"O cú do cupido está entupido" *.
Entupiu. Que merda! Não experimente.
Fui para Penedo, fugir um pouco da loucura paulistana e aproveitar para subir pedalando para Visconde de Mauá, 1.300 metros de altimetria e 960 metros de subida em 10 km no meio de um verde Mata Atlântica maravilhoso.
"Cada subida é uma subida" dizem os profissionais, ciclistas. Pura sabedoria. Me lembro das outras subidas longas que fiz e sei que esta foi a mais difícil. Cheguei lá em cima no limite, e não teria chegado caso não tivesse uma técnica apurada. O limite desta vez foi uma área tênue muito próxima de dar ruim, uma sensação estranha de poder, muito estranha, que traz consigo um gostinho de fundo de perigosa irresponsabilidade. Quem já competiu sabe bem que cruzar a linha de chegada no limite do limite é a glória. Se bobear dá ruim, e pode ser bem ruim mesmo.
Larguei muito errado numa prova de mountain bike. Quando dei conta do tamanho da besteira sai atrás do prejuízo. Fiz a subida sem preocupação com o cardíaco e continuei a besteira na descida. Resultado, pedalei uns 50 metros desmaiado, sim desmaiado, com a cabeça gritando "acorda idiota, você está numa competição, acorda!". Quando voltou a consciência, caiu a ficha do absurdo e parei. Contei para meu médico que explicou que eu tinha chegado ao limite máximo do meu coração, o que não deveria repetir.
Num treino de natação decidi medir forças com um amigo, triatleta profissional. Simples: nadei uns 400 metros lutando para não desmaiar. De novo, coloquei meu coração num limite que não deveria.
A brincadeira para Visconde de Mauá são 960 metros de aclive até o topo da montanha e mais 420 de declive até a vila. Subi consciente, cheguei bem cansado, bem cansado. Quando começou a descida aí caiu a ficha em qual limite meu corpo estava. Na vila acabaram as forças. Demorei um bom tempo para normalizar o cardiorrespiratorio, bem mais que o normal.
Estabilizei, almocei, peguei carona de volta, e terminado o dia estava muito mais inteiro do que imaginava e minha experiência diz que deveria estar.
A noite fui para a cama sem cãibras, o que depois de tudo não é normal. Enfim, foi ótimo. Dormi bem.
Dia seguinte "o cu do cupido está entupido". Não quero relembrar. Posso dizer que no meio do horror, e toca horror, meu coração chegou muito próximo do limite, mas um limite aterrorizante onde você vira passageiro do estado clínico. Não há forma de conseguir baixar o cardiorrespiratorio, pelo menos não tenho prática, e não pretendo ter.
Resolvido o problema constrangedor, leve feito uma pena, comecei a sentir um leve estiramento no adutor. Só pode ser piada, depois de sair bem da heroica subida da serra, vou sentir a perna no trono?
Sai de São Paulo com a ideia de ver como estava subindo para Visconde de Mauá, descansar uns dias, partir para o Rio e subir o Cristo Redentor. Micou de cara. Uma tromba d'água encheu Penedo logo na minha chegada. Resultado numa roupa empapada e bunda suja de terra. As notícias sobre tempestades e enchentes fizeram o Cristo Redentor ficar para um dia quem sabe.
Aliás, nunca fiz uma viagem com tantas intercorrências, no sentido médico e figurativo, quanto esta. Até uma garrafa de mel partiu-se ao meio quase do nada. Vivendo e aprendendo.
* José A B C, grande amigo, disparou no meio de uma aula de religião "o cu do cupido está entupido". O padre, que era uma fera, ouviu, virou-se e seguiu-se uma explosão de gargalhadas da gurizada que demorou para ser controlada. Zé quase foi expulso do colégio, até porque a frase virou hino de guerra nas aulas chatérrimas de religião.
Nenhum comentário:
Postar um comentário