentar por pura curiosidade vou para um salto duplo ou em tandem.
- Deve ser parecido com down hill, disse um amigo.
- Não creio. Já desci forte com montain bike sem suspensão, sei o que é, mas não sei se desceria da forma como despencam hoje com estas full com 140 mm ou mais de curso (de suspensão). Acho que ai teria medo.
- Você está dizendo que salta sem medo para o vazio de um avião a 3.700 metros e tem medo descer (downhill) uma trilha numa bicicleta que deixa o terreno liso (por causa da suspensão)?
- Tenho. Se eu cair numa pedra a 50 km/h vou me quebrar todo..., e sou interrompido aos risos.
- Se o paraquedas falhar você morre!, diz ele ironicamente e rindo
- Exatamente, morro, acabou, ponto final. Se errar (no downhill) vou demorar meses para me recuperar o que já experimentei algumas vezes na vida e não estou a fins de repetir; e minha resposta o deixa tanto confuso quanto furioso.
- Cara, faz o que você quiser! e a conversa termina.


Nos permitimos pequenos erros diários que vão cobrar seu preço no futuro. Alguns erros vão acabar nos matando lentamente, os piores virarão círculo vicioso que nos enredarão em angústia eterna. Boa parte deles são erros conscientes.
A vida nos ensina que há situações em que não podemos cometer erros, zero, ou o preço é definitivo, e nestas nos esforçamos o máximo para não errar e normalmente não erramos.
Erro tem uma relação bem próxima com perigo, e perigo é algo inerente a nos mantermos vivos. Nós dias de hoje, onde os perigos para a sobrevivência são bem pequenos, o importante é manter a saúde mental e sem perigo virá uma chatice mortal.


O que de fato é mais perigoso, voar num pequeno avião, pular de paraquedas ou pedalar no trânsito? Como avaliamos os perigos? O emocional diz "paraquedas", a verdade, baseada em dados precisos, aponta sem qualquer sombra de dúvida pedalar no trânsito, mas quem se importa?


Que preço cada um de nós está disposto a pagar por seus próprios erros, pelos perigos inerentes?


Amanha salto. Não estou nem um pouco preocupado. Minha preocupação é outra, é com esta coisa de querer realizar meus desejos num momento que minha cidade, meu país, meus iguais vivem um caos. Meu sentimento de culpa me mata. Considero que erro feio, gasto muito com minhas vontades enquanto na esquina de casa um miserável revolve o lixo em busca de restos. Não me sai da cabeça.

Estranha sensação.

Outro dia, saindo da pizzaria com um pedaço de pizza na caixa, vieram no meu sentido dois adolescentes pobres olhando fixo a caixa. Perguntei se queriam comer a pizza, responderam felizes que sim. Entreguei a caixa, agradeceram, e pouco depois, bem rapidinho, passaram por mim, agradecendo novamente e se foram. Tão rápido não poderiam ter comido a grande fatia de pizza. Olhei, lá estava a caixa aberta sobre uma lixeira. Fui, peguei e vi que deram duas dentadas e largaram bom pedaço da deliciosa pizza ali. Fiquei com raiva. Na casa de minha mãe, classe média alta onde não falta comida, seria uma situação inaceitável. "Serviu mais do que consegue? Agora engole. Não vai sobrar nada no prato".
"Eles (pobres miseráveis esfomeados) têm direito (de não gostar ou deixar no prato)", me explicou a assistente social. "A falta do direito a ter direito é o que mais afeta a saúde emocional deles (moradores de rua e mendigos)". Ou de qualquer um, disto tenho certeza.
Por que não posso realizar meus desejos?

Dentro da sociedade que em desejos me cobro, onde todos são preocupados com o bem-estar dos outros, o número de suicídios é alto. É dado estatístico.
Em sociedades individualistas o índice de suicídio costuma ser baixo, mas o desastre social muito sensível.

A sociedade do indivíduo que tanto criticamos agora empurrou o progresso de todos em muitos sentidos e numa velocidade alta. É fato, não ideologia.
Sociedades igualitárias impositivas definitivamente não foram igualitárias. Fato, não ideologia.
Inaceitável é deixar os outros largado. Simplesmente não funciona. É fato.

Tudo tem seus erros e perigos, faz parte da vida. O que nunca aprendemos é avaliar corretamente os prós e contras. Aí está o perigo.


Amanhã salto de paraquedas.
Todos os dias neste Brasil inesperado salto socialmente de paraquedas, não importa como está a meteorologia.

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