Ontem pedi informações sobre dados detalhados de trânsito para uma pessoa que está na coisa pública e tem possibilidade de consegui-los na CET. Em específico, curva de carga de trânsito, horários e locais, para ver novas possibilidades de caminhos alternativos para ciclistas e dar ferramentas de organização para os passeios noturnos. O número de passeios noturnos diminuiu porque dependendo do local e horário de saída o pessoal simplesmente não consegue pedalar. A cada dia aumenta a saturação de carros das ruas e mesmo ciclistas não tem mais espaço para seguir em frente. Foi um baile até ela entender sobre o que eu estava falando, e a hora que entendeu sua expressão mudou de "o que este cara está falando?" para uma expressão com um jeitinho um tanto "este cara é louco".
E uns dias depois ampliei o pedido para curva de carga de trânsito, horários e locais, valor agregado por veículo, e no rosto dela a expressão passou para um "não acredito, quem interna este fdp!". Mesmo assim recebi como resposta, imediata, tiro certo, que é muito provável que a CET não tem estes dados por falta de pessoal. Deprimente.
Dois depois deste pedido, uma aula de expressão facial, encontrei uma das peças mais atuantes dentro do poder público e fiz o mesmo pedido, contando que já havia pedido o mesmo para outra pessoa, que ela conhece. Ela se interessou, disse que vai ver o que consegue, e sobre a cara de espanto do outro com minha demanda ela deu o tiro: "Não adianta, eles não entendem". Eles quem? "Todos". Ah, ok.
Eu, Renata, Sérgio, e outros tantos pre históricos da bicicleta, tivemos num passado distante inúmeras vezes a mesma experiência que tive desta vez, uma cara de incompreensão seguida de um risinho inconfundível que diz com todas as letras "este cara é completamente maluco, é um idiota". Era e continua sendo uma reação socialmente quase pré estabelecida para tudo que é ou parece ser, ou se quer incompreensível. Dependendo sobre o que se entrava a fundo, antigamente o pessoal ouvia com atenção e fazia de conta que estava interessado ou queria entender. No caso da bicicleta normalmente o martelo estava batido no discurso corrente "bicicleta é coisa de pobre", então era ponto pacífico "este cara (o que está falando sobre bicicletas) é um idiota".
Para muitos assuntos a reação era mesma, principalmente para aqueles onde havia esta distinção 'inteligentíssima', direi eu, entre pobres e ricos.
Tudo muda. Com tempo a bicicleta passou de assunto 'desinteressante e até desagradável' para um tema que hoje levanta a orelha geral.
Faz um bom tempo, numa reunião de família, um primo, que sempre fizera bullying sobre meu gosto pela bicicleta, pediu orientação sobre que bicicleta comprar. Infelizmente eu caí na gargalhada e tirei um sarro sem tamanho e em voz um tanto alta que os mais próximos ouviram. Ou, rebati a bola com força e mach point para mim, ele e todos que haviam ridicularizado a bicicleta por tanto tempo de certa forma engoliram o próprio "maluco e idiota" estampado durante anos em suas caras e falas.
Falo aqui sobre bicicletas, mas este desinteresse por muitos assuntos continua igual, com as mesmas reações.
A piãozada se empoderou. Passaram de meros "ignorantes, analfabetos" para os donos da situação. Não que no geral tenham mudado, aliás, mudaram, para pior. Num passado distante eram cuidadosos, respeitosos, a maioria fazia um serviço bem feito, com orgulho do esmero, e terminavam o que estavam fazendo. Hoje, além da "rebiboca da parafuseta" que quem contrata tem que engolir, ou não resolvem o problema, quando resolvem.
"Não adianta falar, eles não entendem", ouvi sobre esta baderna bandalheira asquerosa do Banco Master.
Quem não entende? Todos nós, sem exceção.
Afinal, quem é o idiota nestas histórias?
Não responda que fico deprimido.
Com jeito de comemoração, ouvi "A empresa é ótima, não dá para acreditar. Entraram, fizeram o serviço rápido (a troca de uma coluna de esgoto em dois apartamentos), saíram, e quando fui conferir se estava tudo certo não dava para ver onde eles tinham realizado o trabalho". Deveria ser regra, mas não é. Geralmente entram, quebram tudo, transformam o ambiente em cenário de guerra, fecham rapidinho do jeito que for e saem correndo deixando para trás "tá tudo limpo" tipo cracolândia.
Eu adoro a expressão "rebiboca da parafuseta", define bem o que nos tornamos, contratantes e contratados. Reboca da parafuseta é um retratos fiéis deste país. Estou errado? Vide nosso índice de produtividade e qualidade, e porque não dizer, no roubo e na corrupção. Fato é que só nós, o povo, estamos nesta contramão.
Publicado no Estadão em artigo opinião de Demi Getschko sobre diferenças de respostas do IA:
É da expectativa humana que, a toda pergunta, se houver uma resposta supostamente correta, ela tenderá a ser única. Pode ser difícil cavar essa resposta no universo do conhecimento, mas, escondida em algum canto, ela seria fixa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário