quarta-feira, 15 de julho de 2026

Lenta descida para o inferno

Slow descend into hell; Time Magazine.

Foi um dos artigos mais impactantes que li na vida. Eu tinha então 27 anos, rapaz sonhador, vida pronta, classe média vai ao paraíso. Mais que a realidade brutal, mais esclarecedor do que está nesta lenta descida para o inferno, foi o texto complementar sobre o drama da revista Time para conseguir tirar o seu repórter da vida das ruas, da mendicância, fazê-lo voltar a seu lar, sua família, seu trabalho, ao seu destino. (Seu destino?) 

Meu querido amigo Eric Ferreira, uma das cabeças (desperdiçadas) deste país, um dia, faz muito tempo, disparou: "Nós nos acostumamos com o ruim". Falava ele sobre a questão do trânsito, transporte e qualidade de vida urbana, sobre os caminhos que nós, cidadãos brasileiros, estávamos tomando (pior, seguimos nele). Infelizmente, na mosca! A degradação da qualidade de vida em nossas cidades é gritante. Mais que nos acostumarmos com o ruim, parece que temos um prazer em caminhar a passos largos sempre para um pior previsível.

Junto com Eric, ou sob sua batuta, (e mais um recém formado arquiteto que não lembro o nome), fizemos um projeto para a intervenção urbana na região do Butantã, via implantação de um sistema cicloviário nos padrões europeus, ou seja, muito além de só ciclovias e ciclofaixas. Propunhamos o acalmamento dos bairros, recuperação de córregos, criação de parques lineares, e só quando necessário, só quando não houvesse alternativa, só então ciclovias e ciclofaixas. Ou seja, olhando a correta implementação da bicicleta no meio urbano, o projeto prentendia a recuperação da qualidade de vida de todos, não só ciclistas. Todos. Cidadãos. Bancado por uma forte entidade americana, o ITDP, a proposta simplesmente sumiu, desapareceu, ninguém sabe, ninguém viu. Hoje os bairros continuam largados, os córregos não foram recuperados, os parques estão como estavam ou não surgiram, e o trânsito virou um inferno. Fora a violência, ah! a violência!

O trânsito virou um inferno. Poderia ficar repetindo esta frase sem parar porque ela diz a mais pura verdade, verdade nua e cruel sobre o nosso infernal dia a dia. E aí me vem a cabeça os dois brutais textos publicados há 40 anos pela Time, o que é viver num inferno e principalmente a imensa dificuldade que é sair dele, desacostumar-se com o ruim, no caso, com o que é péssimo.

Segundo o Governo Federal, temos algo em torno de 380 mil moradores de rua no Brasil, um drama. O que tem a ver uma coisa com a outra? Muito, mas vale explicar que mesmo as melhores cidades do planeta têm que lidar com este e outros problemas humanos. Voltando ao Brasil, quantas cidades temos com uma qualidade de vida abaixo do desejável? Só o morador de rua está abandonado a própria sorte?

O Brasil que se apresenta hoje vai pelo mesmo caminho dos cidadãos que perderam o norte de suas vidas e pararam ao relento da miséria das ruas. O chegar a esta situação começou muito antes da miséria da rua em si. Começa na incapacidade de ver uma cachoeira de erros grotescos que inundam nossas próprias vidas que se sucedem sem parar, e que vão dar no que são as cidades, exatamente como a falta de coleta de esgoto. O que somos, o que dejetamos, depois que se aperta a descarga vai parar onde ninguém quer saber. Em outras palavras, saiu de perto não é mais problema nosso, o que é um absurdo. A questão é que tudo dá voltas e volta para o cidadão. A cidade é reflexo perfeito de seus cidadãos, os bairros bonitinhos e os horrorosos incluídos, tudo, absolutamente tudo. 

Como sair desta? Arrumar uma coisa por vez. Primeiro o quarto, a sala, depois varrer a calçada, conhecer os vizinhos, acertar a rua, interessar-se pelo bairro..., olhar com um mínimo de humanidade os outros, os diferentes. Digo, sabendo o que estou dizendo: a saída está na cidade, no construir uma cidade com qualidade de vida. E digo mais, a cidade é a saída para praticamente todos nossos males, os pessoais, os micro, os médios e os macro. Populações que entenderam isto reconstrução suas cidades, e com isto suas vidas. Os desajustes e os desajustados acabaram? Não. 


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