terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Fé na santa bicicleta

Pedalando no final de tarde na ciclovia arborizada ouço vindo por trás a ladainha "Ave Maria, cheia de Graça, Senhor convosco" em voz pausada masculina repetida em ladainha feminina "Ave Maria, cheia de Graça, Senhor convosco"; "Bendita sois vós, Bendito é teu Fruto" no chamamento da voz masculina seguido em ladainha feminina "Bendita sois vós, Bendito é teu Fruto". Olho para rua e procuro um carro com alto falante; nada. A ladainha segue em alto e bom som. Lembro da igreja que está a algumas quadras, mas está longe. Olho para as casas procurando de onde vem aquele terço das cinco e nada. O som me segue e vai crescendo lentamente; não consigo entender. Passa por mim uma jovem mulher, lá pelos seus 20 e poucos anos, pedalando numa bicicleta com cestinha, caixa de som e muita compenetração na ladainha. 


Final de passeio, final de tarde, voltando do Ipiranga pelo Centro, Teresa pede para entrar na Igreja de São Francisco. Tio Lú acha ótimo, desviamos um pouco o caminho e damos com as duas igrejas abertas, a Paróquia Santuário de São Francisco de Assis e colada à Igreja das Chagas do Seráphico Pai São Francisco. Fico com as bicicletas, Tio Lú entra na igreja da Paróquia. Teresa o segue emocionada, ajoelhando-se a porta e segue caminhando respeitosamente até se perder no escuro. Me perco acompanhando os fiéis e não percebo quando saem os dois em silêncio. Param a minha frente e pedem que entre. Vou até a porta, faço minhas preces, volto digo que visitem a Igreja das Chagas, fico com as bicicletas, não se preocupem. Teresa bem emocionada dá seus passinhos determinados e é abordada por uma beata. 
"A senhora não pode entrar na igreja vestida desta forma", diz censurando enquanto estende a mão no ar para barrar Teresa vestida com bermuda e camisa de ciclismo. 
"Mulher mal comida é uma merda" dispara Teresa entrando na igreja sem parar e logo a frente ajoelhando-se em respeito ao São Francisco. 
A beata congelou, mão estendida aos céus como uma das Santas dos nichos.


Longe da represa viram as nuvens negras. Chuva vindo. "Vamos embora que tem muito caminho até em casa" gritou um dos ciclistas apontando para o horizonte pesado. Saíram pelo caminho mais rápido para os 35 km de retorno, contra o vento que trazia rapidamente o céu cinza chumbo ameaçador. O vento foi ficando cada vez mais carregado de poeira que doía no rosto, o pedalar a cada metro mais pesado, uns riam, outros reclamavam. "Ninguém fica para trás" gritou um deles e diminuíram mais ainda o ritmo para juntar-se. Uma garoa em diagonal gelada não escondia a nuvem revoltosa engrossando sua negridão assustadora já baixa e pronta para estourar. E justo no descampado, onde não havia abrigo, veio a chuva de gelo, pedrinhas doloridas picando os corpos, braços e pernas descobertos, que fez alguns amaldiçoarem o passeio, a bicicleta, os guias, outros rirem. "Vamos parar!". "Não tem onde, segue pedalando". "Tem uma ponte mais para frente. Corre, acelera que está doendo", respondeu um terceiro. "Graça a Deus estou de capacete"; "Careca" respondeu outro no meio da barulheira do vento furioso e das pedras batendo no asfalto. Ponte logo ali a vista, mas tão longe. Vento forte amainou pouco, as pedrinhas continuaram batendo dolorida nos ciclistas, o asfalto foi enchendo de água, e finalmente todos chegaram, um a um se protegendo, olhando a enxurrada debaixo da ponte e rindo, encharcados, uns tremendo de frio. "Estão todos bem?" perguntou o guia, e ouviu-se "Cara, o Tomas, peito de fora torcendo a camisa, está com rubéola", e olharam-se uns aos outros e desandaram a rir. "Seus idiotas, tenho um casamento amanha. Sou madrinha. Como vou aparecer cheia de manchas roxas? Quem vai acreditar que foi chuva de pedra? Vão dizer rubéola! rubéola!" E a gargalhada geral aqueceu a todos.


Sobem a escada de Basílica de Nossa Senhora de Aparecida dois jovens, um adolescente e outro um pouco mais velho, carregando suas bicicletas nos ombros. Veem minha bicicleta encostada, param ao meu lado e sinalizam um bom dia com a cabeça em respeitoso silêncio à missa já na metade. Olho para trás de novo e na escada vejo um homem juntando suas últimas forças para carregar a bicicleta escada acima. Os garotos viram para trás, olham-se e riem baixinho; "Matamos o velho", cochicha o mais velho voltando o olhar para dentro da basílica e rindo com os olhos. Respiração ofegante o pai encosta sua bicicleta que lhe serve de bengala, entre os filhos e eu. Olha para mim e mal consegue sussurrar um bom dia ofegante. O suor escorre como chuva de verão pela testa, a roupa está ensopada. O pai ordena que os filhos deixem as bicicletas entrem no Santuário. Digo que vá junto com eles que tomarei conta das bicicletas e ele vai. O "...que Deus os acompanhe" encerra a missa e a multidão passa por mim e as quatro bicicletas encostadas na imensa porta talhada em madeira. Não os vejo por um tempo. "Enfartou lá dentro" imagino. Saem compenetrados agradecem minha gentileza. Pergunto de onde vieram e para meu espanto descubro que foi bem distante e por uma estradinha de terra de romeiros a cavalo, quase dose horas pedalando, noite inteira de pedal e breu. "Você está muito bem" digo ao pai. "Não, não estou, mas faço tudo para tirar eles do computador e celular. Passei o dia de ontem dizendo para eles largarem e não me ouviram. Final da tarde convidei para um passeio e sem avisar peguei a estrada da romaria. Chegamos. Nem roupa para trocar tem, só dinheiro no bolso e a ajuda dos outros romeiros. Se não morrer na volta, minha mulher me mata." "Vocês pedalam sempre?" pergunto. "Nem eles, nem eu. Amanha não ando, nem sento. Vai ser uma desgraça, mas valeu". Os dois serelepes riram. "Mas quem avisou a mãe foi meu celular. Olha ela lá. Acho que tá brava." disse o mais novo enquanto o pai a procurava apavorado lá em baixo no estacionamento.

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