quinta-feira, 16 de julho de 2020

Para melhorar as cidades brasileiras: uso dos imóveis pós pandemia

Tenho uma pequena loja numa galeria que alugo. Com a pandemia tive que zerar o aluguel para evitar a perda de um inquilino que está ali faz uns muitos anos, décadas talvez. Mesmo estando numa área nobre sempre a galeria sempre foi problemática, difícil de alugar, difícil para o inquilino, de manutenção e condomínio caro. Já era problema, agora então... Se ele sair dancei, como estão dançando milhares de proprietários, inquilinos, trabalhadores... E daí, o que faço com os 27 metros quadrados? Se fosse um imóvel na rua talvez pudesse alugar para residencial, mas numa galeria comercial, o que se faz?

Eu tinha um sonho: cada vez que passava por um edifício garagem ficava imaginando como se poderia transforma-lo num edifício residencial, como usar a mesma estrutura. Normalmente as vigas estruturais são bem distantes umas das outras, mas o teto nem sempre é alto. Teria que se criar aberturas no meio da estrutura para trazer iluminação e ventilação para os andares de baixo, fazer a divisão, instalar a parte hidráulica, colocar divisões, e creio eu na minha não santa ignorância, trazer moradores. Seis vagas de automóvel fazem algo em torno de 50 metros quadrados, espaço confortável para um casal.
Sonhava com esta transformação porque mesmo antes da pandemia já era óbvio que mais cedo ou mais tarde estes edifícios garagem perderiam o valor que seu uso hoje se faz. O uso do veículo particular está diminuindo rapidamente e a mudança não deve parar. Nunca consegui entender como esta discussão já não estava na pauta do dia tanto da sociedade como do poder público.

Agora o papo é outro: o que fazer com os edifícios comerciais de escritórios. Uma coisa é certa, mesmo que voltemos ao normal o normal não será mais tão normal assim. Vai mudar e pelo jeito será mais rápido que imaginávamos. Também como leigo acredito que transformar edifícios de escritório em residencial deve ser mais complicado que transformar estacionamentos. As colunas de sustentação são mais próximas, o hidráulico é centralizado, os elevadores e suas caixas foram projetados e construídos para uma circulação completamente diferente da de moradia. A circulação de ar é pensada para ar condicionado. Como será a caixa d'água? Como qualquer construção é caso a caso, e sempre tem o fator inteligência que faz milagres.

E os shoppings? Enquanto nos Estados Unidos e mundo afora não param de fechar, por aqui não param de abrir. O que fazer com um monstrengo daqueles? Que tal escolas? Centro de serviços públicos como já acontece pequeno num shopping de interior que não deu certo. Transferir favelas? Duvido, a não ser que se faça um trabalho profundo com os dois lados da mesma moeda, os moradores e ex clientes do entorno e os favelados. Não tenho a mais remota dúvida sobre o tamanho do problema porque quando o Ciclo Rede Butantã estava em projeto, e do projeto não saiu, um pequeno bairro nobre foi até a Sub Prefeitura para deixar claro que bicicleta por lá não passa. Nenhum espanto, triste realidade brasileira. "Você sabe com quem está falando?"  

O que não é recomendável é implodir e gerar entulho. É um crime ambiental sem tamanho. O negócio é usar a inteligência, que faz milagres, e como faz! Esta coisa de demole para construir algo melhor é coisa de pobre ou de ignorante da realidade. Melhor para quem? Mais barato para quem?

Passamos da hora de começar a repensar o uso das construções que temos nas cidades. Como já disse era óbvio ululante que mais cedo ou mais tarde vai mudar o uso deles, não vê quem não quer ou não tem capacidade. A função do espaço público e do espaço privado de uso público vem mudando rapidamente em todo planeta. Existe uma pressão para que sejam corrigidos erros sociais relativos a função da propriedade privada, e não estou falando em questionar o direito à propriedade, que é uma outra história, mas como o poder público tem que regulamentar a propriedade privada no sentido de seu uso. Isto já acontece nas leis de zoneamento, mas tem que ser aprofundado. Se urge diminuir as mobilidades também urge aumentar as áreas de uso misto residencial, comercial e outros.

Tem que fazer a transição com certa calma, ou pelo menos com consciência do que está fazendo. O que definitivamente não pode acontecer foi a tentativa atabalhoada de transformação do Centro de São Paulo que foi feita pela administração municipal de Fernando Haddad. A ideia era e continua sendo correta, a forma foi um desastre total, inimaginável para quem não mora aqui e não viu o antes e o depois. O depois, simbólica e tragicamente, foi o incêndio e desmoronamento de um edifício de patrimônio histórico de propriedade do poder público, com mortes. Não se faz nada na porrada, não dá certo, nunca deu. O custo do erro com o Centro será mais de uma década para estabilizar e viabilizar social e economicamente a área mais simbólica e bem estruturada da cidade.
Infelizmente não encontro as fotos deste edifício e de seu entorno que tirei antes do desmoronamento.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Para melhorar as cidades brasileiras: favelas e cortiços

Covid 19 não foi o primeiro vírus que obrigou as cidades tomar medidas de contenção, e provavelmente não será o último. Pelo que se vê o ciclo entre pandemias está ficando cada vez mais curto. Se faz necessário tomar providências imediatas para minimizar os efeitos da próxima crise. 

A prioridade é controlar possíveis focos de contágio de qualquer pandemia, o que está gerando restrições a aglomerações, lugares mal ventilados e de baixa insolação, e evitar contato com elementos poluentes, nem dizer contato com esgoto. Favelas e cortiços se encaixam em todas definições do que deve ser evitado, ou seja, são focos potenciais.

Se nós, brasileiros, queremos ter um mínimo de controle sobre as pandemias urge que se intervenha nas favelas. As ações que tem sido apresentadas ou impostas pela pandemia falam sobre a vida na cidade oficial, ou economicamente desejada: bares, restaurantes, cafés, academias, transporte público... Não propor um plano realista e realizável para favelas é ampliar o distanciamento social e seus dramas, e aumentar mais ainda a pressão que já está para lá de alta. A cidade tem favelas, ponto indiscutível; algumas são verdadeiras cidades dentro das cidades. No conjunto de favelas e cortiços vivem um alto percentual de cidadãos, sobre isto também não há discussão. Se não for controlada a saúde desta massa de cidadãos não se controla a saúde pública de toda cidade, portanto de cada cidadão. Ou todos tem saúde ou ninguém tem certeza de sua saúde, disto não se escapa.

Urge ter mapeada todas favelas, não só suas ruas e vielas, mas cada casa, cada propriedade, cada cômodo, cada habitante, cada vida, cada comércio, cada detalhe; tudo. Sem conhecer é imprudente, para dizer o mínimo, pensar e mais ainda agir. Conhecendo o problema é necessário explicar, vender a ideia de uma mudança, de uma melhora, de um futuro, e iniciar conversas, acordos; respeitar, legitimar. É preciso saber como estão indo os projetos de melhorias já implantados, aproveitar os bons resultados, entender, repensar e corrigir os erros. Deve haver muita informação de qualidade sobre a vida nas favelas e sobre cada favela, não se deve estar partindo do zero o que é uma imensa vantagem.

O maior empecilho está nas leis e na justiça, em processos que se arrastam por décadas e nunca chegam a um fim. Temos que decidir: ou andamos para frente ou morremos de indecisão judicial. Ou o poder público em nome do bem comum age e resolve graves problemas urbanos ou os contágios nunca irão parar: o contágio da pobreza, da baixa educação, da violência, e das pandemias, sejam varíolas, tuberculose, difteria... e agora coronavírus Covid 19...  Qual será o próximo? Como estaremos preparados?

Não é um problema simples de resolver, não é barato, mas ou resolve ou resolve, ponto. Mais; não é pela pandemia que se tem que dar jeito neste gravíssimo problema, é pelo futuro de cada um de nós. É absolutamente impossível ficar imune, por mais que se viva numa fortaleza medieval.

Quem quer faz. O resto é balela.

sábado, 11 de julho de 2020

Radiografia das cidades brasileiras? São Paulo, referência

Como estou ficando louco e alongando um pouco, solto a radiografia incompleta. Com o tempo vou terminando. Quem quiser ajude. 

Todo o planeta diz que a cidade pós pandemia tem que melhorar a mobilidade, estimular estudo e trabalho em casa, ser ambientalmente correta. Eu colocaria aí ser saudável, ter saúde pública preventiva eficiente. 
Como está a maioria das cidades brasileiras? Uso São Paulo como referência para fazer uma radiografia porque sou paulistano e os dados são fáceis de encontrar.

Por que aqui é difícil conseguir a cidade alcançar as metas da cidade pós pandemia:
  1. semáforos quebram, buracos e crateras surgem...
  2. 70 atendimentos / dia a acidentes que param a cidade
  3. transporte de massa no limite e sem previsibilidade de horários
  4. qualidade do ar ruim, alto nível de poluição sonora
  5. água per capita no limite com perda no sistema de 30% 
  6. muito resíduo sólido, reciclagem baixíssima, aterros sanitários saturados 
  7. áreas de mananciais e para parques públicos invadidos
  8. fiação aérea dificulta plantio de árvores, menos sombreamento, umidade, mais calor 
  9. fiação aérea torna comunicação instável e pouco confiável
  10. baixa confiança nas autoridades e prestadores de serviços públicos 
  11. para mudar a cidade a lei de zoneamento 
  12. não há continuidade nas políticas essenciais, de 4 em 4 anos muda Prefeito e diretrizes
Mobilidades:
  1. São Paulo tem algo em torno de 17.000 km de ruas e avenidas pavimentadas
  2. a maioria destas ruas foram abertas e construídas a mais de 70 anos
  3. o sistema de drenagem das águas pluviais é praticamente todo da mesma época, quando a impermeabilização do solo era muito, mas muito mais baixa portanto a necessidade de escoamento de água muito menor.
  4. o VW Gol quadrado, dos primeiros, pesa 814 kg seco, sem combustível e lubrificantes. Um Honda Fit primeira geração pesa 1.080 kg, ou seja, um pouco mais de 200 kg que o Gol 1980. Não fui atrás da diferença de peso dos ônibus, mas é possível imaginar que seja 20% ou mais porque são maiores e transportam mais passageiros por veículo do que em 1980. Visualmente a diferença de tamanho entre um ônibus ou caminhão de 1980 com os atuais é muito grande, assim como a diferença de carga.
  5. frota de veículos cadastrados no DETRAN, Município de São Paulo em 1980: 1.604.135; em 2019: 9.117.373
  6. a diferença de carga e o número de veículos que passam nas ruas e avenidas pavimentadas de São Paulo é imensa. É a causa de buracos e crateras, e porque não dizer enchentes
  7. A Prefeitura do Município de São Paulo não detém o mapeamento completo e exato do subsolo da cidade. Cada uma das concessionárias de serviços públicos tem seus próprios mapas que não raro são imprecisos ou simplesmente não tem informações sobre o uso do subsolo por outras concessionárias.
  8. a maioria das vias são reasfaltadas simplesmente recebendo uma camada nova de asfalto sobre a existente, o que aumenta a carga sobre as tubulações subterrâneas existentes.
  9. só recentemente a Prefeitura reconheceu que é necessário a urgente manutenção de obras de arte da cidade, pontes, viadutos, e tuneis, estabelecendo um cronograma de obras que deve se estender por anos
  10. o sistema de esgoto de São Paulo ainda não está completo, o que significa que terão que abrir buracos nas ruas, congestionar o trânsito...
  11. pelo que sei a garantia de obras públicas aqui no Brasil é de 5 anos. Também pelo que levantei em Milão, Itália, a garantia é de 25 anos. Nunca vi a garantia de uma obra ser acionada aqui, mesmo quando a obra apresenta problemas graves em pouquíssimo tempo, como aconteceu em Pinheiros, onde moro. A quantidade de problemas que apareceram menos de 6 meses depois de entregue a obra foi absurda, mas o máximo que se conseguiu foi uma gambiarra tipo me engana que eu gosto.
  12. por sinal, quanto dos congestionamentos e trânsito é causado por buracos e as infindáveis obras corretivas?
  13. os semáforos estão completamente obsoletos. Como estarão os outros sistemas de controle de fluidez de trânsito?
  14. a engenharia de trânsito que temos no Brasil é uma engenharia de quebra galho, não há investimentos a altura na necessidade
  15. a engenharia viária ainda tem muito de rodoviarista quando hoje se fala em cidade voltada à vida, as mobilidades ativas, não motorizadas
  16. cidades grandes geram mobilidades de longa e curta distância, a do interno dos bairros ou mesmo entre bairros. Quem pensa em uma nova cidade baseada em mobilidades ativas pensa em distâncias mais curtas, menos de 4 km, ou seja, interno de bairro, e não única e exclusivamente macro engenharia de trânsito.     
  17. ainda não avançamos no acalmamento de trânsito, essencial para as mobilidades ativas no interno de bairros, quando lá fora já se fala em naked streets, ruas nuas ou limpas, ou seja, sem qualquer sinalização ou divisão de espaço ou segregação entre motorizados, ciclistas e pedestres
  18. o Código de Trânsito Brasileiro ainda não adotou uma série de sinalizações ligadas às mobilidades ativas
  19. o diálogo entre sociedade civil e autoridades tem problemas, quando há
  20. a frota de ônibus é obsoleta. Pior, anda rodam ônibus que são carrocerias montadas sobre chassis de caminhão; altos, duros, barulhentos, incômodos
  21. as travessias de pedestres têm tempo curto, quando tem. 
  22. a posição da travessia em muitos casos é distante do local de parada dos ônibus fazendo que o pedestre cruze entre os veículos 
  23. quando vão ser instalados os painéis de mostram ao público o tempo de chegada de ônibus, metro e trens?
  24. faltam pontos de ônibus abrigados
  25. previsibilidade no transporte de massa só é possível com o uso de um sistema de fluidez de trânsito inteligente. Los Angeles implantou o seu e o processo demorou quase uma década.
  26. confiabilidade do sistema de transporte público está intimamente relacionado com segurança pública. São Paulo é uma das cidades menos violentas do Brasil, mesmo assim... Vira e mexe trens e metro param por roubo da viação elétrica, por exemplo.
  27. São Paulo tem um sistema cicloviário com pouco mais de 400 km e o número de ciclistas vem aumentando. Há um projeto para expansão do sistema, mas não são apresentados números que possam medir os reais custos e como se comporta a curva benefícios para a cidade com a implantação de ciclovias e ciclofaixas.
  28. é uma doce ilusão acreditar que a bicicleta será a solução para todos males.
  29. bicicleta, muito eficiente até 4 km, e caminhar, com uma média de 400 metros por trajeto, é a melhor solução para interno de bairros 
  30. calçadas é quase artigo de luxo porque só tem qualidade ou existem nas áreas mais ricas da cidade
  31. faixa de pedestre via de regra está onde não prejudique a fluidez dos motorizados
  32. como é a mobilidade dentro de comunidades e favelas? Mais de 2 milhões vivem nelas
Meio ambiente:
  1. a pouca arborização da cidade envelheceu e está fechando ser ciclo de vida, provocando quedas de galhos ou mesmo de toda árvore, prejudicando a fiação aérea e deixando vastas áreas sem energia ou comunicação
  2. vegetação rasteira e insetos 
  3. a ciência provou que cidades com pouco verde concentram calor o que provoca fortes tempestades localizadas, com consequentes inundações
  4. a frota de veículos circulantes não recebe qualquer controle de emissões ambiental e o ar da cidade é de baixa qualidade. Os índices usados para medir a qualidade do ar são considerados ultrapassados
  5. controle de emissão ambiental também é relacionado a vazamento de lubrificantes, combustível e borracha dos pneus, que é altamente poluidor
  6. lixo, ou resíduo sólido, é um problema gravíssimo em todas as partes do planeta, mais ainda aqui onde há o hábito de se jogar entulho no meio da rua ou em córregos, o que gera inundações
  7. córregos tamponados, invadidos, usados como depósito de entulho
  8. rios, córregos e nascentes sem mata ciliar ou qualquer vegetação no entorno
  9. parques
  10. reservas florestais
  11. fiação aérea elétrica
  12. fauna urbana
  13. predadores
  14. pets
Saúde pública
  1. zica, chikungunya, malária
  2. fiação aérea 
  3. controle de pragas
  4. distribuição de água potável 
  5. coleta e tratamento do esgoto
  6. coleta de lixo - resíduos sólidos
  7. educação geral e em especial a relacionada a saúde preventiva
  8. insalubridade das favelas não afeta toda a cidade
  9. cuidar da saúde pública tem que ser dever de todos, sem exceção
Estudo e trabalho em casa: telefonia, internet, rádio, TV, cabos
  1. telefonia e internet nas periferias
  2. tempestades de verão
  3. idade média dos aparelhos e computadores
  4. condição de saúde, ventilação, mofo, insolação
  5. segurança em favelas 
  6. o que fazer com edifícios de escritório, estacionamentos
  7. mudança de zoneamento
  8. misto comércio residência
  9. distribuição de mercadorias
  10. segurança internet

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A baderna é total. E agora, o que fazer? As cidades...

Mudar as cidades, este tem sido um tema muito falado para o pós pandemia. Diminuir o número de carros nas ruas, melhorar o transporte coletivo, trabalhar em casa, manter as pessoas em seus bairros, comprar no comércio local, criar uma rede de ciclovias, repensar o uso do espaço público... Cá entre nós, brasileiros, isto vem sendo falado faz décadas, pelo quatro décadas, e não se fez nada, as cidades brasileiras continuam praticamente as mesmas. Houve uma melhora aqui, outra ali, mas a essência continua a mesma.
Nossa colonização é portuguesa e o traçado urbano da maioria das cidades brasileiras foi e continua sendo medieval. Poucas são as planejadas, a maioria partiu de um centro de desenho desordenado, com ruas tortas, quadras desiguais, mesmo quando o terreno é plano. Foi assim por razões de segurança da população; quem é de fora e não conhece se perde no labirinto, o que facilita a defesa. A partir de 1900 com a industrialização o crescimento de nossas cidades se deu muito rápido e desordenado. Com a indústria automobilística, no final dos anos 50, começaram as adaptações para acomodar o rápido crescimento da frota de veículos motorizados. A cidade brasileira nascida medieval passou a receber planejamento rodoviarista com total influência do planejamento urbano e rodoviário estadunidense, o mais moderno para a época: óbvio que não podia dar certo e lógico que não deu. Aquilo deu nisto. Diga-se de passagem, não foi um fenômeno exclusivamente brasileiro, a diferença é que lá fora, principalmente na Europa, se deram conta do erro e colocaram limites sensatos cedo. Aqui ainda se permitiu que o planejamento e desenvolvimento urbano fosse, e continua sendo, descaradamente influenciado por empreiteiras, construtoras, e interesses particulares do mercado imobiliário comercial e residencial, quando não por invasores, posseiros e outras ilegalidades gritantes.
O povo acha ótima a cidade que vive. É natural quando não se tem referências para comparar. A verdade é que nossas cidades não atendem aos quesitos de qualidade de vida estabelecidos por todas entidades internacionais. Falta verde, faltam parques, áreas de convívio, para práticas esportivas, culturais, sobram escolas e prédios públicos insignificantes, chafariz é símbolo de progresso, via de regra o córrego ou rio é usado para escoamento de esgoto, que nos bairros mais pobres corre a céu aberto pelas ruas. A periferia é a periferia, o lugar dos excluídos, se não esquecida, desamparada pelas autoridades e leis.  Boa parte dos brasileiros vivem em favelas, mas as leis "dificultam" a presença do poder público nestes locais. E aí vai. E o povo acha ótimo. Na realidade acham ótimo o que tem no entorno de suas vidas, o resto não interessa. Não existe cidade, mas a vidinha de cada um que se transforma erroneamente na "cidade".
Hoje se pode dizer que há toda uma ciência sobre o que é a cidade ideal, que é a praticamente a antítese da cidade brasileira. 
A cidade faz o indivíduo e o indivíduo faz a cidade. O que vem primeiro, o indivíduo ou a cidade? Cidade é o coletivo de indivíduos; o contrário não existe. Ou existe: são condomínios fechados, o retorno ao medieval, um retrocesso de 400 anos.
Nossas cidades são obsoletas, anacrônicas, ineficientes, sem manutenção, caras... e com sistemas de comunicação pouco confiável, o que todos seres humanos deste planeta sabem que é pelo quanto é a única saída para a crise pandêmica. 
Não teremos mais dinheiro sobrando, aliás nunca tivemos por conta dos nossos eternos erros. Ou racionalizamos nossas cidades ou estaremos fadados à miséria. A humanização que vem sendo imposta às cidades mundo afora é uma questão de funcionalidade, de custo, de construção de futuro. Bloomberg, ex Prefeito de NY, estava e continua absolutamente certo. Mas somos diferentes. O povo brasileiro acredita que estamos certos e que o planeta está errado. Será?

terça-feira, 7 de julho de 2020

Desaparece um idoso desaparece uma enciclopédia

Quando morre um idoso morre uma enciclopédia escreveu com sabedoria Vera no Whatsapp. Ontem saiu a decisão da justiça que não incriminou ninguém pelo incêndio na Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Do que se conclui que o museu se queimou, num suicídio imprevisível, coisa nunca antes vista pela humanidade. Enciclopédia? Nossa memória, digo a brasileira, está cada dia mais fragilizada, agora numa pátria amada sem educação, memória, e provavelmente sem futuro. O Museu Nacional queimou, não só os idosos queimam de febre e morrem na pandemia, e as enciclopédias são jogadas em caçambas para serem misturadas com entulho.   
A pandemia mundial acertou em cheio museus, bibliotecas, especialistas, artistas e tudo que a mediocridade e os imbecis consideram supérfluo. Da tragédia que estamos vivendo de perda de memórias pelo mundo fico feliz em ouvir que o Governo Inglês preservou os trabalhos dos ligados a instituições culturais, uma iniciativa que espero que não tenha sido única e que é louvável. 
Aqui no Brasil tiro o chapéu para a Rede Globo que está pinçando nomes de vítimas da pandemia e contando suas histórias no Jornal Nacional. "São vidas", tem história. Do idoso que se vai mal sabemos olhar com cuidado a capa de sua enciclopédia, e isto é uma perda imensa.
Sempre me deixou desesperado, literalmente, não conseguir transmitir para as crianças os tópicos da mísera enciclopédia que minha vida escreveu. Sou uma pessoa abençoada porque tive oportunidade e tempo para ouvir os mais velhos, pais, irmãos, tios, avós e até mesmo amigos não necessariamente mais velhos, mas mais viajados, experientes. Aprendi algo com eles, aprendi algo com minha vida, agora gostaria de conseguir transmitir algo para os que ainda vão viver muito. Os ajudaria, com certeza. Mas não é assim que funciona a humanidade, e com toda esta coisa de mídia eletrônica os valores e conhecimentos do passado são cada dia mais duvidosos para o grande público. Enciclopédia? 

Enciclopédias são recheadas de definições, histórias e ilustrações. Algumas definições, principalmente as ligadas a ciências exatas, que lá se lê, foram e continuarão sendo praticamente as mesmas, outras mudaram com a evolução das ciências e dos costumes, a bem entender, das enciclopédias antigas impressas em papel. Quem tem um olhar mais aprofundado consegue colocar tudo dentro de contextos, e isto é uma preciosidade.
Desapareceram as imensas enciclopédias impressas em papel e entrou primeiro a internet, depois o Google, e agora a Wikipedia, e daqui para frente sabe-se lá o que mais. Mesmo assim "desaparece um idoso desaparece uma enciclopédia", isto é a mais pura verdade. O valor da memória de um ser humano é muito mais vasta e preciosa do que nossa desatenção quer fazer crer. Alguns muito em especial.

A bicicleta brasileira praticamente não tem memória. Creio que a mais aprofundada que ainda temos seja Valter Busto em pessoa. Desconheço outro que tenha circulado socialmente no meio da bicicleta dos anos 80 e 90 como Valter. Ele estabeleceu amizade com uma grande quantidade de pessoas do meio, em especial velhos bicicleteiros que já se foram e quem sem Valter tem suas memórias simplesmente jogadas no lixo. Valter morou em São Paulo até quase 2000, até então o núcleo da bicicleta brasileira. Caloi e Monark, oligopólio do setor, estavam instaladas aqui, o que deu a oportunidade de Valter conhecer pessoalmente vários funcionários e diretores das fábricas. Foi com ele que conheci tradicionais bicicletarias da cidade, Casa Alberto, Casa Mercúrio, Ciclo Roma, Ciclo Rondina e tantas outras, algumas  não existem mais. 
A memória do ciclismo brasileiro está em parte na cabeça de Eduardo Puertollano, pessoa genial, um senhor senhor ciclista, conhecedor de bicicletas, ciclismo, e ex ciclistas como pouquíssimos. Não exagero quando digo que não se deve passar por esta vida sem fazer romaria para a Basílica de Aparecida (12 de Outubro, faça mesmo que não seja religioso) e sem ir conhecer a enciclopédia Eduardo Puertollano e sua mágica bicicletaria no Tremembé, perto do Horto Florestal de São Paulo.



segunda-feira, 6 de julho de 2020

Eu, eles e o desejo de mudar

Impressionante o que esta baderna pandêmica está fazendo com a cabeça das pessoas. Gente que passou a vida decidindo e o fez com qualidade agora não sabe o que e como fazer para ajudar os outros passar pela crise. É fato, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A vida me ensinou uma regra sagrada: quando não sabe o que fazer faça algo, o que quer que seja, se estiver muito fora da realidade, faça algo diferente, mas não pare de fazer, não pare de tentar. E nunca jogue fora o que já fez; nos erros pode estar a resposta. 

Tenho amigos de qualidade que têm muito a oferecer neste momento. Aliás, tem muita gente com história, formação e qualidade de trabalho que quer fazer algo e não sabe o que. A meu ver, a questão é que estão acostumados a olhar o macro, o cenário maior, não o detalhe, e em momentos como este é nos detalhes mais improváveis que podem estar saídas. Quem não ouviu uma simples frase ou até uma palavra que fez muita diferença na vida. Várias delas foram fundamentais para minha vida, me ajudaram muito mais que leituras, aulas, longas conversas. Foram a palavra certa no momento certo.

O planeta está jogando seu futuro e nós, brasileiros, mais ainda. A maior parte da população comete erros que pereniza sua própria pobreza civilizadora e, pior, sua mediocridade. Qual é a palavra mágica que mudaria seus futuros? 

No Santo Américo, no dia de minha expulsão encontrei por acaso o professor de música no corredor, que me parou e me deu uma palavra de estímulo e confiança que foi crucial naquele momento e serve até hoje.
Minha mãe me passou o seguinte sabão: "Não interessa o que o outro fez de errado para você (eu), interessa o que você fez para ele agir assim com você". 
Também dela: "Não me interessa o que você está dizendo que vai fazer. Isto não vale nada. Faça, cumpra, prove". 
Estas e outras acabaram virando diretrizes em minha vida.

O que fez diferença para você? O que você pode passar para frente agora que ajudará outros a sair desta horrorosa situação mascarada que ninguém sabe ao certo que cara tem?

Palavra correta no momento correto só pode existir quando esta é dita no tom e forma corretos, ou não será entendida pelo ouvinte. Se nós, a dita elite, mantivermos nosso discurso educado, rebuscado e não raro incompreensível para eles, jamais vamos ensinar a maioria a pescar. Outro erro é partir do princípio que eles não têm capacidade de entender algumas coisas. É de uma arrogância vergonhosa e desonesta. 
A saber, no meio dos meus amigos bonitinhos o uso da bicicleta foi motivo de gozação e bulling por décadas. "Bicicleta é coisa de pobre" só parou quando virou moda e das caras. E no meio destes bonitinhos coloco urbanistas, sociólogos, historiadores e outros que deveriam, até por profissão, saber do que se trata "bicicleta". 
A saber: segundo Eduardo Giannette Fonseca as fortunas aqui no Brasil trocam de mãos a cada 40 anos. Pelo que leio muitos destes novos ricos vem lá de baixo. 

Tudo é questão de comunicação; o conteúdo temos.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Simbologia de um Ministro negro que nunca foi Ministro

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

Bolsonaro busca apoio político nas polícias sem falar uma palavra sobre a questão da violência policial que afeta em cheio a população negra que é mais da metade da população do Brasil. Bolsonaro aceita de bom grado apoio de uma extrema direita sem disser uma palavra sobre racismo. E neste contexto Bolsonaro escolhe para o posto mais importante de seu Ministério, o da Educação que vem de uma baderna indescritível, um senhor negro de quem se descobre que colocou informações falsas no currículo. Foi o Ministro que foi Ministro sem ter sido Ministro. Como fazer a leitura do absurdo: erro, falha do sistema oficial de informação do Governo Federal, ou assentimento do infame discurso de parte da polícia e extrema direita pelo qual "todo negro é bandido"? Para piorar a barbaridade agora se fala na busca de um nome notável - e branco - para assumir o Ministério da Cultura. São erros crassos ou tiros certos de Bolsonaro? Até quando?