Fórum dos Leitores
sobre Notas & Informações
A nova Marginal
(e a cidade)
Desde sempre leitor do Estado de São Paulo sei da qualidade de seus textos e editoriais. Mesmo assim sempre me incomodou a forma pouco trabalhada, com pouca informação de qualidade cruzada, que é tratada a questão do trânsito e dos transportes, o que não exclusividade deste jornal. Infelizmente estamos num tempo onde o pensamento é cada vez mais verticalizado, específico. Infelizmente quando se fala sobre trânsito se fala sobre trânsito, desvinculando este até da cidade e seus cidadãos. Normalmente as referências buscadas pelos jornais do Brasil vêem basicamente e quase sempre dos mesmos personagens; e quando não os mesmos, gente alinhada com a mesmice. Muito raro sair um texto completo e sem cortes de voz, pensamentos ou experiências dissonantes.
Há uma falta de provocação à discussão sobre as implicações maiores que o caos das mobilidades traz para a qualidade de vida de todos, motorizados ou não. Não se olha para o passado com a isenção necessária para fundamentar a conversa de hoje sobre o futuro. Quando não há princípio, não há meio, não haverá futuro.
É grande a quantidade de textos, a maioria baseada em experiências comprovadas, que apontam para a relação entre o aumento da velocidade de fluxo e a desintegração social e urbana. Fala-se sobre uma via sem falar questões outras que o simples fluxo. O resto não existe, é abstrato. Como fica a vida depois de qualquer intervenção, principalmente as de grande porte? Será que a nossa violência brutal do próprio trânsito não extrapola para outras violências a partir da segregação naturalmente criada? Os números oficiais não mentem que há algo muito errado em nossas cidades. Ou está tudo separado, perfeitamente divido, e juntaras pontas da vida é uma besteira. Via é via, bairro é bairro, cidade é cidade, cada um por si e nada está conectado, tudo interage sé dentro de seu próprio universo? Esta é a sensação que se tem.
Sobre a nova Marginal e o publicado
Enquanto boa parte das metrópoles está discutindo a restauração da prioridade da vida, São Paulo pensa a questão do automóvel da mesma forma infantil que Pateta em Motor Mania - http://www.youtube.com/watch?v=0ZgiVicpZGk, ainda da década de 50. Falta a este jornal dar uma passada de olhos pelo menos em Ivan Illich, “Energia e Equidade” - http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/illich/index.htm . É ótima referência para um novo olhar.
Tudo pode ser solução, como diz o texto, mas da forma como está escrito, um tanto ufanista , pouco aprofundada, deixa um abismo no pensar do leitor. A obra é boa, simples assim. Simples porque o pensar não está inserido num contexto maior que é a vida na cidade, ou a cidade viva.
São Paulo, de fato, praticamente não tem outra alternativa que remediar seus erros do passado, como o caso da nova Marginal. A sociedade paulistana não faz idéia que há outras alternativas, portanto resta esta mesma, praticamente a mesma que as janistas ou malufianas, desde sempre tão anacrônicas e tão destrutivas. Mas é o que o paulistano quer e é o que lhe vendem.
A reforma da Marginal do Tiete... é exemplo de investir permanentemente na ampliação do sistema viário.
O que o jornal está dizendo é que quanto mais gordo ficar o trânsito mais se deve gastar em cintos e calças largas, não importa que com este estímulo o paciente vá enfartar. Lembro a este distinto jornal, e em particular a quem redigiu o citado texto, que em praticamente todas grandes metrópoles do mundo a palavra de ordem é resgatar a vida. Investir permanentemente na ampliação do sistema viário, simples assim, começou a ser questionado há muito, muito tempo. Que tal investir na melhoria dos fluxos de todos os modais de transporte tendo como meta a integridade social?
O trânsito não pode parar porque a economia depende disto, ninguém questiona. Mas é relativamente fácil provar que a partir de um determinado ponto investimentos se tornam exponencialmente caros e praticamente inúteis, quando não improdutivos. É uma equação básica.
Os benefícios desta obra .... ficaram evidentes ... como comprovam medições da CET e da reportagem.
Os efeitos imediatos da obra são óbvios, mas uma metrópole como São Paulo é um organismo vivo. Mexeu aqui hoje as resultantes serão irremediavelmente irradiadas até para aqueles que estão na outra ponta da cidade. Pergunto: o que esta obra irá representar de fato a médio e longo prazo? Quais as conseqüências nos sistemas alimentadores da própria marginal; na movimentação da cidade, na qualidade de vida de quem sequer passa por ela? Qual o estímulo às mobilidades desnecessárias e quais conseqüências na desorganização futura da cidade? Qual a relação custo/benefício a curto, médio e longo prazo, direta e indireta? Qual a necessidade de futuras intervenções tendo como base o que foi implantado agora? Qual a relação com a água? Como se pode utilizar esta obra para reorganizar o uso de solo, recuperando o rio Tiete para a vida dos cidadãos? Como não repetir o Minhocão, para ficar num exemplo bastante paulistano?
Tudo isto justifica plenamente o investimento de R$ 1.3 bilhão
Em o quanto tempo este volume de dinheiro terá se pago. Qual é o custo linear desta obra? Para que este R$ 1.3 bi tenha valido a pena quais os próximos passos de investimentos? Quais as grandes intervenções urbanas que serão realizadas nas proximidades da Marginal Tiete e quais as conseqüências destas na nova Marginal? Quantas perguntas devem ser feitas para que a afirmação “justifica plenamente” se sustente literalmente? Creio que se “justifica”, já o “plenamente” é pelo menos um arroubo de motorista.
Creio que provavelmente o custo valerá a pena por conta do tempo que demorará a construção do trecho norte do Rodo Anel, uma conta pesadíssima, mas provavelmente interessante para a escala econômica da Região Metropolitana de São Paulo. E um custo interessante se houver uma programação estabelecida desde já para a recuperação do precioso espaço de vivência que um rio proporciona a uma cidade, mas, como dizem até meus amigos, é muito sonho meu. Veremos dentro de uns anos.
A única coisa a lamentar é que providências como essas ... não tenham sido tomadas antes. Sobretudo porque, se considerarmos os seus benefícios para os paulistanos, os recursos ... são relativamente baixos.
Só creio que a obra é necessária para resolver problemas de curto prazo. Falta de planejamento, que é resultado da falta de uma discussão mais aberta e fundamentada por parte da sociedade, gerou esta obra. Por sua vez a informação de má qualidade que a sociedade paulistana sempre teve acaba gerando besteiras. Não há pior perigo que acreditar em besteira. Informação é tudo. Oferecer ferramentas para dar liberdade de pensamento traz resultados sempre interessantes.
Minha questão não é a obra em si, mas a forma do texto publicado sobre ela.
A este jornal tão conceituado cabe o dever de publicar texto que não dê a sensação que foi datilografada por um motorista que tem por caminho obrigatório para chegar ao trabalho a própria Marginal Tiete em questão.
Governos são eleitos e tem que dar a resposta desejada às demandas de seus eleitores e da população em geral. Diferentemente os jornais devem informar com um viés, abrangente e neutro de preferência, estabelecido pelo questionamento que faz do jornalismo o ato libertário desta sociedade.
Arturo Alcorta, Escola de Bicicleta, sobre a vida, rodando um pouco por tudo
sábado, 3 de abril de 2010
sexta-feira, 26 de março de 2010
São Paulo, cidade sem mapas
O que aconteceu há uns dias me Santo Amaro, quando o Metro abriu um buraco e acidentalmente cortou linhas da Telefônica deixando um monte de gente sem comunicação por dois dias deve-se ao fato que a cidade de São Paulo, referência para o Brasil, simplesmente não ter mapas unificados. Cada companhia tem seu mapa, não raro com referências diferentes das outras companhias e o que existe no subsolo não se sabe ao certo. Abre-se um buraco em meio a rezas. O poder público, a quem cabe o dever de ordenar o uso comum, não dispõe de mapas minimamente confiáveis, seja de subsolo, de solo ou do construído. Quem já necessitou de mapas oficiais da malha viária, o básico do básico, sabe que até este material é desatualizado, incorreto, alguns beirando o fictício ou o surrealista, sabe-se lá bem. Parece que esta administração está tomando alguma providência, mas dado a gravidade da situação urge que uma solução seja apresentada “ontem” para toda população. É vergonhoso para uma escala econômica como a nossa este abre e fecha, abre de novo e fecha de novo. Provavelmente com conhecimento preciso do subsolo os congestionamentos diminuiriam, provavelmente obras seriam mais rápidas e organizadas, portanto mais baratas e eficientes, os efeitos colaterais mínimos. Quem sabe então não se descubra que há uma mina de ouro debaixo de nossos pés. Não duvidem.
terça-feira, 23 de março de 2010
bom dia, sábado
não toca mais Revolver como naquela manha
nossa São Paulo virou Sampa
não há a eterna névoa matinal
os garotos chegaram à maturidade
a vida frugal perdeu a solenidade
sentir a boa vibração é apenas uma simples opção
abrir o menu e clicar nesta ou naquela canção
bolacha se vende nos bares e botecos
farofa total de desdentados
não fala mais da capa
da sua arte
dos cuidados com a agulha
cuidados com agulha são para evitar morrer
é bom acreditar
mudou tudo em volta
pouco restou das esperanças plantadas
vidas sonhadas e mal planejadas
nossas casas estão mais vazias
cheias de lembranças jogadas nos cantos
juntando a poeira do desgaste desta vida marginal
esquecidas por um tempo tão longo quanto infernal
desejos prediletos esquecidos são hoje abjetos
opção pelo seu trajeto cada um faz
mas em conjuntos ninguém vai atrás
limpeza, limpeza
que beleza!
sai o que já não faz mais sentido
outrora mínimos fragmentos de felicidade
entra bem na vida a nova realidade
sabedoria trazida a tira colo pela idade
talvez um simples ato de bondade
felicidade, felicidade
segunda-feira, 1 de março de 2010
Ciclovia de desculpa
A inauguração da Ciclovia da Marginal de Pinheiros neste segundo dia de vida já causa certo furor em todo ciclista que quer ver São Paulo como uma cidade minimamente amigável para o ciclista. Pela manha, no pouco tempo antes da chuva cair, a nova linha vermelha cicloviária estava cheia. Para a maioria é um passo a frente, mesmo que em todas as conversas sempre haja a afirmação que só duas entradas é muito pouco. O governo quer terminar o mandato com obras realizadas, mas não o que eles pretendiam a princípio.
Eu vivi os bastidores e Serra e alguns secretários, como Walter Feldmam, Eduardo Jorge, Stela Goldstein, Aloysio Nunes, José Luiz Portella, e o ex Secretário e hoje Vereador Gilberto Natalini, trabalharam nestes anos tentando fazer alguma coisa pela bicicleta e não conseguiram; agora correm atrás do tempo perdido. Há uma questão eleitoral, sim há, não resta dúvida, mas não creio que o problema deles não é unicamente este. Há muita gente, em vários níveis de governo, que apóia a bicicleta e que está com um grande osso entalado na garganta. Não se realizou nada nestes anos e não foi por falta vontade de girar os pedais.
Quando eu e Sérgio Luiz Bianco decidimos criar e distribuir o Manifesto pelas Bicicletas (http://www.escoladebicicleta.com.br/cicloativismoEB.html) para todos os candidatos à Presidência da República, foi Serra, no segundo turno contra Lula, o primeiro e único candidato da história do Brasil que foi na TV e rádio propôs cuidar da questão da bicicleta. Ninguém mais se manifestou.
Três meses depois de Serra assumir a Prefeitura eu estava na primeira de muitas reuniões para do “Projeto GEF Banco Mundial”. Foi a primeira vez na história de São Paulo que se montou um grupo inter-secretarias e órgãos, com a presença da sociedade civil, um grupo de umas 15 técnicos do mais alto nível, para fazer estudos, vistorias e propostas visando implantar um projeto cicloviário em um bairro de baixa renda que tivesse comprovado número de ciclistas circulando e visando a ligação destes com o sistema de transporte de massa. O dinheiro para o primeiro projeto, US$ 2 milhões, viria do Banco Mundial. Caso este processo acontecesse com rapidez seria destinado mais US$ 10 milhões para mais cinco outros projetos. No que deu? Nada. Para mim sobrou uma frase triste dita por um dos especialistas internacionais que passaram por aqui e fizeram de tudo para concretizar algo: “Nem na África (Central, boa parte em guerra civil) tivemos tantos problemas burocráticos”.
Não deu em nada. Muita gente graúda ficou furiosa com toda a história porque se gastou muito tempo e trabalho para nada. Também se gastou muito dinheiro internacional sem resultado. As explicações para o insucesso diziam, de um lado, que a responsabilidade estava na burocracia nacional; e do outro, culpavam as exigências internacionais. No meio da confusão mudou uma presidência qualquer, do Banco Mundial ou GEF, e eles acabaram com tudo. Enfim, nada! O pessoal de cima ficou, por assim dizer, chateado.
Na mesma época surgiram outras propostas e mesmo projetos de ciclovias, sistemas cicloviários e outras coisinhas mais; pelo menos uns 750 km de melhorias. Absolutamente nenhum deles frutificou. Alguns tinham dinheiro de empresas privadas e sairiam na faixa para a Prefeitura. Nicas! Todos, sem exceção, pararam num mesmo ponto: a negação da assinatura técnica. Sem ela é impossível dar um passo a frente. Há uma “coisa” que eu apelidei de “lei de assinatura técnica”, definida em lei Federal, que dá pleno poder a um técnico de trânsito, ou seja, no caso de São Paulo um funcionário da CET com CREA, que diz “sim” ou “não” para qualquer projeto que envolva um modo de transporte e sua utilização do sistema viário. “Se eu quiser assino, se não quiser não assino e ponto.” E ponto final, como diz a lei.
Assina, assina, assina...
Se tiver família e não quiser se meter no que ele considera encrenca não assina. Se for se aposentar ou não entender nada do assunto também tem pleno direito de não assinar. E assim por diante com qualquer que seja a razão: achar a bicicleta coisa do passado, para lazer ou esporte; ter medo de pedalar no trânsito; não ter expertise em ciclistas e bicicletas; não querer trair os companheiros; ter um ego grandinho; sentir ódio de quem lhe cruze o caminho... Qualquer razão é razão. Bicicleta não é tema fácil para certas pessoas.
Mas faço justiça e aqui faço a defesa de quem se nega a assinar. A lei diz que se der alguma coisa errada no projeto quem paga o pato é quem assinou e não a Prefeitura ou a CET. O culpado é a pessoa que assinou, ponto. Se um ciclista se machucar num local sinalizado pelo órgão de trânsito e este ciclista acionar seus direitos quem vai se ferrar é quem assinou a colocação da placa. É compreensível que não queiram colocar o deles na reta. Não justifica tudo, mas fazer o que, bicicleta e ciclista é tão difícil...
Repito sempre e não me canso de dizer que a CET de São Paulo é um dos melhores corpos técnicos de trânsito do mundo, mas para fluidez de motorizados. Eu nunca li o estatuto da CET, mas parece que a razão da existência dela foi para dar fluidez ao trânsito motorizado. Não sei como está, mas ainda hoje a questão do pedestre e bicicleta é claramente relegada a um plano bem secundário. Vide os números oficiais que não me deixam mentir. Aliás, que números!
Automóvel em 60 meses
Por outro lado a CET sofre uma brutal pressão da sociedade motorizada para fazer o trânsito funcionar. De novo aos números e fica absolutamente claro que o paulistano está se lixando para os pedestres e ciclistas, inclua-se ai mais os 14% da população que tem alguma deficiência física. Telefone para a CET e pergunte quantos funcionários cuidam dos 34% pedestres, dos 0,6% (oficiais) ciclistas, que circulam diariamente em São Paulo ou dos deficientes físicos (14% da população) que deveriam conseguir circular? Nossa sociedade está interessada em passar rápido sem ter que ficar em congestionamentos ou mesmo semáforos estúpidos, ponto. Pedestre que se dane. O número de mortos atropelados não interessa. Ciclista atrapalha a fluidez... Como você acha que a CET reage a esta pressão? Como você iria reagir numa situação destas? Desculpem, mas eles são humanos, e como tal tem qualidades e defeitos, como qualquer um de nós.
Mas ai vem a questão do político, do mandante. Segundo a maioria quem é responsável por não haver melhorias para ciclistas é o Prefeito, os Secretários, o Governador, enfim, quem manda. Isto aqui é que é terra de Papai Noel, de Santo Milagreiro! “O chefe sempre tem todo poder, ele faz o que quiser.” Desculpe, mas estamos vivendo numa baderna que ainda é um estado de direito e, portanto, está sob o poder das leis. É óbvio que tem político paizão que faz o que bem entende, que manda e desmanda, para o qual lei é só entrave, e é óbvio que tem o povão acha lindo. Mas a política do paizão sempre acaba dando caca. Mandante que tem um mínimo de noção das coisas, respeito pelas regras do jogo legal e político, não se mete a besta.
No caso de São Paulo é muito complicado que um mandante vá mexer num vespeiro do tamanho da CET sem um grande respaldo popular. É muita inocência acreditar que Prefeito, Governador ou Secretário irá peitar o corpo técnico de uma companhia de excelência por causa de meia dúzia de pessoas que reivindicam o direito real, moral e legal de uma massa. Vamos dizer que ele peite, que coloque a mão forte sobre a CET, você acredita mesmo que não haverá reação? E se tirar do jogo parte do corpo técnico que se recusam a ver pedestres e ciclistas como parte do trânsito, onde encontrar gente com conhecimento e prática suficiente para manter a cidade funcionando? Quem quiser que acredite: não dá para peitar a CET, não sem muita pressão popular. E povo quer é carro novo em 60 prestações. Ponto. Você como governante como agiria numa situação destas?
O que foi inaugurado?
Vamos lá, o que foi inaugurado desde de 2004, quando Serra assumiu: a Ciclovia da Radial Leste, até hoje inacabada; a Ciclo Faixa de Domingo, e agora a Ciclovia do Rio Pinheiros. Os bicicletários nas estações do Metro e CPTM. Tem mais uma coisinha ou outra, mas coisa pouca. (Poderíamos ter pelo menos uns 250 km de melhorias realizadas.)
Uma rápida olhada nas duas grandes ciclovias e há um detalhe interessante em comum: são vias sem cruzamentos, sem conflitos com o trânsito dos motorizados. Uma está encostada ao muro da Linha 3 - Vermelha do Metro, começa na estação Tatuapé e vai até a estação Corinthians - Itaquera; e a outra está entre a Linha 9 - Esmeralda e o rio Pinheiros. As duas estão praticamente segredadas da vida dos bairros adjacentes. Na da Radial Leste há algumas entradas nas quais você tem que esperar uma eternidade até o semáforo abrir. Mas do que adianta uma ciclovia sem cruzamentos se toda a vida e até mesmo os bicicletários estão do outro da avenida? Na da Marginal Pinheiros agora há duas entradas, mas está proposto mais outros acessos, uns cinco. Mesmo que esta venha a ter um acesso em cada ponte aposto como seu uso será quase que exclusivamente voltado ao lazer e esporte. Ou para uns raros ciclistas trabalhadores que fazem longas distâncias. Para qualquer usuário de bicicleta é muito mais sensato, rápido e seguro manter-se no interno de bairro. Subir e descer uma passarela com altura padrão para a Marginal é um esforço sensível e uma perda de tempo para a maioria dos ciclistas. Vale lembrar que a distância média percorrida por um ciclista comum é menos de 4 km (2.3 km segundo Bicing - Barcelona). Mas a questão não é exatamente esta. A sutileza é que estas ciclovias estão ai porque não tem cruzamentos. Serão assim para não atrapalhar o trânsito?
Briga de cachorro grande
Eu daria minha vida para ter assistido as “conversas” sobre a criação da Ciclo Faixa de Domingo. Ela também não tem cruzamentos. Ou tem; mas cruzamentos com baby siter embandeiradas, uma ou mais em cada esquina. E horário de funcionamento. Por que será?
Algo me diz que estas melhorias para os ciclistas foram enfiadas goela abaixo dos que não gostam de bicicleta ou dos lobos fantasiados de cordeirinhos. Não sei como pode ter acontecido, mas talvez tenham aprendido com a Sub de Parelheiros que só chamou os técnicos quando a ciclovia estava pronta e não havia mais nada a fazer, o que foi uma caca total, mas também não deixou de ser uma boa idéia. É; talvez a idéia tenha colado. Fato consumado e pronto!
Não há ciclistas...
Uma das alegações é que não há ciclista suficiente para demandar um trabalho maior ou uma mudança de rumos. A Ciclo Faixa de Domingo e os primeiro fim de semana da Ciclovia da Marginal Pinheiros provam exatamente o contrário, exatamente como o óbvio das ruas e o trabalho de Carlos Paiva, da própria CET, apontam. A da Radial não entra nesta conta porque está praticamente vazia em razão de ser desagradável por estar incompleta, ser poluída, suja e muito barulhenta. Mas há, sim, ciclistas na Zona Leste, muito mais que eu próprio tive notícias. Jardim Helena surgiu do nada para ser a campeã em ciclistas circulando, 7.700/dia numa área relativamente pequena. Não sei como, mas Jardim Helena aconteceu. E outros fatos mais.
Ciclistas na cidade há, muitos, e não para de crescer. O que ainda não é reivindicação em massa, com peso maior que o dos motoristas. No meio da briga de foice, do osso entalado, da birra “eu não quero”, do poder das leis, da omissão da Justiça em coibir a omissão de responsabilidade, restou a saída de entregar ciclovias e ciclofaixa sem cruzamentos. É um jogo político. E o povo está adorando. É uma forma bizarra de fazer acontecer que espero que dê certo.
Eu vivi os bastidores e Serra e alguns secretários, como Walter Feldmam, Eduardo Jorge, Stela Goldstein, Aloysio Nunes, José Luiz Portella, e o ex Secretário e hoje Vereador Gilberto Natalini, trabalharam nestes anos tentando fazer alguma coisa pela bicicleta e não conseguiram; agora correm atrás do tempo perdido. Há uma questão eleitoral, sim há, não resta dúvida, mas não creio que o problema deles não é unicamente este. Há muita gente, em vários níveis de governo, que apóia a bicicleta e que está com um grande osso entalado na garganta. Não se realizou nada nestes anos e não foi por falta vontade de girar os pedais.
Quando eu e Sérgio Luiz Bianco decidimos criar e distribuir o Manifesto pelas Bicicletas (http://www.escoladebicicleta.com.br/cicloativismoEB.html) para todos os candidatos à Presidência da República, foi Serra, no segundo turno contra Lula, o primeiro e único candidato da história do Brasil que foi na TV e rádio propôs cuidar da questão da bicicleta. Ninguém mais se manifestou.
Três meses depois de Serra assumir a Prefeitura eu estava na primeira de muitas reuniões para do “Projeto GEF Banco Mundial”. Foi a primeira vez na história de São Paulo que se montou um grupo inter-secretarias e órgãos, com a presença da sociedade civil, um grupo de umas 15 técnicos do mais alto nível, para fazer estudos, vistorias e propostas visando implantar um projeto cicloviário em um bairro de baixa renda que tivesse comprovado número de ciclistas circulando e visando a ligação destes com o sistema de transporte de massa. O dinheiro para o primeiro projeto, US$ 2 milhões, viria do Banco Mundial. Caso este processo acontecesse com rapidez seria destinado mais US$ 10 milhões para mais cinco outros projetos. No que deu? Nada. Para mim sobrou uma frase triste dita por um dos especialistas internacionais que passaram por aqui e fizeram de tudo para concretizar algo: “Nem na África (Central, boa parte em guerra civil) tivemos tantos problemas burocráticos”.
Não deu em nada. Muita gente graúda ficou furiosa com toda a história porque se gastou muito tempo e trabalho para nada. Também se gastou muito dinheiro internacional sem resultado. As explicações para o insucesso diziam, de um lado, que a responsabilidade estava na burocracia nacional; e do outro, culpavam as exigências internacionais. No meio da confusão mudou uma presidência qualquer, do Banco Mundial ou GEF, e eles acabaram com tudo. Enfim, nada! O pessoal de cima ficou, por assim dizer, chateado.
Na mesma época surgiram outras propostas e mesmo projetos de ciclovias, sistemas cicloviários e outras coisinhas mais; pelo menos uns 750 km de melhorias. Absolutamente nenhum deles frutificou. Alguns tinham dinheiro de empresas privadas e sairiam na faixa para a Prefeitura. Nicas! Todos, sem exceção, pararam num mesmo ponto: a negação da assinatura técnica. Sem ela é impossível dar um passo a frente. Há uma “coisa” que eu apelidei de “lei de assinatura técnica”, definida em lei Federal, que dá pleno poder a um técnico de trânsito, ou seja, no caso de São Paulo um funcionário da CET com CREA, que diz “sim” ou “não” para qualquer projeto que envolva um modo de transporte e sua utilização do sistema viário. “Se eu quiser assino, se não quiser não assino e ponto.” E ponto final, como diz a lei.
Assina, assina, assina...
Se tiver família e não quiser se meter no que ele considera encrenca não assina. Se for se aposentar ou não entender nada do assunto também tem pleno direito de não assinar. E assim por diante com qualquer que seja a razão: achar a bicicleta coisa do passado, para lazer ou esporte; ter medo de pedalar no trânsito; não ter expertise em ciclistas e bicicletas; não querer trair os companheiros; ter um ego grandinho; sentir ódio de quem lhe cruze o caminho... Qualquer razão é razão. Bicicleta não é tema fácil para certas pessoas.
Mas faço justiça e aqui faço a defesa de quem se nega a assinar. A lei diz que se der alguma coisa errada no projeto quem paga o pato é quem assinou e não a Prefeitura ou a CET. O culpado é a pessoa que assinou, ponto. Se um ciclista se machucar num local sinalizado pelo órgão de trânsito e este ciclista acionar seus direitos quem vai se ferrar é quem assinou a colocação da placa. É compreensível que não queiram colocar o deles na reta. Não justifica tudo, mas fazer o que, bicicleta e ciclista é tão difícil...
Repito sempre e não me canso de dizer que a CET de São Paulo é um dos melhores corpos técnicos de trânsito do mundo, mas para fluidez de motorizados. Eu nunca li o estatuto da CET, mas parece que a razão da existência dela foi para dar fluidez ao trânsito motorizado. Não sei como está, mas ainda hoje a questão do pedestre e bicicleta é claramente relegada a um plano bem secundário. Vide os números oficiais que não me deixam mentir. Aliás, que números!
Automóvel em 60 meses
Por outro lado a CET sofre uma brutal pressão da sociedade motorizada para fazer o trânsito funcionar. De novo aos números e fica absolutamente claro que o paulistano está se lixando para os pedestres e ciclistas, inclua-se ai mais os 14% da população que tem alguma deficiência física. Telefone para a CET e pergunte quantos funcionários cuidam dos 34% pedestres, dos 0,6% (oficiais) ciclistas, que circulam diariamente em São Paulo ou dos deficientes físicos (14% da população) que deveriam conseguir circular? Nossa sociedade está interessada em passar rápido sem ter que ficar em congestionamentos ou mesmo semáforos estúpidos, ponto. Pedestre que se dane. O número de mortos atropelados não interessa. Ciclista atrapalha a fluidez... Como você acha que a CET reage a esta pressão? Como você iria reagir numa situação destas? Desculpem, mas eles são humanos, e como tal tem qualidades e defeitos, como qualquer um de nós.
Mas ai vem a questão do político, do mandante. Segundo a maioria quem é responsável por não haver melhorias para ciclistas é o Prefeito, os Secretários, o Governador, enfim, quem manda. Isto aqui é que é terra de Papai Noel, de Santo Milagreiro! “O chefe sempre tem todo poder, ele faz o que quiser.” Desculpe, mas estamos vivendo numa baderna que ainda é um estado de direito e, portanto, está sob o poder das leis. É óbvio que tem político paizão que faz o que bem entende, que manda e desmanda, para o qual lei é só entrave, e é óbvio que tem o povão acha lindo. Mas a política do paizão sempre acaba dando caca. Mandante que tem um mínimo de noção das coisas, respeito pelas regras do jogo legal e político, não se mete a besta.
No caso de São Paulo é muito complicado que um mandante vá mexer num vespeiro do tamanho da CET sem um grande respaldo popular. É muita inocência acreditar que Prefeito, Governador ou Secretário irá peitar o corpo técnico de uma companhia de excelência por causa de meia dúzia de pessoas que reivindicam o direito real, moral e legal de uma massa. Vamos dizer que ele peite, que coloque a mão forte sobre a CET, você acredita mesmo que não haverá reação? E se tirar do jogo parte do corpo técnico que se recusam a ver pedestres e ciclistas como parte do trânsito, onde encontrar gente com conhecimento e prática suficiente para manter a cidade funcionando? Quem quiser que acredite: não dá para peitar a CET, não sem muita pressão popular. E povo quer é carro novo em 60 prestações. Ponto. Você como governante como agiria numa situação destas?
O que foi inaugurado?
Vamos lá, o que foi inaugurado desde de 2004, quando Serra assumiu: a Ciclovia da Radial Leste, até hoje inacabada; a Ciclo Faixa de Domingo, e agora a Ciclovia do Rio Pinheiros. Os bicicletários nas estações do Metro e CPTM. Tem mais uma coisinha ou outra, mas coisa pouca. (Poderíamos ter pelo menos uns 250 km de melhorias realizadas.)
Uma rápida olhada nas duas grandes ciclovias e há um detalhe interessante em comum: são vias sem cruzamentos, sem conflitos com o trânsito dos motorizados. Uma está encostada ao muro da Linha 3 - Vermelha do Metro, começa na estação Tatuapé e vai até a estação Corinthians - Itaquera; e a outra está entre a Linha 9 - Esmeralda e o rio Pinheiros. As duas estão praticamente segredadas da vida dos bairros adjacentes. Na da Radial Leste há algumas entradas nas quais você tem que esperar uma eternidade até o semáforo abrir. Mas do que adianta uma ciclovia sem cruzamentos se toda a vida e até mesmo os bicicletários estão do outro da avenida? Na da Marginal Pinheiros agora há duas entradas, mas está proposto mais outros acessos, uns cinco. Mesmo que esta venha a ter um acesso em cada ponte aposto como seu uso será quase que exclusivamente voltado ao lazer e esporte. Ou para uns raros ciclistas trabalhadores que fazem longas distâncias. Para qualquer usuário de bicicleta é muito mais sensato, rápido e seguro manter-se no interno de bairro. Subir e descer uma passarela com altura padrão para a Marginal é um esforço sensível e uma perda de tempo para a maioria dos ciclistas. Vale lembrar que a distância média percorrida por um ciclista comum é menos de 4 km (2.3 km segundo Bicing - Barcelona). Mas a questão não é exatamente esta. A sutileza é que estas ciclovias estão ai porque não tem cruzamentos. Serão assim para não atrapalhar o trânsito?
Briga de cachorro grande
Eu daria minha vida para ter assistido as “conversas” sobre a criação da Ciclo Faixa de Domingo. Ela também não tem cruzamentos. Ou tem; mas cruzamentos com baby siter embandeiradas, uma ou mais em cada esquina. E horário de funcionamento. Por que será?
Algo me diz que estas melhorias para os ciclistas foram enfiadas goela abaixo dos que não gostam de bicicleta ou dos lobos fantasiados de cordeirinhos. Não sei como pode ter acontecido, mas talvez tenham aprendido com a Sub de Parelheiros que só chamou os técnicos quando a ciclovia estava pronta e não havia mais nada a fazer, o que foi uma caca total, mas também não deixou de ser uma boa idéia. É; talvez a idéia tenha colado. Fato consumado e pronto!
Não há ciclistas...
Uma das alegações é que não há ciclista suficiente para demandar um trabalho maior ou uma mudança de rumos. A Ciclo Faixa de Domingo e os primeiro fim de semana da Ciclovia da Marginal Pinheiros provam exatamente o contrário, exatamente como o óbvio das ruas e o trabalho de Carlos Paiva, da própria CET, apontam. A da Radial não entra nesta conta porque está praticamente vazia em razão de ser desagradável por estar incompleta, ser poluída, suja e muito barulhenta. Mas há, sim, ciclistas na Zona Leste, muito mais que eu próprio tive notícias. Jardim Helena surgiu do nada para ser a campeã em ciclistas circulando, 7.700/dia numa área relativamente pequena. Não sei como, mas Jardim Helena aconteceu. E outros fatos mais.
Ciclistas na cidade há, muitos, e não para de crescer. O que ainda não é reivindicação em massa, com peso maior que o dos motoristas. No meio da briga de foice, do osso entalado, da birra “eu não quero”, do poder das leis, da omissão da Justiça em coibir a omissão de responsabilidade, restou a saída de entregar ciclovias e ciclofaixa sem cruzamentos. É um jogo político. E o povo está adorando. É uma forma bizarra de fazer acontecer que espero que dê certo.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Ir trabalhar de bicicleta
Caminhada
O primeiro passo foi num dia de chuva quando todos os semáforos enlouqueceram. Incomum para a época, lá por volta de 1974. O vidro do carro embaçou. A paciência se acabou. O motorista olhou para os lados, pensou, desceu do carro e pediu para o motorista da frente mover só um pouquinho para frente. Voltou ao carro, manobrou, fez uma meia volta, entrou numa transversal logo ali, parou e pegou um guarda-chuva; trancou o carro e seguiu a viagem para casa a pé. Chegou e ainda não havia ninguém em casa. Deviam estar todos entalados em algum semáforo. Tomou um tranqüilo banho e foi ver as notícias. Andar a pé sempre o agradara, mas era coisa do passado. Ser impedido de seguir em frente, por qualquer razão, sempre o irritara profundamente. A experiência daquela noite fora coisa boba, mas fez com que seus pensamentos deixassem passar sem entender sobre o que as notícias diziam. Vinte minutos a pé era muito mais eficiente e prazeroso que 10 minutos parado num carro, por pior que fosse a chuva e melhor que fosse o carro e seu som.
Na manha seguinte teve que acordar mais cedo para ir pegar o carro. Saiu à rua e esticou o braço para pegar um taxi. Entrou, deu bom dia, disse para onde ia e seguiram em frente. Pela janela via por onde havia caminhado na chuva e lembrou a sensação de sentir o prazer de estar vivo, de ver sem impedimentos e com calma a paisagem. Na rapidez do taxi olhou para trás onde havia descoberto uma casa sobre uma grande seringueira. Nunca a havia visto de dentro do carro. Um pouco mais à frente lembrou que as gotas do final da chuva reforçam mais ainda o cheiro da dama da noite. O vento de seu carro talvez tenha aberto um vácuo ali porque ele, motorista, nunca se dera conta daquela delícia exalada pelas pequenas e brancas flores. E assim chegou ao seu carro, distraído nas lembranças do molhado caminhar de ontem.
Saiu do taxi e olhou em volta. Dinheiro mal gasto. Poderia ter acordado um pouquinho mais cedo e chegado ali caminhando. A quanto tempo não caminhava pela manha? O ar nesta hora é agradável, leve, mais fresco. Entrou no seu carro e seguiu para o trabalho. Uma sensação estranha tomou seu corpo. Abriu todas as janelas, mas a sensação não passou.
No dia seguinte desceu logo pela manha para a garagem. O português dos pães estava lá, com sua bicicleta cargueira e sua imensa cesta de vime cheia de ótimos pães. Como sempre roubou um pão doce com creme, recém saído do forno e ainda meio quente. Deliciosa gula pura. Enquanto o português embalava os pedidos - dois sovados aqui, quatro para este, meia dúzia neste saco, o pãozinho de dona Neide - os dois conversaram. Aquela bicicleta era preta, praticamente fosca de uso e velha, aros e outros metais já escuros, mas magicamente maravilhosa.
“Não pedalo faz muito tempo”
O português sorriu. “Pois deverias. Não sabes o que estás perdendo”. Tirou os olhos de seus pães, percebeu o olhar fixo na bicicleta de seu velho amigo e cliente, deixou os embrulhos com os pães no capo de um carro, soltou as duas alças de borracha que prendiam a cesta de vime, colocou-a no chão, e apontou para a bicicleta. “Dá uma volta aqui na garagem. Experimenta. Creio que vais gostar”. Convite irrecusável. Meio constrangido foi, primeiras pedaladas um pouco inseguro, e logo sentindo-se novamente aquela criança ciclista que nunca lhe havia abandonado a alma. O português, rindo da situação, teve que fazê-lo parar. “Desce daí, menino, e vai trabalhar”. A situação se repetiu mais algumas vezes, até o dia que o português chegou e seu amigo estava com a própria bicicleta, pedalando entre carros, no corredor do elevador, subindo e descendo a rampa da garagem. O português encostou sua bicicleta, iniciou o trabalho dos pacotes, e percebendo o adiantado da hora falou um pouco mais alto.
“Vai trabalhar, menino”
“De bicicleta?”
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Giro para casa
As duas estavam estacionadas lado a lado, a Honda 750 e uma Caloi 10 azul claro metálica. Era início de noite no Centro da cidade, já um pouco passada a hora de voltar para casa. Dois jovens homens descem do elevador e caminham juntos por entre os carros estacionados. Estão vestidos formalmente, o motociclista em um discreto terno; o ciclista um pouco mais a vontade, sem blaizer ou gravata, mas de calça e camisa social em tons claros, mocassim e cinto impecavelmente novos e lustrados. Pararam ao lado de seus veículos, cumprimentaram-se cordialmente, com o motociclista estranhando seu visinho. Destravaram as trancas. O ciclista prende a barra da calça e dá um “boa noite” e sai. Um pouco antes do final da rampa do estacionamento pode ouvir o ronco forte do motor da moto sendo ligado. Cruza a rua, entra no calçadão e some no que resta de multidão.
O ciclista está com pressa. Tem que chegar a casa, tomar um banho e sair. Vai pedalando mais rápido que o costume. Sobe para a Paulista e quanto mais sente o prazer do esforço, mais encharca o corpo de suor e maltrata sua roupa de trabalho. Da Paulista para casa, só descida, e ele aumenta mais ainda o ritmo, já competindo consigo com uma criança que brinca sozinha no pátio. Entra na reta final e relaxa um pouco, feliz, com a sensação de vitória, de liberdade. E na volta à realidade e no silêncio daquela rua ouve vindo rápido um forte ronco de moto, que cresce e passa. Passa e um pouco a frente freia, diminui a velocidade, emparelha, o motocilista levanta a viseira do capacete, e só então o ciclista se dá conta que é o mesmo do estacionamento. Motociclista incrédulo pergunta: “Você não saiu do estacionamento do Centro junto comigo? Como pode chegar aqui na minha frente?” E os dois seguem com o ciclista dando algumas explicações risíveis e com uma pitada de ironia. Isto foi em 1978 quando ainda não havia trânsito.
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Coisas da vida
Quando levanta os olhos do livro percebe que quase se esgotou o tempo para entregar os documentos que o pai e patrão lhe havia pedido. Coisa simples. Ir até lá, parar o carro na garagem da empresa, subir até a sala do presidente, pegar sua assinatura e pronto. Haveria uma vaga na garagem a disposição. Mas de carro não é mais possível, não dá para chegar. Veste o paletó, ajeita a gravata, pega os papeis, desce correndo pelas escadas, pega a bicicleta, prende a barra da calça, e sai rapidamente pelas ruas. É logo ali. Chega sem muito suor. Na porta da garagem está o manobrista e responsável.
“Boa tarde. Vim pegar a assinatura do presidente. Há uma vaga para mim. O senhor deve estar avisado”
“Boa tarde. Sim, eles me avisaram. Mas a vaga para é para um carro. De bicicleta não posso deixar o senhor entrar; só de carro”, respondeu do alto de sua autoridade. E nela permaneceu até que a portaria chamou o presidente da empresa, que desceu e assinou os papeis na rua. E mesmo com seu chefe máximo a frente o manobrista continuou afirmando: “Doutor, de carro a vaga é dele, como o senhor mandou. Mas de bicicleta... como é que fica doutor? Como posso permitir uma bicicleta na garagem” (1979)
O primeiro passo foi num dia de chuva quando todos os semáforos enlouqueceram. Incomum para a época, lá por volta de 1974. O vidro do carro embaçou. A paciência se acabou. O motorista olhou para os lados, pensou, desceu do carro e pediu para o motorista da frente mover só um pouquinho para frente. Voltou ao carro, manobrou, fez uma meia volta, entrou numa transversal logo ali, parou e pegou um guarda-chuva; trancou o carro e seguiu a viagem para casa a pé. Chegou e ainda não havia ninguém em casa. Deviam estar todos entalados em algum semáforo. Tomou um tranqüilo banho e foi ver as notícias. Andar a pé sempre o agradara, mas era coisa do passado. Ser impedido de seguir em frente, por qualquer razão, sempre o irritara profundamente. A experiência daquela noite fora coisa boba, mas fez com que seus pensamentos deixassem passar sem entender sobre o que as notícias diziam. Vinte minutos a pé era muito mais eficiente e prazeroso que 10 minutos parado num carro, por pior que fosse a chuva e melhor que fosse o carro e seu som.
Na manha seguinte teve que acordar mais cedo para ir pegar o carro. Saiu à rua e esticou o braço para pegar um taxi. Entrou, deu bom dia, disse para onde ia e seguiram em frente. Pela janela via por onde havia caminhado na chuva e lembrou a sensação de sentir o prazer de estar vivo, de ver sem impedimentos e com calma a paisagem. Na rapidez do taxi olhou para trás onde havia descoberto uma casa sobre uma grande seringueira. Nunca a havia visto de dentro do carro. Um pouco mais à frente lembrou que as gotas do final da chuva reforçam mais ainda o cheiro da dama da noite. O vento de seu carro talvez tenha aberto um vácuo ali porque ele, motorista, nunca se dera conta daquela delícia exalada pelas pequenas e brancas flores. E assim chegou ao seu carro, distraído nas lembranças do molhado caminhar de ontem.
Saiu do taxi e olhou em volta. Dinheiro mal gasto. Poderia ter acordado um pouquinho mais cedo e chegado ali caminhando. A quanto tempo não caminhava pela manha? O ar nesta hora é agradável, leve, mais fresco. Entrou no seu carro e seguiu para o trabalho. Uma sensação estranha tomou seu corpo. Abriu todas as janelas, mas a sensação não passou.
No dia seguinte desceu logo pela manha para a garagem. O português dos pães estava lá, com sua bicicleta cargueira e sua imensa cesta de vime cheia de ótimos pães. Como sempre roubou um pão doce com creme, recém saído do forno e ainda meio quente. Deliciosa gula pura. Enquanto o português embalava os pedidos - dois sovados aqui, quatro para este, meia dúzia neste saco, o pãozinho de dona Neide - os dois conversaram. Aquela bicicleta era preta, praticamente fosca de uso e velha, aros e outros metais já escuros, mas magicamente maravilhosa.
“Não pedalo faz muito tempo”
O português sorriu. “Pois deverias. Não sabes o que estás perdendo”. Tirou os olhos de seus pães, percebeu o olhar fixo na bicicleta de seu velho amigo e cliente, deixou os embrulhos com os pães no capo de um carro, soltou as duas alças de borracha que prendiam a cesta de vime, colocou-a no chão, e apontou para a bicicleta. “Dá uma volta aqui na garagem. Experimenta. Creio que vais gostar”. Convite irrecusável. Meio constrangido foi, primeiras pedaladas um pouco inseguro, e logo sentindo-se novamente aquela criança ciclista que nunca lhe havia abandonado a alma. O português, rindo da situação, teve que fazê-lo parar. “Desce daí, menino, e vai trabalhar”. A situação se repetiu mais algumas vezes, até o dia que o português chegou e seu amigo estava com a própria bicicleta, pedalando entre carros, no corredor do elevador, subindo e descendo a rampa da garagem. O português encostou sua bicicleta, iniciou o trabalho dos pacotes, e percebendo o adiantado da hora falou um pouco mais alto.
“Vai trabalhar, menino”
“De bicicleta?”
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Giro para casa
As duas estavam estacionadas lado a lado, a Honda 750 e uma Caloi 10 azul claro metálica. Era início de noite no Centro da cidade, já um pouco passada a hora de voltar para casa. Dois jovens homens descem do elevador e caminham juntos por entre os carros estacionados. Estão vestidos formalmente, o motociclista em um discreto terno; o ciclista um pouco mais a vontade, sem blaizer ou gravata, mas de calça e camisa social em tons claros, mocassim e cinto impecavelmente novos e lustrados. Pararam ao lado de seus veículos, cumprimentaram-se cordialmente, com o motociclista estranhando seu visinho. Destravaram as trancas. O ciclista prende a barra da calça e dá um “boa noite” e sai. Um pouco antes do final da rampa do estacionamento pode ouvir o ronco forte do motor da moto sendo ligado. Cruza a rua, entra no calçadão e some no que resta de multidão.
O ciclista está com pressa. Tem que chegar a casa, tomar um banho e sair. Vai pedalando mais rápido que o costume. Sobe para a Paulista e quanto mais sente o prazer do esforço, mais encharca o corpo de suor e maltrata sua roupa de trabalho. Da Paulista para casa, só descida, e ele aumenta mais ainda o ritmo, já competindo consigo com uma criança que brinca sozinha no pátio. Entra na reta final e relaxa um pouco, feliz, com a sensação de vitória, de liberdade. E na volta à realidade e no silêncio daquela rua ouve vindo rápido um forte ronco de moto, que cresce e passa. Passa e um pouco a frente freia, diminui a velocidade, emparelha, o motocilista levanta a viseira do capacete, e só então o ciclista se dá conta que é o mesmo do estacionamento. Motociclista incrédulo pergunta: “Você não saiu do estacionamento do Centro junto comigo? Como pode chegar aqui na minha frente?” E os dois seguem com o ciclista dando algumas explicações risíveis e com uma pitada de ironia. Isto foi em 1978 quando ainda não havia trânsito.
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Coisas da vida
Quando levanta os olhos do livro percebe que quase se esgotou o tempo para entregar os documentos que o pai e patrão lhe havia pedido. Coisa simples. Ir até lá, parar o carro na garagem da empresa, subir até a sala do presidente, pegar sua assinatura e pronto. Haveria uma vaga na garagem a disposição. Mas de carro não é mais possível, não dá para chegar. Veste o paletó, ajeita a gravata, pega os papeis, desce correndo pelas escadas, pega a bicicleta, prende a barra da calça, e sai rapidamente pelas ruas. É logo ali. Chega sem muito suor. Na porta da garagem está o manobrista e responsável.
“Boa tarde. Vim pegar a assinatura do presidente. Há uma vaga para mim. O senhor deve estar avisado”
“Boa tarde. Sim, eles me avisaram. Mas a vaga para é para um carro. De bicicleta não posso deixar o senhor entrar; só de carro”, respondeu do alto de sua autoridade. E nela permaneceu até que a portaria chamou o presidente da empresa, que desceu e assinou os papeis na rua. E mesmo com seu chefe máximo a frente o manobrista continuou afirmando: “Doutor, de carro a vaga é dele, como o senhor mandou. Mas de bicicleta... como é que fica doutor? Como posso permitir uma bicicleta na garagem” (1979)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
São Paulo sub-emergente
É 16h e 37m aqui em São Paulo; quarta-feira, 04 de fevereiro de 2010, e cai mais um dilúvio. Provavelmente a cidade ficará novamente debaixo d’água em muitas localidades. E com um pouco de sorte termino este texto sem que um raio torre o computador. É o verão mais chuvoso da história paulistana.
Água é vital, mas quando em excesso se espalha por onde quer. Ai não tem nível social ou cultural, tudo e todos que estão no caminho ficam molhados. Já tive minha casa invadida por água e sei bem como é. É nestes momentos que você entende o que é significa “impotência”. Nada pode frear as águas quando elas assim o querem. Esta é a verdade. Água deveria aparecer como sinônimo de verdade porque fisicamente têm propriedades iguais. Mesmo que tentemos enganá-las elas mostram suas implacáveis realidades. São o que são e ponto.
Choveu, encheu?
Os córregos, em sua maioria, não têm grandes áreas alagadiças, ao contrário dos grandes rios. Todas as áreas que pertencem às águas estão tomadas pela cidade, ou melhor, por seus cidadãos. E ai o detalhe importante: as várzeas e áreas alagadiças pertencem à cidade, mas isto não dá direito de uso indevido pelos seus cidadãos. A cidade tem que funcionar ou a vida de quem mora nela não será boa. E o primeiro ponto para ela funcionar está numa hierarquia: respeito às características geomorfológicas, em cima disto fazer o sensato uso de solo, águas e ar (ventos), e por último dar limites ao cidadão. Inverter esta hierarquia mais cedo ou mais tarde acaba não dando certo. O Brasil esperto se fez mais sábio que a natureza e transformou suas cidades nesta loucura de desastres e baixa qualidade de vida.
São Paulo, o município, está assentado sobre três grandes rios: Tiete, Tamanduatei e Pinheiros, e mais algumas centenas de córregos. Resolver as coisas por aqui, pela quantidade de especificidades desta imensa região metropolitana, serve como imenso laboratório urbano e, portanto, exemplo para milhões, talvez até bilhões de habitantes. Pelo quanto estão sendo usadas técnicas de engenharia, de preferência de superfície, bem visíveis, como canalização, piscinões e outras. A situação melhorou muito, mas todo este sistema é projetado para uma determinada variável. Continua sendo em parte uma mentira porque parte do princípio que a força da água tem limites. Como sempre responsabilizo todos nós cidadãos por esta situação. Adoramos comprar jeitinhos por soluções. Bem brasileiro.
Somos mais de 11 milhões de habitantes no Município de São Paulo. Com estas enchentes toda a população da cidade sofre, se não diretamente, mas também porque a cidade se torna inviável durante a enchente e depois continuará sofrendo conseqüências de toneladas de lixo e entulho, ruas destruídas, famílias desamparadas, e todos custos resultantes. Todos pagam impostos de uma forma ou outra, mesmo os que vivem na informalidade, portanto a bomba estoura no bolso de absolutamente todos. Dá até para afirmar que custo, ou seja, imposto, também deveria ser sinônimo de água e verdade. Fez besteira hoje, brincou com o dinheiro, vai ter que pagar amanha. Como dizem os americanos “There’s no free lunch” (Não há almoço grátis); uma seca e brilhante frase do economista Milton Friedman.
Para começar, chamar um fato da natureza de desastre é coisa de humano. Humanizar a natureza, querer controlá-la com truques, só fará que, mais cedo ou mais tarde, ela faça a verdade mascarada aparecer e tomar seu devido lugar. Enchente é isto. São as águas maltratadas enchendo o verão.
custo / benefício
Os afetados para valer pelas enchentes fazem mais de 20 mil cidadãos (segundo dado divulgado agora na Band). Muitos vivem em áreas que dão a certeza que com uma chuva mais forte ficarão debaixo d’água e perderão tudo, ou coisa pior. De alguma forma irão reconstruir suas vidas, seja com suas próprias forças, seja com a parca ajuda do poder público ou com a caridade da população civil. Vivem em áreas alagáveis e este é seu destino. São eles persistentes, obstinados, cegos, burros, coitados ou o que? E a pergunta correta não é esta. A pergunta que nos devemos fazer é somos nós burros ou cegos? O que acontece com eles nos afeta, nós os sequinhos, porque desequilibra todo o funcionamento da cidade. Se sua rua está em ordem sempre porque está no alto e é rica, os investimentos do futuro que darão qualidade a vida de seus filhos está comprometido. Quantas horas trabalho foram perdidas nas enchentes? Qual é esta perda para uma cidade que gera aproximadamente R$ 28 bi mensais (dado base 2007)? Quanto custa manter 20 mil cidadãos em áreas alagáveis desta cidade?
O país está há muito sendo construído em duas bases: a indústria da construção civil e a automobilística. Córregos, riachos e rios tiveram sua verdade ludibriada sendo transformados em vias principalmente para os automóveis, e o uso do solo foi realizado para atender interesses mobiliários legais e ilegais. Permitiu-se bandido de todo tipo e as invasões estão ai. Brincamos com as águas, brincamos com a verdade, calamos os que tinham o conhecimento, o saber sobre as águas porque já sabiam que aquilo daria nisto que estamos e seguiremos vivendo.
Os coitados que estão em área de risco não são tão coitados assim porque sabem ao que estão sujeitos, sabem sobre o perigo. A frase “se eu sair daqui para onde vou?” é ao mesmo tempo verdade e fuga. Esperneiam por um tempo e acabam silenciando até o próximo desastre. Acomodam-se. De lá não se movem, como os que convivem com a seca. É motivo de orgulho ser sofredor. Ai são bem brasileiros. Estou sendo provocador cruel com dor no coração, mas não tenho mais paciência com estas coisas.
A todos nós não interessa os coitados, porque qualquer coitado custa uma barbaridade para a toda a sociedade, mesmo para aqueles que estão dentro de suas ricas muralhas medievais, que não deixam de ser um gueto ao contrário. Enchentes é tão maligna quanto o segar do medo burro da avareza. É patético que nestas situações os empreendedores não vejam ai um grande negócio, não o negócio da mentira, do enganar as águas e a população, mas um negócio de construção de bom senso e inteligência de um uso de solo urbano sensato, seguro, próspero e perene para todos. Se não há inteligência nos empreendedores de plantão, pelo menos deveria haver bom senso em toda a população. Do poder público nos resta pouca esperança porque perdeu a capacidade de ser mediador e de tomar providências. O que há séculos se prova é que São Paulo segue enchendo, numa gripe que nunca tem cura.
Um bom projeto
A menina dos meus olhos é o Projeto Córrego Limpo, mesmo com seus limites. Só para entender o nível de limitação: para a SABESP ligar o esgoto de uma casa é necessário autorização do proprietário. Perante a lei não interessa o coletivo, mas o direito individual. Se o sujeito disser “não ligo” o estado e seu bolso que arquem com os custos da saúde pública local. Córrego Limpo talvez seja minha última esperança que o paulistano, os metropolitanos, e um dia o Brasil, venham a entender que se pode transformar a cidade para o bem com medidas relativamente simples. Gostaria que projeto fosse radical, não só cuidando da água do córrego, mas fazendo a recuperação do leito dos córregos e de suas várzeas, retirando tudo o que está em áreas alagáveis, incluindo todo tipo de construções e população. Locais como o Jardim Romano e Jardim Helena prova o absurdo de se permitir que um rio, no caso o Tiete, não tenha direito ao que é dele. Não é possível que invasões em várzeas, legais ou não, sejam acariciadas pela população e perenizadas pelo poder público, como prova o CEU Jardim Romano - Centro de Educação Unificado - uma verdadeira construção anfíbia.
A política do coitadinho e da esmola é mais que um desastre, é canalhice, fascismo, populismo já visto; é contra a vontade da população que cada dia mais se expressa no sentido de diminuir o abismo social que temos. Nossas cidades são um desastre urbano e só com a real reforma destas, o fim de todos guetos, pobres ou ricos, alagados ou não, é que vamos chegar a bem estar comum.
Para quem nunca viajou para uma cidade que merece o nome de cidade eu afirmo que não há preço que pague andar tranqüilo pelas ruas, sem medo de quaisquer opressões, vendo crianças felizes livres circulando ou brincando. Para nós brasileiros, do tipo que quer construir um futuro melhor e quando viaja não fica aprisionado em lojas e compras, entender o que é uma cidade é chocante.
Mapas de São Paulo
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/mapas/119.jpg - declividade
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/mapas/117.pdf - geologia
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/pagina.php?id=28 - favelas
Projeto Córrego Limpo
http://www.corregolimpo.com.br/corregolimpo/por_que_despoluir/sobre_projeto.asp
Água é vital, mas quando em excesso se espalha por onde quer. Ai não tem nível social ou cultural, tudo e todos que estão no caminho ficam molhados. Já tive minha casa invadida por água e sei bem como é. É nestes momentos que você entende o que é significa “impotência”. Nada pode frear as águas quando elas assim o querem. Esta é a verdade. Água deveria aparecer como sinônimo de verdade porque fisicamente têm propriedades iguais. Mesmo que tentemos enganá-las elas mostram suas implacáveis realidades. São o que são e ponto.
Choveu, encheu?
Os córregos, em sua maioria, não têm grandes áreas alagadiças, ao contrário dos grandes rios. Todas as áreas que pertencem às águas estão tomadas pela cidade, ou melhor, por seus cidadãos. E ai o detalhe importante: as várzeas e áreas alagadiças pertencem à cidade, mas isto não dá direito de uso indevido pelos seus cidadãos. A cidade tem que funcionar ou a vida de quem mora nela não será boa. E o primeiro ponto para ela funcionar está numa hierarquia: respeito às características geomorfológicas, em cima disto fazer o sensato uso de solo, águas e ar (ventos), e por último dar limites ao cidadão. Inverter esta hierarquia mais cedo ou mais tarde acaba não dando certo. O Brasil esperto se fez mais sábio que a natureza e transformou suas cidades nesta loucura de desastres e baixa qualidade de vida.
São Paulo, o município, está assentado sobre três grandes rios: Tiete, Tamanduatei e Pinheiros, e mais algumas centenas de córregos. Resolver as coisas por aqui, pela quantidade de especificidades desta imensa região metropolitana, serve como imenso laboratório urbano e, portanto, exemplo para milhões, talvez até bilhões de habitantes. Pelo quanto estão sendo usadas técnicas de engenharia, de preferência de superfície, bem visíveis, como canalização, piscinões e outras. A situação melhorou muito, mas todo este sistema é projetado para uma determinada variável. Continua sendo em parte uma mentira porque parte do princípio que a força da água tem limites. Como sempre responsabilizo todos nós cidadãos por esta situação. Adoramos comprar jeitinhos por soluções. Bem brasileiro.
Somos mais de 11 milhões de habitantes no Município de São Paulo. Com estas enchentes toda a população da cidade sofre, se não diretamente, mas também porque a cidade se torna inviável durante a enchente e depois continuará sofrendo conseqüências de toneladas de lixo e entulho, ruas destruídas, famílias desamparadas, e todos custos resultantes. Todos pagam impostos de uma forma ou outra, mesmo os que vivem na informalidade, portanto a bomba estoura no bolso de absolutamente todos. Dá até para afirmar que custo, ou seja, imposto, também deveria ser sinônimo de água e verdade. Fez besteira hoje, brincou com o dinheiro, vai ter que pagar amanha. Como dizem os americanos “There’s no free lunch” (Não há almoço grátis); uma seca e brilhante frase do economista Milton Friedman.
Para começar, chamar um fato da natureza de desastre é coisa de humano. Humanizar a natureza, querer controlá-la com truques, só fará que, mais cedo ou mais tarde, ela faça a verdade mascarada aparecer e tomar seu devido lugar. Enchente é isto. São as águas maltratadas enchendo o verão.
custo / benefício
Os afetados para valer pelas enchentes fazem mais de 20 mil cidadãos (segundo dado divulgado agora na Band). Muitos vivem em áreas que dão a certeza que com uma chuva mais forte ficarão debaixo d’água e perderão tudo, ou coisa pior. De alguma forma irão reconstruir suas vidas, seja com suas próprias forças, seja com a parca ajuda do poder público ou com a caridade da população civil. Vivem em áreas alagáveis e este é seu destino. São eles persistentes, obstinados, cegos, burros, coitados ou o que? E a pergunta correta não é esta. A pergunta que nos devemos fazer é somos nós burros ou cegos? O que acontece com eles nos afeta, nós os sequinhos, porque desequilibra todo o funcionamento da cidade. Se sua rua está em ordem sempre porque está no alto e é rica, os investimentos do futuro que darão qualidade a vida de seus filhos está comprometido. Quantas horas trabalho foram perdidas nas enchentes? Qual é esta perda para uma cidade que gera aproximadamente R$ 28 bi mensais (dado base 2007)? Quanto custa manter 20 mil cidadãos em áreas alagáveis desta cidade?
O país está há muito sendo construído em duas bases: a indústria da construção civil e a automobilística. Córregos, riachos e rios tiveram sua verdade ludibriada sendo transformados em vias principalmente para os automóveis, e o uso do solo foi realizado para atender interesses mobiliários legais e ilegais. Permitiu-se bandido de todo tipo e as invasões estão ai. Brincamos com as águas, brincamos com a verdade, calamos os que tinham o conhecimento, o saber sobre as águas porque já sabiam que aquilo daria nisto que estamos e seguiremos vivendo.
Os coitados que estão em área de risco não são tão coitados assim porque sabem ao que estão sujeitos, sabem sobre o perigo. A frase “se eu sair daqui para onde vou?” é ao mesmo tempo verdade e fuga. Esperneiam por um tempo e acabam silenciando até o próximo desastre. Acomodam-se. De lá não se movem, como os que convivem com a seca. É motivo de orgulho ser sofredor. Ai são bem brasileiros. Estou sendo provocador cruel com dor no coração, mas não tenho mais paciência com estas coisas.
A todos nós não interessa os coitados, porque qualquer coitado custa uma barbaridade para a toda a sociedade, mesmo para aqueles que estão dentro de suas ricas muralhas medievais, que não deixam de ser um gueto ao contrário. Enchentes é tão maligna quanto o segar do medo burro da avareza. É patético que nestas situações os empreendedores não vejam ai um grande negócio, não o negócio da mentira, do enganar as águas e a população, mas um negócio de construção de bom senso e inteligência de um uso de solo urbano sensato, seguro, próspero e perene para todos. Se não há inteligência nos empreendedores de plantão, pelo menos deveria haver bom senso em toda a população. Do poder público nos resta pouca esperança porque perdeu a capacidade de ser mediador e de tomar providências. O que há séculos se prova é que São Paulo segue enchendo, numa gripe que nunca tem cura.
Um bom projeto
A menina dos meus olhos é o Projeto Córrego Limpo, mesmo com seus limites. Só para entender o nível de limitação: para a SABESP ligar o esgoto de uma casa é necessário autorização do proprietário. Perante a lei não interessa o coletivo, mas o direito individual. Se o sujeito disser “não ligo” o estado e seu bolso que arquem com os custos da saúde pública local. Córrego Limpo talvez seja minha última esperança que o paulistano, os metropolitanos, e um dia o Brasil, venham a entender que se pode transformar a cidade para o bem com medidas relativamente simples. Gostaria que projeto fosse radical, não só cuidando da água do córrego, mas fazendo a recuperação do leito dos córregos e de suas várzeas, retirando tudo o que está em áreas alagáveis, incluindo todo tipo de construções e população. Locais como o Jardim Romano e Jardim Helena prova o absurdo de se permitir que um rio, no caso o Tiete, não tenha direito ao que é dele. Não é possível que invasões em várzeas, legais ou não, sejam acariciadas pela população e perenizadas pelo poder público, como prova o CEU Jardim Romano - Centro de Educação Unificado - uma verdadeira construção anfíbia.
A política do coitadinho e da esmola é mais que um desastre, é canalhice, fascismo, populismo já visto; é contra a vontade da população que cada dia mais se expressa no sentido de diminuir o abismo social que temos. Nossas cidades são um desastre urbano e só com a real reforma destas, o fim de todos guetos, pobres ou ricos, alagados ou não, é que vamos chegar a bem estar comum.
Para quem nunca viajou para uma cidade que merece o nome de cidade eu afirmo que não há preço que pague andar tranqüilo pelas ruas, sem medo de quaisquer opressões, vendo crianças felizes livres circulando ou brincando. Para nós brasileiros, do tipo que quer construir um futuro melhor e quando viaja não fica aprisionado em lojas e compras, entender o que é uma cidade é chocante.
Mapas de São Paulo
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/mapas/119.jpg - declividade
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/mapas/117.pdf - geologia
http://atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br/pagina.php?id=28 - favelas
Projeto Córrego Limpo
http://www.corregolimpo.com.br/corregolimpo/por_que_despoluir/sobre_projeto.asp
sábado, 6 de fevereiro de 2010
insegurança
Se eu sou momentaneamente conduzido pelos enganos da criação de meus próprios textos, porque nós acreditamos na nossa soberania individual e social no caminho das pedras da história. A soberba da modernidade é o marmore de nosso alter ego.
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