quarta-feira, 18 de março de 2026

Seguir em frente com o que realmente importa

Ainda não sei ao certo por que aconteceu, mas partiu a corrente de um participante de passeio logo nos primeiros metros. Como a bicicleta sempre está impecavelmente brilhante e tem gente que tem mania de fazer revisões desnecessárias para ter a bicicleta nos trinques, eu acredito que mais uma vez a bicicleta foi levada para uma revisão desnecessária, provavelmente revisão completa, onde o mecânico cortou a corrente para fazer uma limpeza mais profunda, e ao montar de volta não fechou o elo como deveria. A outra hipótese, que minha raiva momentânea descarta, é que a corrente estava montada com um elo de ligação, e que por uma tremenda falta de sorte ao tirar a bicicleta do carro o elo de ligação tenha aberto. Acontece. 
Bom, agora sei que não foi revisão.  De qualquer forma, vamos ficar com a primeira hipótese, que já vi acontecer outras vezes,  nãoa corrente,  mas voltar desregulada ou com algo solto. Uma destas vezes aconteceu na mão do então considerado o melhor mecânico de bicicletas do Brasil. Então... acontece.

"Eu fabrico bicicletas para as pessoas usarem, não para deixá-las bonitinhas" - tradução minha sobre a resposta de Mike Sinyard, fundador e proprietário da Specialized Bicycle Components, para Luiz Dranger, representante da marca aqui. Já publiquei esta resposta incisiva mais de uma vez, e provavelmente publicarei mais vezes, porque nela há mais verdades que simplesmente a forma de o que envolve o mundo da bicicleta.

Voltando a corrente quebrada. Desde 1986, quando a qualidade das peças de bicicleta mudaram e ganharam a mesma qualidade aplicada na indústria automobística, mandar a bicicleta para o mecânico se tornou praticamente desnecessário. Ok, as bicicletas atuais são menos duráveis que as da década de 90, mas mesmo assim são feitas para não apresentar problemas por anos, até porque atendem ao mercado americano e europeu.

O que vivemos no Brasil em relação ao entendimento do que deve ser qualidade é uma loucura generalizada, um desvario sem tamanho, em tudo. Exagero meu? Leia os jornais. Nós, todos, estamos pensando errado, e não é só na política, mas no geral. O olhar para a bicicleta não escapa deste pensar errado. Poderia fazer uma análise mais detalhada, profunda, mas vamos ficar só no sentido mais profundo do "bicicleta é feita para ser usada".

Por diversas razões posso dizer que conheço bem a Holanda, ou melhor, os Paises Baixos, nome correto do país. Acho que ninguém tem dúvida que eles são a referência do que e para que serve uma bicicleta. A primeira coisa que chama a atenção de um estrangeiro que goste de bicicleta e tenha recém chegado a Amsterdam, por exemplo, é que a maioria das bicicletas anda, roda, funciona, e olhando com cuidado fica uma certa dúvida: "Como assim? Holandeses pedalam isto?". Enquanto a bicicleta está funcionando eles seguem em frente com elas. Bicicleta é um utilitário, ponto final. Pelo menos a bicicleta do dia a dia.

Vamos ao holandes que tem uma segunda bicicleta, a bicicleta de fim de semana, o que bem comum. Geralmente está numa condição muito melhor que a bicicleta do dia a dia, a que se amarra em qualquer lugar e tem grande chance de ser roubada. Bicicleta de dim de semana bem cuidada, funcionando direito, é uma coisa, mas neurorica e constantemente revisada é outra, até porque encontrar bicicletarias não é uma coisa tão fácil, é um serviço mais perfeccionista sai bem caro, bem caro mesmo.

Outro ponto a se levar em consideração é a consciência ambiental dos holandeses. Duvido que entre os amigos e conhecidos pegue bem a conversa que a bicicleta vive fazendo revisões para ficar nos trinques, brilhante, chamativa. Não é do feitio deles. A regra é "tem que funcionar bem", ou, ser usável para o fim desejado. É quase uma lei para tudo, da bicicleta à conservação da casa. Não sei exatamente como eles encaram os exageros, mas por tudo que vi e vivenciei em minhas várias vezes que estive lá, não deve cair bem.

Numa a primeira das muitas estadias tive lá, pegamos um carro e fomos visitar uma amiga na Alemanha. Nós Paises Baixos o asfalto e a sinalização eram impecáveis. Já o matinho em volta estava aparado, mas era matinho. O foco todo voltado para a segurança no trânsito, não para quaisquer supérfluos. Cruzamos a fronteira e na Alemanha o asfalto, a sinalização eram muito bons, ponto, o paisagismo lindo. Uns dias depois fomos para a Suíça, tudo irritantemente impecável, organizado, funcional, eu adoro,  mas concordo que é um pouco duro, sem molejo. 

De uns tempos para cá tenho olhado minhas coisas de uma maneira diferente. Me dei conta da barbaridade de coisas inúteis que tenho, ou acumulei, sei lá. Demorou. O dito por Mike Sinyard, em 1991, sobre o uso que se deve dar a um bem sempre fez toc toc na cabeça. A vivência com os holandeses no trabalho e como turista me mostrou a inteligência do só o necessário. O dia que entrei numa locadora de bicicletas em Amsterdam e dei com um grande cartaz gritando "Nós pedalamos. Americanos usam capacete" só confirmei que em tudo na vida é necessário aprender a olhar para o que realmente importa. O resto é resto. 

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